A ordem atlântica pós-1945 não terminou com um lamento, mas com a tomada de território e um sequestro. Em apenas duas semanas, em janeiro de 2026, o presidente Donald Trump desmantelou efetivamente a arquitetura de segurança e econômica do Ocidente. O anúncio neste fim de semana de tarifas punitivas contra oito nações europeias — supostamente por sua recusa em concordar com a venda da Groenlândia — destruiu a ilusão de que a União Europeia poderia “esperar” ou “gerenciar” o segundo governo Trump.
Poucos dias depois de as forças americanas lançarem a “Operação Resolução Absoluta” para capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, a declaração das tarifas forçou Bruxelas a uma constatação que havia sido adiada por lisonjas e paciência estratégica: os Estados Unidos não são mais um parceiro, mas um hegemônico imprevisível que age por impulso. A vítima imediata é a aliança transatlântica; o resultado a longo prazo pode ser um realinhamento do Sul Global e da Ásia que deixará Washington isolada em seu próprio hemisfério.
O Fim da Diplomacia “Taco”
Durante o último ano, os mercados europeus operaram sob a reconfortante teoria do “Taco” — “Trump Always Chickens Out” (Trump sempre recua). Acreditava-se que as ameaças do presidente americano eram piores do que suas ações, como evidenciado pelo acordo comercial diluído assinado em julho de 2025 em Turnberry. Essa complacência evaporou no sábado.
As novas tarifas — 10% a partir de 1º de fevereiro, subindo para 25% em junho — visam os principais motores econômicos da UE (Alemanha, França, Holanda) e seus parceiros de segurança mais próximos (Reino Unido, Noruega). Ao vincular explicitamente as sanções comerciais a uma disputa territorial soberana sobre a Groenlândia, Trump cruzou uma linha vermelha. Ele está usando o mercado americano como arma não para alavancagem econômica, mas para expansão territorial.
A resposta da UE mudou da conciliação para o confronto. O “Instrumento Anti-Coerção” — a “bazuca” comercial de Bruxelas, originalmente projetada para a China — está sendo preparado para Washington. Se ativado, congelará o acesso dos EUA aos mercados europeus de compras públicas e propriedade intelectual, uma medida que seria impensável há dois anos. A tragédia para os atlantistas europeus é que essa guerra comercial mata efetivamente a trégua de julho de 2025, deixando as indústrias do continente expostas justamente quando as “Tarifas Recíprocas” dos EUA (variando de 20% a 50%) começam a surtir efeito. A Tábua de Salvação do Mercosul: Um Escudo Geopolítico
Não é coincidência que, enquanto a ponte transatlântica se desfazia, outra estava sendo construída em Assunção. A assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul em 17 de janeiro — após 25 anos de negociações tortuosas — é a resposta direta à volatilidade americana.
Historicamente, esse acordo foi paralisado pelo protecionismo agrícola francês e por preocupações ambientais. Sua finalização repentina foi impulsionada por uma necessidade geopolítica urgente. Com o mercado americano se fechando e a China utilizando os metais raros como arma (como visto no “Segundo Choque da China” de 2025), a Europa enfrentava a asfixia econômica. O acordo com o Mercosul, que cria um mercado de 700 milhões de pessoas, é agora o pulmão de emergência da Europa.
Para a América Latina, o acordo é igualmente vital. A região ainda se recupera do choque da intervenção americana na Venezuela. A imagem das forças americanas bombardeando Caracas e transportando um chefe de Estado para Nova York reviveu as memórias mais sombrias da Operação Condor e do imperialismo do século XX. O apelo do presidente brasileiro Lula por “coragem política” não foi apenas retórica; foi um pedido por uma alternativa estratégica à dominação americana. Ao assinar com a Europa, as nações do Mercosul sinalizam que não serão estados vassalos em uma nova era da Doutrina Monroe.
Venezuela e a Consolidação dos BRICS
O ataque da “Operação Resolução Absoluta” contra a Venezuela fez mais para unificar o bloco BRICS do que uma década de cúpulas. Enquanto Washington enquadrou a captura de Maduro como um triunfo no combate ao narcotráfico, o Sul Global a vê como uma violação da soberania que poderia acontecer com qualquer um deles.
Essa ansiedade está impulsionando uma rápida consolidação dos BRICS como uma fortaleza econômica defensiva. O ataque justifica a busca do bloco pela desdolarização; nenhum país quer ter suas reservas detidas por uma nação que pode bombardear sua capital e prender seus líderes. Para o resto da América Latina, particularmente México e Colômbia, a mensagem é assustadora. Podemos esperar uma mudança drástica em 2026: as capitais latino-americanas provavelmente aprofundarão os laços de segurança e inteligência com a China e a Rússia, não por afinidade ideológica, mas como uma apólice de seguro contra uma Washington imprevisível.
O Paradoxo Asiático: Japão e China no Mesmo Barco
Talvez a maior ironia da agenda de “Tarifas Recíprocas” de Trump seja que ela colocou o Japão e a China no mesmo barco. A tabela de tarifas dos EUA — impondo 60% à China e cerca de 32% ao Japão — trata aliados e adversários com hostilidade quase indistinguível.
O Japão, tradicionalmente o porta-aviões inafundável dos EUA no Pacífico, encontra-se economicamente isolado. Tóquio está agora na posição impossível de depender dos EUA para sua segurança contra a China, enquanto é atingida pela política econômica americana. Isso pode forçar o Japão a uma distensão mais discreta e pragmática com Pequim e a uma busca mais agressiva por comércio com a Europa e a América Latina.
Para a China, a cisão entre EUA e UE é um presente estratégico. Apesar da retórica de “redução de riscos” da UE e das fricções sobre as exportações chinesas de veículos elétricos, a pura necessidade de sobrevivência pode forçar Bruxelas e Pequim a um casamento de conveniência. Se o mercado americano estiver fechado, a Europa precisa de compradores chineses e da tecnologia chinesa de energia solar/baterias para sobreviver à transição energética.
Conclusão: O Mundo Fragmentado
Os eventos de janeiro de 2026 marcam o fim definitivo do bloco “ocidental” como uma entidade econômica unificada. Estamos testemunhando o surgimento de um mundo de três blocos:
Fortaleza América: Isolada, protecionista e cada vez mais militarista em seu próprio hemisfério. A Deriva Euro-Atlântica: Uma Europa confusa tentando se equilibrar entre um EUA hostil, um Mercosul necessário e uma China inevitável.
O Sul Global (BRICS+): Agora munido do capital moral e político para rejeitar a hegemonia dos EUA após a intervenção na Venezuela.
A guerra comercial pela Groenlândia não se trata apenas de peixe ou gelo: é a rachadura final nos alicerces da aliança que venceu a Guerra Fria. A Europa percebeu que, no mundo de 2026, está, na prática, sozinha.
AKA GATE: https://sites.google.com/view/aka-gate/home?authuser=0


