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Joana d’Arc de hijab: a submissão da França ao Islã

A França enfrentou, na noite de 17 de outubro, um dos distúrbios mais destrutivos e violentos das últimas décadas. O vandalismo se intensificou em diversas cidades, prolongando-se até altas horas e, em alguns casos, até o dia seguinte. 

Em Paris, grupos organizados de indivíduos encapuzados destruíram e saquearam inúmeras lojas. Os saques mais intensos atingiram a região da Gare Saint-Lazare, Châtelet-les-Halles, a Place de la République e os Champs-Élysées, onde lojas de luxo, supermercados, farmácias e estabelecimentos diversos foram sistematicamente depredados e esvaziados. Ruas inteiras foram devastadas, com vitrines estilhaçadas, carros e bicicletas incendiados, e barricadas em chamas. 

Em Limoges, a prefeitura histórica, um edifício do século XIX, foi invadida e incendiada por um grupo de manifestantes mascarados. Em Lyon, a agência de turismo situada na Place Bellecour foi invadida, vandalizada e incendiada. 

Esse texto ficaria muito extenso se eu continuasse a descrever com pormenores essa barbárie. Deter-me-ei, portanto, em alguns eventos mais simbólicos. 

Em Marseille, derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República; em Toulouse, subiram na estátua de bronze de Joana d’Arc, colocaram um colete amarelo (gilet jaune) na sua cabeça, enrolado de modo a cobrir o cabelo e simular um hijab. Em seguida, prenderam uma bandeira da Palestina junto ao monumento (ao lado do braço da estátua). 

Símbolos não são meros ornamentos ou representações opcionais de uma cultura: são as formas pelas quais uma comunidade herda, reconhece e transmite uma ordem de sentido que excede cada indivíduo. Joana d’Arc condensa várias camadas simbólicas: a camponesa chamada por Deus, a guerreira que salva a França na Guerra dos Cem Anos, a mártir injustamente condenada, a santa canonizada e a padroeira nacional. Respeitar a imagem de Joana d’Arc é, para o povo francês, respeitar memória histórica, sacrifício, fé, pátria e identidade civilizacional. 

Se assim é, cobrir seu icônico cabelo curto com o véu islâmico e colocar uma bandeira palestina nas mãos daquela que marchou sob o estandarte de Cristo significa o quê?

O referido vilipêndio não pode ser reduzido a mero vandalismo contra um objeto, trata-se de um gesto simbólico que quer apagar a mediação entre o presente e uma ordem de sentido herdada, um gesto de quem almeja deserdar não apenas a França, mas todo o Ocidente da sua própria tradição. 

O filósofo político Eric Voegelin compreende a sociedade como um “pequeno cosmos”, que se autocompreende por meio de símbolos que tornam transparentes a estrutura interna da sociedade, as relações entre seus membros e sua existência como totalidade diante do mistério da existência humana. 

Os símbolos constituem a experiência de pertencimento e a percepção de que a vida coletiva remete a algo além dela mesma. Nesse sentido, a referida iconoclastia deve ser interpretada como uma disputa pelo monopólio da imaginação moral e da imaginação política. É uma clara tentativa de substituição.  

Quando uma cultura perde a reverência por suas figuras exemplares, não perde apenas ícones, mas enfraquece também a linguagem moral pela qual forma juízos sobre si mesma. Derrubar o busto de Marianne ou vandalizar a estátua de Joana D´Arc são expressões de um perigoso niilismo atirrepublicano, expressão utilizada por Brendan O´Neill no artigo France on fire: the nihilists against the normies.

Segundo O´Neill, “os incêndios na França evidenciaram uma das grandes divisões morais do nosso tempo: aquela entre niilistas e pessoas comuns.” Essa cisão, insista-se, não se limita à França, mas reflete um movimento de radicalização da esquerda em toda a Europa. 

O movimento “progressista” atual, afirma o editor-chefe de política da revista Spiked, “firmou uma coalizão tóxica com aqueles supostamente oprimidos: jovens revoltados, migrantes, pessoas em situação de rua, muçulmanos. Adicione a isso uma pitada de islã radical, e essa aliança passa de insana a letal.

É um eufemismo que presta desserviço à verdade reduzir o que está acontecendo na França a uma mera reivindicação de estudantes em busca de melhorias ou mais uma mobilização normal resultante da insatisfação com algumas medidas de austeridade fiscal. É muito mais sério do que isso. 

Onda Azul

O mundo atravessa uma reconfiguração política que já não se explica pelos manuais das últimas décadas. Em países de diferentes continentes, eleitores vêm rejeitando a combinação da elevação do custo de vida e narrativas culturais percebidas como imposições. O resultado é uma sequência de vitórias de forças de direita e centro-direita que está alterando o equilíbrio de poder internacional e, por extensão, as condições nas quais o Brasil decide seu futuro neste domingo.

Essa onda começou a se desenhar com clareza em 2016, com o Brexit no Reino Unido e a primeira eleição de Trump nos EUA. Ambos os eventos romperam a ideia de que globalização e multilateralismo eram processos irreversíveis e devolveram ao centro do debate temas como soberania, controle de fronteiras e prioridade dos interesses nacionais. A partir dali o movimento ganhou força na Europa e na América Latina, em ritmos e com características próprias em cada nação.

Na Europa, Giorgia Meloni chegou ao poder na Itália em 2022 com uma agenda explícita de direita, mantendo alta popularidade mesmo enfrentando resistências de instituições europeias. Na França, Marine Le Pen e o Rassemblement National ampliaram a presença parlamentar, sendo favoritos ao Élysée. Na Alemanha, a AfD cresceu e forçou o centro a discutir temas que eram tabus. Na Polônia, os conservadores recuperaram a Presidência com Karol Nawrocki, enquanto Tusk mantém viva a força da direita-liberal.

Do outro lado do Atlântico, a reeleição de Trump em 2024 recolocou os EUA em uma postura de reindustrialização e contenção da China. A administração passou a tratar migração e segurança de fronteiras como questões de soberania nacional. Esse reposicionamento pragmático gerou um efeito cascata, influenciando o direcionamento político de toda a região.

Na América Latina, o movimento é nítido e o ponto de inflexão foi a chegada de Nayib Bukele à Presidência de El Salvador em 2019. Sua política transformou o país de um dos mais violentos do mundo em um dos mais seguros. No Paraguai, o Partido Colorado manteve o poder com Santiago Peña em 2023. Na Bolívia, Rodrigo Paz venceu em 2025 e encerrou décadas de domínio do MAS com uma plataforma de capitalismo para todos e drástica redução do peso estatal.

No Peru, Keiko Fujimori conquistou a Presidência em 2026, alinhando o país ao bloco de governos conservadores da região. Vitórias que se somam às de Milei na Argentina,  Kast no Chile e Abelardo de la Espriella na Colômbia. Um bloco que não é fruto de conspiração, mas de respostas reais aos mesmos problemas. A comunicação digital amplificou narrativas alternativas, permitindo que os eleitores comparem resultados concretos e eficientes entre os países.

No Brasil, o primeiro turno já registrou o recado das urnas. A direita ampliou bancadas no Congresso e colocou Flávio Bolsonaro na liderança para a rodada final. O resultado dialoga com o ambiente internacional: os eleitores valorizam aqueles que prometem ordem, pragmatismo e menor adesão ao ativismo estatal. A tendência deste domingo insere-se num ciclo global em que nações redefinem prioridades e redesenham o xadrez político mundial. A conferir.

