A rede suja do PT

Augusto de Franco

Augusto de Franco

Há mais de uma década o PT montou uma rede suja de veículos alternativos ao que chamava de PIG – Partido da Imprensa Golpista. Era a maneira de criar uma opinião favorável ao neopopulismo lulopétista enquando não conseguia emplacar sua velha proposta de ‘controle social da mídia’. Na verdade, o que o PT queria era um controle partidário-governamental dos meios de comunicação.

Nos tempos atuais, entretanto, o PT tem conseguido afinal avançar no controle partidário-governamental das mídias sociais, como resumiu magistralmente o editorial do Estadão (de 24/05/2026) intitulado A longa marcha do controle digital. Também já havia tratado do assunto dois dias antes (em 22/05/2026) no artigo Ainda sobre o decreto de censura. E três dias antes (em 21/05/2026) no artigo Decreto de Lula estabelece a censura no Brasil, sobre a volta da velha proposta petista de controle da mídia.

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Pois bem. O que aconteceu de 2014 para cá? Muitos veículos continuaram na rede, com um comportamente típico de rede suja (como Brasil 247 e DCM). Alguns desapareceram. Outros surgiram.

2014

Em 2014 a rede suja do PT reunia como veículos principais:

2026

Doze anos depois, em 2026, a rede suja do PT – salvo algum equívoco de avaliação – está basicamente assim:

Especialmente no YouTube a rede suja tem atualmente a seguinte configuração:

Claro que nos mosaicos acima não estão todos os veículos. Apenas alguns dos mais expressivos. Mas ver a constelação assim de uma vez, ajuda a explicar muita coisa. 

As duas principais aquisições, de 2014 para cá, foram o Intercept_Brasil e o ICL – Instituto Conhecimento Liberta. Além do SGBR – Sleeping Giants Brasil, que não entrou nos mosaicos acima dada a sua natureza de milícia digital. 

O Intercept_Brasil

O Intercept_Brasil só divulga vazamentos que favorecem o populismo de esquerda. A Vazajato serviu para descondenar Lula. Agora a Masterjato está servindo para reeleger Lula. O Intercept nunca vazou nada sobre as relações de Vorcaro com o PT e com Toffoli e com Moraes.

Pergunta-se, no caso atual do escândalo do banco Master, quem vazou as informações para o Intercept. O próprio Vorcaro, como um aviso aos que lhe abandonaram? Com a ajuda de quem ele fez isso? Só pode ser com a ajuda daqueles que queriam fazer sumir do noticiário as relações do PT, de Moraes e de Toffoli com Vorcaro. E sumiram mesmo.

Fica a dúvida se estamos tratando, no caso do Intercept_Brasil, de um veículo jornalístico ou de uma organização política de militantes já que, desavergonhadamente, faz luta política 24 horas por dia no estilo jihadismo de esquerda. E não ataca só o bolsonarismo. Ataca Israel (antissemitismo travestido de antissionismo), ataca os EUA (e não apenas por causa do governo Trump, mas na linha anti-imperialismo yankee da primeira guerra fria), ataca as democracias liberais e tenta cancelar, inclusive, personalidades de centro como Luciano Huck.

O Intercept_Brasil é presidido por Andrew Fishman, um jornalista investigativo norte-americano radicado no Rio de Janeiro. Antes ele havia trabalhado como repórter no The Intercept (versão americana) de 2013 a 2022. Participou da cobertura dos Arquivos Snowden (documentos vazados pela NSA) e integrou a equipe da Vaza Jato (e do “Brazil Secret Archive”), que revelou irregularidades na Operação Lava Jato, incluindo supostas relações secretas com o governo dos EUA (Departamento de Justiça e FBI).

Mas além do Fishman há uma equipe, aliás bem numerosa para um veículo tão pequeno, de jornalistas-militantes ou propagandistas partidários. Dele saiu, por exemplo, o Leandro Demori – que foi editor-executivo do The Intercept Brasil de 2018 a 2022 (ou 2023) e foi um dos principais coordenadores da cobertura da Vaza Jato – para trabalhar na empresa de marketing político oficial do governo Lula: a EBC – Empresa Brasil de Comunicação. Em setembro de 2023, Demori estreou o programa “Dando a Real com Demori” (ou DR com Demori) na TV Brasil (também chamada de “TV Lula”).

É indisfarçável e inegável o vínculo do Intercept_Brasil com o PT no governo. É um mundo chapa-branca.

