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As Armadilhas de Orbán

A queda de Viktor Orbán não inaugura apenas uma nova gestão em Budapeste, mas o início de uma complexa limpeza institucional. Péter Magyar herda um Estado capturado e um cenário geopolítico minado, onde o triunfo nas urnas revela-se a etapa mais simples do processo. Como alguém que vivenciou por dentro a diplomacia política do Leste Europeu, posso atestar que o verdadeiro desafio reside em governar um país onde o Fidesz não apenas ocupou cargos, mas remodelou a própria estrutura das instituições por meio de uma “autocracia furtiva”. Lembro que Orbán não caiu diante da oposição liberal tradicional, mas perante um dissidente que utilizou o vocabulário do próprio sistema para implodi-lo. Sob a euforia das ruas, porém, oculta-se uma realidade técnica brutal: o Estado húngaro foi privatizado em benefício de uma oligarquia leal. Desmantelar esse aparato sem provocar um colapso administrativo exigirá uma destreza incomum na história política moderna.

O primeiro e mais imediato obstáculo é a armadilha das fundações públicas de interesse comum, um mecanismo sofisticado de transferência de ativos estatais para mãos privadas que Orbán utilizou para blindar o seu poder. Universidades, parques industriais e até instituições culturais foram colocados sob o controle de conselhos curadores com mandatos vitalícios, compostos por ideólogos do antigo regime. Mesmo com a maioria de dois terços conquistada pelo Tisza, Magyar enfrentará uma resistência institucional sem precedentes, onde o orçamento público flui para entidades que ele não controla. Esse deep state funcionará como uma guerrilha burocrática, capaz de obstruir pautas, congelar investimentos e vazar informações estratégicas. Para o novo primeiro-ministro, a “limpeza” institucional não será apenas uma promessa de campanha, mas uma questão de sobrevivência fiscal, pois sem recuperar o controle sobre esses ativos, o governo Magyar corre o risco real de queda, uma vez que deterá o comando, mas não o leme da nação.

No tabuleiro externo, o divórcio com a Rússia de Vladimir Putin deixará de ser uma divergência diplomática para se tornar uma frente de guerra híbrida. A Hungria é perigosamente dependente da infraestrutura russa, simbolizada pela expansão da usina nuclear de Paks II e pelos contratos de longo prazo com a Gazprom. Putin, ao perder seu interlocutor privilegiado no Conselho Europeu, deverá transicionar do apoio político para a sabotagem ativa. A inteligência russa, profundamente infiltrada nas estruturas de segurança húngaras após anos de leniência de Orbán, possui capacidade técnica para instigar o caos social através de ataques cibernéticos a serviços essenciais ou pela manipulação cirúrgica do preço da energia para inflamar a opinião pública contra Magyar. Para o Kremlin, a normalização da Hungria dentro da OTAN é um prejuízo geopolítico inaceitável, pois elimina o “veto amigo” que Moscou utilizava para paralisar a coesão ocidental.

A relação com a China de Xi Jinping apresenta uma armadilha de natureza distinta, mas igualmente asfixiante. Sob Orbán, a Hungria tornou-se o principal hub de entrada da tecnologia chinesa na Europa, abrigando fábricas colossais da BYD e da CATL que hoje são pilares do emprego e do PIB húngaro. Pequim não utiliza a agressividade russa, mas a “geopolítica do balanço patrimonial”. Se Magyar alinhar-se rigorosamente às diretrizes de de-risking de Bruxelas e Washington, ele enfrentará o risco de uma retirada súbita de capital chinês, o que poderia mergulhar a Hungria em uma recessão profunda logo em seu primeiro ano de mandato. O desafio do novo governo será renegociar contratos de infraestrutura opacos, como a ferrovia Budapeste-Belgrado, sem alienar o capital que sustenta a estabilidade macroeconômica do país. É um exercício de equilibrismo diplomático onde Magyar terá que convencer Pequim de que a Hungria continua sendo um destino seguro, enquanto assegura a Bruxelas que não é mais um “cavalo de Troia” chinês.

Por fim, a variável mais sensível será a gestão das expectativas internas diante da narrativa de “unidade nacional”. Magyar assume o poder com a promessa de curar a polarização, mas governar um país onde metade da população foi doutrinada por 16 anos em uma retórica de cerco e vitimização nacionalista é uma tarefa hercúlea. A armadilha de Orbán foi criar uma dependência psicológica no eleitorado entre a sua figura e a segurança da nação. Se Magyar falhar em entregar resultados econômicos imediatos ou se a reintegração à UE parecer uma “submissão” aos olhos do húngaro médio, o Fidesz — ainda poderoso e financiado — poderá rapidamente capitalizar sobre o ressentimento. O sucesso desta nova era não dependerá apenas de leis e decretos, mas da capacidade de Magyar de oferecer uma alternativa de orgulho nacional que não precise de inimigos externos para existir. A Hungria de 2026 é um campo de provas para a democracia ocidental: se Magyar falhar, ele provará a tese de Orbán de que o sistema liberal é incapaz de gerir as complexidades do século XXI, ao contrário, se triunfar, Budapeste voltará a ser o farol de liberdade que foi em 1989.

O que aconteceria se Michelle fizesse churrasco de paca para Bolsonaro?

Janja e Lula publicaram nas redes sociais um vídeo de Páscoa fazendo um churrasco de paca. Não vou nem entrar na seara de não falar de Jesus no principal feriado cristão ou da ausência de família na cena. Fico apenas na paca. Como explicar a escolha? No melhor cenário possível, é a versão tupiniquim do “comam brioches” de Maria Antonieta. A paca é uma carne caríssima mostrada a um país de famílias endividadas para quem Lula prometeu a picanha que jamais entregou. Na pior das hipóteses, poderia ser um crime ambiental.

A legislação brasileira trata animais silvestres de forma bem restrita e proíbe caça, captura e comercialização sem autorização. A Lei de Crimes Ambientais prevê detenção de seis meses a um ano e multa para quem utiliza espécie silvestre sem a devida permissão. A única saída jurídica é a origem comprovadamente regular, por meio de criadouros licenciados e registrados. No vídeo, essa origem da paca não foi especificada. Depois, nos comentários, Janja disse que a carne de paca teria vindo de produtor legalizado. Não apareceram até agora a nota fiscal da compra, o documento de origem do produtor legalizado e nem mesmo um produtor que assuma o fornecimento. Ficou por isso mesmo.

Suponhamos que apareçam os documentos que garantem a legalidade do churrasco de paca. Mesmo nessa hipótese mais favorável existe desgaste político no episódio. Exibiu-se uma carne de luxo para um país onde a promessa de campanha foi picanha na mesa. A picanha não chegou na mesa do povo, mas chegou carne rara na mesa do presidente.

Luisa Mell se meteu na história. Disse que assistiu ao vídeo várias vezes para ter certeza do que estava ouvindo. Perguntou “qual o objetivo dessa porcaria, Janja?” e classificou o episódio como uma “irresponsabilidade inacreditável”. O ponto levantado por ela não se resumiu à legalidade. Mesmo que a carne de paca tenha vindo de criadouro autorizado, é absurdo expor o consumo de paca como cena simpática de feriado em um país que convive com tráfico de animais e fiscalização precária. O gesto que banaliza uma cadeia delicada e dá verniz doméstico a um consumo que, pela própria escassez de criadores legalizados, continua sendo elitista, raro e cercado de ambiguidades.

Houve denúncias ao Ibama, ao Ministério Público Federal e à Procuradoria-Geral da República. O caso chegou ao Congresso. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, pediu ao Ministério do Meio Ambiente apuração da origem do animal e eventual aplicação de sanções. O Ibama não se pronunciou. Estamos mais uma vez diante do ritual brasileiro da seletividade.

Muita gente lembrou do caso da capivara Filó, em 2023. O influenciador Agenor Tupinambá foi multado em R$ 17 mil, obrigado a entregar o animal e a retirar conteúdos das redes sociais. O próprio Ibama publicou nota dizendo que ele fora autuado por diversos crimes ambientais, entre eles abuso contra capivara e manutenção em cativeiro para obtenção de vantagem financeira. Agenor não comeu a capivara, cuidou dela.

A pergunta inevitável é o que aconteceria se Michelle fizesse churrasco de paca para Jair Bolsonaro. Tenho algumas apostas. O Ibama chegaria segundos depois da postagem do vídeo, antes mesmo de comerem o churrasco. Luisa Mell não estaria sozinha. Artistas gravariam videozinhos emocionados falando da família da paca, da crueldade, da irresponsabilidade ambiental. A militância faria uma hashtag em defesa das pacas.

Especialistas seriam convocados para explicar que a espécie tem baixa taxa reprodutiva. Influenciadores progressistas chamariam o episódio de pedagogia fascista do abate. A imprensa nacional sairia em peregrinação cívica atrás do criadouro, da licença, do CPF do tratador, da guia de transporte, do fiscal que assinou, da avó da paca e, se preciso, do mapa astral do bicho. O consumo de um animal silvestre viraria retrato do bolsonarismo profundo, metáfora da brutalidade nacional e prova cabal de que a extrema direita quer devorar até os pobres bebês pacas, tão fofos e indefesos.

O episódio da paca interessa menos pelo cardápio do que pelo teste institucional que ele oferece. A lei é a mesma, os órgãos são os mesmos, a imprensa é a mesma, os artistas são os mesmos, a militância é a mesma. A diferença aparece no zelo, na urgência e no apetite para fiscalizar. Continua sempre atual a frase emblemática de Danilo Gentili, dita em uma entrevista comigo anos atrás: “Não é o que faz, é quem faz”.

