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O Crisol Hemisférico: Volatilidade Gerenciada, Lawfare Digital e a Reconfiguração Estratégica das Relações EUA-Brasil em 2026

1. Introdução: A Geoeconomia da Volatilidade Gerenciada

Na atual conjuntura geopolítica, a relação bilateral entre os Estados Unidos e o Brasil passou fundamentalmente de uma era de alinhamento hemisférico presumido para um paradigma caracterizado pela “volatilidade gerenciada”. Em meados de 2026, a interação entre Washington e Brasília já não é ditada pelo engajamento diplomático convencional, pelas balanças comerciais tradicionais ou por uma retórica democrática compartilhada. Em vez disso, ela é profundamente moldada pela instrumentalização da política econômica como ferramenta de poder (economic statecraft), pelo lawfare judicial extraterritorial e pela crescente securitização da política interna. O retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca e o mandato em curso do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva geraram um atrito ideológico e estrutural complexo, que afeta todas as facetas do relacionamento bilateral, desde as cadeias de suprimentos agrícolas até a economia digital.

Este relatório abrangente apresenta uma análise detalhada da relação bilateral EUA-Brasil no contexto das eleições brasileiras de outubro de 2026, marcadas por intensa polarização. Ao analisar a cúpula Lula-Trump de maio de 2026, a escalada das guerras tarifárias, as medidas judiciais recíprocas e sem precedentes envolvendo o Tesouro dos EUA e o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, bem como os impactos hemisféricos decorrentes da intervenção militar dos EUA na Venezuela, emerge um quadro geopolítico claro. O Brasil busca agressivamente a autonomia estratégica por meio do BRICS e da União Europeia, tentando blindar sua economia contra alavancagens financeiras denominadas em dólar. Simultaneamente, os Estados Unidos utilizam cada vez mais mecanismos jurídicos, econômicos e de segurança extraterritoriais para disciplinar seu maior parceiro sul-americano, priorizando a segurança interna e a resiliência das cadeias de suprimentos em detrimento da cooperação multilateral.

2. A Cúpula Lula-Trump de Maio de 2026: Bilateralismo Transacional e Diplomacia de Imagem

Em 7 de maio de 2026, o presidente Lula e o presidente Trump realizaram uma cúpula de três horas, muito aguardada, na Casa Branca. Embora apresentada publicamente por ambas as administrações como um passo vital para recompor laços desgastados, a realidade subjacente do encontro evidenciou as profundas limitações da diplomacia pessoal em uma era de acentuadas divergências estruturais. A cúpula reuniu duas das figuras populistas mais proeminentes do mundo, ambas tendo protagonizado notáveis ​​retornos políticos após enfrentarem graves acusações de corrupção e condenações judiciais. Lula foi preso por corrupção em 2018, antes de suas condenações serem anuladas em 2019, enquanto Trump enfrentou múltiplas acusações criminais após a eleição de 2020. Apesar dessas semelhanças estruturais em suas trajetórias políticas, suas bases ideológicas permanecem diametralmente opostas.

2.1 O Cancelamento da Coletiva de Imprensa Conjunta e a Imagem Pública do Evento

O aspecto mais revelador da cúpula não foi a retórica diplomática, mas o cancelamento bastante visível da coletiva de imprensa conjunta programada para o Salão Oval. Relatos indicam que a delegação brasileira solicitou preventivamente o cancelamento para proteger o presidente Lula de perguntas politicamente sensíveis e desconfortáveis ​​sobre o processo judicial e a condenação em curso no Brasil contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em um ano eleitoral altamente polarizado, no qual Lula busca um quarto mandato não consecutivo e enfrenta o filho mais velho de Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, controlar a narrativa internacional é fundamental para o governista Partido dos Trabalhadores (PT). A imagem pública da cúpula — que culminou em um almoço informal com filé na embaixada brasileira, em vez de uma declaração conjunta formal na Casa Branca — ressalta uma relação bilateral definida mais pelo controle de danos políticos do que por um profundo alinhamento estratégico. O presidente Trump elogiou publicamente Lula nas redes sociais, descrevendo-o como um “presidente muito dinâmico”, observando que a reunião transcorreu “muito bem” e mencionando uma “excelente química”. No entanto, analistas geopolíticos veem isso como uma retórica diplomática padrão que, na prática, mascara a ausência de progressos substantivos e concretos.

2.2 Grupos de Trabalho como Mecanismos de Adiamento Geopolítico

Apesar do diálogo extenso sobre tarifas, comércio, segurança, minerais críticos e crime organizado, a reunião não gerou praticamente nenhum acordo bilateral imediato e concreto. Acordos previstos sobre minerais críticos e terras raras — vitais tanto para aplicações de defesa quanto para a transição energética verde — não se concretizaram. Isso reflete um arrefecimento do interesse dos EUA, possivelmente devido a acordos de cadeia de suprimentos que a administração Trump firmou com mais de cinquenta outras nações no início do ano, reduzindo assim a dependência norte-americana da extração brasileira.

Em vez disso, o principal resultado da cúpula foi a criação de um grupo de trabalho com prazo de 30 dias, encarregado de discutir a eventual suspensão das tarifas dos EUA sobre as exportações brasileiras. Do ponto de vista estratégico e político, a formação desse grupo de trabalho serve como um mecanismo de adiamento calculado para Brasília. Ele reduz temporariamente a ansiedade do mercado e garante à administração Lula um capital político vital às vésperas dos meses finais da campanha eleitoral de outubro. Ao assegurar uma pausa nas hostilidades tarifárias imediatas, o governo brasileiro evita novos choques macroeconômicos sem ser forçado a oferecer concessões estruturais imediatas em matéria de comércio, regulamentação tecnológica ou política de segurança nacional.

3. Arte de Governar Econômica: O Uso de Tarifas como Arma e a Coerção Hemisférica

A arquitetura econômica das relações entre EUA e Brasil foi fundamentalmente desestabilizada pela fusão, por parte da administração dos EUA, de prioridades de segurança interna com a política de comércio exterior. Os Estados Unidos utilizaram tarifas como arma — não como medidas comerciais padrão para corrigir desequilíbrios econômicos (especialmente considerando que os EUA mantêm um superávit comercial histórico com o Brasil de aproximadamente US$ 96 bilhões desde 2009 e de US$ 415 bilhões nos 15 anos anteriores), mas como ferramentas explícitas e coercitivas de disciplina política.

3.1 A Evolução e a Invalidação Jurídica do Conflito Tarifário

A disputa tarifária passou por várias fases voláteis e juridicamente contestadas ao longo do período de 2025-2026, gerando imensa incerteza para empresas multinacionais, cadeias de suprimentos globais e investidores soberanos.

Ação Regulatória

Data de Implementação

Mecanismo e Justificativa Geopolítica

Impacto no Mercado e Resolução

Escalada Executiva Inicial

30 de julho de 2025

Os EUA impõem tarifas de 50% por meio da Ordem Executiva 14323 (Enfrentamento de Ameaças aos EUA por parte do Governo do Brasil). Explicitamente vinculado à política interna brasileira, ao julgamento de Bolsonaro e às ordens de “censura” do STF. Provocou uma queda de US$ 3,7 bilhões nas exportações brasileiras para os EUA.

Contramedida Legislativa Brasileira

Abril de 2025

O Congresso brasileiro aprova a Lei nº 15.123/2025 (Lei de Reciprocidade Econômica).

Estabeleceu um mecanismo jurídico para retaliar práticas internacionais desleais mediante a suspensão de concessões comerciais, fortalecendo o poder de negociação do Poder Executivo.

Invalidação Judicial nos EUA

20 de fevereiro de 2026

A Suprema Corte dos EUA invalida as tarifas baseadas na IEEPA, em uma decisão tomada por 6 votos a 3.

Decidiu-se que o Poder Executivo excedeu sua autoridade ao utilizar poderes de emergência nacional para fins de retaliação comercial. A decisão desencadeou uma onda de litígios visando ao reembolso de tarifas cobradas indevidamente.

Substituição Imediata por Tarifa Global

21 de fevereiro de 2026

Os EUA impõem uma tarifa global de 15% com base na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 (Trade Act of 1974).

Uma medida temporária, limitada a 150 dias, salvo prorrogação pelo Congresso. Concebida para manter a pressão e, simultaneamente, contornar a decisão da Suprema Corte sobre a IEEPA.

A rápida alternância desses regimes tarifários evidencia uma grave consequência geopolítica de segunda ordem: a fragmentação absoluta da segurança jurídica no comércio hemisférico. A natureza variável e altamente volátil dessas tarifas continua a pesar fortemente sobre a confiança dos investidores, retraindo os fluxos comerciais tradicionais e acelerando o redirecionamento do comércio brasileiro para mercados asiáticos alternativos. Importadores buscam atualmente o reembolso de tarifas agora consideradas ilegais pela Suprema Corte dos EUA — as quais, segundo relatos, representam cerca de 60% da arrecadação tarifária —, dando início a um processo litigioso que provavelmente se prolongará por anos e desgastará ainda mais a confiança comercial bilateral.

3.2 Os Danos Colaterais da Arte de Governar Coercitiva

A crise tarifária de 2025 ilustra fundamentalmente os limites políticos da coerção econômica quando direcionada a um parceiro de grande porte e orientado pela autonomia, como o Brasil. Ao formalizar a medida inicial de 50% por meio da Ordem Executiva 14323, Washington elevou uma disputa comercial ao patamar de emergência nacional, alegando que as políticas internas brasileiras constituíam uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos EUA. A comunicação oficial citou explicitamente o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e as ordens judiciais de censura impostas a plataformas de redes sociais dos EUA como a justificativa para as tarifas.

Essa vinculação explícita entre comércio e questões judiciais internas afastou segmentos significativos dos setores conservador e do agronegócio brasileiro — que, de outra forma, poderiam apoiar um alinhamento mais estreito com Washington —, uma vez que muitas elites viam as ações dos EUA como uma violação inaceitável da independência do Judiciário brasileiro e da soberania nacional. Consequentemente, em vez de gerar uma obediência imediata, a abordagem coercitiva reforçou um consenso entre as elites brasileiras em torno da autonomia estratégica.

4. Geopolítica Agrícola: Corrupção Institucional e a Investigação Antitruste do DOJ

Embora as tarifas macroeconômicas dominem as manchetes, existe uma vertente paralela e altamente agressiva de atrito econômico na investigação criminal antitruste ativa do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) contra grandes empresas de processamento de carne. Essa investigação tem como alvo específico conglomerados de propriedade ou controle brasileiro, notadamente a JBS e a National Beef, marcando uma profunda interseção entre legislação antitruste, segurança nacional e ações de combate à corrupção.

4.1 Concentração de Mercado e a Securitização do Abastecimento de Alimentos

O setor agrícola dos EUA passou por uma consolidação histórica, com as quatro maiores processadoras de carne bovina controlando atualmente mais de 85% do mercado de processamento do país. A administração Trump utilizou essa estatística como arma política, apresentando a alta concentração de propriedade estrangeira — especificamente por interesses brasileiros — como uma ameaça direta e urgente tanto para os pecuaristas nacionais quanto para a segurança nacional dos EUA. A Secretária de Agricultura, Brooke Rollins, observou que o rebanho bovino dos EUA encolheu para 86,2 milhões de cabeças, o nível mais baixo desde a década de 1950, representando a perda de mais de 100.000 propriedades rurais na última década. Autoridades da Casa Branca atribuem essa redução não apenas à alta concentração de mercado, mas também ao ativismo de “esquerda radical” e ao “alarmismo” contra a pecuária bovina, combinando insatisfações internas de cunho populista com alvos do comércio exterior.

4.2 Denunciantes e Alegações de Corrupção Sistêmica

A investigação do Departamento de Justiça (DOJ) não é apenas uma medida regulatória econômica destinada a reduzir os preços da carne bovina; ela está profundamente ligada a uma narrativa geopolítica mais ampla de combate à corrupção institucional transnacional. O Procurador-Geral interino, Todd Blanche, tem incentivado denunciantes — incluindo pecuaristas, processadores e compradores corporativos — a relatar atividades ilícitas como fixação de preços, manipulação de licitações, divisão de mercado e fraudes em aquisições. Sob o programa de recompensas do DOJ para denunciantes de fraudes, indivíduos que forneçam informações úteis que levem a penalidades superiores a US$ 1 milhão podem receber até 30% dos valores recuperados.

Um ponto crucial é que a administração acusou empresas brasileiras de aproveitar seu domínio de mercado — próximo a um monopólio — para praticar tráfico de influência sistêmico. O conselheiro comercial da Casa Branca, Peter Navarro, alegou publicamente que empresas brasileiras, especialmente a JBS, exercem influência indevida ao injetar milhões de dólares no sistema político dos EUA, comparando a prática de doações políticas corporativas à distribuição de “doces”. Ao tratar esses esforços de lobby como uma forma de corrupção institucional e iniciar uma investigação criminal antitruste, o DOJ busca agressivamente desmantelar a influência de conglomerados agrícolas brasileiros no mercado americano. Isso representa um esforço profundo de dissociação no setor agrícola, onde a legislação antitruste atua como um instrumento de defesa econômica nacionalista contra a corrupção corporativa estrangeira.

