Pax Trumpista

Márcio Coimbra

Márcio Coimbra

Ao analisar o tabuleiro global de 2026, torna-se evidente que a criação do Board of Peace por Donald Trump não foi um ato impulsivo, mas o resultado de uma leitura geopolítica realista sobre a obsolescência das instituições do século XX. Estamos falando de uma clareza que escapou à burocracia europeia: a falência terminal do sistema das Nações Unidas. A ONU, outrora o pilar da estabilidade mundial, converteu-se em um fórum de paralisia deliberativa e parasitismo burocrático, onde o poder de veto é usado como escudo para o imobilismo e onde a retórica multilateral mascara a incapacidade de resolver conflitos reais. Ao perceber que a ordem baseada em regras de 1945 ruiu sob o peso da polarização e da ineficiência, Trump propôs uma nova gramática de poder: o pragmatismo transacional elevado ao nível de governança global.

Essa percepção de vácuo institucional já havia se tornado responsável por outras frentes abertas no xadrez internacional, como por exemplo, o surgimento e a recente expansão dos BRICS. Historicamente, o bloco consolidou-se menos como uma aliança integrada e mais como um sintoma de descontentamento com a hegemonia do G7 e das instituições de Bretton Woods, porém nasce realmente no vácuo aberto pela inoperância da ONU e suas estruturas de poder. 

Ao entender este movimento, a estratégia da política externa americana demonstra inteligência analítica, mas para compreender seu impacto, é preciso também entender os problemas da nova arquitetura de poder idealizada pela China por meio do BRICS. O bloco, que se expandiu para o BRICS+, nunca foi uma aliança monolítica ou ideológica, mas apenas um casamento de conveniência diante do chamado “unilateralismo” ocidental. Contudo, essa coalizão abriga tensões internas profundas — como rivalidades históricas e divergências de interesses entre os exportadores de energia do Golfo e os importadores asiáticos. O BRICS baseia sua existência na promessa de um mundo multipolar, mas aos poucos ficou claro de que não há espaço para essas nações na mesa de decisões. É precisamente nesta fissura que entra o Board of Peace.

Este movimento americano enfraquece o BRICS ao oferecer o que o bloco nunca pôde garantir: acesso imediato, direto e pragmático ao epicentro do poder econômico e militar, sem as amarras da burocracia diplomática. Ao instituir uma taxa de US$ 1 bilhão por um assento permanente no Conselho, Trump não está apenas “vendendo influência”, mas realizando um processo de filtragem de relevância. Ele transforma a geopolítica em um ambiente de private equity, onde o compromisso financeiro garante um stakeholder com voz ativa. Para países como Arábia Saudita, Índia ou Brasil, o BoP oferece uma alternativa tentadora: em vez de serem “sócios minoritários” em um projeto hegemonizado pela China dentro do BRICS, eles podem se tornar sócios diretos na gestão da paz e da economia global sob a égide americana.

Este jogo transacional altera a ordem internacional de forma irreversível. Ao contornar a ONU, este movimento também retira de Rússia e China sua ferramenta mais potente de obstrução: o veto no Conselho de Segurança. No Board of Peace, o poder não emana de tratados de paz obsoletos, mas da capacidade de execução e do aporte de recursos. Isso cria um novo centro de gravidade. Se os grandes fluxos de capital, as garantias de segurança regional e as negociações de infraestrutura passarem a ser decididos no “balcão” do BoP, as cúpulas do BRICS e as assembleias da ONU esvaziam-se de significado real. O pragmatismo de Trump força as nações do Sul Global a uma escolha binária: a retórica de um bloco emergente liderado por Pequim ou a eficácia transacional de um conselho presidido pelo homem que controla o dólar.

Ao operar esta engenharia política, os EUA estão aplicando um xeque-mate sem a necessidade de um confronto direto. Longe de tentar destruir o BRICS por meio de sanções ou confrontos militares, o faz tornando o bloco irrelevante. Ao atrair os membros mais influentes do BRICS+ para o BoP — usando a isca do pragmatismo e da segurança — ocorre a fragmentação da coalizão por dentro. Sem a Índia ou os gigantes do petróleo, o BRICS reduz-se a um eixo sino-russo isolado, perdendo sua legitimidade como voz do “mundo em desenvolvimento”. A China, que investiu décadas na construção de uma alternativa ao dólar e à influência americana, vê agora seu esforço ser contornado por uma estrutura que absorve seus aliados através da lógica do mercado.

Dessa forma, ao mexer as peças da geopolítica com uma ousadia que ignora os protocolos tradicionais, Trump decreta o fim do BRICS como ameaça sistêmica. Ele entendeu que, no mundo contemporâneo, a influência não é conquistada apenas pela força, mas pela capacidade de oferecer resultados rápidos em um ambiente de caos institucional. O Board of Peace é a materialização de uma nova ordem onde a diplomacia é substituída pela negociação executiva. Ao final, a história poderá registrar que o fim da multipolaridade desafiadora não veio de uma guerra, mas de uma reconfiguração do tabuleiro onde os adversários de Washington descobriram, tarde demais, que o jogo mudou de lugar. Se a inicitiva vingar, Trump fez mais do que ler o cenário, ele reescreveu o roteiro, deixando para trás instituições que já não servem ao presente e oponentes que ficaram presos a uma estratégia de bloco que o Board of Peace acaba de tornar obsoleta.

A eficácia desta manobra depende, claro, da capacidade de Trump de manter a coesão deste novo “conselho de administração” global. No entanto, ao substituir o direito internacional pela governança corporativa, ele estabelece uma nova linguagem diplomática transacional — mais flexível, mais lucrativa e imensamente mais difícil de ser combatida por métodos tradicionais. É o triunfo da realpolitik sobre o idealismo, um xeque-mate silencioso que pode, de fato, ter alterado o modelo geopolítico que conhecemos. 

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