A ascensão de Xi Jinping ao topo da hierarquia do Partido Comunista Chinês sempre foi acompanhada por uma promessa de rejuvenescimento nacional, mas o que o mundo testemunha nos últimos dias de 2025 é, na verdade, um mergulho em uma paranoia autocrática que remete aos períodos mais sombrios da era Mao Tsé-Tung. O recente expurgo no alto escalão militar, o mais profundo e abrangente em décadas, não é apenas um ajuste burocrático, mas um terremoto político que expõe as vísceras de um regime que, enquanto tenta projetar uma imagem de força inabalável, parece corroído por uma profunda insegurança interna. As substituições drásticas nos Comandos Leste e Central, responsáveis respectivamente pela sensível frente de Taiwan e pela segurança da capital, Pequim, revelam que a lealdade pessoal ao “timoneiro” se tornou a única moeda de troca válida em uma estrutura onde a competência técnica foi relegada ao segundo plano.
Em uma cerimônia oficial carregada de simbolismo no dia 22 de dezembro de 2025, Xi Jinping selou o destino de figuras que, até pouco tempo, eram consideradas pilares da defesa nacional. A destituição do General Lin Xiangyang do Comando Leste e do General Wang Qiang do Comando Central, substituídos pelos generais Yang Zhibin e Han Shengyan, ambos egressos da Força Aérea, marca o ápice de uma purga que começou a ganhar tração no Quarto Pleno do Partido entre outubro e novembro. Naquele momento, nomes de peso como He Weidong, vice-presidente da Comissão Militar Central, e o influente oficial político Miao Hua foram removidos sob a acusação genérica de “corrupção e violações disciplinares”. Um movimento que deixa claro que a campanha anticorrupção iniciada em 2012 transmutou-se definitivamente em uma ferramenta de controle absoluto e eliminação de rivais faccionais.
Este cenário de instabilidade no comando militar ocorre paradoxalmente em um momento em que a China acelera de forma alarmante sua expansão nuclear, criando uma combinação volátil de comando político instável e poder de destruição sem precedentes. Relatórios recentes do Pentágono indicam que Pequim já pode ter instalado mais de 100 mísseis nucleares de longo alcance em bases subterrâneas recém-construídas, localizadas estrategicamente perto da fronteira com a Mongólia. Com um arsenal que saltou para pelo menos 600 bombas nucleares em 2024 e que deve ultrapassar a marca de 1.000 até 2030, a recusa sistemática do regime em negociar limites para seu armamento nuclear coloca o planeta diante de uma nova e perigosa corrida armamentista tripolar envolvendo Estados Unidos e Rússia. A construção desses silos, longe de ser um movimento meramente defensivo, serve como um escudo de intimidação para que Xi Jinping possa conduzir seus expurgos internos sem interferência externa, ao mesmo tempo em que aumenta exponencialmente o risco de um erro de cálculo militar em torno de Taiwan.
A justificativa oficial da corrupção, embora conveniente, esconde falhas sistêmicas que afetam a própria prontidão do Exército de Libertação Popular. Investigações apontam que a rede de propinas envolvia desde a compra de postos até falhas graves na aquisição de equipamentos para a força de foguetes, onde mísseis defeituosos comprometeriam a capacidade de resposta imediata. Ao decapitar as redes de patronato que ele mesmo chama de “exércitos dentro do exército”, Xi Jinping tenta prevenir qualquer sombra de dissidência, mas o custo é a erosão da coesão militar. O expurgo de nove generais sêniores apenas em 2025 e a redução da influência militar no Comitê Central — que caiu de 67 para cerca de 55 membros — indicam que ele está sacrificando a expertise militar em prol de oficiais “vermelhos e experts”, cuja principal qualificação é o alinhamento ideológico total com sua visão pessoal de poder.
Essa obsessão pelo controle absoluto revela sinais preocupantes de fraqueza e rachaduras no muro de Pequim. Um líder que se vê obrigado a promover purgas repetidas e de tal magnitude é alguém que não confia nas instituições que comanda. O ambiente interno na política chinesa atual é pautado pelo medo, onde oficiais remanescentes questionam sua própria segurança e evitam tomar iniciativas por receio de serem os próximos alvos da “purificação” partidária. Essa paralisia burocrática e operacional pode inibir a capacidade de combate imediato do PLA, levantando dúvidas entre analistas internacionais sobre se a China teria, de fato, condições de sustentar um movimento contra Taiwan, dadas as fragilidades expostas no alto comando.
Para a política externa, as implicações são igualmente graves. Ao projetar uma imagem de instabilidade interna e purgas constantes, Xi Jinping mina a credibilidade diplomática da China e sua capacidade de dissuasão. O mundo observa um regime que, enquanto constrói silos de mísseis na Mongólia e ameaça a ordem internacional, está mergulhado em uma luta intestina profunda para preencher vácuos de liderança deixados por generais que, até ontem, eram celebrados como heróis do partido. A remoção de aliados próximos, como He Weidong, sugere que o isolamento de Xi Jinping no topo do Politburo é cada vez maior, tornando-o dependente de um círculo cada vez menor de lealistas que podem não ter a coragem de lhe dizer a verdade sobre as reais capacidades militares do país.
Em última análise, o expurgo militar de 2025 é o testemunho de um sistema que prioriza a sobrevivência da facção no poder acima da eficácia do Estado. Xi Jinping pode ter consolidado seu controle absoluto sobre a Comissão Militar Central, mas o fez ao preço de criar uma estrutura de comando oca, onde o medo substitui a competência e a paranoia substitui a estratégia. Enquanto o Ocidente observa as movimentações no estreito de Taiwan e o crescimento do arsenal nuclear chinês, a verdadeira ameaça pode estar na instabilidade de um regime que, ao tentar eliminar todas as suas rachaduras internas, acaba por criar fissuras ainda mais profundas e perigosas para a estabilidade global. A China de hoje é um colosso armado até os dentes com mísseis de longo alcance, mas cujo timoneiro parece mais preocupado em caçar fantasmas dentro de seus próprios quartéis do que em garantir a paz que tanto apregoa em seus discursos oficiais.
Para o Brasil e o mundo, o sinal é claro: a China de Xi Jinping é um gigante com pés de barro político. A paranoia de seu líder, embora apresentada como força, é o testemunho mais eloquente de que a harmonia dentro do Partido é uma miragem mantida pela força bruta.
Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.