China, Estados Unidos, Japão e o Futuro de Taiwan 

Como os acontecimentos da atualidade internacional impactam a segurança de Taiwan (uma segurança cada vez mais ameaçada pela perspectiva de anexação à República Popular da China-RPC)? Se levarmos em conta os sentimentos da grande maioria dos 23,5 milhões de habitantes da ilha, principalmente suas gerações mais jovens, nascidas e criadas em liberdade, desde o final dos anos 1980, essa anexação só poderá ser realizada mediante forte coação militar e/ou ‘psicológica’…. Também pudera. Nos últimos anos, a sociedade taiwanesa vem assistindo, atenta e apreensiva, à escalada de repressão com que Pequim destrói os vestígios do modelo “Um País, Dois Sistemas”, ainda restantes em Hong Kong. No final do século passado, quando o Reino Unido transferiu o controle de sua próspera colônia à RPC, esta se comprometeu a não alterar as instituições políticas de Hong Kong por um prazo de 50 anos. À época, o Ocidente acalentava o sonho de que, ao longo do tempo, o forte desenvolvimento econômico acabaria ‘democratizando’ o regime comunista. A realidade que se seguiu não poderia ter sido mais decepcionante. Em 2020, Pequim impôs legislação de segurança nacional destinada a reprimir protestos populares, censurar a imprensa e prender ativistas pró-democracia. O mais recente ato dessa escalada foi a condenação a 20 anos de prisão do empresário e editor Jimmy Lai, fundador do jornal oposicionista Apple Daily, em fevereiro. Acusações contra ele: conspirar contra a segurança nacional com apoio de estrangeiros e publicar material subversivo. Enfim, Hong Kong é um espelho do que o futuro reserva para Taiwan em caso de anexação à China continental.

E qual seria o impacto disso na arquitetura de defesa da livre navegabilidade no Indo-Pacífico, por onde trafega quase metade de toda a riqueza produzida no planeta e cujo esteio são as alianças militares dos Estados Unidos com potências da região, tais como as Filipinas, a Austrália, a Nova Zelândia e, sobretudo, o Japão?

Uma primeira — e apressada — leitura de dois importantes documentos recém-publicados pelo governo americano poderia levar a conclusões pessimistas e perigosas para o futuro de Taiwan. A Estratégia de Segurança Nacional (ESN, datada de novembro, mas divulgada em dezembro de 2025) e a Estratégia de Defesa Nacional (EDN, de janeiro deste ano) reafirmam a proteção do território nacional e o entorno hemisfério imediato dos Estados Unidos como prioridade número 1. A EDN mobiliza os meios necessários à consecução das metas da ESN, e cada novo governo tem por obrigação a formulação de ambas, à luz da evolução da tecnologia e da conjuntura internacional.

O secretário Pete Hegseth (neste segundo mandato, o presidente Donald Trump alterou o nome da pasta da Defesa para “Departamento da Guerra”, com a intenção de fortalecer o chamado ethos guerreiro nº estabelecimento militar americano, mas a mudança depende ainda de autorização do Congresso para ser oficializada) declarou essa prioridade, em 6 de dezembro último, um dia depois da publicação da ESN, durante evento no Fórum “Reagan” de Defesa Nacional, na Califórnia.

A espetacular ‘extração’ do déspota venezuelano Nicolás Maduro pelos serviços secretos dos Estados Unidos (operação “Absolute Resolve”), no dia 3 de janeiro deste ano, precedida de intensa campanha aeronaval americana contra embarcações alegadamente utilizadas pelo narcotráfico no Caribe e no Pacífico, pareceu comprovar essa opção preferencial pela defesa das Américas, o chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, rebatizada por alguns observadores de “Doutrina Donroe”…. A operação pegou de surpresa não somente o regime bolivariano, mas também o aparentemente firme aliado chinês. Horas antes de sua captura na companhia da primeira-dama Cília Flores, Maduro participara de recepção a uma comitiva de representantes da China, sinal de que os zelosos oficiais da inteligência de Pequim não tinham a menor suspeita do que estava para acontecer. Certos analistas veem aí uma ‘deixa’ tácita de que o regime comunista chinês pode se sentir à vontade para agir irrestritamente em sua esfera de influência asiática, assim como agora faz na sua própria esfera a superpotência americana.

Associa-se a essa percepção o fato de que a guerra dos Estados Unidos e seu aliado israelense contra o Irã, iniciada na madrugada de 28 de fevereiro para 1º de março últimos, está deslocando preciosos foco, energia e recursos militares de Washington para o Oriente Médio, o que tenderia a fragilizar a defesa da Coreia do Sul e do Japão. Do primeiro desses países foram transferidas baterias antimísseis “Thaad” (Terminal-High Altitude Area Defense) para países árabes do Golfo aliados dos americanos; e do segundo, dois navios pertencentes ao Grupo Anfíbio de Prontidão, capitaneado pelo “USS Tripoli”, e à 31ª Unidade Expedicionária dos Marines (fuzileiros navais). O “Tripoli” se deslocou rumo ao Oriente Médio deixando seu porto no Japão com 2.500 fuzileiros navais a bordo e transportando caças furtivos “F-35”, além de veículos anfíbios para desembarque de tropas, o que equivale a dizer que a deterrência de americanos e aliados no Indo-Pacífico passa a depender mais de aviões e de submarinos do que de forças expedicionárias com apoio aéreo oferecido por porta-aviões.

A Coreia do Sul, quinta potência mundial em termos de armamento convencional, é também sede da maior base militar americana fora do território dos Estados Unidos, com uma tropa total de 28.500. Apesar de o presidente esquerdista Lee Jae Myung ter tornado menos frequente a participação dos militares sul-coreanos nos exercícios conjuntos com seus colegas americanos, a fim de, supostamente, acalmar as desconfianças do regime comunista da Coreia do Norte, e, ao mesmo tempo, ter-se comprometido a elevar as despesas militares dos atuais 2,5% do PIB para 3,5% até 2035, o governo de Seul, curiosamente, protestou contra a saída dos “Thaad”….

Defesa hemisférica ou deterrência no Indo-Pacífico (falso dilema) — Uma reflexão cuidadosa sobre esses fatos deve nos acautelar contra raciocínios simplistas e conclusões superficiais.

Para começo de conversa, não deveria constituir motivo de espanto para ninguém que os dois documentos aqui referidos convergem na avaliação de que os desafios à hegemonia americana decorrentes das ambições geopolíticas chinesas só poderão ser adequadamente enfrentados se os Estados Unidos forem capazes de, ‘no mínimo’ assegurar a defesa do próprio território e do entorno continental. Desde que foi formulada, em 1823, a Doutrina Monroe rechaça intervenções de potências extracontinentais no Hemisfério Ocidental. E, hoje, o preenchimento do seu “Corolário Trump” requer pleno acesso — e também plena ‘manobrabilidade’ — dos Estados Unidos a pontos estrategicamente vitais desse hemisfério, como o Canal do Panamá e a Groenlândia, diante de ameaças reais ou potenciais da China ou da Rússia.

É digno de registro que, desde que Trump voltou à Casa Branca, a imigração ilegal, séria fonte de vulnerabilidade do território doméstico da América, praticamente cessou. No Canal do Panamá, via indispensável à rápida transferência de forças navais do Atlântico para o Pacífico na eventualidade de confronto militar com a China, teve sucesso a pressão de Trump sobre o governo de seu colega panamenho José Raúl Mulino: a empresa C. K. Hutchinson, com sede em Hong Kong, deixou de operar os portos de Cristóbal e Balboa, nas duas extremidades do canal; o Panamá abandonou a “nova rota da seda” (multibilionária iniciativa chinesa de conectividade infraestrutural e de telecomunicações oficialmente denominada “Um Cinturão, Uma Rota”; e o governo Mulino determinou a substituição de equipamentos e instalações da Huawei por tecnologia americana, no marco de um acordo de cibersegurança com o Comando Sul das forças armadas dos Estados Unidos.

Quanto ao México, parceiro dos Estados Unidos e do Canadá no acordo comercial USCAM, sua corrente de intercâmbio bilateral com a América chegou a US$ 935 bilhões em 2024. Em setembro do ano passado, o secretário de Estado Marco Rubio visitou a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, resultando desse encontro a criação de grupo de trabalho para a coordenação de políticas de segurança, combate e prevenção à criminalidade. Comitê especial da Câmara de Representantes dos Estados Unidos verificou que empresas da China colaboram com os cartéis mexicanos do crime organizado no fornecimento de insumos e equipamentos para a fabricação de fentanil, traficado para a América. Para ter sucesso, o programa de desenvolvimento econômico de Sheinbaum depende da cooperação americana na erradicação desses cartéis, requisito indispensável à atração de novos e maiores investimentos estrangeiros.

Nada disso, todavia, significa que os Estados Unidos tenham resolvido abandonar o Indo-Pacífico aos desígnios chineses. Na verdade, tanto a ESN quanto a EDN exijam que a região se mantenha aberta de modo a assegurar a livre-navegação e a integridade de importantes cadeias de suprimentos, dissuadindo ambições chinesas em contrário a partir de uma posição de força (“Peace through Strength”). O que o governo Trump2 se recusa a fazer é tentar alcançar esse objetivo com base puramente na confrontação ou em ameaças de estrangulamento dos legítimos interesses econômicos da China, muito menos na humilhação do seu orgulho nacional. Em ambos os documentos estratégicos, Washington se define em busca de uma paz estável, de relações comerciais justas e mutuamente respeitosas, enfim, de estabilidade estratégica com Pequim.

Em linha com o mesmo requisito de compartilhamento de ônus e responsabilidades com seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o governo Trump espera que seus aliados no Indo-Pacífico se disponham a cumprir sua cota de sacrifícios, com a elevação de suas despesas militares em proporção aos respectivos PIBs.

