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O Brasil somos nós: um manifesto pela reconstrução nacional

Por Daniella Marques e Marcos Degaut

No artigo “O Brasil que Queremos”, publicado nesta Gazeta do Povo em outubro último, o deputado federal Eduardo Bolsonaro fez mais do que um preciso diagnóstico dos desafios nacionais, delineou um projeto de país assentado na liberdade econômica, na segurança jurídica, na defesa da propriedade, na liberdade de expressão, na recuperação da autoridade legítima do Estado e no fortalecimento das instituições, da capacidade de defesa nacional e de projeção internacional.

Essa visão parte de uma constatação simples: não há prosperidade sem liberdade, desenvolvimento sem segurança, justiça sem instituições fortes e futuro para uma nação que abandona seus valores fundacionais.

Este artigo nasce como complemento da plataforma apresentada por Eduardo. Se o primeiro texto apresentou os pilares econômicos, institucionais e estratégicos do Brasil que queremos construir, aprofundamos quatro dimensões igualmente decisivas para um projeto nacional duradouro: educação, saúde, reforma do Estado e cidadania com coesão social.

Para quem existem todas essas propostas de reformas? A resposta é simples: para o cidadão brasileiro, ao qual servimos.

O verdadeiro sucesso de um país não está no tamanho de seu orçamento, no número de ministérios ou na quantidade de leis aprovadas, mas na capacidade de oferecer segurança, oportunidades, empregos, renda, educação de qualidade, saúde eficiente e liberdade para construir sua própria história de prosperidade.

O Brasil ingressou no século XXI carregando uma promessa extraordinária: democracia consolidada, estabilidade monetária, abundância de recursos naturais, população jovem e inserção crescente nos fluxos globais de comércio. Poucos países reuniam condições tão favoráveis para um salto de desenvolvimento. Desperdiçamos, contudo, uma oportunidade atrás da outra. Crescemos menos do que poderíamos, investimos menos do que deveríamos e permitimos que a expansão da máquina estatal substituísse reformas estruturais indispensáveis. O resultado é um país que permanece distante de seu potencial, embora o Brasil tenha vindo ao mundo para ser grande, e não medíocre.

Mais grave, milhões de brasileiros passaram a conviver com a sensação de que trabalhar, estudar e empreender deixaram de ser caminhos suficientes para melhorar de vida. Essa talvez seja a maior derrota de uma nação. Quando uma sociedade perde a confiança de que o mérito, o esforço e o trabalho podem produzir ascensão social, compromete não apenas seu crescimento econômico, mas também sua coesão, estabilidade democrática e esperança. É um país que destrói seu futuro, e o futuro do Brasil não pode ser a terra arrasada que o atual Presidente da República e seu partido lhe estão deixando como herança maldita.

Este artigo nasce para enfrentar esse desafio: como transformar essas reformas em benefícios concretos para o cidadão? Nossa resposta parte de uma convicção simples: toda política pública deve ser avaliada por sua capacidade de ampliar oportunidades para as pessoas.

Uma reforma administrativa deve significar menos burocracia para quem empreende e melhores serviços para quem paga impostos. Uma reforma educacional, mais aprendizagem, melhores empregos e maior mobilidade social. Uma reforma da saúde, menos filas, mais prevenção e maior qualidade de vida. Uma reforma institucional, mais segurança jurídica, mais investimentos e maior confiança na democracia.

Nenhuma dessas reformas constitui um fim em si mesma. Todas existem para permitir que mais brasileiros construam uma trajetória de prosperidade. Essa é a diferença entre uma agenda centrada no Estado e uma centrada no cidadão.

É essa inversão que propomos. O Estado não existe para justificar sua própria expansão. Existe para servir ao cidadão, remover obstáculos, proteger direitos e criar oportunidades. Existe para garantir que uma criança tenha acesso a uma boa escola; que um jovem encontre oportunidades de trabalho; que um empreendedor consiga abrir uma empresa sem enfrentar um labirinto burocrático; que um trabalhador transforme esforço em patrimônio; e que um idoso encontre atendimento digno quando precisar.

Mas existe uma premissa anterior. Há uma tendência de se atribuir nossos fracassos exclusivamente aos governos, ao Congresso, ao Judiciário, às elites ou ao setor privado. Instituições, políticas públicas e lideranças importam. Mas nenhuma sociedade prospera quando transfere integralmente a terceiros a responsabilidade pelo próprio destino. Países desenvolvidos não são construídos apenas por governos eficientes. São construídos por cidadãos que valorizam educação, trabalho, responsabilidade, confiança, cooperação, mérito e compromisso com o bem comum.

Por isso, o título deste artigo não é casual. O Brasil, no fim das contas, somos nós. Somos nós quando aceitamos a mediocridade como destino, mas também quando decidimos enfrentá-la. Somos nós quando toleramos a ineficiência, mas também quando exigimos excelência. Somos nós quando toleramos privilégios, mas também quando defendemos igualdade perante a lei. Somos nós quando permitimos que a política nos transforme em grupos rivais, mas também quando reconstruímos um senso compartilhado de pertencimento, responsabilidade e destino comum.

Essa é a razão pela qual propomos uma agenda de transformação baseada na liberdade com responsabilidade, que é a única forma possível de liberdade; na prosperidade construída pelo trabalho; na solidariedade que emancipa em vez de perpetuar dependências; e na mobilidade social como finalidade das políticas públicas.

Não se trata de lamentar o passado, mas de compreender como a inércia e a falta de visão estratégica das administrações destruidoras dos petistas nos aprisionaram em um ciclo de subdesenvolvimento. Trata-se de construir um Brasil no qual cada criança possa acreditar que estudará em uma escola melhor do que a de seus pais; que cada trabalhador tenha condições de conquistar renda crescente; que cada empreendedor encontre ambiente favorável para inovar; que cada família possa viver com segurança; e que cada brasileiro volte a acreditar que seu esforço será recompensado. Essa é a verdadeira jornada da prosperidade, pela qual começa a reconstrução nacional.

Reforma do Estado: a condição para todas as demais reformas

Nenhuma sociedade prospera com instituições ineficientes, nem se desenvolve quando o Estado consome parcela crescente da riqueza nacional sem entregar serviços compatíveis com os recursos arrecadados. A reforma do Estado condiciona, portanto, todas as demais.

O debate oscila entre dois extremos igualmente equivocados. De um lado, a crença de que a simples expansão do gasto público produzirá desenvolvimento. De outro, a visão de que todos os problemas seriam resolvidos por uma redução mecânica do Estado. Nenhuma dessas alternativas responde aos desafios brasileiros. O verdadeiro desafio é construir um Estado mais enxuto em sua burocracia, mais eficiente em sua gestão e mais forte em suas funções essenciais. O critério deve ser quanto valor ele entrega ao cidadão para cada real arrecadado.

A percepção de que o Estado brasileiro é caro, lento e excessivamente complexo não é mera impressão. Trata-se de realidade que afeta a competitividade do país, reduz investimentos, compromete a produtividade e limita o crescimento econômico.

Construído ao longo de décadas sobre camadas sucessivas de regulamentações, privilégios corporativos e sobreposições institucionais, o Estado brasileiro evoluiu para uma estrutura que serve a si mesma antes de servir ao cidadão. O chamado “Custo Brasil” alcança aproximadamente R$ 1,5 trilhão por ano, cerca de 22% do PIB, resultado da burocracia excessiva, da insegurança jurídica, da complexidade tributária e da baixa eficiência regulatória, que asfixiam o setor produtivo, inibem investimentos e impedem a geração de um ciclo virtuoso de crescimento.

Essa realidade ajuda a explicar por que, em 2024, o Brasil ocupou apenas a 124ª posição entre 184 países no Índice de Liberdade Econômica, com pontuação de 53,2 (de 0 a 100), sendo classificado como “majoritariamente não-livre”, com direitos de propriedade relativamente fracos, integridade governamental baixa e sistema judicial vulnerável a interesses políticos.

Também explica por que abrir uma empresa continua sendo mais demorado e oneroso do que na maioria das economias desenvolvidas. Enquanto no Brasil o processo leva, em média, 30 dias, nos países da OCDE a média é de oito dias.

Por trás desses números existem milhares de histórias. É o pequeno empresário que deixa de contratar, o jovem que não encontra emprego, o agricultor que enfrenta custos logísticos desnecessários, a indústria que perde competitividade diante de concorrentes estrangeiros, o consumidor que paga mais caro por produtos e serviços. No fim da cadeia, o custo da ineficiência estatal sempre recai sobre o cidadão.

O setor privado não é apenas mais um agente econômico, mas o principal gerador de investimentos, inovação, produtividade e empregos. O Brasil tem homens e mulheres de inteligência extraordinária, e, quando o ambiente institucional sufoca a atividade produtiva, toda a sociedade paga a conta na forma de crescimento menor, salários mais baixos e oportunidades reduzidas.

A carga tributária de 34% do PIB figura entre as mais elevadas do mundo. A média latino-americana é de 21%. O problema, contudo, não é apenas quanto se arrecada, mas o que se entrega em troca. Arrecadamos como países desenvolvidos, mas oferecemos serviços incompatíveis com esse esforço fiscal, alimentando descrença nas instituições, incentivando a evasão fiscal, enfraquecendo o dinamismo produtivo e aumentando a informalidade.

O problema não decorre da falta de talento dos brasileiros, mas de um ambiente institucional que dificulta aquilo que deveria incentivar. Obter licenças, cumprir obrigações acessórias, interpretar normas tributárias ou enfrentar disputas judiciais tornou-se parte do custo cotidiano de produzir no Brasil.

Mas há também um custo humano. Cada hora consumida pela burocracia é uma hora subtraída da produção, da inovação, da convivência familiar ou do descanso. Cada investimento cancelado representa empregos destruídos. Cada decisão empresarial adiada significa oportunidades que deixam de chegar.

É justamente por isso que a reforma administrativa deve ser compreendida como uma agenda voltada para as pessoas. Modernizar significa simplificar a vida do cidadão. Digitalizar serviços significa devolver tempo às famílias. Eliminar procedimentos desnecessários significa reduzir custos para trabalhadores e empresas. Avaliar permanentemente o desempenho dos órgãos públicos garante que os recursos arrecadados retornem à sociedade na forma de serviços melhores.

Nesse contexto, a meritocracia deve voltar a ocupar posição central na administração pública. Valorizar desempenho não enfraquece o serviço público; fortalece sua legitimidade. Os melhores servidores devem ser reconhecidos, estimulados e recompensados. A inovação precisa deixar de ser exceção. A eficiência deve tornar-se parte da cultura institucional. Um Estado moderno não mede seu sucesso pela quantidade de processos que movimenta, mas pela capacidade de resolver problemas concretos das pessoas.

