A história da Revolução Cubana, quando despojada de seu misticismo romântico, revela-se como o registro de um sucesso singular na arte do parasitismo geopolítico. Por mais de seis décadas, Havana sobreviveu não pela eficiência de seu modelo econômico ou pela solidez de suas instituições, mas pela habilidade magistral em comercializar sua localização estratégica. A ilha transformou-se em uma espécie de entreposto para potências e movimentos dispostos a financiar uma aventura autoritária no Caribe em troca de uma base avançada contra o Ocidente. Havana tornou-se, na prática, um “Airbnb para ditaduras”, alugando sua soberania primeiro aos soviéticos e, posteriormente, aos chavistas. No entanto, neste início de 2026, Cuba depara-se com um fenômeno inédito e aterrador em sua trajetória: a ausência absoluta de um hóspede disposto ou capaz de financiar sua insolvência.
A débâcle econômica da ilha não é mais um ciclo de escassez, mas um colapso sistêmico de infraestrutura. Os números são brutais e revelam uma nação despedaçada. O PIB cubano, que já vinha de uma contração acumulada nos últimos anos, enfrenta hoje uma paralisia produtiva quase total. A inflação, que o governo tenta maquiar, explode nos mercados informais onde o peso cubano tornou-se uma moeda de ficção. Com o dólar sendo negociado a 450 pesos no câmbio negro, o salário médio de um profissional de elite não cobre o custo de uma proteína básica para uma semana.
A crise energética de 2025, que viu o país mergulhar em apagões nacionais de até 20h por dia, transformou-se em 2026 em uma “morte térmica” da rede. Sem peças de reposição para as obsoletas centrais termoelétricas soviéticas e sem crédito internacional para comprar combustível a preço de mercado, Havana é hoje uma capital à luz de velas, onde a fome deixou de ser uma ameaça estatística para se tornar uma realidade onipresente. O êxodo demográfico completa o quadro: desde 2022, mais de 10% da população fugiu da ilha, drenando o capital humano e abandonando uma sociedade envelhecida e desiludida.
Neste cenário de terra arrasada, a variável geopolítica mudou drasticamente com a ascensão de Marco Rubio ao Departamento de Estado. Diferente de seus antecessores, Rubio não enxerga Cuba através das lentes da Guerra Fria ou do pragmatismo comercial, mas como uma questão de política interna americana e reparação histórica. Como descendente de cubanos, sua estratégia é de asfixia logística e moral. A nova doutrina de Washington, liderada pelo governo Trump, abandonou a retórica do “engajamento” para adotar o que se pode chamar de “isolamento terminal”. Rubio compreende que a sobrevivência do regime depende da capacidade do GAESA — o conglomerado militar que controla 80% da economia dolarizada e o turismo — em movimentar fundos ilícitos. Ao aplicar sanções cirúrgicas nas contas e rotas logísticas da elite militar, os EUA estão forçando uma fratura entre a cúpula política e o braço armado do Estado. A mensagem enviada pela captura de Maduro foi clara: o escudo da impunidade soberana foi rompido no Hemisfério Ocidental.
A análise sobre se Cuba seguirá o modelo venezuelano de fragmentação em feudos criminais esbarra na própria natureza das instituições cubanas. Enquanto o chavismo era um movimento populista que corrompeu as Forças Armadas através do tráfico de influência, o castrismo é um sistema totalitário onde o Partido e o Exército são uma única entidade indissociável. Isso torna a queda do regime mais perigosa, porém potencialmente mais limpa em termos de transição. Não há um “Cartel dos Sóis” cubano com a mesma autonomia do venezuelano, existe uma hierarquia rígida que, se rompida por uma revolta interna de oficiais de médio escalão, pode desmoronar como um castelo de cartas. O risco de “venezuelanização” — um estado de anomia prolongada — é mitigado pela proximidade geográfica com a Flórida e pela capacidade de investimento imediato da diáspora, mas condicionado à remoção total da casta militar que hoje sequestra as fontes de riqueza da ilha.
O caminho para a democracia em Cuba exigirá uma “cirurgia de guerra” institucional. Após três gerações sob o controle da família Castro e seus burocratas, o país não possui memória de livre mercado ou pluralismo partidário. Os cenários que se desenham para o restante de 2026 variam entre a implosão súbita motivada por uma revolta popular impulsionada pela fome e escassez e uma transição negociada sob pressão extrema, onde a cúpula militar entrega Díaz-Canel em troca de anistia e a promessa de manutenção de algumas propriedades. Contudo, a firmeza de Rubio sugere que Washington não aceitará um “putinismo tropical” em Cuba. O objetivo é a desmontagem do aparato de segurança. Para que Cuba floresça, será necessário mais do que o fim do embargo, será preciso o desmantelamento do aparato de inteligência que ainda atua como o sistema nervoso central da repressão na América Latina.
A democracia em Cuba não será o resultado de uma evolução benevolente do sistema, mas o subproduto inevitável de uma falência múltipla de órgãos. O modelo de “Continuidade” de Díaz-Canel provou ser apenas o epílogo melancólico de uma tragédia histórica. Cuba está, finalmente, diante de seu destino geográfico e histórico: reintegrar-se ao sistema interamericano do qual se autoexilou por seis décadas. O fim do regime não é mais uma questão de possibilidade, mas de cronologia. Para o Brasil e para o continente, o colapso da ditadura cubana representará o fechamento da última fronteira ideológica do século XX, removendo o epicentro de instabilidade que, por décadas, exportou métodos de subversão democrática. Resta saber se essa transição será fruto de um diálogo forçado pela necessidade ou se o Palácio da Revolução será tragado pela mesma escuridão que hoje tenta impor ao seu próprio povo.


