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Tática da Abertura

Por décadas, o Brasil operou sob a premissa de que o que é nosso dispensa validação externa. Essa mentalidade autárquica, que moldou a industrialização por substituição de importações no século XX, encontrou espelho fiel em nossos gramados. O futebol brasileiro, pilar da identidade nacional, orgulhava-se de uma autossuficiência mística. Contudo, a contratação do italiano Carlo Ancelotti para a Seleção rompeu esse lacre ideológico. A chegada do treinador simboliza o colapso do último bastião do protecionismo cultural e serve de metáfora sobre a urgência de abertura do Brasil na economia globalizada.

O paralelo entre política comercial e gestão desportiva é evidente: ambos adotaram a reserva de mercado. Enquanto o mundo se integrava, o futebol brasileiro estagnou em uma autoconfiança anacrônica, pagando o preço com o isolamento técnico e duas décadas de jejum em Copas. Como na economia, o fechamento cobrou seu tributo em obsolescência.

Essa quebra de paradigma começou nos clubes com a importação de técnicos. As passagens de Jorge Jesus no Flamengo e Abel Ferreira no Palmeiras trouxeram novos processos, expondo o atraso metodológico local. O mercado doméstico, antes blindado, viu-se obrigado a expandir horizontes. Essa oxigenação estendeu-se às quatro linhas: a vinda de craques como Luis Suárez e Memphis Depay chancelou o retorno do país como polo atrativo. Ao subirem a régua da concorrência, esses atletas forçaram a elevação do nível interno, de forma idêntica a multinacionais que, ao se instalarem aqui, dinamizam a cadeia produtiva local.

Paralelamente, a estrutura de propriedade passou por metamorfose. Viabilizada pela Lei das SAFs em 2021, essa transição funcionou como o marco regulatório para a atração de Investimento Estrangeiro Direto, resgatando clubes asfixiados por dívidas. O aporte de R$ 1 bilhão do City Football Group no Bahia exemplifica essa virada. Essa enxurrada de capital, atrelada a práticas de governança, injetou liquidez, impôs auditorias e sepultou o amadorismo dos antigos cartolas.

Nesta transição, a maior lição do futebol para a gestão pública reside na correlação entre equilíbrio fiscal e dominância. Palmeiras e Flamengo são emblemáticos: abdicaram do populismo em prol da austeridade. Após reestruturarem suas dívidas, alcançaram faturamentos bilionários e converteram superávits em hegemonia esportiva, demonstrando que a responsabilidade fiscal é o único meio sustentável para financiar o sucesso a longo prazo. É uma cartilha para Brasília, pois atesta que o respeito às contas gera a previsibilidade para atrair capitais e garantir estabilidade.

O diagnóstico para o futebol e para a macroeconomia brasileira guarda a mesma essência: o protecionismo e a leniência fiscal concedem uma ilusão de alívio imediato, mas cobram o preço do fracasso no longo prazo. Se o Brasil vencerá com Ancelotti é uma incógnita, mas a quebra do dogma mostra que a evolução dos clubes ecoou na CBF. A modernização é irreversível e deveria pavimentar o caminho para reconduzir o país a uma nova era de vitórias sustentáveis além dos gramados.

Crime organizado será o tema central das eleições presidenciais

Talvez você sinta uma desesperança e um desapontamento quando fala de política. Nós, brasileiros, passamos do desinteresse total a uma vontade de tomar as rédeas da situação nos últimos anos. As pessoas falam de política e tentam se informar como nunca. Exatamente porque sabem mais se sentem mais enganadas, têm a comprovação do que antes era intuição.

Dá a impressão de que, toda vez que o povo consegue mexer em algo nas estruturas, as velhas raposas da política se reorganizam. Ocorre o expurgo de quem incomoda o poder estabelecido, o absurdo se normaliza, as coisas seguem iguais. Os políticos são hábeis em criar discussões artificiais para distrair do que realmente interessa, o fato de que não resolvem os problemas do povo e não enfrentam as consequências disso.

As pessoas ávidas por informação política e ter alguma mudança acabam enredadas. Não por culpa delas, mas porque o sistema é injusto. Os políticos conhecem a política, vivem disso, são profissionais em moldar e conduzir debates. O cidadão precisa encaixar sua participação política nos afazeres diários, tendo uma vida cada vez mais difícil.

Nesse cenário é fácil ceder a paixões e soluções simplistas. Acreditar que há anjo que nos salve ou demônio invencível. A salvação é que a realidade se impõe. Não é se, é quando. Parece que esse tempo chegou.

Fôssemos listar os problemas a resolver e injustiças a corrigir no Brasil, jamais acabaríamos. Mas tem algo que já explodiu porque toca a vida cotidiana de todos os cidadãos brasileiros: a criminalidade organizada.

Neste século, as organizações criminosas saíram dos presídios e ganharam o país. Se diz que controlam mais de ¼ do território brasileiro. A estética e a cultura do crime são naturalizadas pela mídia e por influencers. Mas os efeitos na vida do cidadão comum são impossíveis de naturalizar.

Segundo pesquisa Ipsos de março deste ano, a criminalidade é a principal preocupação de metade dos brasileiros. Não é pouco. Pense no tanto de problemas que temos. O peso do crime está sobre a vida de todas as famílias. Até agora, essa era uma discussão tangencial nas eleições. Um detalhe apenas. Sinalização de virtude, moralidade e demonização estavam no centro. Corrupção, como sempre, faz parte da pauta.

A ação da campanha de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump pode ter mudado a janela de discussão definitivamente. Os EUA declararam PCC e CV como organizações terroristas. A questão é que Lula reagiu imediatamente contra. Alega questões de soberania, incorpora o vocabulário de direita para tentar falar que os outros são traidores da pátria. Não vai colar. São conceitos abstratos e as pessoas querem respostas para medos diários e reais.

Estamos falando de um povo que não pode sair com celular na rua, da prática familiar de verificar o tempo todo onde cada um está com medo da ação dos criminosos. Isso sem falar nos verdadeiros absurdos violentos e de domínio de território que martirizam diariamente milhões de cidadãos.

Qual a resposta para isso?

A direita diz agora que é a ajuda de Trump e uma postura linha dura, como aquela contra terroristas, para enfrentar esses criminosos. Lula diz que essa não é a solução mas também não aponta qual seria.

Quando o PT chegou ao poder, as organizações criminosas já existiam, mas eram marginais, muito ligadas ao universo carcerário. Cinco governos petistas depois, são potências mundiais, presentes em vários países, parasitando nossas instituições e com um poder que parece impossível de deter.

O que Lula prometerá fazer? O mesmo que o PT fez em 5 governos? O governo alega que combate o crime organizado, que fez novas leis, que tem forças-tarefa. No entanto, o crime só cresceu durante o século petista no poder.

Outro ponto é a postura ideológica da esquerda, que tende a tratar criminoso como vítima da sociedade. O presidente Lula já chegou a dizer textualmente que os traficantes são vítimas dos usuários. Fala frequentemente sobre roubo de celular, algo que atormenta o cidadão, como se fosse uma brincadeira.

Não sabemos ainda quais serão os efeitos reais da atitude de Trump. Quais as consequências práticas de declarar PCC e CV terroristas? Quanto tempo levará para que o Brasil sinta as consequências disso no dia-a-dia? Só o tempo dirá.

O que sabemos é que a mudança no debate chegou. Não há problema maior em um país que o sequestro de todo o Estado por bandidos. E todos os candidatos têm o dever de dar respostas concretas. Ao longo da campanha veremos quem realmente tem interesse nisso.