5. Imperialismo Digital vs. Regulação Tecnológica Soberana: A Batalha pela Web Brasileira

O campo de batalha entre os Estados Unidos e o Brasil expandiu-se rapidamente das commodities agrícolas para o domínio digital. O Brasil vem afirmando agressivamente sua “soberania digital”, implementando estruturas regulatórias abrangentes que Washington e o Vale do Silício consideram protecionistas, ineficientes e altamente discriminatórias em relação às gigantes tecnológicas dos EUA.

5.1 O Efeito Bruxelas e a Lei de Mercados Digitais do Brasil

No centro desse conflito digital está o Projeto de Lei 4675/2025, que estabelece um marco regulatório formal ex ante para plataformas digitais que operam sob a legislação concorrencial brasileira. A legislação foi explicitamente concebida para enfrentar “disfunções nos ecossistemas digitais” e conter dinâmicas de mercado do tipo “o vencedor leva tudo” (winner-takes-all). Isso representa um exemplo clássico do “Efeito Bruxelas” — o fenômeno pelo qual a filosofia regulatória da União Europeia (especificamente a Lei de Mercados Digitais, ou DMA) é exportada para o Sul Global, forçando mercados emergentes a adotar regras digitais rigorosas e baseadas no princípio da precaução para manter a integração com as cadeias de valor europeias.

O Projeto de Lei 4675/2025 cria um novo órgão regulador, a Superintendência de Mercados Digitais, vinculada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). O projeto estabelece limites de receita elevados para a designação de plataformas como “agentes econômicos de relevância sistêmica”: as plataformas devem gerar R$ 5 bilhões (aproximadamente US$ 900 milhões) em receita doméstica no Brasil ou R$ 50 bilhões (US$ 9 bilhões) globalmente.

Marco Regulatório

Estilo Regulatório

Critérios de Designação

Principais Obrigações e Proibições

Lei de Mercados Digitais da UE (DMA)

Regulamentações ex ante abrangentes.

Métricas quantitativas (receita, base de usuários).

Proibições amplas (per se) de autopreferência e combinação de dados.

Lei de Mercados Digitais, Concorrência e Consumidores do Reino Unido (DMCC)

Determina obrigações específicas para cada empresa.

Avaliações de status estratégico de mercado.

Requisitos de conduta personalizados.

Projeto de Lei Brasileiro 4675/2025

Híbrido: Códigos personalizados + proibições amplas.

Receita doméstica de R$ 5 bi ou global de R$ 50 bi.

Vinculações regulatórias de 10 anos; proibições de autopreferência, venda casada (tying) e alavancagem defensiva.

Como estima-se que apenas 5 a 10 empresas atendam aos critérios brasileiros — quase todas empresas de tecnologia sediadas nos EUA —, lobistas e think tanks americanos argumentam que o projeto institui um regime altamente discriminatório. Críticos sustentam que o projeto funciona como uma forma de “imperialismo digital” às avessas, sufocando a inovação local por meio de custos de conformidade elevados e penalizando a escala que permite às empresas americanas oferecer serviços eficientes. Além disso, ao abandonar os paradigmas tradicionais de defesa da concorrência que exigem a comprovação de falha de mercado e, em vez disso, basear-se em obrigações regulatórias preventivas com vigência de dez anos, a legislação ignora a dinâmica schumpeteriana da destruição criativa que impulsiona o avanço tecnológico.

5.2 Lobby Corporativo e Investigações Comerciais sob a Seção 301

O movimento legislativo em prol da soberania digital no Brasil desencadeou uma contraofensiva de lobby em larga escala em Washington. Em outubro de 2024, a Computer & Communications Industry Association (CCIA) — um influente grupo de lobby que representa Google, Meta, Amazon, Apple e Microsoft — publicou um relatório abrangente detalhando políticas brasileiras que entravam em conflito direto com os interesses comerciais dos EUA.

As queixas da CCIA forneceram um roteiro detalhado para retaliações comerciais dos EUA, visando:

Leis de Proteção de Dados: Críticas à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) do Brasil devido às regras rigorosas para a transferência internacional de dados.

Regulação de IA: Oposição ao Projeto de Lei nº 2338/2023 sobre IA, que exige compensação por direitos autorais pelo conteúdo utilizado no treinamento de sistemas de IA.

Tributação: Contestação do imposto de importação de 20% sobre compras online (a “taxa das blusinhas”) e das taxas de uso de rede, concebidas para fazer com que grandes empresas de tecnologia contribuam para o financiamento da infraestrutura nacional.

Supervisão de Plataformas: Lobby contra projetos de lei que exigem 25% de participação acionária local para empresas de TI e propõem a criação de um Fundo de Supervisão de Plataformas Digitais.

Esse lobby corporativo impulsionou diretamente a decisão do Gabinete do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) de iniciar uma investigação oficial com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974. O presidente Trump rapidamente incorporou essas barreiras comerciais à sua narrativa política mais ampla, citando a defesa da plataforma X, de Elon Musk, contra as “ordens de censura SECRETAS e ILEGAIS” do Supremo Tribunal Federal do Brasil como uma das principais justificativas para a investigação sob a Seção 301 e as tarifas subsequentes.

5.3 A Atuação Enérgica do CADE e a Responsabilidade nos Termos do Artigo 19

Enquanto o Projeto de Lei 4675/2025 tramita no Congresso sob regime de urgência, a autoridade antitruste brasileira (CADE) e o Poder Judiciário têm utilizado de forma proativa os marcos regulatórios existentes para disciplinar empresas de tecnologia dos EUA. Em 2025 e no início de 2026, o CADE intensificou significativamente sua atuação contra supostas condutas anticompetitivas, concentrando-se especificamente nos mercados digitais.

Microsoft: Em julho de 2025, o CADE instaurou um inquérito administrativo para investigar supostos abusos de posição dominante em sistemas operacionais para PCs. Essa investigação foi ampliada em janeiro de 2026 para abranger o mercado de computação em nuvem, focando em vendas casadas e barreiras artificiais à concorrência.

Meta: Após denúncias de startups concorrentes do setor de chatbots de IA, o CADE impôs medidas preventivas rigorosas em janeiro de 2026, determinando que a Meta suspendesse alterações nos termos do WhatsApp Business que, supostamente, restringiam o acesso de concorrentes para favorecer sua própria ferramenta, a Meta AI. Tanto o Tribunal do CADE quanto o STF mantiveram essas medidas, ordenando que a Meta restabelecesse as condições de acesso anteriores.

Paralelamente, o Supremo Tribunal Federal (STF) proferiu uma decisão histórica no final de 2025 sobre a responsabilidade civil de provedores de aplicações de internet. Ao declarar inconstitucionais partes do Artigo 19 do Marco Civil da Internet (MCI), o STF estabeleceu um novo e profundo “dever de cuidado”. Os provedores passam a ser responsabilizados pela disseminação sistêmica de conteúdo ilegal grave, mesmo sem ordem judicial específica prévia, estabelecendo-se uma responsabilidade presumida em relação a anúncios pagos e redes de distribuição algorítmica. Somadas à iminente implementação do “ECA Digital” (Lei 15.211/2025), voltado à proteção de menores no ambiente online, essas medidas judiciais transferem decisivamente o ônus da moderação de conteúdo para as plataformas dos EUA, aumentando drasticamente seus riscos operacionais e potenciais responsabilidades financeiras no mercado brasileiro.

6. Atrito Judicial: Lawfare, Sanções e Retaliação Assimétrica

Talvez o desdobramento mais extraordinário e desestabilizador nas relações contemporâneas entre EUA e Brasil seja o confronto direto e institucional entre os respectivos poderes Judiciário e os órgãos do Executivo responsáveis ​​pela aplicação de sanções. A relação bilateral testemunhou a aplicação inédita de sanções financeiras severas — instrumentos tipicamente reservados a Estados párias, terroristas e oligarcas — contra autoridades judiciais máximas de um aliado democrático.

6.1 O Uso da Lei Global Magnitsky como Arma contra o STF

Em retaliação direta às ações do STF — que incluíram o congelamento de ativos de empresas norte-americanas, a revogação de passaportes de críticos conservadores e a imposição de longas prisões preventivas a apoiadores de Jair Bolsonaro sem acusação formal —, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro dos EUA tomou a medida extrema de sancionar o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Com base na Ordem Executiva 13818, que implementa a Lei Global Magnitsky de Responsabilização por Direitos Humanos, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, acusou o ministro Moraes de conduzir uma “caça às bruxas ilegal” e de orquestrar uma “campanha opressiva de censura”. O governo dos EUA classificou as ações de Moraes — particularmente a emissão extraterritorial de mandados de prisão contra jornalistas sediados nos EUA e a imposição a empresas norte-americanas de redes sociais para que removessem contas — como graves violações de direitos humanos que ameaçam a Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

Essa ação sem precedentes escalou rapidamente. O OFAC estendeu as sanções de bloqueio à Lex Instituto de Estudos Jurídicos LTDA, uma holding proprietária dos imóveis residenciais da família Moraes, e designou a esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, na qualidade de administradora única do instituto. Ao visar as redes familiares e financeiras que sustentam um ministro em exercício da Suprema Corte, os EUA efetivamente isolaram uma das figuras institucionais mais poderosas do Brasil do sistema financeiro global.

A Associação da Ordem dos Advogados de Nova York (New York City Bar Association) e juristas internacionais criticaram severamente essas sanções, argumentando que elas violam os Princípios Básicos da ONU sobre a Independência da Magistratura e constituem uma tentativa flagrante de intimidar juízes estrangeiros pelo cumprimento de seus deveres constitucionais. As implicações de terceira ordem desse ato são profundas: ao sancionar o Judiciário de uma nação aliada, os Estados Unidos diluíram as fronteiras entre a defesa dos direitos humanos e a coerção geoeconômica, enquadrando o legítimo processo interno relativo à tentativa de golpe de Jair Bolsonaro como uma violação de direitos humanos motivada politicamente, a fim de justificar uma guerra financeira.

6.2 A Retaliação Assimétrica do STF: Propriedade de Terras e Terras Raras

O Judiciário brasileiro não respondeu a essas sanções com mera retórica diplomática; respondeu com uma retaliação geoeconômica calculada e assimétrica. Em 23 de abril de 2026, o Plenário do STF proferiu uma decisão unânime e histórica que manteve o regime altamente restritivo da Lei nº 5.709/1971.

Essa legislação específica equipara juridicamente empresas brasileiras com participação majoritária de capital estrangeiro a pessoas jurídicas estrangeiras, limitando rigorosamente e submetendo a um escrutínio severo a sua capacidade de adquirir ou arrendar propriedades rurais no Brasil. Embora aparentemente apresentada como uma norma agrícola interna, a intenção geopolítica foi explicitamente articulada no voto-vista do próprio Ministro Alexandre de Moraes. Ele enfatizou que a restrição é um mecanismo fundamental e inegociável para preservar a soberania nacional sobre “terras raras” e minerais críticos.

Ao validar essas restrições, o STF desferiu um golpe severo e estrutural contra os investimentos do agronegócio dos EUA, os fundos de investimento internacionais e as cadeias de suprimento de minerais críticos. A decisão blinda juridicamente a vasta riqueza territorial e mineral do Brasil contra as estratégias de aquisição do capital internacional (especificamente o americano). Isso demonstra que o Judiciário brasileiro se vê não apenas como um árbitro jurídico, mas como um defensor primordial da autonomia estratégica nacional, disposto a utilizar o direito administrativo e imobiliário brasileiro como contra-arma frente aos interesses econômicos dos EUA, em resposta a sanções globais.

7. Crime Organizado Transnacional e a Politização da Segurança Hemisférica

No clima de intensa polarização que antecede as eleições brasileiras de outubro de 2026, a questão da segurança hemisférica e do crime organizado transnacional tornou-se um ponto focal altamente volátil. O tema atua, simultaneamente, como um imperativo de segurança genuíno e urgente e como uma questão divisiva profundamente politizada, explorada tanto por facções internas quanto por potências estrangeiras.

7.1 A Ameaça de Classificação como FTO: PCC e Comando Vermelho

A administração Trump sinalizou a intenção iminente de classificar as duas maiores organizações criminosas do Brasil — o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês). Essa mudança de paradigma passa a encarar esses grupos não apenas como cartéis de drogas violentos, mas como redes terroristas transnacionais sofisticadas, capazes de projetar poder em escala global.

