Acostumamo-nos a pensar que os eleitores escolhem os seus candidatos. Nos Estados Unidos, com a chamada redistritalização, os candidatos procuram inverter essa lógica, a fim de ‘escolher’ os seus eleitores….
O gerrymandering redesenha os limites dos distritos eleitorais de modo a favorecer um partido ou candidato sobre os outros nos pleitos bienais para a Câmara dos Representantes (total de 435 cadeiras, cada uma correspondendo a um distrito; hoje, o Partido Republicano detém uma precária maioria de 218 cadeiras, contra 213 ocupadas por deputados Democratas, e quatro dessas cadeiras estão, no momento vagas).
De acordo com a 4ª seção da Constituição estadunidense, recai sobre os estados e seus respectivos legislativos a responsabilidade primordial na determinação dos “tempos, lugares e modos” das eleições para a Câmara dos Representantes, mas o Congresso também pode, “a qualquer tempo”, alterar essas regras mediante Lei. Isso, porém, NÃO se aplica às eleições para o Senado, cujos candidatos disputam a maioria dos votos de todo o estado.
O censo demográfico decenal dita o número de cadeiras alocadas a cada estado. Alguns deles podem ganhar cadeiras, enquanto outros podem perdê-las, conforme suas populações aumentem ou diminuam.
Em 1964, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que o tamanho da população de cada distrito deve ser, tanto quanto possível, igual ao de todos os demais. Estados de população rarefeita — exemplo: Wyoming — enviam à Câmara dos Representantes somente um deputado cada e NÃO são obrigados à redistritalização periódica.
E quais são os métodos utilizados pelos estados para retraçar seus mapas eleitorais? Na maioria dos casos (33 estados), o legislativo estadual se incumbe do redesenho, e esse traçado pode ou não estar sujeito a veto do executivo estadual respectivo.
Em 9 estados, a tarefa cabe a uma comissão que pode ser ou não composta por políticos detentores de mandato eletivo.
Em apenas 2 estados, a responsabilidade pela redistritalizaçãoé compartilhada entre os legislativos e as comissões.
Os restantes estados possuem somente um distrito.
Polarização — A intensa polarização político-partidária tem tornado mais frequentes os gerrymanders fora do prazo ‘normal’ de uma década. Tendo em vista as eleições intercalares (midterms) de 3 de novembro próximo, cinco estados — Califórnia, Carolina do Norte, Missouri, Ohio e Texas — já produziram novos mapas, diferentes daqueles vigentes na eleição geral de 2024. No Utah, a disputa entre Democratas e Republicanos levou à judicialização do gerrymander Litígios judiciais também interferiram no redesenho dos mapas eleitorais do Alabama, da Geórgia e da Louisiana. Com a redistritalização, o governo federal espera ganhar mais cinco cadeiras para o Partido Republicano do Texas, o que provocou uma reação em sentido contrário dos Democratas californianos, liderados pelo governador Gavin Newsom, que sonha com a Casa Branca em 2028.
Já na Flórida, em Indiana, em Maryland e na Virgínia, os legisladores estaduais se abstiveram de modificar os mapas para o próximo pleito.
Normalmente, nas intercalares, o partido instalado na Casa Branca perde cadeiras no Congresso para o seu rival. No presente ciclo, o presidente Donald Trump e seus Republicanos temem uma vitória Democrata que lhes tire a precária maioria, especialmente na Câmara dos Representantes. Uma maioria Democrata em ambas as Casas, o que é menos provável, certamente turbinaria processos de impeachment do presidente.
Neste segundo mandato de Trump, sua aprovação, segundo pesquisas do instituto Gallup, está em 36%. Os entrevistados estão preocupados com o baixo ritmo de criação de novos empregos, com os altos preços em geral, com a perspectiva de eliminação dos subsídios governamentais ao Affordable Care Act — o que elevaria os custos do seguro-saúde — e com a escalada de envolvimento militar externo do colosso norte-americano (Irã, Venezuela). E, apesar de apenas 14% (60) do total dos distritos serem considerados competitivos neste ciclo, os Democratas estão envidando esforços para reconquistar a maioria. Vinte e cinco Republicanos, contra 21 Democratas, já declararam que não concorrerão à reeleição, e pelo menos 39 distritos estão na mira destes a exemplo do 17º distrito do estado de Nova York, hoje representado pelo deputado Republicano moderado Mike Lawler. Os Republicanos, por sua vez, estão de olho em 13 distritos ora representados por Democratas, onde Trump venceu em 2024, a exemplo do 2° distrito do Maine, hoje com o Democrata também moderado Jared Golden, que já declarou que vai se aposentar.