A rede suja do PT

Há mais de uma década o PT montou uma rede suja de veículos alternativos ao que chamava de PIG – Partido da Imprensa Golpista. Era a maneira de criar uma opinião favorável ao neopopulismo lulopétista enquando não conseguia emplacar sua velha proposta de ‘controle social da mídia’. Na verdade, o que o PT queria era um controle partidário-governamental dos meios de comunicação.

Nos tempos atuais, entretanto, o PT tem conseguido afinal avançar no controle partidário-governamental das mídias sociais, como resumiu magistralmente o editorial do Estadão (de 24/05/2026) intitulado A longa marcha do controle digital. Também já havia tratado do assunto dois dias antes (em 22/05/2026) no artigo Ainda sobre o decreto de censura. E três dias antes (em 21/05/2026) no artigo Decreto de Lula estabelece a censura no Brasil, sobre a volta da velha proposta petista de controle da mídia.

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Pois bem. O que aconteceu de 2014 para cá? Muitos veículos continuaram na rede, com um comportamente típico de rede suja (como Brasil 247 e DCM). Alguns desapareceram. Outros surgiram.

2014

Em 2014 a rede suja do PT reunia como veículos principais:

2026

Doze anos depois, em 2026, a rede suja do PT – salvo algum equívoco de avaliação – está basicamente assim:

Especialmente no YouTube a rede suja tem atualmente a seguinte configuração:

Claro que nos mosaicos acima não estão todos os veículos. Apenas alguns dos mais expressivos. Mas ver a constelação assim de uma vez, ajuda a explicar muita coisa. 

As duas principais aquisições, de 2014 para cá, foram o Intercept_Brasil e o ICL – Instituto Conhecimento Liberta. Além do SGBR – Sleeping Giants Brasil, que não entrou nos mosaicos acima dada a sua natureza de milícia digital. 

O Intercept_Brasil

O Intercept_Brasil só divulga vazamentos que favorecem o populismo de esquerda. A Vazajato serviu para descondenar Lula. Agora a Masterjato está servindo para reeleger Lula. O Intercept nunca vazou nada sobre as relações de Vorcaro com o PT e com Toffoli e com Moraes.

Pergunta-se, no caso atual do escândalo do banco Master, quem vazou as informações para o Intercept. O próprio Vorcaro, como um aviso aos que lhe abandonaram? Com a ajuda de quem ele fez isso? Só pode ser com a ajuda daqueles que queriam fazer sumir do noticiário as relações do PT, de Moraes e de Toffoli com Vorcaro. E sumiram mesmo.

Fica a dúvida se estamos tratando, no caso do Intercept_Brasil, de um veículo jornalístico ou de uma organização política de militantes já que, desavergonhadamente, faz luta política 24 horas por dia no estilo jihadismo de esquerda. E não ataca só o bolsonarismo. Ataca Israel (antissemitismo travestido de antissionismo), ataca os EUA (e não apenas por causa do governo Trump, mas na linha anti-imperialismo yankee da primeira guerra fria), ataca as democracias liberais e tenta cancelar, inclusive, personalidades de centro como Luciano Huck.

O Intercept_Brasil é presidido por Andrew Fishman, um jornalista investigativo norte-americano radicado no Rio de Janeiro. Antes ele havia trabalhado como repórter no The Intercept (versão americana) de 2013 a 2022. Participou da cobertura dos Arquivos Snowden (documentos vazados pela NSA) e integrou a equipe da Vaza Jato (e do “Brazil Secret Archive”), que revelou irregularidades na Operação Lava Jato, incluindo supostas relações secretas com o governo dos EUA (Departamento de Justiça e FBI).

Mas além do Fishman há uma equipe, aliás bem numerosa para um veículo tão pequeno, de jornalistas-militantes ou propagandistas partidários. Dele saiu, por exemplo, o Leandro Demori – que foi editor-executivo do The Intercept Brasil de 2018 a 2022 (ou 2023) e foi um dos principais coordenadores da cobertura da Vaza Jato – para trabalhar na empresa de marketing político oficial do governo Lula: a EBC – Empresa Brasil de Comunicação. Em setembro de 2023, Demori estreou o programa “Dando a Real com Demori” (ou DR com Demori) na TV Brasil (também chamada de “TV Lula”).

É indisfarçável e inegável o vínculo do Intercept_Brasil com o PT no governo. É um mundo chapa-branca.

O ICL – Instituto Conhecimento Liberta

A outra grande aquisição foi o ICL – Instituto Conhecimento Liberta, uma plataforma declarada como de educação online, cultura e jornalismo que foi criada em 2020. O destaque aqui é o ICL Notícias: portal de notícias e canal no YouTube (com ~1,7 milhão de inscritos) que transmite várias horas de conteúdo ao vivo por dia (programas como Desperta ICL, ICL Notícias 1ª e 2ª Edição, etc.). Tem viés editorial de esquerda, crítico ao bolsonarismo e alinhado a pautas progressistas.

Seus fundadores são Eduardo Moreira — ex-banqueiro de investimentos, Rafael Donatiello — especialista em marketing digital e Jessé Souza — sociólogo conhecido por suas posições de esquerda radical na academia e nos veículos de comunicação. Eduardo e Rafael são sócios e dirigentes do ICL e a partir de 2024 Felipe Neto passou a integrar o Conselho. Há também um Conselho Curador que inclui, salvo engano ou desatualização, Frei David (Educafro), Heloisa Villela (jornalista), João Paulo Pacifico (Grupo Gaia), Lindener Pareto (historiador) e Daniel Munduruku (ativista indígena). Por último há uma equipe grande de jornalistas e colaboradores: Leandro Demori (aquele mesmo do Intercept_Brasil e da EBC), Chico Pinheiro, Rodrigo Vianna, Xico Sá, Leonardo Boff, Marilena Chauí etc.

Às vezes o ICL dá a impressão de querer ser uma espécie de Brasil Paralelo da esquerda.

O SGBR – Sleeping Giants Brasil

Uma organização não incluída nos mosaicos acima é a milícia digital agressiva intitulada Sleeping Giants Brasil, associada a campanhas de desmonetização de empresas e veículos de mídia considerados contrários ou críticos ao governo Lula, ao PT e a esquerda em geral. Trata-se de uma adaptação brasileira do movimento Sleeping Giants (criado nos EUA em 2016 contra sites de extrema-direita).

O SGBR atua desde 2020 principalmente no Twitter/X, Instagram e outras mídias sociais, expondo anunciantes (empresas) que colocam publicidade em sites, canais ou perfis acusados de disseminar fake news, discurso de ódio, desinformação ou conteúdo conservador ou bolsonarista. Seu objetivo declarado é “desmonetizar” esses veículos, pressionando marcas a retirarem anúncios via e-mails, campanhas públicas e notificações, para reduzir o faturamento deles.

Não é propriamente um veículo de comunicação, mas, como foi dito, uma milícia digital alinhada à esquerda que atua de forma coordenada para silenciar vozes opositoras via pressão econômica além de promoção de cancelamento. 

O SGBR defende regulação mais forte das plataformas digitais, atua em parceria com pautas progressistas de combate à “desinformação” e pratica uma suposta legítima defesa contra ódio e fake news.

O Sleeping Giants Brasil (SGBR) é dirigido principalmente por três pessoas, que são seus fundadores e diretores: Mayara Stelle — Diretora Executiva, Institucional e Financeira, Leonardo de Carvalho Leal — Diretor de Comunicação e Humberto Ribeiro (Humberto Santana Ribeiro Filho) — Diretor Jurídico e de Pesquisa. Este último está perfeitamente integrado ao governo e foi nomeado por Lula para o Conselho Consultivo da Anatel (como conselheiro, representando sociedade civil). 