A guinada da América Latina para a direita vai durar?

No último ano, a América Latina deu uma guinada para a direita e, se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno da eleição presidencial no Brasil em 25 de outubro, a região terá o alinhamento mais amplo de governos de centro-direita de sua era democrática. Os novos líderes abraçam abertamente Washington, e a maioria se juntou à coalizão anticartel “Escudo das Américas”. Essa onda, impulsionada pelo descontentamento com a insegurança e com economias estagnadas, gerou esperanças de que a região esteja passando por uma transformação política duradoura.

Uma onda semelhante subiu e recuou não faz muito tempo. Em 2018 e 2019, governos conservadores lideravam a maior parte da América do Sul e trabalhavam em estreita colaboração com Washington. Quando o líder da oposição Juan Guaidó reivindicou a presidência interina da Venezuela em janeiro de 2019, Colômbia, Brasil, Argentina, Chile e Peru rapidamente se juntaram aos Estados Unidos no reconhecimento de seu governo e, no final daquele ano, invocaram um acordo internacional, o Tratado do Rio, contra o regime de Maduro. Em 2022, grande parte da região havia migrado de volta para a esquerda, e a coalizão se desfez.

A onda atual pode se mostrar igualmente passageira. Esses líderes possuem mandatos frágeis. Muitos venceram disputas acirradas em eleições que foram mais um racha de rejeição aos governantes anteriores do que um endosso à direita, e alguns perderam apoio rapidamente. No Chile, José Antonio Kast viu sua taxa de aprovação cair para 36% apenas três meses após o início de seu mandato, depois que os preços dos combustíveis subiram.

Além disso, muitos desses governos enfrentam pressões fiscais no momento em que os eleitores sentem o aumento do custo de vida. O choque do petróleo decorrente do conflito no Irã piorou a situação: a inflação de energia na região atingiu 8% em junho, forçando os governos a escolher entre subsídios dispendiosos aos combustíveis e eleitores furiosos. Esse mesmo dilema arruinou a onda anterior. Entre 2019 e 2021, aumentos de tarifas, cortes nos subsídios aos combustíveis e reformas tributárias desencadearam protestos de massa que paralisaram os governos do Chile e da Colômbia.

Washington não pode resolver esses problemas subjacentes. Mas pode parar de piorar alguns deles e pode ajudar seus aliados a entregar resultados que seus eleitores percebam.

Primeiro, o governo Trump deve usar uma das poucas ferramentas que possui para recompensar aliados: o comércio. Sob as tarifas mais recentes impostas em julho, aliados como o Chile e a Colômbia pagam a mesma taxa de 12,5% que a China e a Rússia. O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, pediu a Trump que suspendesse as tarifas sobre seu país logo após assumir o cargo.

Até mesmo o presidente da Argentina, Javier Milei, o aliado mais próximo de Trump na região, obteve apenas um acordo comercial limitado que manteve intactas as tarifas de 50% sobre o aço e o alumínio argentinos. Enfrentando um Congresso hostil, Milei agora luta para ratificá-lo, a um ano de uma eleição que decidirá se as reformas de livre mercado da Argentina sobreviverão.

Segundo, o governo dos EUA deve garantir que sua iniciativa central na região entregue vitórias precoces para os cidadãos exaustos da desordem e da violência. O Escudo das Américas tem valor real como plataforma para coordenar políticas de segurança, treinamento e operações conjuntas contra cartéis, mas, após sete meses, fez mais para rotular cartéis como terroristas do que para conter a extorsão, os assaltos e os homicídios que os latino-americanos enfrentam em seus próprios bairros.
Washington deveria dedicar mais recursos ao fortalecimento das forças policiais, promotores, tribunais e unidades de inteligência financeira que possam desmantelar redes criminosas e impedir seu retorno. É aí também que reside o apoio público. Os chilenos estão divididos quanto à adesão à coalizão, mas mais de 80% apoiam o trabalho conjunto com seus membros para congelar bens de criminosos. E o governo americano deveria medir o sucesso do Escudo pelo que mais importa para os cidadãos: taxas de homicídios, vitimização e condenações, e não apenas apreensões de drogas.

O Escudo também deve ser construído para durar além dos líderes que o fundaram. Se o pêndulo político girar de volta, a cooperação contra os cartéis não deve colapsar junto, como aconteceu com a coalizão contra Maduro após 2019. O governo americano foi sábio ao convidar a Guatemala, governada pelo centro-esquerdista Bernardo Arévalo, e deveria estender a mesma oferta ao México e a outros países.

Nada disso vai imunizar os novos líderes da América Latina contra as correntes anti-incumbência que os trouxeram ao poder. O verdadeiro teste da política de Trump para a América Latina é se uma maior segurança e prosperidade levarão os eleitores a continuar elegendo governos que queiram trabalhar com Washington, a começar pela eleição da Argentina em outubro de 2027. Se isso acontecer, Trump deixará na região um legado que escapou a seus antecessores.

Risco Lula

A poucos dias do segundo turno, o governo Lula transformou o Orçamento e a legislação em instrumentos de campanha. Não se trata de ajustes debatidos com antecedência, mas de benefícios, renúncias e mudanças aceleradas depois do susto diante da avalanche conservadora vista nas urnas. O recado do momento é claro: a reeleição vale o risco de quebrar com o país.

O pacote inclui reajuste no Bolsa Família, perdão de dívidas, Pix de até R$ 5 mil sem devolução, elevação do teto para empreendedores, recursos para universitários e “alívios” nos combustíveis. O cardápio é vasto e o custo entrará no orçamento de 2027, comprometendo o superávit projetado. A maioria das medidas não estava no texto original e depende do Congresso. O discurso oficial fala em manter o arcabouço e chegar a superávit até 2030. Na prática, porém, o que se vê é expansão permanente sem fonte clara de compensação — um verdadeiro manicômio fiscal.

O caráter eleitoreiro está na cronologia. As medidas de maior apelo saíram depois do primeiro turno, quando Lula percebeu o risco real de ser apeado do poder pelo voto. O governo alega que parte das dívidas é irrecuperável ou vem de fundos específicos. Ainda assim, o timing coincide com a necessidade de recuperar terreno. Afinal, todos sabem a verdade: não estamos diante de uma política de Estado, mas de uma disputa de voto.

A isso se soma a aprovação acelerada do fim da escala 6×1. O Senado aprovou por 75 a 1 a redução gradual da jornada de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem corte salarial. A proposta tem apelo popular e virou vitrine de campanha. Para o país, contudo, é absurda e vai na contramão do necessário. Reduzir a jornada de forma compulsória, mantendo salários integrais e sem ganhos de eficiência, eleva o custo da hora trabalhada e não dialoga com a realidade da nova economia. Impor essa mudança é jogar fora o futuro do país, pois o resultado será menos vagas formais e menor crescimento.

Para o brasileiro médio, a conta não aparece no anúncio. A dívida já está elevada e os juros altos. Cada benefício permanente ou renúncia aumenta a pressão: juros mais altos por mais tempo, crédito mais caro, inflação mais resistente e real mais fraco. O benefício que entra agora é imediato para quem recebe. O serviço da dívida, o ajuste futuro e os custos de produção mais altos são o imposto diferido que todos pagam — em preços, financiamentos e crescimento menor. O resultado será mais uma geração perdida.

