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Não adianta mostrar o vídeo: eles dirão que não prova nada

Um estudo recente chega a uma conclusão desconfortável para a era da superexposição visual: provar com vídeo não funciona. Ao contrário do que se imagina, imagens não encerram disputas nem produzem consenso. Elas tendem a reforçar crenças prévias e a tornar posições ainda mais rígidas. Diante do mesmo registro visual, grupos diferentes não apenas discordam. Eles passam a se sentir mais certos do que já pensavam antes de assistir. A evidência visual não corrige o viés. Em muitos casos, o aprofunda.

Essa conclusão é apresentada em um trabalho publicado pela newsletter acadêmica The Power of Us, assinado por Anni Sternisko, pesquisadora em psicologia social, Dominic Packer, professor de psicologia na Universidade de Lehigh, e Jay Van Bavel, professor da Universidade de Nova York e um dos principais especialistas mundiais em identidade social e polarização. O estudo reúne evidências experimentais e análises de casos reais para mostrar como identidade, pertencimento e lealdade a grupos moldam não apenas a interpretação, mas o próprio ato de ver.

Um dos exemplos centrais analisados é um caso concreto ocorrido nos Estados Unidos, que se transformou em uma grande polêmica nacional. Em Minneapolis, uma jovem mulher foi morta durante uma abordagem do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. O ICE é uma agência federal responsável por fiscalizar imigração e executar deportações, e sua atuação já é, por si só, objeto de forte controvérsia política no país.

A mulher estava sozinha em seu carro, em uma área urbana, quando agentes do ICE tentaram abordá-la. Ao perceber a ação, ela tentou fugir com o veículo. O episódio foi registrado por múltiplas câmeras, incluindo imagens de celulares, de sistemas de vigilância e dos próprios agentes. Houve vídeos de vários ângulos, com áudio, sequência temporal e boa qualidade de imagem. Tudo aquilo que costuma ser exigido quando alguém diz que é preciso “ver o vídeo” antes de formar opinião. O presidente Donald Trump decidiu divulgar oficialmente o vídeo da abordagem policial para encerrar a discussão sobre o tema. O efeito foi exatamente o oposto do esperado.

Autoridades federais afirmaram que a agente agiu em legítima defesa, sustentando que o carro teria sido usado como arma. Outras autoridades, juristas, ativistas e lideranças políticas afirmaram que as imagens não sustentavam essa versão. Celebridades, comentaristas e figuras públicas se posicionaram de forma veemente. Protestos se espalharam. Cada novo vídeo divulgado não reduzia a controvérsia. A intensificava.

Quanto mais imagens surgiam, mais as pessoas se aferravam às convicções que já tinham antes de assistir a qualquer uma delas. Quem desconfiava da atuação do ICE via confirmação de abuso em cada frame. Quem defendia a agência via prova de ameaça em exatamente as mesmas cenas. O vídeo deixou de ser evidência e passou a ser munição. Servia para confirmar identidades, não para esclarecer fatos.

É exatamente esse mecanismo que o estudo descreve. A percepção visual não é neutra. Ela é orientada por expectativas, valores e pertencimento a grupos. Pessoas não assistem a vídeos para descobrir o que aconteceu. Assistem para confirmar quem são e de que lado estão. O cérebro seleciona detalhes, ignora outros e constrói causalidade de acordo com narrativas prévias. A prova visual não dissolve o conflito. Ela se encaixa nele.

Isso ajuda a explicar um paradoxo central do nosso tempo. Nunca houve tantas câmeras, tantos registros, tantos vídeos disponíveis. E nunca foi tão difícil construir uma narrativa comum sobre os fatos. A crença de que “agora está tudo filmado” convive com a incapacidade prática de concordar sobre o que se vê. O vídeo não funciona mais como árbitro da realidade. Funciona como extensão da disputa identitária.

Esse fenômeno não se limita a casos extremos ou a grandes conflitos raciais e institucionais nos Estados Unidos. Ele aparece no cotidiano, em discussões familiares, em brigas de trânsito, em denúncias de abuso, em disputas políticas locais. Alguém mostra um vídeo acreditando que aquilo encerrará a conversa. A resposta quase sempre vem rápida: isso não prova nada, falta contexto, o recorte é enviesado. Não necessariamente por má-fé, mas porque as pessoas realmente não estão vendo a mesma coisa.

O estudo aponta para um limite estrutural da vida contemporânea. Não basta registrar a realidade. É preciso reconhecer que olhamos para ela carregando identidades, medos e compromissos prévios. Enquanto insistirmos na fantasia de que a imagem fala por si, continuaremos frustrados. O conflito não está na falta de provas. Está na dificuldade de admitir que ver não é o mesmo que compreender.

O Abismo Persa: Como a Implosão do Irã Está Remodelando a Ordem Global de Tóquio a Brasília 

Em meados de janeiro de 2026, a República Islâmica do Irã enfrenta sua crise existencial mais grave desde a revolução de 1979. Desencadeados pelo colapso da moeda e pela repentina remoção dos subsídios à energia, protestos em todo o país se transformaram em uma revolta revolucionária que o regime luta para conter, apesar de um “toque de recolher de fato” e de uma repressão brutal que, segundo relatos, deixou mais de 2.000 mortos. Essa combustão interna colide com a pressão externa: um governo Trump fortalecido por sua recente intervenção na Venezuela e que ameaça impor tarifas ou ações militares. O potencial colapso ou transformação radical do Irã não é apenas uma história do Oriente Médio; é um terremoto geopolítico que ameaça cortar o suprimento energético da China, desestabilizar a aliança BRICS e forçar nações do Japão ao Brasil a escolher um lado em uma nova era de diplomacia de “mudança de regime”.

O Colapso Interno: A Economia Encontra a Revolução

O catalisador para a atual revolta foi econômico, mas o combustível é político.

A espiral descendente do “Toman”: A moeda iraniana perdeu mais de 60% do seu valor em semanas, dizimando a classe média. Com a inflação desenfreada e o governo triplicando as taxas de impostos para cobrir o déficit orçamentário, o contrato social se rompeu.

O “Toque de Recolher de Fato”: Relatos vindos de Teerã descrevem uma capital sitiada por suas próprias forças de segurança. A internet foi cortada para romper o “cordão umbilical digital” com a diáspora, mas isso apenas impulsionou a resistência para formas mais cinéticas. Diferentemente de 2009 ou 2019, os slogans mudaram de reformas para apelos explícitos pelo fim da República Islâmica.

A Doutrina Trump 2.0: “A ajuda está a caminho”

Logo após a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, o governo dos EUA sinalizou que o Irã é o próximo alvo da “pressão máxima”.

A arma tarifária: A Casa Branca ameaçou impor uma tarifa de 25% a qualquer nação que faça negócios com Teerã. Este é um ataque direto à China e à Índia, as principais linhas de suprimento econômico do Irã.