O PCC evoluiu muito além de suas origens no sistema prisional de São Paulo, transformando-se em um empreendimento global vasto e diversificado, com cerca de 40 mil membros atuando em 30 países. Operações de inteligência recentes revelaram a escala impressionante da infiltração do PCC na economia formal e legítima. Operações da Polícia Federal brasileira em agosto de 2025 demonstraram que recursos ilícitos do PCC circulavam livremente por meio de postos de gasolina, fundos imobiliários e empresas de construção comercial. O aspecto mais alarmante foi a revelação de uma profunda corrupção na política municipal: operadores ligados ao PCC utilizaram plataformas de fintech multimilionárias para financiar campanhas eleitorais municipais em 2024, visando garantir contratos lucrativos de coleta de lixo e concessões de transporte público por ônibus.

O alcance global da organização está em rápida expansão. O PCC estabeleceu alianças táticas com o Tren de Aragua — grupo venezuelano classificado pelos EUA como FTO — para adquirir armamento pesado e consolidou bases logísticas estratégicas em grandes portos europeus, como Antuérpia, Roterdã e Hamburgo. Além disso, autoridades policiais dos EUA identificaram redes ligadas ao PCC envolvidas no tráfico de fentanil e armas de fogo na Flórida, em Nova York, em Nova Jersey e em Massachusetts.

7.2 Riscos de Compliance Corporativo e Efeitos Inibidores na Economia

Caso a designação como FTO (Organização Terrorista Estrangeira) seja formalizada pelo Departamento de Estado dos EUA, as implicações econômicas para a relação bilateral serão potencialmente catastróficas. Segundo a legislação americana, fornecer “apoio material” a uma FTO sujeita entidades a sanções criminais severas, bloqueio de ativos e ações judiciais cíveis. Como a definição jurídica de apoio material é extremamente ampla, empresas multinacionais que operam na América Latina poderiam enfrentar sanções americanas paralisantes caso suas cadeias de suprimentos, rotas logísticas ou operações financeiras se cruzassem com empresas infiltradas pelo PCC, mesmo que de forma inadvertida. Isso cria um ambiente de risco de compliance extremo e quase incontrolável, podendo resultar em uma debandada de empresas americanas de capital e logística avessas ao risco do mercado brasileiro.

7.3 O Cálculo Eleitoral e a Reação Democrática

Internamente, a ameaça de designação como FTO é altamente desestabilizadora para o presidente Lula. Legisladores democratas dos EUA, liderados pelo deputado Jim McGovern, enviaram uma solicitação formal ao Secretário de Estado Marco Rubio, alertando que a administração Trump está instrumentalizando a designação de FTO para influenciar indevidamente as eleições brasileiras. Eles argumentam que aplicar a designação de FTO sem preencher os critérios legais claros para atividades terroristas reais constitui uma tentativa evidente de minar a autoridade interna de Lula, retratando sua gestão como “leniente com o crime” e, ao mesmo tempo, validando as narrativas de segurança de linha dura e militarizada defendidas pela ala bolsonarista.

Para antecipar-se a essa ação unilateral dos EUA, o governo Lula empreendeu uma gestão diplomática urgente. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, enfatizou a disposição do Brasil em ampliar a cooperação no combate a cartéis. Em abril de 2026, o Brasil assinou um acordo crucial de compartilhamento de inteligência com a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) para integrar operações de inteligência e interceptar o tráfico de armas e entorpecentes, concordando especificamente em compartilhar dados de raio-X de contêineres de carga que transitam entre os dois países. Ao demonstrar cooperação institucional proativa, Brasília espera neutralizar a justificativa geopolítica para a designação de FTO, embora autoridades americanas continuem a considerar a preferência de Lula por abordagens baseadas em políticas sociais para o combate ao crime como profundamente insuficiente.

8. Ondas de Choque Regionais: A Queda de Maduro e a Reconfiguração da América Latina

O cálculo geopolítico da América Latina foi violenta e fundamentalmente alterado em 3 de janeiro de 2026, quando as Forças Armadas dos Estados Unidos executaram a Operação Absolute Resolve. Em uma incursão militar rápida e multidomínio em Caracas, envolvendo a Delta Force, a CIA e o 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais, as forças dos EUA capturaram o então presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, transportando-os para Nova York para responder a acusações federais de narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína e crimes relacionados a armas.

8.1 Desestabilização Regional, Uso de Informações Privilegiadas e Precedente Militar

O sucesso tático imediato da breve operação — que durou menos de três horas — resultou na assunção da vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente em exercício. Apesar da convicção do presidente Trump de que um ataque rápido de “decapitação” (remoção da liderança) resultaria em um governo dócil e alinhado aos EUA, a estrutura de poder venezuelana, profundamente enraizada, permaneceu em grande parte intacta, levando a uma profunda instabilidade regional. Rodríguez rejeitou imediatamente a autoridade dos EUA, prometendo defender os recursos naturais da Venezuela e exigindo o retorno de Maduro.

A operação também gerou consequências bizarras e alarmantes em relação à segurança operacional e à corrupção nos EUA. O Departamento de Justiça indiciou um sargento-mestre do Exército dos EUA que utilizou informações de inteligência sigilosas sobre a iminente incursão para lucrar US$ 400.000 por meio de negociações baseadas em informações privilegiadas (insider trading) no site de mercado de previsões Polymarket, apostando que Maduro seria deposto até 31 de janeiro. Além disso, o ataque militar provocou graves crises colaterais em todo o Caribe; Cuba mergulhou ainda mais em um severo bloqueio energético, uma vez que sua principal fonte de petróleo venezuelano subsidiado foi totalmente cortada em meio ao caos.

Para o Brasil e para o continente como um todo, a Operação Absolute Resolve representa um pesadelo estratégico. Ela estabelece um precedente modernizado para a intervenção militar unilateral dos EUA e para a mudança de regime explícita em solo sul-americano. Isso valida de forma violenta os receios históricos da América Latina em relação ao imperialismo norte-americano, revivendo memórias marcantes do apoio documentado dos EUA à ditadura militar brasileira de 1964. Embora aliados como o Reino Unido tenham reconhecido o fim do regime ilegítimo de Maduro, enfatizaram a necessidade urgente de uma transição democrática pacífica para evitar mergulhar a região em mais violência — um sentimento fortemente compartilhado por diplomatas brasileiros.

8.2 A Reconfiguração Estratégica do Mercosul e a Virada para a Europa

No cenário volátil que se seguiu à saída de Maduro, o bloco comercial regional Mercosul — que havia suspendido a Venezuela por tempo indeterminado em 2016 devido a falhas crônicas nos âmbitos democrático e comercial — está reavaliando ativamente a situação do país. O vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, confirmou que, com a Venezuela “vivendo um momento diferente”, a perspectiva de seu retorno ao bloco está sendo discutida ativamente. A reintegração de uma Venezuela pós-Maduro alinha-se à estratégia mais ampla e de longo prazo do Brasil de consolidar a unidade econômica sul-americana como um baluarte geográfico contra a hegemonia unilateral dos EUA.

Além disso, para proteger o continente da extrema volatilidade das políticas comerciais e das tarifas punitivas dos EUA, o Mercosul alcançou um marco histórico. Superando mais de duas décadas de negociações árduas e a recente e firme oposição de setores agrícolas protecionistas europeus (notadamente na França), o importante acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia entrou em vigor, em caráter provisório, em 1º de maio de 2026.

Esse acordo reduziu imediatamente a zero as tarifas de quase 5.000 produtos. Segundo o vice-presidente Alckmin, projeta-se que a plena implementação do acordo impulsione as exportações brasileiras em impressionantes 13% até 2038, com uma previsão de aumento de 26% nas exportações industriais. Entre os setores que sentirão impactos positivos imediatos estão os de açúcar, frutas, carne de aves e carne bovina. Essa ampla integração transatlântica oferece ao Brasil e à América Latina uma válvula de escape geopolítica essencial, reduzindo drasticamente a dependência econômica do mercado norte-americano e permitindo contornar as incertezas associadas às investigações da Seção 301 dos EUA.

9. Autonomia Estratégica: A Alternativa dos BRICS e o Isolamento Financeiro

À medida que os Estados Unidos utilizam agressivamente sua dominância sobre o sistema financeiro global para sancionar autoridades estrangeiras, congelar ativos e impor regimes jurídicos extraterritoriais, o Brasil acelerou a busca por uma “autonomia estratégica” abrangente. Um pilar central dessa estratégia defensiva é a integração mais profunda na estrutura ampliada do BRICS+ e uma reorientação estrutural e irreversível em direção à República Popular da China.

9.1 A Reorientação Estrutural para Pequim

Desde 2009, a China mantém a posição de maior parceiro comercial do Brasil. No entanto, a agenda do governo Lula para 2025-2026 concentrou-se em elevar qualitativamente essa relação, indo muito além da mera exportação de commodities agrícolas brutas e minério de ferro. Diante de tarifas imprevisíveis e da hostilidade política dos EUA, o Brasil acolheu vultosos investimentos estrangeiros diretos da China em setores estratégicos, incluindo portos de águas profundas, infraestrutura de energia renovável, redes digitais e logística.

Esse aprofundamento da relação não é estritamente ideológico; é fundamentalmente pragmático e impulsionado pela necessidade de sobrevivência. O poderoso setor do agronegócio brasileiro — que historicamente tendia ao conservadorismo e mantinha estreito alinhamento com Washington durante os primeiros mandatos de Trump e Bolsonaro — reconheceu de forma contundente as vulnerabilidades estruturais de depender do mercado norte-americano. Quando os EUA impuseram tarifas punitivas de 50% no final de 2025 — resultando em uma queda imediata de US$ 3,7 bilhões nas exportações para o país —, o Brasil redirecionou com sucesso e rapidez seus fluxos comerciais para mercados asiáticos alternativos. Com isso, o Brasil encerrou 2025 com um volume recorde de exportações globais totais, demonstrando uma agilidade econômica que minou fundamentalmente a tradicional alavancagem estrutural de Washington sobre Brasília.

9.2 Diversificação Cambial e Sistemas de Pagamento do BRICS

Na 17ª Cúpula do BRICS, realizada em Kazan em 2024, lançaram-se as bases para o que se tornou um foco central da política externa brasileira em 2026: a diversificação cambial e a criação de mecanismos de pagamento alternativos. Embora amplamente caracterizada na mídia ocidental como um esforço de “desdolarização” hostil e de motivação ideológica, destinado a destruir a ordem financeira dos EUA, a realidade da estratégia financeira do BRICS é uma iniciativa altamente pragmática em prol da resiliência sistêmica e da mitigação de riscos soberanos.

Ao desenvolver sistemas de pagamento alternativos do BRICS, o Brasil, a China e seus parceiros buscam contornar a rede SWIFT — controlada pelo Ocidente — e as câmaras de compensação dominadas pelo Tesouro dos EUA. Esse movimento é uma resposta direta e calculada à disposição demonstrada pelo governo dos EUA de utilizar o dólar como arma para congelar ativos de entidades estrangeiras, empresas e até mesmo de autoridades judiciais de alto escalão — como exemplificado pelas sanções sem precedentes contra o Ministro Alexandre de Moraes e o Lex Institute.

Ao liquidar cada vez mais o comércio bilateral em moedas locais (como o renminbi chinês e o real brasileiro), o Brasil mitiga sua exposição macroeconômica à volatilidade das taxas de juros dos EUA e neutraliza a ameaça devastadora de sanções financeiras secundárias norte-americanas. Trata-se de uma estratégia de diversificação de portfólio e defesa soberana, representando um esforço calculado para construir uma arquitetura financeira multipolar, em vez de forçar uma escolha geopolítica binária entre a esfera de influência dos EUA e a da China.

10. Conclusão: O Novo Equilíbrio da Gestão de Crises Episódicas

A relação bilateral entre os Estados Unidos e o Brasil em 2026 é emblemática de uma transição estrutural mais ampla na geopolítica global. A era histórica de alinhamento hemisférico incontestável e idealismo democrático compartilhado foi irrevogavelmente substituída por um engajamento altamente transacional, de postura defensiva e marcado por profunda desconfiança.

A análise exaustiva das atuais políticas comerciais, do lawfare judicial, da regulação tecnológica e dos aparatos de segurança aponta para várias conclusões fundamentais sobre a trajetória futura dessa relação crítica:

A Securitização Irreversível do Comércio: Os Estados Unidos mudaram permanentemente seu paradigma comercial. Washington continuará a utilizar tarifas voláteis, investigações antitruste abrangentes (por exemplo, a ação do Departamento de Justiça contra a JBS e a National Beef) e programas de incentivo a denunciantes (whistleblowers) como extensões diretas da segurança nacional e da estratégia política interna. Acordos comerciais multilaterais estão agora totalmente subordinados ao alinhamento político e a narrativas populistas domésticas.