Além disso, o risco de eleger Lula depois do tsunami conservador que chegou ao Congresso é o de instalar um “pato manco” no Planalto em plena crise fiscal: um presidente que, desde o primeiro dia, terá de lutar pela legitimidade de sua própria cadeira, sem maioria, diante de um Parlamento dominado pela oposição. O mandato seria uma sucessão de impasses, vetos e derrotas legislativas. Em vez de governar, Lula passaria quatro anos negociando sua sobrevivência política.

Lula escolheu um caminho perigoso ao abraçar o populismo fiscal para tentar mais um mandato. O benefício eleitoral é imediato, mas a conta será amarga. Sem força política, sua reeleição representaria o mergulho em uma incerteza que pode, mais uma vez, tragar o futuro de nossa nação.

Tsunami Conservador

O primeiro turno selou mais do que um resultado eleitoral, consagrou uma transfiguração profunda na geografia política do Brasil. O avanço avassalador de candidaturas de direita e centro-direita no Congresso e nos governos estaduais reconfigurou os eixos de poder da República. Trata-se de um verdadeiro tsunami conservador, movido por uma indignação social articulada. Contudo, para compreender a real magnitude dessa onda, é preciso olhar para a Praça dos Três Poderes: o Supremo Tribunal Federal tornou-se o principal catalisador desse processo por um clássico efeito bumerangue.

Ao longo dos últimos anos, a corte assumiu um protagonismo atípico na vida pública nacional. Sob o pretexto de resguardar a ordem constitucional, o tribunal frequentemente ultrapassou as fronteiras da autocontenção. A judicialização ostensiva — marcada por condenações severas, restrições de fala, bloqueios de redes e intervenções na reta final — encontrou contraste direto na anulação dos processos da Lava Jato, que devolveram Lula ao jogo. Onde a toga alegou técnica processual, o eleitor leu perseguição e blindagem seletiva. Ao trocar a neutralidade de árbitro pela tutela política, o ativismo judicial converteu sanção em “efeito mártir” e transformou a rejeição ao STF no combustível eleitoral mais potente do país.

As urnas refletiram esse embate com precisão matemática. Flávio Bolsonaro liderou a corrida presidencial com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, mandando a decisão para 25 de outubro. Enquanto o herdeiro somou cinco milhões de votos a mais do que o pai em 2022, o incumbente perdeu 3,4 milhões e registrou o pior desempenho petista na etapa inicial desde 1998. Nos estados, a onda foi igualmente avassaladora: das 20 disputas resolvidas de primeira, 13 consagraram nomes de direita, com vitórias expressivas de Tarcísio de Freitas em São Paulo, Sergio Moro no Paraná e Cleitinho Azevedo em Minas Gerais, isolando o PT em sua cidadela nordestina.

A reação popular utilizou o sufrágio como o instrumento mais legítimo de freios e contrapesos. O Senado, arena constitucional para o controle do Judiciário, entregou a resposta com máxima nitidez institucional: o PL elegeu 19 senadores e atingirá 28 cadeiras em 2027 — o triplo da bancada do PT. Com aliados do PP, Republicanos, União e Novo, o bloco conservador aproxima-se de 60% do plenário. Vitórias no Distrito Federal, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, e em Santa Catarina, somadas à eleição de críticos contundentes como Deltan Dallagnol e Marcel van Hattem, estruturam a maioria necessária para impor sabatinas rigorosas, limitar decisões monocráticas e pautar eventuais impeachments. Na Câmara, o PL atingiu o recorde de 121 deputados federais, puxado por votações históricas de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato.

A história demonstra que decisões judiciais não substituem a soberania popular nem pacificam controvérsias pela coerção. Ao tentar governar o conflito político, o STF acabou acelerando o levante que pretendia conter. O tsunami eleitoral deixa um recado indiscutível para a República: quando a toga invade o terreno da política, a democracia reage e as urnas se encarregam de reestabelecer a vontade popular.

A nova onda da direita e o declínio do lulopetismo

A onda direitista que avança na América do Sul chegou ao Brasil nas eleições de 4 de outubro deste ano de 2026 como um tsunami, fazendo submergir a esquerda: não apenas o atual presidente foi derrotado no primeiro turno pelo filho do ex-presidente, mas, além disso, o PT, partido que está no poder, foi derrotado nas urnas pelo PL no restante dos cargos em disputa, sendo o partido que mais elegeu deputados estaduais e distritais no país. 

Mesmo nessa rápida visão desse curto episódio já se pode perceber uma cena perturbadora, pintada a um mesmo tempo com cores trágicas e outras tantas cores cômicas. Porém, haveremos de ver que essa tragicomédia é extensa e que sua produção vem de longe.

O PT começou a ser desmoralizado pelo seu próprio fundador e líder Luiz Inácio Lula da Silva, que após ser eleito presidente da República em 2002 e em seguida reeleito, ao longo desses dois mandatos conseguiu submeter o PT ao seu inteiro domínio, quebrando a autonomia e democracia interna de todas as instâncias partidárias. Lula ultrapassou a condição de líder para agir como dono do partido. Note-se que faz bastante tempo que se repete que “Lula é maior que o PT”.

Sendo maior que o PT, o presidente Lula saiu das urnas menor do que Flávio Bolsonaro, candidato do PL. Já o PT saiu nanico: no Senado, para um total de 54 vagas em disputa, elegeu 6 senadores; enquanto o PL elegeu 19. Para a Câmara Federal, o PT elegeu 68 deputados federais de forma isolada e, considerando a Federação Brasil da Esperança (formada por PT, PCdoB e PV), o bloco conquistou 82 cadeiras no total; o PL sozinho elegeu 121 deputados.

Abrindo mais a lente para focalizar esquerda X direita, temos a seguinte estimativa: a esquerda elegeu 124 deputados; a direita elegeu 276 deputados.

Assim, com tão amplas bancadas no Congresso Nacional, a direita terá enorme poder para iniciar processos de reformas e tomar outras medidas que lhe pareçam convenientes. Se contar com o apoio do centro político e/ou do centro fisiológico, terá como concluir, com sucesso, tais reformas e medidas. Certamente, se o candidato de oposição à Presidência da República, o direitista Flávio Bolsonaro, for eleito, o referido apoio deixará de ser uma possibilidade para ser uma certeza.

Se as reformas a serem iniciadas e as medidas a serem tomadas pelas legislaturas da Câmara e do Senado a partir de 2027 serão boas, teremos de esperar para ver. Todavia, uma medida anunciada por vários senadores eleitos ainda quando em campanha, parece indispensável: é o enquadramento do Supremo Tribunal Federal (STF) para coibir seus desmandos e abusos, que são muitos e notórios. 

A questão mais urgente em relação ao STF refere-se ao impeachment de ministros dessa alta corte flagrados em abusos de autoridade através de decisões monocráticas descabidas ou suspeitos de envolvimento em casos de corrupção. Constitucionalmente, cabe ao Senado promover processos de impeachment contra ministros do STF, e os eleitores cobraram esse dever, votando extensamente em candidatos que assumiram tal compromisso. Não levar adiante essa pauta seria um estelionato eleitoral. 