Inicialmente essa estranha milícia atuava de forma meio clandestina. Só depois os operadores do movimento revelaram suas identidades (por exemplo, em entrevista para Mônica Bergamo, da Folha).

O artigo poderia terminar aqui, mas antecipo-me às perguntas que virão.

E os veículos e jornalistas bolsonaristas?

Este artigo focaliza apenas os veículos lulopetistas (ou ditos de esquerda). Mas há também uma constelação de veículos bolsonaristas (ditos de direita ou de extrema-direita) que será tema de um novo artigo. Incluem-se nessa constelação, entre outros: Brasil Paralelo, Conexão Política, Gazeta do Povo (parcialmente), Jornal da Cidade Online, Revista Oeste e Terra Brasil Notícias. E os canais do Youtube, entre outros, de Ana Paula Henkel, André Fernandes, Daniel Alvarenga, Folha Política, Giro de Notícias, Gustavo Gayer, Jovem Pan (parcialmente), Nikolas Ferreira, Rodolfo Delmond, Sargento Fahur, Te Atualizei (Bárbara Destefani) e Terça Livre. Em breve vamos tratar do assunto.

E os veículos e jornalistas não populistas?

Também está fora do escopo deste artigo tratar dos veículos, programas, jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Em ordem alfabética poder-se-ia citar, entre outros, os anônimos editorialistas de O Estado de S. Paulo, Alexandre Schwartsman (Folha de S. Paulo), Caio Blinder (Manhattan Connection e Levante no Youtube), Caio Junqueira (CNN), Carlos Andreazza (O Estado de S. Paulo), Carlos Pereira (O Estado de S. Paulo), Daniel Rittner (CNN), Demétrio Magnoli (Folha de S. Paulo, O Globo, Globo News), Dora Kramer (Jovem Pan, Folha de S. Paulo), Duda Teixeira (Crusoé), Eduardo Affonso (O Globo), Fernando Gabeira (Globo News), Fernando Rodrigues (Poder 360), Fernando Schüler (Estadão, Band), Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo), Heni Ozi Cukier (Professor HOC, Canal do Youtube), Joel Pinheiro (Canal no Youtube, Folha de S. Paulo, Globo News), Lourival Sant’Anna (CNN), Luiz Felipe Pondé (Folha de S. Paulo, TV Cultura), Lygia Maria (Folha de S. Paulo), Madeleine Lacsko (Canal no Youtube e O Antagonista), Magno Karl (Canal Meio), Malu Gaspar (O Globo, Globo News, CBN), Mano Ferreira (Jovem Pan), Marcelo Rios (Hoje no Mundo Militar, Canal do Youtube), Marcio Coimbra (Monitor da Democracia, Crusoé), Marcus André Melo (Folha de S. Paulo), Mariliz Pereira Jorge (Canal Meio e Folha de S. Paulo), Merval Pereira (O Globo, Globo News), Oliver Stuenkel (Globo News e O Estado de S. Paulo), Pedro Doria (Canal Meio), Raquel Landim (SBT News), Rodrigo da Silva (Spotniks, O Estado de S. Paulo), Sam Pancher (Metrópoles)l, Sergio Fausto (O Estado de S. Paulo), Thais Herédia (CNN), Thaís Oyama (O Globo, TV Cultura), William Waack (WW CNN e O Estado de S. Paulo) e Wilson Gomes (Folha de S. Paulo). Esse elenco não é exaustivo, mas quase. E a lista, mesmo assim, parece extensa. Mas é mínima se compararmos às listas de nomes de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que pontificam nesses mesmos veículos da imprensa comercial, convencional ou alternativa (que foram citados entre parêntesis neste parágrafo) e que são de esquerda ou governistas. Não é tão difícil perceber a diferença entre os nomes acima e nomes como os de Celso Rocha de Barros (Folha de S. Paulo), Daniela Lima (UOL), Flávia Oliveira (Globo News), Guga Noblat (Metrópoles), Marcelo Lins (Globo News), Miriam Leitão (O Globo, Globo News), Reinaldo Azevedo (Metrópoles) e Ricardo Noblat (Metrópoles) – para citar apenas alguns exemplos de profissionais governistas que, de jornalistas (e bons jornalistas, em alguns casos), passaram a ser propagandistas ou defensores contumazes do PT ou da esquerda populista (de raiz marxista ou identitarista).

Cabem aqui, entretanto, algumas ressalvas para explicar muitas ausências da lista de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Quem não critica o neopopulismo lulopetista e o populismo-autoritário bolsonarista como alternativas iliberais (não-liberais ou contra-liberais) não pode se dizer democrata-liberal. Não adianta tentar escapar disso se declarando progressista ou conservador. Democratas-liberais podem ser inovadores ou conservadores. Mas não podem ser revolucionários disfarçados de progressistas ou reacionários travestidos de conservadores. Também não adianta se proclamar social-democrata. Nem todo social-democrata é um democrata-liberal. Existem social-democratas que são social-liberais e existem social-democratas estatistas, ou seja, estatal-democratas que são, a rigor, não-liberais.

E a GloboNews?

Por último, merece um destaque especial a GloboNews, que embora não possa ser considerada um nodo da rede suja do PT, virou um canal que inaugurou um novo tipo de “noticiário”, empenhado em dizer o que você deve pensar sobre o que aconteceu antes de dizer o que de fato aconteceu. Não é mais – stricto sensu – um canal de jornalismo, mas de opinião – com uma linha “progressista”, no sentido que o populismo de esquerda (de raiz marxista ou identitarista) atribui à palavra. Com algumas exceções, é claro – algumas até citadas acima, mas que confirmam a regra – é um canal governista ou colaboracionista com a força hegemonista que está no governo. (Já venho abordando esse assunto há muito tempo; por exemplo, no artigo de 16/12/2024 intitulado Por que GloboNews?)

No que tange à chamada imprensa comercial ou tradicional muitos problemas estariam resolvidos (ou seriam evitados) se os jornalistas adotassem um referencial democrático, como o sugerido no artigo (de 03/02/2025) intitulado Um código democrático para jornalistas.

Silhueta de uma criança em um corredor de tribunal iluminado, representando a busca por justiça e a proteção das vítimas.

Casos Henry Nowak e Henry Borel: a perversão da justiça pelo ativismo identitário

Há tragédias que, por sua brutalidade, parecem desafiar qualquer tentativa de interpretação mais ampla. Contudo, justamente por revelarem certas tendências de uma época, acabam se tornando estopim para a indignação daqueles que ainda tentam resistir contra o avanço da barbárie. Os casos de Henry Nowak, no Reino Unido, e Henry Borel, no Brasil, pertencem a essa categoria. Embora distintos em circunstâncias, contexto e desfecho judicial, ambos expõem uma mesma enfermidade moral de nosso tempo: a crescente subordinação da justiça aos imperativos da política identitária. 

Não é por acaso que esses dois casos me vieram juntos à reflexão. Há neles uma lógica perversa comum, uma tragédia anunciada que merece ser examinada com seriedade. Henry Nowak tinha 18 anos e voltava a pé para casa numa noite em Southampton, sul da Inglaterra. Henry Borel tinha 4 anos e estava num apartamento no Rio de Janeiro com a mãe e o companheiro dela. Ambos foram assassinados e ambos foram, à sua maneira, traídos pelo próprio Estado. E, nos dois casos, essa traição foi alimentada pelo mesmo veneno ideológico que corrói, lenta e metodicamente, as instituições do mundo ocidental: o identitarismo.

