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Mordaça de Xangai

Na abertura da recente Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial. Com a adesão de 28 países — incluindo o Brasil —, Pequim vendeu a iniciativa como um marco emancipatório para o Sul Global, prometendo capacitar 5.000 profissionais e democratizar a governança do setor. Contudo, por trás da retórica inclusiva, esconde-se uma estratégia geopolítica calculada e o risco iminente de aprisionamento tecnológico.

Ao exaltar o open source como uma “oportunidade histórica”, o regime chinês expõe um paradoxo flagrante. A China opera o ecossistema digital mais censurado do mundo, protegido pelo Great Firewall e regido por normas que exigem que qualquer IA generativa reflita compulsoriamente os “valores socialistas” do Partido Comunista. Pregar abertura internacional enquanto se impõe uma mordaça algorítmica interna serve apenas para absorver dados e tecnologia ocidentais, sem jamais permitir auditoria transparente em seus próprios sistemas.

Essa promessa de representatividade para o Sul Global mascara a exportação deliberada de dependência. Ao financiar a infraestrutura e os padrões técnicos na América Latina, Pequim desenha a própria arquitetura que sustentará os serviços públicos digitais da região. Ao integrar essa estrutura, o Brasil vincula sua gestão pública e seus dados estratégicos a um stack autoritário cujo custo de transição futuro será proibitivo.

A hipocrisia se reflete também na crítica chinesa ao uso da “segurança nacional” para restringir tecnologias — uma alusão direta aos Estados Unidos. A China, sabemos, é pioneira na fusão civil-militar, bloqueia dados transfronteiriços e subsidia estatais sob esse exato pretexto. Além disso, o conceito de “controle humano” defendido por Pequim se traduz, na prática, no controle irrestrito do Estado sobre o cidadão, por meio de vigilância em massa e reconhecimento facial.

Diante desse cenário, a verdadeira soberania digital brasileira exige a construção de soluções próprias, alinhadas às nossas necessidades institucionais, culturais e aos valores democráticos. Em vez de se subordinar ao modelo de vigilância de Pequim, o Brasil deve priorizar o desenvolvimento de um modelo de linguagem em português (IA) por meio de alianças estratégicas com nações altamente confiáveis e tecnologicamente avançadas. Países como Japão e Taiwan, referências globais na produção de hardware de ponta e na pesquisa ética em inteligência artificial, representam parceiros ideais que merecem um olhar muito mais atento e prioritário por parte da diplomacia e do setor de inovação nacional.

A adesão à diplomacia de Xangai reflete uma ingenuidade estratégica perigosa. Uma governança de IA verdadeiramente inclusiva e democrática exige neutralidade pragmática, transparência algorítmica e a recusa firme em importar modelos fundamentados no controle e na vigilância estatal. Para garantir um futuro digital seguro e soberano, o Brasil deve escapar das mordaças e parcerias enganosas, fortalecendo cooperações éticas, preservando sua autonomia.

Política de cotas: fim do mérito e cooptação identitária das instituições

Por meio de seleções exclusivas para candidatos negros, a Unicamp colocou em prática um projeto que previa reserva de 20% das vagas do Magistério Superior. Estão sendo abertos em cada uma das unidades da referida Universidade, concursos para professor doutor nos quais só podem concorrer candidatos negros. Não se trata mais nem de percentagem de cota dentro de um concurso aberto a todos – modelo já bastante contestável; trata-se de algo mais radical: reserva de vaga exclusiva para um único grupo racial; um concurso segregado por raça, com base em análise fenotípica de fotografia e, se necessário, arguição por banca de heteroidentificação.

Recentemente o Ministério Público Federal moveu ação civil pública para obrigar o Hospital Albert Einstein a implantar de imediato cotas para negros, indígenas, quilombolas e pessoas trans na residência para médicos, perfazendo nada menos do que 55% das vagas no processo de formação mais seletivo e mais decisivo da medicina brasileira. A Justiça Federal indeferiu os pedidos liminares, mas a ação prossegue normalmente em relação aos pedidos de mérito da ação. 

Outro caso controverso ocorreu em outubro de 2025 quando a Universidade Federal de Pernambuco abriu, em parceria com o Incra, uma turma de Medicina de 80 vagas destinadas exclusivamente a beneficiários da reforma agrária (assentados do MST) e quilombolas. Para essa turma não houve prova específica via Sisu regular. A seleção baseou-se apenas em uma redação e análise do histórico escolar do Ensino Médio. Houve polêmica forte, com críticas de entidades médicas por falta de isonomia e questionamentos sobre qualidade. Em março de 2026, a Justiça Federal (TRF-5) suspendeu o curso temporariamente. Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) derrubou a suspensão e determinou a continuidade da turma, mantendo o curso ativo até julgamento definitivo. 

Esses são apenas alguns exemplos mais recentes do avanço da política de identidade em busca da sua hegemonia no Brasil. Quando uma instituição troca o critério “quem está mais qualificado” pelo critério “quem pertence ao grupo certo”, ela não está apenas cometendo uma injustiça pontual contra o candidato preterido, está desmontando a própria função social daquela instituição, que é produzir e certificar competência. 

A falência das políticas afirmativas

No livro “Ação afirmativa ao redor do mundo: um estudo empírico sobre cotas e grupos preferenciais”, Thomas Sowell demonstra, por meio de estudos de caso em diversos países, que as políticas de ação afirmativa, apesar das particularidades históricas de cada nação, seguem padrões globais consistentes e, frequentemente, contraproducentes. Vale a pena enumerá-los porque cada um desses pontos tem correspondente exato no Brasil:

1. Expansão da temporalidade e do escopo: Nenhuma política de ação afirmativa documentada por Sowell, em nenhum dos países estudados, foi encerrada no prazo prometido: programas com prazos de 10 ou 20 anos são repetidamente prorrogados por décadas e preferências inicialmente voltadas para o ingresso (admissão) frequentemente se expandem para a aprovação, graduação, contratação e promoções no mercado de trabalho. Além disso, grupos que não sofreram as desvantagens históricas originais frequentemente conseguem ser incluídos nas categorias preferenciais.

2. A “nata” dos beneficiados:Os benefícios da ação afirmativa não atingem os membros mais pobres ou oprimidos do grupo preferencial. A maior parte das vagas e recursos é absorvida por uma pequena elite dentro do grupo preferido que já possui condições socioeconômicas superiores à média nacional.

3. Reclassificação em massa e fraude estrutural: Indivíduos tentam se reidentificar como membros de grupos preferenciais para obter vantagens; Sowell documenta o crescimento estatisticamente impossível do número de “índios americanos” autodeclarados nos EUA e de “aborígines” na Austrália durante os períodos de ação afirmativa.

No Brasil, o número de candidatos autodeclarados pretos ou pardos em concursos públicos e vestibulares disparou assim que as cotas raciais passaram a valer, forçando a criação das bancas de heteroidentificação, precisamente os “tribunais raciais” que o professor Wilson Gomes costuma denunciar em seus textos, cuja função é policiar, com base em fenótipo, quem “parece” negro o suficiente para ocupar a vaga. 

Causa-me espanto que tenhamos naturalizado uma polícia racial encarregada de examinar lábios, nariz, textura de cabelo, traços faciais e cor da pele de cidadãos para decidir quem pode ou não ter acesso a uma política pública”, declarou o professor, em entrevista ao jornal Estadão.  

Nesse ponto, cito uma das teses mais repisadas pelo antropólogo brasileiro Antônio Risério: o identitarismo, importado dos Estados Unidos, exige a imposição, sobre uma sociedade historicamente mestiça como a brasileira, de uma classificação racial binária (preto/branco) que nunca foi a nossa. Para que o sistema de cotas e de bancas de heteroidentificação funcione, é preciso primeiro negar, ou pelo menos apagar operacionalmente, a miscigenação que Caio Prado Júnior identificou como o traço definidor da formação nacional brasileira. 

4. Polarização social e violência:A politização da identidade de grupo frequentemente resulta em ressentimento e hostilidade intergrupal. O sentimento de injustiça entre os grupos não preferenciais muitas vezes supera o benefício real transferido, criando um ambiente de “soma negativa”. Em países como Índia, Nigéria e Sri Lanka, a disputa por cotas e o favoritismo governamental foram catalisadores de massacres, motins e guerras civis.

5. O resultado no combate à pobreza é irrisório:A taxa de pobreza entre negros nos Estados Unidos já havia caído pela metade antes da ação afirmativa; depois dela, pouco mudou.

