Durante anos, os fatos estiveram diante dos olhos do mundo. Relatórios da ONU, denúncias de organizações independentes, testemunhos de vítimas e investigações internacionais apontaram para um mesmo diagnóstico: o regime de Nicolás Maduro consolidou-se por meio da repressão, da fraude e da violação sistemática dos direitos humanos. Ainda assim, a comunidade internacional optou, em grande medida, pela omissão, pelo relativismo moral ou por gestos diplomáticos inócuos.
As acusações são graves e amplamente documentadas: execuções extrajudiciais, tortura de presos políticos, perseguição a opositores, censura à imprensa, aparelhamento do Judiciário e uso das forças de segurança como instrumentos de terror estatal. A isso se soma um elemento decisivo: a fraude eleitoral recorrente, que esvaziou completamente qualquer aparência de legitimidade democrática do regime chavista.
Mesmo diante desse cenário, organismos multilaterais e lideranças globais insistiram em tratar a ditadura venezuelana como um “ator político legítimo”, apostando em negociações intermináveis e resoluções simbólicas. A Organização das Nações Unidas, criada para conter abusos de poder e preservar a paz, limitou-se a relatórios e discursos, incapaz de produzir consequências reais. Na prática, a omissão internacional funcionou como um selo tácito de validação do regime.
É nesse vácuo de autoridade e coragem que se insere a ação de Donald Trump em relação a Nicolás Maduro. Ao reconhecer a ilegitimidade do governo venezuelano, impor sanções duras e tratar Maduro como aquilo que ele efetivamente é — um líder autoritário sustentado pela fraude e pela força —, Trump rompeu com o teatro diplomático que dominava o cenário internacional. Sua postura, ainda que controversa, não surgiu do nada: foi consequência direta da falência das instituições multilaterais em fazer cumprir seus próprios princípios.
O ponto central é desconfortável, mas inevitável: quando o sistema internacional falha em punir ditaduras evidentes, abre espaço para ações unilaterais. Trump não criou o problema venezuelano; ele reagiu a um problema que foi ignorado por tempo demais. A fraude eleitoral, tolerada e relativizada por observadores internacionais, foi o marco final dessa complacência.
Esse episódio revela algo maior do que o conflito entre Estados Unidos e Venezuela. Ele expõe a obsolescência do atual sistema geopolítico, estruturado após a Segunda Guerra Mundial, mas hoje incapaz de responder aos desafios reais do século XXI. A ONU, engessada por interesses cruzados, vetos políticos e um discurso cada vez mais distante da realidade, perdeu sua capacidade de dissuasão e autoridade moral.
O caso Maduro é sintomático: um regime acusado de crimes contra a humanidade permanece no poder, enquanto a ordem internacional debate sem agir. Quando alguém age fora desse sistema, a reação não é de autocrítica, mas de indignação seletiva.
Estamos, portanto, diante do início de uma nova ordem global — não porque ela foi planejada, mas porque a antiga deixou de funcionar. A ação contra Maduro simboliza a transição de um mundo regido por consensos artificiais para outro marcado por decisões duras, interesses nacionais explícitos e o enfraquecimento dos organismos multilaterais tradicionais.
A pergunta que fica não é se essa nova ordem será melhor ou pior. A pergunta correta é: quanto da atual desordem foi causada exatamente pela omissão daqueles que juraram proteger a democracia, a liberdade e os direitos humanos — e não o fizeram?
Ismael Almeida