É sob essa perspectiva que o governo Trump encara a questão do deslocamento das atenções e de parte importante dos armamentos americanos baseados na Ásia-Pacífico para a atual guerra contra o Irã.

Compromisso bilionário — Até agora, a mais cabal comprovação do compromisso dos Estados Unidos com a segurança e a defesa de Taiwan é um megapacote, avaliado em US$ 11,1 bilhões, de transferência de sofisticados armamentos americanos, incluindo: 82 “Himars” (High-Mobility Artillery Rocket Systems); 420 “Atacms” (Army Tactical Missile Systems, movido a combustível sólido, com alcance de 186,4 milhas, ou 300 quilômetros, 4 metros de altura e 610 milímetros de diâmetro); US$ 1,1 bilhão em drones “Altius”; mísseis “Javelin” (‘lote’ com valor aproximado de US$ 350 milhões); 1.545 mísseis “TOW2B” (US$ 353 milhões); rede de softwares para missões táticas (US$ 1,01 bilhão); partes sobressalentes de helicópteros “AH-1W” (US$ 96 milhões) — além de plataformas para foguetes de alcance reduzido (finalidade: adestramento); metralhadoras “5.56”; caminhões; veículos de reabastecimento; sistemas de rádio de canal único terrestre e aerotransportado.

No momento, o pacote, que já recebeu o sinal verde preliminar da Casa Branca, percorre os canais burocráticos do Executivo, mas é praticamente certo que conte com a aprovação do Capitólio, em virtude do sólido e tradicional consenso bipartidário pró-Taiwan. Recente visita de uma delegação de senadores americanos ao Japão, a Taiwan e à Coreia do Sul insistiu na urgência de que o Yuan Legislativo (parlamento taiwanês) aprove uma suplementação do orçamento militar a fim de acomodar essa compra gigantesca, medida que vem sendo obstruída pela Oposição, sob a liderança do Kuomintang (KMT), partido favorável a uma aproximação com Pequim, em contraste com o governista Partido Democrático-Popular (DPP). (Mais sobre isso abaixo.)

A China faz o que pode para inviabilizar a concretização do negócio. Em fevereiro último, durante conversa telefônica com Donald Trump, o presidente da RPC e secretário-geral geral do Partido Comunista, Xi Jinping, recomendou-lhe “cautela” com essa megaoperação, e isso foi o bastante para preocupar seriamente setores do governo e da opinião pública de Taipei com a possibilidade de a China vir a ‘cobrir o lance’ durante o próximo encontro dos dois chefes de Estado em Pequim, inicialmente marcado para o começo de abril, mas remanejado, a pedido de Trump, para os dias 14 e 15 de maio. (Mais sobre isso também abaixo.)

Com habitual imodéstia, o presidente americano afirmou, em agosto último, que a presença dele — Trump — na Casa Branca constitui o principal penhor da segurança de Taiwan. Na oportunidade, ele acrescentou ter recebido de Xi a promessa de que a China não invadiria a ilha, pelo menos durante o mandato do seu interlocutor, que expira em janeiro de 2029. No mesmo fôlego, Xi teria lembrado serem os chineses “muito pacientes”….

Prioridade de Xi — A anexação de Taiwan à soberania da RPC é a ‘meta-síntese’ do “Sonho Chinês de Rejuvenescimento Nacional”, lançado por Xi Jinping em 2013, logo que assumiu o comando da segunda superpotência mundial. E até há pouco tempo a inteligência militar dos Estados Unidos acreditava que essa anexação seria tentada até 2027, ano do centenário do Exército de Libertação Popular (ELP). Essa convicção guiou a edição de dezembro último do relatório anual que o Pentágono apresenta ao Congresso informando sobre os desenvolvimentos militares chineses (armamentos nucleares e convencionais; operações de ‘zona cinzenta’, na tênue fronteira entre a paz e a guerra; guarda costeira/milícias marítimas; etc). O documento dedica especial atenção ao empenho chinês em construir capacidades que lhe permitam prevalecer sobre Taiwan na eventualidade de uma anexação manu militare, ainda que o governo de Taipei conte com apoio direto dos Estados Unidos. Nessa hipótese, a contenção da intervenção americana pelo ELP não excluiria o sequer o emprego parcial de armas nucleares e se voltaria, também, a dissuadir a abertura de frentes de combate adicionais com o envolvimento de aliados e parceiros dos Estados Unidos, como Japão, Filipinas e Austrália, entre outros.

O relatório do Pentágono delimitou quatro cenários. O primeiro deles — hipótese de coerção sem guerra — combina operações psicológicas, escalada militar e pressões diplomáticas, econômicas e informacionais (ataques cibernéticos, inclusive), objetivando degradar a infraestrutura de Taiwan e, com ela, a confiança do seu povo na capacidade de se defender.

No segundo cenário, a hipótese é de uma campanha de ataques de precisão, visando decapitar as lideranças taiwanesas e, assim, dificultar a coordenação de contra-ataques e a avaliação/o controle de danos em tempo limitado.

Terceiro cenário: campanha de bloqueio para obrigar Taiwan a se render depois de prolongada interdição do tráfego marítimo e aéreo, com apoio de ataques balísticos, ocupação de ilhas adjacentes e sabotagem cibernética. Objetivo: isolar e pressionar Taiwan até forçá-la a capitular.

O quarto e último cenário é considerado o mais difícil e arriscado: uma invasão anfíbia em larga escala, na qual os militares chineses procuram obter superioridade naval, rompendo defesas costeiras e estabelecendo cabeças-de-ponte até forçar a unificação.

Ainda de acordo com o documento do Pentágono, a China procura compensar a limitada experiência de combate do ELP com grandes exercícios sofisticados. Um exemplo recente é o das manobras “Justice Mission/2025”, de 29 e 30 de dezembro. (‘Pró-memória’: o último engajamento real das forças armadas chinesas data de 1979, quando o país invadiu o Vietnã, que contava com apoio da União Soviética, e foi derrotado.)

Todavia, documento ainda mais recente, divulgado em março último — o relatório anual de avaliação das ameaças à segurança dos Estados Unidos, assinado pela diretora nacional de Inteligência, Tulsi Gabbard —, estima que os chineses preferirão vencer sem luta (na melhor tradição do estratego Sun Tzu, século VI a. C…..), usando meios ‘pacíficos’ para controlar Taiwan e sem compromisso com um calendário rígido para a anexação. Isso porque a China, temerosa da imprevisível ‘letalidade’ de uma resposta militar americana, considera um engajamento militar como cartada por demais arriscada.

Essa estimativa do Gabinete Nacional de Inteligência reforça declarações de Trump de que seu governo almeja um relacionamento mutuamente respeitoso e produtivo com o regime de Pequim. Vale ainda lembrar que nem a ESN nem a EDN citam Taiwan nominalmente, e ambas advogam “estabilidade” para as relações sino-americanas.

O relatório Gabbard, ainda assim, assinala áreas em que a China ameaça os interesses da América no Indo-Pacífico, inclusive com potencial emprego de artefatos nucleares. E também reconhece que os chineses já deslocaram os russos da posição de principais rivais dos Estados Unidos na corrida armamentista aeroespacial, e que Pequim constitui atualmente a mais grave ameaça cibernética à segurança dos Estados Unidos.

Xi Jinping parece sinalizar cada vez mais que o caminho ‘pacífico’ para a anexação passa pelo KMT. Neste mês de abril, ele recebeu com toda pompa a visita de Cheng Li-wun, presidente do partido, evento astutamente agendado para um mês antes do já mencionado encontro entre os líderes chinês e americano em Pequim (meados de maio)…. Para realçar o prestígio da visitante oposicionista taiwanesa, o governo chinês anunciou uma lista de 10 medidas, parte das quais inspirada por Cheng, a exemplo de: retomada de viagens individuais entre várias cidades chinesas e Taiwan; programa de intercâmbio estudantil; permissão para a circulação na China de conteúdos culturais produzidos por Taiwan, desde que estes respeitem a ‘linha justa’ emanada do PCCh; e acesso ao mercado chinês de produtos agrícolas, pescado e outros alimentos originários de Taiwan, os quais sejam produzidos e comercializados por grupos contrários à independência da ilha.

Expurgos militares — Um sintoma das dificuldades enfrentadas pela China para dar uma definitiva ‘solução militar’ ao problema de Taiwan é a mais recente onda de expurgos nos mais altos escalões do ELP. Em janeiro deste a poderosa Comissão Militar Central (CMC) do PCCh, presidida pelo próprio Xi Jinping, afastou os generais Zhang Youxia (75 anos, amigo de infância de Xi e, como ele, filho de um líder revolucionário e herói da Guerra Civil) e Liu Zhenli, sob acusações de facciosismo partidário, corrupção e — algo considerado inverossímil pela imprensa internacional e suas fontes de inteligência — ‘vazamento’ de segredos nucleares para o governo dos Estados Unidos. Paralelamente, nove delegados militares ao Congresso Nacional do Povo (parlamento ‘carimbador’ das decisões do Partido) foram destituídos, entre eles o general Li Qiaoming, ex-comandante das forças terrestres, e o almirante Shen Long, ex-comandante da marinha. Antes composta por sete membros, a CMC conta agora somente com dois membros: o próprio Xi e um general a ele enfeudado, Zhang Shengmin, militar ‘de gabinete’ que já havia sido promovido a vice-presidente do colegiado em outubro último, na sequência do expurgo de outro ex-companheiro de farda. Provavelmente, a principal causa dos expurgos a que Xi vem submetendo a alta hierarquia do ELP desde 2013, é a mórbida desconfiança contra qualquer comandante capaz de fazer-lhe sombra ao poder absoluto. Mao Tsé-tung já ensinava que o poder está no cano do fuzil…. De qualquer modo, é preciso reconhecer que episódios de incompetência e corrupção também devem ter pesado nessas drásticas decisões. O rápido aumento das despesas militares da China fez-se acompanhar de escândalos. De 2015 a 2024, o Instituto de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Sipri) calcula que esses gastos cresceram 60% e também que eles são 30% maiores que os números oficialmente divulgados. (E aqui cabe uma observação: a rigor, em regime totalitário, cujo partido único não é limitado por requisitos de transparência, nem pelo ‘contrapeso’ de instituições representativas ao Poder Executivo, a corrupção, a patronagem e o clientelismo atravessam de cima a baixo todas as estruturas de poder. O comunismo é o avatar máximo do patrimonialismo.)