Essa transformação exige também um ambiente econômico mais racional. É fundamental reduzir a carga tributária sobre a produção e o consumo, simplificar o sistema tributário e ampliar a previsibilidade regulatória. Nenhum investimento de longo prazo prospera em ambiente marcado por insegurança jurídica.

A reforma do Estado exige, ainda, enfrentar tema que a classe política frequentemente evita: a necessidade de restaurar os limites institucionais entre os Poderes da República. O avanço da judicialização sobre matérias próprias do Executivo e do Legislativo produziu crescente insegurança jurídica e enfraquecimento da representação democrática.

O Brasil precisa resgatar o princípio de que mudanças estruturais devem decorrer do debate democrático e da deliberação dos representantes eleitos, e não da substituição crescente da política pelo ativismo judicial. Nenhuma democracia funciona adequadamente quando decisões legislativas ou executivas migram sistematicamente para instâncias não submetidas ao mesmo grau de controle democrático.

Restabelecer a previsibilidade das decisões judiciais, fortalecer a segurança jurídica e reafirmar os limites constitucionais de cada Poder são condições indispensáveis para a liberdade, os investimentos, o crescimento econômico e a própria legitimidade da democracia brasileira.

Um Estado eficiente não é um fim em si mesmo. É instrumento que libera a energia produtiva da sociedade, amplia oportunidades e cria condições para que os brasileiros prosperem por seus próprios méritos.

Educação: o alicerce da prosperidade e da liberdade

Nenhuma política pública possui maior capacidade de transformar vidas do que a educação. Uma boa escola amplia horizontes, multiplica oportunidades, reduz desigualdades e rompe ciclos intergeracionais de pobreza. É por meio dela que uma criança deixa de ser definida pelas circunstâncias de seu nascimento e passa a ser reconhecida por seu talento, esforço e capacidade de construir o próprio futuro.

Por isso, a educação deve ocupar posição central em qualquer projeto nacional comprometido com a prosperidade. Não apenas porque melhora indicadores econômicos, mas porque representa o principal instrumento de mobilidade social.

A educação brasileira vive um paradoxo doloroso: reconhecida como chave para o desenvolvimento, continua marcada por descaso histórico e investimentos erráticos. O acesso à escola básica se universalizou, mas a qualidade permanece profundamente desigual.

Garantir matrícula não significa garantir aprendizagem. Milhões de jovens concluem a educação básica sem dominar leitura, matemática ou ciências, carregando limitações que restringem sua empregabilidade, produtividade e possibilidades de ascensão social.

Os números revelam a dimensão do problema. O Brasil permanece entre os últimos colocados no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Em 2022, obtivemos 379 pontos em leitura, 357 em matemática e 403 em ciências, muito abaixo da média da OCDE (476, 472 e 485, respectivamente). Apenas 30% dos estudantes alcançaram o indicador mínimo para resolver problemas cotidianos de forma autônoma.

O mesmo diagnóstico emerge do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024: 29% da população entre 15 e 64 anos é analfabeta funcional, incapaz de compreender adequadamente textos ou realizar operações matemáticas básicas.

Esses resultados revelam mais do que uma crise educacional: uma crise de desenvolvimento. Uma economia baseada em trabalhadores pouco qualificados dificilmente será capaz de competir em um mundo movido por inovação, inteligência artificial, automação e conhecimento. Países desenvolvidos investem em educação porque compreenderam que seu principal ativo estratégico é o capital humano.

O problema não reside no volume de recursos investidos. O Brasil destina 5,5% do PIB à educação pública, percentual comparável ao de países desenvolvidos. A diferença está na qualidade da gestão, na eficiência da alocação dos recursos e na capacidade de transformar investimento em aprendizagem efetiva. Ao mesmo tempo, persistem deficiências básicas: cerca de 20% das escolas rurais não possuem energia elétrica e 40% não têm acesso à internet.

Há também uma crise de prioridades. O debate educacional concentrou-se excessivamente em questões burocráticas, relegando a segundo plano sua missão fundamental: garantir que crianças e jovens aprendam português, matemática, ciências, história, geografia e as competências necessárias para prosperar.

É necessário recolocar a aprendizagem no centro da política educacional. Isso exige revisão curricular orientada por excelência acadêmica, rigor intelectual e preparação para a vida adulta. A escola deve formar cidadãos capazes de pensar criticamente, resolver problemas e competir com menos desigualdades em um mercado de trabalho cada vez mais exigente.

Também é urgente fortalecer a gestão escolar, ampliar a autonomia dos diretores e expandir a educação em tempo integral, comprovadamente eficaz na melhoria do desempenho e na redução da evasão. Hoje, apenas 15,4% dos estudantes do ensino fundamental e médio permanecem em tempo integral.

Ao mesmo tempo, é indispensável recuperar o valor do mérito, da disciplina, da responsabilidade e do esforço individual. Educação de qualidade depende de recursos, mas também de uma cultura que valoriza o conhecimento, respeita o professor e reconhece a importância do empenho pessoal.

Valorizar professores é parte inseparável dessa agenda. Nenhuma reforma educacional prosperará sem professores qualificados, motivados e adequadamente preparados. Isso requer formação inicial e continuada de qualidade, avaliação permanente de desempenho e políticas que tornem a carreira mais atrativa e mais bem remunerada.

Paralelamente, projetos de qualificação profissional e requalificação devem ser ampliados e alinhados às necessidades de um mercado de trabalho dinâmico, favorecendo a reinserção produtiva, especialmente dos mais vulneráveis, impulsionando a produtividade, reduzindo a dependência estatal e oferecendo múltiplos caminhos para que cada jovem desenvolva seu potencial.

A revolução tecnológica torna essa agenda ainda mais urgente. Inteligência artificial, automação, digitalização e novas formas de organização produtiva transformarão profundamente o mercado de trabalho. Os países que liderarem essa transição serão aqueles capazes de formar trabalhadores mais qualificados, adaptáveis e inovadores.

Mas a educação possui uma dimensão que vai além da economia. Ela prepara para a liberdade. Uma sociedade livre depende de cidadãos capazes de compreender seus direitos e deveres, interpretar informações, distinguir fatos de narrativas e participar conscientemente da vida pública.

A educação é um instrumento de fortalecimento da democracia e da coesão nacional. Não é gasto, mas investimento. Não é política social, mas estratégia de desenvolvimento e formação para a vida. O Brasil não precisa apenas de mais escolas e mais matrículas. Precisa de melhores escolas, mais aprendizagem e excelência, partindo da premissa de que a escola não deve servir à doutrinação política, ao ativismo identitário e ideológico ou à imposição de agendas progressistas ou de engenharia social, mas à formação de indivíduos livres, preparados e capazes de pensar por si próprios.

Saúde: cuidar das pessoas para fortalecer o país

A prosperidade de uma nação começa pelas pessoas. Não existe crescimento sustentável quando milhões de cidadãos convivem diariamente com filas intermináveis, atendimento precário, doenças evitáveis ou acesso insuficiente aos serviços básicos. Saúde é um dos principais ativos econômicos de um país. Uma população saudável trabalha mais, produz melhor, aprende com maior facilidade, empreende com maior confiança e vive com mais dignidade.

O Sistema Único de Saúde (SUS) constitui uma das maiores conquistas do país e atende mais de 150 milhões de brasileiros. Entretanto, convive com dificuldades estruturais que comprometem sua eficiência e reduzem a qualidade do atendimento. O problema não se resume ao volume de recursos investidos (9,2% do PIB), mas à capacidade de transformar gastos em resultados.

Ao cidadão, pouco importa o tamanho do orçamento da saúde se continua aguardando meses por uma consulta, anos por uma cirurgia ou horas por atendimento de urgência. Direitos somente adquirem significado quando se transformam em acesso efetivo. Isso exige mudança de paradigma: a gestão da saúde precisa deixar de medir processos e passar a medir resultados.

Hospitais, unidades básicas e redes assistenciais devem ser avaliados por indicadores claros de qualidade, resolutividade, tempo de atendimento, satisfação do usuário e eficiência. Profissionalizar a gestão, combater desperdícios e fraudes, utilizar intensivamente tecnologia e integrar capacidades públicas e privadas têm um único objetivo: oferecer atendimento mais rápido, eficiente e humano.

Cuidado especial deve ser dado à Atenção Primária à Saúde. Nenhum sistema moderno sustenta elevados níveis de qualidade concentrando seus esforços apenas no tratamento de doenças já instaladas. A prevenção continua sendo o investimento mais eficiente. Diagnóstico precoce, vacinação, acompanhamento contínuo, promoção de hábitos saudáveis e fortalecimento das equipes de saúde da família reduzem custos, evitam sofrimento e desafogam hospitais.

Nenhuma política, contudo, será plenamente eficaz sem enfrentar um dos maiores passivos sociais do país: a precariedade do saneamento básico, um dos maiores vetores de doenças e sobrecarga do SUS. 45% da população não tem acesso à coleta de esgoto, e menos de 40% do esgoto gerado é tratado.

Água tratada e coleta de esgoto representam menos doenças, menor mortalidade infantil, melhor desenvolvimento cognitivo das crianças, maior frequência escolar e menor pressão sobre o sistema hospitalar. Investir em saneamento significa investir simultaneamente em saúde, educação, produtividade e qualidade de vida. Por isso, o marco legal do saneamento básico (que prevê a universalização até 2033) deve ser cumprido com investimentos consistentes e fiscalização rigorosa.

Duas iniciativas complementam esse esforço. A primeira é fortalecer as equipes de saúde da família e a infraestrutura da atenção primária, capaz de resolver até 80% das demandas da população. A segunda é ampliar o uso da telemedicina e de prontuários eletrônicos integrados, reduzindo desigualdades de acesso, especialmente nas regiões mais remotas.

Ao final, o verdadeiro indicador de sucesso do sistema de saúde não será o número de programas criados nem o volume de recursos executados, mas a tranquilidade de uma família que consegue atendimento quando precisa; da criança que cresce saudável; do trabalhador que retorna rapidamente ao emprego; do idoso que encontra cuidado digno. Porque um sistema de saúde eficiente faz mais do que administrar hospitais. Ele protege vidas, a primeira responsabilidade de qualquer Estado comprometido com seus cidadãos.

Cidadania, família e coesão social: transformar assistência em autonomia

Nenhum país alcança desenvolvimento duradouro apenas pelo crescimento econômico. A prosperidade depende também da qualidade das relações sociais, da confiança entre cidadãos, da estabilidade das famílias e da capacidade de integrar a sociedade em torno de objetivos comuns.