Na Câmara e no Senado o PT já perdeu. O dono do PT ainda não perdeu, mas está perto disso. 

Como Lula era alardeado como favorito para sair na frente no primeiro turno, o resultado trouxe grande frustração e um inicial desânimo. Para a campanha de segundo turno, pior do que a derrota momentânea e por estreita margem do presidente, foi a derrota definitiva dos seus candidatos nos estados que são os maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Nesse quadro, deve-se ressaltar não só a vitória acachapante de Tarcísio de Freitas em São Paulo, como o grande empenho desse governador já no início da campanha de Bolsonaro no segundo turno. Avaliando-se os resultados das eleições por todo o país, salta aos olhos que o candidato vitorioso do PL tem muito mais espaço para crescimento do que o candidato derrotado do PT.   

Lula saiu das urnas por baixo, e logo deu sinais de agoniado desconforto com falas destemperadas. Já na segunda-feira chamou seu opositor de “fascista”. Tal agressão não passa de narrativa raivosa muito típica do lulopetismo, que chama de fascista qualquer um que não reze pela sua cartilha. Flávio Bolsonaro é um político e candidato precário, carregado de suspeitas, mas não é fascista. Ao revés, Lula não é comunista, mas é também carregado de suspeitas.

É muito duvidoso que chamar o adversário de “fascista” conquiste algum eleitor; todavia, há de se considerar que não está muito fácil para a campanha de Lula inovar no estoque narrativo gasto no primeiro turno sem grande sucesso. 

De todo modo, Lula ainda está no jogo; já o PT tornou-se um partido residual, a caminho da irrelevância. 

Fundado em 1980 na esteira das grandes campanhas de redemocratização que se alastraram pelo país a partir da vitória da luta pela Anistia, no final de 1979, o Partido dos Trabalhadores logo tornou-se depositário de grandes esperanças dos brasileiros. 

Com duas décadas de fundação, o PT já se impusera na cena política como senhor quase absoluto da esquerda, havendo deprimido ou fagocitado outros partidos de esquerda antes relevantes, como o PCB, o PCdoB ou o PDT. Desde 2003, com os interregnos do curto mandato do presidente Michel Temer e do mandato do presidente Jair Bolsonaro, o PT tem governado o Brasil até hoje.

Ao todo, são 20 anos de poder do PT. É muito, não sendo de estranhar que o povo se sinta já cansado. Diria mais, nauseado. Mas tal enfado não decorre necessariamente desse tempo de permanência no poder, pois outros partidos e outros políticos, pelo mundo afora, permaneceram tempo maior no poder sem causarem tanta repulsa. Ocorre que a linha do tempo do PT veio se configurando cada vez mais como linha de aviltamento, de abusos, de abastardamento.

Como disse anteriormente, o PT começou a ser aviltado pelo próprio Lula, que dele se apossou como senhor e dono. Uma das tarefas delegadas por Lula ao seu partido foi maximalizar posições polêmicas que o próprio Lula, enquanto presidente da República, assume mais comedidamente para não escandalizar o público maior do qual depende e que vai além das facções do esquerdismo fanático. 

Nesse panorama, pode-se dar como exemplo um episódio das relações de Lula com Nicolás Maduro: sendo abertamente simpático ao então ditador da Venezuela, diante da flagrantemente fraudulenta reeleição de Maduro em 2024, o presidente Lula não a convalidou oficialmente e até se permitiu expressar algum desconforto; porém, o PT, assinou documento do Foro de São Paulo com expresso apoio à fraude do regime chavista.

Na linha temporal recente de aviltamento do PT queremos destacar ainda a atitude em relação a uma possível anistia para os envolvidos nos distúrbios de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, com atos de vandalismo nos prédios dos três poderes; distúrbios e vandalismo estes que as autoridades da República entenderam como sendo uma tentativa de golpe de Estado. 

O STF, pela mão pesada do ministro Alexandre de Moraes, distribuiu penas duras, de forma indiscriminada, sobre alguns supostos organizadores e financiadores, e sobre centenas de pessoas anônimas, gente humilde revoltada, mas sem nenhuma condição de promover qualquer golpe de Estado. Eis que, diante do ocorrido, renegando o seu passado, o PT passou a proclamar o raivoso lema “Sem Anistia!”.  

Convém lembrar que, em grande parte, o PT deve sua existência à campanha pela “Anistia ampla, geral e irrestrita”, que tomou o Brasil em 1979 e foi vitoriosa, sendo a Lei da Anistia assinada pelo General João Figueiredo, último presidente do regime militar, em 28 de Agosto de 1979, quando foram libertados os presos políticos e os exilados puderam voltar do exterior. Não só a Anistia de 1979 tornou a redemocratização do Brasil irreversível, como muitos dos ex-presos políticos e ex-exilados formaram na linha de frente da construção do PT. 

Foi este o caminho da pacificação e redemocratização do Brasil.

Então, se há algo nobre e premente que o Congresso Nacional renovado pode e deve fazer logo no início de 2027, além de destituir e investigar os ministros do Supremo envolvidos em corrupção, é impulsionar uma nova pacificação nacional com a proclamação de uma nova Lei de Anistia.

O Brasil precisa discutir continuidade ou mudança

A eleição presidencial não deveria ser reduzida a nomes, slogans ou paixões partidárias. Quando colocamos lado a lado os programas de governo de Lula e Flávio Bolsonaro, aparecem diferenças importantes sobre o papel do Estado, educação, segurança pública, liberdade de expressão e valores. E há uma pergunta que considero inevitável: quanto tempo um projeto político precisa para demonstrar que é capaz de enfrentar os problemas estruturais do Brasil?

O PT chegou à Presidência da República em 2003. Foram oito anos de Lula, quase seis de Dilma Rousseff e, desde 2023, um novo mandato de Lula. É verdade que houve uma interrupção nesse período, com os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Também é fato que uma parcela importante do governo Bolsonaro coincidiu com a pandemia de Covid-19, uma crise mundial que afetou profundamente economia, educação, saúde e contas públicas.

Feita essa contextualização, considero legítimo perguntar: depois de tantos anos de governos petistas, por que problemas tão básicos continuam tão presentes?

A educação talvez seja o exemplo mais didático. Os resultados do PISA 2025 mostram que o desempenho médio dos estudantes brasileiros ficou praticamente no mesmo nível de 2022 em matemática, leitura e ciências. Mais significativo ainda: segundo a OCDE, os resultados de 2025 ficaram próximos daqueles registrados nas avaliações realizadas desde 2015.

Em matemática, apenas 28% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência. Na média da OCDE, são 65%. Em leitura, são 49% no Brasil contra 69% na média da organização.

É preciso reconhecer que houve melhora recente no Ideb. Portanto, não seria correto afirmar que todos os indicadores educacionais pioraram. Mas o PISA revela um problema estrutural: quando nossos jovens são submetidos a uma avaliação internacional de aprendizagem, o Brasil continua abaixo da média da OCDE nas três áreas avaliadas. Para mim, depois de tantos anos, simplesmente ampliar estruturas e programas não basta. A pergunta fundamental precisa ser feita: o aluno está efetivamente aprendendo?

