As eleições em Taiwan, marcadas para novembro, intensificaram os casos de uso de desinformação por parte da China para buscar influenciar nos resultados do pleito, beneficiando forças políticas mais aliadas a Pequim.
O processo eleitoral agudizou um problema que não é recente. Nos últimos anos, Taiwan se tornou um dos principais alvos de campanhas de desinformação que podem ser classificadas como uma verdadeira Guerra Cognitiva, isto é, buscar controlar o estado mental e comportamental de uma população por meio de estímulos em seus ambientes. Nesse tipo de combate um dos “armamentos” mais eficazes são as fakenews.
Para exemplificar uma campanha de desinformação, temos o caso dos exercícios militares anuais Han Kuang, concluídos, em 14 de agosto de 2026. Esse é um exercício de larga escala, que dura 10 dias e visa testar a efetividade e a prontidão das forças taiwanesas diante de vários cenários de uma possível invasão chinesa, entre as novidades desse exercício se destaca treinamentos para aumentar a resiliência digital diante da interrupção de sinais de comunicação e invasão de redes.
Um dos pontos desse treinamento de resiliência foi testar a evacuação de autoridades, o tempo de chegada até bunkers e as formas de manter uma cadeia de comando ativa nos momentos iniciais de uma possível invasão. As imagens reais desse treinamento foram aproveitadas e distorcidas, como se estivesse havendo um ensaio da retirada da liderança da ilha durante uma invasão e abandono da população à própria sorte. Esse material passou a circular em redes sociais e aplicativos de mensagens, muitas vezes reaproveitando plataformas populares entre a diáspora chinesa e taiwanesa.
Essa campanha de desinformação foi desenhada para minar o moral da população, esgarçar a confiança da população nas autoridades civis e militares e sugerir fragilidade nas instituições democráticas da ilha.
A estratégia chinesa parece ser evitar, no momento, o confronto militar direto, cujo custo seria altíssimo, enquanto corrói a coesão social e a confiança nas instituições democráticas taiwanesas por dentro. Erodindo sua soberania para conseguir a capitulação pacífica da ilha ou reduzir sua capacidade e até mesmo determinação em se defender militarmente.
Taiwan, por sua vez, tem investido pesadamente em alfabetização midiática e em unidades de verificação de fatos, como o projeto liderado pela sociedade civil taiwanesa o Cofacts, que se tornou referência internacional em resposta rápida a desinformação. A sociedade civil taiwanesa é frequentemente citada como um dos exemplos mais resilientes de defesa democrática contra esse tipo de ataque assimétrico. E, talvez um exemplo, para outras nações que também enfrentam cenários eleitorais conturbados e sob efeito de campanhas de desinformação.
A eficácia e o grande perigo da guerra cognitiva contra sociedades abertas e democráticas está na dificuldade que a natureza furtiva desse tipo de operação impõe ao seu combate. Uma vez que o regime de Pequim usa prepostos, que podem até não saber que estão sendo usados ou contas falsas que simulam ser de cidadãos para disseminar seu conteúdo. Um combate atabalhoado pode ajudar os objetivos dessa campanha ao cercear críticas legítimas aos governos, aos costumes, aos rumos de uma nação das várias correntes de opinião, estimulando ainda mais a desconfiança quanto à democracia.
Assim, legisladores, analistas, pesquisadores e todos que se debruçam sobre esse tema precisam levar em conta não só o conteúdo das informações, mas, também, elementos como o padrão, a escala e o timing das campanhas que podem corroborar a existência de uma coordenação estatal estrangeira.
Há muitos séculos se sabe que a desinformação é uma arma poderosa nas guerras, o contexto atual de redes sociais ampliou os meios para criar essas campanhas e seu alcance e o potencial para corroer, de dentro para fora, a confiança que sustenta qualquer sociedade livre. O caso de Taiwan e suas respostas institucionais e de sua sociedade civil servem de alerta e exemplo para outras democracias. O combate contra a guerra cognitiva caminha pela máxima da vigilância eterna e não pelo caminho da censura.


