A onda de vitórias das correntes da direita parece ter chegado ao Brasil, dotando esse campo político de maiorias no Senado e o governo de vários estados, além de ter levado seu candidato ao segundo turno, na liderança da corrida eleitoral. Independente da corrente ideológica, o vencedor do Segundo Turno terá que navegar por um cenário internacional desafiador. A política externa, tratada nas campanhas de forma superficial, será um dos terrenos em que o novo governo será testado mais rápido.
O primeiro item na agenda é a relação com os Estados Unidos. O retorno do protecionismo e o uso de tarifas como instrumento de pressão política mostraram que o comércio bilateral pode ficar refém de disputas ideológicas, e mesmo concordâncias e alinhamentos ideológicos não retiram forte pressão dos EUA, a rejeição interna do público americano a carne argentina, mesmo com o alinhamento dos governantes, exemplifica os limites desses alinhamentos quando a base do governo Trump se mostra refratária a importações em geral.
O segundo é a China, nosso maior investidor direto. A venda de soja, minério e petróleo garante superávits, que agradam setores do agronegócio, mas as importações da China são alvos de protestos constantes dos setores industriais. Cabe ao próximo presidente buscar abrir mercado para exportações com maior valor agregado e atrair investimentos que gerem tecnologia e empregos aqui, ao mesmo tempo que evite ser cooptado pela rivalidade entre Washington e Pequim.
As relações com parceiros grandes como China e Estados Unidos mostram que é preciso preparar o que é interesse nacional permanente (acesso a mercados, investimentos, cooperação tecnológica) das afinidades ou antipatias do governante da hora. Mas, tanto as bases de Lula como a de Flávio Bolsonaro têm posições muito calcificadas quanto aos Estados Unidos e China, opostas é verdade, mas que igualmente agem como freio para posturas mais pragmáticas.
Na lista das relações que precisam de atenção temos também a agenda europeia. O acordo Mercosul-União Europeia, negociado por mais de vinte anos, segue cercado de resistências agrícolas e exigências ambientais. Concluí-lo e implementá-lo seria um contrapeso valioso tanto quanto a China e Estados Unidos, mas exigirá credibilidade na proteção da Amazônia, velha exigência e para alguns desculpa européia para resistir ao acordo. E é outro tema que deve encontrar muita resistência no Congresso e nas bases.
As políticas climáticas são, ao mesmo tempo, nosso maior ativo diplomático e nossa maior vulnerabilidade. Depois de sediar a COP30, em Belém, o país carrega a expectativa de liderar com resultados concretos: queda do desmatamento, financiamento florestal, transição energética. Retórica sem entrega custará caro em reputação e em acesso a mercados. Abandonar essa agenda pode prejudicar até setores do agronegócio, que dependem de certificação ambiental para acesso a mercados lucrativos.
Soma-se a isso a corrida por minerais críticos e tecnologia. O Brasil tem reservas relevantes e energia limpa em abundância, o que o torna peça cobiçada. A pergunta é se seremos apenas fornecedores de matéria-prima ou sócios na cadeia de valor, com processamento, pesquisa e indústria instalados em território nacional.
Na América Latina, temos como itens importantes na agenda internacional a instabilidade venezuelana, as fragilidades e contradições do Mercosul e o avanço do crime organizado transnacional que exigem liderança brasileira e concertação com os vizinhos.
Quem subir a rampa do Palácio do Planalto dia 1º de janeiro terá uma agenda externa com dilemas importantes para o Interesse Nacional brasileiro e terá que navegar interesses concorrentes e antagônicos de diversos setores econômicos e sociais, em um cenário interno carregado ideologicamente que age como limite ao pragmatismo, desse modo, parafraseando Machado de Assis, em política externa ‘ao vencedor, as batatas quentes’.