Soberania Judicial como Arma Geoeconômica: O STF brasileiro consolidou-se como um ator potente e independente na política externa. Por meio da aplicação rigorosa da responsabilidade digital (Artigo 19 do MCI) e da restrição estratégica e retaliatória à aquisição de terras e de terras raras por estrangeiros (Lei nº 5.709/1971), o STF demonstrou grande capacidade de infligir danos econômicos assimétricos em resposta direta às sanções dos EUA sob a Lei Global Magnitsky.

A Descida da Cortina de Ferro Digital: O embate sobre soberania digital e regulação tecnológica só tende a se intensificar. À medida que o Brasil avança com o Projeto de Lei 4675/2025 e emula as estruturas regulatórias ex ante e intervencionistas da UE, os conglomerados de tecnologia dos EUA enfrentarão uma escolha dura e custosa: cumprir estruturas regulatórias fortemente localizadas e de longo prazo (horizonte de 10 anos) que penalizam sua escala, ou abandonar completamente o maior mercado consumidor da América Latina.

Cooperação em Segurança Refém da Política Eleitoral: A ameaça iminente e politicamente carregada de o Departamento de Estado dos EUA designar o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras continuará a pairar sobre as eleições brasileiras de outubro de 2026. Essa dinâmica garante que as iniciativas bilaterais de segurança sejam vistas sob a ótica de profunda desconfiança, limitando severamente o potencial para uma cooperação institucional profunda e apolítica no combate ao crime transnacional. Multipolaridade Acelerada e Isolamento Regional: O choque causado pela remoção de Nicolás Maduro pelas forças armadas dos EUA e a subsequente instrumentalização do comércio bilateral como arma impulsionaram fortemente a integração latino-americana. A operacionalização bem-sucedida do amplo acordo de livre-comércio entre a UE e o Mercosul, somada à crescente dependência do Brasil em relação aos investimentos chineses e à arquitetura financeira do BRICS, garante que os Estados Unidos vejam seus mecanismos tradicionais de coerção econômica cada vez mais neutralizados por um Sul Global resiliente, diversificado e altamente autônomo.

Em última análise, o desfecho mais plausível e realista para o restante da década é um estado de volatilidade gerenciada. Uma cooperação limitada e seletiva persistirá em setores de benefício mútuo, nos quais ambos os governos possam reivindicar vitórias internas tangíveis. No entanto, a gestão episódica de crises atuará como o verdadeiro fator de estabilização da relação, evitando uma ruptura diplomática completa e reconhecendo, ao mesmo tempo, que o verdadeiro alinhamento estratégico é um vestígio de uma era passada. A relação entre EUA e Brasil continuará a operar no fio da navalha, definida pela constante recalibragem de poder de influência, retaliação e pela busca incessante por autonomia soberana.

AKA GATE: https://sites.google.com/view/aka-gate/home?authuser=0

Famílias brasileiras dizem defender liberdade, mas querem internet controlada pelo governo

Pesquisa exclusiva da Market Analysis em parceria com o Family Talks revela algo forte sobre internet: 72% dos brasileiros apoiam a adoção, no Brasil, de uma legislação semelhante à australiana para restringir o uso de redes sociais por menores de 16 anos. Ao mesmo tempo, 61% dizem que são as famílias quem devem decidir a relação entre os filhos e internet.

A pesquisa vai muito além desses números, contraditórios entre si. Mostra um país acuado diante da tecnologia, convencido de que a família deve proteger seus filhos, mas cada vez mais disposto a entregar ao Estado o controle da porta de entrada da internet.

O estudo ouviu 1.011 brasileiros adultos, das cinco regiões do país, de todas as classes socioeconômicas, entre 1.º e 16 de janeiro de 2026. A amostra foi organizada com cotas cruzadas de região, idade, sexo e classe social, para garantir representatividade dos diferentes grupos demográficos. A pesquisa foi realizada pela consultoria Market Analysis em parceria com o Family Talks, uma ONG brasileira, classificada como OSCIP, que atua no fortalecimento das famílias no debate público.

O Family Talks surgiu a partir da Associação de Desenvolvimento da Família, criada em 1978, e passou a atuar com advocacy desde 2017. Sua frente de trabalho envolve relações governamentais, produção de pesquisas e atuação na opinião pública, sempre com a tese de que famílias fortalecidas são uma estratégia central de proteção social. Isso importa porque a pesquisa não parte de uma visão que despreza a família. Ao contrário, ela coloca a família no centro do problema. Justamente por isso, o resultado é tão relevante.

Segundo o levantamento, 58,8% dos entrevistados afirmam que as redes sociais prejudicam mais do que beneficiam crianças e adolescentes. Entre aqueles que enxergam prejuízo maior, o apoio à regulação cresce. A conclusão é intuitiva: quanto mais a pessoa percebe dano concreto à saúde mental, ao desenvolvimento, ao bem-estar e à rotina dos jovens, mais ela aceita uma intervenção estatal sem nem questionar as consequências.

A pesquisa também mostra que esse apoio é amplo e transversal. Não aparece apenas entre pais, mães, conservadores, progressistas, pessoas com filhos ou grupos específicos. Homens e mulheres, pessoas com e sem filhos e diferentes perfis de uso digital demonstram apoio expressivo à ideia de restringir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais. O tema, portanto, já deixou de ser uma preocupação de nicho. Virou um consenso social em formação.

O Brasil segue uma tendência internacional. Na Austrália, cerca de 70% dos adultos apoiam a proibição do uso de redes sociais por menores de 16 anos. Uma pesquisa da Ipsos realizada em 2025, em 30 países, indicou que, em média, 71% defendem restrições para crianças abaixo de 14 anos. Na Europa, países como França, Espanha e Portugal discutem ou implementam medidas semelhantes. Nos Estados Unidos, o debate mistura consentimento parental, saúde mental, segurança online e responsabilização das plataformas. Nada disso torna a solução simples.

No Brasil, há ainda o Projeto de Lei 1827/2026, protocolado na Câmara dos Deputados, que propõe restrições ao acesso de menores de 16 anos às redes sociais. A pesquisa mostra que uma proposta desse tipo encontraria terreno fértil na opinião pública. E aqui começa o problema.

O dado mais revelador talvez não seja o apoio de 72% à regulação. É o fato de que 61,2% dos entrevistados atribuem majoritariamente aos pais a responsabilidade por minimizar os prejuízos das redes sociais na vida de crianças e adolescentes. Ou seja, a maioria acredita que a responsabilidade é da família, mas apoia que o Estado intervenha para controlar o acesso.

“Há uma aparente contradição nos dados. De um lado, existe o consenso de que a responsabilidade por manter crianças e adolescentes seguros na internet é principalmente dos pais, como se fosse um direito e uma obrigação exclusiva da família manter o domínio sobre essa situação, evitando qualquer intervenção externa. De outro, reconhece-se que as famílias têm poucos recursos para lidar sozinhas com um problema dessa dimensão”, explica Fabián Echegaray, diretor da Market Analysis.

Essa aparente contradição é, na verdade, o retrato de um país que não sabe mais como exercer liberdade diante de problemas complexos. A família quer continuar sendo reconhecida como responsável, deseja conservar a autoridade moral sobre os filhos e também ter a última palavra sobre a educação deles. Mas a resposta é oposta quando a pergunta deixa o campo dos princípios e entra na rotina concreta de uma criança com celular na mão, algoritmos agressivos, vídeos infinitos, pornografia, jogos, influenciadores, desafios, dopamina barata e uma indústria inteira desenhada para capturar atenção.

A família olha para si mesma e percebe que não dá conta. A casa brasileira foi invadida por sistemas tecnológicos que nenhum pai,  isoladamente, projetou, compreende ou consegue enfrentar em igualdade de condições. A responsabilidade continuou sendo da família, mas o poder real migrou para empresas que organizam a atenção, a recompensa, a comparação social e a exposição pública de crianças e adolescentes em escala industrial. Falando francamente, os próprios adultos sentem que não conseguem se proteger de manipulações virtuais.

O problema é que, ao se sentir impotente, a família pede socorro ao Estado. Não sairá de graça. Para ser socorrida, a família precisa aceitar ser tutelada. O debate sobre restrição de idade nas redes sociais costuma começar com uma frase simples: crianças precisam ser protegidas. É uma frase verdadeira. A dificuldade está no mecanismo escolhido para executar essa proteção.

Para impedir que uma criança acesse determinada plataforma, é preciso identificar quem é criança. Para identificar quem é criança, é preciso identificar quem é adulto. E, a partir daí, a política de proteção infantil passa a produzir uma consequência que quase nunca aparece com clareza no debate público: todos os adultos podem ser obrigados a ceder todos seus dados para monitoramento com a finalidade de provar quem são para ter acesso à rede.

A promessa é proteger menores de idade mas a consequência é criar uma infraestrutura permanente de identificação de usuários adultos. Essa identificação pode envolver documento, biometria, verificação por terceiros, cruzamento de bases, reconhecimento facial, comparação de dados ou outros mecanismos técnicos que ainda serão vendidos como neutros, seguros e inevitáveis. O problema é que nada disso é neutro e se trata de coleta massiva de dados.

Quem guardará esses dados? Por quanto tempo? Com que finalidade? O que será coletado além da idade? Quem audita o sistema? O que acontece se houver vazamento? Quem responde se uma base com documentos, rostos, perfis e hábitos de navegação for exposta? O usuário poderá recusar? Poderá contestar erro? Haverá rastreabilidade entre identidade civil e conteúdo acessado? O Estado poderá requisitar esses dados? Empresas poderão usá-los para outros fins? Plataformas poderão combinar essa verificação com seus próprios bancos de dados comportamentais?

É muito fazer a população aceitar controle quando a justificativa é a proteção da infância. Quem levanta objeções passa a parecer insensível ao sofrimento de crianças e adolescentes. Mas uma sociedade livre precisa ter coragem de fazer perguntas incômodas justamente quando a justificativa moral parece irrecusável. Medidas de vigilância raramente são apresentadas como vigilância. Elas costumam chegar embaladas como segurança, cuidado, eficiência, combate ao crime, proteção de vulneráveis ou modernização administrativa.

Nesse caso específico, a proteção de crianças pode ser é necessária. Só que entrou no pacote sem discussão uma coisa bem diferente, a identificação e cessão de dados compulsória de adultos. Mais grave ainda é o fato de que a medida pode não entregar o que promete. Crianças e adolescentes burlam regras. Usam contas de familiares. Mentem a idade. Migram para plataformas menos reguladas. Entram por dispositivos de terceiros. Procuram brechas.

Quanto maior a restrição formal, maior pode ser o incentivo para circular por ambientes ainda menos visíveis aos pais. O risco é criar uma política que não protege plenamente as crianças, mas normaliza a identificação de todos os adultos. Nesse caso, o ônus real da medida não recai apenas sobre as plataformas. Recai sobre a sociedade inteira.

É claro que as empresas de tecnologia têm responsabilidade. O design das redes sociais não é um fenômeno natural. Ele foi criado para capturar atenção, estimular permanência, produzir dependência, explorar comparação social e transformar comportamento em dado comercial. Não há inocência empresarial nesse processo. As plataformas não podem continuar tratando crianças como usuários comuns, enxergando a ação das famílias como obstáculo e admitindo manipulações psicológicas como parte do modelo de negócio.

Reconhecer a responsabilidade das empresas é muito diferente de aceitar qualquer solução estatal apresentada como proteção. O debate sério precisa distinguir claramente regulamentação de tutela ilimitada do Estado.

Voltando ao estudo do Family Talks, a grande questão é a razão do desespero que leva famílias a se dizerem responsáveis pelos filhos nas redes sociais mas toparem terceirizar isso ao Estado.

Existe uma razão forte, sobre a qual poucas pessoas pensam. “Três em cada dez adultos brasileiros são analfabetos funcionais, segundo dados recentes. Todas as estratégias de capacitação familiar e educação midiática, hoje, estão baseadas em materiais para leitura, consultas, cartilhas, enfim, quase sempre materiais que exigem um nível educacional que a maioria das pessoas não têm. Enquanto não houver medidas públicas e privadas para capacitação digital das famílias, para que o ambiente doméstico esteja preparado para lidar com a internet, a sociedade vai pesar a mão na legislação, o ônus das empresas vai aumentar e a proteção às crianças na internet não necessariamente será melhor.”, diz Rodolfo Canônico, diretor-executivo do Family Talks.

O debate brasileiro sobre segurança digital costuma presumir uma família ideal: pais com tempo, repertório, domínio de leitura, conhecimento técnico, estabilidade emocional, capacidade de acompanhar plataformas, paciência para estudar cartilhas, disposição para assistir palestras e tranquilidade para conversar longamente com os filhos sobre cada risco online. Provavelmente há famílias assim, mas não são a maioria nem a média do Brasil.