Ambiguidade Militar: Embora o presidente Trump tenha prometido que “a ajuda está a caminho”, permanece incerto se isso significa intervenção direta (como na Venezuela) ou intensificação da guerra cibernética e por procuração. No entanto, o precedente estabelecido em Caracas aterrorizou a liderança iraniana, que teme que um “ataque de decapitação” não seja mais apenas retórica.

China e os BRICS: O Cenário de Pesadelo

Para Pequim, o caos no Irã é uma catástrofe estratégica que se desenrola em câmera lenta.

Segurança Energética: A China importa quase 1,5 milhão de barris de petróleo por dia do Irã, principalmente através da “frota paralela”. Um colapso do regime ou um bloqueio dos EUA cortaria essa artéria, agravando o choque da perda do fornecimento venezuelano.

A Fratura dos BRICS: A turbulência no Irã expõe os limites da garantia de segurança dos BRICS. Assim como no caso da Venezuela, o bloco parece impotente para proteger um Estado-membro da desintegração interna ou da pressão dos EUA. Essa “lacuna de soberania” pode levar os membros a buscarem seus próprios mecanismos de dissuasão nuclear, temendo serem os próximos.

Consequências Regionais: Japão e América Latina

As ondas de choque estão sendo sentidas em capitais muito distantes de Teerã.

Pânico Energético no Japão: Tóquio depende fortemente do petróleo do Oriente Médio. Qualquer interrupção no Estreito de Ormuz — uma provável retaliação iraniana — faria os preços da energia dispararem, ameaçando a frágil recuperação econômica do Japão. O primeiro-ministro Takaichi pode ser forçado a abandonar a tradicional neutralidade do Japão no Oriente Médio para garantir a proteção naval dos EUA para seus petroleiros.

Alerta para a América Latina: Para os líderes do Brasil e da Colômbia, a postura dos EUA em relação ao Irã reforça a mensagem enviada à Venezuela: o alinhamento com rivais dos EUA acarreta risco existencial. Podemos presenciar um esfriamento das relações entre as capitais latino-americanas e Teerã, à medida que os governos buscam evitar sanções secundárias dos EUA.

Conclusão: Um Mundo à Beira do Abismo

A situação no Irã ultrapassou a fase de repressão interna; agora é o fulcro da instabilidade global. Se o regime cair, abrirá um vácuo que poderá ser preenchido por uma guerra civil ou por um governo pró-Ocidente — qualquer um dos quais alteraria drasticamente o equilíbrio de poder. Se sobreviver pela força bruta, provavelmente acelerará seu programa nuclear, desencadeando uma guerra regional. Para o resto do mundo, a ilusão de contenção acabou; a crise iraniana agora é uma crise global.

AKA GATE: https://sites.google.com/view/aka-gate/home?authuser=0

Colapso Teocrático

Em janeiro de 2026, o Irã vive um momento de ruptura definitiva. As ruas de Teerã e das principais províncias não clamam mais por reformas graduais, mas pelo fim de um sistema que se tornou anacrônico. O regime, que por décadas utilizou o fervor religioso e o nacionalismo para se sustentar, enfrenta hoje uma combinação letal: o colapso econômico interno e a sucessão de derrotas no cenário externo. O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo.

Compreender a crise contemporânea exige revisitar o colapso de Mohammad Reza Pahlavi. Ao tentar converter o país em uma potência ocidentalizada, o Xá negligenciou as bases tradicionais e o clero xiita, enquanto a repressão da Savak, sua polícia política, alienava a elite intelectual. Esse cenário culminou na Revolução de 1979 — uma coalizão heterogênea onde emergiu a liderança de Ruhollah Khomeini, que ascendeu após a queda da monarquia. O vácuo de poder foi preenchido pela Velayat-e Faqih, doutrina que submeteu a nação à tutela política e espiritual de um clérigo supremo, consolidando a teocracia moderna.

Quase meio século depois, o contrato social da República Islâmica ruiu. O sistema que prometia justiça social entregou uma economia de espoliação, controlada por fundações opacas e pelo braço empresarial da Guarda Revolucionária, que opera em moldes mais cruéis que a antiga Savak. A crise atual é o ápice de uma década de má gestão e expansionismo baseado no terror, agravada pelas sanções e pelo impacto da “Guerra dos 12 Dias” em 2025, que degradou a infraestrutura nuclear e militar do país.

Diferente de 2022, as manifestações atuais têm caráter existencial. O coração do levante bate no Bazar, o termômetro da estabilidade política persa. Quando mercadores fecham as portas e se unem aos jovens e às minorias étnicas, o regime perde sua última âncora de legitimidade. Ao mesmo tempo, a repressão mostra sinais de fadiga, com relatos de deserções e a incapacidade de conter focos simultâneos em todas as 31 províncias.

A análise de risco político nos obriga a desenhar caminhos para este desenlace. O Irã de amanhã não será o mesmo de ontem, e sua transição é um debate com reflexos globais. Um cenário provável é a solução pretoriana: diante da queda iminente, a Guarda Revolucionária poderia desferir um golpe interno, afastando os aiatolás em troca de uma abertura econômica nacionalista e pragmática, aos moldes do Egito. Outro caminho é a restauração de uma democracia parlamentarista laica, com Reza Pahlavi como símbolo de unidade transicional, assemelhando-se ao modelo espanhol pós-Franco. Contudo, não se deve subestimar a resiliência ideológica de uma teocracia acuada e o recrudescimento do regime ainda é uma opção, o que poderia transformar o país em uma “Coreia do Norte do Oriente Médio”, mantendo o poder pelo terror e isolamento absoluto. Por fim, existe o risco latente da fragmentação e “balcanização”, onde o colapso fomentaria movimentos separatistas e uma guerra civil devastadora. 

Os sinais são de que o experimento teocrático chega ao seu epílogo. A questão não é mais se o regime mudará, mas quem estará no controle quando a poeira baixar. O mundo deve estar preparado para o que emergirá das cinzas da teocracia.

Congresso dos Estados Unidos: o que esperar das MIDTERMS/2026

Acostumamo-nos a pensar que os eleitores escolhem os seus candidatos. Nos Estados Unidos, com a chamada redistritalização, os candidatos procuram inverter essa lógica, a fim de ‘escolher’ os seus eleitores….

O gerrymandering redesenha os limites dos distritos eleitorais de modo a favorecer um partido ou candidato sobre os outros nos pleitos bienais para a Câmara dos Representantes (total de 435 cadeiras, cada uma correspondendo a um distrito; hoje, o Partido Republicano detém uma precária maioria de 218 cadeiras, contra 213 ocupadas por deputados Democratas, e quatro dessas cadeiras estão, no momento vagas).

De acordo com a 4ª seção da Constituição estadunidense, recai sobre os estados e seus respectivos legislativos a responsabilidade primordial na determinação dos “tempos, lugares e modos” das eleições para a Câmara dos Representantes, mas o Congresso também pode, “a qualquer tempo”, alterar essas regras mediante Lei. Isso, porém, NÃO se aplica às eleições para o Senado, cujos candidatos disputam a maioria dos votos de todo o estado.