O assassinato de Henry Nowak e a cumplicidade do Estado

Em uma noite, quando voltava da faculdade, Henry Nowak teve a infelicidade de cruzar o caminho de Vickrum Digwa, um britânico sikh que carregava uma adaga de 21 centímetros. Uma altercação entre eles terminou da maneira mais brutal possível: Henry foi esfaqueado cinco vezes, com um golpe fatal no peito. Ele buscou refúgio na garagem da casa de um desconhecido e implorou por socorro. A polícia chegou. Mas, em vez de alívio, seu drama ganhou uma segunda camada, desta vez, com o imprimatur do Estado.

É que o irmão de Digwa, seu assassino, havia telefonado para a polícia com uma mentira calculada: afirmou que Henry era um agressor e que ele e seu irmão haviam sido vítimas de racismo. A falsa acusação de racismo funcionou como uma palavra mágica. Os policiais chegaram enfeitiçados à cena do crime e, sem verificar os fatos, sem considerar o estado de Henry, que sangrava, que estertorava, repetindo com muito esforço “não consigo respirar”, decidiram acreditar no algoz e desacreditar a vítima. Algemaram um rapaz em agonia. Enquanto sua vida se extinguia, um policial ainda debochou quando ele disse que foi esfaqueado: “Acho que não, amigo.”

A indiferença e o sarcasmo com a verdadeira vítima, a absurda decisão de algemar o rapaz moribundo não foi um ato cruel de um agente isolado, nem um grosseiro equívoco da ação policial em conjunto: foi o resultado natural de um condicionamento ideológico. Como explica Brendan O’Neill, editor-chefe de política da revista Spiked, no artigo The merciless mistreatment of Henry Nowak, “a Polícia de Hampshire, que abrange Southampton, possui um ´plano de ação racial´ repleto de absurdos da teoria crítica racial”. Após décadas de doutrinação woke nas entranhas do Estado britânico, a acusação de racismo vindo de um indivíduo pertencente a alguma minoria, adquiriu o estatuto de uma prova em si mesma, independentemente de qualquer evidência, de qualquer contraditório, de qualquer bom senso. 

Foi por conta da doutrinação woke que os agentes trataram a falsa acusação de racismo feita pelo irmão do assassino de Henry Nowak como verdade imediata e inquestionável. Embora o assassino tenha sido condenado, a liberação das câmeras corporais dos agentes de polícia gerou forte comoção pública porque deixou claro o perigo que é um Estado que subverte a justiça, que substitui a presunção de inocência pela presunção de culpa conforme a identidade racial do acusado, trocando o dever de imparcialidade pela militância disfarçada de protocolo.

O assassinato de Henry Borel e a misericórdia seletiva da juíza

A história de Henry Borel é igualmente perturbadora e igualmente reveladora das patologias do tempo presente. Henry tinha 4 anos. Morreu por hemorragia interna e laceração no fígado causadas por ação contundente, segundo sete laudos periciais independentes. Seu padrasto, o ex-vereador Jairinho, foi condenado a 43 anos de prisão. Mas há outra figura nessa tragédia: Monique Medeiros, a mãe. Os fatos são inequívocos: Monique sabia. O filho havia dito, por duas vezes, que o “tio” o agredia. A babá lhe alertara, com relatos e imagens, sobre os maus-tratos. Quando Henry morreu, ela orientou a empregada a se calar para não incriminar o casal. Os jurados chegaram a um veredicto que reconhecia a culpa da mãe. Foi então que a ideologia travestida de juíza entrou em cena para evitar o cumprimento da justiça. 

A magistrada Elizabeth Louro concedeu perdão judicial a Monique pelo homicídio culposo. Sob que argumentação? Sob argumentação de que ela já havia sofrido o suficiente por ter sido vítima de um “massacre misógino” e que a sociedade lhe exigia ser “a mãe perfeita” nos moldes patriarcais, e que essa pressão cultural justificava a clemência excepcional. 

Não foram poucos os articulistas que, com razão, reconheceram a gravidade da decisão. “Há poucas coisas mais desprezíveis do que usar retórica ideológica para justificar a maldade e o crime”, escreveu Fernando Schüller no Estadão; “Ao invocar conceitos como misoginia e discriminações de gênero, ambos presentes em sua sentença, a juíza introduziu uma categoria ideológica como parte da sustentação de uma decisão penal”, escreveu Thais Oyama em O Globo.A militância da juíza esvazia o poder de agir e o dever de responsabilização das mulheres, perpetuando a vitimização e a infantilização do sexo feminino, verificadas em parcela significativa do discurso identitário”, escreveu Lygia Maria na Folha de S.Paulo.

A retórica identitária

O caso Henry Nowak, no Reino Unido, e o caso Henry Borel, no Brasil, ilustram um mesmo fenômeno: a substituição progressiva do ideal de justiça universal por uma lógica de interpretação fundada em identidades. A identidade da vítima ou do réu foi critério. No primeiro caso, a identidade sikh do assassino e a falsa acusação de racismo contribuiu para a suspeição imediata da verdadeira vítima, que morreu algemada antes que os policiais percebessem o grave erro que estavam cometendo; no outro caso, a identidade de gênero feminino serviu para atenuação da responsabilidade da ré de um crime cruel de infanticídio. Em ambos os casos, o princípio elementar da imparcialidade, que exige que a lei seja aplicada com base nos fatos foi sacrificado no altar de uma ideologia que, sob pretexto de “justiça social”, vem paulatinamente esvaziando o próprio conceito de justiça.

A justiça é representada cega justamente porque ela evita o favoritismo, o preconceito, o privilégio, a parcialidade. Quando retiramos a venda da justiça para que ela examine quem pertence a qual grupo, imaginando assim torná-la mais sensível ou mais consciente, acabamos por transformá-la em algo muito diferente daquilo que deveria ser. 

A tradição democrática, liberal e humanista do Ocidente construiu-se com a convicção de que a dignidade humana é universal. O identitarismo, ao contrário, é um tribalismo, fragmenta a universalidade em uma infinidade de categorias concorrentes que buscam privilégios. Ele divide o mundo entre opressores e oprimidos, e essa divisão precede qualquer análise dos fatos concretos. Uma vez estabelecida a hierarquia identitária (quem pertence ao grupo dos privilegiados, quem pertence ao grupo dos oprimidos), o julgamento moral já está, de antemão, determinado. Os fatos tornam-se irrelevantes, ou pior, tornam-se obstáculos a contornar, ruídos a neutralizar com a retórica adequada. Quando a justiça se torna seletiva, quando ela distribui seus veredictos conforme a posição do réu na hierarquia das identidades, ela deixa de ser justiça e passa a ser política; a pior das políticas, aquela que se reveste de moralidade para dissimular sua arbitrariedade.

É essa a perversão que ambos os casos iluminam. Enquanto o progressismo woke continuar a colonizar as instituições e as mentes, haverá mais “casos Henrys”. Não se trata apenas de erros individuais de policiais despreparados ou de uma juíza ideologizada. Trata-se de uma deformação sistemática que tem corrompido as instituições, impedindo-as de cumprirem sua função primordial: fazer justiça com base na verdade e na lei, não com base em preferências identitárias.

Muito Além das Tarifas

O tabuleiro do comércio global acaba de sofrer um realinhamento profundo, e o Brasil, lamentavelmente, moveu-se tarde demais para evitar as ações desenhadas em Washington. A confirmação de que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, concluiu a investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, recomendando uma tarifa punitiva de 25% sobre uma vasta gama de produtos brasileiros, não é apenas um revés econômico de proporções severas. Representa o ápice de um diagnóstico preciso do amadurecimento institucional do protecionismo da administração Trump e, simultaneamente, expõe as fragilidades crônicas da atual condução da nossa diplomacia corporativa e governamental. Para quem dirigiu de a complexa engrenagem da promoção de exportações e a atração de investimentos no ecossistema da Apex Brasil, posso afirmar que o anúncio traz lições amargas sobre como o país perdeu a capacidade de antecipar o risco regulatório global e gerenciar assimetrias em mercados maduros.