No maior desses escândalos, divulgado pelo Pentágono, muitos dos 360 silos de mísseis nucleares baseados em regiões remotas do Norte da China apresentavam defeitos em suas instalações, o que motivou a prisão de vários comandantes do ELP. Um dos atingidos era o general Li Shangfu, ex-ministro da Defesa, que caiu em desgraça em 2023. Li, anteriormente, havia chefiado o setor de equipamentos da CMC. Tudo leva a crer que o destino de Zhang Youxia e Liu Zhenli deverá ser o mesmo desse e de outros companheiros já expurgados: depois do sumário afastamento da CMC e do Politburo do PCCh, a excomunhão do Partido e a expulsão do ELP, seguidas de completo ‘desaparecimento’.

Papel do Japão — Em novembro do ano passado, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, enfureceu Pequim ao declarar que um ataque militar da China a Taiwan fatalmente arrastaria o Japão ao conflito. Os japoneses governaram Taiwan por meio século (1895/1945). Embora o Japão mantenha, desde 1954, uma doutrina exclusivamente autodefensiva, legislação sancionada em 2015 prevê que o governo poderá recorrer à força diante de situações que ameacem a sobrevivência do país. Assim pensava o falecido primeiro-ministro Shinzo Abe, mentor político de Takaichi no Partido Liberal-Democrata. Na eventualidade de uma violenta mudança do status quo por ação militar chinesa, o Japão estaria confrontado com situação desse tipo, e lhe caberia proteger as forças americanas estacionadas em seu território, em conformidade com o tratado nipo-americano de “Cooperação e Segurança Mútuas”, em vigor desde janeiro de 1960, quando substituiu o “Tratado de Segurança” bilateral, celebrado em setembro de 1951 na cidade de San Francisco.

Ainda durante o governo do presidente Democrata Joe Biden, o governo japonês assinou contrato no valor de US$ 2,4 bilhões para a compra de 400 mísseis de cruzeiro “Tomahawk”. A força aérea do Japão conta com uma esquadrilha de caças “F-35” que deverá chegar a 150 unidades transportando mísseis antinavio de fabricação norueguesa. De forma autônoma, os japoneses desenvolvem o seu modelo de míssil antinavio, o “Type-12”, com alcance superior a mil quilômetros.

*”Cadeias de ilhas” — O Japão ocupa lugar de destaque na arquitetura concebida pelos estrategos dos Estados Unidos durante a Guerra da Coreia (início da década de 1950) a fim de conter a expansão da União Soviética e da recém-proclamada República Popular da China no Pacífico. Essa estratégia compreende três “cadeias de ilhas”. A primeira delas se estende desde o Sul do Japão e passa por Taiwan até Bornéu (terceira maior ilha do mundo, compartilhada por três países do Sudeste Asiático: Malásia, Brunei e Indonésia, cabendo a esta última o controle de 75% daquele território).

A segunda cadeia de ilhas começa no arquipélago subtropical japonês de Ogasawara, cerca de mil quilômetros ao Sul de Tóquio, e ‘desce’ até a Indonésia, passando pelo território americano de Guam, pelas Ilhas Marianas Setentrionais (estado-associado aos Estados Unidos) e por Palau, no arquipélago da Micronésia.

A terceira e última cadeia de ilhas compreende o Alaska, o Havaí, o território americano da Samoa e a Nova Zelândia.

A primeira cadeia é, pois, a linha imediata de contenção do expansionismo chinês. Seu rompimento, por exemplo com a queda de Taiwan, colocaria em xeque a liberdade de navegação na região, ferindo dogma central da estratégia dos Estados Unidos. Por isso, acredito que, retórica autopromocional de Trump à parte, que nessa posição geográfica-chave reside a melhor ‘apólice de seguro’ da integridade territorial de Taiwan contra qualquer agressão chinesa.

China X Taiwan: a disputa pelas boas graças de Trump — No final de outubro passado, em Busan, Coreia do Sul, Trump e Xi reencontraram-se pessoalmente pela primeira vez em seis anos. A conversa durou pouco mais de 90 minutos, e durante ela ambos concordaram numa trégua na guerra comercial iniciada com o tarifaço americano de abril (“Dia da Libertação”, na sempre colorida imagérie trumpista). O líder chinês topou fazer concessões como a retomada das compras de soja e de jatos comerciais dos Estados Unidos; um alívio às exportações de terras raras ao Ocidente (matéria-prima essencial à fabricação de aviões militares, veículos elétricos, telefones celulares, mísseis e uma infinidade de outros produtos tecnológicos); e a repressão ao tráfico de fentanil.

De sua parte, Trump se comprometeu a relaxar barreiras impostas pela administração Biden — e confirmadas no atual governo Republicano — ao acesso dos chineses a chips (semicondutores) de última geração, indispensáveis para o desenvolvimento dos maiores sistemas de Inteligência Artificial.

No encontro de Busan, nenhum dos dois tocou no tema Taiwan, mas decerto ele figurará com destaque na agenda da visita de Trump à China em maio (dias 14 e 15, como já foi dito acima). O regime chinês, com sua proverbial e paciente persistência, acredita, pelas razões que analisei neste artigo, num esmorecimento da disposição de Washington em defender Taiwan. Xi vai testar essa convicção propondo que o documento conjunto ‘tirado’ ao final da reunião introduza sutis, porém significativas alterações na linguagem que os Estados Unidos empregam até hoje. Exemplos: em vez de “não apoiar” a independência de Taiwan — modo como Biden expressou a fidelidade americana ao princípio deliberadamente ambíguo de “uma só China”, o qual, desde a década de 1970, define o equilíbrio da triangulação entre Washington, Pequim e Taipé —, Xi espera que Trump concorde com uma linguagem que se oponha inequivocamente a qualquer possibilidade de emancipação taiwanesa. O líder chinês gostaria, também, que o comunicado substituísse as reiteradas profissões de fé americanas em “uma solução pacífica para a questão de Taiwan” por um apoio explícito à visão de “unificação pacífica”.

Em Taiwan, empresas e governo dão-se as mãos para aplacar o humor mercurial do líder do mundo livre, lembrando que Trump, desde sua primeira campanha presidencial, em 2016, já prometia punir a indústria taiwanesa de semicondutores por “roubar” o mercado dos competidores americanos. Em abril do ano passado, um mês depois de o magnata C. C. Wei, da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, ter visitado a Casa Branca e prometido investimentos da ordem de US$ 100 bilhões no Arizona, o governo americano anunciou tarifas de 32% sobre os produtos importados de Taiwan. De modo a tentar apagar esse ‘incêndio’, Taipé, mais recentemente, lançou a ideia de um “Golden Plan” de investimentos nos Estados Unidos, avaliado em meio trilhão de dólares.

O povo de Taiwan e seus representantes torcem para que tanto a barreira formada pela primeira cadeia de ilhas quanto a notória vaidade pessoal de Trump concorram para frustrar a ambição anexacionista da China. Afinal, custa crer que Donald Trump se conformaria em passar para a História como o presidente americano que ‘perdeu’ Taiwan para o redivivo e vermelho “Império do Meio”.

O STF não tem mais moral para defender a democracia

Foi noticiado recentemente que, no dia 2 de março desse ano de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o empresário Alcides Hahn, de 71 anos, a 14 anos de prisão, em regime fechado (mais multa e reparação de danos) por ter feito um PIX de R$ 500 a fim de fretar um ônibus de Blumenau (SC) que levou manifestantes a Brasília para os atos de 8 de janeiro de 2023.

 Parece notícia repetida com data errada, mas é apenas a repetição de um abuso que o STF vem cometendo desde os primeiros julgamentos desse caso. Por enquanto, Alcides Hahn recorre em liberdade, mas muitos outros foram trancafiados em nome da “defesa da democracia”.

Mas que moral esses ministros têm para prender alguém “em defesa da democracia”?  

Outra notícia veiculada recentemente foi que o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, chegou a receber R$ 80 milhões pelo contrato de R$ 129 milhões celebrado com o Banco Master e interrompido pela liquidação do mesmo. Também parece notícia velha, mas é apenas mais uma confirmação; dessa vez proveniente da própria Receita Federal, por solicitação da CPMI do Crime Organizado.

O envolvimento de Moraes e outros ministros do Supremo com o liquidado Banco Master é um escândalo. Porém, muito antes do escândalo Master-Vorcaro, o STF, relegando princípios e deveres, já tinha enveredado por uma vergonhosa politização; coisa particularmente nociva em uma instituição que deveria ser guardiã da Constituição e do equilíbrio democrático.

A péssima figura que a opinião pública vem fazendo da Suprema Corte brasileira colocou esta no triste papel de mote eleitoral, com pré-candidatos ao Parlamento – especialmente ao Senado – prometendo que, se forem eleitos, a primeira iniciativa do mandato será o esforço para promoção de impeachment de ministros do STF. Tal mote de campanha é inédito no Brasil; talvez no mundo. 