Sob gestões petistas, o Brasil assistiu ao aprofundamento de divisões políticas, culturais e sociais que enfraqueceram o sentimento de pertencimento nacional. Uma sociedade permanentemente fragmentada perde sua capacidade de cooperar, reduz sua confiança nas instituições e dificulta a construção de consensos indispensáveis ao desenvolvimento.

Superar essa lógica exige recolocar o cidadão, e não grupos identitários ou interesses corporativos, no centro das políticas públicas. O combate à pobreza será um imperativo moral. Contudo, a melhor política social jamais será aquela que perpetua dependências, mas aquela que cria oportunidades para a autonomia.

Programas de transferência de renda cumprem papel importante na proteção das famílias mais vulneráveis, especialmente em momentos de crise. Mas sua finalidade maior deve ser funcionar como ponte para a emancipação, e não como destino permanente. Isso exige integrar assistência social, educação, qualificação profissional, empreendedorismo, microcrédito e inserção produtiva em uma estratégia nacional de mobilidade social.

A verdadeira inclusão ocorre quando uma família deixa de depender do Estado porque passou a depender de seu próprio trabalho, da capacidade empreendedora e das oportunidades criadas por uma economia dinâmica. Essa é a essência da dignidade.

Fortalecer a família também constitui elemento central dessa agenda. É nela que crianças aprendem responsabilidade, disciplina, cooperação, solidariedade e respeito às regras. Políticas públicas devem fortalecer, jamais substituir, o papel da família como primeira instituição formadora do cidadão.

Ao mesmo tempo, o Estado deve assegurar igualdade de oportunidades, independentemente de origem, religião, raça, condição econômica ou convicções políticas. Uma sociedade verdadeiramente livre não elimina diferenças individuais; cria condições para que cada pessoa desenvolva plenamente seu potencial.

Países bem-sucedidos não prosperam porque distribuem privilégios, mas porque distribuem oportunidades. Essa deve ser a base de uma nova agenda nacional de cidadania: unir, em vez de dividir; emancipar, em vez de tutelar; fortalecer a responsabilidade individual sem abandonar a solidariedade; e transformar proteção social em mobilidade social, devolvendo ao cidadão a confiança de que seu esforço pode construir um futuro melhor.

Ao longo das últimas décadas, acostumou-se a discutir o Estado como se ele fosse o protagonista da história. Debate-se o tamanho da máquina pública, a criação de programas e a expansão de estruturas administrativas, esquecendo como essas decisões melhoram, concretamente, a vida dos brasileiros. O propósito de um projeto nacional não é só fortalecer o Estado, mas as pessoas.

O sucesso de uma política pública não deve ser medido pelo volume de recursos que consome, mas pelas oportunidades que cria. O êxito de um governo está na sua capacidade de remover obstáculos para que cada cidadão possa estudar, trabalhar, empreender, inovar, constituir patrimônio e oferecer aos filhos uma vida melhor.

Essa é a verdadeira razão de ser das reformas que defendemos. A reforma do Estado devolve tempo, segurança jurídica e liberdade econômica. A da educação transforma conhecimento em mobilidade social. A da saúde preserva o capital humano e amplia a qualidade de vida. As políticas de cidadania substituem a dependência pela autonomia. Juntas, recolocam o cidadão no centro do desenvolvimento nacional.

O Brasil precisa recuperar uma visão mais ambiciosa de nosso principal ativo estratégico: as pessoas. Precisamos voltar a acreditar na capacidade dos brasileiros de construir riqueza, inovar, empreender, competir e transformar suas comunidades quando encontram um ambiente institucional que lhes ofereça segurança, liberdade e igualdade de oportunidades.

Essa é a essência da mobilidade social e deve ser a medida do sucesso nacional. Quando mais brasileiros conseguem ascender socialmente, constituir patrimônio, abrir seus próprios negócios, oferecer educação de qualidade aos filhos e viver com segurança e dignidade, o país inteiro avança.

É essa prosperidade compartilhada que fortalece a democracia, reduz desigualdades e consolida uma verdadeira comunidade nacional. Foi essa convicção que inspirou o artigo de Eduardo Bolsonaro. É essa mesma convicção que procuramos aprofundar neste manifesto.

O Brasil não precisa apenas de um novo governo. Precisa de uma nova lógica de governança. Uma lógica que substitua a cultura da burocracia pela cultura dos resultados, privilégios por oportunidades e dependência por autonomia.

Em síntese, precisamos recolocar o brasileiro, e não a máquina pública, no centro do projeto nacional. Estados existem para servir às pessoas. Mercados existem para gerar prosperidade. Instituições existem para proteger direitos. A economia existe para ampliar as oportunidades.

O Brasil que queremos não será construído apenas por governos ou instituições, mas por milhões de brasileiros que encontrem, finalmente, um Estado que deixe de lhes impor barreiras e passe a lhes abrir caminhos.

Porque o patrimônio de uma nação não é o tamanho de seu Estado, nem o volume de seu orçamento. É a liberdade de seu povo, a confiança de suas famílias, a força de suas instituições, a capacidade de cada cidadão transformar trabalho em dignidade, conhecimento em oportunidades e liberdade em prosperidade.

Essa é a reconstrução nacional que defendemos. Essa é a jornada da prosperidade que propomos. O “Brasil que Queremos” não é uma utopia distante, mas uma urgência silenciada por décadas de escolhas erradas que nos aprisionam em ciclos de subdesenvolvimento e injustiça. Chegamos a um ponto de inflexão. O futuro será uma construção forjada na coragem de confrontar a realidade e na ousadia de propor uma refundação.

O Brasil não precisa de mais um ciclo de promessas. Precisa de direção, coragem e liderança. Essa virada exige a adoção de medidas estruturais, fiscais, econômicas, políticas e sociais que removam os obstáculos para o dinamismo. Este não é um caminho fácil, mas um convite e um desafio a cada um: vamos parar de lamentar o Brasil que somos e construir o Brasil que merecemos. Um Brasil onde o Estado serve, não atrapalha; onde a riqueza é gerada pela inventividade e pelo trabalho árduo e qualificado, e não pela dependência; onde a prosperidade é uma realidade acessível a todos, e não um privilégio de poucos.

A hora de agir não é amanhã, é agora. A história nos julgará não pelo que sonhamos, mas pelo que ousamos e fizemos para transformar esse sonho em uma realidade palpável e duradoura para as gerações futuras. O Brasil que queremos começa pelo Brasil que decidimos construir, porque o Brasil somos nós!

Brasil contra os Estados Unidos e a Argentina: o dia em que o país rompeu com o hemisfério

Há datas que os historiadores demoram décadas para reconhecer como pontos de inflexão. Outras se anunciam de imediato, com a clareza brutal dos desastres. O dia 4 de agosto de 2026 pertence à segunda categoria. Em menos de 24 horas, o governo Lula conseguiu a proeza, inédita em mais de 200 anos de história diplomática, de romper simultaneamente com os seus dois parceiros mais importantes do Hemisfério Ocidental. 

Mais do que contexto diplomático particularmente grave, trata-se da erosão deliberada de um dos ativos estratégicos mais valiosos que uma nação pode possuir, sua credibilidade internacional. 

Na política internacional, confiança não é um atributo moral; é ativo de poder que determina onde o capital será investido, quais tecnologias serão compartilhadas, que alianças sobreviverão às crises e quais países serão considerados parceiros em momentos de tensão. Credibilidade leva décadas para ser construída, mas pode ser destruída em poucos meses.

Em Washington, o Departamento de Estado anunciou o cancelamento do visto da embaixadora do Brasil, Maria Luiza Viotti, episódio sem precedente na relação bilateral desde que os Estados Unidos, em 1824, tornaram-se o primeiro país do mundo a reconhecer a independência brasileira. 

Em Brasília, no mesmo dia, o Itamaraty convocou o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, para comunicar-lhe que estava dispensado, que a relação com o principal sócio sul-americano do Brasil ficaria rebaixada ao nível de encarregados de negócios e que o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, não retornaria à capital argentina. 

Foram necessárias oito gerações de diplomatas para construir esses dois pilares. Bastou um governo lulopetista para dinamitar ambos no mesmo dia.

Convém medir a profundidade do buraco antes de perguntar quem cavou. A relação com os Estados Unidos jamais foi uma relação qualquer. Foi para Washington que o Barão do Rio Branco deslocou o eixo da política externa brasileira em 1905, elevando ali a primeira embaixada do Brasil no mundo e nela instalando Joaquim Nabuco.

 Foi ao lado dos americanos que a Força Expedicionária Brasileira tomou Monte Castello, e foi de Natal, transformada em principal plataforma logística dos Aliados no Atlântico Sul, o trampolim da vitória, que partiu parcela relevante do esforço de guerra que ajudou a derrotar o nazifascismo.

Essa aproximação nunca significou subordinação. Significou o reconhecimento de uma realidade elementar da geopolítica: grandes estratégias são construídas sobre interesses permanentes, não sobre afinidades ideológicas transitórias. Como ensinava Hans Morgenthau, o primeiro dever da política externa é preservar e ampliar o interesse nacional, jamais instrumentalizá-lo em favor de disputas domésticas.

 Apesar da hostilidade de Lula, os EUA permanecem sendo o principal destino das manufaturas brasileiras, o maior investidor estrangeiro acumulado no País há um século e a fonte de tecnologia, capital e certificações de que dependem setores inteiros da economia nacional. Brasil e EUA jamais travaram guerra entre si, jamais lutaram em lados opostos, jamais se trataram como inimigos. Era, como escreveram tantos dos nossos maiores, de Rui Barbosa a Afonso Arinos, uma aliança natural. Era.

Os acontecimentos de Washington dispensam adjetivos, mas não cronologia. Em março deste ano, o Conselheiro Sênior de Donald Trump, Darren Beattie, teve seu visto revogado. Beattie pretendia viajar ao Brasil para participar de uma conferência sobre minerais críticos em São Paulo e visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. O MRE alegou informações falsas prestadas pelo governo americano para fundamentar sua esdrúxula decisão, a qual apenas serviu para reforçar, no exterior, a percepção de que Bolsonaro estaria sendo tratado como um preso político e aprofundou o desgaste da imagem internacional do Brasil.

Em junho, o presidente Trump indicou Daniel Perez para a embaixada em Brasília. O governo brasileiro, em manobra tão mesquinha quanto obtusa, sentou-se sobre o agrément, o ato de cortesia mais elementar da gramática diplomática, calculando empurrar eventual aprovação para depois das eleições de outubro e transformando um procedimento técnico e rotineiro em instrumento de cálculo político doméstico.

