A França enfrentou, na noite de 17 de outubro, um dos distúrbios mais destrutivos e violentos das últimas décadas. O vandalismo se intensificou em diversas cidades, prolongando-se até altas horas e, em alguns casos, até o dia seguinte.
Em Paris, grupos organizados de indivíduos encapuzados destruíram e saquearam inúmeras lojas. Os saques mais intensos atingiram a região da Gare Saint-Lazare, Châtelet-les-Halles, a Place de la République e os Champs-Élysées, onde lojas de luxo, supermercados, farmácias e estabelecimentos diversos foram sistematicamente depredados e esvaziados. Ruas inteiras foram devastadas, com vitrines estilhaçadas, carros e bicicletas incendiados, e barricadas em chamas.
Em Limoges, a prefeitura histórica, um edifício do século XIX, foi invadida e incendiada por um grupo de manifestantes mascarados. Em Lyon, a agência de turismo situada na Place Bellecour foi invadida, vandalizada e incendiada.
Esse texto ficaria muito extenso se eu continuasse a descrever com pormenores essa barbárie. Deter-me-ei, portanto, em alguns eventos mais simbólicos.
Em Marseille, derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República; em Toulouse, subiram na estátua de bronze de Joana d’Arc, colocaram um colete amarelo (gilet jaune) na sua cabeça, enrolado de modo a cobrir o cabelo e simular um hijab. Em seguida, prenderam uma bandeira da Palestina junto ao monumento (ao lado do braço da estátua).
Símbolos não são meros ornamentos ou representações opcionais de uma cultura: são as formas pelas quais uma comunidade herda, reconhece e transmite uma ordem de sentido que excede cada indivíduo. Joana d’Arc condensa várias camadas simbólicas: a camponesa chamada por Deus, a guerreira que salva a França na Guerra dos Cem Anos, a mártir injustamente condenada, a santa canonizada e a padroeira nacional. Respeitar a imagem de Joana d’Arc é, para o povo francês, respeitar memória histórica, sacrifício, fé, pátria e identidade civilizacional.
Se assim é, cobrir seu icônico cabelo curto com o véu islâmico e colocar uma bandeira palestina nas mãos daquela que marchou sob o estandarte de Cristo significa o quê?
O referido vilipêndio não pode ser reduzido a mero vandalismo contra um objeto, trata-se de um gesto simbólico que quer apagar a mediação entre o presente e uma ordem de sentido herdada, um gesto de quem almeja deserdar não apenas a França, mas todo o Ocidente da sua própria tradição.
O filósofo político Eric Voegelin compreende a sociedade como um “pequeno cosmos”, que se autocompreende por meio de símbolos que tornam transparentes a estrutura interna da sociedade, as relações entre seus membros e sua existência como totalidade diante do mistério da existência humana.
Os símbolos constituem a experiência de pertencimento e a percepção de que a vida coletiva remete a algo além dela mesma. Nesse sentido, a referida iconoclastia deve ser interpretada como uma disputa pelo monopólio da imaginação moral e da imaginação política. É uma clara tentativa de substituição.
Quando uma cultura perde a reverência por suas figuras exemplares, não perde apenas ícones, mas enfraquece também a linguagem moral pela qual forma juízos sobre si mesma. Derrubar o busto de Marianne ou vandalizar a estátua de Joana D´Arc são expressões de um perigoso niilismo atirrepublicano, expressão utilizada por Brendan O´Neill no artigo France on fire: the nihilists against the normies.
Segundo O´Neill, “os incêndios na França evidenciaram uma das grandes divisões morais do nosso tempo: aquela entre niilistas e pessoas comuns.” Essa cisão, insista-se, não se limita à França, mas reflete um movimento de radicalização da esquerda em toda a Europa.
O movimento “progressista” atual, afirma o editor-chefe de política da revista Spiked, “firmou uma coalizão tóxica com aqueles supostamente oprimidos: jovens revoltados, migrantes, pessoas em situação de rua, muçulmanos. Adicione a isso uma pitada de islã radical, e essa aliança passa de insana a letal.
É um eufemismo que presta desserviço à verdade reduzir o que está acontecendo na França a uma mera reivindicação de estudantes em busca de melhorias ou mais uma mobilização normal resultante da insatisfação com algumas medidas de austeridade fiscal. É muito mais sério do que isso.