O censo demográfico decenal dita o número de cadeiras alocadas a cada estado. Alguns deles podem ganhar cadeiras, enquanto outros podem perdê-las, conforme suas populações aumentem ou diminuam.

Em 1964, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que o tamanho da população de cada distrito deve ser, tanto quanto possível, igual ao de todos os demais. Estados de população rarefeita — exemplo: Wyoming — enviam à Câmara dos Representantes somente um deputado cada e NÃO são obrigados à redistritalização periódica.

E quais são os métodos utilizados pelos estados para retraçar seus mapas eleitorais? Na maioria dos casos (33 estados), o legislativo estadual se incumbe do redesenho, e esse traçado pode ou não estar sujeito a veto do executivo estadual respectivo.

Em 9 estados, a tarefa cabe a uma comissão que pode ser ou não composta por políticos detentores de mandato eletivo.

Em apenas 2 estados, a responsabilidade pela redistritalizaçãoé compartilhada entre os legislativos e as comissões.

Os restantes estados possuem somente um distrito.

Polarização — A intensa polarização político-partidária tem tornado mais frequentes os gerrymanders fora do prazo ‘normal’ de uma década. Tendo em vista as eleições intercalares (midterms) de 3 de novembro próximo, cinco estados — Califórnia, Carolina do Norte, Missouri, Ohio e Texas — já produziram novos mapas, diferentes daqueles vigentes na eleição geral de 2024. No Utah, a disputa entre Democratas e Republicanos levou à judicialização do gerrymander Litígios judiciais também interferiram no redesenho dos mapas eleitorais do Alabama, da Geórgia e da Louisiana. Com a redistritalização, o governo federal espera ganhar mais cinco cadeiras para o Partido Republicano do Texas, o que provocou uma reação em sentido contrário dos Democratas californianos, liderados pelo governador Gavin Newsom, que sonha com a Casa Branca em 2028.

Já na Flórida, em Indiana, em Maryland e na Virgínia, os legisladores estaduais se abstiveram de modificar os mapas para o próximo pleito.

Normalmente, nas intercalares, o partido instalado na Casa Branca perde cadeiras no Congresso para o seu rival. No presente ciclo, o presidente Donald Trump e seus Republicanos temem uma vitória Democrata que lhes tire a precária maioria, especialmente na Câmara dos Representantes. Uma maioria Democrata em ambas as Casas, o que é menos provável, certamente turbinaria processos de impeachment do presidente.

Neste segundo mandato de Trump, sua aprovação, segundo pesquisas do instituto Gallup, está em 36%. Os entrevistados estão preocupados com o baixo ritmo de criação de novos empregos, com os altos preços em geral, com a perspectiva de eliminação dos subsídios governamentais ao Affordable Care Act — o que elevaria os custos do seguro-saúde — e com a escalada de envolvimento militar externo do colosso norte-americano (Irã, Venezuela). E, apesar de apenas 14% (60) do total dos distritos serem considerados competitivos neste ciclo, os Democratas estão envidando esforços para reconquistar a maioria. Vinte e cinco Republicanos, contra 21 Democratas, já declararam que não concorrerão à reeleição, e pelo menos 39 distritos estão na mira destes a exemplo do 17º distrito do estado de Nova York, hoje representado pelo deputado Republicano moderado Mike Lawler. Os Republicanos, por sua vez, estão de olho em 13 distritos ora representados por Democratas, onde Trump venceu em 2024, a exemplo do 2° distrito do Maine, hoje com o Democrata também moderado Jared Golden, que já declarou que vai se aposentar.

O novo gerrymander na Carolina do Norte pode beneficiar o GOP, enquanto a judicialização do mapa eleitoral de Utah abre novas oportunidades para os Democratas, cuja militância sem dúvida ganhou novo alento com as vitórias, no ano passado, de Abigail Spanberger para o governo da Virgínia, de Mike Sherrill para o governo de Nova Jersey e do socialista Zohran Mamdani, primeiro prefeito muçulmano da cidade de Nova York.

Senado — O mandato de senador é de seis anos, e a cada dois anos 1/3 das cadeiras da Casa é submetido a renovação. Em 2026, NÃO haverá eleições para o Senado em 14 estados: Arizona, Califórnia, Connecticut, Dakota do Norte, Indiana, Maryland, Missouri, Nevada, Nova York, Pensilvânia, Utah, Vermont, Washington e Wisconsin.

Atualmente, são 53 senadores Republicanos, 45 Democratas e 2 independentes que votam com estes últimos. Ali, os próprios Democratas reconhecem que a probabilidade de uma virada é menor, embora esperem conquistar algumas (poucas) novas cadeiras: mais precisamente, duas. Num cenário de ‘empate’ (50 X 50), este seria desatado em favor do GOP pelo vice-presidente J. D. Vance.

De acordo com o portal www.racetothewh.com, que se baseia em um conjunto de pesquisas, o qual eu consultei no dia 13 de janeiro, os Republicanos têm 63% de chance para manter sua maioria no Senado em novembro próximo, enquanto a chance dos Democratas para reconquistá-la é de 36,7%.

Na Geórgia, as sondagens dão um empate técnico entre o incumbente Jon Ossof (Democrata) e o deputado e desafiante Republicano Mike Collins.

Enquanto isso, em Minnesota, onde o governador Tim Walz (companheiro de Kamala Harris na chapa derrotada por Trump e Vance em 2024), desistiu de buscar seu terceiro mandato sob a devastadora pressão de um megaescândalo de corrupção no sistema estadual de assistência social, sua vice, a também Democrata Peggy Flanagan, parece posicionada a conquistar a vaga senatorial em disputa.

Outras prováveis vitórias Democratas para o Senado são as seguintes: no Michigan, Mallory McMorrow, atualmente senadora estadual (com exceção de Nebraska, nos demais 49 estados o poder legislativo é bicameral); em New Hampshire, Chris Pappas, deputado federal; e na Carolina do Norte, o ex-governador Roy Cooper, cujas chances aumentaram significativamente depois que o senador Thom Tillis, Republicano, porém desafeto de Trump, desistiu de se candidatar à reeleição

Já os Republicanos torcem para que as urnas de novembro confirmem o favoritismo nas pesquisas destes candidatos a senador: a atual deputada federal Ashley Hinson em Iowa; a senadora e candidata à reeleição Ashley Moody na Flórida; o procurador-geral do estado Ken Paxton no Texas. Além de Moody, também buscam a reeleição, com boas chances de conquistá-la, os senadores Dan Sullivan (Alaska); Pete Ricketts (Nebraska); e Jon Husted (Ohio). Uma das escassas ‘viradas’ pró-Democratas previstas para novembro é a derrota, no Maine, da senadora Republicana Susan Collins, em busca de seu sexto mandato, contra a governadora Janet Mills.