Não basta dizer que os pais precisam acompanhar a vida digital dos filhos. É preciso perguntar se eles sabem como fazer isso. Vamos ao mínimo do mínimo. É preciso que os pais saibam diferenciar configuração de privacidade de controle parental. Também precisariam compreender o que é algoritmo de recomendação e qual a lógica de monetização dos influenciadores. Para além disso, é necessário identificar fenômenos como manipulação emocional, aliciamento, desafio perigoso, conteúdo sexualizado, vício comportamental, golpe, chantagem e exposição indevida.

Pedir que a família proteja os filhos sem capacitar a família é apenas transferir culpa. Só que essa transferência de culpa interessa a muita gente.

O paradoxo brasileiro é este: a família continua sendo invocada como base moral da sociedade, mas, na prática, é tratada como incapaz. Quando o discurso é abstrato, todos defendem a autonomia familiar. Mas na hora em que a solução exige trabalho, método e formação, muitos optam pela canetada estatal. Não há política pública capaz de substituir inteiramente a presença de adultos preparados, atentos e capazes de orientar.

O Estado pode apoiar a família. Empresas podem ser obrigadas a reduzir danos. Escolas podem participar da formação. Organizações da sociedade civil podem produzir conhecimento e ferramentas. Mas nada disso funcionará se a família for reduzida a espectadora de um sistema decidido por técnicos, políticos, plataformas e burocratas.

Um povo verdadeiramente livre precisa de educação sólida, leitura, repertório, memória histórica, responsabilidade moral e princípios capazes de orientar escolhas quando o medo aparece. Sem isso, a tecnologia não emancipa. Apenas entrega a pessoas despreparadas instrumentos que elas não compreendem, diante de empresas que as compreendem muito bem e de governos sempre interessados em ampliar seu alcance.

A tecnologia poderia ampliar a liberdade das famílias brasileiras. Poderia dar acesso a conhecimento, cultura, trabalho, comunidade, organização e voz. Mas, sem educação, sem formação moral e sem capacidade de julgamento, a mesma tecnologia vira motivo para pedir mais Estado, mais vigilância, mais identificação e mais controle.

A internet chegou ao Brasil antes da educação necessária para lidar com ela. Isso, infelizmente, gerou o contexto em que famílias sentem que falham ao proteger os filhos e, no desespero, acabam aceitando a tutela do Estado sem pensar nas consequências.

A tecnologia que move a Copa do Mundo 

O mundo parou para celebrar e viver as emoções esportivas que a Copa do Mundo FIFA desperta, os lances de perigo, as histórias de heroísmo, mas temos visto também, transmissões em resolução ultra HD para bilhões de telas, sistemas de arbitragem por inteligência artificial que detectam impedimentos em milissegundos. Toda essa infraestrutura digital, onipresente em cada segundo da competição, depende de semicondutores fabricados em sua esmagadora maioria em um único lugar: Taiwan. 

Os chips produzidos pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, TSMC (empresa que concentra mais de 90% da fabricação mundial de semicondutores mais avançados) rodaram os algoritmos de VAR aprimorado, os modelos preditivos de desempenho atlético e os sistemas de segurança biométrica instalados nos estádios. Sem Taiwan, o maior espetáculo esportivo do planeta seria tecnologicamente impossível na forma em que o conhecemos hoje. Essa é uma faceta visível da importância geoeconômica da Paz no Estreito de Taiwan. 

O ecossistema tecnológico taiwanês abrange também um investimento importante em pesquisas sobre os supercondutores, que são materiais capazes, em baixas temperaturas,  conduzem cargas elétricas, sem resistência e sem criar campos magnéticos, o que na prática significa redução de ineficiências nas redes elétricas. Se os semicondutores foram a revolução que tornou a era digital possível, os supercondutores têm o potencial de ser o mesmo para a era da energia limpa economicamente viável. Outra aplicação dessa tecnologia são os processadores quânticos que podem introduzir ganhos de escala computacional suficientes para resolver problemas que a tecnologia atual não tem capacidade, tais como analisar bases de dados gigantescas em poucas horas o que os melhores supercomputadores atuais não conseguem no horizonte da expectativa de vida humana.

Todo esse progresso tecnológico acontece, contudo, sob a sombra permanente de um conflito territorial que o mundo prefere não nomear abertamente. A mesma ilha que garante que os árbitros da Copa vejam um impedimento em três centímetros é a mesma ilha que, se desestabilizada, poderia paralisar a transição energética global antes que ela realmente comece. Os países que aplaudiram suas seleções nos telões deveriam, com a mesma urgência, debater maneiras de, pelo menos, manter o status quo no Estreito de Taiwan.

A Copa do Mundo nos deu o que ela sempre dá: emoção, narrativa e o infelizmente ilusório senso de que o planeta compartilha algo em comum. Mas, o verdadeiro jogo decisivo para a economia e progresso tecnológico mundial não aconteceu em nenhum estádio. Ele acontece nos mares e céus do Estreito de Taiwan. E, diferente das fases de ‘mata-mata’, esse jogo não tem prorrogação.

A Geoeconomia dos Gramados

A arte nos gramados e a diplomacia corporativa compartilham uma regra de ouro: o desenho tático dita os rumos antes de a bola rolar. Na Copa do Mundo de 2026, as chaves do torneio expõem as feridas históricas da nossa inserção econômica global. Liderando missões comerciais dentro e fora do governo, sempre analisei o mercado sob a ótica de um esquema de jogo: para vencer nos campos ou nos negócios, a estratégia é essencial. 

O Brasil joga em uma “retranca estratégica”, exportando biomassa barata e importando inteligência manufaturada. A soberania econômica não se mede em toneladas despachadas, mas no controle dos canais de distribuição e no valor percebido. Frente a gigantes como EUA e Alemanha, nossa passividade é evidente. Nos EUA, mesmo com vendas de US$ 37 bilhões, o déficit atingiu US$ 7,5 bilhões por manufaturados complexos. Com a Alemanha, enviamos café e soja para importar US$ 14 bilhões em maquinários e insumos farmacêuticos.

Esse padrão se replica com o Marrocos, nosso adversário no torneio e o aparente empate não ocorreu apenas dentro de campo. A corrente de US$ 2,8 bilhões (US$ 1,39 bilhão de cada lado) esconde profunda assimetria: entregamos açúcar e melaços (66% dos envios) para receber fertilizantes (84% das importações). Exportamos caloria barata e importamos a tecnologia que alimenta nossa terra, enquanto o hub deles em Tanger Med dita as margens de lucro regionais.

O nó tático se acentua no Grupo A frente a Coreia do Sul e México. À Coreia (US$ 10,8 bi), vendemos óleo bruto (32,6%) e compramos chips e eletrônicos que superam 20% da pauta. Enquanto Seul lucra globalmente com o valor intangível do K-Beauty, o ecossistema brasileiro assiste passivamente. Com o México (US$ 13,6 bi), ficamos presos a autopeças de matrizes estrangeiras, exportando pífios US$ 16,8 milhões em móveis no varejo. O descompasso se repete com a Tchéquia (US$ 1,0 bi), onde fornecemos insumos mecânicos básicos, e com a África do Sul (US$ 2,2 bi), limitados a aves e petróleo, ignorando a união da SACU para distribuir marcas nacionais.

A ironia é que o mercado mundial busca sustentabilidade e saudabilidade, verticais bilionárias onde lideramos em insumos. No entanto, o cacau brasileiro ainda vira chocolate premium estrangeiro e nossos óleos essenciais retornam em frascos de luxo. Vendemos o ingrediente a granel e compramos a marca, o design e a propriedade intelectual. Esse é o jogo de alto nível que a diplomacia corporativa precisa passar a disputar com urgência.

Para virar esse placar histórico e atingir a soberania econômica, o Brasil deve mudar sua postura tática, abandonando a passividade. O caminho exige ação coordenada para projetar pequenas e médias empresas no varejo internacional via hubs mundiais estruturados. É hora de deixar de ser o eterno fornecedor de commodities para as indústrias alheias. Precisamos parar de exportar apenas o couro da bola e passar a dominar a tecnologia nela embutida, enxergando o mercado e o esporte modernos como ecossistemas indissociáveis de inovação. Este é o verdadeiro caminho para a vitória.

Lula não precisa mais do Judiciário para censurar: está fazendo por decreto

A censura no Brasil de 2026 já não depende de uma ordem judicial, de um inquérito espetaculoso ou de uma decisão monocrática do Supremo Tribunal Federal. O governo Lula encontrou um caminho mais simples, mais silencioso e mais perigoso: criar, por decreto, obrigações vagas, estruturas administrativas, deveres preventivos e mecanismos de pressão sobre plataformas digitais. Tudo com a embalagem das boas causas.

Em 20 de maio, o governo federal editou dois decretos que mexem em pontos centrais da regulação das plataformas digitais no Brasil. O Decreto 12.975/2026 pretende regulamentar a responsabilidade de provedores no contexto do julgamento do STF sobre o Marco Civil da Internet. O Decreto 12.976/2026 estabelece diretrizes para a proteção de mulheres na internet e para o enfrentamento da violência de gênero no ambiente digital.

O país precisa enfrentar abusos online, fraudes, redes artificiais de manipulação, violência digital e falhas reais das plataformas. Isso não autoriza o Executivo a reescrever, por ato unilateral, o regime jurídico da liberdade de expressão. Quando o tema envolve responsabilidade de intermediários, moderação de conteúdo, privacidade, proteção de dados, livre iniciativa e competência administrativa, o caminho constitucional passa pela lei, pelo Congresso, pelo debate público e pela deliberação democrática.

Os decretos de maio avançam sobre esse limite. Tratam como simples regulamentação aquilo que, na prática, cria obrigações novas, amplia competências administrativas e altera incentivos sobre o discurso público. O governo não está apenas organizando a execução de uma lei existente. Está preenchendo, pela própria caneta, o espaço que pertence ao Legislativo.

A Convenção Americana de Direitos Humanos, o Pacto de San José da Costa Rica, admite responsabilidades posteriores pelo exercício da liberdade de expressão, mas estabelece requisitos estritos: previsão em lei, finalidade legítima e necessidade em uma sociedade democrática. A palavra “lei”, nesse ponto, tem peso próprio. Não se confunde com decreto, portaria, diretriz administrativa ou interpretação conveniente de uma decisão judicial. Lei é produto de processo legislativo, com publicidade, disputa política, emendas, votação, controle social e responsabilização parlamentar.

É exatamente essa proteção que os decretos contornam. A exigência de lei existe para impedir que governos alterem sozinhos o equilíbrio entre liberdade, responsabilidade e controle do discurso. Quando o Executivo pode definir, sem passar pelo Congresso, novos deveres de prevenção, novas hipóteses de responsabilização e novas competências para interferir na circulação de conteúdo, a liberdade de expressão passa a depender menos da Constituição e mais da conveniência política do governo da vez.

A tentativa de apoiar os decretos no julgamento do STF sobre o Marco Civil da Internet não resolve o problema. Decisão judicial, mesmo em repercussão geral, não transforma o Executivo em legislador. O Supremo definiu parâmetros constitucionais e apontou a necessidade de disciplina legislativa posterior. Não entregou ao governo uma autorização aberta para criar obrigações permanentes, estruturas regulatórias, presunções de responsabilidade e canais administrativos de pressão sobre plataformas digitais.

No Decreto 12.975/2026, o governo cria deveres materiais para plataformas digitais, como obrigações permanentes de gerenciamento de riscos sistêmicos, deveres proativos de impedir redes artificiais de distribuição de conteúdos ilícitos e mecanismos de encaminhamento de informações ao poder público. A falha sistêmica, discutida pelo STF como critério de responsabilização, passa a funcionar como obrigação regulatória ampla, contínua e preventiva.

Essa mudança altera o comportamento esperado das plataformas. Se mantiver no ar um conteúdo controverso passa a representar risco jurídico, administrativo e político incerto, a tendência racional será remover mais, bloquear antes, restringir por excesso de cautela e reduzir o espaço de debate. A censura moderna não precisa aparecer como ordem direta de proibição. Ela pode operar pela criação de incentivos que tornam a liberdade custosa demais.

O Decreto 12.976/2026 repete e aprofunda a mesma lógica. Seu objetivo declarado é enfrentar a violência contra mulheres na internet, tema real e grave. O desenho escolhido, porém, cria um regime próprio de deveres para provedores, impõe prazos reduzidos de moderação, prevê obrigações técnicas de filtragem, interfere na arquitetura dos serviços digitais e atribui à ANPD poderes normativos e fiscalizatórios sobre moderação de conteúdo.

O texto trabalha com expressões amplas, como “sofrimento psicológico ou político”, “ódio ou aversão às mulheres” e “ataques coordenados”. Esses conceitos podem fazer parte de diagnósticos sociais e políticas públicas. Quando passam a servir de base para remoção de conteúdo, responsabilização e obrigações impostas a plataformas, precisam de definição legal precisa. Sem critérios objetivos aprovados pelo Congresso, abre-se espaço para enquadrar como violência aquilo que pode ser crítica dura, sátira, oposição política, jornalismo, denúncia, debate acadêmico ou contestação de interesse público.

