A onda direitista que avança na América do Sul chegou ao Brasil nas eleições de 4 de outubro deste ano de 2026 como um tsunami, fazendo submergir a esquerda: não apenas o atual presidente foi derrotado no primeiro turno pelo filho do ex-presidente, mas, além disso, o PT, partido que está no poder, foi derrotado nas urnas pelo PL no restante dos cargos em disputa, sendo o partido que mais elegeu deputados estaduais e distritais no país.
Mesmo nessa rápida visão desse curto episódio já se pode perceber uma cena perturbadora, pintada a um mesmo tempo com cores trágicas e outras tantas cores cômicas. Porém, haveremos de ver que essa tragicomédia é extensa e que sua produção vem de longe.
O PT começou a ser desmoralizado pelo seu próprio fundador e líder Luiz Inácio Lula da Silva, que após ser eleito presidente da República em 2002 e em seguida reeleito, ao longo desses dois mandatos conseguiu submeter o PT ao seu inteiro domínio, quebrando a autonomia e democracia interna de todas as instâncias partidárias. Lula ultrapassou a condição de líder para agir como dono do partido. Note-se que faz bastante tempo que se repete que “Lula é maior que o PT”.
Sendo maior que o PT, o presidente Lula saiu das urnas menor do que Flávio Bolsonaro, candidato do PL. Já o PT saiu nanico: no Senado, para um total de 54 vagas em disputa, elegeu 6 senadores; enquanto o PL elegeu 19. Para a Câmara Federal, o PT elegeu 68 deputados federais de forma isolada e, considerando a Federação Brasil da Esperança (formada por PT, PCdoB e PV), o bloco conquistou 82 cadeiras no total; o PL sozinho elegeu 121 deputados.
Abrindo mais a lente para focalizar esquerda X direita, temos a seguinte estimativa: a esquerda elegeu 124 deputados; a direita elegeu 276 deputados.
Assim, com tão amplas bancadas no Congresso Nacional, a direita terá enorme poder para iniciar processos de reformas e tomar outras medidas que lhe pareçam convenientes. Se contar com o apoio do centro político e/ou do centro fisiológico, terá como concluir, com sucesso, tais reformas e medidas. Certamente, se o candidato de oposição à Presidência da República, o direitista Flávio Bolsonaro, for eleito, o referido apoio deixará de ser uma possibilidade para ser uma certeza.
Se as reformas a serem iniciadas e as medidas a serem tomadas pelas legislaturas da Câmara e do Senado a partir de 2027 serão boas, teremos de esperar para ver. Todavia, uma medida anunciada por vários senadores eleitos ainda quando em campanha, parece indispensável: é o enquadramento do Supremo Tribunal Federal (STF) para coibir seus desmandos e abusos, que são muitos e notórios.
A questão mais urgente em relação ao STF refere-se ao impeachment de ministros dessa alta corte flagrados em abusos de autoridade através de decisões monocráticas descabidas ou suspeitos de envolvimento em casos de corrupção. Constitucionalmente, cabe ao Senado promover processos de impeachment contra ministros do STF, e os eleitores cobraram esse dever, votando extensamente em candidatos que assumiram tal compromisso. Não levar adiante essa pauta seria um estelionato eleitoral.
Na Câmara e no Senado o PT já perdeu. O dono do PT ainda não perdeu, mas está perto disso.
Como Lula era alardeado como favorito para sair na frente no primeiro turno, o resultado trouxe grande frustração e um inicial desânimo. Para a campanha de segundo turno, pior do que a derrota momentânea e por estreita margem do presidente, foi a derrota definitiva dos seus candidatos nos estados que são os maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Nesse quadro, deve-se ressaltar não só a vitória acachapante de Tarcísio de Freitas em São Paulo, como o grande empenho desse governador já no início da campanha de Bolsonaro no segundo turno. Avaliando-se os resultados das eleições por todo o país, salta aos olhos que o candidato vitorioso do PL tem muito mais espaço para crescimento do que o candidato derrotado do PT.
