O meteoro no espelho d’água: o fundo do poço do Amorinato

Marcos Degaut

Marcos Degaut

Diante do Palácio Itamaraty, em Brasília, repousa sobre o espelho d’água uma esfera de mármore de Carrara partida em cinco gomos, um para cada continente. Bruno Giorgi chamou-a Meteoro. Oscar Niemeyer cercou o edifício de água para que seus arcos parecessem flutuar, e, por décadas, aquele conjunto representava um Brasil que olhava o mundo com serenidade e competência.

Há, contudo, algo de involuntariamente profético na composição. Meteoro é a pedra que despenca do céu. E um espelho d’água, quando estagna, deixa de refletir o céu e passa a exibir apenas o lodo do fundo. Depois de cinco mandatos petistas, é isso que se vê ali: não o Brasil no mundo, mas o fundo do poço de uma instituição que já foi orgulho nacional.

Não há hipérbole na expressão. Certas quedas se medem em adjetivos. A do Itamaraty se mede em números. Em 2002, último ano antes da chegada de Lula ao Planalto, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) recebia cerca de 0,18% do orçamento da União. Em 2025, segundo o sindicato dos servidores da Casa, a fatia desceu a 0,08%, o menor patamar em mais de duas décadas, e em 2026 não saiu do lugar: R$ 5,4 bilhões num orçamento federal de R$ 6,54 trilhões. Oito centavos em cada cem reais.

É com esse troco que o Estado brasileiro pretende manter mais de 220 postos no exterior, amparar os milhões de brasileiros que vivem fora e abrir mercados para a soja, o minério e o petróleo que sustentam a balança comercial. O piso histórico foi alcançado, não por acaso, sob o lema da política externa “ativa e altiva”, cunhada por Celso Amorim, chanceler nos dois primeiros governos petistas e hoje assessor especial da Presidência. Ativa nas viagens, altiva nos discursos vazios, inadimplente nos aluguéis.

A última frase não é figura de linguagem. Em setembro de 2024, a Secretaria-Geral do Itamaraty pediu ao Ministério do Planejamento R$ 200 milhões para evitar o despejo de embaixadas e consulados e advertiu que a União poderia sofrer multas e ações judiciais no exterior. No mesmo pedido constavam R$ 8,5 milhões para hospedar e transportar a comitiva presidencial em Nova York.

Em outubro de 2025, o chanceler Mauro Vieira precisou pedir mais de R$ 350 milhões em crédito suplementar, porque o orçamento do ano só cobria as despesas até aquele mês. Em 2026, a escassez atrasou o auxílio-moradia de diplomatas e outros funcionários do Serviço Exterior Brasileiro no exterior, empurrou o pagamento de diárias para várias semanas depois do regresso dos funcionários que realizaram as viagens e alcançou a emissão de passaportes na rede consular.

O ministério negou a restrição, mas a própria nota oficial informava que as encomendas de material à Casa da Moeda haviam sido retomadas, “superadas as restrições orçamentárias”. Só se retoma o que foi interrompido. Nenhuma potência estrangeira impôs essa humilhação ao Brasil. Ela foi autoinfligida.

O descalabro já seria problema contábil sério se viesse acompanhado de uma política externa lúcida. Veio, contudo, acompanhado do oposto. Os erros de um governo apenas incompetente se distribuem ao acaso. Os de Lula 3 caem todos do mesmo lado. Em fevereiro de 2023, o governo autorizou dois navios de guerra iranianos a atracar no Rio de Janeiro, ignorando apelos expressos de Washington. Em março, Amorim estava no Kremlin, sentado diante de Vladimir Putin. Em abril, em Pequim, Lula cobrava dos Estados Unidos que parassem de “incentivar a guerra”, como se a Ucrânia tivesse invadido a si mesma.

Em maio, estendeu tapete vermelho a Nicolás Maduro, sob a tese de que o autoritarismo venezuelano era uma “narrativa”. Prosseguiu, em sua marcha da insensatez, comparando, em fevereiro de 2024, a guerra em Gaza e o Holocausto, o que lhe rendeu a condição de persona non grata em Israel e ao Brasil a retirada de seu embaixador em Tel Aviv. Diante da fraude escancarada nas eleições venezuelanas daquele ano, o governo jamais chamou a fraude pelo nome, e Lula chegou a sugerir “novas eleições”, como se o vencedor da primeira fosse desconhecido.

Em maio de 2025, o presidente do Brasil assistia em Moscou, como convidado de Putin, ao desfile militar do Dia da Vitória, em plena guerra de agressão contra a Ucrânia. Meses depois, atravessou o tarifaço americano tratando como palanque o que exigia mesa de negociação.