Diferente do açodado tarifaço linear de 2025, que acabou naufragando nos tribunais constitucionais americanos devido ao seu caráter declaradamente político de retaliação ideológica, a investida atual liderada por Jamieson Greer possui uma blindagem técnica sofisticada. Ao ancorar as novas penalidades nas conclusões formais da Seção 301, o governo americano ergueu barreiras de difícil reversão jurídica ou diplomática. O USTR dissecou o ambiente de negócios brasileiro para justificar as sanções, apontando seis frentes estruturais que considera práticas comerciais injustas: as barreiras ao comércio digital, as assimetrias na regulação de serviços de pagamento eletrônico, as distorções em tarifas preferenciais, a histórica morosidade na proteção à propriedade intelectual, as perenes disputas sobre o acesso ao mercado de etanol e, em um lance de puro pragmatismo político, o desmatamento ilegal. Ao sequestrar a narrativa ambiental para transformá-la em argumento de dumping ecológico, Washington desarmou a retórica tradicional de Brasília, provando que a defesa dos interesses comerciais americanos não possui amarras ideológicas.

O desenho cirúrgico da nova lista de sobretaxas revela a face mais nítida da realpolitik americana e nos oferece um espelho de nossas próprias dependências. Ao poupar setores estratégicos como o aeroespacial — preservando a cadeia de valor integrada da Embraer —, além de combustíveis fósseis, minerais críticos, café e carne bovina, os formuladores da política em Washington protegeram sua própria indústria e o bolso de seus eleitores contra pressões inflacionárias. Onde o Brasil possui indispensabilidade estrutural nas cadeias globais de suprimentos, o pragmatismo de Trump prevaleceu. Onde somos substituíveis ou politicamente vulneráveis, fomos atingidos. Porém, vale apontar que o governo brasileiro contribuiu com sua retórica antiamericana e ao mesmo tempo foi incapaz de deter o processo dentro do prazo político negociado nos bastidores, algo que escancara o fato de que a nossa diplomacia pública perdeu densidade técnica e canais de interlocução de alto nível com o coração do poder decisório americano.

Para agravar o cenário, a diplomacia corporativa nacional agora precisa lidar com um fenômeno complexo de contaminação de agendas, a chamada linkage diplomacy. A classificação de facções criminosas domésticas, como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, como organizações terroristas internacionais sob a ótica de Washington, demonstra que a governança econômica foi irremediavelmente fundida à agenda de segurança nacional dos Estados Unidos. O comércio deixou de ser uma via de negociação estritamente tarifária para se transformar em moeda de troca geopolítica. Um tabuleiro onde Brasília tem dificuldade de se mover.

Diante desse cenário de terra arrastada no plano das relações entre governos, o Brasil precisa redesenhar imediatamente sua estratégia de defesa comercial, devolvendo o protagonismo à diplomacia corporativa privada e ao diálogo entre setores produtivos. Quando o canal entre governos falha por saturação ideológica ou desalinhamento de visões de mundo, cabe ao ecossistema empresarial assumir a liderança das narrativas. O empresariado brasileiro, em coordenação com as associações setoriais de exportação, precisa descer à arena de Washington não para fazer discursos soberanistas abstratos, mas para demonstrar, com dados econômicos rigorosos, como o encarecimento de 25% nos produtos brasileiros afetará a competitividade dos próprios distribuidores, indústrias e consumidores americanos que dependem das nossas manufaturas e insumos industriais intermediários.

A lição que a Seção 301 nos impõe em 2026 é clara e urgente: a inserção internacional do Brasil não pode ficar à mercê de voluntarismos políticos ou de uma leitura anacrônica das forças que movem as grandes potências. O protecionismo contemporâneo não se combate apenas com chancelarias e notas de repúdio, mas com inteligência comercial, previsibilidade jurídica e uma presença ativa e sofisticada dentro dos centros onde as regras do jogo global são escritas. Se o país não compreender que a eficiência interna e a estabilidade regulatória são as nossas melhores defesas comerciais no exterior, continuaremos assistindo, passivos, à erosão dos mercados que levamos décadas para conquistar.

Jornada de trabalho, produtividade e emprego: reflexões sobre a PEC da escala 6×1

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da proposta que altera o modelo da escala 6×1 reacendeu um debate legítimo e necessário: como garantir mais qualidade de vida ao trabalhador sem comprometer empregos, a atividade econômica e o custo de vida.

A intenção é compreensível e socialmente relevante. Mais descanso, maior convivência familiar e melhores condições de trabalho são objetivos desejáveis. A questão é saber se isso pode ser implementado apenas por determinação legal, sem considerar os impactos econômicos e as diferenças entre os setores produtivos.

A economia não responde apenas à vontade política. Ela funciona com base em produtividade, custos, previsibilidade e capacidade de adaptação.

Quando uma norma reduz o tempo de trabalho e mantém integralmente os salários, transfere ao setor produtivo um custo que precisa ser absorvido. E isso tende a gerar efeitos concretos.

Estudos internacionais mostram que a redução da jornada pode funcionar — mas normalmente em ambientes preparados para isso.

No Reino Unido, um projeto-piloto acompanhado por pesquisadores da Universidade de Cambridge e do Boston College envolveu 61 empresas e quase 3 mil trabalhadores. O resultado foi positivo: a produtividade foi mantida, houve melhora no bem-estar e a maioria das empresas decidiu continuar com o modelo. Mas existe um detalhe essencial: a mudança foi voluntária, acompanhada por planejamento interno e reorganização das rotinas de cada empresa. Não foi uma imposição uniforme do Estado.

Na Alemanha, experiências semelhantes também mostraram manutenção da produtividade, porém com adaptação operacional e escalas flexíveis entre empresas participantes.

Por outro lado, quando se analisa o impacto macroeconômico de uma redução obrigatória sem ganho prévio de produtividade, o cenário exige cautela.

Uma nota técnica publicada neste ano estimou que, para sustentar uma redução relevante da jornada sem perda de produção, seria necessário elevar a produtividade em cerca de 8,5%. Isso mostra que o debate não é apenas jurídico ou político: ele envolve capacidade real da economia de absorver essa transição.

E essa preocupação pesa ainda mais em setores intensivos em mão de obra, como comércio, supermercados, restaurantes, hotelaria e serviços.

A realidade de uma padaria de bairro não é a mesma de uma grande rede.

A estrutura de um restaurante familiar não se compara à de uma multinacional.

Quando se impõe uma regra única para realidades tão diferentes, cresce o risco de efeitos colaterais: aumento de custos, menor ritmo de contratação, repasse ao consumidor e incentivo à informalidade.

Isso não significa negar a importância do descanso nem se opor à valorização do trabalhador.

Significa reconhecer que mudanças estruturais exigem responsabilidade.

O desafio é encontrar um equilíbrio entre proteção ao trabalhador e sustentabilidade econômica.

Esse equilíbrio passa por diálogo, segurança jurídica, previsibilidade e, principalmente, flexibilidade para que cada setor possa se adaptar conforme sua realidade.

A pergunta não é se o trabalhador merece melhores condições.

Ele merece.

A pergunta é qual modelo consegue entregar isso sem prejudicar emprego, renda e a própria economia real.

Como a proposta ainda será analisada pelo Senado, esse é o momento de aprofundar o debate.

Porque boas intenções são fundamentais.

Mas, sem uma transição responsável, elas podem produzir efeitos muito diferentes daqueles que foram prometidos.

