O Abismo Persa: Como a Implosão do Irã Está Remodelando a Ordem Global de Tóquio a Brasília 

Floriano Filho

Floriano Filho

Em meados de janeiro de 2026, a República Islâmica do Irã enfrenta sua crise existencial mais grave desde a revolução de 1979. Desencadeados pelo colapso da moeda e pela repentina remoção dos subsídios à energia, protestos em todo o país se transformaram em uma revolta revolucionária que o regime luta para conter, apesar de um “toque de recolher de fato” e de uma repressão brutal que, segundo relatos, deixou mais de 2.000 mortos. Essa combustão interna colide com a pressão externa: um governo Trump fortalecido por sua recente intervenção na Venezuela e que ameaça impor tarifas ou ações militares. O potencial colapso ou transformação radical do Irã não é apenas uma história do Oriente Médio; é um terremoto geopolítico que ameaça cortar o suprimento energético da China, desestabilizar a aliança BRICS e forçar nações do Japão ao Brasil a escolher um lado em uma nova era de diplomacia de “mudança de regime”.

O Colapso Interno: A Economia Encontra a Revolução

O catalisador para a atual revolta foi econômico, mas o combustível é político.

A espiral descendente do “Toman”: A moeda iraniana perdeu mais de 60% do seu valor em semanas, dizimando a classe média. Com a inflação desenfreada e o governo triplicando as taxas de impostos para cobrir o déficit orçamentário, o contrato social se rompeu.

O “Toque de Recolher de Fato”: Relatos vindos de Teerã descrevem uma capital sitiada por suas próprias forças de segurança. A internet foi cortada para romper o “cordão umbilical digital” com a diáspora, mas isso apenas impulsionou a resistência para formas mais cinéticas. Diferentemente de 2009 ou 2019, os slogans mudaram de reformas para apelos explícitos pelo fim da República Islâmica.

A Doutrina Trump 2.0: “A ajuda está a caminho”

Logo após a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, o governo dos EUA sinalizou que o Irã é o próximo alvo da “pressão máxima”.

A arma tarifária: A Casa Branca ameaçou impor uma tarifa de 25% a qualquer nação que faça negócios com Teerã. Este é um ataque direto à China e à Índia, as principais linhas de suprimento econômico do Irã.

Ambiguidade Militar: Embora o presidente Trump tenha prometido que “a ajuda está a caminho”, permanece incerto se isso significa intervenção direta (como na Venezuela) ou intensificação da guerra cibernética e por procuração. No entanto, o precedente estabelecido em Caracas aterrorizou a liderança iraniana, que teme que um “ataque de decapitação” não seja mais apenas retórica.

China e os BRICS: O Cenário de Pesadelo

Para Pequim, o caos no Irã é uma catástrofe estratégica que se desenrola em câmera lenta.

Segurança Energética: A China importa quase 1,5 milhão de barris de petróleo por dia do Irã, principalmente através da “frota paralela”. Um colapso do regime ou um bloqueio dos EUA cortaria essa artéria, agravando o choque da perda do fornecimento venezuelano.

A Fratura dos BRICS: A turbulência no Irã expõe os limites da garantia de segurança dos BRICS. Assim como no caso da Venezuela, o bloco parece impotente para proteger um Estado-membro da desintegração interna ou da pressão dos EUA. Essa “lacuna de soberania” pode levar os membros a buscarem seus próprios mecanismos de dissuasão nuclear, temendo serem os próximos.

Consequências Regionais: Japão e América Latina

As ondas de choque estão sendo sentidas em capitais muito distantes de Teerã.

Pânico Energético no Japão: Tóquio depende fortemente do petróleo do Oriente Médio. Qualquer interrupção no Estreito de Ormuz — uma provável retaliação iraniana — faria os preços da energia dispararem, ameaçando a frágil recuperação econômica do Japão. O primeiro-ministro Takaichi pode ser forçado a abandonar a tradicional neutralidade do Japão no Oriente Médio para garantir a proteção naval dos EUA para seus petroleiros.

Alerta para a América Latina: Para os líderes do Brasil e da Colômbia, a postura dos EUA em relação ao Irã reforça a mensagem enviada à Venezuela: o alinhamento com rivais dos EUA acarreta risco existencial. Podemos presenciar um esfriamento das relações entre as capitais latino-americanas e Teerã, à medida que os governos buscam evitar sanções secundárias dos EUA.

Conclusão: Um Mundo à Beira do Abismo

A situação no Irã ultrapassou a fase de repressão interna; agora é o fulcro da instabilidade global. Se o regime cair, abrirá um vácuo que poderá ser preenchido por uma guerra civil ou por um governo pró-Ocidente — qualquer um dos quais alteraria drasticamente o equilíbrio de poder. Se sobreviver pela força bruta, provavelmente acelerará seu programa nuclear, desencadeando uma guerra regional. Para o resto do mundo, a ilusão de contenção acabou; a crise iraniana agora é uma crise global.

AKA GATE: https://sites.google.com/view/aka-gate/home?authuser=0

Você também vai gostar:

Compartilhe:

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email

colunistas

Pesquisar

REDES SOCIAIS

Artigo mais lido

youtube

twitter

instagram