E é justamente aí que aparecem diferenças entre os programas. Lula enfatiza expansão da educação pública, ensino integral, universidades e institutos federais. Flávio Bolsonaro inclui alfabetização pelo método fônico, avaliação de resultados, escolas cívico-militares e outras mudanças na política educacional. São abordagens distintas para um problema que o Brasil ainda não resolveu.

Na economia, a discussão também é bastante concreta. O programa de Lula apresenta uma linha de continuidade baseada em investimentos públicos, PAC, política industrial e atuação do Estado como indutor do desenvolvimento. O programa de Flávio Bolsonaro propõe redução da estrutura federal, reforma administrativa, desestatizações e maior participação da iniciativa privada.

Esse debate acontece diante de um desafio fiscal relevante. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do Governo Geral chegou a 82,5% do PIB, ou R$ 10,9 trilhões, em julho de 2026. Somente nos sete primeiros meses do ano, houve aumento equivalente a 3,9 pontos percentuais do PIB.

Diante desses números, considero inevitável perguntar: qual deve ser o tamanho do Estado e como financiar suas políticas sem transferir uma conta crescente para a sociedade e para as próximas gerações? Essa não é uma discussão meramente ideológica. Dívida pública, juros e equilíbrio fiscal acabam produzindo consequências concretas para toda a economia.

Na segurança pública, os programas também apresentam abordagens distintas. O programa de Lula enfatiza integração entre as forças de segurança, inteligência, prevenção e investigação financeira das organizações criminosas. Flávio Bolsonaro apresenta propostas como classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas, reduzir a maioridade penal para 16 anos, ampliar o sistema penitenciário federal de segurança máxima e endurecer determinadas regras penais. São diferenças que estão expressamente registradas nos programas e que merecem ser conhecidas pela sociedade.

Há ainda divergências importantes sobre liberdade de expressão e plataformas digitais. O programa de Lula propõe avançar na regulação das redes sociais e plataformas para enfrentar desinformação e discurso de ódio, ao mesmo tempo em que afirma defender a liberdade de expressão. O programa de Flávio Bolsonaro propõe mudanças relacionadas ao Judiciário e apresenta uma iniciativa denominada no próprio documento de “Tesouraço na Censura”.

Nas questões de valores, as diferenças também aparecem de forma explícita. O programa de Flávio Bolsonaro coloca entre seus princípios o respeito à família, à liberdade religiosa e à vida desde a concepção. Já o programa de Lula contempla políticas relacionadas a gênero, identidade, orientação sexual, população LGBTQIA+ e direitos sexuais e reprodutivos. Não é necessário colocar palavras na boca de nenhum dos candidatos. Essas posições constam dos próprios documentos e cabe ao cidadão conhecê-las.

Para mim, portanto, uma das questões centrais desta eleição é a discussão entre continuidade e mudança. O Brasil convive há décadas com problemas que não podem ser apresentados como novidade a cada eleição. Na educação, o PISA mostra resultados próximos dos observados desde 2015. Nas contas públicas, a dívida bruta alcançou 82,5% do PIB em julho de 2026. Ao mesmo tempo, existem indicadores que avançaram e precisam ser reconhecidos. A realidade brasileira não cabe em slogans.

Mas justamente por isso considero legítimo questionar se a continuidade das mesmas linhas de atuação será suficiente para enfrentar problemas que permanecem há tantos anos. Os dois programas apresentam respostas diferentes para essa questão.

Economia, educação, segurança, liberdade e valores não são debates abstratos. Eles interferem diretamente na vida das pessoas. Por isso, esta eleição merece ser discutida menos pelo barulho das redes sociais e mais pelo conteúdo dos projetos apresentados ao país, com propostas na mesa, números verificáveis e clareza sobre as diferenças entre os caminhos apresentados para os próximos quatro anos.

A Sétima República

A República romana morreu muito antes de César atravessar o Rubicão. Morreu quando suas formas continuaram a funcionar sem que ninguém mais acreditasse nelas, quando o Senado ainda se reunia, os cônsules ainda eram eleitos, os augúrios ainda eram consultados, e nada daquilo decidia mais coisa alguma. Cícero gastou seus últimos anos de vida escrevendo sobre uma República que já só existia nos seus próprios livros.

O que mata um regime raramente é a violência. É a irrelevância, e a irrelevância chega sempre muito antes do epitáfio. A Sexta República brasileira, aquela a que se convencionou chamar de Nova em 1985 e que de nova nada tem senão o nome, morreu exatamente assim, por dentro e em silêncio, enquanto o noticiário discutia placares. O que o eleitorado fez no domingo, dia 4 de outubro, com a votação maciça em Flávio Bolsonaro e em candidatos da direita, não foi matá-la. Foi lavrar o atestado de óbito de um sistema político ineficaz e ineficiente.

Convém lembrar que o Brasil é um país de repúblicas sucessivas, e não de uma República contínua. Tivemos a República Velha, de 1889 a 1930. Tivemos o Governo Provisório e o arremedo constitucional de Vargas, de 1930 a 1937. Tivemos o Estado Novo, de 1937 a 1945. Tivemos a República Liberal de 1946, interrompida em 1964. Tivemos o regime militar, até 1985. E temos, desde então, a Nova República, que acaba de igualar em longevidade a Velha, 41 anos, e que morre exatamente da mesma enfermidade: uma classe política que confundiu os seus arranjos internos com a nação, e que passou a governar para preservar o arranjo, não o país.

O pacto de 1988 prometeu tudo e não financiou nada. Criou direitos sem lastro, instituições sem accountability e uma burocracia que se emancipou do eleitor. Ao longo de quarenta anos, essa engenharia foi capturada por um projeto específico, paciente e metódico, que entendeu antes de todos uma lição elementar de grande estratégia: quem domina as instituições permanentes não precisa vencer todas as eleições.

Daí a assimetria que a direita brasileira custou a compreender. A esquerda perdia pleitos e continuava governando o essencial, porque o essencial não estava no Planalto, estava nas agências, nas fundações, nos conselhos, nas carreiras de Estado, no Judiciário, nos currículos, na massa de manobra das universidades, nos editais e, de modo particularmente danoso, na política externa.

Nenhum setor ilustra melhor essa escalada de degradação do que o Itamaraty da última gestão Lula. Uma Casa construída por Rio Branco para defender o interesse nacional converteu-se em, mais do que concierge de criminosos, escritório de representação de autocracias, com uma diplomacia de comunicados insossos, de fotografias em cúpulas irrelevantes e de solidariedades automáticas a regimes que prendem opositores e eliminam liberdades fundamentais.

Chamou-se isso, com o auxílio da mídia chapa-branca, de protagonismo. Era o contrário. Protagonismo é a capacidade de alterar o cálculo alheio. O que se praticou foi a renúncia a essa capacidade em troca de afagos retóricos no circuito do chamado Sul Global, enquanto o país se tornava fornecedor cativo de commodities para quem lhe vende manufatura com valor agregado e lhe dita os termos. Trocou-se interesse por afinidade ideológica, e a conta, como sempre, chegou em forma de irrelevância.

Agora vem a parte que a imprensa ainda não processou. O Brasil não elegeu apenas uma maioria parlamentar conservadora. Elegeu governos estaduais conservadores, bancadas estaduais conservadoras e um Senado que, pela primeira vez na história republicana, não funcionará como câmara de contenção do impulso reformista, mas como seu motor. Isso muda a natureza do que está em jogo em 25 de outubro, com a esperança de eleição de um presidente de direita que prega a união nacional, e não a estratégia de divisão, como o anacrônico candidato da esquerda.

