O Estreito de Taiwan: a escolha entre armar e negociar

Mário Machado

Mário Machado

O recente cercamento de Taiwan por um número estimado de 100 navios chineses é o episódio mais recente de pressão militar de Pequim sobre Taipei. O episódio acontece dias após o governo chinês afirmar durante a visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que trabalha para aumentar a estabilidade e segurança global. 

Pelo Estreito de Taiwan circula cerca de 20% do comércio mundial, segundo dados do CSIS (Center For Strategic and International Studies), o que dá uma dimensão clara dos riscos para a economia global envolvidos em aventuras militares na região. 

Como resposta à escalada de tensões, vemos um movimento de Japão, Filipinas e Taiwan para aumentar seus gastos em defesa e a adoção de novas doutrinas de emprego de força militar. 

Essa movimentação reforça o valor estratégico da doutrina da Cadeia de Ilhas, que articula as nações insulares do Indo-Pacífico às bases navais e capacidades militares dos Estados Unidos com o objetivo de conter e contrabalançar o poderio chinês, uma vez que esses estados podem impedir ou dificultar muito a navegação na região.

Entre os movimentos podemos destacar a visita do presidente filipino Ferdinand Marcos Jr. ao Japão, entre 26 e 29 de maio, que objetiva estreitar ainda mais as relações entre os dois países, que recentemente assinaram acordos que facilitam exercícios militares conjuntos e a troca de materiais bélicos e recursos logísticos. 

Entre os armamentos e equipamentos que as Filipinas buscam comprar do Japão estão mísseis e sistemas de radar e defesa aérea, o que aponta para uma nova abordagem de emprego de força por Manila, substituindo a tradicional ênfase em forças terrestres e operações de contra-insurgência por capacidades voltadas à defesa aérea e guerra naval. 

Nesse contexto de tensões elevadas, o Japão anunciou, em 2025, seu programa escudo (da sigla Shield – Synchronized, Hybrid, Integrated and Enhanced Littoral Defense, em inglês) de defesa nacional que prevê aumento de gastos militares na ordem de 60 bilhões de dólares para construir capacidade militar em veículos não tripulados (barcos, aeronaves e submersíveis). 

Essa modernização material e doutrinária, em conjunto com uma estratégia externa mais assertiva, indica uma mudança importante do padrão histórico japonês pós-Segunda Guerra. 

Taiwan, por sua vez, também declarou a intenção de investir em drones, além disso, ampliou seu orçamento de defesa, que agora corresponde a 3,3% de seu PIB e inclui provisão para compra de materiais bélicos dos Estados Unidos, embora essa compra possa não acontecer a depender de negociações entre Washington e Pequim. 

Os estados da região demonstram comprometimento com a defesa de seus territórios, mesmo diante do crescente poderio chinês. Contudo, a paz não depende somente de dissuasão militar, é preciso engajamento político e diálogo. 

Há muito em jogo e é preciso sempre ter em mente que uma aventura militar nessa região é uma receita para ruína econômica e desastre humanitário. Desse modo, é preciso muita temperança dos atores locais e globais envolvidos. E, sobretudo, é preciso que a China prove seu compromisso com a estabilidade global e não aja para desestabilizar o delicado equilíbrio do status quo no Estreito de Taiwan. 

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