Em suma, a análise empírica empreendida por Sowell sugere, portanto, que a ação afirmativa falha em atingir seus objetivos humanitários fundamentais. Os fatos são obstinados e as inclinações ideológicas não podem alterar a evidência de que a ação afirmativa tem sido, em muitos casos, um obstáculo à verdadeira conquista dos mais desfavorecidos na sociedade. 

Tornando a identidade étnico-racial o fator principal na distribuição de recursos estatais, essas políticas frequentemente institucionalizam o conflito. Em vez de elevar os desvalidos, sacrificam a eficiência econômica e acadêmica em nome de uma representatividade numérica artificial e mascaram a necessidade de melhorias reais na educação.

A guerra contra a ciência

No livro The War on Science, trinta e nove cientistas e estudiosos renomados manifestaram-se sobre as ameaças promovidos pela cultura do cancelamento e as políticas de DEI à livre investigação, à liberdade de expressão e ao próprio processo científico. “De ataques a contratações baseadas no mérito até o policiamento da linguagem e a substituição de estudos acadêmicos disciplinares bem estabelecidos por mantras ideológicos, a ciência e a produção acadêmica atuais estão sob ameaça em todas as instituições ocidentais”, afirmam os autores.

Editado pelo físico Lawrence Krauss, o livro mostra que o que antes era restrito às humanidades  penetrou formalmente nas ciências duras e documenta algo que nos interessa diretamente, ainda que a discussão seja americana. Está claro que estamos indo para o mesmo buraco. 

Há relatos bizarros de publicações acadêmicas (como a Physical Review) analisando “branquitude” no uso de quadros brancos em salas de aula, tratando ferramentas pedagógicas como organizações sociais raciais ou a Academia Nacional de Ciências premiando trabalhos que afirmam que a “epistemologia da física” é racializada.

Há relatos revoltantes como o de Carole Hooven, bióloga evolutiva de Harvard, que foi obrigada a deixar a universidade por afirmar, com base no consenso da própria biologia evolutiva, que sexo biológico se define por tamanho de gameta – fato científico banal transformado em heresia porque incomodava uma narrativa identitária. 

Mas aqui mesmo no Brasil temos exemplos de tais absurdos, como o caso recente da doutoranda Celina Lazzari, que, acusada de transfobia por comitê de ética da UFSC, teve sua pesquisa suspensa e precisou entrar na justiça para concluir seu doutorado. Ao analisar o caso, a Justiça afirmou que a universidade submeteu a doutoranda a um “rito inquisitorial”. A pesquisadora é também diretora da Matria, uma organização em defesa de mulheres e crianças frente aos impactos do conceito de “identidade de gênero”. O procedimento aberto contra a doutoranda teve origem em denúncias baseadas em manifestações públicas feitas fora do ambiente acadêmico.

A ameaça identitária

Os efeitos corrosivos dessa ideologia não podem ser subestimados, daí a importância de estudos como o do antropólogo Antônio Risério que, em seus vários livros, tem dissecado esse fenômeno social contemporâneo. No livro Identitarismo, Risério reconstrói a genealogia dessa ideologia, que nasce da convergência entre a contracultura dos anos 1960 e o desconstrucionismo francês de Foucault, Lyotard, Marcuse, etc.; pensadores que fizeram da recusa da racionalidade e da ciência um ponto central. 

Com a queda do comunismo, explica Risério, uma esquerda órfã de horizonte abandonou as classes sociais como categoria organizadora do mundo e as substituiu por raça, sexo e gênero. O resultado foi a fragmentação da sociedade em blocos étnicos e de gênero fechados sobre si mesmos, cada um cultivando seu próprio ressentimento, cada um reivindicando autoridade epistêmica exclusiva sobre a própria narrativa. 

O identitarismo é um pensamento intrinsecamente monológico que não debate, decreta; que não argumenta, denuncia. E é, sobretudo, antiuniversalista: abandona o ideal iluminista de que existem verdade, mérito e direitos que valem para todos os indivíduos, independentemente do grupo a que pertencem, e o substitui pela lógica de que tudo – inclusive a ciência, inclusive a leitura de um texto clássico – é, em última instância, uma questão de poder entre grupos.

Esse fenômeno da esquerda contemporânea pós-moderna dificilmente se encaixa na visão de mundo da esquerda tradicional, que se preocupa com a opressão concreta advinda das condições sociais e não com micro-opressões imaginárias. Um “marxista raiz” provavelmente argumentará que o identitarismo desvia a atenção da luta de classes e que não passa de uma ideologia burguesa que dispersa a energia revolucionária para questões simbólicas e de representação, enquanto preserva o sistema econômico capitalista.

Tampouco se trata de um fenômeno que possa ser bem absorvido por uma visão liberal ou conservadora. A primeira o vê como erosão do mérito individual e dos direitos universais, enquanto a segunda como enfraquecimento dos valores morais, da responsabilidade individual e da unidade nacional. 

O identitarismo é, em suma, uma forma pós-moderna de tribalismo com foco exclusivo em vitimização, opressão e crítica cultural sistemática. Ao eleger uma identidade específica (étnica, sexual, racial ou cultural) como o valor político supremo ao qual todos os outros devem se submeter, ele representa uma sedição contra os valores fundamentais do iluminismo: universalismo, liberdade e igualdade. 

Seu avanço, porém, presta um grande serviço à direita reacionária, que se fortalece ao se lhe contrapor de modo estridente e histriônico, mesmo sem saber confrontá-lo nas suas bases, mesmo sem saber sequer compreendê-lo ou defini-lo. 

Lições das Tarifas

O tabuleiro comercial sofreu um realinhamento profundo, e o Brasil moveu-se tarde e mal. A confirmação de que o USTR concluiu a investigação sob a Seção 301, oficializando a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, é um revés severo. Mas, acima de tudo, é um diagnóstico implacável sobre o amadorismo e a saturação ideológica que paralisam nossa diplomacia governamental.

Diferentemente do tarifaço de 2025 — derrubado por seu vício político —, a investida atual possui blindagem técnica por ser um processo administrativo da Seção 301, de difícil reversão. O USTR apontou “práticas injustas” misturando assimetrias reais (etanol, propriedade intelectual e tarifas) com pautas sobre soberania, como o escrutínio sobre decisões do STF contra big techs, combate à corrupção e desmatamento.

Soma-se a isso a contaminação de agendas, a chamada linkage diplomacy. A recente classificação de facções brasileiras como organizações terroristas por Washington fundiu governança econômica e segurança nacional. O comércio virou moeda de troca geopolítica de alta complexidade — tabuleiro em que nossa diplomacia estatal demonstrou pouca agilidade de manobra.

Diante desse cerco previsível, Brasília respondeu com passividade técnica e retórica inflamada para consumo interno. O Planalto preferiu a inércia para explorar o desgaste eleitoralmente. Essa postura gerou forte reação da FIESP, que criticou o governo por alimentar “ruídos desnecessários” e priorizar conflitos personalistas em vez da economia. Estão certíssimos.

A ameaça da Fazenda de retaliar via “Lei de Reciprocidade” expõe um desconhecimento preocupante de mercado. Como ex-diretor da Apex-Brasil, sei que barreiras de vingança encarecem insumos, asfixiam importadores e destroem empregos logísticos. A obsessão por superávits ignora que potências modernas usam importações estrategicamente para criar dependência mútua, e não guerras emocionais.

Enquanto Brasília flerta com o confronto, os EUA dão uma aula de realpolitik. Junto aos 25%, o USTR aplicou 2.100 exceções, poupando setores como aeroespacial (Embraer), café e carnes. Onde o Brasil tem indispensabilidade estrutural, a tarifa caiu para blindar o americano da inflação e onde somos substituíveis, fomos atingidos sem hesitação.

Esta assimetria ficou clara nos bastidores. Diante da omissão oficial, canais de representação setorial agiram. A articulação privada levou a Washington dados técnicos que provaram o impacto das tarifas nas próprias indústrias americanas, mitigando as sanções — esforço do qual participo ativamente nos EUA desde as primeiras medidas. A Casa Branca responde a dados e articulação direta, não a notas de repúdio.

A lição é urgente: a inserção internacional do país não pode ser refém de voluntarismos. O protecionismo não se combate com indignação, mas com inteligência comercial. Para reaver a confiança, o Brasil precisa devolver o protagonismo à diplomacia corporativa privada. Sem eficiência interna e interlocução técnica despida de ideologia, assistiremos passivos à erosão de mercados que levamos décadas para conquistar.

A repressão que não respeita fronteiras

Regimes repressivos têm se tornado cada vez mais ostensivos no uso transnacional de seus arsenais de recursos de pressão política e econômica para intimidar, perseguir e calar opositores e dissidentes. Particularmente graves são os casos de incidentes físicos, em terceiros países, que envolvem sequestros, deportações irregulares e assassinatos.