E o Brasil não está sozinho. Há uma recomposição política em curso na América do Sul, alimentada pelo esgotamento de modelos que prometeram proteção e entregaram estagnação, prometeram igualdade e multiplicaram privilégios, prometeram soberania e produziram dependência. O que acontece no Brasil integra uma transformação regional mais ampla. Mas nenhum país recebe da história a garantia de saber aproveitar a oportunidade que recebe.

A história inglesa oferece a analogia exata. Em 1660, os ingleses restauraram um rei. Em 1688, restauraram um regime. A diferença entre as duas datas é a diferença entre trocar o ocupante do trono e refundar as regras do jogo. O ciclo de 2018 foi o nosso 1660: uma vitória presidencial sem Estado, um comandante sem exército administrativo, um governo que passou quatro anos descobrindo, na carne, que a Presidência da República é a parte visível e menos poderosa do poder brasileiro. O que se desenha para 2027, com a eleição de Flávio Bolsonaro e um Congresso alinhado, é o nosso 1688. Não a troca do inquilino. A reescrita do contrato.

E aqui o ceticismo profissional exige a pergunta dura: alinhamento para quê? Maiorias não fazem história, projetos fazem. A Polônia de 1989 tinha a mesma janela e a usou para liberalizar preços e ancorar-se no Ocidente. O Chile dos anos oitenta a usou para reconstruir a previdência e abrir a economia. O Japão Meiji a usou para importar instituições sem importar subordinação. Em todos os casos, o que converteu o momento político em transformação histórica não foi o entusiasmo, foi a sequência: primeiro a arquitetura fiscal, depois a reforma do Estado, depois a inserção internacional. Fora dessa ordem, qualquer maioria se dissolve em quatro anos de administração de rotina e termina devolvendo o país aos seus antigos donos, com juros.

Mas, no fim, estamos falando de coisas que qualquer brasileiro conhece. Um Estado que cobre menos e entregue mais. Contas públicas que fechem. Ruas onde famílias possam andar sem medo. Um país em que trabalhar, produzir e empreender não sejam atos de resistência à burocracia. Energia abundante. Forças Armadas capazes de defender o território. Uma diplomacia que defenda o Brasil. E jovens que possam olhar para o futuro sem imaginar que precisam deixar o próprio país para encontrá-lo. É para isso que servem as reformas.

Reforma administrativa que devolva ao eleito o comando sobre o Estado, hoje sequestrado por corporações que se julgam poderes autônomos. Disciplina fiscal que não seja mais um contingenciamento cosmético, mas a extinção de distorções, gargalos e privilégios que nenhum país sério sustenta. Segurança pública tratada como política de Estado e não como reality show de ocasião. Exploração séria do nosso trunfo energético, do pré-sal ao ciclo completo do urânio, que o Brasil domina e subaproveita. Defesa orientada por dissuasão por negação, com a Amazônia e o Atlântico Sul como teatros prioritários, e não como temas de seminário. E uma política externa que volte a ter um critério único, o interesse nacional, com reposicionamento nas cadeias de valor, acordos comerciais que o Mercosul vem adiando há trinta anos e uma aliança sem complexos com as democracias que suportam o nosso futuro, não com os regimes que apenas o aplaudem.

Nada disso é utopia. É engenharia. A diferença entre um país grande e um país grandioso está inteiramente no intervalo entre o recurso e a decisão. Grandeza não é geografia. É escolha. E o Brasil é, desde sempre, o maior acervo de recursos subaproveitados do hemisfério. Temos terra, água, sol, urânio, nióbio, soja, povo jovem o bastante para produzir e velho o bastante para lembrar o que não deu certo. Falta-nos apenas o que nunca tivemos simultaneamente: vontade política e instrumento institucional para executá-la.

É fácil falar em Estado, instituições, reformas e estratégia como se tudo isso pertencesse apenas a Brasília. Não pertence. O fracasso de um Estado, materializado nas gestões petistas, tem endereço. Está na família que trabalha mais e vê o dinheiro comprar menos. Está no brasileiro que muda sua rotina porque tem medo de voltar para casa à noite. Está no pequeno empresário que perde horas tentando satisfazer uma burocracia que deveria servi-lo. Está no jovem qualificado que olha para outro país e se pergunta se precisará partir para ter futuro. É aí que o fracasso deixa de ser teoria. É quando entra dentro de casa.

Stefan Zweig chamou-nos de país do futuro, e a piada nacional completou que assim haveria de ser para sempre. A piada envelheceu mal, porque supunha que o futuro fosse um destino e não uma obra. Não é. Futuro é apenas o nome que se dá à soma das decisões que uma geração teve coragem de tomar no instante exato em que a história lhe abriu a porta. E a porta está aberta agora. Janelas históricas não permanecem abertas por simpatia nem por mérito, fecham-se com a mesma indiferença soberana com que se abriram, e o povo que não atravessa quando pode volta a esperar quarenta anos, de chapéu na mão, diante de uma parede.

Pensem no que esperou conosco. Esperou a geração de 1822, que fez um país e não conseguiu fazer uma nação. Esperou a de 1889, que trocou o Imperador por oligarquias e chamou aquilo de República. Esperou a de 1930, que prometeu modernizar e entregou o Estado Novo. Esperou a de 1964, que salvou o país de um naufrágio e não soube devolvê-lo ao timoneiro certo. Esperou a de 1985, que recebeu a democracia nas mãos como quem recebe um templo e a transformou numa repartição.


Mas não foram datas que esperaram. Foram nossos pais. Nossos avós. Esperaram milhões de brasileiros que trabalharam uma vida inteira acreditando que seus filhos finalmente viveriam no país que lhes havia sido prometido. Muitos morreram sem vê-lo.

Seis gerações olharam para este território imenso, para este povo generoso, para esta abundância quase indecente de sol, de terra, de água e de gente, e morreram sem ver o país que tudo isso prometia. O luto de um povo não se mede em estatísticas. Mede-se no que ele deixou de ser.

Pois bem. A espera acabou. A Sexta República está morta, e o enterro foi marcado para 25 de outubro. O que virá depois não será restauração, não será alternância, não será mais um governo. Será fundação. E fundações não se julgam pelo discurso de posse nem pelas manchetes do primeiro ano, julgam-se pelo que ainda estiver de pé meio século adiante, quando ninguém mais se lembrar dos nomes de quem as ergueu.

Que esta geração seja digna da hora que lhe coube. Que os homens que assumem o leme jamais esqueçam que não foram eleitos para administrar o declínio com mais competência, mas para interrompê-lo, e que a posteridade é impiedosa com quem teve o poder e só exerceu o cargo.

O Brasil esperou duzentos anos. Esperou calado, esperou resignado, esperou sendo roubado, esperou sendo ensinado a ter vergonha de si mesmo. Esperaram nossos pais e nossos avós. Agora nossos filhos olharão para nós. E terão o direito de perguntar o que fizemos quando chegou a nossa vez, quando se teve a oportunidade de votar por mudanças.

