A eleição presidencial não deveria ser reduzida a nomes, slogans ou paixões partidárias. Quando colocamos lado a lado os programas de governo de Lula e Flávio Bolsonaro, aparecem diferenças importantes sobre o papel do Estado, educação, segurança pública, liberdade de expressão e valores. E há uma pergunta que considero inevitável: quanto tempo um projeto político precisa para demonstrar que é capaz de enfrentar os problemas estruturais do Brasil?
O PT chegou à Presidência da República em 2003. Foram oito anos de Lula, quase seis de Dilma Rousseff e, desde 2023, um novo mandato de Lula. É verdade que houve uma interrupção nesse período, com os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Também é fato que uma parcela importante do governo Bolsonaro coincidiu com a pandemia de Covid-19, uma crise mundial que afetou profundamente economia, educação, saúde e contas públicas.
Feita essa contextualização, considero legítimo perguntar: depois de tantos anos de governos petistas, por que problemas tão básicos continuam tão presentes?
A educação talvez seja o exemplo mais didático. Os resultados do PISA 2025 mostram que o desempenho médio dos estudantes brasileiros ficou praticamente no mesmo nível de 2022 em matemática, leitura e ciências. Mais significativo ainda: segundo a OCDE, os resultados de 2025 ficaram próximos daqueles registrados nas avaliações realizadas desde 2015.
Em matemática, apenas 28% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência. Na média da OCDE, são 65%. Em leitura, são 49% no Brasil contra 69% na média da organização.
É preciso reconhecer que houve melhora recente no Ideb. Portanto, não seria correto afirmar que todos os indicadores educacionais pioraram. Mas o PISA revela um problema estrutural: quando nossos jovens são submetidos a uma avaliação internacional de aprendizagem, o Brasil continua abaixo da média da OCDE nas três áreas avaliadas. Para mim, depois de tantos anos, simplesmente ampliar estruturas e programas não basta. A pergunta fundamental precisa ser feita: o aluno está efetivamente aprendendo?
E é justamente aí que aparecem diferenças entre os programas. Lula enfatiza expansão da educação pública, ensino integral, universidades e institutos federais. Flávio Bolsonaro inclui alfabetização pelo método fônico, avaliação de resultados, escolas cívico-militares e outras mudanças na política educacional. São abordagens distintas para um problema que o Brasil ainda não resolveu.
Na economia, a discussão também é bastante concreta. O programa de Lula apresenta uma linha de continuidade baseada em investimentos públicos, PAC, política industrial e atuação do Estado como indutor do desenvolvimento. O programa de Flávio Bolsonaro propõe redução da estrutura federal, reforma administrativa, desestatizações e maior participação da iniciativa privada.
Esse debate acontece diante de um desafio fiscal relevante. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do Governo Geral chegou a 82,5% do PIB, ou R$ 10,9 trilhões, em julho de 2026. Somente nos sete primeiros meses do ano, houve aumento equivalente a 3,9 pontos percentuais do PIB.
Diante desses números, considero inevitável perguntar: qual deve ser o tamanho do Estado e como financiar suas políticas sem transferir uma conta crescente para a sociedade e para as próximas gerações? Essa não é uma discussão meramente ideológica. Dívida pública, juros e equilíbrio fiscal acabam produzindo consequências concretas para toda a economia.
Na segurança pública, os programas também apresentam abordagens distintas. O programa de Lula enfatiza integração entre as forças de segurança, inteligência, prevenção e investigação financeira das organizações criminosas. Flávio Bolsonaro apresenta propostas como classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas, reduzir a maioridade penal para 16 anos, ampliar o sistema penitenciário federal de segurança máxima e endurecer determinadas regras penais. São diferenças que estão expressamente registradas nos programas e que merecem ser conhecidas pela sociedade.
Há ainda divergências importantes sobre liberdade de expressão e plataformas digitais. O programa de Lula propõe avançar na regulação das redes sociais e plataformas para enfrentar desinformação e discurso de ódio, ao mesmo tempo em que afirma defender a liberdade de expressão. O programa de Flávio Bolsonaro propõe mudanças relacionadas ao Judiciário e apresenta uma iniciativa denominada no próprio documento de “Tesouraço na Censura”.
Nas questões de valores, as diferenças também aparecem de forma explícita. O programa de Flávio Bolsonaro coloca entre seus princípios o respeito à família, à liberdade religiosa e à vida desde a concepção. Já o programa de Lula contempla políticas relacionadas a gênero, identidade, orientação sexual, população LGBTQIA+ e direitos sexuais e reprodutivos. Não é necessário colocar palavras na boca de nenhum dos candidatos. Essas posições constam dos próprios documentos e cabe ao cidadão conhecê-las.
Para mim, portanto, uma das questões centrais desta eleição é a discussão entre continuidade e mudança. O Brasil convive há décadas com problemas que não podem ser apresentados como novidade a cada eleição. Na educação, o PISA mostra resultados próximos dos observados desde 2015. Nas contas públicas, a dívida bruta alcançou 82,5% do PIB em julho de 2026. Ao mesmo tempo, existem indicadores que avançaram e precisam ser reconhecidos. A realidade brasileira não cabe em slogans.
Mas justamente por isso considero legítimo questionar se a continuidade das mesmas linhas de atuação será suficiente para enfrentar problemas que permanecem há tantos anos. Os dois programas apresentam respostas diferentes para essa questão.
Economia, educação, segurança, liberdade e valores não são debates abstratos. Eles interferem diretamente na vida das pessoas. Por isso, esta eleição merece ser discutida menos pelo barulho das redes sociais e mais pelo conteúdo dos projetos apresentados ao país, com propostas na mesa, números verificáveis e clareza sobre as diferenças entre os caminhos apresentados para os próximos quatro anos.