 Em julho, o Itamaraty negou vistos a dois altos funcionários do Departamento de Estado, sob a acusação irresponsável e gravíssima de que se tratava de uma manobra norte-americana para interferir nas eleições brasileiras. A resposta, dura, veio na terça-feira 4 de agosto: a chefe da missão brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti teve seu visto revogado, com o aviso público de que o documento será restabelecido quando o agrément for concedido, e com o acréscimo de que outras ações não estão descartadas.

Traduzindo do diplomatês: a escada da escalada está armada, e o Brasil insiste em, levianamente, subir os degraus. Na literatura clássica das Relações Internacionais existe uma premissa frequentemente ignorada por governos imprudentes e excessivamente confiantes em sua capacidade de improvisação: crises diplomáticas são fáceis de iniciar, mas extremamente difíceis de controlar.

Uma vez rompida a confiança estratégica entre dois Estados, cada gesto passa a ser interpretado sob a lógica da escalada, e cada resposta tende a produzir outra ainda mais severa. Um governo minimamente sério teria resolvido o impasse em uma semana, com um telefonema e uma nota. O governo Lula preferiu transformar um expediente de rotina em casus belli eleitoral, porque um conflito com Trump rende palanque, e o palanque, para o lulopetismo, sempre valeu mais do que os interesses do Brasil.

O caso argentino é ainda mais revelador, porque ali nem sequer existe a desculpa da assimetria de poder. O que está em jogo não é uma disputa entre uma grande potência e um país emergente, mas a deterioração deliberada da relação entre dois países cuja prosperidade sempre esteve profundamente interligada.

A Argentina é o terceiro maior mercado das exportações brasileiras e o primeiro das nossas manufaturas de maior valor agregado; é o sócio fundador do Mercosul, o parceiro estratégico de meio século de integração paciente, de Itaipu ao acordo nuclear, da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), uma das mais bem-sucedidas experiências de construção de confiança estratégica entre antigos rivais regionais, às cadeias automotivas integradas.

Nada disso surgiu por acaso. Foi resultado de uma compreensão elementar da geopolítica, a de que países vizinhos podem competir, mas não podem se dar ao luxo de transformar divergências políticas em antagonismos permanentes. Governos passam. Interesses nacionais permanecem.

 Javier Milei simplesmente disse a verdade ao declarar que Lula foi condenado pela Justiça brasileira. Convém destacar, ainda, que Lula apoiou abertamente o adversário de Milei na disputa pela Presidência argentina, Sergio Massa, durante o processo eleitoral argentino de 2023. 

Em retaliação às verdades ditas por Milei, Lula escolheu a demolição: dispensou o embaixador argentino, reteve o embaixador brasileiro em Brasília, rebaixou a relação inteira ao nível de encarregados de negócios. Puniu, em nome do próprio orgulho ferido, o empresário brasileiro que exporta para Buenos Aires; o operário cuja fábrica integra cadeias binacionais; o produtor que depende de previsibilidade no comércio regional; o investidor, que foge de instabilidade; o próprio Mercosul que seu partido jura defender. A vaidade presidencial virou política de Estado, e a política de Estado virou refém de uma eleição.

Na economia internacional, relações diplomáticas deterioradas raramente permanecem confinadas às chancelarias. Elas elevam custos de transação, reduzem previsibilidade regulatória, inibem investimentos e comprometem decisões empresariais que dependem de horizontes de longo prazo. Confiança estratégica também possui valor econômico.

Somados, os episódios de Washington e Buenos Aires revelam uma transformação mais profunda do que simples atritos diplomáticos. A política externa brasileira deixou de operar segundo a lógica clássica do interesse nacional para incorporar a lógica da polarização política doméstica. Em vez de reduzir tensões externas para ampliar espaço de manobra internacional, passou a produzi-las deliberadamente como instrumento de mobilização eleitoral.

Essa talvez seja a ruptura mais grave. Desde Rio Branco, um dos princípios mais permanentes da diplomacia brasileira consistia em preservar relações construtivas com governos de diferentes orientações ideológicas, evitando que divergências partidárias contaminassem interesses permanentes do Estado. O Brasil negociava com democratas e republicanos, conservadores e socialistas, peronistas e liberais, preservando sempre um princípio fundamental: governos mudam; o Estado permanece. Essa tradição parece ter sido abandonada

Hoje, o Brasil encontra-se, simultaneamente, sem embaixador operante em Washington e sem embaixador em Buenos Aires. Conseguiu comprometer a relação com a maior potência econômica e militar do planeta e com seu principal parceiro regional.

Na América do Sul, o governo que prometia liderança regional colecionou atritos com a Argentina de Milei, com o Paraguai (grampeado pela inteligência brasileira, como o próprio governo admitiu), com o Equador, com o Peru, com o Uruguai de Orsi na negociação externa do Mercosul, e mantém com o regime venezuelano, ora numa interinidade que já se estende por 7 meses, uma relação que oscila entre o constrangimento e a cumplicidade.

 No Hemisfério, o Brasil de Lula fala sozinho e não é ouvido por ninguém. E enquanto se isola dos vizinhos e dos aliados naturais, o governo estreita laços com Pequim, recebe navios de guerra iranianos no Rio de Janeiro, perdoa dívidas de Havana e reserva seus silêncios mais respeitosos para Moscou. A política externa que se autodenomina altiva e ativa produziu o feito geométrico de afastar o Brasil de todas as democracias do seu entorno e aproximá-lo de todas as autocracias fora dele.

Nada disso é acidente de percurso ou inabilidade episódica. É método, e o método tem certidão de nascimento: o Foro de São Paulo, fundado em 1990 por Lula e Fidel Castro para reorganizar a esquerda latino-americana órfã do muro de Berlim. Desde 2003, a diplomacia lulopetista tratou a região não como espaço de interesses nacionais, mas como tabuleiro de solidariedades ideológicas.

 O caso venezuelano é o monumento dessa escolha, e a palavra criminoso, aqui, não é figura de retórica, é quase tipificação. Foi com aval político, financiamento do BNDES e empreiteiras brasileiras que o chavismo consolidou seu projeto de poder; foi Lula quem apresentou Hugo Chávez ao mundo como o melhor presidente da Venezuela em um século; foi o Brasil petista que emprestou legitimidade a cada eleição fraudada, que abafou cada denúncia de repressão, que chamou de narrativa, na palavra tristemente célebre do próprio presidente, a fraude escancarada de 2024. 

O resultado está à vista: uma ditadura consolidada na fronteira norte, oito milhões de refugiados espalhados pelo continente, Roraima transformada em válvula de escape da tragédia alheia, e o crime organizado transnacional, do Trem de Aragua às facções brasileiras, prosperando no vácuo que a conivência criou. Quem semeia ditadura na vizinhança colhe caos em casa. O Brasil colheu, e segue semeando.

A pergunta que o brasileiro deveria fazer agora não é se a crise pode piorar, mas o que acontecerá se ela continuar seguindo sua trajetória atual. A resposta exige menos indignação do que realismo. Nas Relações Internacionais, Estados raramente recorrem às medidas mais severas logo no início de uma crise. A lógica predominante é a da escalada gradual. Cada resposta procura aumentar o custo da conduta do outro lado, preservando espaço para negociação sem abrir mão da capacidade de elevar sucessivamente o nível de pressão, desde que possua recursos de poder para tanto.

O arsenal americano é conhecido, testado e escalonável, e parte dele já foi usada contra o Brasil. O país já amarga tarifas punitivas de 50% sobre parcela expressiva de suas exportações. Ministros do Supremo Tribunal Federal já tiveram vistos revogados, e um deles já foi alcançado pela Lei Magnitsky, instrumento que congela ativos e bane do sistema financeiro americano os sancionados. O degrau seguinte da escada é visível a olho nu. No plano diplomático, expulsões recíprocas e fechamento de consulados, com filas de vistos se arrastando por anos e a comunidade brasileira nos Estados Unidos, quase dois milhões de pessoas, pagando a conta.

No plano individual, a extensão das sanções Magnitsky e das restrições de visto a autoridades do governo, a operadores financeiros do partido e a seus familiares. No plano comercial, novas sanções tarifárias, barreiras regulatórias e o estrangulamento de setores que dependem de certificações americanas, a começar pela aviação: a Embraer, joia da engenharia nacional, vive do mercado e da certificação dos Estados Unidos, e seria a primeira vítima de qualquer regime de controles de exportação de tecnologia de uso dual.

E a escada sobe. No plano financeiro, designações da OFAC contra entidades estatais, restrições a bancos brasileiros no acesso a dólares e a bancos correspondentes, o encarecimento brutal do crédito externo num país que rola dívida pública ao ritmo de trilhões.

 No plano estratégico, a suspensão do estatuto de aliado preferencial extra-OTAN, concedido ao Brasil em 2019 e hoje reduzido a peça de museu, o congelamento da cooperação militar e espacial, o veto informal à candidatura brasileira à OCDE e a oposição sistemática nos organismos financeiros multilaterais.

 Nada disso é profecia; é aritmética. Cada um desses instrumentos foi aplicado, nos últimos anos, contra países que escolheram a rota de colisão com Washington, e não há cláusula de exceção para governos que se julgam persuasores. O Brasil de lula, para todos os efeitos, já é considerado um país hostil aos interesses americanos, como declarou publicamente o Secretário de Estado Marco Rubio.

 O risco-país precifica tudo isso silenciosamente, o câmbio também, e quem paga não é o presidente que provoca, é o agricultor que exporta, o industrial que importa insumo, a família que financia a casa a juros que já são os mais altos do mundo real. Colocar o Brasil em rota de colisão com a maior economia e a maior potência militar da Terra, sem um único ganho concreto em troca, não é política externa. É sabotagem com passaporte diplomático, parte de um plano muito eficiente de destruição do Brasil e de suas instituições.

E aqui se chega ao ponto que dói, porque revela a natureza do projeto. Lula não está cometendo erros; está executando um cálculo. A crise com Trump é o único palanque que lhe restou. Sem economia para exibir, com a segurança pública em colapso e a popularidade em queda, o lulopetismo recorre ao expediente mais velho do populismo: fabricar o inimigo externo, embrulhar-se na bandeira que passou décadas chamando de símbolo do atraso e converter a palavra soberania em jingle de campanha.

 Cada escalada, cada provocação, cada gesto de rompimento é friamente dosado para render manchete e inflamar militância, na aposta de que o eleitor não perceberá que a conta da bravata será paga por ele, em tarifa, em juro, em emprego, em oportunidade perdida. Um estadista protege seu povo das tempestades; um demagogo invoca a tempestade para posar de timoneiro.

 Essa instrumentalização eleitoral da política externa, feita com o patrimônio diplomático de dois séculos, é a confissão definitiva do desprezo que Lula e seu partido nutrem pelo Brasil e pelos brasileiros: o País, para eles, nunca foi um fim, sempre foi um meio.