Chega. Que se levante, enfim, este gigante que o mundo admira por educação e teme por instinto. Que deixe de ser a promessa eterna de um futuro que nunca chega e se torne, de uma vez, o presente que o mundo precisará respeitar. Não por simpatia. Por necessidade.

O futuro do Brasil começa em 25 de outubro. Começa com cada um de nós. E, desta vez, não haverá desculpa.

Uma agenda externa difícil aguarda quem vencer o segundo turno 

A onda de vitórias das correntes da direita parece ter chegado ao Brasil, dotando esse campo político de maiorias no Senado e o governo de vários estados, além de ter levado seu candidato ao segundo turno, na liderança da corrida eleitoral. Independente da corrente ideológica, o vencedor do Segundo Turno terá que navegar por um cenário internacional desafiador. A política externa, tratada nas campanhas de forma superficial, será um dos terrenos em que o novo governo será testado mais rápido. 

O primeiro item na agenda é a relação com os Estados Unidos. O retorno do protecionismo e o uso de tarifas como instrumento de pressão política mostraram que o comércio bilateral pode ficar refém de disputas ideológicas, e mesmo concordâncias e alinhamentos ideológicos não retiram forte pressão dos EUA, a rejeição interna do público americano a carne argentina, mesmo com o alinhamento dos governantes, exemplifica os limites desses alinhamentos quando a base do governo Trump se mostra refratária a importações em geral. 

O segundo é a China, nosso maior investidor direto. A venda de soja, minério e petróleo garante superávits, que agradam setores do agronegócio, mas as importações da China são alvos de protestos constantes dos setores industriais. Cabe ao próximo presidente buscar abrir mercado para exportações com maior valor agregado e atrair investimentos que gerem tecnologia e empregos aqui, ao mesmo tempo que evite ser cooptado pela rivalidade entre Washington e Pequim. 

As relações com parceiros grandes como China e Estados Unidos mostram que é preciso preparar o que é interesse nacional permanente (acesso a mercados, investimentos, cooperação tecnológica) das afinidades ou antipatias do governante da hora. Mas, tanto as bases de Lula como a de Flávio Bolsonaro têm posições muito calcificadas quanto aos Estados Unidos e China, opostas é verdade, mas que igualmente agem como freio para posturas mais pragmáticas.

Na lista das relações que precisam de atenção temos também a agenda europeia. O acordo Mercosul-União Europeia, negociado por mais de vinte anos, segue cercado de resistências agrícolas e exigências ambientais. Concluí-lo e implementá-lo seria um contrapeso valioso tanto quanto a China e Estados Unidos, mas exigirá credibilidade na proteção da Amazônia, velha exigência e para alguns desculpa européia para resistir ao acordo. E é outro tema que deve encontrar muita resistência no Congresso e nas bases. 

As políticas climáticas são, ao mesmo tempo, nosso maior ativo diplomático e nossa maior vulnerabilidade. Depois de sediar a COP30, em Belém, o país carrega a expectativa de liderar com resultados concretos: queda do desmatamento, financiamento florestal, transição energética. Retórica sem entrega custará caro em reputação e em acesso a mercados. Abandonar essa agenda pode prejudicar até setores do agronegócio, que dependem de certificação ambiental para acesso a mercados lucrativos. 

Soma-se a isso a corrida por minerais críticos e tecnologia. O Brasil tem reservas relevantes e energia limpa em abundância, o que o torna peça cobiçada. A pergunta é se seremos apenas fornecedores de matéria-prima ou sócios na cadeia de valor, com processamento, pesquisa e indústria instalados em território nacional.

Na América Latina, temos como itens importantes na agenda internacional a instabilidade venezuelana, as fragilidades e contradições do Mercosul e o avanço do crime organizado transnacional que exigem liderança brasileira e concertação com os vizinhos. 

Quem subir a rampa do Palácio do Planalto dia 1º de janeiro terá uma agenda externa com dilemas importantes para o Interesse Nacional brasileiro e terá que navegar interesses concorrentes e antagônicos de diversos setores econômicos e sociais, em um cenário interno carregado ideologicamente que age como limite ao pragmatismo, desse modo, parafraseando Machado de Assis, em política externa ‘ao vencedor, as batatas quentes’. 

Diante dos riscos da China, Taiwan é um parceiro que defende a paz e fortalece a resiliência 

A recente reunião em Washington entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, atraiu grande atenção internacional. As negociações contínuas entre os dois lados sobre questões econômicas, comerciais, tecnológicas e de segurança, incluindo medidas como a prorrogação da trégua comercial por dois meses, demonstram que, mesmo que as relações EUA-China busquem uma “estabilidade estratégica construtiva”, as competições estruturais e as divergências entre si permanecem existentes.

 Após o encontro Trump-Xi em maio deste ano, Xi Jinping propôs a “estabilidade estratégica construtiva” como o novo posicionamento para as relações sino-americanas, enfatizando a cooperação, a competição moderada e o controle de divergências. No entanto, na segunda reunião de setembro, embora ambos os lados tenham mantido o diálogo e a cooperação de alto nível, as declarações dos líderes de ambas as nações revelaram que ainda existem entendimentos distintos sobre como essa “estabilidade” deve ser alcançada. 

Olhando por outro ângulo, o próprio encontro entre Trump e Xi constitui uma gestão de riscos. Os EUA e a China precisam manter o diálogo para evitar que erros de cálculo gerem escaladas; necessitam preservar o intercâmbio econômico e comercial, ao mesmo tempo em que reduzem a vulnerabilidade causada pela dependência em cadeias de suprimentos críticas e tecnologia; e precisam lidar com problemas comuns, ao mesmo tempo em que protegem seus respectivos interesses de segurança. “Gerenciar riscos enquanto se mantém o engajamento” tornou-se uma pauta crucial para a comunidade internacional diante da ascensão da China. 

O conceito de “de-risking” (redução de riscos), consolidado pela comunidade internacional nos últimos anos, é a manifestação concreta desse pensamento. Desde a reavaliação da União Europeia sobre sua dependência econômica em relação à China até a constante ênfase do G7 na segurança econômica e na resiliência das cadeias de suprimentos, os países não buscam um desacoplamento (decoupling) total da China, mas sim diminuir a dependência excessiva em áreas críticas, diversificar riscos e elevar a própria resiliência. 

O relatório sobre parceria de segurança e defesa aprovado pelo Parlamento Europeu em fevereiro deste ano também mencionou explicitamente que se deve aprofundar a cooperação de segurança e defesa com Taiwan, fortalecendo a resiliência econômica da UE por meio da “redução de riscos”.

 O mesmo ocorre na esfera da segurança. Às vésperas da cúpula Trump-Xi, representantes de oito países — Austrália, França, Alemanha, Japão, Nova Zelândia, Polônia, Coreia do Sul e Reino Unido — reiteraram conjuntamente, durante a Assembleia Geral da ONU, sua oposição a qualquer mudança unilateral no status quo do Estreito de Taiwan. Eles enfatizaram que a segurança, a paz e a prosperidade da Europa e da região Indo-Pacífico estão cada vez mais interconectadas. 

Esses desdobramentos merecem um olhar sereno por parte da sociedade taiwanesa. Sempre que as interações de alto nível entre os EUA e a China ganham destaque, surgem vozes internas em Taiwan manifestando “ceticismo em relação aos EUA” ou o “receio de abandono de Taiwan”. 