Aos olhos de muitos, pelo menos aos olhos da oposição, a politização do STF já avançou para o apoio ao governo do PT. Não surpreende, pois, que o próprio presidente Lula sinta-se à vontade para dar uns conselhos ao “companheiro Alexandre de Moraes”. 

Em entrevista ao portal ICL notícias, em 8 de abril, Lula revelou ter conversado diretamente com o ministro do STF e afirmou que o aconselhou a se declarar impedido de julgar processos relacionados ao caso Master, por causa da aparênciade conflito de interesses envolvendo o escritório de advocacia da esposa dele, Viviane Barci de Moraes:

O companheiro Alexandre de Moraes sabe que prejudica a imagem. Você pode ter uma coisa que é legal, mas, nas circunstâncias que acontecem, o povo trata como uma coisa imoral. E num ano político, em que as pessoas vão dar muito destaque para isso.”, disse Lula. E completou, dizendo que orientou Moraes a fazer uma declaração pública clara, dizendo algo:

“Minha mulher estava advogando, ela não precisa pedir licença para mim, mas na Suprema Corte, por causa da minha mulher, eu me sinto impedido de votar.”

Lula, com sua retórica ardilosa, trata o contrato de R$ 129 milhões do Master com a esposa de Moraes, assim como sua participação no julgamento do caso, como um aparente conflito de interesse e não como um efetivo conflito de interesse. 

É lamentável que o presidente da República venha a público tratar tão escandaloso contrato apenas como uma imoralidade presumida e não como a imoralidade que de fato é. Mas, convenhamos, os critérios ético-morais de Lula não são lá muito kantianos. Se é que ele os tem em algum grau.  

Quanto à referida legalidade do ignominioso caso, já fora previamente garantida pelas indecentes investidas do Judiciário no interesse de seus privilégios imorais quando, em decisão de agosto de 2023, o STF declarou inconstitucional um trecho do Código de Processo Civil (art. 144, inciso VIII), que listava as situações em que um magistrado era proibido de exercer suas funções em um processo, visando garantir a imparcialidade das decisões judiciais.

O inciso VIII determinava impedimento do juiz quando: “Figurar como parte cliente do escritório de advocacia de seu cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive, mesmo que patrocinado por advogado de outro escritório.”

Pois é. Determinava, impedia…passado. Agora os supremos togados podem tudo. É um escárnio completo. Sequer um código de ética interno que lhes imponha um mínimo de freio querem aceitar. A preocupação principal agora é se blindarem de investigações.

Acossado por suspeitas sobre ministros que voam alto em jatos milionários, o STF obrigou-se a somar aos seus muitos afazeres o secretamente confessado – e vazado – ofício da autoproteção. 

Nesse mister, aliás, tem demonstrado notável criatividade. Lembrem-se que, ainda no início de dezembro do ano passado, o ministro Dias Toffoli, através de argumento inepto e ardiloso, arrastou o julgamento do caso das fraudes financeiras do Banco Master da primeira instância do judiciário para a alçada do Supremo; isto com o intuito, rapidamente escancarado, de obstacular as investigações. 

Já o ministro Gilmar Mendes avançou com uma liminar que tornava a denúncia junto ao Senado com possibilidade de abertura de processo de impeachment contra ministro do Supremo Tribunal Federal – constitucionalmente facultado a todo parlamentar e a todo cidadão brasileiro – uma exclusividade da Procuradoria-Geral da República (PGR). De tão desarrazoada e provocativa contra a cidadania, essa iniciativa obteve repúdio generalizado e naufragou; o arrogante ministro foi obrigado a recuar.

Há muitos outros ardis já executados ou em fase de elaboração. A última novidade vem do previdente e sagaz ministro Alexandre de Moraes, que, em 8 de abril, enviou para julgamento do plenário do Supremo uma ação apresentada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em 2021 e que pretende estabelecer restrições e limites para acordos de delação premiada.

Certamente, a delação visada pela prudência do ministro é a que está em andamento no âmbito da Polícia Federal e da PGR; a de Daniel Vorcaro, chamada de “delação do fim do mundo”.     

O Abismo do Oriente Médio em 2026: Cenários de Escalada, Contágio de Commodities e a Nova Ordem Global

A eclosão da guerra no Oriente Médio após 28 de fevereiro de 2026, com os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, desencadeou o que a Agência Internacional de Energia descreve como a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história. Com o Estreito de Ormuz efetivamente fechado à navegação comercial e mais de 3.700 vítimas em toda a região, o conflito se transformou em um choque macroeconômico sistêmico que impacta os mercados globais de energia, agricultura e finanças.

Cenários de Conflito Mais Prováveis: Com base nas atuais trajetórias militares e na inteligência geopolítica, três cenários principais provavelmente se desenrolarão:

1. Escalada Contínua e Guerra Regional Expandida (40-45% de Probabilidade): O conflito se intensifica além das fronteiras atuais, potencialmente envolvendo outros atores estatais. O Irã e seus aliados ameaçaram fechar o Estreito de Bab el-Mandeb — cada vez mais referido por especialistas marítimos como “Ormuz 2.0”. O fechamento simultâneo de ambas as vias navegáveis ​​bloquearia aproximadamente 25% do fornecimento mundial de energia, podendo elevar os preços do petróleo para US$ 150 a US$ 200 por barril e forçar o envolvimento militar direto dos estados do Golfo, que enfrentam devastação de infraestrutura.

2. Impasse Prolongado com Acesso Seletivo (30-35% de Probabilidade): O conflito se estabiliza em um padrão prolongado de desgaste militar sem uma vitória decisiva para nenhum dos lados. O Irã mantém um bloqueio seletivo do Estreito de Ormuz, permitindo a passagem apenas de embarcações não ocidentais ou negociadas. Isso mantém os preços globais do petróleo altamente voláteis na faixa de US$ 100 a US$ 130 e garante uma grave e contínua degradação da infraestrutura civil e uma crescente crise regional de refugiados.

3. Acordo Negociado (25-30% de Probabilidade): Intensa pressão diplomática internacional, agravada pelas enormes perdas econômicas dos estados do Golfo (que perdem mais de US$ 1,1 bilhão por dia em receita petrolífera), força um cessar-fogo frágil. Esse cenário permitiria uma reabertura gradual das rotas marítimas ao longo de várias semanas e estabilizaria os preços do petróleo entre US$ 90 e US$ 110, embora deixe tensões geopolíticas subjacentes sem solução.

Contágio de Commodities: Hélio, Amônia, Ureia e GLP

 A crise vai muito além do petróleo bruto, interrompendo gravemente cadeias de suprimentos globais essenciais:

Hélio: O Catar produz entre 30% e 38,8% do hélio mundial. Danos físicos à infraestrutura do Catar ameaçam paralisar a fabricação global de semicondutores e tecnologias de imagem médica, aumentando a pressão sobre o setor tecnológico.

Amônia e Ureia: O Golfo Pérsico responde por aproximadamente 30% das exportações globais de amônia e até 45% das exportações de ureia. A guerra fez com que os preços globais da ureia disparassem 50%, justamente durante a crucial temporada de plantio da primavera para os principais produtores agrícolas. Essa interrupção ameaça a produção agrícola e garante o agravamento da inflação global dos preços dos alimentos até 2027.

GLP (Gás Liquefeito de Petróleo): A queda acentuada no fornecimento de GLP está sobrecarregando plantas petroquímicas e desencadeando crises sociais em países em desenvolvimento. A Índia enfrenta atualmente uma das piores crises de GLP em décadas, resultando em compras em pânico, colapso dos sistemas de reservas e racionamento rigoroso de gás comercial, enquanto o governo se esforça para aumentar a produção doméstica de refinarias a fim de compensar o déficit de importação.

Consequências para os BRICS 

Fratura Política e Mudança Financeira. A coalizão ampliada dos BRICS enfrenta profundos testes de estresse internos. O conflito expôs profundas divisões geopolíticas dentro do bloco: Brasil, Rússia e China condenaram formalmente os ataques dos EUA e de Israel, enquanto Índia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos consideram os ataques retaliatórios do Irã com mísseis contra a infraestrutura do Golfo como graves violações de sua soberania.

No entanto, essas fraturas políticas estão simultaneamente acelerando a estratégia do bloco de “gradualismo prático” rumo à desdolarização. Para contornar as sanções ocidentais, as vulnerabilidades do sistema SWIFT e garantir o fluxo de commodities essenciais, as nações dos BRICS estão migrando agressivamente para moedas locais. Até 95% do comércio bilateral entre Rússia e China agora é liquidado em rublos e yuans, e a Índia está cada vez mais evitando as rotas do dólar para comprar petróleo bruto dos Emirados Árabes Unidos usando rupias.

Consequências para a América Latina: A Nova Âncora Energética

À medida que o Oriente Médio mergulha na imprevisibilidade, a América Latina ressurge decisivamente como um pilar crucial da segurança energética global, beneficiando-se de sua relativa estabilidade geopolítica e de seus vastos recursos offshore e não convencionais. Juntos, Brasil, Guiana e Argentina já representavam 28% da produção global de petróleo bruto em 2025.

Guiana: Com uma taxa de sucesso sem precedentes de 85% na perfuração em águas profundas, o setor petrolífero da Guiana está em plena expansão [12]. Com o objetivo de aumentar a produção para 1,7 milhão de barris por dia até 2030, a Guiana está redirecionando cada vez mais suas exportações do Ocidente para os mercados asiáticos carentes de energia, a fim de substituir a perda de oferta do Oriente Médio.

Argentina: Impulsionada por amplas políticas de desregulamentação, a Argentina está explorando o vasto potencial da formação de xisto de Vaca Muerta, tornando-se um dos países da região com melhor desempenho em termos de investimento estrangeiro.