O Itamaraty, que já foi sinônimo mundial de excelência, assiste a tudo na condição de refém. A instituição que já contou com homens da estatura do Barão do Rio Branco, de Joaquim Nabuco, de Oswaldo Aranha e de Roberto Campos, que arbitrou fronteiras sem disparar um tiro e negociou com as maiores potências de igual para igual, foi convertida em despachante ideológico de um projeto partidário, obrigada a defender o indefensável em Caracas, a silenciar sobre Teerã, a fabricar eufemismos para Pequim e agora a administrar, em uma indignidade sem precedentes, a humilhação de ver sua embaixadora em Washington privada de visto como turista irregular.

 Não é preciso ser diplomata para medir o vexame; basta ser brasileiro. Um serviço exterior profissional não se recupera por decreto depois de ser usado como escudo humano de aventuras ideológicas. Recupera-se com anos de trabalho, com credibilidade reconstruída aperto de mão por aperto de mão, relatório por relatório, posto por posto, com uma muito necessária reforma funcional, administrativa e estrutural que jamais acontecerá em uma gestão lulopetista, porque a esquerda não gosta de valorizar quem trabalha. Gosta de constranger, deixar submissa, humilhar e manipular.

A trajetória para o Brasil, se nada a interromper, tem nome técnico e destino conhecido: Estado-pária. Pária não é o país pobre nem o país fraco; é o país imprevisível, aquele com quem não se assina contrato longo, em quem não se investe capital paciente, a quem não se confia cadeia de suprimento nem segredo tecnológico. A Argentina peronista levou décadas para construir essa reputação e levará décadas para desfazê-la; a Venezuela a converteu em ruína terminal. 

O Brasil, que sempre teve como maior ativo diplomático justamente a previsibilidade, a moderação e a ausência de antagonistas estruturais, está dilapidando em meses o capital político-estratégico que construiu em séculos. E o faz não por imposição de circunstâncias, não por tragédia geopolítica, mas por decisão deliberada de um consórcio de poder que já demonstrou, em cada área que tocou, que prefere reinar sobre escombros a servir sobre alicerces.

É por isso que outubro de 2026 não será uma eleição como as outras. Não se trata de escolher entre programas tributários ou estilos de gestão; Trata-se da escolha entre duas concepções profundamente distintas de inserção internacional.

De um lado, a continuidade de uma política externa crescentemente orientada por afinidades ideológicas improdutivas, confrontações desnecessárias e objetivos eleitorais domésticos. De outro, a possibilidade de reconstruir uma diplomacia baseada no interesse nacional, na credibilidade estratégica e no resgate do protagonismo internacional do Brasil.

Trata-se de decidir se o Brasil permanece no mundo livre e democrático, ou se completa sua conversão em sócio menor do clube das autocracias, isolado dos vizinhos, hostilizado pelos aliados naturais e tutelado por credores que não conhecem a palavra liberdade.

 Impedir a consumação desse projeto é o primeiro dever de todo brasileiro que ainda distingue pátria de partido. E o instrumento dessa interdição não é a rua, não é o atalho, não é o improviso: é o voto, dado com a serenidade de quem sabe exatamente o que está em jogo, e a fiscalização e cobrança da seriedade e da imparcialidade das instituições. 

Ao presidente conservador de direita, de sobrenome conhecido e reverenciado, o único em reais condições de enfrentar o rolo compressor do autoritarismo Planalto-STF, que, assim o queiram Deus e os brasileiros, sair das urnas de outubro e tomar posse em janeiro de 2027, caberá um trabalho de reconstrução que não encontra paralelo na história republicana. 

Será preciso reatar com Washington sem servilismo e com Buenos Aires sem rancor; devolver o agrément à sua natureza de cortesia e a embaixada em Washington à sua condição de posto maior da diplomacia nacional; reancorar o Brasil no Hemisfério que é o seu, resgatar o Mercosul do coma induzido, desmontar peça por peça a arquitetura de cumplicidades que atrela o país às ditaduras do continente e devolver ao Itamaraty a espinha, a técnica e a honra. 

Será uma obra de anos, talvez de uma geração inteira, erguida sobre o terreno arrasado que o lulopetismo deixará como herança. Mas há uma verdade que nenhuma demolição alcança: destruir é rápido, reconstruir é lento, e ainda assim as nações, como as catedrais, sempre foram erguidas por quem veio depois do incêndio. E toda reconstrução começa quando uma sociedade decide voltar a tratar suas instituições como patrimônio nacional, e não como instrumentos de um projeto de poder pernicioso e autoritário.

O mundo rearmado e a ilusão estratégica brasileira 

Em abril de 2026, o mundo ultrapassou um marco histórico que, embora tratado por parte da imprensa apenas como consequência de guerras recentes, talvez represente uma transformação profunda na ordem internacional. Segundo levantamento do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), principal centro independente de estudos estratégicos do mundo, os gastos militares globais atingiram US$ 2,887 trilhões em 2025, o maior valor registrado desde o início das medições sistemáticas consolidadas após o fim da Guerra Fria.

Trata-se do décimo primeiro ano consecutivo de crescimento. Em apenas uma década, o aumento acumulado ultrapassou 40%. Pela primeira vez desde os momentos mais tensos do século XX, praticamente todas as regiões do planeta ampliaram simultaneamente seus orçamentos de defesa.

Esse aumento não é apenas uma resposta episódica à guerra na Ucrânia, à rivalidade sino-americana, ao agravamento das tensões no Indo-Pacífico ou ao interminável conflito no Oriente Médio. O que está em curso é uma mudança estrutural na percepção das grandes potências sobre o futuro da ordem internacional, baseada na dissolução gradual da arquitetura política, econômica e psicológica que sustentou o mundo pós-1989.

O sistema internacional construído após a queda do Muro de Berlim fundava-se em três premissas: a globalização reduziria incentivos para guerras ou competições estratégicas entre grandes potências; a interdependência produtiva geraria estabilidade; e a hegemonia americana funcionaria como garantia estrutural da ordem. Países profundamente integrados não fariam guerras entre si porque os custos seriam altos demais. O comércio substituiria a geopolítica. Mercados substituiriam disputas de poder. Cadeias globais de produção produziriam estabilidade.

Essa hipótese moldou a arquitetura global pós-1989. A Europa desmontou parte significativa de suas capacidades militares. A Alemanha transformou-se em uma potência econômica deliberadamente desmilitarizada e, por que não, emasculada. A Otan entrou em uma crise existencial após o colapso soviético. Falava-se em “dividendos da paz”. Defesa passou a ser vista como resquício de um século ultrapassado, coisa de brucutus iletrados. Durante quatro décadas, o Ocidente viveu o que o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm chamou de “anomalia histórica”, um raro período em que as grandes potências não se preparavam para guerras de alta intensidade entre si.

Esse diagnóstico revelou-se equivocado. O pós-Guerra Fria não aboliu a geopolítica, apenas a suspendeu temporariamente sob a unipolaridade americana, ou unimultipolaridade, nos termos do cientista político americano Samuel Huntington, que descreveu um sistema internacional híbrido, com os EUA como única potência militar global, mas com o poder econômico repartido entre vários centros.

Essas premissas entraram em colapso simultaneamente. A ascensão chinesa, a recuperação militar russa, o desgaste relativo da capacidade americana de impor ordem global após o Iraque e o Afeganistão e a crescente instrumentalização econômica da tecnologia recolocaram a competição entre Estados no centro da política internacional. Sistemas unipolares raramente são permanentes, e a evolução da sociedade internacional quase nunca se comporta como imaginam os teóricos liberais do fim da história.

O crescimento dos gastos militares não se apresenta, portanto, apenas como fenômeno orçamentário, mas civilizacional. As grandes potências já não acreditam que o futuro será necessariamente mais estável que o passado. O mundo voltou a operar sob a lógica da insegurança estrutural e da geopolítica clássica, e essa talvez seja a transformação mais importante do século XXI até agora.

Como advertiam Morgenthau, Kennan e Kissinger, competição entre Estados, equilíbrio de poder e percepção de vulnerabilidade jamais deixaram de constituir o núcleo organizador da política internacional. Entretanto, a ideia de que prosperidade econômica produz automaticamente convergência política dominou o pensamento estratégico das elites ocidentais desde a década de 1990, moldando a relação com a China, a Rússia e a arquitetura financeira global. O erro analítico fundamental dessa premissa foi imaginar que racionalidade econômica substituiria racionalidade histórica, identitária e estratégica e que a burocracia tecnocrática substituiria a força dos nacionalismos. Não substituiu. Não substitui.

Essa interpretação confundiu uma conjuntura histórica específica com uma real transformação da natureza da política internacional. Historicamente, forças centrífugas de fragmentação têm se mostrado mais resilientes do que forças centrípetas de convergência. A China usou precisamente a integração econômica para financiar sua ascensão, incorporando cadeias globais, absorvendo tecnologia, expandindo capacidade manufatureira, acumulando reservas gigantescas e construindo um modelo de capitalismo de Estado orientado para competição estratégica de longo prazo.

A Rússia seguiu trajetória distinta, mas igualmente reveladora. Enquanto o Ocidente acreditava que a integração reduziria impulsos revisionistas, Moscou interpretava o avanço da Otan em sua periferia como ameaça existencial. A invasão da Geórgia, em 2008, a anexação da Crimeia, em 2014, e a invasão da Ucrânia, em 2022, demonstraram que cálculos geopolíticos continuavam prevalecendo sobre a racionalidade econômica estrita.

O caso iraniano é ainda mais emblemático e revela outra limitação dessa visão liberal: a crença de que sanções econômicas e isolamento financeiro seriam suficientes para neutralizar ambições estratégicas de Estados revisionistas. Submetido durante décadas a pesadas restrições econômicas, o Irã não abandonou seus objetivos geopolíticos. Ao contrário. Desenvolveu sofisticada arquitetura de guerra assimétrica baseada em mísseis balísticos, drones, guerra cibernética e redes de proxies regionais, tornando-se um dos principais polos de instabilidade do Oriente Médio. Em vez de buscar simetria militar convencional com os EUA, Teerã construiu capacidade de impor custos desproporcionais a adversários muito superiores militarmente. O caso iraniano demonstra que, em contextos de rivalidade estratégica profunda, resiliência ideológica, percepção de ameaça existencial e ambição regional prevalecem sobre a racionalidade econômica convencional.

Essa mudança tornou-se explícita na própria formulação doutrinária americana. As recentes National Security Strategy (NSS) e National Defense Strategy (NDS) abandonaram a linguagem da globalização e passaram a definir o cenário internacional como competição sistêmica entre grandes potências, percepção que ajuda a explicar por que os gastos militares crescem simultaneamente em praticamente todas as regiões estratégicas do planeta.