Se os leitores me pedissem para resumir o sentido geral dos prognósticos acima, eu diria que os Democratas provavelmente recobrarão o controle da Câmara dos Representantes, ainda que sem uma ‘lavada’ contra o partido adversário, ao passo que os Republicanos manterão o controle do Senado, mas com maioria mais precária que a atual.

A coragem das mulheres iranianas e a covardia dos cúmplices da teocracia islâmica

A violência repressora, que no regime dos aiatolás é permanente, cresceu exponencialmente nos últimos dias, como indicado por vários organismos internacionais de Direitos Humanos. O próprio regime já declarou que mais de 2.000 pessoas foram mortas pelas forças de segurança dos aiatolás em decorrência dos atuais protestos, o que leva a crer que o número de vítimas é bem maior.

A brutalidade com que o regime iraniano está massacrando os manifestantes que ousam se sublevar contra a odiosa teocracia não é um desvio ocasional passível de ser contido por sanções econômicas; é a expressão da sua própria essência. Notas de repúdio da comunidade internacional (que o Brasil, para surpresa de ninguém, não se dignou a emitir) são bem-vindas, mas ineficazes. É preciso ação, é preciso uso da força contra os que há décadas a têm usado para oprimir seu povo. Até porque a violência perpetrada pelo Irã ultrapassa fronteiras, sendo um problema global.

O regime que espanca mulheres sem hijabe nas ruas de Teerã é o mesmo que sustenta os terroristas houthis no Iêmen, que fornece drones à Rússia para bombardear a Ucrânia, que foi pilar logístico, militar e financeiro do regime de Bashar al-Assad e que ordenou, financiou e armou o grupo terroristas Hamas para o terrível massacre contra israelenses, em 7 de outubro de 2023.

Os atuais protestos no Irã não são apenas uma explosão episódica de descontentamento econômico, embora os comerciantes, costumeiros aliados do regime, tenham se juntado às mulheres e aos estudantes na linha de frente dos protestos. O protagonismo feminino não é mera contingência. Ao desafiarem abertamente as leis do véu, ao queimarem símbolos do regime, ao ocuparem as ruas mesmo sabendo que o preço pode ser a prisão, a tortura ou a morte, as mulheres iranianas estão expondo a natureza essencialmente opressora da República Islâmica e deixando claro o que querem: liberdade.

A coragem das mulheres iranianas deixa à mostra a covardia dos que se dizem progressistas enquanto fecham os olhos para as atrocidades cometidas pelo regime islâmico; é constrangedor para intelectuais de esquerda falar sobre os acontecimentos no Irã porque eles se chocam com as suas tentativas hipócritas de romantizar o regime dos aiatolás. O silêncio — quando não a cumplicidade explícita — de amplos setores da esquerda diante da atual repressão remete a uma relação antiga. 

A esquerda e a Revolução Islâmica de 1979

Desde a Revolução Islâmica de 1979, parte significativa da esquerda ocidental decidiu ver no Irã não uma teocracia totalitária, mas um símbolo de resistência ao chamado “imperialismo”. 

A revolução iraniana de 1979 pôs fim ao regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, uma monarquia autocrática pró-Ocidente. Com amplo apoio popular e viés fortemente religioso, essa rebelião teve, desde o início, influência do clero xiita, comandado do exterior pelo exilado aiatolá Ruhollah Khomeini. Após a vitória da revolução, fundada a República Islâmica do Irã, o clero xiita, tendo Khomeini como líder supremo, estabeleceu uma autocracia muito mais violenta do que jamais fora a monarquia de Mohammad Reza Pahlavi . 

O novo regime implementou uma teocracia autoritária com repressão intensa, incluindo execuções em massa de opositores (milhares nos primeiros anos), prisões políticas e consolidação de poder via Guarda Revolucionária, superando em escala imediata a brutalidade da SAVAK sob o xá, que já era notória por torturas e assassinatos. O chamado “regime dos aiatolás” caminhou então a passos largos para se tornar um dos mais perseguidores, cruéis e criminosos regimes do mundo, sob o beneplácito da esquerda anti-ocidental. 

O engajamento entusiasmado de pensadores como Michel Foucault, que interpretou a revolução iraniana como uma experiência espiritual e antimoderna capaz de fazer frente aos valores do Ocidente, foi apenas o exemplo mais conhecido dessa cegueira voluntária que não deixa de ser uma perversão moral. As mulheres, os dissidentes, os homossexuais — todos foram sacrificados no altar do anti-imperialismo abstrato.

Essa herança intelectual não desapareceu. Ela se atualiza hoje no relativismo cultural, no pós-colonialismo militante e na política identitária que seleciona vítimas e algozes de acordo com conveniências ideológicas. Um regime que grita “morte à América” e “morte a Israel” pode assassinar seus próprios cidadãos sem despertar a indignação proporcional daqueles que se dizem defensores universais dos direitos humanos. 

No Brasil, essa dissonância assume contornos graves. O atual governo mantém relações cordiais e politicamente engajadas com o Irã, em nome de uma diplomacia que se autoproclama “multipolar”, mas que, na prática, normaliza regimes abertamente repressivos. O fato de o vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, ter sido enviado, em 2024, para representar o governo brasileiro na posse do presidente iraniano Masoud Pezenshkian, não foi um detalhe protocolar irrelevante, mas um gesto político de alinhamento. Também é eloquente o silêncio oficial do Itamaraty diante do massacre de civis iranianos na atual onda de protestos. 

As mulheres iranianas, desarmadas diante de um Estado brutal, tornaram-se uma pedra de toque para qualquer discurso sobre liberdade, justiça e direitos humanos. As ruas do Irã hoje, com corpos empilhados em sacos e sob ameaça de mais execuções, expõem não apenas a malignidade da teocracia dos aiatolás, mas também a falência moral e hipocrisia do Ocidente dito progressista com seus governos que se dizem democráticos. 

Aliando Inteligência Artificial à Inteligência Humana

A febre da Inteligência Artificial parece sintoma de uma espécie de pandemia. O negócio é contagioso. Mentes criativas nas empresas e nos centros de ciência e tecnologia estão se voltando quase que exclusivamente para isso. Até aqui, tudo bem.

Mas de repente surge um novo ídolo: a organização artificial (impregnada de IA) será superior à organização humana. Isso vai acabar chegando a todas as organizações da sociedade civil e dos governos (é só questão de tempo).

Esse é um problema, mas também será uma boa oportunidade para os que conseguirem percorrer as trilhas abertas desde o início do século pela exploração das redes e da democracia como modo-de-vida. Modos de salvaguardar a inteligência tipicamente humana poderão ser “módulos sociais de sobrevivência” num mundo dominado por Estados autocráticos e Big Techs desumanizantes.

As organizações humanas que quiserem sobreviver não podem resistir à onda da Inteligência Artificial e ficar lutando para “colocá-la no seu lugar” por meio de uma retrógrada revolta ludista contra o avanço tecnológico trazido pela IA. Elas estão confrontadas com o desafio de descobrir maneiras criativas de se aliar à inteligência artificial mantendo um foco claro naquilo que nos torna humanos.