O ICL – Instituto Conhecimento Liberta

A outra grande aquisição foi o ICL – Instituto Conhecimento Liberta, uma plataforma declarada como de educação online, cultura e jornalismo que foi criada em 2020. O destaque aqui é o ICL Notícias: portal de notícias e canal no YouTube (com ~1,7 milhão de inscritos) que transmite várias horas de conteúdo ao vivo por dia (programas como Desperta ICL, ICL Notícias 1ª e 2ª Edição, etc.). Tem viés editorial de esquerda, crítico ao bolsonarismo e alinhado a pautas progressistas.

Seus fundadores são Eduardo Moreira — ex-banqueiro de investimentos, Rafael Donatiello — especialista em marketing digital e Jessé Souza — sociólogo conhecido por suas posições de esquerda radical na academia e nos veículos de comunicação. Eduardo e Rafael são sócios e dirigentes do ICL e a partir de 2024 Felipe Neto passou a integrar o Conselho. Há também um Conselho Curador que inclui, salvo engano ou desatualização, Frei David (Educafro), Heloisa Villela (jornalista), João Paulo Pacifico (Grupo Gaia), Lindener Pareto (historiador) e Daniel Munduruku (ativista indígena). Por último há uma equipe grande de jornalistas e colaboradores: Leandro Demori (aquele mesmo do Intercept_Brasil e da EBC), Chico Pinheiro, Rodrigo Vianna, Xico Sá, Leonardo Boff, Marilena Chauí etc.

Às vezes o ICL dá a impressão de querer ser uma espécie de Brasil Paralelo da esquerda.

O SGBR – Sleeping Giants Brasil

Uma organização não incluída nos mosaicos acima é a milícia digital agressiva intitulada Sleeping Giants Brasil, associada a campanhas de desmonetização de empresas e veículos de mídia considerados contrários ou críticos ao governo Lula, ao PT e a esquerda em geral. Trata-se de uma adaptação brasileira do movimento Sleeping Giants (criado nos EUA em 2016 contra sites de extrema-direita).

O SGBR atua desde 2020 principalmente no Twitter/X, Instagram e outras mídias sociais, expondo anunciantes (empresas) que colocam publicidade em sites, canais ou perfis acusados de disseminar fake news, discurso de ódio, desinformação ou conteúdo conservador ou bolsonarista. Seu objetivo declarado é “desmonetizar” esses veículos, pressionando marcas a retirarem anúncios via e-mails, campanhas públicas e notificações, para reduzir o faturamento deles.

Não é propriamente um veículo de comunicação, mas, como foi dito, uma milícia digital alinhada à esquerda que atua de forma coordenada para silenciar vozes opositoras via pressão econômica além de promoção de cancelamento. 

O SGBR defende regulação mais forte das plataformas digitais, atua em parceria com pautas progressistas de combate à “desinformação” e pratica uma suposta legítima defesa contra ódio e fake news.

O Sleeping Giants Brasil (SGBR) é dirigido principalmente por três pessoas, que são seus fundadores e diretores: Mayara Stelle — Diretora Executiva, Institucional e Financeira, Leonardo de Carvalho Leal — Diretor de Comunicação e Humberto Ribeiro (Humberto Santana Ribeiro Filho) — Diretor Jurídico e de Pesquisa. Este último está perfeitamente integrado ao governo e foi nomeado por Lula para o Conselho Consultivo da Anatel (como conselheiro, representando sociedade civil). 

Inicialmente essa estranha milícia atuava de forma meio clandestina. Só depois os operadores do movimento revelaram suas identidades (por exemplo, em entrevista para Mônica Bergamo, da Folha).

O artigo poderia terminar aqui, mas antecipo-me às perguntas que virão.

E os veículos e jornalistas bolsonaristas?

Este artigo focaliza apenas os veículos lulopetistas (ou ditos de esquerda). Mas há também uma constelação de veículos bolsonaristas (ditos de direita ou de extrema-direita) que será tema de um novo artigo. Incluem-se nessa constelação, entre outros: Brasil Paralelo, Conexão Política, Gazeta do Povo (parcialmente), Jornal da Cidade Online, Revista Oeste e Terra Brasil Notícias. E os canais do Youtube, entre outros, de Ana Paula Henkel, André Fernandes, Daniel Alvarenga, Folha Política, Giro de Notícias, Gustavo Gayer, Jovem Pan (parcialmente), Nikolas Ferreira, Rodolfo Delmond, Sargento Fahur, Te Atualizei (Bárbara Destefani) e Terça Livre. Em breve vamos tratar do assunto.

E os veículos e jornalistas não populistas?