A nova corrida armamentista, entretanto, não se parece com a do século XX. O poder militar já não se mede apenas por arsenais nucleares, divisões blindadas, superioridade aérea e naval e capacidade industrial pesada. Hoje, a natureza do poder tornou-se mais difusa, sofisticada e integrada à estrutura econômica das sociedades, às cadeias produtivas, à infraestrutura digital, à inteligência artificial, aos semicondutores, às telecomunicações, ao espaço, à energia, à mineração, ao espaço virtual e ao controle de dados. Defesa, tecnologia, agro, indústria, comércio, segurança pública e soberania econômica deixaram de ser esferas separadas para formar um único ecossistema de poder nacional.

A trajetória é instrutiva. Na Guerra do Golfo, os EUA demonstraram uma superioridade tecnológica inédita. À época, muitos acreditaram que o futuro da guerra seria marcado apenas pela supremacia tecnológica americana. Mas as guerras do Iraque e do Afeganistão revelaram os limites da superioridade convencional diante de insurgências relativamente baratas e altamente adaptáveis.

Posteriormente, a ascensão chinesa expôs outra dimensão do problema: competição geopolítica depende não apenas de superioridade militar direta, mas da capacidade de controlar cadeias industriais críticas, dominar tecnologias emergentes e reduzir vulnerabilidades econômicas. Pequim não buscou apenas expandir suas Forças Armadas, mas construir autonomia sistêmica de poder, ao controlar infraestrutura logística global, ampliar domínio sobre minerais críticos, liderar setores estratégicos e reduzir dependências tecnológicas externas.

Reativamente, Washington passou a restringir exportações de semicondutores avançados, subsidiar a produção doméstica de chips, reorganizar cadeias produtivas estratégicas e tratar setores econômicos inteiros como ativos de segurança nacional. A política industrial, algo que parecia quase heresia liberal nos anos 1990, voltou ao centro da estratégia geopolítica.

O conflito na Ucrânia acelerou essa transformação e revelou a nova natureza da guerra. Drones relativamente baratos passaram a destruir plataformas militares multimilionárias, alterando a lógica tradicional de custo-benefício dos conflitos. Satélites comerciais tornaram-se instrumentos operacionais essenciais, e empresas privadas de tecnologia passaram a exercer influência direta sobre o campo de batalha. Guerra eletrônica, inteligência em tempo real, integração digital, capacidade de adaptação tecnológica, reposição industrial contínua e resiliência logística tornaram-se tão importantes quanto blindados, superioridade aérea e naval ou sofisticação militar convencional. A guerra voltou, em grande medida, a ser uma disputa entre Estados capazes de mobilizar sistemas nacionais integrados de poder.

Talvez seja esse o principal fenômeno geopolítico da atualidade: a militarização gradual da economia internacional, não no sentido clássico das economias de guerra total do século XX, mas no de que comércio, energia, tecnologia, dados e cadeias produtivas passaram a ser tratados como ativos centrais de segurança nacional. Os EUA compreenderam isso ao iniciar um processo de reindustrialização estratégica. A China já opera nessa lógica há décadas. A Europa tenta adaptar-se rapidamente após perceber sua vulnerabilidade energética e industrial diante da Rússia e sua vulnerabilidade econômica diante dos EUA.

Nesse cenário, o caso brasileiro torna-se particularmente revelador. O Brasil reúne praticamente todos os elementos de uma potência geopolítica: dimensões continentais, abundância de recursos naturais, liderança agroalimentar, reservas energéticas estratégicas, vasta projeção no Atlântico Sul e uma das maiores biodiversidades do planeta. Sob qualquer critério geopolítico clássico, deveria possuir uma cultura estratégica sofisticada.

Entretanto, talvez nenhuma grande potência territorial tenha desenvolvido percepção tão limitada sobre sua própria dimensão estratégica. Parte disso possui raízes históricas. Diferentemente da Europa, o Brasil não foi moldado por guerras interestatais recorrentes. Desde a Guerra do Paraguai, o país não enfrentou ameaças externas existenciais.

Aos poucos, consolidou-se a percepção difusa de um “isolamento geopolítico benigno”, que conformou e condicionou uma “ilusão estratégica brasileira”, assentada em um pacifismo estrutural involuntário e em cinco pressupostos: a crença de que a distância geográfica protegeria o país; a de que a diplomacia poderia substituir o poder material; a de que recursos naturais gerariam relevância automática; a de que a ausência de guerras regionais equivaleria à ausência de ameaças; e a de que a soberania seria garantida prioritariamente pelo direito internacional, e não pela capacidade nacional.

Essa ilusão não é apenas um traço difuso da cultura política nacional, mas uma doutrina operante dos que atualmente “formulam” nossa política externa. O segundo e o quinto pressupostos constituem o próprio sistema nervoso do atual pensamento diplomático. Morgenthau lembrava que a diplomacia é o cérebro do poder nacional, não seu substituto; entre nós, inverteu-se a equação, e passou-se a crer que a eloquência, o prestígio e o argumento jurídico poderiam compensar a ausência de capacidade material. O resultado é uma diplomacia farta de princípios e escassa de instrumentos.

Trata-se de uma herança que já foi racional. Para um Estado fraco, fazer-se “país do direito internacional” era uma estratégia inteligente de sobrevivência. Mas o tempo do Barão do Rio Branco, em que a diplomacia brasileira pensava em termos de território e poder, cedeu lugar a um juridicismo que toma a norma como anterior à força, quando a história ensina o contrário: o direito acompanha o poder, raramente o precede.

A esse desvio doutrinário soma-se um vício institucional. O Brasil não dispõe de uma instância capaz de fundir diplomacia, defesa, economia, tecnologia e inteligência em uma estratégia única: o Itamaraty pensa em um silo, o Ministério da Defesa em outro, a área econômica em um terceiro, e a política externa é conduzida como uma sequência de gestos e reações, não como execução de um desígnio. Onde os EUA preservam, de governo a governo, a continuidade de suas estratégias, o Brasil reescreve a sua a cada mandato, oscilando entre alinhamento automático e terceiro-mundismo reflexo, sem jamais acumular capital estratégico ao longo do tempo.

Daí uma cegueira específica e perigosa: a da interdependência convertida em arma. Enquanto as grandes potências mapeiam vulnerabilidades e transformam cadeias de suprimento, sistemas de pagamento e fluxos de dados em instrumentos de coerção, os formuladores brasileiros seguem lendo comércio e investimento como relações puramente comerciais, de ganhos mútuos. Negociamos acesso a mercados enquanto outros desenham gargalos. E, porque a estratégia não se ensina, o déficit se reproduz: a formação de nossas elites e a dos próprios diplomatas subestima tecnologia, geoeconomia, defesa e inteligência, perpetuando uma classe dirigente que não foi treinada para pensar em termos de poder e que, por isso, transmite a própria cegueira às gerações seguintes.

E segue-se operando com pressupostos estratégicos de um mundo que deixou de existir. Vulnerabilidades estratégicas já não se manifestam apenas na forma clássica de invasões militares. Dependência tecnológica, fragilidade cibernética, precariedade logística e infraestrutural, insuficiência industrial e disputa por recursos críticos passaram a integrar o núcleo da competição internacional.

O Brasil depende externamente de semicondutores, sistemas avançados de comunicação, satélites, GPS, componentes eletrônicos críticos, sistemas antiaéreos, smart weapons, defesa cibernética, inteligência artificial, drones, sensores e fertilizantes. Em muitos desses setores, a dependência externa, mais do que econômica, é geopolítica.

E, justamente quando o mundo amplia investimentos em defesa e reindustrializa setores estratégicos, o Brasil segue direção oposta. Sob Lula 3, o orçamento de defesa sofreu retração significativa, caindo de cerca de 1,5% do PIB para aproximadamente 1,1%, com redução acumulada superior a 11% nas despesas discricionárias, justamente a parcela responsável por investimentos, manutenção operacional, aquisição de equipamentos e modernização.

O contraste é eloquente. Europeus que durante décadas reduziram seus gastos militares passaram a elevar rapidamente seus orçamentos após a invasão da Ucrânia. A Alemanha criou um fundo extraordinário de € 100 bilhões para reequipamento militar e assumiu o compromisso de atingir 2% do PIB em defesa. A Polônia já ultrapassa 4% do PIB. Os EUA mantêm gastos superiores a US$ 950 bilhões anuais. A China segue ampliando seus investimentos em taxas reais de crescimento acima da expansão econômica global. Mesmo potências médias asiáticas vêm acelerando programas de modernização naval, espacial, cibernética e industrial.

O Brasil, em sentido inverso, reduziu sua capacidade relativa de investimento justamente quando se volta a tratar segurança, indústria e tecnologia como dimensões inseparáveis da soberania. O debate nacional continua aprisionado a simplificações ideológicas e fiscais de curto prazo, oscilando entre dois chavões igualmente pobres – “o Brasil gasta demais com militares” ou “o Brasil investe pouco em defesa” – que ignoram o núcleo real do problema.

A fragilidade brasileira não reside apenas no volume de recursos, mas na própria arquitetura da defesa nacional. O orçamento militar permanece rigidamente consumido por despesas obrigatórias, especialmente pessoal e Previdência, comprimindo o investimento em modernização operacional, pesquisa, inovação, prontidão logística e desenvolvimento tecnológico e produzindo um paradoxo: Forças Armadas relativamente grandes em efetivo, mas com limitada capacidade de dissuasão de alta intensidade.

Ao longo das últimas décadas, a defesa brasileira foi desconectada do restante do ecossistema econômico. Diferentemente do que ocorre nas grandes potências, o setor deixou de ser tratado como instrumento articulador de política industrial, inovação tecnológica, formação de capital humano avançado e projeção estratégica do Estado. A consequência foi uma espécie de isolamento em relação aos grandes ciclos de transformação econômica, tecnológica e industrial do país.

Essa desconexão produziu efeitos cumulativos. O Brasil perdeu densidade industrial em setores críticos, ampliou dependências tecnológicas externas e reduziu sua capacidade de transformar projetos militares em plataformas estruturantes de desenvolvimento nacional.

Essa fragmentação enfraqueceu a própria cultura geopolítica do Estado brasileiro. Sem integração entre defesa, indústria, tecnologia, infraestrutura, energia e planejamento econômico, o país perdeu capacidade de formular uma visão de longo prazo compatível com sua dimensão continental. O resultado é uma estrutura que preserva símbolos de poder estatal, mas com dificuldade crescente de converter potencial geográfico, econômico e demográfico em influência estratégica efetiva.