Para fazer isso uma parte de qualquer organização deve se dedicar ao netweaving, quer dizer, à articulação e animação de redes humanas.

A organização que conseguir fazer isso se tornará mais humana em aliança com a inteligência artificial em vez de se tornar mais artificial, deixando que a inteligência humana nela embarcada seja capturada pelos modos de “pensar” (ou de processar informações, ou de imitar o pensamento humano) da inteligência artificial (1).

E aqui vem um anúncio surpreendente: bastam poucas pessoas em uma organização fazendo isso para alcançar tal efeito. As organizações podem continuar correndo sofregamente para acompanhar a onda e não ser deixadas para trás, mas pequenos núcleos dentro delas farão esse papel. Serão espécies de zonas azuis (blue zones) dentro da organização.

Esses pequenos núcleos que vão “salvar” (não propriamente guardar, mas experimentar e re-experimentar continua ou intermitentemente – in situ, não in vitro) interações humanas, emoções humanas, conversações, conversações, conversações… podem estar em todo lugar. “Super-egos” (ou melhor, “super-não-egos”), “consciência crítica” (ou melhor, não-consciência – mas relembrança do que foi compelido a se tornar inconsciente), “mosteiros irlandeses” – aqueles que salvaram a civilização ocidental da idade das trevas que se instalou entre a queda do império romano e a ascensão de Carlos Magno – mas tudo em tempo real.

Se entendermos que aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo, inteligência é, ao fim e ao cabo, capacidade de aprender. Espero que fique claro que estou falando de educação. De um novo tipo de educação que agora pode ser experimentado em todo lugar. Uma nova educação – não propriamente para apenas melhorar a velha educação que temos, mas para abrir novos processos de aprendizagem que poderiam ser aplicados por empresas (para seus colaboradores e stakeholders), por entidades da sociedade e por governos.

Sim, é como se abríssemos uma startup de educação dentro de cada empresa, organização social ou órgão de governo. Mas o que essas “startups” fariam concretamente?

Bem, em primeiro lugar, entrando em contato com as principais descobertas da nova ciência das redes que surgiu na passagem do século 20 para o século 21, elas aprenderiam o que são redes, o que implica compreender as diferenças entre mídias sociais e redes sociais (como redes humanas) e compreender as topologias e dinâmicas de rede: as diferenças entre descentralização e distribuição e entre participação e interação. Além disso – e aqui esteja talvez o mais importante – elas entrariam em contato com as descobertas mais recentes da fenomenologia da interação: clustering, cloning, swarming, reverberação, múltiplos laços de retroalimentação de reforço, looping de recursão et coetera.

Em segundo lugar, eles aprenderiam a fazer netweaving (articulação e animação de redes), entendendo as diferenças entre networking e netweaving e a aplicar tecnologias de netweaving à desobstrução de fluxos interativos em organizações, à configuração de ambientes capazes de melhorar as condições de convivência social em organizações e localidades e de ensejar a emergência de uma inteligência tipicamente humana; em termos metafóricos, aprenderiam a usar redes humanas como “super-computadores”.

Em terceiro lugar, elas fariam, na prática, netweaving dentro das suas organizações, criando condições para que os seus integrantes aprendessem, na prática, a interagir em rede; ou iniciassem novas organizações ou empreendimentos já estruturados em rede (mais distribuída do que centralizada e mais interativa do que participativa).

Nos últimos 25 anos venho me dedicando à nova ciência das redes e ajudando pessoas, comunidades, empresas e outras organizações a fazer modificações em sua estrutura e em sua dinâmica de funcionamento para desobstruir os fluxos interativos que transitam em seu interior e no seu entorno mais próximo, diminuindo os custos invisíveis, em geral não contabilizados nos balanços corporativos, que drenam os resultados econômicos (como os custos de transação, os custos de atrito de gestão e os custos de déficit de sinergia), evitando o risco sistêmico de perda simultânea de inovatividade e produtividade que levam à perda de sustentabilidade, mesmo quando há crescimento. Também desenvolvi, em parceria com dezenas de outros pesquisadores, tecnologias de netweaving para configurar ambientes alterdidáticos de aprendizagem que ensejem a emergência de uma inteligência tipicamente humana que pode se acoplar à inteligência artificial impulsionando a colaboração e a criatividade. Implementei vários programas para melhorar as condições de convivência social em localidades e organizações, aumentando a qualidade de vida de seus habitantes ou participantes, despertando e dinamizando seu empreendedorismo e sua capacidade endógena de superar seus problemas (2).

Agora, com o auxílio de um Agente de Inteligência Artificial chamado REXOS, estou ministrando um programa de aprendizagem sobre netweaving: como articular e animar redes humanas. Nesse programa, além do conhecimento teórico (em cinco horas de aulas ao vivo, via Zoom, que ficarão disponíveis para ser acessadas a qualquer momento), teremos uma clínica (com conversas pessoais com cada inscrito que quiser trazer um caso concreto para ser analisado). Para saber mais sobre tudo isso clique neste link.

Notas

(1) Como questionou recentemente Pascal Bornet (2024), em Irreplaceable, “estamos ensinando máquinas a pensar como humanos — ou treinando humanos a pensar como máquinas? Parece uma pergunta técnica. Mas, para mim, é uma questão existencial. Ferramentas como rodas e motores ampliaram nossos corpos. A IA amplia nossas mentes. E isso muda tudo. A mudança da qual não falamos. Dizemos que estamos ensinando máquinas a pensar como nós. Mas, na realidade, estamos nos adaptando para pensar como elas. Otimizamos. Corremos atrás de respostas. Tratamos o pensamento como mera produção. Mas a inteligência humana nunca foi feita para a velocidade — foi feita para o significado. O ponto cego no boom da IA. Cada vez que interagimos com a IA, reforçamos sua lógica: Perguntar → obter → seguir em frente. Com o tempo, perdemos algo mais profundo: • A pausa antes de uma resposta • O desconforto de não saber • A intuição que precede as palavras. Esses são os momentos que nenhum modelo consegue replicar. O que estou tentando proteger. Estou aprendendo a preservar as partes do pensamento que ainda parecem humanas — lentas, emocionais e belamente incertas. Talvez o objetivo não seja tornar as máquinas mais humanas… Mas sim lembrar como permanecer humano ao usá-las”.

(2) Sim, esse é um assunto que investigo há mais de 25 anos: redes (e a emergência de uma sociedade em rede). Escrevi vários livros e dezenas de artigos sobre o assunto. No final de 2008, juntamente com alguns parceiros, fundei uma Escola-de-Redes que chegou a ter mais de 13 mil pessoas conectadas. Trabalhei com o tema em organizações da sociedade civil, grandes e pequenas empresas e governos de todos os níveis.

A história começa assim.