Lula aproveita crise de Flávio para aumentar a censura por decreto

Em seu terceiro mandato, Lula consegue realizar o sonho de controle do discurso público sempre tentado pelo PT. Desde o início do primeiro mandato do presidente, em 2003, havia uma obsessão pelo tal “controle social da imprensa”. Chegadas as redes sociais, isso foi estendido para esse ambiente também.

A grande mudança ocorrida agora é de método. Os petistas primeiro tentaram via Legislativo depois via Judiciário e agora descobriu um jeito de não precisar mais de nenhum dos dois e fazer tudo à base de uma canetada unilateral sem questionamento.

Muitos não perceberam essa mudança, inclusive na direita. A esquerda tem uma capacidade impressionante de manipular o debate e fazer até seus adversários agirem como deseja. Chega a ser desesperador ver pessoas bem intencionadas e contra a censura agirem e falarem exatamente da forma que fortalece essas iniciativas do PT.

Acompanhar passo a passo a mudança de estratégia neste século XXI é fundamental para saber de que falamos agora. É um patamar completamente diferente e que, infelizmente, não tem tido o enfrentamento necessário.

Nos dois primeiros governos Lula e nos governos de Dilma, a ideia era passar uma lei de controle social da imprensa. Houve diversas tentativas. As primeiras eram elaboradas por parlamentares alinhados ao governo. Houve também leis elaboradas pelo Executivo que precisariam ser aprovadas pelo Congresso Nacional.

Nada disso deu certo, houve forte resistência da sociedade e dos parlamentares a favor da liberdade de imprensa. Verdade seja dita, até a própria Dilma Rousseff foi contra uma das iniciativas e não levou adiante a ideia do PT.

Naquela época, o clima no Legislativo era menos beligerante e o Judiciário agia completamente diferente. A posição do STF costumava ser a favor da liberdade de imprensa e liberdade de expressão.

O Congresso chegou a aprovar uma lei eleitoral que proibia sátira com políticos durante o período eleitoral. Um voto do ministro Ayres Britto em 2010 derrubou a vedação e isso foi confirmado pelo plenário do STF em 2018.

O clima mudou com o Inquérito das Fake News em 2019. Houve um erro de cálculo na direita. Na época, o presidente Jair Bolsonaro pediu à Advocacia Geral da União que fizesse um parecer favorável à ideia de censurar a Revista Crusoé, argumentando que a AGU não deveria apenas defender o Executivo, mas também o Legislativo e o Judiciário.

A questão começa com a capa intitulada “O amigo do amigo do meu pai”, sobre o ministro Dias Toffoli. Como a revista também era crítica ao governo, a decisão foi tomada com visão de curto prazo. Depois, o inquérito viria a se tornar o que se tornou com a direita toda contrária a ele, incluindo uma forte oposição do presidente Jair Bolsonaro.

Outro erro de cálculo foi a estratégia de enfrentamento dos excessos. Muita energia foi gasta em tentar responsabilizar os “isentões” pelo inquérito, algo que só teve sucesso entre quem não tem espírito crítico. Os responsáveis foram as autoridades que fizeram e concordaram, não os civis críticos do governo Bolsonaro. A energia poderia ter sido utilizada para criar meios de combater essa nova forma de censura. Desperdício total.

O PT surfou essa onda até onde deu. Já não precisava mais convencer o Congresso a legislar por censura e depois o Judiciário a concordar com isso. Uma etapa foi pulada, agora a questão era só convencer o Judiciário.

Mas ainda não era suficiente. Lula deu um passo além logo em seu primeiro dia de governo, criando na Advocacia Geral da União uma procuradoria que consegue remover conteúdos por meio de notificação extrajudicial contra as plataformas de conteúdo.

Verdade ou não as alegações, caso não removam as postagens a pedido da AGU as plataformas podem ser responsabilizadas. Isso foi reforçado quando o STF julgou o artigo 19 do Marco Civil da Internet. O resultado é que, até decisão do Congresso específica sobre o tema, a AGU teria esses poderes.

Não sabemos quantas pessoas foram censuradas dessa forma, quantos posts foram derrubados, quais alegações foram feitas e como agem as plataformas. Sabemos apenas que o governo utilizou o instrumento e a reação mais uma vez foi uma aula de burrice.

Eu fui censurada pela AGU recentemente com base em uma fake news criada por Erika Hilton sobre mim. É uma história longa, que envolve também outros 9 cidadãos que fizeram postagens no X contra o PL da Misoginia.

A reação da direita mostrou ao governo Lula que era possível ir além. Falo do meu caso porque é o que eu conheço mais a fundo. A maior parte da direita e da imprensa me defendeu e atacou Erika Hilton, a AGU e Lula. Mas houve também um grande movimento organizado para me atacar com difamações, distorções e reacts.

Eduardo Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Paulo Figueiredo e outros influencers que orbitam nesse espectro ajudaram Erika Hilton, Lula e a AGU. Começaram a me atacar com teses que iam desde apoiar o Inquérito das Fake News até ser satanista. Em vez de aproveitar a oportunidade para mostrar a censura, usaram a energia para tentar esmagar com mentiras quem criticou o grupo.

O governo Lula é esperto, viu aí um padrão. A militância desse grupo fica mais voltada a defender os próprios erros e atacar críticos na direita. Não mobiliza tanto para combater a censura. Até porque, quando pode, tenta usar os mesmos mecanismos que o PT. Sem sucesso porque o Judiciário não se alia como faz com a esquerda, mas tenta.

A crise de Flávio Bolsonaro foi um prato cheio para avançar na pauta. O filho do ex-presidente traiu a direita. Ele sabia que pediu dinheiro para Daniel Vorcaro e o visitou em prisão domiciliar. Sabia que os celulares dele estavam com a Polícia Federal. Mesmo assim, decidiu lançar sua candidatura à Presidência sem avisar ninguém dos riscos.

Quando vaza o áudio pedindo 134 milhões a Daniel Vorcaro, os apoiadores são mobilizados a atacar quem pede explicações. Flávio mente, é pego na mentira de novo. A cada mentira aparece uma nova gravação e uma nova versão é criada. As coisas saem do controle. As forças dos apoiadores são todas mobilizadas a justificar o injustificável e atacar fortemente quem pede explicações, ainda que sejam os bolsonaristas mais fiéis ao longo dos últimos anos.

Lula viu a oportunidade de passar a boiada e passou. No último dia 20 de maio, o presidente assinou 4 projetos de lei e 2 decretos determinando que vários tipos de conteúdos precisam ser removidos sem decisão judicial, apenas por notificação extrajudicial. Em alguns casos, o prazo de remoção é de duas horas. Isso mesmo: duas horas.

O material deve ser preservado para eventual investigação. Na prática, isso pode alterar completamente o rumo da comunicação pública principalmente durante as eleições. Todo o poder está nas mãos agora da Autoridade Nacional de Proteção de Dados, órgão ligado ao Ministério da Justiça, e das Big Techs.

Notificações serão feitas e as plataformas é que decidem se removem o conteúdo imediatamente ou não. Podem ter consequências judiciais caso não removam, mas não terão consequências caso removam.

Se a notificação for baseada em mentiras, como foi no meu caso, pode haver punição caso não removam. Não sofrem punição, no entanto, se ignorarem que é mentira e fizerem a remoção. No meu caso, o X optou por não remover. Não sabemos como foi em outros casos nem como agem as outras plataformas.

Suponha que existam duas notificações contra adversários políticos. A plataforma decide remover uma e deixar a outra. As justificativas para pedir remoção e para efetuar são completamente subjetivas. As consequências são objetivas. Um candidato terá vantagem sobre o outro.