O Brasil é uma das poucas potências territoriais cujas elites perderam quase completamente o hábito de pensar geopoliticamente. Pensa-se excessivamente em gestão e cada vez menos em poder; em equilíbrio fiscal de curto prazo, mas não em resiliência estratégica; em commodities, mas não em autonomia tecnológica; em orçamento anual, mas não em projeção histórica de longo prazo.

Isso ajuda a explicar por que projetos fundamentais sofrem contingenciamentos sucessivos, interrupções e instabilidade orçamentária permanente, em um cenário no qual o Brasil permanece aprisionado à lógica fiscalista anual, à fragmentação burocrática e à ausência de coordenação entre política de defesa e projeto nacional de desenvolvimento.

Essa contradição salta aos olhos porque o Brasil possui programas tecnologicamente sofisticados, como o Prosub, o Gripen, o KC-390, as Fragatas Tamandaré e iniciativas espaciais e cibernéticas, capazes de gerar encadeamentos industriais relevantes, transferência tecnológica, formação de mão de obra altamente qualificada e fortalecimento da autonomia produtiva nacional. No entanto, à semelhança do Sisfron, sufocado há quase 20 anos pela imprevisibilidade orçamentária, criando espaços de obsolescência tecnológica e conceitual, esses projetos são tratados como despesas fiscais contingenciáveis, e não como instrumentos estruturantes de autonomia tecnológica e poder nacional.

Defesa não é assunto apenas militar, mas ativo de toda a sociedade. Envolve política industrial, universidades, infraestrutura crítica, inteligência artificial, espaço, energia, investimentos, promoção comercial e ecossistemas de financiamento e garantias de produção e exportação. Países incapazes de dominar tecnologias estratégicas tornam-se dependentes não apenas economicamente, mas geopoliticamente. Lideranças políticas brasileiras ainda não compreenderam essa transformação e talvez esse seja seu maior risco: a ausência de consciência estratégica compatível com sua dimensão geopolítica.

Raymond Aron advertia que “a história é trágica” e costuma punir países que confundem estabilidade efêmera com garantias permanentes de paz, sobretudo aqueles que ignoram mudanças históricas e só enxergam o perigo quando ele se torna inevitável.

Mas a tragédia, em política, raramente é destino: é quase sempre escolha ou omissão repetida até virar hábito. A ilusão estratégica brasileira não foi imposta por nenhum inimigo. Foi cultivada em casa, paciente e voluntariamente, como quem confunde a ausência de tempestade com a solidez do telhado.

Fronteira invisível do poder: acesso à IA é a nova expressão da soberania mundial

Imagine acordar amanhã e descobrir que as inteligências artificiais mais avançadas do planeta simplesmente deixaram de funcionar no Brasil. Não por um ataque cibernético, uma guerra tampouco uma crise econômica, mas porque autoridades de uma potência global decidiram restringir o acesso de estrangeiros aos modelos mais sofisticados de inteligência artificial.

Empresas interrompem projetos, universidades suspendem pesquisas, hospitais perdem ferramentas de diagnóstico, instituições financeiras veem seus sistemas de prevenção a fraudes tornarem-se obsoletos e órgãos públicos ficam privados da infraestrutura digital da qual passaram a depender. Parece ficção científica, mas não é. É exatamente o tipo de poder que começa a moldar a ordem internacional.

Toda época possui sua tecnologia decisiva, aquela que reorganiza o equilíbrio de poder e redefine a hierarquia do sistema internacional. No século XIX, esse instrumento foi o domínio dos mares. Como ensinou Alfred Thayer Mahan, quem controlava as rotas marítimas controlava o comércio; quem controlava o comércio acumulava riqueza; e quem acumulava riqueza a convertia em poder. O Império Britânico compreendeu essa lógica antes de todos e transformou a hegemonia naval em supremacia global.

No século XX, a geografia estratégica descrita por Halford J. Mackinder e Nicholas Spykman continuou determinando a competição entre Estados, mas foi acompanhada por uma nova dimensão de poder: a ciência. O átomo, os foguetes, os satélites e a informática converteram o conhecimento em instrumento de sobrevivência nacional. A Guerra Fria foi, antes de tudo, uma disputa tecnológica. Quem dominava a inovação dominava também a capacidade militar, industrial e econômica.

O século XXI inaugura uma transformação ainda mais profunda. O território decisivo da competição internacional deixou de ser apenas físico. A nova fronteira estratégica é cognitiva e envolve mais do que competição comercial entre empresas de tecnologia. É uma corrida estratégica entre potências, travada com a frieza e a desconfiança de uma guerra. E, no momento, o Brasil não está nessa competição.

A IA não constitui apenas inovação tecnológica ou ferramenta de aumento de produtividade. Ela se tornou infraestrutura de poder, fator de produção, multiplicador militar e instrumento de influência geopolítica. Em torno dela está surgindo uma nova arquitetura internacional, na qual o acesso à capacidade computacional e aos modelos mais avançados passa a definir quais países exercerão soberania plena e quais dependerão de terceiros.

É essa transformação que propomos chamar de soberania cognitiva: a capacidade de uma nação de preservar acesso confiável às tecnologias responsáveis por produzir, processar e ampliar inteligência em escala. Assim como a soberania energética condicionou a autonomia dos Estados no século XX, a soberania cognitiva tende a tornar-se um dos principais fundamentos da autonomia nacional neste século. Não se trata de produzir todos os chips do mundo nem de desenvolver isoladamente os modelos mais sofisticados. Trata-se de garantir que decisões tomadas em capitais estrangeiras não possam interromper, de um dia para outro, a capacidade nacional de inovar, competir, defender-se e governar.

Já sustentamos, em artigo anterior nesta Gazeta, intitulado A IA virou arma militar, que a IA deixou de ser tecnologia predominantemente civil para converter-se em instrumento de poder estatal e componente essencial de capacidades militares. O que se desenhava como tendência tornou-se doutrina. Os EUA tratam a cadeia de semicondutores com o mesmo zelo com que, na Guerra Fria, tratavam os mísseis balísticos e organizam o acesso aos chips e aos modelos de fronteira como quem administra um arsenal: por aliados confiáveis, por países meramente tolerados e por nações francamente hostis. A lógica deixou de ser a do livre mercado e passou a ser a da segurança nacional.

Robert Gilpin observava que grandes transformações na ordem internacional costumam ocorrer quando novas tecnologias alteram profundamente a distribuição relativa de poder entre os Estados. É precisamente isso que estamos testemunhando. A IA deixou de ser apenas um setor econômico para tornar-se variável central da competição estratégica. Quem controlar sua infraestrutura controlará parte crescente da inovação científica, da produtividade industrial, da superioridade militar e, em última instância, da influência política internacional.

E o acesso, nessa nova ordem, é a arma que nenhum veículo blindado iguala. Em 2026, o governo americano determinou que um dos principais laboratórios de IA do país suspendesse o acesso de estrangeiros a seus modelos mais avançados, Mythos e Fable; a Anthropic, desenvolvedora de ambos, respondeu suspendendo o acesso de todos, no mundo inteiro, por tempo indeterminado.

Foi a profecia cumprida: o cercamento da fronteira tecnológica, que descrevíamos como o equivalente digital de um embargo, deixou de ser hipótese e tornou-se fato consumado. As autoridades dos Estados Unidos voltaram atrás na proibição de acesso ao Fable no início de julho, mas mantiveram as restrições relacionadas ao Mythos.

A lição que o episódio inscreve a ferro é simples e brutal: na era cognitiva, a capacidade da qual um país depende pode evaporar da noite para o dia, não por uma guerra, mas por um despacho administrativo. Esse embargo tecnológico deixou de ser hipótese para transformar-se em realidade, da qual o Brasil se aproxima sem possuir estratégia para alcançar soberania cognitiva.

A história ensina o que está em jogo, e ensina sem piedade. Sempre que uma tecnologia altera profundamente a distribuição do poder entre os Estados, ela deixa de ser apenas inovação econômica para se transformar em ativo estratégico, dividindo o mundo entre soberanos e tutelados. O mercado cede espaço à geopolítica; a concorrência, ao controle; a eficiência, à segurança nacional e à resiliência. O que hoje observamos com os semicondutores e a inteligência artificial não constitui ruptura da história, mas sua continuidade.

Em 1945, os EUA detinham o monopólio atômico; no ano seguinte, a Lei McMahon cortou o acesso à tecnologia nuclear norte-americana até de seu aliado mais próximo, o Reino Unido, que combatera a seu lado e contribuíra para o próprio Projeto Manhattan. Londres precisou desenvolver seu programa nuclear para fins militares sem apoio direto dos EUA e gastar mais de uma década de diplomacia paciente para reconquistar a confiança de Washington, selada apenas em 1958. A lição é dupla e atualíssima: a autarquia tecnológica quase nunca é viável, e a exclusão do clube dos que dominam a tecnologia decisiva é uma sentença que se paga em gerações. Quem chega tarde, ou chega do lado errado da linha, dificilmente recupera o tempo perdido.

A IA representa novo salto dessa trajetória histórica. Pela primeira vez, a tecnologia dominante não amplia apenas uma capacidade específica, mas potencializa todas as demais. Acelera a pesquisa científica, otimiza cadeias logísticas, aumenta a produtividade industrial, transforma os mercados financeiros, revoluciona a medicina, amplia capacidades militares e acelera o próprio desenvolvimento de novas IAs. Não é apenas mais uma tecnologia disruptiva, mas a primeira capaz de acelerar sistematicamente a produção de conhecimento em praticamente todos os setores da economia.

Justamente por isso, a IA começa a ocupar lugar comparável ao que a energia ocupou na Revolução Industrial ou o petróleo desempenhou durante o século XX. Ela deixa de ser um setor para tornar-se infraestrutura. Mais do que um novo mercado, converte-se em novo fator de produção. Terra, trabalho e capital continuam indispensáveis, mas passam a depender crescentemente de uma quarta variável: a capacidade de produzir inteligência em escala. Em outras palavras, a competição internacional passa a ser, cada vez mais, uma disputa pela soberania cognitiva.

Essa transformação explica por que as grandes potências passaram a tratar chips avançados, capacidade computacional e modelos de fronteira como ativos de segurança nacional. O objetivo não é apenas liderar mercados, mas controlar a infraestrutura da inteligência mundial. O que antes era política industrial converte-se em grande estratégia.

Convém medir, então, o tamanho real da nossa fragilidade. Pensemos no que sustenta um único modelo de fronteira. Na base está o silício: chips fabricados em um processo tão exigente que apenas três empresas no mundo o dominam, dependentes, todas elas, de uma única companhia holandesa, a ASML, que fabrica as máquinas de litografia sem as quais nada se produz. Acima do silício está a energia: um data center de fronteira consome o equivalente a uma cidade média, e projetos norte-americanos já se medem em gigawatts.