Surgiu no final do século passado uma chamada nova ciência das redes. Desse novo campo de investigação participaram vários cientistas, inicialmente físicos, em sua maioria, mas também matemáticos, sociólogos e pesquisadores de outras áreas do conhecimento. Pode-se citar alguns, meramente a título de exemplo: Albert-László Barabási, Steven Strogatz, Duncan Watts, Manuel Castells, Pierre Lèvy. E cada vez mais biólogos, epidemiologistas (e até médicos, como Nicholas Christakis).

As principais descobertas da nova ciência das redes, que surgiram nos primeiros dez anos do século 21, são surpreendentes. Mas as aplicações desse conhecimento às sociedades e organizações logo foram descontinuadas pela reação do mundo hierárquico, sobretudo dos Estados-nações e de outras organizações centralizadas, por medo de deixarem de ser os fulcros dos sistemas de governança públicos e privados.

No Brasil, em particular, houve (e continua havendo) uma confusão entre redes sociais (pessoas interagindo por qualquer meio) e mídias sociais (sites, programas, tecnologias) que dificulta o entendimento das redes e desestimula o interesse pelo assunto.

A nova ciência das redes foi o resultado da confluência de três campos investigativos: a análise de redes sociais (SNA), que está na pré-história dessa nova ciência, tendo como patrono Leonhard Euler (1707-1783); redes como estruturas que se desenvolvem; e redes como sistemas dinâmicos complexos.

Suas descobertas principais indicam:

1) que o comportamento coletivo não pode ser derivado do comportamento dos indivíduos (ou que – como escreveu o físico Marc Buchanan (2009) em O Átomo Social – “diamantes não brilham porque os átomos que os constituem brilham, mas devido ao modo como esses átomos se agrupam em um determinado padrão: o mais importante é frequentemente o padrão e não as partes, e isso também acontece com as pessoas”),

2) que redes são múltiplos caminhos e que o padrão de organização (a topologia da rede) determina ou condiciona fortemente os comportamentos possíveis de qualquer coletivo,

3) que redes sociais são redes humanas e que redes sociais mais distribuídas do que centralizadas estão se espalhando nas sociedades (e que é isso que chamamos de emergência de uma sociedade em rede),

4) que descentralização não é a mesma coisa que distribuição,

5) que centralização é o que chamamos de hierarquia (topologias mais centralizadas do que distribuídas),

6) que a conectividade acompanha a distribuição,

7) que a interatividade acompanha a conectividade,

8) que adesão ou participação não são a mesma coisa que interação,

9) que tudo que interage tende a clusterizar (clustering),

10) que tudo que interage pode enxamear (swarming),

11) que o imitamento (cloning) é uma forma de interação,

12) que tudo que interage se aproxima (crunching) diminuindo o tamanho social dos mundos,

13) que assim como a interatividade cresce com a transição para rede, a inovatividade tende a crescer com a interatividade,

14) que o aumento da interatividade depende da desobstrução de fluxos (e que é isso que chamamos de processos de rede nas organizações),

15) que só redes podem aprender, que – como disse Humberto Maturana – “aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo” e que o que chamamos de inteligência é um atributo dessa capacidade de aprender.

Como consequências dessas descobertas – no que tange especificamente à inovação – é possível afirmar:

1) que não adianta querer mudar (a dinâmica de funcionamento) sem mudar (o padrão de organização) e que – como se pode derivar de tudo o que escreveu Marshall McLuhan – é o ambiente que muda as pessoas, não a tecnologia,

2) que uma mudança só é possível do conhecido para o desconhecido, não do conhecido para o conhecido,

3) que inovação é sempre um resultado inesperado e, assim, é inútil tentar controlar processos de inovação verificando se foram alcançados os resultados esperados,

4) que inovação copiada é reprodução, não inovação. A inovação é sempre inédita e, portanto, é inútil tentar reproduzir os processos particulares pelos quais uma organização inovou com sucesso,

5) que nunca se trata de substituição, de colocar uma coisa no lugar de outra e sim de deixar que os novos processos que se acrescentam aos antigos gerem novas configurações emergentes,

6) que uma boa dose de comportamento aleatório é necessária para a inovação e que não é possível ser criativo sem partir em novas direções sem um plano pré-definido,

7) que é estúpido tentar organizar a auto-organização.

É possível aplicar esses novos conhecimentos da nova ciência das redes às organizações atuais, desobstruindo fluxos para mudar o padrão de organização (de mais centralizado do que distribuído para mais distribuído do que centralizado) e a dinâmica de funcionamento (de mais baseada em interação do que em adesão e participação e tendo como referência mais a lógica da abundância do que a da escassez).

O escândalo da milícia virtual paga a peso de ouro pelo Banco Master

O Banco Master pode vir a se tornar o maior escândalo de corrupção da história do país. Ainda não sabemos o alcance total do que está sendo investigado, nem quantas camadas de poder serão expostas ao longo do caminho. O que já é possível afirmar é que o grau de desespero para impedir que informações cheguem à opinião pública não tem precedentes. Autoridades extremamente poderosas, ligadas a um banco que até pouco tempo atrás era praticamente desconhecido do grande público, passaram a agir de forma atabalhoada, opaca e agressiva. Mesmo dominando as maiores autoridades do país, o banco recorreu a influenciadores digitais.

As informações reveladas pela jornalista Malu Gaspar em O Globo indicam pagamento direto a influenciadores, com valores elevados, intermediações profissionais e contratos desenhados para produzir efeito político. Não se trata de opinião espontânea nem de engajamento orgânico. Houve coordenação clara de ataques ao Banco Central, tentativa deliberada de constranger a investigação da Polícia Federal contra o Banco Master e uso de narrativas conspiratórias para deslocar o foco dos fatos e uma atuação sincronizada em datas estratégicas.

O dado mais revelador sobre as milícias digitais do Banco Master não é o uso desse método, mas o contexto em que ele foi acionado. Quando instituições, cargos e relações já não são suficientes para conter a circulação de informações, recorre-se ao ruído. A lógica deixa de ser convencer e passa a ser confundir. O objetivo não é construir uma versão sólida, mas tornar qualquer versão indistinta. Criar cansaço, desinformação e medo de se posicionar. A milícia digital entra em cena quando o poder formal já não garante silêncio.

Esse mecanismo não surgiu agora. Ele é antigo, conhecido e amplamente documentado. Em colunas passadas na Gazeta do Povo, mostrei como a militância digital organizada foi estruturada, treinada e financiada ao longo dos anos, com métodos explícitos de coordenação e pagamento. Em Prepare a paciência: CUT ressuscita os MAVs, militância virtual do PT, ficou claro que essas engrenagens nunca desapareceram, apenas se adaptaram ao ambiente das redes.

Em Treinamento do ‘Mensalinho do Twitter’ ensinava a compartilhar notícias de Lindbergh e Tiburi, o modelo foi exposto de forma ainda mais direta, com metas, orientações e pagamento para amplificação coordenada de narrativas.

