Na madrugada do sábado, 3 de janeiro de 2026, como vastamente divulgado, a Delta Force, unidade de operações especiais do exército americano, a mando do presidente Donald Trump, capturou o ditador Maduro – acompanhado pela esposa Cilia Flores – e os levou para uma prisão nos EUA. Tendo por principal alegação a quebra da “soberania nacional” da Venezuela, vem sendo grande a gritaria contra a ação americana.
A reação indignada de parte do establishment intelectual e jornalístico à prisão de Nicolás Maduro diz mais sobre a confusão moral do nosso tempo do que sobre a operação em si. Na ótica de analistas respeitáveis, mesmo diante de um tirano, mesmo diante de um regime que tortura, mata, frauda eleições e converte o Estado em engrenagem do narcotráfico, seria preciso conter a ação em nome de uma abstração chamada “ordem internacional”. Como se essa ordem não estivesse já em ruínas, e como se ela tivesse, em algum momento, protegido os venezuelanos.
O primeiro ponto que precisa ser enfrentado é a inversão moral operada por esse tipo de crítica. Derrubar um ditador é considerado um “objetivo defensável”, mas os meios empregados seriam problemáticos. Ora, quando todos os meios ordinários foram tentados, insistir na pureza dos procedimentos equivale a aceitar, na prática, a perpetuação do mal.
Em “A Sociedade Aberta e seus inimigos” Karl Popper dá uma interessante definição de democracia: um regime no qual o povo pode se livrar do governo sem derramamento de sangue. A Venezuela sob Maduro não entra nessa definição.
Os meios legais e pacíficos de resistência foram exercidos pelo povo venezuelano até a exaustão. Restou a força, que acabou sendo usada não pelo povo venezuelano, massacrado e incapaz desse tipo de reação, mas por uma potência estrangeira.
O debate sobre a legalidade da “Operação Resolução Absoluta” é válido e está aberto. A mim, no entanto, parece que o questionamento da prisão de Maduro à luz do direito internacional parte da falsa premissa de que a soberania de um Estado foi violada. Como bem explicou Leonardo Coutinho, em análise publicada no Estadão, Chávez e Maduro transformaram a Venezuela em algo que vai além do conceito clássico de narcoestado:
“Sob o chavismo, a Venezuela tornou-se um Estado-narco. Ao longo de 26 anos, o regime fez com que as instituições fossem mais do que o alvo da infiltração do crime, mas um Estado que atua como um chefe criminoso. Não é a interferência do tráfico no Estado, é o Estado como agente do tráfico.”
Um regime que, além de oprimir seu próprio povo, funde aparato estatal e crime organizado abdica de qualquer pretensão legítima à inviolabilidade. O próprio conceito de soberania está ligado ao povo e não a uma estrutura que o oprime. Quem atacou a soberania da Venezuela foi Maduro quando o povo venezuelano foi agredido, preso, torturado, aviltado, enganado, e por todas as formas infelicitado por esse facínora que estava no poder há mais de 12 anos.
Em relação, portanto, à captura de Maduro, considero que a decisão do presidente dos Estados Unidos não foi condenável, mas acertada. O problema é o que virá depois. É ingenuidade achar que Trump age por valores morais e sensibilidade humanitária.
A “Operação Resolução Absoluta” estará moralmente justificada se os presos políticos forem libertados, se o regime cair, se Edmundo González ou Maria Corina Machado assumirem a presidência e a economia voltar a florescer.
Trump, porém, já se apressou em desqualificar Corina Machado e iniciou conversas com a vice de Maduro, acendendo alerta para a possibilidade de uma atitude vil e traiçoeira, qual seja, fazer acordo com o entorno político-militar do ditador desalojado, inaugurando um madurismo sem Maduro, com uma cúpula que lhe sirva aos interesses.
A captura de Maduro foi necessária, mas não suficiente para a libertação dos venezuelanos. Derrubar o homem e preservar o sistema seria apenas trocar a face da opressão. A libertação imediata dos presos políticos, a abertura dos centros de tortura, o fim da perseguição sistemática à oposição e o reconhecimento efetivo da vontade popular são critérios mínimos para que a ação de Trump faça sentido do ponto de vista moral. Sem isso, a prisão de Maduro se reduzirá a um gesto espetacular e sem sentido.