Lula saiu das urnas por baixo, e logo deu sinais de agoniado desconforto com falas destemperadas. Já na segunda-feira chamou seu opositor de “fascista”. Tal agressão não passa de narrativa raivosa muito típica do lulopetismo, que chama de fascista qualquer um que não reze pela sua cartilha. Flávio Bolsonaro é um político e candidato precário, carregado de suspeitas, mas não é fascista. Ao revés, Lula não é comunista, mas é também carregado de suspeitas.
É muito duvidoso que chamar o adversário de “fascista” conquiste algum eleitor; todavia, há de se considerar que não está muito fácil para a campanha de Lula inovar no estoque narrativo gasto no primeiro turno sem grande sucesso.
De todo modo, Lula ainda está no jogo; já o PT tornou-se um partido residual, a caminho da irrelevância.
Fundado em 1980 na esteira das grandes campanhas de redemocratização que se alastraram pelo país a partir da vitória da luta pela Anistia, no final de 1979, o Partido dos Trabalhadores logo tornou-se depositário de grandes esperanças dos brasileiros.
Com duas décadas de fundação, o PT já se impusera na cena política como senhor quase absoluto da esquerda, havendo deprimido ou fagocitado outros partidos de esquerda antes relevantes, como o PCB, o PCdoB ou o PDT. Desde 2003, com os interregnos do curto mandato do presidente Michel Temer e do mandato do presidente Jair Bolsonaro, o PT tem governado o Brasil até hoje.
Ao todo, são 20 anos de poder do PT. É muito, não sendo de estranhar que o povo se sinta já cansado. Diria mais, nauseado. Mas tal enfado não decorre necessariamente desse tempo de permanência no poder, pois outros partidos e outros políticos, pelo mundo afora, permaneceram tempo maior no poder sem causarem tanta repulsa. Ocorre que a linha do tempo do PT veio se configurando cada vez mais como linha de aviltamento, de abusos, de abastardamento.
Como disse anteriormente, o PT começou a ser aviltado pelo próprio Lula, que dele se apossou como senhor e dono. Uma das tarefas delegadas por Lula ao seu partido foi maximalizar posições polêmicas que o próprio Lula, enquanto presidente da República, assume mais comedidamente para não escandalizar o público maior do qual depende e que vai além das facções do esquerdismo fanático.
Nesse panorama, pode-se dar como exemplo um episódio das relações de Lula com Nicolás Maduro: sendo abertamente simpático ao então ditador da Venezuela, diante da flagrantemente fraudulenta reeleição de Maduro em 2024, o presidente Lula não a convalidou oficialmente e até se permitiu expressar algum desconforto; porém, o PT, assinou documento do Foro de São Paulo com expresso apoio à fraude do regime chavista.
Na linha temporal recente de aviltamento do PT queremos destacar ainda a atitude em relação a uma possível anistia para os envolvidos nos distúrbios de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, com atos de vandalismo nos prédios dos três poderes; distúrbios e vandalismo estes que as autoridades da República entenderam como sendo uma tentativa de golpe de Estado.
O STF, pela mão pesada do ministro Alexandre de Moraes, distribuiu penas duras, de forma indiscriminada, sobre alguns supostos organizadores e financiadores, e sobre centenas de pessoas anônimas, gente humilde revoltada, mas sem nenhuma condição de promover qualquer golpe de Estado. Eis que, diante do ocorrido, renegando o seu passado, o PT passou a proclamar o raivoso lema “Sem Anistia!”.
Convém lembrar que, em grande parte, o PT deve sua existência à campanha pela “Anistia ampla, geral e irrestrita”, que tomou o Brasil em 1979 e foi vitoriosa, sendo a Lei da Anistia assinada pelo General João Figueiredo, último presidente do regime militar, em 28 de Agosto de 1979, quando foram libertados os presos políticos e os exilados puderam voltar do exterior. Não só a Anistia de 1979 tornou a redemocratização do Brasil irreversível, como muitos dos ex-presos políticos e ex-exilados formaram na linha de frente da construção do PT.
Foi este o caminho da pacificação e redemocratização do Brasil.
Então, se há algo nobre e premente que o Congresso Nacional renovado pode e deve fazer logo no início de 2027, além de destituir e investigar os ministros do Supremo envolvidos em corrupção, é impulsionar uma nova pacificação nacional com a proclamação de uma nova Lei de Anistia.