O que mudou desde então não foi o método, mas sua normalização. A militância paga deixou de ser escândalo para se tornar ferramenta. O que antes era denunciado como fraude do debate público passou a ser tratado como estratégia de comunicação oferecida por agências a empresas privadas. Influenciadores deixaram de ser vistos como intermediários de ideias e passaram a operar como peças contratadas de operações políticas e econômicas.

Nada disso prosperaria sem um elemento central, quase sempre ignorado por conveniência: o público. A milícia digital só funciona porque há terceirização do pensamento.

Pessoas não acompanham processos, não leem documentos, não confrontam versões. Elas confiam. Só que não confiam em quem tem experiência e credibilidade, confiam em quem fala com segurança, indignação performática e aparência de ser do seu grupo. A autoridade é trocada pela identificação emocional.

O ataque em manada como o do caso Banco Master segue um roteiro conhecido. Um nome com grande alcance lança a narrativa. Outros replicam com pequenas variações. Perfis médios amplificam. Quem questiona vira suspeito. Quem pede prova é acusado de má-fé. Quem tenta compreender é tratado como cúmplice. Não se busca esclarecer, busca-se ocupar o espaço. O silêncio do outro lado passa a ser a vitória.

Há ainda um traço psicológico incômodo nesse processo. Muitos só conseguem enxergar a milícia digital quando ela atua contra aquilo em que acreditam. Quando beneficia o seu campo, passam a chamar de engajamento, reação legítima ou coragem. É a cegueira seletiva de quem prefere preservar a sensação de lucidez a admitir que também está sendo manipulado. Ver o erro no outro virou identidade. Reconhecer o próprio engano virou ameaça.

O caso Banco Master é particularmente revelador porque mostra até onde esse sistema pode ir quando interesses realmente grandes entram em risco. Quando nem o poder institucional, nem a opacidade processual, nem a intimidação simbólica são suficientes, recorre-se ao que hoje é mais eficiente para deformar a realidade pública: a compra de influência em larga escala.

Esse escândalo do Banco Master ainda está em curso e pode revelar muito mais. Inclusive até que ponto a sociedade aceita viver em um ambiente onde opinião é mercadoria, ataque é terceirizado e a verdade depende de quem pagou mais caro para abafá-la. Obviamente é imoral e desonesto participar desse tipo de esquema. Infelizmente, ele será cada vez mais lucrativo enquanto o público continuar delegando o próprio juízo.

O Enigma Delcy

Delcy Eloína Rodríguez Gómez não é uma figura acidental, mas a herdeira da “aristocracia civil” bolivariana. Filha do mártir Jorge Antonio Rodríguez, ela combina capital simbólico revolucionário com uma formação europeia que a distingue da elite militar. Agora presidente interina sob a chancela do TSJ após a captura de Maduro, Delcy emerge como o pivô de uma transição de alto risco, operando na interseção entre a retórica anti-imperialista e o pragmatismo da diplomacia financeira internacional.

No tabuleiro de Caracas, ela governa em simbiose absoluta com seu irmão, Jorge Rodríguez, formando um bloco tecnocrata que se contrapõe à ala radical e ideológica de Diosdado Cabello. Sem comando direto de tropas, sua sobrevivência política depende do “pêndulo” de Vladimir Padrino López, o Ministro da Defesa atua como o fiador dos militares chavistas. Enquanto Cabello personifica a brutalidade do Cartel de los Soles, os Rodríguez preferem a cooptação cirúrgica e a inteligência burocrática, sob a pressão asfixiante das sanções que pesam sobre Delcy desde 2018.

Sua liderança, contudo, é assombrada pelas delações de Hugo “El Pollo” Carvajal e pela iminente colaboração de Maduro em solo americano. Tais testemunhos são venenos de ação lenta que podem expor redes de financiamento ilícito, comprometendo sua viabilidade como interlocutora. Ela caminha sobre uma corda bamba geopolítica: depende do aparato de inteligência cubano (G2) para monitorar conspirações militares internas, mas qualquer transição que mantenha o cordão umbilical com a ditadura cubana será vista como uma “mudança cosmética” por Washington. Ela precisa projetar-se perante Trump como uma “Murillo venezuelana” — uma interlocutora técnica e moderada capaz de pacificar o país e garantir a estabilidade energética via PDVSA.

Para os interlocutores internacionais, incluindo Washington, Delcy apresenta-se como uma gestora capaz de operacionalizar a retomada do setor petrolífero e a renegociação de ativos estratégicos. Mesmo sob o peso de investigações externas e da histórica influência de Cuba, ela aposta em uma política de “distensão”, por enquanto, sem transição — uma reforma que torne o regime funcional e aceitável para o mercado global. O sucesso de sua gestão reside na capacidade de transformar o Estado venezuelano em um parceiro previsível, garantindo a permanência da elite civil antes de uma possível transição política definitiva.

Para os Estados Unidos, Delcy não é uma aliada confiável, mas uma ferramenta de conveniência transacional. Sua sobrevivência dependerá de movimentos táticos milimétricos: ela poderá libertar presos políticos para sinalizar boa vontade, mas dificilmente desmantelará o aparato repressivo, sob risco de sofrer um golpe militar por traição à casta armada. Sua missão é tentar converter o regime em uma estrutura de distensão rumo a uma possível transição — uma autocracia mais palatável e funcional. A volta da democracia dependerá do sucesso deste processo, entretanto, serão passos lentos de graduais, evitando uma guerra civil que poderia eclodir com o retorno abruto da oposição ao poder em conflito com um aparato repressor e armado, alimentado por práticas, recursos e cooptação de grupos terroristas, narcotraficantes e de aparatos de inteligência estrangeiros presentes na Venezuela.

Os Estados Unidos devem romper todos os laços com o regime de Maduro se planejam resolver os problemas da Venezuela

Se o regime de Nicolás Maduro é ilegítimo, como o presidente Trump declarou repetidamente antes de depor Maduro, por que o governo agora está em conluio com a vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez?

Quatro dias após a extraordinária captura de Maduro pelas forças especiais americanas, os relatos sobre a vida sob o governo de Rodríguez são sombrios para os venezuelanos que esperavam por mudanças.

Na terça-feira, coletivos armados pró-regime percorriam Carácas em busca de qualquer pessoa que pudesse estar comemorando a queda de Maduro. Jornalistas eram detidos e posteriormente liberados. Presos políticos permanecem encarcerados — apesar de algumas solturas durante o feriado antes da prisão de Maduro.

A infeliz decisão de agir por meio da estrutura de poder existente reflete a situação singular que Trump enfrenta agora na Venezuela.

A maioria dos líderes teria concluído que os desafios pós-Maduro eram insuperáveis ​​— e jamais teria tentado a operação. A ousada manobra de Trump foi bem-sucedida taticamente, mas agora vem o teste estratégico, muito mais difícil. 

A Defesa da Estabilidade

A justificativa do governo para trabalhar com o regime provavelmente se baseia em necessidades de curto prazo e na consciência de que a instabilidade poderia prejudicar os objetivos dos EUA na Venezuela.

