O século XX foi pródigo em ditaduras; tanto ditaduras de esquerda quanto ditaduras de direita. Neste século XXI muitas dessas ditaduras já teve fim. Observando-lhes a trajetória, vê-se que algumas logo se perderam pela ambição desvairada e loucura dos seus chefes, enquanto outras percorreram um longo percurso de apodrecimento.
Todavia, nos importa agora tratar do caso de ditaduras já apodrecidas, mas que ainda se encontram por aí; como essas que vão nomeadas no título deste artigo. Essas três ditaduras têm em comum o fato de estarem sob ataque, controle ou ameça dos Estados Unidos da América, ora comandado pelo imprevisível presidente Donald Trump.
Trump não é um grande estadista; suas inabilidades políticas o levam a trapalhadas alarmantes e seu comportamento muitas vezes é lastimável. Todavia, as suas limitações não tornam melhores os três referidos regimes que ele tem confrontado.
Muito tenho escrito sobre o regime dos aiatolás no Irã; repito que, desde Khomeini, foi construído com vigor e determinação um dos regimes mais atrasados e cruéis da história.
A teocracia dos aiatolás escraviza as mulheres, oprime minorias, sufoca protestos pacíficos com assassinatos em massa. Sustentado por fanáticos violentíssimos, esse regime apodrecido sofre a repulsa da maioria da sua população.
Não obstante, na guerra de Israel-EUA X Irã, a esquerda, em geral, tem erguido lanças a favor do regime dos aiatolás. Setores mais extremados e entusiasmados da esquerda brasileira têm mesmo se apressado em declarar derrota acachapante de Trump e esplendorosa vitória do Irã.
Muito repercutiu recente reportagem de capa da revista inglesa The Economist dedicada a debochar da ação militar de Trump no Irã: oficialmente registrada como “Operation Epic Fury” (Fúria Épica) pelo governo norte-americano, essa campanha militar em curso foi rebatizada pela revista como “Operation Blind Fury” (Operação Fúria Cega) e traz na capa um Trump com capacete de soldado a tapar-lhe a vista.
A um olhar mais isento, a referida operação militar não será épica nem cega; eu diria que resulta de uma estratégia opaca.
No campo da ação efetiva, aconteceram ataques com larga destruição, mas com resultados políticos aquém das projeções do governo dos EUA. No campo das palavras, a guerra corre ao sopro dos ventos da cabeça de Trump, que em uma mesma fala já chegou a prometer a paz e o inferno.
O mais provável é que a guerra se conclua sem uma mudança efetiva de regime, para infelicidade do povo iraniano que anseia pela libertação.
Como todo o mundo viu, o presidente Trump capturou e aprisionou o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, mas achou conveniente manter a ditadura através de um consórcio com auxiliares do ditador interditado. Com o Irã parece que não será muito diferente, apesar de já terem sido eliminadas importantes lideranças da teocracia islâmica.
A inteligência americana avaliou (relatório classificado de março) que mesmo uma grande ofensiva não derrubaria o regime entrincheirado. A teocracia sobreviveu à decapitação inicial e o novo líder Mojtaba Khamenei já está no cargo. Analistas (incluindo The Economist) dizem que a mera sobrevivência já é uma “vitória estratégica” para o Irã. Não há colapso iminente; o sistema clerical-militar se adaptou.
Um acordo para permanência da teocracia, portanto, é o cenário mais provável agora. Trump começou a guerra com retórica de mudança de regime, mas já migrou para negociações de cessar-fogo. Fontes indicam que ambos os lados buscam uma “saída honrosa” sem vitória total de nenhum.
Nesse ínterim, reagindo à aguda crise energética/humanitária que Cuba vem sofrendo, Trump declarou que pode tomar o controle da ilha caribenha, podendo ser esse controle amigável ou não.
Irã, Venezuela e Cuba são ditaduras podres, que oprimem cruelmente seu próprio povo. No começo desse artigo, dissemos que as limitações de Trump não tornam melhores os três referidos regimes que ele tem confrontado. Convém dizer também que a crueldade de tais regimes não deve nos enganar quanto ao caráter de Trump. Iniciar guerras por interesses escusos para depois abandonar à própria sorte o povo que anseia por libertação é sintoma claro de baixa estatura moral.