O novo gerrymander na Carolina do Norte pode beneficiar o GOP, enquanto a judicialização do mapa eleitoral de Utah abre novas oportunidades para os Democratas, cuja militância sem dúvida ganhou novo alento com as vitórias, no ano passado, de Abigail Spanberger para o governo da Virgínia, de Mike Sherrill para o governo de Nova Jersey e do socialista Zohran Mamdani, primeiro prefeito muçulmano da cidade de Nova York.
Senado — O mandato de senador é de seis anos, e a cada dois anos 1/3 das cadeiras da Casa é submetido a renovação. Em 2026, NÃO haverá eleições para o Senado em 14 estados: Arizona, Califórnia, Connecticut, Dakota do Norte, Indiana, Maryland, Missouri, Nevada, Nova York, Pensilvânia, Utah, Vermont, Washington e Wisconsin.
Atualmente, são 53 senadores Republicanos, 45 Democratas e 2 independentes que votam com estes últimos. Ali, os próprios Democratas reconhecem que a probabilidade de uma virada é menor, embora esperem conquistar algumas (poucas) novas cadeiras: mais precisamente, duas. Num cenário de ‘empate’ (50 X 50), este seria desatado em favor do GOP pelo vice-presidente J. D. Vance.
De acordo com o portal www.racetothewh.com, que se baseia em um conjunto de pesquisas, o qual eu consultei no dia 13 de janeiro, os Republicanos têm 63% de chance para manter sua maioria no Senado em novembro próximo, enquanto a chance dos Democratas para reconquistá-la é de 36,7%.
Na Geórgia, as sondagens dão um empate técnico entre o incumbente Jon Ossof (Democrata) e o deputado e desafiante Republicano Mike Collins.
Enquanto isso, em Minnesota, onde o governador Tim Walz (companheiro de Kamala Harris na chapa derrotada por Trump e Vance em 2024), desistiu de buscar seu terceiro mandato sob a devastadora pressão de um megaescândalo de corrupção no sistema estadual de assistência social, sua vice, a também Democrata Peggy Flanagan, parece posicionada a conquistar a vaga senatorial em disputa.
Outras prováveis vitórias Democratas para o Senado são as seguintes: no Michigan, Mallory McMorrow, atualmente senadora estadual (com exceção de Nebraska, nos demais 49 estados o poder legislativo é bicameral); em New Hampshire, Chris Pappas, deputado federal; e na Carolina do Norte, o ex-governador Roy Cooper, cujas chances aumentaram significativamente depois que o senador Thom Tillis, Republicano, porém desafeto de Trump, desistiu de se candidatar à reeleição
Já os Republicanos torcem para que as urnas de novembro confirmem o favoritismo nas pesquisas destes candidatos a senador: a atual deputada federal Ashley Hinson em Iowa; a senadora e candidata à reeleição Ashley Moody na Flórida; o procurador-geral do estado Ken Paxton no Texas. Além de Moody, também buscam a reeleição, com boas chances de conquistá-la, os senadores Dan Sullivan (Alaska); Pete Ricketts (Nebraska); e Jon Husted (Ohio). Uma das escassas ‘viradas’ pró-Democratas previstas para novembro é a derrota, no Maine, da senadora Republicana Susan Collins, em busca de seu sexto mandato, contra a governadora Janet Mills.
Se os leitores me pedissem para resumir o sentido geral dos prognósticos acima, eu diria que os Democratas provavelmente recobrarão o controle da Câmara dos Representantes, ainda que sem uma ‘lavada’ contra o partido adversário, ao passo que os Republicanos manterão o controle do Senado, mas com maioria mais precária que a atual.