É tentador dizer que ninguém está falando sobre isso, mas também é mentira. Muitas pessoas estão falando e estão tentando mobilizar o público a se colocar contra a ideia de que o governo e as Big Techs tenham poder de censura. Precisamos reconhecer, no entanto, que não é o assunto mais quente nas redes nem o posicionamento mais apaixonado.

Os emocionados estão agora dizendo que isso é pouco, que fulano defendeu isso, sicrano defendeu aquilo, tal pessoa fez um post tal em 2008, então todos merecem o que acontece. Eu não creio que o Brasil mereça nada disso.

Na minha opinião, não importa o que você fez até hoje. Importa que abra seus olhos para o que é urgente. O governo do PT finalmente conseguiu realizar seus sonhos de censura. Por meio de decretos, sem sequer passar pelo Legislativo ou Judiciário, conseguiu estabelecer um mecanismo de interdição do debate público.

Temos a obrigação de nos unir contra isso. Não importa quem é seu candidato ou se você não tem nenhum candidato, se você tem uma convicção política forte ou se seu interesse é superficial, votar no menos pior. O arbítrio é muito mais forte sobre o conjunto dos cidadãos do que sobre quem detém poder político e conexões.

As redes sociais, como tudo que é humano, têm seu lado bom e ruim. O melhor lado, para mim, é que os políticos deixam de ter controle sobre o debate público. A internet é livre, nasceu para ser livre e deve permanecer assim.

Historicamente, ao longo dos séculos, não só no Brasil mas no mundo, os poderosos tendem a querer impedir que os cidadãos se organizem e tenham voz independente. São muito eficientes em nos dividir para manter seu domínio intacto. Não podemos permitir isso.

É urgente uma união de cidadãos, independente de ideologia e políticos. Não é admissível que o governo da vez e as Big Techs determinem com base em critérios subjetivos o que pode ou não fazer parte do debate público. É cínico que tal iniciativa autoritária seja justificada como defesa da democracia.

Tomara que eu tenha feito você pensar. Há muita gente com voz e espaço no debate público se colocando frontalmente contra esse novo avanço de censura do governo Lula. Procure essas pessoas, se informe, dê apoio a quem possa fazer algo. É um momento crucial para garantir nosso espaço ou nos deixar dividir para que sejamos eternamente tutelados.

Asfixia do Crime

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as maiores facções brasileiras — o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — como organizações terroristas internacionais representa um divisor de águas geopolítico. Longe de ser um formalismo burocrático, essa medida constitui oportunidade histórica e soberana para o Brasil golpear o coração do crime organizado, algo que as forças de segurança pública domésticas não conseguem consolidar sozinhas no plano global.

O grande mérito prático dessa dupla classificação é deslocar o combate à criminalidade da tradicional e inócua guerra de atrito nas favelas, periferias e fronteiras para uma guerra financeira de alta intensidade contra o topo da pirâmide criminosa. O crime organizado brasileiro há muito tempo deixou de ser questão paroquial de segurança pública para se transformar em um problema corporativo transnacional. 

Diagnóstico do Ministério Público brasileiro ilustra a gravidade do cenário atual: uma única ação da Operação Carbono Oculto revelou que apenas seis fintechs, operando como bancos paralelos e ocultos para o PCC, movimentaram a impressionante cifra de R$ 26 bilhões. Esse volume astronômico de recursos não permanece estático e passa a inundar o sistema financeiro e o comércio nacional ao custear esquemas de corrupção, fraudar licitações, controlar prefeituras, financiar campanhas eleitorais e destruir a livre iniciativa através de uma concorrência desleal imbatível baseada no fluxo infinito do narcotráfico.

A legitimidade dessa classificação norte-americana encontra eco na própria realidade factual do Brasil. Embora PCC e CV tenham nascido como quadrilhas de narcotráfico, a evolução de suas estratégias operacionais incorporou o terrorismo instrumental como método de coerção e demonstração de poder. O crime organizado brasileiro não hesita em utilizar o terror psicológico coletivo, destruição de infraestruturas públicas e pânico em massa para subjugar o Estado e a sociedade civil, encaixando-se perfeitamente no conceito sociológico e jurídico de atos terroristas.

Ao contrário das narrativas que enxergam nessa medida uma violação da soberania ou pretexto para intervenções estrangeiras, a ação americana ajuda, fundamentalmente, a devolver à sociedade o direito de ocupar seu próprio território e suas instituições. Quem verdadeiramente viola a soberania nacional hoje são as facções, que impõem um poder paralelo armado. O Brasil não perde sua autonomia territorial ou jurídica, uma vez que o monopólio da força operacional e as decisões judiciais dentro de nossas fronteiras permanecem estritamente sob o controle das autoridades brasileiras. Argumentos que insistem na tese de “intromissão” distorcem os fatos para fins puramente políticos, ignorando que a soberania real se protege asfixiando os criminosos que subjugam o país, e não isolando o Brasil dos mecanismos globais de justiça financeira.

A cooperação internacional e o uso desses novos instrumentos de asfixia econômica são o único caminho viável para estancar o banho de sangue nas metrópoles brasileiras. Retirar o oxigênio financeiro do PCC e do CV significa esvaziar a capacidade de compra de fuzis, blindados, drones e tecnologia de criptografia que hoje desafiam abertamente as estruturas do Estado. O grande trunfo das facções não é a droga em si, é a capacidade de lavar o dinheiro. Bloqueado o circuito global, o império criminoso começa a ser desmontado por dentro.

O Estreito de Taiwan: a escolha entre armar e negociar

O recente cercamento de Taiwan por um número estimado de 100 navios chineses é o episódio mais recente de pressão militar de Pequim sobre Taipei. O episódio acontece dias após o governo chinês afirmar durante a visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que trabalha para aumentar a estabilidade e segurança global. 

Pelo Estreito de Taiwan circula cerca de 20% do comércio mundial, segundo dados do CSIS (Center For Strategic and International Studies), o que dá uma dimensão clara dos riscos para a economia global envolvidos em aventuras militares na região. 

Como resposta à escalada de tensões, vemos um movimento de Japão, Filipinas e Taiwan para aumentar seus gastos em defesa e a adoção de novas doutrinas de emprego de força militar. 

Essa movimentação reforça o valor estratégico da doutrina da Cadeia de Ilhas, que articula as nações insulares do Indo-Pacífico às bases navais e capacidades militares dos Estados Unidos com o objetivo de conter e contrabalançar o poderio chinês, uma vez que esses estados podem impedir ou dificultar muito a navegação na região.

Entre os movimentos podemos destacar a visita do presidente filipino Ferdinand Marcos Jr. ao Japão, entre 26 e 29 de maio, que objetiva estreitar ainda mais as relações entre os dois países, que recentemente assinaram acordos que facilitam exercícios militares conjuntos e a troca de materiais bélicos e recursos logísticos. 

Entre os armamentos e equipamentos que as Filipinas buscam comprar do Japão estão mísseis e sistemas de radar e defesa aérea, o que aponta para uma nova abordagem de emprego de força por Manila, substituindo a tradicional ênfase em forças terrestres e operações de contra-insurgência por capacidades voltadas à defesa aérea e guerra naval. 

Nesse contexto de tensões elevadas, o Japão anunciou, em 2025, seu programa escudo (da sigla Shield – Synchronized, Hybrid, Integrated and Enhanced Littoral Defense, em inglês) de defesa nacional que prevê aumento de gastos militares na ordem de 60 bilhões de dólares para construir capacidade militar em veículos não tripulados (barcos, aeronaves e submersíveis). 