Brasil: Enquanto a Petrobras capitaliza sobre sua confiável reserva de energia offshore, o governo brasileiro teve que administrar agressivamente a crescente inflação dos combustíveis no mercado interno. Para apaziguar o setor de transportes e proteger os consumidores, o Brasil reduziu a zero os impostos sobre o diesel no mercado interno, mas simultaneamente impôs um imposto de exportação de 12% sobre o petróleo bruto e uma taxa de 50% sobre as remessas de diesel para compensar o déficit fiscal e garantir o abastecimento interno.

Chile: Embora exposto ao impacto inflacionário dos altos custos de importação de combustíveis, o Chile está se beneficiando da alta dos preços globais dos metais, consolidando sua posição como fornecedor indispensável de cobre e lítio, essenciais para a transição energética global.

AKA GATE: https://sites.google.com/view/aka-gate/home?authuser=0

Terceira República Islâmica

O sistema internacional, habituado a crises cíclicas no Oriente Médio, assiste algo sem precedentes: um cessar-fogo de 14 dias entre Washington e Teerã, selado com precisão cirúrgica pelo Paquistão. Percebam, nas entrelinhas, que o anúncio do chamado Acordo de Islamabad, não é apenas um hiato nos bombardeios, é o reconhecimento formal de que a República Islâmica, tal como a conhecemos desde 1979, transmutou-se para algo radicalmente diferente. O Irã de hoje não é mais governado por clérigos em busca do martírio, mas por generais em busca de sobrevivência.

Este desfecho, que muitos analistas românticos evitaram prever, não é surpresa, é  realpolitik em estado puro. Quando os primeiros grandes movimentos populares eclodiram nas ruas de Teerã e Mashhad meses atrás, a narrativa predominante no Ocidente era a de uma iminente “Primavera Persa” que culminaria em uma democracia liberal e volta da monarquia. No entanto, naquele momento, já havíamos classificado como o cenário mais provável o que hoje se confirma: a conversão do regime em uma estrutura puramente pretoriana. Em vez de uma ruptura com o autoritarismo, assistimos ao endurecimento do “Estado profundo” iraniano, que utilizou o caos das ruas para remover o clero ineficiente e consolidar o poder sob o cano das armas.

A morte de Ali Khamenei, em fevereiro deste ano, foi o catalisador final para esse processo. O que emergiu das cinzas do luto oficial foi a consolidação definitiva do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) como o verdadeiro senhor do Estado. Embora Mojtaba Khamenei ocupe o trono nominal, ele governa sob a tutela férrea de figuras como Mohammad Baqir Qalibaf, Presidente do Parlamento do Irã. Entramos na era da “Terceira República Islâmica”, um regime onde a ideologia se tornou um adereço para a manutenção de privilégios econômicos. Agora, o Ocidente não negocia mais com aiatolás messiânicos, mas com generais-empresários que gerenciam um conglomerado militar-industrial massivo e extremamente pragmático.

Este novo pragmatismo pretoriano foi o que permitiu o cessar-fogo. A Guarda Revolucionária compreendeu que a ameaça de Donald Trump de destruir usinas de energia e pontes não era apenas um blefe. Para os generais, a destruição da infraestrutura física do Irã significa a destruição da sua própria base de riqueza e controle social. Nesse sentido, o Irã parece estar abraçando um modelo híbrido. Por um lado, a face externa de uma “venezuelização”, com uma liderança que, sob pressão, se dispõe a negociar o alívio de sanções para manter o fluxo financeiro da cúpula. Por outro, o “modelo egípcio” de estabilidade autoritária: um regime de segurança máxima que troca o fervor revolucionário pela preservação do poder interno e a gestão previsível de ativos estratégicos, como o Estreito de Ormuz.

Do outro lado da mesa, o cálculo de Donald Trump reflete uma mudança drástica na política externa americana. Ao “vender” a guerra e o posterior cessar-fogo ao eleitorado, Trump abandonou o papel de polícia global gratuito. Sua retórica é clara: como os EUA atingiram a independência energética, o Estreito de Ormuz não é mais uma prioridade de segurança nacional de Washington, mas dos aliados europeus e asiáticos que dele dependem. Ao exigir que o Irã reabra o estreito em troca da suspensão de sanções primárias, Trump está, na prática, terceirizando a segurança marítima. Se o fluxo de óleo é vital para terceiros, que eles paguem o preço político pela sua manutenção. É a diplomacia transacional levada ao limite, onde o isolacionismo estratégico se encontra com a extorsão diplomática.

A mediação do Paquistão, liderada pelo primeiro-ministro Shehbaz Sharif e o Marechal Asim Munir, foi o pilar de equilíbrio que evitou o abismo. Islamabad, temendo que um colapso total de Teerã gerasse uma onda de refugiados e instabilidade em suas próprias fronteiras, serviu como o único canal de confiança mútua. O Paquistão prefere um Irã sob a tutela de generais pragmáticos do que um Estado falido ou uma democracia caótica que poderia exportar instabilidade para as fronteiras do Baluchistão. O Acordo de Islamabad é, portanto, um triunfo da estabilidade autoritária sobre a incerteza revolucionária, desenhado por quem entende que, no Oriente Médio, o vácuo de poder é sempre preenchido pelo pior cenário possível.

No entanto, o otimismo é frágil e caminha sobre gelo fino. A interconexão entre os teatros de guerra da Ucrânia e do Irã criou um monstro logístico e político difícil de desmantelar. Teerã e Moscou fundiram suas bases industriais de defesa de tal forma que os drones que atingem Kiev são os mesmos que garantem ao IRGC sua alavanca de dissuasão no Golfo. Qualquer tentativa de Trump de separar esses dois palcos enfrentará a resistência russa, que vê no Irã pretoriano um aliado indispensável para exaurir os recursos da OTAN. A guerra tornou-se global e indivisível: o destino de Kiev e Teerã está agora umbilicalmente ligado pela logística do terror e da sobrevivência mútua.

O que assistimos neste abril de 2026 é o experimento mais perigoso da história moderna: a tentativa de converter uma teocracia revolucionária em uma autocracia mercantilista. O futuro do Irã repousa agora na capacidade de generais cínicos e de um presidente americano transacional de encontrarem um preço comum para a estabilidade, enquanto a população iraniana, cujos movimentos iniciais indicavam esta possível guinada militar, aguarda para ver se a República das Fardas será mais duradoura — ou apenas mais violenta — que a República dos Turbantes.

O agente político sem comunidade política

Neste artigo vou tratar do chamado político “profissional” que se comporta como um agente político sem comunidade política. Não falo aqui dos chefes (ou donos) de partidos, dos seus prepostos ou serviçais, nem do militante partidário, do jihadista laico ou religioso.

A democracia representativa dos modernos acabou ensejando o surgimento desse novo tipo de ator político: o agente político sem comunidade política. Foi uma novidade importante porque realçou o papel do indivíduo na política, fundamental para o surgimento da democracia liberal moderna, mas revelou também problemas para a própria democracia. Vamos chamá-lo, provisoriamente porque a expressão não é boa, de empresário individual da política.

Ele é semelhante ao empresário individual numa economia de mercado. É mais ou menos como o dono de uma empresa que tem um produto único: ele mesmo. É um empreendedor, por certo, mas de si mesmo.

A trajetória do agente político sem comunidade política – doravante designado, salvo menção em contrário, como EIP (Empresário Individual da Política) – é sempre cheia de desvios e mudanças inesperadas de rumo. O imperativo é individual: a sobrevivência política – não de um projeto, mas daquele eu-ator em particular. O risco constantemente presente é o do arrivismo.

Não se deve ser muito implacável na crítica ao EIP. Todo político “profissional” – no sentido de alguém que vive da política – é um arrivista em algum grau. Foi isso que ele aprendeu interagindo com os seus aliados e concorrentes, com seus aliados que viraram concorrentes e com seus concorrentes que viraram aliados. Cada qual cuide de si. Lealdade não é um valor prático. Ele reinterpreta a frase, frequentemente creditada a Charles de Gaulle, de que “a ingratidão é um dever do estadista”. E normaliza isso ao confundir as razões de Estado com as suas próprias razões.

O EIP não caminha sozinho. Ele tem auxiliares, assessores e, sobretudo, admiradores que encara como potenciais eleitores. Pode até ter muitos aliados, mas sempre ocasionais, que mudam de acordo com as conveniências. O critério do que é conveniente em cada momento é sempre o da escolha da opção que mais favorece a carreira do eu-ator.

Por isso, dificilmente o agente político com grau significativo de arrivismo terá sense8s. Dificilmente avaliará suas ações com base em critérios como sintonia e sinergia em uma rede de conviventes. Na verdade, ele não se acha parte de uma koinonia política – e assim não consegue experimentar a liberdade, naquele sentido democrático originário do termo: de se comprazer na convivência da polis (não a cidade-Estado, mas a comunidade política). Mas o EIP – como um agente político sem comunidade política – não quer conceder a ninguém a autoridade para questionar suas decisões, tomadas solitariamente pelo eu-ator. Depois de tomada uma decisão de fazer isso ou aquilo, se posicionar assim ou assado, esse agente tenta convencer seus auxiliares a seguir no rumo que ele já escolheu. Ou nem isso. Seu pessoal não questiona.

O EIP mobiliza pessoas, mas não faz netweaving. Aposta, sim – e muito – no networking. Na verdade, espera tecer redes e se aproveitar delas. É tudo, porém, instrumental. Ele toma a rede como um instrumento para alcançar algum objetivo, mas não se sente vivendo em rede. Ele define o objetivo. Não espera que ele seja gerado pela interação de seus pares. Não há pares (outros nodos equivalentes com múltiplos caminhos entre si). O EIP é um íon social vagando num meio gelatinoso.