Manter o status quo permite que o país continue extraindo petróleo, um objetivo fundamental para Trump.

No entanto, o governo provavelmente entende que seria um erro estratégico depender desse acordo por mais tempo do que o absolutamente necessário.

Rodriguez representa a continuidade do regime de Maduro e das redes criminosas que causaram tanta devastação na Venezuela. Vice-presidente desde 2018, ela foi sancionada pelos Estados Unidos, Canadá e União Europeia por seu papel na repressão à dissidência.

Mesmo que Rodríguez faça concessões aos Estados Unidos em relação ao narcotráfico e à presença de adversários dos EUA na Venezuela, a menos que as redes que conectam o regime e seus aliados criminosos sejam completamente desmanteladas, quaisquer ganhos serão de curta duração.

É improvável que isso aconteça até que a Venezuela tenha um governo democraticamente eleito com instituições à altura da tarefa. 

Um caminho realista a seguir

Uma estratégia realista para o governo é usar Rodríguez como uma ponte para um governo interino, não como uma parceira de longo prazo.

O governo poderia condicionar a parceria com ela ao atendimento de demandas específicas dos EUA, enquanto trabalha ativamente para a transição para um governo interino liderado por uma figura externa ao regime, capaz de organizar eleições.

Isso deve significar a expansão imediata dos direitos civis e dos espaços políticos. O foco inicial deve ser a libertação de todos os presos políticos e a garantia do retorno seguro dos exilados políticos, dando aos venezuelanos evidências de que a mudança está a caminho.

Os Estados Unidos precisam comunicar sua visão e expectativas. A ambiguidade gera incerteza e permite que agentes mal-intencionados explorem brechas.

O governo precisa dizer ao regime, aos militares e ao povo venezuelano qual é o objetivo final dos EUA: uma Venezuela democrática e soberana, livre da influência de adversários dos EUA e do crime organizado.

Também deve abordar o papel da oposição. O aparente afastamento de María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, envia um sinal equivocado. As forças democráticas merecem um papel central na transição da Venezuela. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos não devem escolher as batalhas mais difíceis agora. Embora os EUA possam remover membros do regime do poder, as redes criminosas que operam na Venezuela não serão desmanteladas da noite para o dia. Tentar fazer isso agora garantirá que elas trabalhem para minar os objetivos dos EUA.

Finalmente, o governo precisa deixar claro que não se trata de petróleo. Enfatizar isso desvia a atenção dos objetivos maiores dos EUA na Venezuela.

As decisões sobre petróleo e outros recursos cabem ao povo venezuelano, e Trump deveria dizer isso.

Fazendo história ou repetindo-a

A captura de Maduro foi um triunfo militar e de inteligência impressionante, mas a história julgará Trump pelo que vier depois.

A verdadeira questão é se os EUA podem facilitar uma mudança duradoura na Venezuela ou se simplesmente trocaremos um regime autoritário por outro.

A parceria dos EUA com Rodríguez pode ser necessária como uma medida de curto prazo, mas não pode ser normalizada — e não pode ocorrer à custa da mudança.

Trump atualmente tem influência e impulso. Ele deve usá-los com sabedoria enquanto os tiver.

A farsa do 8 de janeiro

Três anos após os eventos de 8 de janeiro de 2023, a insistência do governo federal em sustentar a narrativa de uma “tentativa de golpe de Estado” revela-se cada vez menos um compromisso com a verdade factual e cada vez mais um expediente político. O episódio, que entrou para a história como um grave ato de vandalismo contra prédios públicos, vem sendo artificialmente inflado para servir como espantalho simbólico, usado para justificar excessos institucionais, silenciar opositores e desviar a atenção do desempenho pífio do governo em áreas centrais da administração pública.

Do ponto de vista técnico, jurídico e político, a tese de golpe não se sustenta.

Um golpe de Estado, conforme a ciência política e o direito constitucional, pressupõe elementos objetivos: liderança clara, coordenação estratégica, apoio ou ruptura dentro das Forças Armadas, controle de meios institucionais de poder e um projeto concreto de tomada e manutenção do governo. Nada disso esteve presente no 8 de janeiro. O que se viu foi uma massa desorganizada, sem comando central, sem respaldo institucional, sem apoio militar e sem qualquer capacidade real de substituir a ordem constitucional vigente.

Tratar vandalismo como golpe não é apenas um erro conceitual — é uma distorção deliberada.

A fragilidade dessa narrativa fica ainda mais evidente quando se analisam os próprios processos judiciais decorrentes dos fatos. Há denúncias de individualização precária de condutas, penas desproporcionais, inversão do ônus da prova e julgamentos que parecem mais orientados por uma lógica exemplarizante do que pelo devido processo legal. Em vez de responsabilização objetiva e equilibrada, optou-se por uma justiça de caráter simbólico, cujo objetivo maior parece ser a reafirmação de uma versão política previamente construída.

Se o 8 de janeiro tivesse sido, de fato, uma tentativa real de golpe, seria razoável esperar a identificação de líderes políticos relevantes, articuladores institucionais e financiadores com atuação comprovada. No entanto, três anos depois, não há nomes de peso do Congresso Nacional envolvidos, não há generais, não há governadores, não há cúpulas partidárias. A ausência de lideranças desmonta, por si só, a tese de uma conspiração estruturada contra o Estado democrático de direito.

Ainda mais revelador é o esvaziamento político e popular das cerimônias promovidas pelo presidente Lula para “relembrar” a data. Sem apelo popular, sem mobilização espontânea da sociedade e sem a presença significativa de líderes do Legislativo, os atos oficiais tornaram-se eventos protocolares, sustentados artificialmente pela máquina estatal e pela retórica governamental. A cada ano, fica mais evidente que o 8 de janeiro mobiliza mais o discurso do Planalto do que a consciência coletiva da população.

E não é difícil compreender o motivo.

Diante de dificuldades econômicas, aumento do custo de vida, crise fiscal, insegurança jurídica, desgaste internacional e promessas de campanha não cumpridas, o governo encontrou no 8 de janeiro um instrumento narrativo conveniente. Ao manter viva a ideia de um “golpe permanente”, cria-se um inimigo difuso, útil para justificar erros, atacar adversários e tentar preservar uma base política cada vez mais insatisfeita.

O problema é que democracias não se fortalecem com mitos, mas com fatos. Não se protegem instituições com narrativas forçadas, mas com respeito às garantias legais, à proporcionalidade das penas e à pluralidade política. Transformar um episódio de vandalismo grave — que deve, sim, ser punido nos limites da lei — em um marco fundacional de um governo é um sinal de fraqueza, não de força.

Três anos depois, o 8 de janeiro já não se sustenta como ameaça à democracia. Sustenta-se apenas como instrumento retórico de um governo que, incapaz de apresentar resultados concretos, precisa olhar constantemente para o passado para justificar o presente.

E quando um governo precisa de um espantalho para sobreviver politicamente, o problema não está na oposição — está na sua própria incapacidade de governar.