De acordo com o Freedom House, uma das mais antigas e reconhecidas organizações de monitoramento e estudo sobre as liberdades civis do mundo, a China foi responsável por 253 dos 854 incidentes físicos de repressão transnacional registrados globalmente entre 2014 e 2022, o que corresponde a 25% dos casos. Colocando o gigante asiático como o líder nesse ranking nefasto. Os relatórios mais recentes mostram a tendência de aumento da repressão transnacional indicando que mais de 300 incidentes ocorreram só em 2025, incluindo detenções, deportações forçadas e até a morte suspeita do líder religioso tibetano Tulku Hungkar Dorje, em março de 2025 sob custódia do governo vietinamita.

O alerta para a gravidade da infiltração de terceiros Estados pelos mecanismos de repressão é ilustrado pelo caso de Chung Biu “Bill” Yuen, e Chi Leung “Peter” Wai, que, em maio, foram condenados por um tribunal britânico há 8 e 10 anos de prisão, respectivamente, por vigiar dissidentes de Hong Kong em solo do Reino Unido, numa operação que a promotoria classificou como “policiamento paralelo” de Pequim. 

A tendência se confirma, também, pelos relatos de ativistas uigures, tibetanos e defensores da democracia de Hong Kong que denunciam, em praticamente todos os continentes, o mesmo padrão: vigilância digital, ameaças a familiares que permaneceram na China, detenções em países terceiros e campanhas de intimidação online.

É particularmente preocupante observar como o poderio econômico parece estar sendo utilizado para pressionar os Estados a cooperar com a repressão chinesa, em especial. Casos recentes envolvendo deportações de uigures a partir da Tailândia e detenções em aeroportos da Malásia evidenciam esse mecanismo. 

É tentador tratar isso como um problema distante, que diz respeito ao adimplemento de leis internas e protegidas pelo princípio da não-interferência. Mas a repressão transnacional é, antes de tudo, um ataque insidioso à própria ideia de que existe um lugar seguro para discordar, principalmente no plano das ideias e do debate político. Quando um regime consegue perseguir, intimidar e silenciar pessoas em qualquer parte do mundo, ele não está apenas violando direitos humanos e exportando seu modelo autoritário, está de fato criando um efeito demonstração perigoso e testando os limites da ordem internacional estabelecida.

Lutar contra os mecanismos de repressão transnacional e separar a saudável cooperação internacional para repatriar foragidos da justiça do uso político dos tribunais é tema complexo e existencial para as Democracias. É preciso que os Estados lancem mão de seus instrumentos legais para responder à infiltração dos mecanismos de repressão sejam eles sanções, expulsões de diplomatas, ou investigações criminais como a do Reino Unido. Enquanto isso, cada uigur detido, cada tibetano vigiado e cada ativista de Hong Kong ameaçado nos lembra que a liberdade, quando confrontada com o poder de um Estado disposto a ultrapassar fronteiras, precisa ser defendida com a mesma determinação, em qualquer lugar do planeta. 

“Deixem o meu povo ir em Liberdade”

Moisés (Êxodo 9-13)

O relato bíblico resenhado em Êxodo narra os episódios em que Moisés e seu irmão Aarão enfrentaram o poderoso Faraó do Egito para cumprir o Mandato Divino de exigir que todo o povo de Abraão fosse posto em Liberdade. O clamor dos hebreus foi ouvido e produziu o fim da escravidão e a cessação das piores violações dos seus direitos humanos. Ao chegar à Terra Prometida, os israelitas puderam rezar em agradecimento ao Todo-Poderoso por ter quebrado as correntes da dominação e começado uma nova vida.

Hoje, em pleno Século XXI, volta a soar o clamor de milhões de venezuelanos que pedem que, sem mais delongas, sem cálculos seletivos, sem mentiras, sem armadilhas, todos os presos políticos sejam postos em Liberdade.

O terremoto de 24 de junho de 2026 produziu um resultado trágico que se soma ao desastre produzido por mais de 27 anos de tirania para evidenciar que nos encontramos diante do colapso de um país que era conhecido como “Terra de Graça” (e hoje é de Desgraça).

Embora a tragédia de La Guaira e do resto do país nos enlace em luto, dentro e fora de nossas fronteiras, os Faraós da Dominação bolivariana continuam insensíveis aos centenas de presos políticos civis e militares que ainda se encontram injustamente detidos. Até quando durará esse atropelo à dignidade humana?

Esta edição especial de Encuentro Humanista é dedicada inteiramente a recolher a opinião de alguns dos mais destacados defensores de presos políticos, que lutam há anos para que todos os privados de liberdade ilegalmente detidos possam regressar aos seus lares para viver em paz com seus familiares e amigos.

Na nota Editorial, Marcos Villasmil define a prisão política na Venezuela como um instrumento de submissão. Para isso, ele remonta aos fundamentos históricos mundiais que originaram a prisão por motivos políticos, relembrando a reclusão nos campos de extermínio de Auschwitz, ou os Gulags, ou os presos da Bastilha ou da Torre de Londres, que marcaram páginas de terror cidadão. Depois, refere-se à especificidade latino-americana com os Regimes de Pinochet, Videla e tantos exemplos do drama autoritário com os milhares de presos e desaparecidos daquela etapa.

Finalmente, relata os 27 anos de institucionalização da perversa repressão contra cativos eternos na Venezuela, utilizados como “fichas de troca”, agravada pelo denominado “efeito porta giratória” no macabro binômio “excarceramento-detenção arbitrária”. A conclusão é óbvia: sem o restabelecimento do Estado de Direito, os calabouços venezuelanos continuarão abrigando vítimas inocentes.

Gonzalo Himiob nos traz em “Escombros de Liberdade” o testemunho das atividades cumpridas pelo Foro Penal, e conclui com a penosa constatação de que aqueles que detêm o Poder não levam em conta a dignidade da cidadania e se apegam apenas à narrativa de que “são eles que mandam”, e o fazem descumprindo a moral, a Constituição e suas próprias leis, como no caso da Lei de Anistia adotada graças à pressão do Tutor Norte-Americano, mas descumprida pelas autoridades interinas ao aplicá-la de maneira parcial e interessada.

Paciano Padrón, fundador do Comitê Internacional contra a Impunidade na Venezuela (CICIVEN), destaca os alcances da Ditadura e dos Presos Políticos como um binômio cruel ao expor em seu artigo o trabalho de denúncia internacional protagonizado pelo CICIVEN. Ele não deixa de ressaltar a perspectiva histórica desde o ano de 1830 para concluir que, durante os 27 anos da ditadura Chávez-Maduro-Rodríguez, produziu-se o maior número de presos políticos, desaparecidos e torturados que a história da Venezuela registra.

Nesse mesmo sentido, pedimos ao historiador Walter Márquez que nos relatasse episódios dos presos políticos através dos tempos, os quais ele recolhe em seu estudo “Anistias, Absolvições e Indultos na Venezuela Republicana (1811-2026)”.

Ana Julia Jatar, em uma entrevista comovente, relata que não apenas sofrem os presos políticos, mas também “a família fica presa em uma cadeia sem grades quando um ente querido está preso”, e relata em primeira pessoa a angústia que sofreu com a prisão de seus dois irmãos.

O Embaixador Víctor Rodríguez Cedeño, negociador do Estatuto de Roma durante os Governos democráticos, não apenas enumera os Tratados Universais, Regionais e Nacionais que o Regime descumpre, mas também foca seu artigo na responsabilidade dos Estados Unidos em relação à situação das terríveis violações contra centenas de presos políticos, especialmente após o 3 de janeiro e dos efeitos da responsabilidade compartilhada em decorrência do terremoto em tempos de “Tutela” em relação aos detidos que esperam a liberdade.

A Embaixadora Milagros Betancourt — a outra negociadora do Estatuto de Roma junto com Vitoco — faz uma análise jurídica detalhada e clara sobre as conquistas e desafios diante do Tribunal Penal Internacional de Haia e, em suas conclusões, nos ilustra o que podemos esperar para a Venezuela em nossas denúncias por violações de Lesa-Humanidade. Este tema é de grande atualidade em momentos em que se multiplicam as críticas pela atuação errática dos Procuradores e Juízes do Tribunal, que não estiveram à altura de suas responsabilidades para combater os verdadeiros violadores de Lesa-Humanidade. Essa atuação, certamente, não é o espírito que animou os países do Mundo quando desenharam as bases da Justiça Penal Internacional.