Embora possa ter muitos seguidores (nas mídias sociais) e eleitores, o EIP conta com pouca gente para empreender qualquer iniciativa coletiva. Quase tudo que faz tem de ser bancado por ele ou por alguém que o está bancando (sim, ele tem amigos, apoiadores, doadores, financiadores – do contrário não poderia fazer o que faz). As pessoas até confiam nele como seu representante, vão votar nele no dia do pleito, mas não se acham concernidas para a realização de tarefas conjuntas. Por isso o número de voluntários em seus projetos é sempre modesto. O EIP não tem rede ou tem uma rede muito esparsa ou pouco tramada por dentro. Raramente consegue juntar uma dúzia de pessoas que não sejam seus funcionários e que permaneçam juntas por um período relativamente longo de tempo fazendo a mesma coisa ou até que um projeto conjunto seja realizado. Em geral não existe projeto conjunto. É o projeto dele.

O EIP pertence a um partido onde isso é obrigatório para disputar eleições, mas não gosta muito de partidos. Nisso ele chega a ter razão, mas não pelos melhores motivos – porque partidos não são redes (comunidades políticas) e sim hierarquias, organizações privadas que querem chegar ao Estado para privatizá-lo e ficar com o butim, na base do spoil system – e sim porque partidos têm chefes (ou donos), que controlam os recursos públicos distribuindo-os diferencialmente para seus apaniguados e, além disso, cerceiam sua autonomia para se posicionar e se conduzir de acordo com o que julga ser o melhor para sua carreira em cada momento.

O EIP, como já foi dito, atua como um empreendedor de si mesmo. Nos graus mais graves de arrivismo se comporta como um empresário “selvagem” ou na vibe daquele “instinto assassino” (killer instinct) de que falou Donald Trump quando, em 1980, argumentou que o jogo separa quem tem e quem não tem esse instinto, referindo-se à pulsão competitiva e à fome de vitória. E que evoca também a expressão “animal spirits” usada anteriormente por John Maynard Keynes (1936) ao dizer, no capítulo 12 de “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, que sem esse impulso emocional e instintivo o capitalismo simplesmente para. Sim, o EIP tem a ver com capitalismo. Não teria surgido no contexto de outro sistema econômico.

Mas é importante esclarecer. O que motiva o EIP não é o lucro, o ganho material ou financeiro. Precisa de dinheiro e de outros recursos para viver, financiar suas campanhas eleitorais ou cavar postos no Estado, nem sempre obtidos legalmente, mas seu objetivo maior não é enriquecer e se dar bem na vida e sim o triunfo e a glória.

Mas há também aspectos positivos. Esse tipo de agente sem comunidade política costuma ser um democrata, no sentido geral do termo; ou seja, ele prefere a democracia à autocracia. Afinal, ele quer viver disso, da disputa por cargos representativos regulada por normas claras (constitucionais). Sabe que, numa ditadura, perderia autonomia e seu papel e seu ganha-pão desapareceriam. Mas sendo democrata, nesse sentido geral do termo, o EIP não faz oposição sistemática a um governo de viés autoritário ou populista (quer dizer, iliberal). E não faz porque não quer ficar malvisto como alguém “do contra”, o que dificultaria seu trânsito pelas várias vertentes do mundo político. E também porque não quer ficar malvisto pela imprensa, quando for o caso dessa imprensa estar, em boa parte, alinhada a um governo populista que parasita o regime eleitoral colocando-o em processo de iliberalização.

Esse tipo de agente prefere falar de si mesmo, da sua história, das suas realizações, dos seus projetos. Ele quer aparecer como uma persona positiva. Por isso só vai na boa. Quando sente que há uma volumosa corrente de opinião defendendo uma posição, ele adere. Se isso não é tão evidente, ele se omite, mesmo quando sua orientação democrática indique que deveria tomar posição, ficando eventualmente em minoria. Minoria? Não – pensa ele – isso não fará bem para minha carreira.

O EIP gosta da democracia, mas sobretudo porque a encara como o seu mercado. É nesse mercado, que ele vai tentar a sorte, vencer e extrair um sentido para sua vida como eu-ator político. Não sabe que, com isso, da democracia está perdendo a melhor parte – que não é o triunfo, que não é a glória obtida na luta, mas a experiência da liberdade.

Entretanto, ele busca permanentemente o sucesso. Vá-se lá repetir-lhe a frase atribuída a Golda Meir – no filme “Golda”, de Guy Nattiv (2023) – que “toda carreira política acaba em fracasso”.

Porque, para qualquer agente político que tenha uma comunidade política, não se trata propriamente de carreira e sim de viver como um ser político. E isso significa ser um netweaver, ou seja, um articulador e animador de uma rede de democratas. O EIP não compreende que, do ponto de vista da democracia como modo-de-vida, isso já é o maior sucesso que um agente político poderia alcançar. Aliás, não compreende porque, para ele, a democracia é apenas regime político, não também modo-de-vida. É a regra do jogo, mas não é o jogo.

Um EIP não vive, a rigor, como um ser político e por isso não será um democrata no sentido raiz do termo. Pois não há como alguém exercer o papel de agente democrático sem comunidade política. Se opor e resistir a qualquer tirania, seja dita de esquerda ou de direita, religiosa ou laica; recusar a guerra (ou não praticar a política como continuação da guerra por outros meios): repudiar o majoritarismo, o hegemonismo e o “nós contra eles”, pois política não é guerra e sim evitar a guerra; e fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática – todas essas são coisas que ninguém consegue fazer sozinho.

Sem a prática da continuada conversação democrática, a democracia fenece. Sem ambientes favoráveis à realização de projetos comuns democratizantes, a partir da congruência de desejos dos interagentes, a democracia falece. Mas essa é uma conversa que não interessa muito ao EIP. Ele pode até concordar intelectualmente com isso. Mas não mudará de comportamento.

Agora que, no mundo e no Brasil, estamos imprensados entre reacionários disfarçados de conservadores e revolucionários travestidos de “progressistas” – ambos populistas e, como tais, avessos à democracia liberal, o EIP não pode nos ajudar muito. Porque nestas circunstâncias é necessário fazer o que o EIP não faz: configurar comunidades políticas (redes humanas, mais distribuídas do que centralizadas), verdadeiras “poleis paralelas” (interativas), capazes de gerar novos agentes democráticos (reformistas liberais-inovadores), multiplicando seu número até alcançar o nível crítico necessário para fermentar o processo de emergência de uma opinião pública democrática, de resistir às tiranias e aos processos de autocratização (seja por meio de golpes de Estado ou de conquista de hegemonia) e de ensaiar a democracia como modo-de-vida, usinando padrões democráticos capazes de se replicar.

Irã, Venezuela e Cuba: a podridão das ditaduras e o caráter errático de Trump

O século XX foi pródigo em ditaduras; tanto ditaduras de esquerda quanto ditaduras de direita. Neste século XXI muitas dessas ditaduras já teve fim. Observando-lhes a trajetória, vê-se que algumas logo se perderam pela ambição desvairada e loucura dos seus chefes, enquanto outras percorreram um longo percurso de apodrecimento. 

Todavia, nos importa agora tratar do caso de ditaduras já apodrecidas, mas que ainda se encontram por aí; como essas que vão nomeadas no título deste artigo. Essas três ditaduras têm em comum o fato de estarem sob ataque, controle ou ameça dos Estados Unidos da América, ora comandado pelo imprevisível presidente Donald Trump.

Trump não é um grande estadista; suas inabilidades políticas o levam a trapalhadas alarmantes e seu comportamento muitas vezes é lastimável. Todavia, as suas limitações não tornam melhores os três referidos regimes que ele tem confrontado. 

Muito tenho escrito sobre o regime dos aiatolás no Irã; repito que, desde Khomeini, foi construído com vigor e determinação um dos regimes mais atrasados e cruéis da história. 

A teocracia dos aiatolás escraviza as mulheres, oprime minorias, sufoca protestos pacíficos com assassinatos em massa. Sustentado por fanáticos violentíssimos, esse regime apodrecido sofre a repulsa da maioria da sua população.

Não obstante, na guerra de Israel-EUA X Irã, a esquerda, em geral, tem erguido lanças a favor do regime dos aiatolás. Setores mais extremados e entusiasmados da esquerda brasileira têm mesmo se apressado em declarar derrota acachapante de Trump e esplendorosa vitória do Irã. 

Muito repercutiu recente reportagem de capa da revista inglesa The Economist dedicada a debochar da ação militar de Trump no Irã: oficialmente registrada como “Operation Epic Fury” (Fúria Épica) pelo governo norte-americano, essa campanha militar em curso foi rebatizada pela revista como “Operation Blind Fury” (Operação Fúria Cega) e traz na capa um Trump com capacete de soldado a tapar-lhe a vista. 

A um olhar mais isento, a referida operação militar não será épica nem cega; eu diria que resulta de uma estratégia opaca. 

No campo da ação efetiva, aconteceram ataques com larga destruição, mas com resultados políticos aquém das projeções do governo dos EUA. No campo das palavras, a guerra corre ao sopro dos ventos da cabeça de Trump, que em uma mesma fala já chegou a prometer a paz e o inferno.

O mais provável é que a guerra se conclua sem uma mudança efetiva de regime, para infelicidade do povo iraniano que anseia pela libertação. 

Como todo o mundo viu, o presidente Trump capturou e aprisionou o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, mas achou conveniente manter a ditadura através de um consórcio com auxiliares do ditador interditado. Com o Irã parece que não será muito diferente, apesar de já terem sido eliminadas importantes lideranças da teocracia islâmica.