O risco aumenta quando o decreto estabelece tratamento prioritário para conteúdos envolvendo mulheres com exposição pública decorrente de atuação profissional. A proteção contra violência digital é necessária. A criação de um regime administrativo capaz de interferir em críticas a figuras públicas exige cuidado extremo. Pessoas em posição de visibilidade estão sujeitas a escrutínio, contestação e oposição. A fronteira entre violência, discriminação, crítica legítima, sátira e disputa política não pode ser presumida por ato infralegal.

Também merece atenção a imposição de soluções técnicas obrigatórias. Ao exigir mecanismos de filtragem, bloqueio de reenvio e funcionalidades específicas de governança, o governo interfere diretamente no desenho dos produtos digitais. Isso aumenta custos de conformidade, favorece grandes plataformas, dificulta a operação de provedores menores e tenta fixar por decreto soluções tecnológicas em um ambiente que muda rapidamente. A regulação pode exigir diligência. Não pode transformar a Presidência da República em instância de engenharia de plataformas.

Nos dois decretos, aparece ainda a ampliação das competências da Agência Nacional de Proteção de Dados. A ANPD foi criada para proteger dados pessoais, com mandato definido em lei. Transformá-la em autoridade geral de governança de conteúdo online, por ato do Executivo, desvirtua sua função e amplia seu poder sem autorização legislativa. Moderação de conteúdo envolve liberdade de expressão, responsabilidade civil, defesa do consumidor, segurança pública, direitos políticos e devido processo. Esse arranjo institucional precisa nascer no Congresso.

“LulaMaster”, “bolsoMaster” e “GilMaster”: a República brasileira negociada

Daniel Vorcaro foi às compras nos três poderes da República e comprou todos aqueles que estavam à venda. E foram muitos. De todos os espectros ideológicos. 

A República brasileira foi negociada em um obscuro leilão que se vai revelando, mas cuja extensão ainda está longe de ser totalmente exposta; mesmo porque, apesar de Vorcaro e outros sócios compradores estarem presos, a maior parte das autoridades compradas permanece solta e no poder. De todo modo, sob a firme relatoria do ministro André Mendonça, que tenta garantir a independência da Polícia Federal (PF), as investigações do caso Master avançam.

Não estamos diante apenas de mais um episódio isolado de corrupção, de um político safado aqui ou de um banqueiro ganancioso ali. Estamos diante do retrato estrutural de uma República capturada: Brasília transformada em balcão de negócios de mafiosos, onde o bem comum não passa de pretexto e a toga, o mandato e o cargo são apenas instrumentos de barganha. Quem ainda acredita que este é um problema de “esquerda” ou de “direita” precisa acordar do seu sono infantil.

Os cidadãos acompanham atentos o desenrolar desse escândalo de grandes proporções  nunca deixando de ser surpreendido. Uma surpresa recente veio do próprio STF: foi a tentativa do ministro Gilmar Mendes de tirar da prisão o pai e o primo de Vorcaro; o primeiro para prisão domiciliar, o segundo para ser solto de vez. Votaram pela manutenção da prisão André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques. O ministro Dias Toffoli, que é sócio de resort adquirido por fundo controlado pelo Banco Master, se deu por suspeito e não participou. Gilmar foi voto vencido (3 a 1); tendo contribuído para essa derrota o fato de que o ministro-relator André Mendonça decidiu, em pleno decorrer da discussão, retirar a parte do sigilo do caso em que se patenteava a periculosidade dos personagens que o ministro Gilmar tentava beneficiar.

Esse episódio do voto de Gilmar Mendes merece atenção especial, por sua desfaçatez e por revelar como o sistema se protege a si mesmo. Gilmar afirmou que os investigadores estão “no rumo errado” e que a Polícia Federal usou as prisões para pressionar a delação de Daniel Vorcaro. Segundo o decano, a prisão do pai serviu para pressionar o fundador do Master, que estava em fase de negociação de delação premiada, o que destoaria “da isonomia e proporcionalidade”. O decano considerou que há efeitos danosos da midiatização das investigações e voltou a citar as “práticas autoritárias da Lava Jato” para exemplificar o uso da prisão preventiva como instrumento de pressão. 

É preciso aqui distinguir o garantismo legítimo da sua instrumentalização retórica seletiva em favor da impunidade dos criminosos poderosos, que é o que caracteriza o ativismo do ministro em questão. A derrota de Gilmar é uma boa notícia. Mas o voto em si merece registro histórico: em plena investigação do maior escândalo bancário da história brasileira, um ministro do Supremo Tribunal Federal, com gravata bem-posta e linguagem empolada, defendeu ardorosamente a soltura dos mafiosos investigados. 

O desdobramento mais recente do caso foi o escancaramento das relações do senador petista Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, com o Banco Master. O aliado de Lula foi apanhado pela PF na nona fase da Operação Compliance Zero. As transações suspeitas indicadas no relatório da PF (vindo a público em 18 de junho) foram acordadas e implementadas com Augusto Ferreira Lima, sócio e gestor do Banco Master e dono do Banco Pleno. Carinhosamente, Jaques Wagner chama Augusto Lima de “Guga”. 

O relatório da PF indica que Jaques e Guga, além de tratamento carinhoso, trocaram favores milionários. O parlamentar teria atuado em favor de projetos de interesse do Master no Congresso, entre eles a chamada “Emenda Master” e uma proposta que ampliava o limite do crédito consignado. Em contrapartida, os investigadores suspeitam que Wagner tenha recebido vantagens indevidas, como um apartamento e repasses que somariam R$ 3,5 milhões. 

A PF encontrou também US$ 55.175 e 33,5 mil euros em endereços ligados ao senador. Parte do dinheiro, US$ 49 mil, foi apreendida no quarto de hotel em que Wagner mora, em Brasília. Sua assessoria afirmou que os valores são fruto de diárias de missões internacionais não utilizadas. 

Tais favores já estão fartamente divulgados; tal como foi, e continua a ser, a divulgação do envolvimento do senador Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. Num e noutro caso, os suspeitos vieram a público alegar inocência e apresentar desculpas e justificativas. Num e noutro caso, as desculpas foram esfarrapadas e as justificativas imprestáveis.

Vale lembrar que as mensagens amplamente divulgadas na imprensa indicaram a conexão direta entre o senador Flávio Bolsonaro e o dono do Banco Master, com uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar cerca de R$ 134 milhões para financiar a produção de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Desse montante prometido, R$ 61 milhões foram pagos. Flávio havia negado publicamente qualquer contato com o banqueiro. A mentira deslavada deixou ainda mais claro a baixa estatura moral do pré-candidato a presidência da República pelo PL. 

O lulismo tem explorado ao máximo o escândalo dark horse do Flávio Bolsonaro. Agora, os bolsonaristas estão dando o troco, explorando o caso Jacques Wagner. Flávio é, ele próprio, candidato a presidente da República; assim, seus possíveis malfeitos haverão de incidir diretamente na sua candidatura, fragilizando-a. Jaques Wagner não é candidato a presidente, mas é muito colado ao Lula; coladíssimo, a ponto de já haver quem levante suspeita de que ele teria sido intermediário entre o Banco Master e o presidente da República.

O referido escândalo de corrupção não pode, porém, ser reduzido a uma disputa PT versus PL. Documentos cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça apontaram os luxos que integravam o tratamento privilegiado e diferenciado dado a Ciro Nogueira (PP-PI), que Vorcaro considerava “um dos amigos da vida”. 

O banqueiro também pagou a viagem e a hospedagem do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para o “Gilmarpalooza” em Lisboa. Motta confirmou a carona e o hotel de luxo, acrescentando que não via problema nisso. Eis o tamanho do desmantelo da bússola moral e do cinismo dos nossos políticos: o presidente da Câmara dos Deputados do Brasil aceita viagens e hospedagem pagas por um banqueiro fraudador investigado pela Polícia Federal e não enxerga nisso nem crime nem problema ético.

Já antes da eclosão do escândalo Master/Vorcaro, podia-se perceber que a casta política do Brasil havia sequestrado o Estado para seus próprios interesses de maneira despudorada e insustentável: emendas secretas bilionárias, fundo eleitoral e partidário bilionários, supersalários, penduricalhos, etc. Muitos dos que foram comprados pelo Banco Master já estavam, portanto, “podres de ricos”; podres por dentro também. 

A parte sadia da República precisa reagir. E sempre há alguma reação, tanto que Daniel Vorcaro e alguns dos seus cúmplices estão presos; e a investigação da Polícia Federal avança. Nessa reação contra a corrupção cabe também louvar o papel de parte da imprensa, que tem exercido um intenso jornalismo investigativo; podendo-se destacar, por exemplo, a ação eficiente, corajosa e pertinaz da jornalista Malu Gaspar.

Entretanto, é preciso tomar o máximo de cuidado. Como foi dito, o poderoso ministro cujo nome não preciso repetir, já deu todos os sinais de que se prepara para dar o bote, desmantelando qualquer avanço efetivo no combate à corrupção; tal qual foi feito contra a Lava Jato.

Tática da Abertura

Por décadas, o Brasil operou sob a premissa de que o que é nosso dispensa validação externa. Essa mentalidade autárquica, que moldou a industrialização por substituição de importações no século XX, encontrou espelho fiel em nossos gramados. O futebol brasileiro, pilar da identidade nacional, orgulhava-se de uma autossuficiência mística. Contudo, a contratação do italiano Carlo Ancelotti para a Seleção rompeu esse lacre ideológico. A chegada do treinador simboliza o colapso do último bastião do protecionismo cultural e serve de metáfora sobre a urgência de abertura do Brasil na economia globalizada.

O paralelo entre política comercial e gestão desportiva é evidente: ambos adotaram a reserva de mercado. Enquanto o mundo se integrava, o futebol brasileiro estagnou em uma autoconfiança anacrônica, pagando o preço com o isolamento técnico e duas décadas de jejum em Copas. Como na economia, o fechamento cobrou seu tributo em obsolescência.

Essa quebra de paradigma começou nos clubes com a importação de técnicos. As passagens de Jorge Jesus no Flamengo e Abel Ferreira no Palmeiras trouxeram novos processos, expondo o atraso metodológico local. O mercado doméstico, antes blindado, viu-se obrigado a expandir horizontes. Essa oxigenação estendeu-se às quatro linhas: a vinda de craques como Luis Suárez e Memphis Depay chancelou o retorno do país como polo atrativo. Ao subirem a régua da concorrência, esses atletas forçaram a elevação do nível interno, de forma idêntica a multinacionais que, ao se instalarem aqui, dinamizam a cadeia produtiva local.

Paralelamente, a estrutura de propriedade passou por metamorfose. Viabilizada pela Lei das SAFs em 2021, essa transição funcionou como o marco regulatório para a atração de Investimento Estrangeiro Direto, resgatando clubes asfixiados por dívidas. O aporte de R$ 1 bilhão do City Football Group no Bahia exemplifica essa virada. Essa enxurrada de capital, atrelada a práticas de governança, injetou liquidez, impôs auditorias e sepultou o amadorismo dos antigos cartolas.

Nesta transição, a maior lição do futebol para a gestão pública reside na correlação entre equilíbrio fiscal e dominância. Palmeiras e Flamengo são emblemáticos: abdicaram do populismo em prol da austeridade. Após reestruturarem suas dívidas, alcançaram faturamentos bilionários e converteram superávits em hegemonia esportiva, demonstrando que a responsabilidade fiscal é o único meio sustentável para financiar o sucesso a longo prazo. É uma cartilha para Brasília, pois atesta que o respeito às contas gera a previsibilidade para atrair capitais e garantir estabilidade.

O diagnóstico para o futebol e para a macroeconomia brasileira guarda a mesma essência: o protecionismo e a leniência fiscal concedem uma ilusão de alívio imediato, mas cobram o preço do fracasso no longo prazo. Se o Brasil vencerá com Ancelotti é uma incógnita, mas a quebra do dogma mostra que a evolução dos clubes ecoou na CBF. A modernização é irreversível e deveria pavimentar o caminho para reconduzir o país a uma nova era de vitórias sustentáveis além dos gramados.

Crime organizado será o tema central das eleições presidenciais

Talvez você sinta uma desesperança e um desapontamento quando fala de política. Nós, brasileiros, passamos do desinteresse total a uma vontade de tomar as rédeas da situação nos últimos anos. As pessoas falam de política e tentam se informar como nunca. Exatamente porque sabem mais se sentem mais enganadas, têm a comprovação do que antes era intuição.

Dá a impressão de que, toda vez que o povo consegue mexer em algo nas estruturas, as velhas raposas da política se reorganizam. Ocorre o expurgo de quem incomoda o poder estabelecido, o absurdo se normaliza, as coisas seguem iguais. Os políticos são hábeis em criar discussões artificiais para distrair do que realmente interessa, o fato de que não resolvem os problemas do povo e não enfrentam as consequências disso.