A Venezuela não é o único país com abusos contra os presos políticos, por isso quisemos retratar o drama vivido por nossos irmãos cubanos e nicaraguenses. Para isso, contatamos Tamara Suju, que há anos dirige o Instituto CASLA, reconhecido pelas denúncias nas instâncias internacionais, de modo que reproduzimos um de seus múltiplos comunicados apresentados perante a OEA. O comportamento semelhante utilizado pelos regimes de Cuba, Nicarágua e Venezuela fica evidente em seus relatórios, já que repetem os mesmos padrões repressivos expressos em detenções arbitrárias e torturas, ignorando os mandatos dos organismos regionais e universais de Direitos Humanos, como no caso de Cuba, onde há 1.442 pessoas detidas devido aos acontecimentos de 11 de julho de 2021.

Em relação à Nicarágua, graças aos esforços de Macky Arenas, conseguiu-se que o Encuentro Humanista pudesse publicar um artigo de um destacado político que, de Manágua, apresenta a “Débâcle repressiva na Nicarágua”. Por razões óbvias, o autor prefere conservar o anonimato, porque expõe a grave situação dos presos políticos em seu país ao relatar como a dupla Rosario Murillo-Daniel Ortega montou uma dinastia mais sangrenta e mais arbitrária do que a da Ditadura de Somoza. Em seu artigo, ele denuncia que nas prisões clandestinas presumivelmente encontram-se entre 1.500 e 2.000 presos, sem procedimento legal em curso ou sob a caricatura de imputar-lhes a acusação de que são “traidores da Pátria”.

Precisamente para apoiar a luta pela liberdade dos presos políticos em Cuba e na Nicarágua, convidamos José Manuel Pinto Hurtado, ativista de Direitos Humanos residente na Holanda há várias décadas, e que tem acompanhado diversas delegações de venezuelanos que recorreram ao TPI de Haia para condenar aqueles que violam os direitos dos presos políticos e outros crimes de Lesa-Humanidade. Em sua análise, ele reúne os prós e os contras da experiência venezuelana e como nossos irmãos de Cuba e da Nicarágua poderiam se beneficiar do caminho para a Justiça Internacional. Este trabalho soma-se às excelentes recomendações recolhidas neste número pelos articulistas convidados, que têm tentado fazer com que “haja Justiça em Haia”. Os responsáveis e violadores dos Direitos Humanos contra os nossos presos devem ser julgados, como foram os criminosos em Nuremberg e em Tóquio há 80 anos.

O panorama do horror que recolhemos nesta edição representa apenas um pequeno relato das múltiplas denúncias que ouvimos dia a dia, e que narram o sofrimento dos presos na Venezuela, mas também em Cuba e na Nicarágua.

O tema é amplo e atual. Os meios de comunicação denunciam apelos como os de Andreína Baduel, que não se cansa de reiterar pontualmente os maus-tratos sofridos na prisão por seus dois irmãos presos que, se não forem assistidos, poderiam correr a mesma sorte escandalosa de seu pai, o General Baduel, que faleceu na prisão sem assistência médica.

Por sua vez, o Comitê pela Liberdade dos Presos Políticos (CLIPVVE) ressalta o desaparecimento de 7 presos políticos e a persistência de torturas, uso de gás de pimenta e privação de água como retaliação contra os detidos, mesmo após o terremoto. O Observatório Venezuelano de Prisões (OVP) continua suas denúncias perante o Tribunal Penal Internacional, conforme confirmado em suas atuações em Haia pelo defensor Orlando Viera Blanco.

A ONG Justiça, Encontro e Perdão denuncia os riscos enfrentados pelas pessoas privadas de liberdade após os terremotos registrados no país devido ao colapso de infraestruturas carcerárias, à falta de comunicação com os reclusos e à falta de atendimento a doenças graves, o que soma à injustiça das detenções arbitrárias uma grave situação de vulnerabilidade.

Estes fatos levaram a Comissão de Direitos Humanos do Congresso Norte-Americano a convocar uma audiência no último dia 15 de julho para analisar as denúncias de representantes da sociedade civil sobre a situação das pessoas detidas na Venezuela por razões políticas e, com base nisso, propuseram medidas para avançar em direção à transição democrática. Na sessão bipartidária presidida pelos congressistas James McGovern (Democrata) e Chris Smith (Republicano), questionou-se a “estabilidade cosmética” em detrimento da democracia e da proteção dos direitos humanos.

Não podemos deixar de assinalar a heroica e permanente ação das mães, esposas, filhos e familiares dos presos políticos que diariamente exigem diante dos centros de reclusão a libertação de seus entes queridos, mas não recebem resposta de um Regime que atua surdo, cego e mudo.

Este é o momento de unir todas as vozes que exigem que se cumpra a plena liberdade dos presos políticos e que se atenda ao apelo dos familiares, das ONGs, dos jornalistas, da Igreja, dos políticos, dos socorristas nacionais e internacionais e até de alguns dos próprios carcereiros que reagem ao fato de serem obrigados pelo Regime perverso a serem carrascos de seus próprios compatriotas.

Apesar da crueldade ditatorial, existe como nunca antes um movimento cheio de fé e esperança que tentamos recolher nesta Edição de Encuentro Humanista, e é esta solidariedade nacional e internacional que conseguirá colocar de joelhos a anomalia do terror, e contribuir para que em breve possamos comemorar, emocionados e unidos, o momento em que o Regime entenda que deve cumprir o mandato que Moisés já empunhou há vários séculos quando pronunciou o chamado: “deixem o meu Povo ir em Liberdade”.

Fronteira invisível do poder: acesso à IA é a nova expressão da soberania mundial

Imagine acordar amanhã e descobrir que as inteligências artificiais mais avançadas do planeta simplesmente deixaram de funcionar no Brasil. Não por um ataque cibernético, uma guerra tampouco uma crise econômica, mas porque autoridades de uma potência global decidiram restringir o acesso de estrangeiros aos modelos mais sofisticados de inteligência artificial.

Empresas interrompem projetos, universidades suspendem pesquisas, hospitais perdem ferramentas de diagnóstico, instituições financeiras veem seus sistemas de prevenção a fraudes tornarem-se obsoletos e órgãos públicos ficam privados da infraestrutura digital da qual passaram a depender. Parece ficção científica, mas não é. É exatamente o tipo de poder que começa a moldar a ordem internacional.

Toda época possui sua tecnologia decisiva, aquela que reorganiza o equilíbrio de poder e redefine a hierarquia do sistema internacional. No século XIX, esse instrumento foi o domínio dos mares. Como ensinou Alfred Thayer Mahan, quem controlava as rotas marítimas controlava o comércio; quem controlava o comércio acumulava riqueza; e quem acumulava riqueza a convertia em poder. O Império Britânico compreendeu essa lógica antes de todos e transformou a hegemonia naval em supremacia global.

No século XX, a geografia estratégica descrita por Halford J. Mackinder e Nicholas Spykman continuou determinando a competição entre Estados, mas foi acompanhada por uma nova dimensão de poder: a ciência. O átomo, os foguetes, os satélites e a informática converteram o conhecimento em instrumento de sobrevivência nacional. A Guerra Fria foi, antes de tudo, uma disputa tecnológica. Quem dominava a inovação dominava também a capacidade militar, industrial e econômica.

O século XXI inaugura uma transformação ainda mais profunda. O território decisivo da competição internacional deixou de ser apenas físico. A nova fronteira estratégica é cognitiva e envolve mais do que competição comercial entre empresas de tecnologia. É uma corrida estratégica entre potências, travada com a frieza e a desconfiança de uma guerra. E, no momento, o Brasil não está nessa competição.

A IA não constitui apenas inovação tecnológica ou ferramenta de aumento de produtividade. Ela se tornou infraestrutura de poder, fator de produção, multiplicador militar e instrumento de influência geopolítica. Em torno dela está surgindo uma nova arquitetura internacional, na qual o acesso à capacidade computacional e aos modelos mais avançados passa a definir quais países exercerão soberania plena e quais dependerão de terceiros.

É essa transformação que propomos chamar de soberania cognitiva: a capacidade de uma nação de preservar acesso confiável às tecnologias responsáveis por produzir, processar e ampliar inteligência em escala. Assim como a soberania energética condicionou a autonomia dos Estados no século XX, a soberania cognitiva tende a tornar-se um dos principais fundamentos da autonomia nacional neste século. Não se trata de produzir todos os chips do mundo nem de desenvolver isoladamente os modelos mais sofisticados. Trata-se de garantir que decisões tomadas em capitais estrangeiras não possam interromper, de um dia para outro, a capacidade nacional de inovar, competir, defender-se e governar.