Também está fora do escopo deste artigo tratar dos veículos, programas, jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Em ordem alfabética poder-se-ia citar, entre outros, os anônimos editorialistas de O Estado de S. Paulo, Alexandre Schwartsman (Folha de S. Paulo), Caio Blinder (Manhattan Connection e Levante no Youtube), Caio Junqueira (CNN), Carlos Andreazza (O Estado de S. Paulo), Carlos Pereira (O Estado de S. Paulo), Daniel Rittner (CNN), Demétrio Magnoli (Folha de S. Paulo, O Globo, Globo News), Dora Kramer (Jovem Pan, Folha de S. Paulo), Duda Teixeira (Crusoé), Eduardo Affonso (O Globo), Fernando Gabeira (Globo News), Fernando Rodrigues (Poder 360), Fernando Schüler (Estadão, Band), Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo), Heni Ozi Cukier (Professor HOC, Canal do Youtube), Joel Pinheiro (Canal no Youtube, Folha de S. Paulo, Globo News), Lourival Sant’Anna (CNN), Luiz Felipe Pondé (Folha de S. Paulo, TV Cultura), Lygia Maria (Folha de S. Paulo), Madeleine Lacsko (Canal no Youtube e O Antagonista), Magno Karl (Canal Meio), Malu Gaspar (O Globo, Globo News, CBN), Mano Ferreira (Jovem Pan), Marcelo Rios (Hoje no Mundo Militar, Canal do Youtube), Marcio Coimbra (Monitor da Democracia, Crusoé), Marcus André Melo (Folha de S. Paulo), Mariliz Pereira Jorge (Canal Meio e Folha de S. Paulo), Merval Pereira (O Globo, Globo News), Oliver Stuenkel (Globo News e O Estado de S. Paulo), Pedro Doria (Canal Meio), Raquel Landim (SBT News), Rodrigo da Silva (Spotniks, O Estado de S. Paulo), Sam Pancher (Metrópoles)l, Sergio Fausto (O Estado de S. Paulo), Thais Herédia (CNN), Thaís Oyama (O Globo, TV Cultura), William Waack (WW CNN e O Estado de S. Paulo) e Wilson Gomes (Folha de S. Paulo). Esse elenco não é exaustivo, mas quase. E a lista, mesmo assim, parece extensa. Mas é mínima se compararmos às listas de nomes de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que pontificam nesses mesmos veículos da imprensa comercial, convencional ou alternativa (que foram citados entre parêntesis neste parágrafo) e que são de esquerda ou governistas. Não é tão difícil perceber a diferença entre os nomes acima e nomes como os de Celso Rocha de Barros (Folha de S. Paulo), Daniela Lima (UOL), Flávia Oliveira (Globo News), Guga Noblat (Metrópoles), Marcelo Lins (Globo News), Miriam Leitão (O Globo, Globo News), Reinaldo Azevedo (Metrópoles) e Ricardo Noblat (Metrópoles) – para citar apenas alguns exemplos de profissionais governistas que, de jornalistas (e bons jornalistas, em alguns casos), passaram a ser propagandistas ou defensores contumazes do PT ou da esquerda populista (de raiz marxista ou identitarista).

Cabem aqui, entretanto, algumas ressalvas para explicar muitas ausências da lista de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Quem não critica o neopopulismo lulopetista e o populismo-autoritário bolsonarista como alternativas iliberais (não-liberais ou contra-liberais) não pode se dizer democrata-liberal. Não adianta tentar escapar disso se declarando progressista ou conservador. Democratas-liberais podem ser inovadores ou conservadores. Mas não podem ser revolucionários disfarçados de progressistas ou reacionários travestidos de conservadores. Também não adianta se proclamar social-democrata. Nem todo social-democrata é um democrata-liberal. Existem social-democratas que são social-liberais e existem social-democratas estatistas, ou seja, estatal-democratas que são, a rigor, não-liberais.

E a GloboNews?

Por último, merece um destaque especial a GloboNews, que embora não possa ser considerada um nodo da rede suja do PT, virou um canal que inaugurou um novo tipo de “noticiário”, empenhado em dizer o que você deve pensar sobre o que aconteceu antes de dizer o que de fato aconteceu. Não é mais – stricto sensu – um canal de jornalismo, mas de opinião – com uma linha “progressista”, no sentido que o populismo de esquerda (de raiz marxista ou identitarista) atribui à palavra. Com algumas exceções, é claro – algumas até citadas acima, mas que confirmam a regra – é um canal governista ou colaboracionista com a força hegemonista que está no governo. (Já venho abordando esse assunto há muito tempo; por exemplo, no artigo de 16/12/2024 intitulado Por que GloboNews?)

No que tange à chamada imprensa comercial ou tradicional muitos problemas estariam resolvidos (ou seriam evitados) se os jornalistas adotassem um referencial democrático, como o sugerido no artigo (de 03/02/2025) intitulado Um código democrático para jornalistas.

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