Segundo qualquer cálculo convencional, o regime cubano deveria estar negociando com os Estados Unidos. A campanha do governo Trump para forçar mudanças na ilha surgiu em um momento que parecia ideal. Com Nicolás Maduro preso, o fornecimento de petróleo venezuelano interrompido, a economia cubana em frangalhos e uma acusação formal da justiça americana pairando sobre o ex-presidente Raúl Castro, esperava-se que Havana compreendesse a gravidade de sua situação. Além disso, o governo americano exigiu reformas, e não o fim da revolução cubana. Um governo preocupado com sua própria sobrevivência buscaria dialogar com Washington.
Não foi o que aconteceu. Embora Havana tenha recebido autoridades americanas de alto escalão e participado de negociações de bastidores, o regime liderado por Miguel Díaz-Canel recusou-se a ceder, mantendo a detenção de dissidentes. O governo anunciou uma série de reformas econômicas, mas fez questão de descrevê-las como o “aperfeiçoamento da construção do socialismo”; de qualquer forma, possui um longo histórico de reverter tais medidas assim que a pressão diminui.
Washington classificou as reformas como superficiais, e suas exigências vão muito além da economia: o governo americano quer a libertação de presos políticos, a retirada de operações de inteligência russas e chinesas e avanços nas reivindicações de propriedade pendentes.
Vários fatores podem contribuir para essa resistência: o regime certamente teme que qualquer tipo de reforma enfraqueça o domínio do Partido Comunista. Pode acreditar que o presidente Donald Trump já decidiu agir contra ele, e a disputa entre facções internas provavelmente gera inércia.
No entanto, um fator frequentemente ignorado é central para a recusa do regime em negociar: a profunda doutrina antiamericana que está na essência do regime. O antiamericanismo da revolução cubana exerce uma influência poderosa — tanto em nível individual quanto institucional — ao colocar a cooperação com Washington fora do espectro de ideias aceitáveis.
É isso que diferencia Cuba da Venezuela. O chavismo era um movimento com pouco mais de uma geração de existência, sustentado pela renda do petróleo e pela lealdade a um líder carismático. A revolução cubana teve 67 anos para se institucionalizar e se fundir à identidade nacional. A resistência ao “Colosso do Norte” é um elemento fundamental na narrativa que os comunistas cubanos constroem sobre sua história e seu lugar no mundo, figurando entre as últimas fontes de legitimidade do regime.
O “bloqueio” americano ocupa o centro dessa narrativa. Como propaganda voltada para os cubanos comuns, a estratégia é apenas parcialmente bem-sucedida; a maioria sabe perfeitamente que o embargo não é a fonte de sua miséria, mas sim a própria incompetência do regime. Apontar o embargo como a “causa principal” dos problemas de Cuba fornece ao regime uma desculpa pronta para o fracasso e cria uma realidade na qual qualquer entendimento com Washington não é visto como pragmatismo, mas como capitulação ao inimigo. Não é preciso que um único membro da elite acredite sinceramente nessa doutrina para que ela os una a todos — sua função é menos persuadir do que disciplinar.
É verdade que o regime negociou no passado, quando concordou com a reaproximação de 2014 sob o governo do presidente Barack Obama, mas esse episódio prova muito pouco: Washington não exigiu nenhuma mudança significativa, o regime não cedeu em nada e apenas aproveitou a abertura. É tentador pensar que as conversas recentes sugerem uma disposição para negociar, ou talvez até a existência de uma figura reformista em algum lugar do sistema. Mas, mesmo que os Estados Unidos tenham identificado uma “Delcy Rodríguez” cubana, essa pessoa precisa sobreviver tempo suficiente para alcançar algo. Em Cuba, a autoridade publicamente apontada como “homem de Washington” não se torna um agente de transição; ela se torna um traidor e é tratada como tal.
O que Washington poderia fazer de diferente? A falha mais profunda da abordagem atual é que intensificar a pressão e restringir o fornecimento de combustível fortalece a mentalidade de cerco dentro do regime e provavelmente reduz o espaço existente para discussões substantivas.
Um caminho mais sensato seria aliviar a pressão humanitária e encontrar uma via — possivelmente por meio da mediação de terceiros, como o Vaticano — que permitisse ao regime apresentar a mudança como uma escolha soberana própria, em vez de uma capitulação aos Estados Unidos.
Mesmo que Washington agisse com total acerto, as chances de sucesso seriam pequenas. Os homens que controlam os serviços de segurança de Cuba e a economia gerida pelos militares são os que mais têm a perder com qualquer abertura genuína, e a doutrina antiamericana é justamente o que lhes permite defender esse interesse próprio como algo mais nobre.
Cuba precisa urgentemente de mudanças, e a determinação do presidente Trump em trazer alívio após 67 anos de má gestão é louvável. No entanto, a estratégia atual de Washington reforça a narrativa mais antiga do regime e torna a recusa uma opção fácil demais. Pode ainda restar uma janela estreita, mas o momento em que uma estratégia mais sutil poderia ter funcionado talvez já tenha passado.