Já sustentamos, em artigo anterior nesta Gazeta, intitulado A IA virou arma militar, que a IA deixou de ser tecnologia predominantemente civil para converter-se em instrumento de poder estatal e componente essencial de capacidades militares. O que se desenhava como tendência tornou-se doutrina. Os EUA tratam a cadeia de semicondutores com o mesmo zelo com que, na Guerra Fria, tratavam os mísseis balísticos e organizam o acesso aos chips e aos modelos de fronteira como quem administra um arsenal: por aliados confiáveis, por países meramente tolerados e por nações francamente hostis. A lógica deixou de ser a do livre mercado e passou a ser a da segurança nacional.

Robert Gilpin observava que grandes transformações na ordem internacional costumam ocorrer quando novas tecnologias alteram profundamente a distribuição relativa de poder entre os Estados. É precisamente isso que estamos testemunhando. A IA deixou de ser apenas um setor econômico para tornar-se variável central da competição estratégica. Quem controlar sua infraestrutura controlará parte crescente da inovação científica, da produtividade industrial, da superioridade militar e, em última instância, da influência política internacional.

E o acesso, nessa nova ordem, é a arma que nenhum veículo blindado iguala. Em 2026, o governo americano determinou que um dos principais laboratórios de IA do país suspendesse o acesso de estrangeiros a seus modelos mais avançados, Mythos e Fable; a Anthropic, desenvolvedora de ambos, respondeu suspendendo o acesso de todos, no mundo inteiro, por tempo indeterminado.

Foi a profecia cumprida: o cercamento da fronteira tecnológica, que descrevíamos como o equivalente digital de um embargo, deixou de ser hipótese e tornou-se fato consumado. As autoridades dos Estados Unidos voltaram atrás na proibição de acesso ao Fable no início de julho, mas mantiveram as restrições relacionadas ao Mythos.

A lição que o episódio inscreve a ferro é simples e brutal: na era cognitiva, a capacidade da qual um país depende pode evaporar da noite para o dia, não por uma guerra, mas por um despacho administrativo. Esse embargo tecnológico deixou de ser hipótese para transformar-se em realidade, da qual o Brasil se aproxima sem possuir estratégia para alcançar soberania cognitiva.

A história ensina o que está em jogo, e ensina sem piedade. Sempre que uma tecnologia altera profundamente a distribuição do poder entre os Estados, ela deixa de ser apenas inovação econômica para se transformar em ativo estratégico, dividindo o mundo entre soberanos e tutelados. O mercado cede espaço à geopolítica; a concorrência, ao controle; a eficiência, à segurança nacional e à resiliência. O que hoje observamos com os semicondutores e a inteligência artificial não constitui ruptura da história, mas sua continuidade.

Em 1945, os EUA detinham o monopólio atômico; no ano seguinte, a Lei McMahon cortou o acesso à tecnologia nuclear norte-americana até de seu aliado mais próximo, o Reino Unido, que combatera a seu lado e contribuíra para o próprio Projeto Manhattan. Londres precisou desenvolver seu programa nuclear para fins militares sem apoio direto dos EUA e gastar mais de uma década de diplomacia paciente para reconquistar a confiança de Washington, selada apenas em 1958. A lição é dupla e atualíssima: a autarquia tecnológica quase nunca é viável, e a exclusão do clube dos que dominam a tecnologia decisiva é uma sentença que se paga em gerações. Quem chega tarde, ou chega do lado errado da linha, dificilmente recupera o tempo perdido.

A IA representa novo salto dessa trajetória histórica. Pela primeira vez, a tecnologia dominante não amplia apenas uma capacidade específica, mas potencializa todas as demais. Acelera a pesquisa científica, otimiza cadeias logísticas, aumenta a produtividade industrial, transforma os mercados financeiros, revoluciona a medicina, amplia capacidades militares e acelera o próprio desenvolvimento de novas IAs. Não é apenas mais uma tecnologia disruptiva, mas a primeira capaz de acelerar sistematicamente a produção de conhecimento em praticamente todos os setores da economia.

Justamente por isso, a IA começa a ocupar lugar comparável ao que a energia ocupou na Revolução Industrial ou o petróleo desempenhou durante o século XX. Ela deixa de ser um setor para tornar-se infraestrutura. Mais do que um novo mercado, converte-se em novo fator de produção. Terra, trabalho e capital continuam indispensáveis, mas passam a depender crescentemente de uma quarta variável: a capacidade de produzir inteligência em escala. Em outras palavras, a competição internacional passa a ser, cada vez mais, uma disputa pela soberania cognitiva.

Essa transformação explica por que as grandes potências passaram a tratar chips avançados, capacidade computacional e modelos de fronteira como ativos de segurança nacional. O objetivo não é apenas liderar mercados, mas controlar a infraestrutura da inteligência mundial. O que antes era política industrial converte-se em grande estratégia.

Convém medir, então, o tamanho real da nossa fragilidade. Pensemos no que sustenta um único modelo de fronteira. Na base está o silício: chips fabricados em um processo tão exigente que apenas três empresas no mundo o dominam, dependentes, todas elas, de uma única companhia holandesa, a ASML, que fabrica as máquinas de litografia sem as quais nada se produz. Acima do silício está a energia: um data center de fronteira consome o equivalente a uma cidade média, e projetos norte-americanos já se medem em gigawatts.

Acima da energia estão os modelos, treinados por um punhado de laboratórios que gastam, cada um, mais por ano do que o Brasil inteiro destina à ciência. E, acima de tudo, está o talento, escasso e migratório, que o Brasil forma e exporta como exporta soja. O cômputo tornou-se a moeda mensurável do poder neste século, como o foram a tonelagem naval e a capacidade nuclear nos anteriores, e a distância entre quem o possui e quem não o possui define um domínio importante da hierarquia internacional.

Dessas camadas, o Brasil não controla nenhuma. Não temos a litografia, não fabricamos os chips, não treinamos os modelos de fronteira e perdemos os cérebros que formamos. Temos, é verdade, uma única peça do quebra-cabeça, e a ela voltaremos, porque nela mora a única estratégia possível. Antes, porém, é preciso entender por que essa dependência é de uma espécie mais perigosa do que qualquer outra que já enfrentamos.

O Brasil conhece bem a sensação da dependência estratégica. Importa mais de 85% dos fertilizantes que aplica em suas lavouras, de uma oferta mundial concentrada em poucas mãos, e sabe o que é ver o custo da própria comida oscilar ao sabor de guerras alheias. Mas reparemos numa diferença decisiva. Por mais dolorosa que seja, a dependência de fertilizantes é superável, pois o Brasil tem o subsolo, o gás, o fosfato e o potássio. Tem, portanto, a geologia da própria emancipação. É um problema que se resolve com capital, infraestrutura e a paciência de um projeto longo. A servidão do adubo tem cura, ainda que lenta.

Com a IA não há cura análoga, e aqui está a tese deste artigo: a dependência em IA pode tornar-se o passivo estratégico mais grave do Brasil neste século, pior que o dos fertilizantes, porque o ecossistema da inteligência artificial não é um insumo, é um organismo, e nenhuma de suas partes se deixa estocar, substituir ou nacionalizar com a simples aplicação de tempo e dinheiro. O fertilizante é uma commodity, fungível, estocável, substituível, comprável de vários fornecedores e, em grande medida, replicável com a geologia que já temos.

A dependência da IA pertence, entretanto, a uma categoria inteiramente distinta. O que a distingue de praticamente todos os insumos estratégicos conhecidos é que ela não constitui apenas um produto, mas infraestrutura sobre a qual passa a repousar parte crescente da economia contemporânea. É uma fronteira em movimento, e quem fica de fora não permanece onde está. Afasta-se progressivamente da fronteira tecnológica.

É precisamente esse mecanismo que torna a soberania cognitiva diferente da soberania energética, alimentar ou mineral. Um país pode recuperar décadas de atraso industrial. Pode descobrir novas reservas de petróleo. Pode expandir sua produção agrícola. Mas recuperar o tempo perdido em uma tecnologia cujo próprio ritmo de evolução se acelera continuamente é infinitamente mais difícil, pois, quanto maior a distância tecnológica, maior a velocidade com que essa distância tende a crescer.

O cômputo não se estoca; o que vale é a capacidade instalada hoje, treinando os modelos de amanhã, que treinarão os de depois. É um juro composto da inteligência, e o Brasil está fora dele. Pior: ao contrário do adubo, que nutre uma safra, a IA é o substrato da produtividade futura, da defesa, da economia e da administração pública que nossos filhos herdarão. Uma nação que não a possui não paga apenas mais caro; torna-se estruturalmente subalterna, locatária da cognição alheia, condenada a alugar do estrangeiro a própria capacidade de pensar em escala.