As pessoas ávidas por informação política e ter alguma mudança acabam enredadas. Não por culpa delas, mas porque o sistema é injusto. Os políticos conhecem a política, vivem disso, são profissionais em moldar e conduzir debates. O cidadão precisa encaixar sua participação política nos afazeres diários, tendo uma vida cada vez mais difícil.

Nesse cenário é fácil ceder a paixões e soluções simplistas. Acreditar que há anjo que nos salve ou demônio invencível. A salvação é que a realidade se impõe. Não é se, é quando. Parece que esse tempo chegou.

Fôssemos listar os problemas a resolver e injustiças a corrigir no Brasil, jamais acabaríamos. Mas tem algo que já explodiu porque toca a vida cotidiana de todos os cidadãos brasileiros: a criminalidade organizada.

Neste século, as organizações criminosas saíram dos presídios e ganharam o país. Se diz que controlam mais de ¼ do território brasileiro. A estética e a cultura do crime são naturalizadas pela mídia e por influencers. Mas os efeitos na vida do cidadão comum são impossíveis de naturalizar.

Segundo pesquisa Ipsos de março deste ano, a criminalidade é a principal preocupação de metade dos brasileiros. Não é pouco. Pense no tanto de problemas que temos. O peso do crime está sobre a vida de todas as famílias. Até agora, essa era uma discussão tangencial nas eleições. Um detalhe apenas. Sinalização de virtude, moralidade e demonização estavam no centro. Corrupção, como sempre, faz parte da pauta.

A ação da campanha de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump pode ter mudado a janela de discussão definitivamente. Os EUA declararam PCC e CV como organizações terroristas. A questão é que Lula reagiu imediatamente contra. Alega questões de soberania, incorpora o vocabulário de direita para tentar falar que os outros são traidores da pátria. Não vai colar. São conceitos abstratos e as pessoas querem respostas para medos diários e reais.

Estamos falando de um povo que não pode sair com celular na rua, da prática familiar de verificar o tempo todo onde cada um está com medo da ação dos criminosos. Isso sem falar nos verdadeiros absurdos violentos e de domínio de território que martirizam diariamente milhões de cidadãos.

Qual a resposta para isso?

A direita diz agora que é a ajuda de Trump e uma postura linha dura, como aquela contra terroristas, para enfrentar esses criminosos. Lula diz que essa não é a solução mas também não aponta qual seria.

Quando o PT chegou ao poder, as organizações criminosas já existiam, mas eram marginais, muito ligadas ao universo carcerário. Cinco governos petistas depois, são potências mundiais, presentes em vários países, parasitando nossas instituições e com um poder que parece impossível de deter.

O que Lula prometerá fazer? O mesmo que o PT fez em 5 governos? O governo alega que combate o crime organizado, que fez novas leis, que tem forças-tarefa. No entanto, o crime só cresceu durante o século petista no poder.

Outro ponto é a postura ideológica da esquerda, que tende a tratar criminoso como vítima da sociedade. O presidente Lula já chegou a dizer textualmente que os traficantes são vítimas dos usuários. Fala frequentemente sobre roubo de celular, algo que atormenta o cidadão, como se fosse uma brincadeira.

Não sabemos ainda quais serão os efeitos reais da atitude de Trump. Quais as consequências práticas de declarar PCC e CV terroristas? Quanto tempo levará para que o Brasil sinta as consequências disso no dia-a-dia? Só o tempo dirá.

O que sabemos é que a mudança no debate chegou. Não há problema maior em um país que o sequestro de todo o Estado por bandidos. E todos os candidatos têm o dever de dar respostas concretas. Ao longo da campanha veremos quem realmente tem interesse nisso.

A rede suja do PT

Há mais de uma década o PT montou uma rede suja de veículos alternativos ao que chamava de PIG – Partido da Imprensa Golpista. Era a maneira de criar uma opinião favorável ao neopopulismo lulopétista enquando não conseguia emplacar sua velha proposta de ‘controle social da mídia’. Na verdade, o que o PT queria era um controle partidário-governamental dos meios de comunicação.

Nos tempos atuais, entretanto, o PT tem conseguido afinal avançar no controle partidário-governamental das mídias sociais, como resumiu magistralmente o editorial do Estadão (de 24/05/2026) intitulado A longa marcha do controle digital. Também já havia tratado do assunto dois dias antes (em 22/05/2026) no artigo Ainda sobre o decreto de censura. E três dias antes (em 21/05/2026) no artigo Decreto de Lula estabelece a censura no Brasil, sobre a volta da velha proposta petista de controle da mídia.

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Pois bem. O que aconteceu de 2014 para cá? Muitos veículos continuaram na rede, com um comportamente típico de rede suja (como Brasil 247 e DCM). Alguns desapareceram. Outros surgiram.

2014

Em 2014 a rede suja do PT reunia como veículos principais:

2026

Doze anos depois, em 2026, a rede suja do PT – salvo algum equívoco de avaliação – está basicamente assim:

Especialmente no YouTube a rede suja tem atualmente a seguinte configuração:

Claro que nos mosaicos acima não estão todos os veículos. Apenas alguns dos mais expressivos. Mas ver a constelação assim de uma vez, ajuda a explicar muita coisa. 

As duas principais aquisições, de 2014 para cá, foram o Intercept_Brasil e o ICL – Instituto Conhecimento Liberta. Além do SGBR – Sleeping Giants Brasil, que não entrou nos mosaicos acima dada a sua natureza de milícia digital. 

O Intercept_Brasil

O Intercept_Brasil só divulga vazamentos que favorecem o populismo de esquerda. A Vazajato serviu para descondenar Lula. Agora a Masterjato está servindo para reeleger Lula. O Intercept nunca vazou nada sobre as relações de Vorcaro com o PT e com Toffoli e com Moraes.

Pergunta-se, no caso atual do escândalo do banco Master, quem vazou as informações para o Intercept. O próprio Vorcaro, como um aviso aos que lhe abandonaram? Com a ajuda de quem ele fez isso? Só pode ser com a ajuda daqueles que queriam fazer sumir do noticiário as relações do PT, de Moraes e de Toffoli com Vorcaro. E sumiram mesmo.

Fica a dúvida se estamos tratando, no caso do Intercept_Brasil, de um veículo jornalístico ou de uma organização política de militantes já que, desavergonhadamente, faz luta política 24 horas por dia no estilo jihadismo de esquerda. E não ataca só o bolsonarismo. Ataca Israel (antissemitismo travestido de antissionismo), ataca os EUA (e não apenas por causa do governo Trump, mas na linha anti-imperialismo yankee da primeira guerra fria), ataca as democracias liberais e tenta cancelar, inclusive, personalidades de centro como Luciano Huck.

O Intercept_Brasil é presidido por Andrew Fishman, um jornalista investigativo norte-americano radicado no Rio de Janeiro. Antes ele havia trabalhado como repórter no The Intercept (versão americana) de 2013 a 2022. Participou da cobertura dos Arquivos Snowden (documentos vazados pela NSA) e integrou a equipe da Vaza Jato (e do “Brazil Secret Archive”), que revelou irregularidades na Operação Lava Jato, incluindo supostas relações secretas com o governo dos EUA (Departamento de Justiça e FBI).

Mas além do Fishman há uma equipe, aliás bem numerosa para um veículo tão pequeno, de jornalistas-militantes ou propagandistas partidários. Dele saiu, por exemplo, o Leandro Demori – que foi editor-executivo do The Intercept Brasil de 2018 a 2022 (ou 2023) e foi um dos principais coordenadores da cobertura da Vaza Jato – para trabalhar na empresa de marketing político oficial do governo Lula: a EBC – Empresa Brasil de Comunicação. Em setembro de 2023, Demori estreou o programa “Dando a Real com Demori” (ou DR com Demori) na TV Brasil (também chamada de “TV Lula”).

É indisfarçável e inegável o vínculo do Intercept_Brasil com o PT no governo. É um mundo chapa-branca.

O ICL – Instituto Conhecimento Liberta

A outra grande aquisição foi o ICL – Instituto Conhecimento Liberta, uma plataforma declarada como de educação online, cultura e jornalismo que foi criada em 2020. O destaque aqui é o ICL Notícias: portal de notícias e canal no YouTube (com ~1,7 milhão de inscritos) que transmite várias horas de conteúdo ao vivo por dia (programas como Desperta ICL, ICL Notícias 1ª e 2ª Edição, etc.). Tem viés editorial de esquerda, crítico ao bolsonarismo e alinhado a pautas progressistas.

Seus fundadores são Eduardo Moreira — ex-banqueiro de investimentos, Rafael Donatiello — especialista em marketing digital e Jessé Souza — sociólogo conhecido por suas posições de esquerda radical na academia e nos veículos de comunicação. Eduardo e Rafael são sócios e dirigentes do ICL e a partir de 2024 Felipe Neto passou a integrar o Conselho. Há também um Conselho Curador que inclui, salvo engano ou desatualização, Frei David (Educafro), Heloisa Villela (jornalista), João Paulo Pacifico (Grupo Gaia), Lindener Pareto (historiador) e Daniel Munduruku (ativista indígena). Por último há uma equipe grande de jornalistas e colaboradores: Leandro Demori (aquele mesmo do Intercept_Brasil e da EBC), Chico Pinheiro, Rodrigo Vianna, Xico Sá, Leonardo Boff, Marilena Chauí etc.

Às vezes o ICL dá a impressão de querer ser uma espécie de Brasil Paralelo da esquerda.

O SGBR – Sleeping Giants Brasil

Uma organização não incluída nos mosaicos acima é a milícia digital agressiva intitulada Sleeping Giants Brasil, associada a campanhas de desmonetização de empresas e veículos de mídia considerados contrários ou críticos ao governo Lula, ao PT e a esquerda em geral. Trata-se de uma adaptação brasileira do movimento Sleeping Giants (criado nos EUA em 2016 contra sites de extrema-direita).

O SGBR atua desde 2020 principalmente no Twitter/X, Instagram e outras mídias sociais, expondo anunciantes (empresas) que colocam publicidade em sites, canais ou perfis acusados de disseminar fake news, discurso de ódio, desinformação ou conteúdo conservador ou bolsonarista. Seu objetivo declarado é “desmonetizar” esses veículos, pressionando marcas a retirarem anúncios via e-mails, campanhas públicas e notificações, para reduzir o faturamento deles.

Não é propriamente um veículo de comunicação, mas, como foi dito, uma milícia digital alinhada à esquerda que atua de forma coordenada para silenciar vozes opositoras via pressão econômica além de promoção de cancelamento. 

O SGBR defende regulação mais forte das plataformas digitais, atua em parceria com pautas progressistas de combate à “desinformação” e pratica uma suposta legítima defesa contra ódio e fake news.

O Sleeping Giants Brasil (SGBR) é dirigido principalmente por três pessoas, que são seus fundadores e diretores: Mayara Stelle — Diretora Executiva, Institucional e Financeira, Leonardo de Carvalho Leal — Diretor de Comunicação e Humberto Ribeiro (Humberto Santana Ribeiro Filho) — Diretor Jurídico e de Pesquisa. Este último está perfeitamente integrado ao governo e foi nomeado por Lula para o Conselho Consultivo da Anatel (como conselheiro, representando sociedade civil). 

Inicialmente essa estranha milícia atuava de forma meio clandestina. Só depois os operadores do movimento revelaram suas identidades (por exemplo, em entrevista para Mônica Bergamo, da Folha).

O artigo poderia terminar aqui, mas antecipo-me às perguntas que virão.

E os veículos e jornalistas bolsonaristas?

Este artigo focaliza apenas os veículos lulopetistas (ou ditos de esquerda). Mas há também uma constelação de veículos bolsonaristas (ditos de direita ou de extrema-direita) que será tema de um novo artigo. Incluem-se nessa constelação, entre outros: Brasil Paralelo, Conexão Política, Gazeta do Povo (parcialmente), Jornal da Cidade Online, Revista Oeste e Terra Brasil Notícias. E os canais do Youtube, entre outros, de Ana Paula Henkel, André Fernandes, Daniel Alvarenga, Folha Política, Giro de Notícias, Gustavo Gayer, Jovem Pan (parcialmente), Nikolas Ferreira, Rodolfo Delmond, Sargento Fahur, Te Atualizei (Bárbara Destefani) e Terça Livre. Em breve vamos tratar do assunto.

E os veículos e jornalistas não populistas?