Acima da energia estão os modelos, treinados por um punhado de laboratórios que gastam, cada um, mais por ano do que o Brasil inteiro destina à ciência. E, acima de tudo, está o talento, escasso e migratório, que o Brasil forma e exporta como exporta soja. O cômputo tornou-se a moeda mensurável do poder neste século, como o foram a tonelagem naval e a capacidade nuclear nos anteriores, e a distância entre quem o possui e quem não o possui define um domínio importante da hierarquia internacional.

Dessas camadas, o Brasil não controla nenhuma. Não temos a litografia, não fabricamos os chips, não treinamos os modelos de fronteira e perdemos os cérebros que formamos. Temos, é verdade, uma única peça do quebra-cabeça, e a ela voltaremos, porque nela mora a única estratégia possível. Antes, porém, é preciso entender por que essa dependência é de uma espécie mais perigosa do que qualquer outra que já enfrentamos.

O Brasil conhece bem a sensação da dependência estratégica. Importa mais de 85% dos fertilizantes que aplica em suas lavouras, de uma oferta mundial concentrada em poucas mãos, e sabe o que é ver o custo da própria comida oscilar ao sabor de guerras alheias. Mas reparemos numa diferença decisiva. Por mais dolorosa que seja, a dependência de fertilizantes é superável, pois o Brasil tem o subsolo, o gás, o fosfato e o potássio. Tem, portanto, a geologia da própria emancipação. É um problema que se resolve com capital, infraestrutura e a paciência de um projeto longo. A servidão do adubo tem cura, ainda que lenta.

Com a IA não há cura análoga, e aqui está a tese deste artigo: a dependência em IA pode tornar-se o passivo estratégico mais grave do Brasil neste século, pior que o dos fertilizantes, porque o ecossistema da inteligência artificial não é um insumo, é um organismo, e nenhuma de suas partes se deixa estocar, substituir ou nacionalizar com a simples aplicação de tempo e dinheiro. O fertilizante é uma commodity, fungível, estocável, substituível, comprável de vários fornecedores e, em grande medida, replicável com a geologia que já temos.

A dependência da IA pertence, entretanto, a uma categoria inteiramente distinta. O que a distingue de praticamente todos os insumos estratégicos conhecidos é que ela não constitui apenas um produto, mas infraestrutura sobre a qual passa a repousar parte crescente da economia contemporânea. É uma fronteira em movimento, e quem fica de fora não permanece onde está. Afasta-se progressivamente da fronteira tecnológica.

É precisamente esse mecanismo que torna a soberania cognitiva diferente da soberania energética, alimentar ou mineral. Um país pode recuperar décadas de atraso industrial. Pode descobrir novas reservas de petróleo. Pode expandir sua produção agrícola. Mas recuperar o tempo perdido em uma tecnologia cujo próprio ritmo de evolução se acelera continuamente é infinitamente mais difícil, pois, quanto maior a distância tecnológica, maior a velocidade com que essa distância tende a crescer.

O cômputo não se estoca; o que vale é a capacidade instalada hoje, treinando os modelos de amanhã, que treinarão os de depois. É um juro composto da inteligência, e o Brasil está fora dele. Pior: ao contrário do adubo, que nutre uma safra, a IA é o substrato da produtividade futura, da defesa, da economia e da administração pública que nossos filhos herdarão. Uma nação que não a possui não paga apenas mais caro; torna-se estruturalmente subalterna, locatária da cognição alheia, condenada a alugar do estrangeiro a própria capacidade de pensar em escala.

É o embargo do século XXI, e traz um agravante que o torna mais cruel que o do átomo ou o do adubo: não há jazida no subsolo e não há projeto industrial de 25 anos que dele nos liberte, porque a fronteira que precisaríamos alcançar terá avançado outra vez quando lá chegássemos. E, como a própria Terafab, de Elon Musk, demonstra – a fábrica de chips orçada em até US$ 119 bilhões, com a ambição de produzir sozinha mais cômputo do que toda a indústria atual –, erguer o ecossistema do zero é incerto, mesmo com bilhões e gênio. Por isso, o slogan da “IA soberana”, repetido por autoridades brasileiras de todos os matizes, não é apenas ingênuo; é perigoso, porque substitui a estratégia pela pose, e a pose anestesia.

E aqui chegamos ao documento que o Brasil ousa chamar de estratégia: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). Batizado com o título de autoajuda “IA para o Bem de Todos”, promete R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Ponhamos o número em perspectiva. São pouco mais de US$ 4 bilhões ao longo de quatro anos, o equivalente ao que as grandes empresas americanas de tecnologia investem, somadas, em pouco mais de uma semana. É também, sozinho, quase tudo o que o país gastou em um único ano com toda a área de ciência e tecnologia.

Com essa quantia, promete um supercomputador “entre os cinco mais potentes do mundo”, ambição que já nasce vaga e obsoleta, rodando, como quase tudo no país, sobre GPUs importadas da Nvidia, em nuvens hospedadas pela Amazon, sob um marco regulatório que segue adiado, à espera das eleições.

As premissas do plano falam em bem-estar, diversidade, sustentabilidade e governança participativa, vocabulário típico de um seminário de recursos humanos woke, não o de uma estratégia de poder nacional. Confunde-se adoção com soberania, gasto com capacidade, e o vazio é maquiado com um PDF de capa reluzente. O perigo não é o PBIA ser modesto, mas, sim, tomá-lo por estratégia e, assim, dormir o sono dos que se julgam protegidos.

Que fazer, então, se a autarquia é fantasia e a passividade é suicídio? A resposta começa por uma humildade estratégica que falta ao discurso nacional: o Brasil não vai dominar a fronteira da IA, e fingir o contrário é desperdiçar a única década que importa. O objetivo realista não é a “IA soberana”, é a mitigação da fragilidade, o que os estrategistas chamam de dependência administrada. Disso decorrem linhas de ação concretas.

A primeira, e mais urgente, é diplomática: garantir ao Brasil assento no grupo confiável da nova arquitetura norte-americana de controle de exportações de chips e modelos, o que não será possível com um governo brasileiro francamente hostil a Washington. O mundo da IA está sendo dividido, neste exato momento, entre aliados confiáveis, países tolerados e nações restritas, e o episódio Mythos e Fable mostrou que essa fronteira é real e excludente.

Assim como o Reino Unido teve de negociar, ano após ano, seu retorno ao círculo nuclear norte-americano, o Brasil terá de negociar ativamente seu lugar no círculo do cômputo. Uma das tarefas centrais da política externa brasileira nos próximos anos é assegurar que o país fique do lado certo dessa linha, mediante a adoção de instrumentos bilaterais com os EUA, tratados com a mesma seriedade com que se tratam segurança energética e defesa. Isso deve constar de qualquer estratégia de política externa digna do nome.

A segunda explora a única carta que o Brasil de fato possui: energia limpa, abundante e barata. Se há um insumo da pilha de IA em que somos ricos, é eletricidade renovável, justamente o gargalo que sufoca os data centers norte-americanos e europeus. O Brasil deve transformar essa abundância em presença física de cômputo no território nacional, atraindo o investimento dos grandes provedores, como fazem os emirados do Golfo e os países nórdicos. Ainda que a infraestrutura seja de capital estrangeiro, a presença física significa jurisdição, empregos qualificados, transferência de competência e, sobretudo, poder de barganha. Energia é a nossa moeda, e é com ela que compramos um lugar à mesa.

A terceira é diversificar as parcerias dentro do bloco que importa. Os EUA são o sócio indispensável, porque controlam chips, modelos e capital. Mas Japão, Coreia do Sul e Taiwan oferecem equipamentos, técnicas de integração que unem chip e memória (advanced packaging) e formação de quadros. Com a China, a prudência enseja cautela: ela oferecerá chips e modelos a preço político, mas aceitá-los nos expulsaria do grupo confiável ocidental e nos lançaria numa subalternidade pior, temperada por riscos de vigilância. Realismo não é equidistância, e sim saber de que lado fica o futuro.

A quarta é construir, em vez do quimérico modelo de fronteira, a camada em que o retorno marginal brasileiro é maior: a aplicação. Não competiremos com os laboratórios que gastam dezenas de bilhões treinando modelos gigantes. Competiremos – e podemos vencer – ajustando esses modelos aos domínios em que temos dados e vantagem natural: o agronegócio, a medicina tropical, a biodiversidade e a gestão de redes elétricas. Os esforços nacionais de modelos próprios fazem sentido como camada de adaptação soberana, não como pretensos campeões a desafiar a fronteira.

A quinta é multilateral e subsidiária, jamais substitutiva: articular um arranjo lusófono e sul-americano de cômputo e dados, com o Brasil como polo regional, aproveitando o patrimônio linguístico do português como ativo estratégico. Foros como o BRICS servem para hedge pragmático, não como sucedâneo do acesso ocidental que de fato decide o jogo. Quem confunde o acessório com o essencial paga com décadas.

A sexta, por fim, é institucional: tirar a IA do gueto do Ministério da Ciência e Tecnologia e instalá-la no núcleo da grande estratégia nacional, ao lado da política externa e da defesa. Enquanto a inteligência artificial for tratada como pauta setorial de inovação, e não como questão de poder nacional, nenhum plano, por mais bilhões que prometa, escapará da retórica.

Há uma simetria histórica que deveria nos assombrar. O século XX foi decidido por quem dominou primeiro as tecnologias capazes de aniquilar ou sustentar nações inteiras e soube negá-las aos rivais. O século XXI será moldado por quem dominar a inteligência das máquinas e souber tirar cognição da areia e da luz.

O Brasil chega a essa corrida com as matérias-primas do novo tempo nas mãos e ameaça desperdiçá-las com uma estratégia feita de adjetivos e um PowerPoint batizado de plano. Uma estratégia brasileira de IA realista tem de cortar o besteirol pseudoprogressista, reconhecer as limitações estruturais do país e fazer escolhas possíveis, o que é inteiramente distinto do que foi feito até o momento.

A dependência de fertilizantes empobrece uma safra; a dependência de inteligência empobrece um século. A primeira tem cura na geologia e na paciência. A segunda só tem remédio na lucidez estratégica, e lucidez é precisamente o que nos falta enquanto trocamos política externa por bravata e estratégia por autoestima. Nenhum país exerce autonomia estratégica quando depende de decisões tomadas por outros para acessar a infraestrutura tecnológica sobre a qual repousam sua economia, sua ciência e sua defesa.

Ou o Brasil entende, ainda nesta década, que o acesso à inteligência artificial é uma das principais expressões contemporâneas da soberania, ou se acomodará, dócil e bem-intencionado, à mais amarga das servidões: transferir para outros o controle sobre sua própria inteligência.