É o embargo do século XXI, e traz um agravante que o torna mais cruel que o do átomo ou o do adubo: não há jazida no subsolo e não há projeto industrial de 25 anos que dele nos liberte, porque a fronteira que precisaríamos alcançar terá avançado outra vez quando lá chegássemos. E, como a própria Terafab, de Elon Musk, demonstra – a fábrica de chips orçada em até US$ 119 bilhões, com a ambição de produzir sozinha mais cômputo do que toda a indústria atual –, erguer o ecossistema do zero é incerto, mesmo com bilhões e gênio. Por isso, o slogan da “IA soberana”, repetido por autoridades brasileiras de todos os matizes, não é apenas ingênuo; é perigoso, porque substitui a estratégia pela pose, e a pose anestesia.

E aqui chegamos ao documento que o Brasil ousa chamar de estratégia: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). Batizado com o título de autoajuda “IA para o Bem de Todos”, promete R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Ponhamos o número em perspectiva. São pouco mais de US$ 4 bilhões ao longo de quatro anos, o equivalente ao que as grandes empresas americanas de tecnologia investem, somadas, em pouco mais de uma semana. É também, sozinho, quase tudo o que o país gastou em um único ano com toda a área de ciência e tecnologia.

Com essa quantia, promete um supercomputador “entre os cinco mais potentes do mundo”, ambição que já nasce vaga e obsoleta, rodando, como quase tudo no país, sobre GPUs importadas da Nvidia, em nuvens hospedadas pela Amazon, sob um marco regulatório que segue adiado, à espera das eleições.

As premissas do plano falam em bem-estar, diversidade, sustentabilidade e governança participativa, vocabulário típico de um seminário de recursos humanos woke, não o de uma estratégia de poder nacional. Confunde-se adoção com soberania, gasto com capacidade, e o vazio é maquiado com um PDF de capa reluzente. O perigo não é o PBIA ser modesto, mas, sim, tomá-lo por estratégia e, assim, dormir o sono dos que se julgam protegidos.

Que fazer, então, se a autarquia é fantasia e a passividade é suicídio? A resposta começa por uma humildade estratégica que falta ao discurso nacional: o Brasil não vai dominar a fronteira da IA, e fingir o contrário é desperdiçar a única década que importa. O objetivo realista não é a “IA soberana”, é a mitigação da fragilidade, o que os estrategistas chamam de dependência administrada. Disso decorrem linhas de ação concretas.

A primeira, e mais urgente, é diplomática: garantir ao Brasil assento no grupo confiável da nova arquitetura norte-americana de controle de exportações de chips e modelos, o que não será possível com um governo brasileiro francamente hostil a Washington. O mundo da IA está sendo dividido, neste exato momento, entre aliados confiáveis, países tolerados e nações restritas, e o episódio Mythos e Fable mostrou que essa fronteira é real e excludente.

Assim como o Reino Unido teve de negociar, ano após ano, seu retorno ao círculo nuclear norte-americano, o Brasil terá de negociar ativamente seu lugar no círculo do cômputo. Uma das tarefas centrais da política externa brasileira nos próximos anos é assegurar que o país fique do lado certo dessa linha, mediante a adoção de instrumentos bilaterais com os EUA, tratados com a mesma seriedade com que se tratam segurança energética e defesa. Isso deve constar de qualquer estratégia de política externa digna do nome.

A segunda explora a única carta que o Brasil de fato possui: energia limpa, abundante e barata. Se há um insumo da pilha de IA em que somos ricos, é eletricidade renovável, justamente o gargalo que sufoca os data centers norte-americanos e europeus. O Brasil deve transformar essa abundância em presença física de cômputo no território nacional, atraindo o investimento dos grandes provedores, como fazem os emirados do Golfo e os países nórdicos. Ainda que a infraestrutura seja de capital estrangeiro, a presença física significa jurisdição, empregos qualificados, transferência de competência e, sobretudo, poder de barganha. Energia é a nossa moeda, e é com ela que compramos um lugar à mesa.

A terceira é diversificar as parcerias dentro do bloco que importa. Os EUA são o sócio indispensável, porque controlam chips, modelos e capital. Mas Japão, Coreia do Sul e Taiwan oferecem equipamentos, técnicas de integração que unem chip e memória (advanced packaging) e formação de quadros. Com a China, a prudência enseja cautela: ela oferecerá chips e modelos a preço político, mas aceitá-los nos expulsaria do grupo confiável ocidental e nos lançaria numa subalternidade pior, temperada por riscos de vigilância. Realismo não é equidistância, e sim saber de que lado fica o futuro.

A quarta é construir, em vez do quimérico modelo de fronteira, a camada em que o retorno marginal brasileiro é maior: a aplicação. Não competiremos com os laboratórios que gastam dezenas de bilhões treinando modelos gigantes. Competiremos – e podemos vencer – ajustando esses modelos aos domínios em que temos dados e vantagem natural: o agronegócio, a medicina tropical, a biodiversidade e a gestão de redes elétricas. Os esforços nacionais de modelos próprios fazem sentido como camada de adaptação soberana, não como pretensos campeões a desafiar a fronteira.

A quinta é multilateral e subsidiária, jamais substitutiva: articular um arranjo lusófono e sul-americano de cômputo e dados, com o Brasil como polo regional, aproveitando o patrimônio linguístico do português como ativo estratégico. Foros como o BRICS servem para hedge pragmático, não como sucedâneo do acesso ocidental que de fato decide o jogo. Quem confunde o acessório com o essencial paga com décadas.

A sexta, por fim, é institucional: tirar a IA do gueto do Ministério da Ciência e Tecnologia e instalá-la no núcleo da grande estratégia nacional, ao lado da política externa e da defesa. Enquanto a inteligência artificial for tratada como pauta setorial de inovação, e não como questão de poder nacional, nenhum plano, por mais bilhões que prometa, escapará da retórica.

Há uma simetria histórica que deveria nos assombrar. O século XX foi decidido por quem dominou primeiro as tecnologias capazes de aniquilar ou sustentar nações inteiras e soube negá-las aos rivais. O século XXI será moldado por quem dominar a inteligência das máquinas e souber tirar cognição da areia e da luz.

O Brasil chega a essa corrida com as matérias-primas do novo tempo nas mãos e ameaça desperdiçá-las com uma estratégia feita de adjetivos e um PowerPoint batizado de plano. Uma estratégia brasileira de IA realista tem de cortar o besteirol pseudoprogressista, reconhecer as limitações estruturais do país e fazer escolhas possíveis, o que é inteiramente distinto do que foi feito até o momento.

A dependência de fertilizantes empobrece uma safra; a dependência de inteligência empobrece um século. A primeira tem cura na geologia e na paciência. A segunda só tem remédio na lucidez estratégica, e lucidez é precisamente o que nos falta enquanto trocamos política externa por bravata e estratégia por autoestima. Nenhum país exerce autonomia estratégica quando depende de decisões tomadas por outros para acessar a infraestrutura tecnológica sobre a qual repousam sua economia, sua ciência e sua defesa.

Ou o Brasil entende, ainda nesta década, que o acesso à inteligência artificial é uma das principais expressões contemporâneas da soberania, ou se acomodará, dócil e bem-intencionado, à mais amarga das servidões: transferir para outros o controle sobre sua própria inteligência.

Jogo do Futuro 

O ápice dramático da Copa do Mundo de 2026 não se limitou ao talento nos gramados, manifestou-se na precisão invisível dos elétrons. No confronto que eliminou a Croácia diante de Portugal, a história do torneio foi selada por milímetros. Um gol croata decisivo acabou anulado após o sistema de impedimento semiautomático detectar uma posição irregular imperceptível ao olho humano. O veredito nasceu dos dados transmitidos a 500Hz pelo coração tecnológico da bola Trionda. E embora o rastreamento leve a assinatura da alemã Kinexon com a Adidas, a certidão de nascimento daquela jogada aponta para o Parque Científico de Hsinchu, em Taiwan, berço da tecnologia de semicondutores.

Esse episódio ilustra uma realidade incontornável: os chips são o novo petróleo da economia global. Da gestão do tráfego aos sistemas de defesa, passando por smartphones, finanças e, agora, o esporte, nenhuma engrenagem gira sem circuitos integrados. Hoje, a cadeia de microchips é o vetor de maior vulnerabilidade e, simultaneamente, de maior poder geopolítico do planeta. Países sem acesso garantido a essa produção enfrentam riscos de apagões industriais e submissão estratégica. A corrida tecnológica atual vai além da eficiência de mercado, é uma disputa feroz por soberania. Diante disso, nações em desenvolvimento não podem mais figurar como meras consumidoras passivas de tecnologia estrangeira.