Também está fora do escopo deste artigo tratar dos veículos, programas, jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Em ordem alfabética poder-se-ia citar, entre outros, os anônimos editorialistas de O Estado de S. Paulo, Alexandre Schwartsman (Folha de S. Paulo), Caio Blinder (Manhattan Connection e Levante no Youtube), Caio Junqueira (CNN), Carlos Andreazza (O Estado de S. Paulo), Carlos Pereira (O Estado de S. Paulo), Daniel Rittner (CNN), Demétrio Magnoli (Folha de S. Paulo, O Globo, Globo News), Dora Kramer (Jovem Pan, Folha de S. Paulo), Duda Teixeira (Crusoé), Eduardo Affonso (O Globo), Fernando Gabeira (Globo News), Fernando Rodrigues (Poder 360), Fernando Schüler (Estadão, Band), Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo), Heni Ozi Cukier (Professor HOC, Canal do Youtube), Joel Pinheiro (Canal no Youtube, Folha de S. Paulo, Globo News), Lourival Sant’Anna (CNN), Luiz Felipe Pondé (Folha de S. Paulo, TV Cultura), Lygia Maria (Folha de S. Paulo), Madeleine Lacsko (Canal no Youtube e O Antagonista), Magno Karl (Canal Meio), Malu Gaspar (O Globo, Globo News, CBN), Mano Ferreira (Jovem Pan), Marcelo Rios (Hoje no Mundo Militar, Canal do Youtube), Marcio Coimbra (Monitor da Democracia, Crusoé), Marcus André Melo (Folha de S. Paulo), Mariliz Pereira Jorge (Canal Meio e Folha de S. Paulo), Merval Pereira (O Globo, Globo News), Oliver Stuenkel (Globo News e O Estado de S. Paulo), Pedro Doria (Canal Meio), Raquel Landim (SBT News), Rodrigo da Silva (Spotniks, O Estado de S. Paulo), Sam Pancher (Metrópoles)l, Sergio Fausto (O Estado de S. Paulo), Thais Herédia (CNN), Thaís Oyama (O Globo, TV Cultura), William Waack (WW CNN e O Estado de S. Paulo) e Wilson Gomes (Folha de S. Paulo). Esse elenco não é exaustivo, mas quase. E a lista, mesmo assim, parece extensa. Mas é mínima se compararmos às listas de nomes de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que pontificam nesses mesmos veículos da imprensa comercial, convencional ou alternativa (que foram citados entre parêntesis neste parágrafo) e que são de esquerda ou governistas. Não é tão difícil perceber a diferença entre os nomes acima e nomes como os de Celso Rocha de Barros (Folha de S. Paulo), Daniela Lima (UOL), Flávia Oliveira (Globo News), Guga Noblat (Metrópoles), Marcelo Lins (Globo News), Miriam Leitão (O Globo, Globo News), Reinaldo Azevedo (Metrópoles) e Ricardo Noblat (Metrópoles) – para citar apenas alguns exemplos de profissionais governistas que, de jornalistas (e bons jornalistas, em alguns casos), passaram a ser propagandistas ou defensores contumazes do PT ou da esquerda populista (de raiz marxista ou identitarista).

Cabem aqui, entretanto, algumas ressalvas para explicar muitas ausências da lista de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Quem não critica o neopopulismo lulopetista e o populismo-autoritário bolsonarista como alternativas iliberais (não-liberais ou contra-liberais) não pode se dizer democrata-liberal. Não adianta tentar escapar disso se declarando progressista ou conservador. Democratas-liberais podem ser inovadores ou conservadores. Mas não podem ser revolucionários disfarçados de progressistas ou reacionários travestidos de conservadores. Também não adianta se proclamar social-democrata. Nem todo social-democrata é um democrata-liberal. Existem social-democratas que são social-liberais e existem social-democratas estatistas, ou seja, estatal-democratas que são, a rigor, não-liberais.

E a GloboNews?

Por último, merece um destaque especial a GloboNews, que embora não possa ser considerada um nodo da rede suja do PT, virou um canal que inaugurou um novo tipo de “noticiário”, empenhado em dizer o que você deve pensar sobre o que aconteceu antes de dizer o que de fato aconteceu. Não é mais – stricto sensu – um canal de jornalismo, mas de opinião – com uma linha “progressista”, no sentido que o populismo de esquerda (de raiz marxista ou identitarista) atribui à palavra. Com algumas exceções, é claro – algumas até citadas acima, mas que confirmam a regra – é um canal governista ou colaboracionista com a força hegemonista que está no governo. (Já venho abordando esse assunto há muito tempo; por exemplo, no artigo de 16/12/2024 intitulado Por que GloboNews?)

No que tange à chamada imprensa comercial ou tradicional muitos problemas estariam resolvidos (ou seriam evitados) se os jornalistas adotassem um referencial democrático, como o sugerido no artigo (de 03/02/2025) intitulado Um código democrático para jornalistas.

Silhueta de uma criança em um corredor de tribunal iluminado, representando a busca por justiça e a proteção das vítimas.

Casos Henry Nowak e Henry Borel: a perversão da justiça pelo ativismo identitário

Há tragédias que, por sua brutalidade, parecem desafiar qualquer tentativa de interpretação mais ampla. Contudo, justamente por revelarem certas tendências de uma época, acabam se tornando estopim para a indignação daqueles que ainda tentam resistir contra o avanço da barbárie. Os casos de Henry Nowak, no Reino Unido, e Henry Borel, no Brasil, pertencem a essa categoria. Embora distintos em circunstâncias, contexto e desfecho judicial, ambos expõem uma mesma enfermidade moral de nosso tempo: a crescente subordinação da justiça aos imperativos da política identitária. 

Não é por acaso que esses dois casos me vieram juntos à reflexão. Há neles uma lógica perversa comum, uma tragédia anunciada que merece ser examinada com seriedade. Henry Nowak tinha 18 anos e voltava a pé para casa numa noite em Southampton, sul da Inglaterra. Henry Borel tinha 4 anos e estava num apartamento no Rio de Janeiro com a mãe e o companheiro dela. Ambos foram assassinados e ambos foram, à sua maneira, traídos pelo próprio Estado. E, nos dois casos, essa traição foi alimentada pelo mesmo veneno ideológico que corrói, lenta e metodicamente, as instituições do mundo ocidental: o identitarismo.

O assassinato de Henry Nowak e a cumplicidade do Estado

Em uma noite, quando voltava da faculdade, Henry Nowak teve a infelicidade de cruzar o caminho de Vickrum Digwa, um britânico sikh que carregava uma adaga de 21 centímetros. Uma altercação entre eles terminou da maneira mais brutal possível: Henry foi esfaqueado cinco vezes, com um golpe fatal no peito. Ele buscou refúgio na garagem da casa de um desconhecido e implorou por socorro. A polícia chegou. Mas, em vez de alívio, seu drama ganhou uma segunda camada, desta vez, com o imprimatur do Estado.

É que o irmão de Digwa, seu assassino, havia telefonado para a polícia com uma mentira calculada: afirmou que Henry era um agressor e que ele e seu irmão haviam sido vítimas de racismo. A falsa acusação de racismo funcionou como uma palavra mágica. Os policiais chegaram enfeitiçados à cena do crime e, sem verificar os fatos, sem considerar o estado de Henry, que sangrava, que estertorava, repetindo com muito esforço “não consigo respirar”, decidiram acreditar no algoz e desacreditar a vítima. Algemaram um rapaz em agonia. Enquanto sua vida se extinguia, um policial ainda debochou quando ele disse que foi esfaqueado: “Acho que não, amigo.”

A indiferença e o sarcasmo com a verdadeira vítima, a absurda decisão de algemar o rapaz moribundo não foi um ato cruel de um agente isolado, nem um grosseiro equívoco da ação policial em conjunto: foi o resultado natural de um condicionamento ideológico. Como explica Brendan O’Neill, editor-chefe de política da revista Spiked, no artigo The merciless mistreatment of Henry Nowak, “a Polícia de Hampshire, que abrange Southampton, possui um ´plano de ação racial´ repleto de absurdos da teoria crítica racial”. Após décadas de doutrinação woke nas entranhas do Estado britânico, a acusação de racismo vindo de um indivíduo pertencente a alguma minoria, adquiriu o estatuto de uma prova em si mesma, independentemente de qualquer evidência, de qualquer contraditório, de qualquer bom senso. 

Foi por conta da doutrinação woke que os agentes trataram a falsa acusação de racismo feita pelo irmão do assassino de Henry Nowak como verdade imediata e inquestionável. Embora o assassino tenha sido condenado, a liberação das câmeras corporais dos agentes de polícia gerou forte comoção pública porque deixou claro o perigo que é um Estado que subverte a justiça, que substitui a presunção de inocência pela presunção de culpa conforme a identidade racial do acusado, trocando o dever de imparcialidade pela militância disfarçada de protocolo.

O assassinato de Henry Borel e a misericórdia seletiva da juíza

A história de Henry Borel é igualmente perturbadora e igualmente reveladora das patologias do tempo presente. Henry tinha 4 anos. Morreu por hemorragia interna e laceração no fígado causadas por ação contundente, segundo sete laudos periciais independentes. Seu padrasto, o ex-vereador Jairinho, foi condenado a 43 anos de prisão. Mas há outra figura nessa tragédia: Monique Medeiros, a mãe. Os fatos são inequívocos: Monique sabia. O filho havia dito, por duas vezes, que o “tio” o agredia. A babá lhe alertara, com relatos e imagens, sobre os maus-tratos. Quando Henry morreu, ela orientou a empregada a se calar para não incriminar o casal. Os jurados chegaram a um veredicto que reconhecia a culpa da mãe. Foi então que a ideologia travestida de juíza entrou em cena para evitar o cumprimento da justiça. 

A magistrada Elizabeth Louro concedeu perdão judicial a Monique pelo homicídio culposo. Sob que argumentação? Sob argumentação de que ela já havia sofrido o suficiente por ter sido vítima de um “massacre misógino” e que a sociedade lhe exigia ser “a mãe perfeita” nos moldes patriarcais, e que essa pressão cultural justificava a clemência excepcional. 

Não foram poucos os articulistas que, com razão, reconheceram a gravidade da decisão. “Há poucas coisas mais desprezíveis do que usar retórica ideológica para justificar a maldade e o crime”, escreveu Fernando Schüller no Estadão; “Ao invocar conceitos como misoginia e discriminações de gênero, ambos presentes em sua sentença, a juíza introduziu uma categoria ideológica como parte da sustentação de uma decisão penal”, escreveu Thais Oyama em O Globo.A militância da juíza esvazia o poder de agir e o dever de responsabilização das mulheres, perpetuando a vitimização e a infantilização do sexo feminino, verificadas em parcela significativa do discurso identitário”, escreveu Lygia Maria na Folha de S.Paulo.

A retórica identitária

O caso Henry Nowak, no Reino Unido, e o caso Henry Borel, no Brasil, ilustram um mesmo fenômeno: a substituição progressiva do ideal de justiça universal por uma lógica de interpretação fundada em identidades. A identidade da vítima ou do réu foi critério. No primeiro caso, a identidade sikh do assassino e a falsa acusação de racismo contribuiu para a suspeição imediata da verdadeira vítima, que morreu algemada antes que os policiais percebessem o grave erro que estavam cometendo; no outro caso, a identidade de gênero feminino serviu para atenuação da responsabilidade da ré de um crime cruel de infanticídio. Em ambos os casos, o princípio elementar da imparcialidade, que exige que a lei seja aplicada com base nos fatos foi sacrificado no altar de uma ideologia que, sob pretexto de “justiça social”, vem paulatinamente esvaziando o próprio conceito de justiça.

A justiça é representada cega justamente porque ela evita o favoritismo, o preconceito, o privilégio, a parcialidade. Quando retiramos a venda da justiça para que ela examine quem pertence a qual grupo, imaginando assim torná-la mais sensível ou mais consciente, acabamos por transformá-la em algo muito diferente daquilo que deveria ser. 

A tradição democrática, liberal e humanista do Ocidente construiu-se com a convicção de que a dignidade humana é universal. O identitarismo, ao contrário, é um tribalismo, fragmenta a universalidade em uma infinidade de categorias concorrentes que buscam privilégios. Ele divide o mundo entre opressores e oprimidos, e essa divisão precede qualquer análise dos fatos concretos. Uma vez estabelecida a hierarquia identitária (quem pertence ao grupo dos privilegiados, quem pertence ao grupo dos oprimidos), o julgamento moral já está, de antemão, determinado. Os fatos tornam-se irrelevantes, ou pior, tornam-se obstáculos a contornar, ruídos a neutralizar com a retórica adequada. Quando a justiça se torna seletiva, quando ela distribui seus veredictos conforme a posição do réu na hierarquia das identidades, ela deixa de ser justiça e passa a ser política; a pior das políticas, aquela que se reveste de moralidade para dissimular sua arbitrariedade.

É essa a perversão que ambos os casos iluminam. Enquanto o progressismo woke continuar a colonizar as instituições e as mentes, haverá mais “casos Henrys”. Não se trata apenas de erros individuais de policiais despreparados ou de uma juíza ideologizada. Trata-se de uma deformação sistemática que tem corrompido as instituições, impedindo-as de cumprirem sua função primordial: fazer justiça com base na verdade e na lei, não com base em preferências identitárias.