Essa modernização material e doutrinária, em conjunto com uma estratégia externa mais assertiva, indica uma mudança importante do padrão histórico japonês pós-Segunda Guerra. 

Taiwan, por sua vez, também declarou a intenção de investir em drones, além disso, ampliou seu orçamento de defesa, que agora corresponde a 3,3% de seu PIB e inclui provisão para compra de materiais bélicos dos Estados Unidos, embora essa compra possa não acontecer a depender de negociações entre Washington e Pequim. 

Os estados da região demonstram comprometimento com a defesa de seus territórios, mesmo diante do crescente poderio chinês. Contudo, a paz não depende somente de dissuasão militar, é preciso engajamento político e diálogo. 

Há muito em jogo e é preciso sempre ter em mente que uma aventura militar nessa região é uma receita para ruína econômica e desastre humanitário. Desse modo, é preciso muita temperança dos atores locais e globais envolvidos. E, sobretudo, é preciso que a China prove seu compromisso com a estabilidade global e não aja para desestabilizar o delicado equilíbrio do status quo no Estreito de Taiwan. 

Decretos de Lula, censura e a propaganda autorizada

Liberdade de opinião e expressão é eixo da democracia; quase sinônimo. Historicamente, sempre que democracias foram derrubadas por golpes de violência, a primeira providência das ditaduras adventícias – de esquerda ou de direita – foi o controle da opinião: submetidos os dissidentes ao código de penas de prisão e morte, o conjunto da sociedade se vê constrangido a opinar e se expressar nos moldes orientados pelo grupo no poder.

Todavia, nas últimas décadas do séc. XX e primeiras décadas deste séc XXI, de modo geral, a destruição de democracias abandonou o método da violência brutal e direta, substituindo-o pelo método “soft” de violências institucionais sub-reptícias.

Há formas de autoritarismo que não chegam vestidas de farda. Não suspendem eleições, não fecham jornais, não rasgam a Constituição diante das câmeras. Ao contrário: apresentam-se em linguagem técnica, burocrática, jurídica, supostamente civilizatória. Falam em “proteção”, “segurança”, “combate à desinformação”, “responsabilidade digital”, etc.

Nos países em que democracias mais ou menos tradicionais e sólidas vão sendo destruídas, as arbitrariedades institucionais são bastante variáveis nas suas específicas formas. Nessa variedade destaca-se a criatividade do que podemos chamar de “jeitinho brasileiro”; a começar pela última novidade, que vem a ser a assinatura dos decretos presidenciais de 20 de maio de 2026, que fazem parte de um pacote de medidas voltadas para a segurança digital e atualização do Marco Civil da Internet.

Quando aprovado em 2014, o artigo 19 estabelecia que plataformas somente poderiam ser responsabilizadas por conteúdos de terceiros após descumprimento de ordem judicial específica. Havia ali uma tentativa de impedir censura privada e garantir que a decisão sobre ilegalidade fosse tomada por um juiz, dentro do devido processo legal.

Sob pressão do STF, porém, e de sucessivas interpretações expansivas acerca da responsabilidade das plataformas, instituiu-se um sistema no qual as empresas são instadas a agir preventivamente para evitar punições milionárias. 

O texto do recente decreto presidencial estabelece um dever de cuidado e imputa responsabilidade civil e administrativa direta às big techs (como X, Meta e Google) se houver falha na remoção imediata de publicações que configurem crimes. As plataformas não devem esperar por uma ordem judicial, mas precisam monitorar riscos e derrubar conteúdos assim que receberem uma denúncia.

Nenhuma democracia séria ignora crimes, ameaças, terrorismo ou exploração infantil na internet. O problema começa quando conceitos deliberadamente vagos passam a justificar mecanismos permanentes de vigilância e supressão do discurso público. É isso que está acontecendo no Brasil. Entre os atos indicados como ilícitos na regulação do governo federal está, por exemplo, a desinformação; já golpe de Estado e ataques à democracia são indicados como crimes. 

Mas quem define o que é “desinformação” ou “ataque à democracia”? Já ouvimos altas autoridades afirmarem que solicitar a investigação de ministros do STF após a divulgação de inúmeros indícios de envolvimento de três deles com o maior escândalo financeiro dos últimos tempos é um “ataque à democracia”. Defender impeachment de ministro também já foi considerado ataque à democracia. 

Postar foto de Lula e Janja com Deolane Bezerra, presa por envolvimento com o PCC é considerado desinformação? Defender anistia dos presos pelo 8 de janeiro de 2023 configura ataque à democracia?

Não se sabe ao certo o que será considerado uma “desinformação” ou um “ataque à democracia”, mas já se sabe qual órgão supervisionará o processo de comunicação da Internet no Brasil com vistas às futuras punições das plataformas; será a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), uma agência reguladora vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Em vez de um modelo centrado no Judiciário, cria-se com isso uma estrutura administrativa de controle sobre circulação de conteúdo, o que altera bastante a lógica original do Marco Civil. O decreto presidencial transfere a um órgão vinculado ao Poder Executivo competências de fiscalização, regulamentação e punição relacionadas ao discurso na Internet. 

Não há dúvida que as big techs, ainda que tão somente por temor das multas, haverão de praticar a censura em larga escala, excluindo a opinião de milhões de cidadãos brasileiros. Com efeito, o governo Lula, acumpliciado com o STF, acaba de estabelecer nas redes sociais uma forma bastante eficaz de censura prévia. 

Outro elemento bastante preocupante em relação ao referido decreto é a transferência crescente de poder do Legislativo para arranjos entre Executivo e Judiciário. O governo utilizou um decreto presidencial (um ato unilateral do Executivo) para legislar sobre regras que estavam sendo debatidas no Congresso Nacional. Ao contornar o Poder Legislativo, o presidente Lula valeu-se, em ano eleitoral, de uma manobra autoritária para controlar o fluxo de informações na internet. 

Mudanças substanciais que envolvam risco à liberdade de expressão e limitação do debate público devem ser discutidas amplamente pela sociedade e deliberadas pelo Congresso Nacional, não consolidadas por decisões judiciais expansivas e posteriormente regulamentadas por decreto presidencial.

Não se trata aqui de defender abusos digitais ou anarquia virtual. Calúnia, ameaça, perseguição, terrorismo, exploração infantil e incitação direta à violência já possuem previsão legal. O ordenamento jurídico brasileiro dispõe de instrumentos suficientes para responsabilização de ilícitos concretos. 

O que estamos discutimos nesse artigo não é isso, mas a criação de um ambiente político e institucional no qual conceitos subjetivos, patrulha, fiscalização administrativa e medo passam a cercear o debate público.

Um país em que, valendo-se da interpretação subjetiva de conceitos vagos e polissêmicos, burocratas da administração pública passam a determinar os contornos do discurso aceitável é um país que lentamente substitui a liberdade individual pela tutela estatal.

Infelizmente parte da sociedade parece aceitar esse processo desde que a censura atinja “o outro lado”. A geração que saiu às ruas pedindo democracia após a ditadura parecia compreender que liberdade de expressão era cláusula vital. Hoje, muitos defendem mecanismos de cancelamento desde que direcionados aos adversários políticos. 

Nenhum censor se apresenta como censor. Ele sempre surge como guardião do bem comum. O controle do discurso nunca começa dizendo “queremos controlar o discurso”. É mais fácil começar dizendo: “precisamos combater os inimigos da democracia”. Em nome da proteção das instituições, destrói-se precisamente o fundamento que legitima instituições livres: a possibilidade de crítica.

A liberdade de expressão não existe para proteger opiniões unânimes. Ela existe justamente para proteger o dissenso, a crítica inconveniente e até discursos considerados excessivos. Sem isso, resta apenas propaganda autorizada.