O último ano desse abominável mandato trouxe o desfecho lógico dessa trajetória. Em janeiro de 2026, quando forças norte-americanas capturaram Maduro, o Planalto reagiu com veemência que jamais dedicou à fraude eleitoral de Caracas, e logo o presidente defendia que o ditador, acusado de narcotráfico, fosse julgado na própria Venezuela, isto é, pelos tribunais que ele mesmo aparelhou.

Em julho, um ofício assinado por Vieira advertiu a Câmara dos Deputados que a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas poderia abrir caminho para o uso de força militar norte-americana em território brasileiro. O Departamento de Estado chamou a hipótese de absurda. Quando a chancelaria de um país teme mais o aliado que combate as facções do que as facções que aterrorizam seus cidadãos, a bússola não está desregulada. Está invertida. Para ditaduras amigas, compreensão. Para democracias aliadas, desconfiança. Isso não é pragmatismo, nem neutralidade. É alinhamento, e com o lado errado da história.

Na cadeia de comando dessa política destrutiva, os papéis estão bem distribuídos. Lula concebe, Amorim formula, Mauro Vieira assina. Diplomata com mais de cinco décadas de carreira, Vieira assistiu sem reação à asfixia financeira da Casa, colecionou convocações ignoradas no Congresso, a ponto de a oposição protocolar, em julho deste ano, um pedido de impeachment por seis ausências na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, e reduziu o cargo de chanceler ao de síndico de massa falida, que assina mês a mês pedidos de crédito para pagar o aluguel. A verdade, porém, é mais cruel do que a crítica. O síndico não é o dono. A política externa de Lula 3 é concebida no Planalto, à sombra de Amorim, e apenas despachada no Itamaraty. Raras vezes o Brasil teve um chanceler tão presente na foto e tão ausente da decisão. E raras vezes teve um assessor tão ausente da foto e tão presente em cada decisão.

O Amorinato, entretanto, é anterior a Vieira e mais profundo do que ele. Nasceu em 2003, quando a política externa brasileira passou a ter dois andares de comando: o da chancelaria, entregue a Amorim, e o do Planalto, entregue a Marco Aurélio Garcia, secretário de Relações Internacionais do PT e um dos articuladores do Foro de São Paulo. Na Secretaria-Geral, Samuel Pinheiro Guimarães fazia do antiamericanismo doutrina de Estado. Desde então, com o breve hiato de 2016 a 2022, durante o qual a confraria da companheirada se recolheu e esperou, não sem trabalhar nas sombras para sabotar gestões, como inescrupulosamente já se gabaram publicamente, essa casta manda no Itamaraty há quase um quarto de século.

Nos dois primeiros mandatos de Lula, foram abertas 72 embaixadas, consulados e representações, a maioria mais útil à vitrine terceiro-mundista do que ao interesse nacional. Multiplicaram-se os postos sem multiplicar o orçamento que os sustentaria, e a carreira cresceu sem que crescessem as vagas de topo capazes de absorvê-la. Montou-se uma pirâmide financeira de expectativas, em que cada geração recebia a promessa de um futuro pago com vagas que jamais existiriam.

Enquanto isso, a cúpula se perpetuava. As promoções passaram a depender menos do mérito aferível do que da proximidade com o grupo que controlava as listas, e quem quisesse chegar ao topo aprendeu que a senha não era competência, mas pertencimento. A Casa de Rio Branco converteu-se naquilo que descrevi nestas páginas, em abril: um clube de amigos, onde a lealdade à confraria vale mais do que a lealdade ao Estado. Em 2019, Amorim dizia que o que se fazia com o Itamaraty não era falta de habilidade, mas “um projeto”. A palavra era boa. Faltou-lhe espelho.

A conta foi cobrada da própria carreira, sobretudo das gerações mais jovens. Em agosto de 2024, a Associação dos Diplomatas Brasileiros aprovou pela primeira vez um indicativo de greve. Lembrou, na ocasião, que um diplomata pode levar até trinta anos para chegar ao topo, enquanto outras carreiras de Estado o fazem em pouco mais de dez, e que a aposentadoria compulsória aos 75 anos, somada a vagas rígidas por classe, mantém parcela considerável do quadro estagnada nos degraus iniciais e intermediários.

Franz Kafka escreveu a parábola dessa condição em Diante da Lei: o homem que passa a vida inteira à espera diante de uma porta e que, já moribundo, ouve do porteiro que aquela entrada se destinava apenas a ele e que agora seria fechada. Há secretários e conselheiros envelhecendo dentro dessa parábola, diante de uma porta que só se abre para quem traz a senha da panelinha.

O Brasil é dos raros países cujo território foi desenhado mais por diplomatas do que por generais, desde Alexandre de Gusmão, que no Tratado de Madri, em 1750, converteu a ocupação luso-brasileira em fronteira jurídica, e a Casa reúne quadros competentes, selecionados por um dos concursos mais exigentes do país. Seria cômodo, porém, e falso, absolvê-la por inteiro. Nenhuma instituição é aparelhada sem a colaboração de quem está dentro dela. Muitos assistiram calados, outros fizeram carreira pela adesão, e o silêncio de uma corporação treinada para pesar cada palavra também é uma forma de assinatura.

