Na “festa da democracia”, Dias Toffoli escolhe quem pode entrar

Catarina Rochamonte

Catarina Rochamonte

Por vias tortas, entre abusos velhos e malandragens renovadas, a disputa presidencial 2026 no Brasil segue em direção a um pântano de desilusão, que será um segundo turno disputado pelos dois piores candidatos: o presidente atual Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que até o momento polarizam o pleito e se mantêm com intenções de voto muito acima dos outros concorrentes. 

Lula tenta seu quarto mandato (sexto mandato do PT). Para vencê-lo, a oposição teria de contar com um político vigoroso, determinado, disposto a enfrentar as responsabilidades e riscos de uma disputa tão importante quanto difícil. Infelizmente, a massa oposicionista tem optado por levantar contra Lula o herdeiro de quem foi derrotado pelo mesmo Lula; com o agravante de que o herdeiro é pior do que o pai. No mínimo, é mais covarde. Uma demonstração de sua tibieza foi ter fugido do primeiro debate entre presidenciáveis na Band.

Deste debate – uma tradição desde a eleição presidencial de 1989, a primeira após a redemocratização – também fugiu o presidente Lula. Neste caso, além de tibieza, houve malandragem. Ocorreu que, não satisfeito em fugir do debate, Lula usou do poder do seu cargo de presidente da República para convocar a Record a entrevistá-lo no Palácio da Alvorada no mesmo horário do debate da Band. O Alvorada é prédio público, portanto vedado ao uso eleitoral-partidário. 

Embora dificílima, a possibilidade de escapar de um segundo turno entre “o péssimo” e “o muito ruim”, ainda existe: ainda há tempo para o eleitorado de oposição perceber a inviabilidade do candidato do PL e avançar com outra opção. 

Renan Santos (Missão) foi quem se saiu melhor no debate da Band, tendo sua visibilidade nas redes sociais, que já era grande, crescido exponencialmente após o evento. Destacou-se também entre os entrevistados por César Tralli e Renata Vasconcelos no Jornal Nacional. Nessa entrevista para a Globo, usou os termos mais fortes para indicar a sua máxima disposição em enfrentar o crime organizado; coisas como “declarar guerra” e “banho de sangue”. 

Se o tom é exagerado, a disposição desassombrada para combater o crime é louvável. Seguramente, a maior desgraça coletiva avolumada e espalhada pela incompetência e omissão dos governos petistas é o domínio do crime sobre vastas regiões do território nacional, com milhões de brasileiros submetidos ao talante cruel de facções e milícias.

O fato é que a candidatura de Renan Santos estava começando a despertar curiosidade, interesse e potencial de crescimento. Tanto é assim que, em 31 de agosto, a revista The Economist publicou um perfil do candidato, apresentando-o ao mundo como o “azarão” que tentava se firmar como alternativa ao bolsonarismo, comparando sua obsessão pela agenda liberal à trajetória de Javier Milei antes de chegar ao poder na Argentina. 

A publicação britânica, historicamente parcimoniosa ao dedicar espaço a candidaturas de terceira via na América Latina, media ali um fenômeno real: um nome que crescia nas redes, mobilizava um partido recém-fundado e começava a ameaçar o duopólio Lulismo–bolsonarismo que sufoca o debate público brasileiro há anos.

Eis que o ministro Dias Toffoli, na função de relator no Tribunal Superior Eleitoral, suspendeu, de ofício, a campanha de Rennan: mandou derrubar suas redes sociais, cortou o repasse do fundo eleitoral à sua campanha e retirou dele o direito de participar de debates em rádio, TV, podcasts e qualquer outro meio de comunicação. O pretexto: alguns dias de atraso na comunicação ao TSE de alguns de seus perfis em redes sociais; uma exigência formal cujo descumprimento, segundo o jornal Estadão apurou, alcançaria hoje ao menos 2,7 mil outros candidatos pelo país, a maioria dos quais não sofreu absolutamente nenhuma sanção por isso. 