Sob essa dependência, o Brasil precisa debater urgentemente sua soberania digital. Autonomia tecnológica e processamento local de dados não são pautas puramente econômicas, mas pré-condições para a segurança nacional e a preservação das liberdades civis. Em um ecossistema hiperconectado, delegar a custódia de nossas informações e riquezas a servidores controlados por potências externas significa fragilizar nossa integridade democrática. Sem infraestrutura nacional e governança forte, dados ficam vulneráveis a vazamentos e espionagem industrial. Apenas o domínio de tecnologias críticas assegura proteção contra monitoramentos invisíveis.

Para além do hardware, essa soberania consolida-se na Inteligência Artificial. O desenvolvimento de um Grande Modelo de Linguagem (LLM) focado na língua portuguesa é um passo estratégico para reduzir a dependência de algoritmos cujos vieses refletem realidades externas. Além de mitigar o risco de bloqueios unilaterais em serviços públicos essenciais, um modelo nativo garante o alinhamento com o nosso contexto institucional. Essa busca não pressupõe isolacionismo, a infraestrutura e a formação de capital humano podem ser aceleradas por parcerias estratégicas, cooperando com polos globais e democráticos, a exemplo do modelo de Taiwan com o Paraguai, ou estreitando laços com o Japão.

Assim como os semicondutores na bola Trionda garantiram precisão em decisões nesta Copa, o futuro do Brasil depende de escolhas igualmente cirúrgicas. A dolorosa desclassificação diante da Noruega deixou claro que o futebol precisa se reconstruir, mas este processo reflete a urgência de uma modernização nacional muito mais ampla. A busca por soberania digital, IA própria e alianças com polos democráticos devem funcionar como o motor de uma economia forte. Afinal, tanto nos gramados quanto na geopolítica do silício, o protagonismo global não se sustenta com a nostalgia do passado, mas com a capacidade de dominar a tecnologia que dita as regras do jogo do futuro.

Liberdade de imprensa e o valor de quem não se vende

Não há democracia ou Estado de direito sem liberdade de imprensa e sem liberdade de expressão. Este é um entendimento historicamente comprovado por todo o percurso civilizatório das nações modernas; mas a história comprova também que a sua conquista foi lenta, que a sua manutenção é difícil e que a sua execução é precária em vários países constitucionalmente democráticos. 

Para compreender a conquista da liberdade de imprensa, é preciso lembrar que, durante os primeiros séculos após a invenção da prensa de tipos móveis por Gutenberg, a censura prévia era a norma em toda a Europa. A Igreja instituiu o Index Librorum Prohibitorum (1559), e as monarquias criaram sistemas de licenciamento: nada podia ser impresso sem autorização prévia da autoridade civil ou eclesiástica. É contra esse regime de licenciamento prévio que nasce a defesa moderna da liberdade de imprensa.

O marco fundador da defesa teórica dessa liberdade é a Areopagitica (1644), discurso que John Milton dirigiu ao Parlamento inglês contra a Licensing Order de 1643 que, ironicamente, havia sido promulgada pelo próprio Parlamento puritano, restaurando a censura prévia. Milton, ele próprio vítima da censura por seus escritos sobre o divórcio, construiu ali argumentos que se tornaram clássicos. Mas convém notar os limites: Milton não apregoava a abolição da responsabilidade posterior pelo que se publica. Seu alvo era a censura prévia, distinção que estruturou todo o debate subsequente. No âmbito prático e imediato, a Areopagitica fracassou: o licenciamento continuou. Sua força foi póstuma, como arsenal retórico das gerações seguintes.

A adotação de uma lei que protegia constitucionalmente a liberdade de imprensa e abolia a censura prévia deu-se pela primeira vez na Suécia, com a promulgação, em 1766, da Tryckfrihetsförordningen (Ordenança sobre a Liberdade de Imprensa), que instituiu também o princípio do acesso público aos documentos oficiais (offentlighetsprincipen), permitindo a qualquer cidadão consultar e publicar atos do governo e dos tribunais. 

A liberdade de imprensa nasce ali já ligada à transparência do poder, ideia que só seria retomada mundialmente no século XX com as leis de acesso à informação. A vigência daquela lei sueca foi breve – o golpe de Gustavo III (1772) restringiu severamente essas garantias – mas o precedente estava criado, e a data de 1766 permaneceu como marco jurídico inaugural.

A culminação jurídica desse processo civilizacional em defesa da liberdade de opinião é a Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, de 1791. Ao contrário das leis anteriores (que apenas aboliam a burocracia da censura prévia, mas permitiam ao governo punir jornalistas depois), a Primeira Emenda usou uma linguagem de negação absoluta ao próprio poder do Estado: “Congress shall make no law…” (O Congresso não fará lei alguma…). Ela retirou do governo o próprio poder de legislar sobre o tema. 

No Brasil do século XXI, no entanto, sob o pretexto de regular as big techs, não apenas o Congresso legisla sobre o tema da liberdade, como também o próprio STF legisla no lugar do Congresso e o Executivo trata o tema por meio de decretos. 

O Decreto nº 12.975, assinado pelo presidente Lula, em 20 de maio de 2026, que altera o Decreto nº 8.771/2016 (regulamentação do Marco Civil da Internet) e do qual tratamos no artigo Decretos de Lula, censura e a propaganda autorizadaentra em vigor nos próximos dias e as big techs já estão se preparando para cumprir as novas regras. Contra a liberdade de expressão também avança o PL da misoginia, analisado por nós no artigo Criminalização da misoginia, conceito de mulher e o fim da liberdade de expressão.

É notório, concreto, palpável e perigoso o retrocesso do Brasil em relação à liberdade de expressão. Com o risco cada vez maior de censura prévia nas redes sociais, a imprensa tradicional volta a ter um grande papel na sustentação da República e a responsabilidade recai sobre os indivíduos que atuam nesse setor, chamados, nessa hora, a agir com coerência, retidão e coragem no exercício do jornalismo.

Entre as amarras mais graves em relação à imprensa livre nos países democráticos estão a pressão sobre ela exercida pelos governos, pelo poder econômico e pelo facciosismo político. No Brasil atual, nesse quinto governo do Partido dos Trabalhadores (PT), essas amarras vêm sendo apertadas de forma assustadora. Parte da imprensa brasileira intimidou-se, submeteu-se, vendeu-se a esses poderes. Porém, existe a parte que não se intimida e não se vende: se esse contingente ético, combativo e corajoso não existisse, não existiria liberdade de imprensa. 

Acontecimentos recentemente divulgados indicam a que perigos podem estar expostos os jornalistas que não se dobram. Exemplo gritante vem do escandaloso caso Master-Vorcaro. Havendo comprado agentes nos três poderes da República, Daniel Vorcaro, incomodado com o trabalho de alguns jornalistas sérios, promoveu devassa e arquitetou agressões. 

Mensagens interceptadas pela Polícia Federal mostraram que o dono do Master mandou que um de seus comparsas, simulando um assalto, agredisse o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo:“Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”

Uma divulgação mais recente da troca de mensagens por aplicativo entre Daniel Vorcaro e o empresário Thiago Miranda expôs uma verdadeira ação mafiosa contra a jornalista Malu Gaspar.Após a publicação de uma reportagem dela, Vorcaro escreve: “Vamos ter que tentar pegar algo dessa mulher no pessoal.” Miranda responde: “Exatamente. Ela joga baixo. Vou revirar a vida dela.” Depois, completa: “Alguma coisa vamos achar.

Não acharam nada: “nem multa na CNH dela encontrei”, declara o interlocutor de Vorcaro. Diante da constatação, o plano B é acionado e as conversas passam a girar em torno de um valor milionário a ser oferecido à jornalista, que, para desespero dos mafiosos, não estava à venda e continuou fazendo o seu jornalismo investigativo com a mesma seriedade de sempre. 

Hoje, todos sabem, o Banco Master foi liquidado e Daniel Vorcaro está preso. Porém, nem assim, os jornalistas referidos ficaram livre de pressões. Malu Gaspar, em especial, foi alvo de todo tipo de ataque e difamação, uma vez que suas denúncias atingiram fortemente alguns poderosos caros aos planos dos autodenominados “progressistas”. 

É bem verdade que o acendrado facciosismo da esquerda lulista não poupa nenhum colega de profissão que contrarie seus interesses; mas contra Malu Gaspar a campanha de cancelamento tornou-se obsessiva.