A inteligência americana avaliou (relatório classificado de março) que mesmo uma grande ofensiva não derrubaria o regime entrincheirado. A teocracia sobreviveu à decapitação inicial e o novo líder Mojtaba Khamenei já está no cargo. Analistas (incluindo The Economist) dizem que a mera sobrevivência já é uma “vitória estratégica” para o Irã. Não há colapso iminente; o sistema clerical-militar se adaptou. 

Um acordo para permanência da teocracia, portanto, é o cenário mais provável agora. Trump começou a guerra com retórica de mudança de regime, mas já migrou para negociações de cessar-fogo. Fontes indicam que ambos os lados buscam uma “saída honrosa” sem vitória total de nenhum.

Nesse ínterim, reagindo à aguda crise energética/humanitária que Cuba vem sofrendo, Trump declarou que pode tomar o controle da ilha caribenha, podendo ser esse controle amigável ou não.

Irã, Venezuela e Cuba são ditaduras podres, que oprimem cruelmente seu próprio povo. No começo desse artigo, dissemos que as limitações de Trump não tornam melhores os três referidos regimes que ele tem confrontado. Convém dizer também que a crueldade de tais regimes não deve nos enganar quanto ao caráter de Trump. Iniciar guerras por interesses escusos para depois abandonar à própria sorte o povo que anseia por libertação é sintoma claro de baixa estatura moral. 

Soberania em risco: a influência chinesa e os desafios para o Brasil

O avanço da influência chinesa no Brasil não pode mais ser tratado apenas como uma questão comercial. Trata-se, cada vez mais, de um tema de soberania nacional. A relação com a China, embora relevante para o crescimento econômico, revela sinais preocupantes de dependência que ultrapassam o campo econômico e alcançam a política, a segurança e até o processo democrático.

O Brasil passou a estruturar boa parte de sua balança comercial em função do mercado chinês. Exportamos commodities e importamos tecnologia, repetindo um padrão histórico que enfraquece nossa capacidade industrial. Esse modelo não apenas limita o crescimento sustentável, mas cria um vínculo assimétrico: quando um país depende excessivamente de outro, sua autonomia deixa de ser plena.

A defesa da soberania nacional, da livre iniciativa e da independência institucional exige cautela diante de qualquer potência estrangeira que amplie sua influência de forma silenciosa e progressiva. A China não atua apenas como parceira comercial; ela opera estrategicamente, expandindo presença em setores críticos como energia, infraestrutura e telecomunicações — áreas que, em qualquer nação séria, são tratadas como pilares de segurança nacional.

Mais do que investimentos, há uma clara tentativa de construção de influência política indireta. Países altamente dependentes tendem a suavizar críticas, alinhar votos em organismos internacionais e evitar posições que contrariem seus principais parceiros comerciais. Isso não é teoria, é prática recorrente no cenário global.

No contexto brasileiro, esse movimento se torna ainda mais delicado em ano eleitoral. O debate público corre o risco de ser contaminado por interesses externos de forma sutil, seja por meio de narrativas econômicas, seja pela influência indireta em setores estratégicos da comunicação e tecnologia. Não se trata de afirmar interferência direta no processo eleitoral, mas de reconhecer que ambientes de dependência criam condições propícias para pressões e alinhamentos que nem sempre são transparentes ao eleitor.

Além disso, há um fator ideológico que não pode ser ignorado. A China é governada por um regime autoritário, com valores profundamente distintos daqueles que fundamentam uma democracia liberal. A aproximação sem critérios claros pode gerar uma normalização perigosa de práticas e visões incompatíveis com as liberdades individuais, a transparência institucional e o Estado de Direito.

Isso não significa romper relações ou adotar uma postura hostil. O Brasil deve, sim, manter relações comerciais com a China — como faz com qualquer outra potência. Mas precisa fazê-lo com estratégia, limites e, sobretudo, consciência de seus próprios interesses nacionais.

O ponto central é simples: parceria não pode significar dependência. Um país soberano diversifica seus mercados, fortalece sua indústria e protege seus setores estratégicos. Mais do que isso, preserva sua capacidade de decidir sem amarras externas.

Se o Brasil deseja, de fato, ocupar um papel relevante no cenário internacional, precisa agir como protagonista — e não como coadjuvante de interesses alheios. O desafio está posto: ou o país reequilibra essa relação, ou corre o risco de ver sua autonomia sendo, pouco a pouco, negociada sem o devido debate nacional — inclusive nas urnas.

Metamorfose em Miraflores

Se o Estreito de Ormuz retém hoje o fôlego da geopolítica global, o Palácio de Miraflores exige um olhar muito mais cirúrgico sobre a nova e fria ordem que emerge em Caracas. Ali, o que testemunhamos transcende a mera sucessão: trata-se de uma metamorfose estrutural profunda. Com a saída de cena de Maduro e a ascensão de Delcy Rodríguez, a Venezuela deixou de ser um laboratório de resistência ideológica para se tornar o epicentro de um experimento de sobrevivência pragmática. Delcy não é apenas a sucessora, é a liquidante de um modelo exaurido e a arquiteta de uma normalização autoritária que desafia as leituras convencionais da diplomacia regional.

O Expurgo da “Velha Guarda” e a Nova Hierarquia

A demissão de Vladimir Padrino López do Ministério da Defesa, ocorrida neste mês, é o marco zero desta nova era. Padrino não era apenas um ministro, era a ponte entre o chavismo originário e as Forças Armadas. Sua remoção sinaliza que a “Doutrina Delcy” não admite a bicefalia de poder. Ao colocar Gustavo González López na Defesa, os irmãos Rodríguez — Delcy e Jorge — consolidam o controle civil-repressivo, substituindo a lealdade ideológica por uma lealdade tecnocrática. Além disso, destituíram Samuel Moncada,  embaixador de Maduro na ONU que estava há uma década no cargo.

Internamente, o regime deixou de ser um monólito militar para se tornar uma corporação política. O objetivo é claro: desmilitarizar a retórica para profissionalizar a repressão e, simultaneamente, abrir as portas para o capital. É o que podemos chamar de “Perestroika Tropical”, mas com uma diferença crucial: não há o objetivo de uma Glasnost (transparência política), apenas de uma reestruturação econômica que garanta a longevidade do grupo no poder.

A PDVSA como Escudo Geopolítico

A mudança mais radical reside na nova Lei de Hidrocarbonetos. Ao permitir que petroleiras estrangeiras operem com controle majoritário, Delcy transformou a PDVSA em um ativo de segurança nacional para potências externas. 

Este é o insight inovador da gestão Rodríguez: ela utiliza o “Capitalismo de Estado” como escudo humano diplomático. Em um eventual cenário de pressão por mudança de regime, o lobby dessas corporações em Washington torna-se o principal defensor da sua estabilidade. Para o governo Trump, o “realismo energético” sobrepõe-se à retórica de redemocratização. O petróleo venezuelano, agora fluindo de forma mais eficiente, é a moeda de troca para o silêncio diplomático sobre o déficit democrático interno.

O Xadrez das Alianças: Do Eixo à Transação

O xadrez das alianças venezuelanas, sob a regência de Delcy Rodríguez, revela uma transição estratégica do dogmático “Eixo da Resistência” para um pragmático “Eixo da Conveniência”. Essa reorientação ganha forma primordial na relação com a China, onde a nova liderança oferece a Xi Jinping a ordem operacional e a previsibilidade de pagamentos que a gestão de Maduro jamais logrou entregar. Ao priorizar o serviço da dívida e apostar em zonas econômicas especiais, Delcy sinaliza a ambição de converter o país em uma “China do Caribe”, consolidando um polo de produção que harmoniza o controle autoritário com a lucratividade do capital.

Simultaneamente, observa-se uma mutação fria nos laços com Cuba e Irã, onde o antigo subsídio ideológico cede espaço a uma métrica de eficiência pura: Havana é agora tratada como uma prestadora de serviços em declínio, perdendo o protagonismo na inteligência estatal, enquanto a presença militar e tecnológica iraniana é reduzida a uma peça tática, utilizada para sinalizar ao Ocidente a disposição do regime em mitigar influências externas indesejadas em troca de reconhecimento diplomático.

Nesse cenário, o triângulo com os Estados Unidos assume um caráter estritamente transacional, ancorado na premissa de que Washington, diante do realismo geopolítico de 2026, tende a preferir uma Venezuela estável e aberta a negócios do que uma democracia incerta e turbulenta. Assim, a libertação seletiva de prisioneiros políticos deixa de ser uma concessão humanitária para se tornar uma eficaz válvula de escape diplomática, desenhada para arrefecer as pressões internacionais sem que o grupo liderado pelos Rodríguez precise renunciar ao seu controle absoluto sobre o poder.

Insights para o Futuro: A Resiliência do “Novo Chavismo”

A grande inovação de Delcy Rodríguez é o descarte da estética revolucionária em favor da estética gerencial. Ela compreendeu que a comunidade internacional, exausta de crises migratórias e instabilidade energética, está disposta a aceitar um autoritarismo funcional.

Para o Brasil e para o restante da região, o desafio é complexo. Não estamos mais lidando com um regime errático, mas com uma liderança que domina as ferramentas da política global. Delcy está criando um ambiente onde o custo de derrubar o regime é maior do que o custo de mantê-lo.

O sucesso desta reengenharia dependerá da sua capacidade de manter o equilíbrio entre a abertura econômica agressiva e o controle social. Se Delcy conseguir estabilizar a inflação e aumentar a produção petrolífera em 2026, ela poderá ter inventado uma nova forma de autocracia para o século XXI: uma que não se isola do mundo, mas que o convida para ser sócio da sua própria permanência.