A guerra que, no momento, vai atravessando o Oriente Médio deriva, principalmente, de um antigo e existencial litígio entre a República islâmica do Irã e Israel. Os Estados Unidos que, sob comando do presidente Donald Trump, tomou iniciativa da guerra ao lado do antigo aliado Israel, foi fator deflagrador em uma guerra que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Para Israel, melhor que tenha sido mais cedo; pois, se fosse mais tarde, depois que o Irã tivesse produzido bombas atômicas, o pequeno país poderia ser riscado do mapa antes de qualquer reação possível.
Com efeito, desde a revolução islâmica de 1979, com a implantação da teocracia comandada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, a República islâmica do Irã tem por objetivo explícito e declarado destruir Israel. Khomeini repetia-se em exortações pela destruição do Estado judeu, no que foi seguido pelo seu sucessor aiatolá Ali Khamenei, recentemente eliminado; ambos diziam coisas assim: “Israel é um tumor cancerígeno que deve ser extirpado”; “Israel deve ser eliminado do mapa”; “Israel terá um destino amargo e doloroso” e por aí vai.
É fato inegável que a ditadura teocrática do Irã pretende destruir Israel; Israel, por sua vez, não pretende destruir o Irã, mas destruir o regime dos fanáticos aiatolás, que não só inflamam seus acólitos com o discurso da destruição de Israel, como financiam, armam e instrumentalizam grupos terroristas que constantemente o atacam.
Certamente que uma guerra pode ter desfechos imprevistos, torço, porém, pelo melhor desfecho: que à vitória de Israel some-se a vitória do povo iraniano; isto porque, do ponto de vista da liberdade e do progresso, o fim da abominável ditadura dos aiatolás é também do interesse da maioria das gentes do Irã, que é a antiga Pérsia, o centro de um Império que conduziu uma magnífica civilização da Antiguidade.
As mulheres são as mais visadas pela crueldade do regime teocrático ora ameaçado, podendo ser submetidas à prisão, chicotadas e pena de morte por “crimes” como adultério, mostrar o rosto ou mesmo usar o hijab de forma inadequada.
Em tão atrasado regime, palco das mais cruéis intolerâncias, também são duramente perseguidos os homossexuais, que podem ser presos, chicoteados e executados pelo “crime” de manter relações homoafetivas.
Tudo isso é coisa já sabida, constatada e extensamente divulgada; se aqui repito o que todo mundo sabe é porque, no debate que se tem travado em torno da guerra em curso, a maior parte da turma da esquerda, fincando pé na monocórdica campanha “anti-imperialista”, toma hipocritamente o partido do regime dos aiatolás, a despeito de todas as atrocidades por ele perpetradas.
Sim, ocorrem erros na condução da guerra, como foi o caso da explosão de uma escola de meninas em Minab. Os EUA não assumiram responsabilidade oficial, mas investigações internas preliminares indicam que é “provável” ou “muito provável” que forças americanas tenham sido responsáveis, possivelmente por erro de inteligência (a escola ficava ao lado de uma antiga base naval da Guarda Revolucionária Islâmica, que pode ter sido o alvo pretendido).
Um acidente triste e lamentável. Mas por que aqueles que se apressaram em difundir como real uma imagem falsa, gerada por IA, acerca do referido episódio não se deram ao trabalho de criticar também o recente massacre perpetrado pelo regime contra os manifestantes que lutavam por liberdade? Por que não se indignaram por ocasião daquela brutal repressão que deixou dezenas de milhares de vítimas?
Como observa Brendan O’Neill, ativistas e comentaristas que nunca expressaram indignação diante da repressão brutal do regime teocrático iraniano – das execuções de dissidentes à perseguição sistemática de mulheres e minorias – tornam-se subitamente inflamados quando uma ação militar ocidental ameaça o poder dos aiatolás.
Essa inversão moral decorre de uma lógica ideológica segundo a qual todo mal no mundo deve ser, em última instância, atribuído ao Ocidente.
Essa postura tem sido criticada de forma particularmente contundente pela escritora Ayaan Hirsi Ali, que há décadas denuncia a complacência ocidental diante do islamismo político. Para ela, o regime iraniano não é simplesmente um governo autoritário entre outros, mas uma expressão de um projeto ideológico mais amplo que busca submeter a sociedade à lei religiosa e suprimir direitos fundamentais, sobretudo os das mulheres.
A própria existência de um sistema que pune com chicotadas, prisão ou morte comportamentos privados deveria ser suficiente para expor o caráter profundamente iliberal dessa ordem política. Ainda assim, setores da opinião pública ocidental preferem relativizar tais abusos, temendo que a crítica ao islamismo seja confundida com intolerância cultural.
O paradoxo torna-se ainda mais evidente quando se observa quem são as principais vítimas do regime iraniano: mulheres que desafiam o véu obrigatório, jovens que protestam nas ruas, minorias religiosas, homossexuais e dissidentes políticos. Ou seja, exatamente aqueles grupos cuja defesa constitui, em tese, o núcleo moral do progressismo contemporâneo. No entanto, quando esses mesmos indivíduos se levantam contra a tirania teocrática, muitos dos que proclamam defender os oprimidos preferem o silêncio ou, pior ainda, denunciam como “imperialista” qualquer força que ameace enfraquecer o regime que os oprime.
No fundo, essa contradição revela algo mais profundo do que mera incoerência circunstancial, ela denuncia uma crise intelectual do próprio pensamento político ocidental. Quando a lente ideológica se torna tão rígida que impede reconhecer a diferença entre uma sociedade aberta e uma teocracia repressiva, a análise política degenera em propaganda. A defesa da liberdade deixa de ser um princípio universal e transforma-se em instrumento seletivo, aplicado apenas quando conveniente ao esquema narrativo dominante.
A questão decisiva colocada pela guerra em curso é, além de geopolítica, também moral e civilizacional. Se o regime dos aiatolás cair, será um golpe contra um dos centros mais poderosos do islamismo político contemporâneo. E, talvez mais importante, poderá abrir caminho para que o povo iraniano recupere aquilo que lhe foi confiscado desde 1979: a possibilidade de viver em liberdade.