Contudo, a gestão dos riscos da China pela comunidade internacional não significa um confronto total com o país, da mesma forma, o desenvolvimento de políticas para a China por parte de várias nações não equivale a sacrificar as relações com Taiwan. Na verdade, as políticas para a China e para Taiwan podem coexistir paralelamente na prática. Para Taiwan, isso também significa que devemos participar de forma mais ativa na gestão de riscos da comunidade internacional.

 Diante da contínua expansão da China e dos riscos de segurança, econômicos e institucionais que ela acarreta, Taiwan necessita — e está fazendo isso — manter uma cooperação estreita com países de ideias afins na esfera diplomática, reduzindo conjuntamente os riscos de erros de cálculo e conflitos, além de fortalecer a paz e a resiliência regionais.

Tomando como exemplo esta cúpula Trump-Xi, o governo de Taiwan manteve uma excelente comunicação com o governo Trump e diversos setores dos EUA antes do encontro, trocando visões continuamente sobre temas cruciais para a paz e a estabilidade do Estreito de Taiwan e para as relações Taiwan-EUA, com canais de comunicação estáveis e fluidos. 

Após a cúpula, o embaixador dos EUA na China, David Perdue, afirmou em entrevista que “a política dos EUA para Taiwan não mudou”. Isso demonstra, mais uma vez, que a comunicação contínua e estável e a confiança mútua entre Taiwan e seus principais parceiros são componentes essenciais para manter a estabilidade no Estreito. O Diretor-executivo da IPAC afirma que a comunidade internacional precisa ponderar uma “Política de Uma Taiwan”.

Este é também um ponto que merece ser encarado seriamente nas discussões recentes sobre a “Política de Uma China”. As políticas para a China de cada país são estruturas moldadas com base em suas próprias histórias, diplomacias e interesses nacionais; porém, isso não significa que o “Princípio de Uma China” defendido por Pequim seja equivalente às políticas de cada nação, e muito menos que a China possa decidir por si mesma o espaço de Taiwan na comunidade internacional. Como instou recentemente Luke de Pulford, diretor-executivo da Aliança Interparlamentar sobre a China (IPAC), a comunidade internacional pode preservar a sua existente “Política de Uma China”, mas precisa formular uma “Política de Uma Taiwan” (One-Taiwan Policy), respondendo de forma mais clara à realidade da participação dos 23 milhões de habitantes de Taiwan na comunidade internacional. 

Desde meados da década de 1980, Taiwan promoveu reformas de liberalização e democratização, instituindo eleições legislativas e presidenciais diretas e consolidando uma estrutura estatal centrada na identidade de Taiwan. Esse processo fortaleceu o atual status quo de coexistência e não subordinação mútua entre a República da China (Taiwan) e a República Popular da China.

Taiwan possui seu próprio sistema democrático, sistema econômico, responsabilidades sociais e internacionais, sendo uma entidade política distinta da China. Naturalmente, os países podem desenvolver uma “política para Taiwan” (política de uma Taiwan) alinhada aos seus próprios interesses, além de sua “política para a China” (política de uma china) já existente. 

Os Estados Unidos são um exemplo concreto disso. Os EUA possuem uma estrutura política para a China baseada nos Três Comunicados Conjuntos, enquanto para Taiwan dispõem do Taiwan Relations Act (Lei de Relações com Taiwan), das Seis Garantias e de legislações correlatas aprovadas a longo prazo pelo Congresso como fundamentos institucionais. Esses arranjos provêm de diferentes fontes legais e políticas e não entram em conflito entre si; além disso, a política de longo prazo dos EUA para Taiwan permaneceu consistente ao longo de vários mandatos presidenciais e governos.

 Recentemente, parlamentares de ambos os partidos no Congresso dos EUA continuaram a reiterar o Taiwan Relations Act e as Seis Garantias, apoiando o fortalecimento das capacidades de autodefesa de Taiwan e opondo-se à narrativa do Princípio de Uma China de Pequim.

 No que tange às relações Taiwan-EUA, na dimensão da segurança, o governo dos EUA dá continuidade às vendas de armas para Taiwan que  se empenha em fortalecer sua capacidade de autodefesa e a resiliência de toda a sociedade, tendo elevado seu orçamento de defesa para mais de 3% do PIB, avançando na direção de concretizar a “partilha de responsabilidades”. 

Na dimensão econômica, ambos os lados avançaram do comércio e investimentos bilaterais para a cooperação em semicondutores, cadeias de suprimentos de IA e ecossistemas industriais, elevando a resiliência econômica e a segurança das cadeias de suprimentos por meio de estruturas como o EPPD e a iniciativa “Era do Silício” (Silicon Prosperity). Taiwan e os EUA estão moldando gradualmente uma “parceria simbiótica” que abrange segurança, economia, tecnologia e indústria. 

A mesma tendência se observa na Europa e no Indo-Pacífico. O relatório de avaliação do ambiente estratégico da União Europeia de setembro deste ano apontou que o comportamento assertivo da China no Estreito de Taiwan e nos mares do Leste e do Sul da China exerce impactos profundos na segurança da Europa e do Indo-Pacífico, enfatizando que qualquer ação para alterar o status quo no Estreito impactará a segurança global. 

Recentemente, durante a Assembleia Geral da ONU, a UE expressou novamente que o texto integral da Resolução 2758 da ONU não menciona Taiwan e que, desde que cumpra as regras ou práticas das organizações pertinentes, deve-se permitir a participação de Taiwan no sistema internacional, “especialmente porque a expertise técnica e a capacidade de Taiwan podem trazer valor agregado”, reiterando a importância estratégica da paz e da estabilidade no Estreito de Taiwan para a segurança regional e global. 

Taiwan é um parceiro para a paz e a resiliência globais. Essas mudanças evidenciam que Taiwan não deve se subestimar. No passado, durante a era da adesão da China à OMC e da rápida expansão da globalização, Taiwan enfrentou repetidamente o dilema da compressão de seu espaço internacional. Hoje, a comunidade internacional possui uma compreensão muito maior sobre os riscos econômicos, de segurança e institucionais trazidos pela China, e confere maior valor ao papel de Taiwan na democracia, tecnologia, cadeias de suprimentos e segurança regional. Especialmente diante da persistente distorção da Resolução 2758 da ONU por parte da China para vinculá-la ao seu “Princípio de Uma China”, a comunidade internacional passa a priorizar a distinção entre o texto da resolução e as interpretações políticas posteriores.

 A Resolução 2758 da ONU tratou da questão da representação da China nas Nações Unidas; o texto em si não faz menção a Taiwan, tampouco autoriza a República Popular da China a representar Taiwan no sistema da ONU. Diante da ascensão da China e dos desafios que ela impõe, o que a comunidade internacional necessita é de uma gestão prática de riscos.

 Taiwan é o defensor do status quo no Estreito e um contribuinte para a paz regional. Enquanto a comunidade internacional reflete conjuntamente sobre como gerenciar os riscos da China, Taiwan deve cooperar ativamente com países de ideias afins para, juntos, mitigar riscos, salvaguardar a paz e fortalecer a resiliência. Taiwan não deve ser vista como um problema a ser resolvido, mas sim como um parceiro na preservação conjunta da paz, da resiliência e da prosperidade.