O Brasil saiu das urnas, mas não saiu do medo. E talvez essa seja a constatação mais triste da eleição presidencial de 2026: o medo venceu a esperança.
Durante meses, milhões de brasileiros foram submetidos a uma campanha que, em vez de discutir o futuro do país, concentrou esforços em despertar o temor de perder aquilo que já possuem. Especialmente entre os mais pobres, a mensagem foi repetida à exaustão: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro colocaria em risco benefícios sociais, direitos e conquistas.
Para quem vive com pouco, qualquer ameaça de perder o mínimo necessário à sobrevivência produz consequências profundas. E foi justamente nessa vulnerabilidade que a estratégia eleitoral encontrou terreno fértil.
O governo Lula compreendeu que não precisava necessariamente convencer o brasileiro de que sua vida estava melhorando. Bastava convencê-lo de que, com o adversário, poderia piorar.
Ao mesmo tempo, o país assistiu à expansão dos gastos públicos, à multiplicação de promessas e à utilização da máquina governamental para sustentar uma narrativa de prosperidade que não encontrava correspondência na realidade de milhões de famílias.
O dinheiro público passou a desempenhar papel central nessa disputa. Enquanto o discurso oficial prometia proteção e benefícios, cresciam as preocupações com o equilíbrio fiscal e com a capacidade do Estado de sustentar tantas despesas.
A conta, naturalmente, não desaparece depois da eleição. Ela chega na forma de endividamento, juros, inflação, impostos e restrições orçamentárias. E quem mais sofre suas consequências é justamente a população que se pretendia proteger.
Essa combinação de medo e promessas revelou-se politicamente poderosa. De um lado, o receio de perder benefícios. De outro, a expectativa de receber mais. No meio, um eleitorado pressionado pelas dificuldades do presente e desencorajado a apostar em um futuro diferente.
Foi assim que, na minha avaliação, se enfraqueceu a possibilidade de uma mudança após quase duas décadas de governos petistas, somados os diferentes períodos em que o partido ocupou a Presidência da República.
Não se trata de desrespeitar a escolha de quem votou em Lula. O voto é livre e deve ser respeitado. Trata-se de questionar as condições políticas e emocionais em que essa escolha foi construída.
Uma democracia saudável deveria estimular o eleitor a comparar projetos, avaliar resultados e decidir com liberdade. Quando o medo se torna o principal instrumento de convencimento, o debate público empobrece e a esperança perde espaço.
Mas existe outro componente igualmente preocupante nessa eleição: a desconfiança.
A percepção de parte da sociedade de que o processo eleitoral poderia ter sido fraudado, independentemente da existência de provas que sustentem essa suspeita, representa um problema grave para a legitimidade política do vencedor.
É importante distinguir a legitimidade jurídica do resultado, que depende das regras e das instituições eleitorais, da confiança pública, que não se estabelece simplesmente pela proclamação de um vencedor.
Nenhuma democracia se fortalece quando uma parcela expressiva da população desconfia de suas eleições. E essa confiança não se conquista exigindo silêncio, mas oferecendo transparência, fiscalização, esclarecimentos e respeito ao direito de questionar.
O vencedor de uma eleição não recebe apenas o direito de governar. Recebe também a responsabilidade de construir legitimidade perante aqueles que não votaram nele.
O Brasil precisava sair dessa disputa com a esperança renovada, com confiança nas instituições e com disposição para enfrentar seus problemas estruturais. Em vez disso, permanece dividido, endividado e cercado de incertezas.
A vitória eleitoral de Lula não elimina as contradições de sua campanha, tampouco resolve os problemas que o país terá de enfrentar nos próximos quatro anos.
É possível vencer uma eleição explorando o medo. Muito mais difícil será governar quando as promessas encontrarem os limites da realidade.
Porque o medo pode garantir votos, mas não produz desenvolvimento. Pode impedir uma mudança, mas não oferece, por si só, um futuro melhor.
E um país que deixa de acreditar na possibilidade de mudar começa, perigosamente, a se conformar com aquilo que deveria superar.
O medo venceu a esperança. Mas a maior derrota do Brasil será permitir que ele continue vencendo.