A diplomacia de língua portuguesa, de resto, já teve outro Vieira. O jesuíta Antônio Vieira, que dom João IV enviou a Paris, Haia e Roma para sustentar a Restauração, pregou em 1655 o Sermão da Sexagésima para perguntar por que a palavra divina, sendo tão poderosa, dava tão pouco fruto. A resposta, desconcertante para o púlpito, serve ao caso: a culpa não estava na semente nem no terreno, mas nos pregadores. No Itamaraty de hoje, os pregadores têm nome, sobrenome e gabinete.

A história conhece bem instituições que apodrecem pelo comando, e sabe como elas se recuperam. Há quase exatos 220 anos, a Prússia perdeu numa única jornada o exército que Frederico, o Grande, legara como o mais temido da Europa. Era uma máquina em que o oficialato pertencia ao berço, e a promoção a critérios de proximidade pessoal com a corte e com o comando do exército.

Em Auerstadt, o comando cabia ao duque de Brunswick, de 71 anos, que tinha a seu lado o marechal Möllendorff, de 82. Do lado francês, Davout, que ali os derrotou com metade dos homens, tinha 36. Napoleão, que no mesmo dia esmagava o restante das tropas prussianas em Jena, a pouco mais de 20 quilômetros, tinha 37. Não faltou coragem aos granadeiros prussianos. Faltou ao exército uma escada por onde o talento subisse antes de envelhecer.

Instituições raramente se reformam na abundância. A Prússia humilhada poderia ter se resignado. Fez o contrário. Em 1808, uma comissão de reorganização militar conduzida por Gerhard von Scharnhorst, filho de um arrendatário rural num exército de aristocratas, aboliu o privilégio de nascimento no oficialato e estabeleceu que o acesso ao comando dependeria, na paz, do conhecimento e da instrução e, na guerra, da bravura. Scharnhorst não salvou a Prússia com mais soldados. Salvou-a com outra regra de promoção. Menos de nove anos depois de Jena, foi a chegada dos prussianos que decidiu a vitória na Batalha de Waterloo. O colapso não foi o fim da Prússia. Foi sua matéria-prima.

O Itamaraty precisa de seu 1808, mas não há Scharnhorst possível onde os responsáveis pela decadência continuam a comandar os destinos da instituição. A reforma necessária é de arquitetura. Sob Lula, a chancelaria não encontrará o caminho da regeneração. Continuará prisioneira das mesmas (des)lealdades políticas, dos mesmos vícios corporativos e de uma concepção de mundo que confunde interesse nacional com afinidades ideológicas. O resultado previsível não é apenas a continuidade da decadência, mas seu aprofundamento, agora em circunstâncias internacionais potencialmente muito mais adversas.

Imagine-se, por exemplo, cenário em que Washington, diante de questionamentos sobre a legitimidade do processo eleitoral brasileiro, decida não reconhecer o regime de Lula. Como reagiria um Itamaraty que passou anos hostilizando a principal potência do hemisfério, relativizando o autoritarismo de aliados ideológicos e subordinando a política externa aos caprichos de um gabinete paralelo? Que capacidade teria de reconstruir pontes uma chancelaria que ajudou a incendiá-las?

Com a continuidade de Lula, entretanto, o que se encontrará é uma instituição exausta, consciente da própria exaustão, sem nenhuma perspectiva de reforma ou de relevância, politicamente capturada, administrativamente enfraquecida e cada vez mais distante de sua missão de Estado.

O Brasil perdeu a oportunidade histórica de arrancar o Itamaraty das garras do lulopetismo e fazê-lo voltar a servir ao Brasil, e não a um partido, a uma casta ou à nostalgia terceiro-mundista dos anos 2000. O Itamaraty de 2027 poderia vir a emular a Prússia de 1808, mas permanecerá a Prússia de 1806.

Os antigos acreditavam, e Aristóteles registrou a crença, que do fundo de um poço profundo se podiam ver as estrelas em pleno dia. A física desmentiu a lenda. A história, não. É do fundo que as instituições voltam a enxergar o céu, porque lá embaixo já não resta nada a perder senão a cegueira. No dia em que a água diante do Palácio dos Arcos voltar a ser límpida, o Meteoro de Giorgi deixará de parecer uma pedra caída e voltará a ser o que sempre foi: os cinco continentes reunidos em mármore, à espera de um país que saiba o que quer deles. E o espelho d’água devolverá, enfim, aquilo para que foi feito. Não o palácio, mas o céu do Brasil.

Mas isso não acontecerá sob Lula 4. O problema já não é a profundidade do poço, mas a obstinação insana de quem insiste em continuar cavando. No Amorinato, até o lamaçal é apresentado como uma conquista diplomática.

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