“LulaMaster”, “bolsoMaster” e “GilMaster”: a República brasileira negociada

Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte

Daniel Vorcaro foi às compras nos três poderes da República e comprou todos aqueles que estavam à venda. E foram muitos. De todos os espectros ideológicos. 

A República brasileira foi negociada em um obscuro leilão que se vai revelando, mas cuja extensão ainda está longe de ser totalmente exposta; mesmo porque, apesar de Vorcaro e outros sócios compradores estarem presos, a maior parte das autoridades compradas permanece solta e no poder. De todo modo, sob a firme relatoria do ministro André Mendonça, que tenta garantir a independência da Polícia Federal (PF), as investigações do caso Master avançam.

Não estamos diante apenas de mais um episódio isolado de corrupção, de um político safado aqui ou de um banqueiro ganancioso ali. Estamos diante do retrato estrutural de uma República capturada: Brasília transformada em balcão de negócios de mafiosos, onde o bem comum não passa de pretexto e a toga, o mandato e o cargo são apenas instrumentos de barganha. Quem ainda acredita que este é um problema de “esquerda” ou de “direita” precisa acordar do seu sono infantil.

Os cidadãos acompanham atentos o desenrolar desse escândalo de grandes proporções  nunca deixando de ser surpreendido. Uma surpresa recente veio do próprio STF: foi a tentativa do ministro Gilmar Mendes de tirar da prisão o pai e o primo de Vorcaro; o primeiro para prisão domiciliar, o segundo para ser solto de vez. Votaram pela manutenção da prisão André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques. O ministro Dias Toffoli, que é sócio de resort adquirido por fundo controlado pelo Banco Master, se deu por suspeito e não participou. Gilmar foi voto vencido (3 a 1); tendo contribuído para essa derrota o fato de que o ministro-relator André Mendonça decidiu, em pleno decorrer da discussão, retirar a parte do sigilo do caso em que se patenteava a periculosidade dos personagens que o ministro Gilmar tentava beneficiar.

Esse episódio do voto de Gilmar Mendes merece atenção especial, por sua desfaçatez e por revelar como o sistema se protege a si mesmo. Gilmar afirmou que os investigadores estão “no rumo errado” e que a Polícia Federal usou as prisões para pressionar a delação de Daniel Vorcaro. Segundo o decano, a prisão do pai serviu para pressionar o fundador do Master, que estava em fase de negociação de delação premiada, o que destoaria “da isonomia e proporcionalidade”. O decano considerou que há efeitos danosos da midiatização das investigações e voltou a citar as “práticas autoritárias da Lava Jato” para exemplificar o uso da prisão preventiva como instrumento de pressão. 

É preciso aqui distinguir o garantismo legítimo da sua instrumentalização retórica seletiva em favor da impunidade dos criminosos poderosos, que é o que caracteriza o ativismo do ministro em questão. A derrota de Gilmar é uma boa notícia. Mas o voto em si merece registro histórico: em plena investigação do maior escândalo bancário da história brasileira, um ministro do Supremo Tribunal Federal, com gravata bem-posta e linguagem empolada, defendeu ardorosamente a soltura dos mafiosos investigados. 

O desdobramento mais recente do caso foi o escancaramento das relações do senador petista Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, com o Banco Master. O aliado de Lula foi apanhado pela PF na nona fase da Operação Compliance Zero. As transações suspeitas indicadas no relatório da PF (vindo a público em 18 de junho) foram acordadas e implementadas com Augusto Ferreira Lima, sócio e gestor do Banco Master e dono do Banco Pleno. Carinhosamente, Jaques Wagner chama Augusto Lima de “Guga”. 

O relatório da PF indica que Jaques e Guga, além de tratamento carinhoso, trocaram favores milionários. O parlamentar teria atuado em favor de projetos de interesse do Master no Congresso, entre eles a chamada “Emenda Master” e uma proposta que ampliava o limite do crédito consignado. Em contrapartida, os investigadores suspeitam que Wagner tenha recebido vantagens indevidas, como um apartamento e repasses que somariam R$ 3,5 milhões. 

A PF encontrou também US$ 55.175 e 33,5 mil euros em endereços ligados ao senador. Parte do dinheiro, US$ 49 mil, foi apreendida no quarto de hotel em que Wagner mora, em Brasília. Sua assessoria afirmou que os valores são fruto de diárias de missões internacionais não utilizadas. 

Tais favores já estão fartamente divulgados; tal como foi, e continua a ser, a divulgação do envolvimento do senador Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. Num e noutro caso, os suspeitos vieram a público alegar inocência e apresentar desculpas e justificativas. Num e noutro caso, as desculpas foram esfarrapadas e as justificativas imprestáveis.

Vale lembrar que as mensagens amplamente divulgadas na imprensa indicaram a conexão direta entre o senador Flávio Bolsonaro e o dono do Banco Master, com uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar cerca de R$ 134 milhões para financiar a produção de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Desse montante prometido, R$ 61 milhões foram pagos. Flávio havia negado publicamente qualquer contato com o banqueiro. A mentira deslavada deixou ainda mais claro a baixa estatura moral do pré-candidato a presidência da República pelo PL. 

O lulismo tem explorado ao máximo o escândalo dark horse do Flávio Bolsonaro. Agora, os bolsonaristas estão dando o troco, explorando o caso Jacques Wagner. Flávio é, ele próprio, candidato a presidente da República; assim, seus possíveis malfeitos haverão de incidir diretamente na sua candidatura, fragilizando-a. Jaques Wagner não é candidato a presidente, mas é muito colado ao Lula; coladíssimo, a ponto de já haver quem levante suspeita de que ele teria sido intermediário entre o Banco Master e o presidente da República.

O referido escândalo de corrupção não pode, porém, ser reduzido a uma disputa PT versus PL. Documentos cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça apontaram os luxos que integravam o tratamento privilegiado e diferenciado dado a Ciro Nogueira (PP-PI), que Vorcaro considerava “um dos amigos da vida”. 

O banqueiro também pagou a viagem e a hospedagem do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para o “Gilmarpalooza” em Lisboa. Motta confirmou a carona e o hotel de luxo, acrescentando que não via problema nisso. Eis o tamanho do desmantelo da bússola moral e do cinismo dos nossos políticos: o presidente da Câmara dos Deputados do Brasil aceita viagens e hospedagem pagas por um banqueiro fraudador investigado pela Polícia Federal e não enxerga nisso nem crime nem problema ético.

Já antes da eclosão do escândalo Master/Vorcaro, podia-se perceber que a casta política do Brasil havia sequestrado o Estado para seus próprios interesses de maneira despudorada e insustentável: emendas secretas bilionárias, fundo eleitoral e partidário bilionários, supersalários, penduricalhos, etc. Muitos dos que foram comprados pelo Banco Master já estavam, portanto, “podres de ricos”; podres por dentro também. 

A parte sadia da República precisa reagir. E sempre há alguma reação, tanto que Daniel Vorcaro e alguns dos seus cúmplices estão presos; e a investigação da Polícia Federal avança. Nessa reação contra a corrupção cabe também louvar o papel de parte da imprensa, que tem exercido um intenso jornalismo investigativo; podendo-se destacar, por exemplo, a ação eficiente, corajosa e pertinaz da jornalista Malu Gaspar.

Entretanto, é preciso tomar o máximo de cuidado. Como foi dito, o poderoso ministro cujo nome não preciso repetir, já deu todos os sinais de que se prepara para dar o bote, desmantelando qualquer avanço efetivo no combate à corrupção; tal qual foi feito contra a Lava Jato.

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