Os diligentes jornalistas aqui referidos trabalham em um dos principais veículos de comunicação do país. A chamada “grande imprensa” não está isenta de vícios; como também não o está a chamada “imprensa alternativa”. Contudo, nos grandes ou pequenos veículos da mídia brasileira impressa, falada ou televisiva, há profissionais éticos e corajosos que têm conseguido assegurar o seu espaço de opinião e denúncia. Estejamos, pois, atentos para que esse último front de batalha não nos seja tirado por aqueles que querem continuar abusando do poder e corrompendo sem serem incomodados. 

Por que Cuba não faz um acordo? 

Segundo qualquer cálculo convencional, o regime cubano deveria estar negociando com os Estados Unidos. A campanha do governo Trump para forçar mudanças na ilha surgiu em um momento que parecia ideal. Com Nicolás Maduro preso, o fornecimento de petróleo venezuelano interrompido, a economia cubana em frangalhos e uma acusação formal da justiça americana pairando sobre o ex-presidente Raúl Castro, esperava-se que Havana compreendesse a gravidade de sua situação. Além disso, o governo americano exigiu reformas, e não o fim da revolução cubana. Um governo preocupado com sua própria sobrevivência buscaria dialogar com Washington.

Não foi o que aconteceu. Embora Havana tenha recebido autoridades americanas de alto escalão e participado de negociações de bastidores, o regime liderado por Miguel Díaz-Canel recusou-se a ceder, mantendo a detenção de dissidentes. O governo anunciou uma série de reformas econômicas, mas fez questão de descrevê-las como o “aperfeiçoamento da construção do socialismo”; de qualquer forma, possui um longo histórico de reverter tais medidas assim que a pressão diminui.

Washington classificou as reformas como superficiais, e suas exigências vão muito além da economia: o governo americano quer a libertação de presos políticos, a retirada de operações de inteligência russas e chinesas e avanços nas reivindicações de propriedade pendentes.

Vários fatores podem contribuir para essa resistência: o regime certamente teme que qualquer tipo de reforma enfraqueça o domínio do Partido Comunista. Pode acreditar que o presidente Donald Trump já decidiu agir contra ele, e a disputa entre facções internas provavelmente gera inércia.

No entanto, um fator frequentemente ignorado é central para a recusa do regime em negociar: a profunda doutrina antiamericana que está na essência do regime. O antiamericanismo da revolução cubana exerce uma influência poderosa — tanto em nível individual quanto institucional — ao colocar a cooperação com Washington fora do espectro de ideias aceitáveis.

É isso que diferencia Cuba da Venezuela. O chavismo era um movimento com pouco mais de uma geração de existência, sustentado pela renda do petróleo e pela lealdade a um líder carismático. A revolução cubana teve 67 anos para se institucionalizar e se fundir à identidade nacional. A resistência ao “Colosso do Norte” é um elemento fundamental na narrativa que os comunistas cubanos constroem sobre sua história e seu lugar no mundo, figurando entre as últimas fontes de legitimidade do regime.

O “bloqueio” americano ocupa o centro dessa narrativa. Como propaganda voltada para os cubanos comuns, a estratégia é apenas parcialmente bem-sucedida; a maioria sabe perfeitamente que o embargo não é a fonte de sua miséria, mas sim a própria incompetência do regime. Apontar o embargo como a “causa principal” dos problemas de Cuba fornece ao regime uma desculpa pronta para o fracasso e cria uma realidade na qual qualquer entendimento com Washington não é visto como pragmatismo, mas como capitulação ao inimigo. Não é preciso que um único membro da elite acredite sinceramente nessa doutrina para que ela os una a todos — sua função é menos persuadir do que disciplinar.

É verdade que o regime negociou no passado, quando concordou com a reaproximação de 2014 sob o governo do presidente Barack Obama, mas esse episódio prova muito pouco: Washington não exigiu nenhuma mudança significativa, o regime não cedeu em nada e apenas aproveitou a abertura. É tentador pensar que as conversas recentes sugerem uma disposição para negociar, ou talvez até a existência de uma figura reformista em algum lugar do sistema. Mas, mesmo que os Estados Unidos tenham identificado uma “Delcy Rodríguez” cubana, essa pessoa precisa sobreviver tempo suficiente para alcançar algo. Em Cuba, a autoridade publicamente apontada como “homem de Washington” não se torna um agente de transição; ela se torna um traidor e é tratada como tal.

O que Washington poderia fazer de diferente? A falha mais profunda da abordagem atual é que intensificar a pressão e restringir o fornecimento de combustível fortalece a mentalidade de cerco dentro do regime e provavelmente reduz o espaço existente para discussões substantivas.

Um caminho mais sensato seria aliviar a pressão humanitária e encontrar uma via — possivelmente por meio da mediação de terceiros, como o Vaticano — que permitisse ao regime apresentar a mudança como uma escolha soberana própria, em vez de uma capitulação aos Estados Unidos.

Mesmo que Washington agisse com total acerto, as chances de sucesso seriam pequenas. Os homens que controlam os serviços de segurança de Cuba e a economia gerida pelos militares são os que mais têm a perder com qualquer abertura genuína, e a doutrina antiamericana é justamente o que lhes permite defender esse interesse próprio como algo mais nobre.

Cuba precisa urgentemente de mudanças, e a determinação do presidente Trump em trazer alívio após 67 anos de má gestão é louvável. No entanto, a estratégia atual de Washington reforça a narrativa mais antiga do regime e torna a recusa uma opção fácil demais. Pode ainda restar uma janela estreita, mas o momento em que uma estratégia mais sutil poderia ter funcionado talvez já tenha passado.

Milagre Colombiano

A Colômbia vive uma sintonia entre história política e paixão esportiva. Enquanto a seleção exibe rigor tático na Copa do Mundo de 2026, as urnas consagraram uma virada histórica: a eleição de Abelardo de la Espriella à presidência, consolidando a guinada à direita que redesenha o tabuleiro geopolítico da América Latina. No epicentro dessa catarse, a camisa amarela da seleção converteu-se no maior símbolo de disputa e identidade nacional. A tentativa da esquerda de judicializar a vestimenta provou-se um erro estratégico. Ao apropriar-se do amarelo, De la Espriella decodificou o sentimento de uma maioria silenciosa cansada de associar os símbolos pátrios ao declínio, canalizando o orgulho popular para seu projeto de reconstrução institucional.

Esse fenômeno insere-se no realinhamento conservador que varre a América Latina. Após anos de governos progressistas marcados por estagnação econômica e criminalidade, o eleitorado redescobriu o valor da ordem, da segurança jurídica e do livre mercado. Do Cone Sul ao ecossistema andino, a nova direita compreende que a soberania exige instituições fortes e alianças estratégicas claras. A proposta de De la Espriella de alinhar a Colômbia à vanguarda diplomática ocidental reflete essa mudança geopolítica, transformando o amarelo da “Tricolor” no emblema visual desse despertar regional.

Para tanto, De la Espriella estruturou uma agenda agressiva de 90 decretos para os primeiros 100 dias, focados em desregulamentação, investimentos e tolerância zero ao narcoterrorismo. Projetos estratégicos antes paralisados, como a interconexão elétrica com o Panamá, ganham uma urgência que espelha o contra-ataque veloz do futebol. A economia, sob essa ótica, deve funcionar como um meio-de-campo entrosado: menos entraves estatais, passes precisos ao setor produtivo e defesa intransigente da propriedade privada e da segurança pública, garantindo as regras fundamentais para a sociedade prosperar.

Nessa intersecção, futebol e política revelam-se complementares. O desempenho avassalador da seleção no mundial reflete uma nação que redescobriu a disciplina e a mentalidade vitoriosa. O sucesso em campo mostra que o êxito exige liderança firme e planejamento rigoroso — premissas centrais que levaram De la Espriella ao poder. Há uma simbiose psicológica entre a confiança de um povo que vê seus atletas vencerem potências globais e a coragem desse mesmo eleitorado de romper com o marasmo econômico, alimentando mutuamente a glória esportiva e a eficácia governamental.

O reconhecimento dos resultados pela oposição encerra o ciclo de incertezas e abre caminho para a transição. Ao discursar em Barranquilla vestindo orgulhosamente a camisa amarela que a justiça tentou banir, De la Espriella sinalizou o fim da timidez política. A Colômbia entra no segundo semestre de 2026 com os olhos no topo do mundo, acompanhando sua seleção rumo às fases decisivas e monitorando reformas que prometem destravar as forças vivas do país. O milagre colombiano está em campo e nas urnas, resta agora consolidá-lo com a mesma garra demonstrada nos gramados.