Uma conversa honesta com o povo brasileiro e um alerta duro para os suspeitos de sempre

Adolfo Sachsida

Adolfo Sachsida

Não é fácil escrever um texto desse tipo — dá a impressão de que sou um oráculo e que apenas eu enxergo a verdade. Por isso, começo dizendo o óbvio: este texto apenas organiza, em palavras e parágrafos estruturados, o que muitos analistas de mercado já sabem com razoável grau de precisão. Seu único mérito é deixar claras as consequências econômicas de uma reeleição de Lula.

Tecnicamente, uma relação dívida/PIB elevada não é, por si só, motivo para alarde. É evidente que um endividamento elevado cria fragilidades e expõe o país a riscos maiores — sobretudo aos chamados riscos de cauda, que a literatura batiza de “cisnes negros”. Mas, na maior parte do tempo, se for possível rolar a dívida a taxas baixas, o problema do endividamento se reduz bastante.

Infelizmente, não é o caso do Brasil. Atualmente, a dívida bruta brasileira está em 81,9% do PIB

— patamar elevado para um país com o nosso nível de renda. Para dar uma ideia da trajetória: em dezembro de 2022, esse valor era de 71,7%. Ou seja, em três anos e meio, a dívida pública brasileira cresceu incríveis 10,2 pontos percentuais do PIB. E não bastasse o nível já elevado, o custo de rolagem dessa dívida está em patamares insustentáveis. Basta dizer que, em junho deste ano, o déficit nominal do setor público acumulado em 12 meses chegou a R$ 1,3 trilhão — 10% do PIB, valor superior ao registrado durante a pandemia de Covid-19.

Em termos técnicos, um país com o endividamento atual do Brasil e um custo de rolagem que em alguns casos chega a IPCA +8,3% é economicamente inviável. Essa taxa de juros implica um custo de rolagem capaz de dobrar o tamanho da dívida em menos de seis anos — algo insustentável dado o volume já acumulado. Tanto o endividamento em relação ao PIB quanto o custo de rolagem estão em níveis críticos, e esse custo drena recursos que poderiam financiar o crescimento do setor privado, direcionando-os para títulos do Tesouro. Além disso, o Estado passa a competir cada vez mais por recursos com o setor privado, encarecendo o custo de produção no Brasil — o efeito conhecido na literatura como crowding-out: à medida que o gasto do governo aumenta, o gasto do setor privado encolhe. Some-se a isso o aumento da carga tributária necessário para sustentar a expansão dos gastos públicos, e teremos uma situação extremamente difícil para o setor privado da economia.

O endividamento elevado, o aumento dos gastos e o custo de rolagem da dívida pública retiram recursos do setor privado e os transferem ao setor público, com efeitos negativos diretos sobre

produtividade, emprego e renda da sociedade. Nada disso é novidade para quem acompanha temas econômicos. Vamos então avançar um passo: é justamente por causa dessa situação fiscal delicada que a eleição do próximo presidente é decisiva para o que vai acontecer em 2028.

Note-se que o destino de 2027 já está dado: haverá redução da atividade econômica, pouco importa quem seja o próximo presidente. A dúvida real é o tamanho dessa retração e o que vem depois, em 2028. Vejamos dois cenários possíveis.

Primeirocenário:elegemos um candidato comprometido com o ajuste das contas públicas. Dado o tamanho do desarranjo fiscal, esse ajuste provocará redução da atividade econômica em 2027. Mas, se as medidas forem tomadas na direção correta, a trajetória da dívida/PIB se corrige, e a partir do segundo semestre de 2028 começa um processo de recuperação econômica. Uma equipe econômica experiente é capaz de colocar a casa em ordem em cerca de um ano e meio. Não é fácil, e não vamos virar a Suíça — mas é perfeitamente possível com técnica, experiência e credibilidade. Em paralelo, um amplo processo de desburocratização, desregulamentação, privatizações, abertura econômica e outras medidas pró-mercado tem potencial de destravar um crescimento relevante, reduzindo os custos do ajuste e liberando recursos para que o setor privado retome seu papel central no aumento da produtividade, na geração de empregos e no crescimento da renda. Combinadas, essas medidas fiscais e pró-mercado têm potencial de reduzir a taxa de juros estrutural, ancorar expectativas, reduzir o custo-país, reduzir o risco-Brasil, reduzir a inflação e elevar investimento, emprego e renda.

Segundo cenário: elegemos um candidato não comprometido com o ajuste fiscal, que apenas empurra com a barriga o problema das contas públicas e da baixa produtividade da economia brasileira. Nesse caso, ocorre um processo acelerado de desancoragem das expectativas, aumento do risco-Brasil e pressão simultânea sobre juros e inflação. Esse processo não se reverte nem com corte de juros pelo Banco Central — justamente por causa do nosso endividamento elevado e da fragilidade fiscal. Mesmo que o BC reduza a Selic, o Tesouro acaba pressionado a pagar juros mais altos em seus títulos, o que piora ainda mais a situação fiscal e retroalimenta um círculo vicioso: contas públicas piores, risco-país maior, inflação elevada e juros cada vez mais altos para rolar a dívida.

E aqui deixo meu alerta para os suspeitos de sempre: muitos de vocês apostam justamente no segundo cenário, na expectativa de embolsar taxas de IPCA +10%, +11% ou +12%. Prestem atenção no que vou dizer: um governo eleito nesse segundo cenário não terá problema algum em aprovar controle de capitais e um “haircut” na dívida. Sim, meus amigos — esse termo já rondou

a Casa Civil em 2015, quando alguns “craques” sugeriam exatamente isso: um haircut na dívida, ou, em palavras simples, um calote em parte dela.

Entendo o raciocínio de vocês, mas falta um segundo passo na análise. Vocês acreditam que um governo sem compromisso fiscal vai pagar juros elevados para rolar a dívida e que vocês vão embolsar um bom dinheiro com isso. Essa leitura está correta — para o primeiro momento. Mas, no momento seguinte, quando a situação ficar insustentável, vocês realmente acreditam que vão receber tudo o que lhes é devido? Não se iludam: um governo sem compromisso fiscal não tem dificuldade nenhuma em dar o calote nos detentores de títulos — especialmente nos que têm os valores mais altos.

Fica registrado o alerta: eleger Lula joga o Brasil no segundo cenário. E a você, que carinhosamente chamo de “suspeito de sempre” — que vive vazando informações para a imprensa dizendo que um eventual governo Lula 4 teria responsabilidade fiscal —, fica o recado: você vai levar um calote nos seus investimentos. E não adianta dizer que isso é péssimo para o Brasil — eu concordo com você. O problema é que você votou e fez campanha justamente por um grupo que não tem problema algum em impor controle de capitais e um haircut. Aposto que agora bateu o medo, certo? Que este alerta sirva para abrir seus olhos. Vamos trabalhar para eleger um presidente que compreenda que a consolidação fiscal e as reformas pró-mercado são essenciais para todo o povo brasileiro — especialmente para os mais vulneráveis, que são as maiores vítimas do desemprego e dos processos inflacionários.

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