A Economist teve inclusive que alterar o título da própria reportagem, de um perfil elogioso sobre um fenômeno eleitoral emergente para uma nota sobre um candidato que autoridades brasileiras tentam banir da disputa.

Dias Toffoli e Banco Master

Não é fruto do acaso que a suspensão tenha vindo justamente do gabinete de Dias Toffoli. O ministro é uma das figuras mais expostas pelas investigações sobre o Banco Master, a instituição de Daniel Vorcaro liquidada pelo Banco Central em meio a um rombo bilionário no Fundo Garantidor de Créditos. 

Relatório da Polícia Federal, de cerca de duzentas páginas, elaborado a partir de mensagens extraídas do celular do próprio banqueiro, documentou pelo menos dez encontros entre Toffoli e Vorcaro e apontou uma venda de participação da família do ministro no resort Tayayá a um fundo controlado por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e hoje preso na operação Compliance Zero. 

Ora, Rennan Santos e os outros candidatos do partido Missão denunciaram exaustivamente esse caso. O próprio Rennan lembrou, ao reagir à censura de que foi vítima, ter convocado quatro manifestações ao longo do último ano contra Toffoli e contra o que chamou do “escândalo do Banco Master”, declarando publicamente que estava “pagando o preço por ter defendido o que defendeu”. 

Ele chamou a decisão de “cassação branca” e de “revanchismo” travestido de zelo processual. É difícil discordar da leitura. É inadmissível que um ministro cujo próprio nome circula em mensagens apreendidas de um banqueiro sob investigação por fraude bilionária tenha poder para censurar e talvez invalidar definitivamente a candidatura de um cidadão. 

Enquanto boa parte do debate sobre o Banco Master se organizou em torno da rivalidade entre bolsonaristas e petistas, cada lado tentando empurrar a lama para o adversário, foi a candidatura do Missão que insistiu em nomear as conexões dos dois lados com Daniel Vorcaro.

No debate da Band, Rennan comunicou ao eleitor desavisado que tanto Lula quanto Flávio, embora ideologicamente antípodas, estão ambos emporcalhados na lama de corrupção que engloba os três poderes da República. 

O que eles querem é criar uma competição para ver quem é o melhor amigo de Daniel Vorcaro. […] Essa eleição foi armada para ser um jogo de cartas marcadas entre Lula e Flávio Bolsonaro. Quem está patrocinando esse jogo de cartas marcadas? Banco Master. No primeiro dia não vamos ter perdão para Bolsonaro, mas perdão para Vorcaro”, afirmou o candidato do Missão. 

Foi para evitar verdades inconvenientes como essa que Toffoli proibiu o candidato do Missão de participar de novos debates.

O deputado Kim Kataguiri, coordenador da área econômica da candidatura de Rennan, chamou a decisão de Toffoli de “dantesca e teratológica” e de “atentado contra a democracia”, classificando-a como “típica de regime ditatorial”. Kataguiri também foi direto ao apontar a motivação real por trás da medida: segundo ele, a suspensão é retaliação às críticas públicas feitas pelo Missão à relação entre o ministro e Daniel Vorcaro.

Vale notar que nem todos os ministros do próprio TSE endossam a decisão. Circulou, em caráter reservado, a avaliação de que a irregularidade deveria, no máximo, ser apurada por uma ação de investigação por abuso de meios de comunicação – jamais servir de base para calar um candidato nos debates nacionais às vésperas da eleição ou para indeferir um registro de candidatura. Tais constatações, porém, são muito tímidas diante da gravidade do fato. 

Recentemente escrevi nas minhas redes sociais que Rennan Santos era ainda uma incógnita, mas que, após ter assistido ao primeiro debate e às primeiras sabatinas, estava considerando votar nele nessas eleições. Os donos do Brasil, porém, resolveram não mais permitir que eu e outros milhões de brasileiros continuemos a ouvir e avaliar suas opiniões e propostas. Calaram sua voz com uma canetada. E ainda podem cassar de vez sua candidatura. 

Como é mesmo que chamam esse período de eleições? Ah sim… é a festa da democracia!

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