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A diplomacia lulopetista do cofre

Marcos Degaut*

Em Silver Blaze, Sherlock Holmes resolve o mistério a partir de um fato que ninguém mais havia notado: o cão que não latiu durante a noite. No conto de Arthur Conan Doyle, a ausência de latidos conduziu Holmes a uma resposta. No Itamaraty lulopetista chefiado por Mauro Vieira, o silêncio dos arquivos conduz a perguntas: quais decisões foram tomadas, por que se impôs sigilo e a quem elas beneficiaram? O que mais revela o MRE de Vieira não é o que ele proclama nas tribunas multilaterais, mas o que ele trancou em cofres, com carimbos de reservado ou secreto, prazos de cinco a quinze anos e justificativas genéricas repetidas como ladainha.

O sigilo, evidentemente, é instrumento legítimo e indispensável da diplomacia. Estados não negociam interesses sensíveis sob holofotes, nem expõem informações cuja publicidade possa comprometer negociações, fontes ou relações exteriores. O problema começa quando a excepcionalidade se banaliza; quando não se consegue distinguir com clareza o que está sendo protegido: o interesse permanente do Estado ou a conveniência circunstancial de quem o governa. É nessa fronteira que a diplomacia deixa de proteger o País do escrutínio externo e corre o risco de proteger o governo do escrutínio dos próprios brasileiros.

Na terça-feira, 22 de setembro, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, 14 governos da América Latina e do Caribe firmaram com os Estados Unidos, no âmbito do Escudo das Américas, a declaração que incluiu o PCC e o Comando Vermelho numa lista de 24 organizações narcoterroristas sujeitas a congelamento de bens, restrições de visto e responsabilização criminal de quem lhes preste apoio material ou logístico.

Assinaram Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago. Brasil e México ficaram de fora. Segundo a imprensa, nem o Planalto nem o Itamaraty sabiam que as duas facções brasileiras constariam do documento. Lula deixara a sede da ONU por volta das 11h30. A reunião começou pouco depois das 14h. Duas horas e meia separaram a ausência da irrelevância. A maior economia da América do Sul descobriu pelos jornais que seus vizinhos haviam decidido, sem ela, como tratar os dois maiores grupos criminosos nascidos em seu território.

A exasperação veio no registro previsível. Em discurso à Assembleia Geral, Lula proclamou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. Dias antes, no Rio de Janeiro, já afirmara não aceitar que as facções fossem classificadas como terroristas, aproveitando a ocasião para reservar esse rótulo, com leviandade, ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Auxiliares do Planalto passaram a ver na declaração o prenúncio de pressões que poderiam alcançar minerais críticos e terras raras. É o repertório de sempre: quando falta argumento, sobra palanque e claque.

Convém separar a retórica da substância. A designação de PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras pelos Estados Unidos, em vigor desde 5 de junho, é essencialmente um instrumento financeiro, migratório e penal. Opera sobre contas, vistos, remessas e intermediários.

Foi o próprio Mauro Vieira, contudo, quem, em ofício enviado à Câmara em 1º de julho, em resposta a requerimento do deputado federal Evair de Melo, aventou o “risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional”. O Departamento de Estado qualificou a hipótese de absurda e lembrou que as designações não contemplam ação militar. 

Questionado sobre quais informações embasavam a avaliação, se relatórios de inteligência, comunicações oficiais ou mera conjectura, o Itamaraty não esclareceu, e parte dos estudos correlatos permanece sob sigilo. Uma chancelaria que anuncia a possibilidade de agressão estrangeira ao próprio território e se recusa a demonstrar em que se baseia não está fazendo análise estratégica. Está fazendo propaganda em papel timbrado e transforma uma avaliação que deveria ser tecnicamente verificável em argumento político impossível de escrutinar.

Se o argumento da soberania é frágil, e é, cabe perguntar o que de fato sustenta a resistência. A hipótese mais incômoda não aponta para o exterior, mas para os subterrâneos da economia formal brasileira. Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto, conduzida por órgãos federais e estaduais, expôs a infiltração do PCC no setor de combustíveis e em fintechs que, segundo as autoridades, movimentaram dezenas de bilhões de reais, com ramificações na Faria Lima. O crime organizado brasileiro deixou de ser apenas um problema de fuzis nas vielas para tornar-se um problema de balanços, fundos e intermediários financeiros.

É exatamente essa zona cinzenta que o regime de apoio material da legislação norte-americana ilumina, com o alcance que o sistema do dólar lhe confere. Um governo em ano eleitoral pode preferir que esse terreno permaneça sob jurisdição exclusivamente doméstica, onde o ritmo, a extensão e a seletividade das investigações se decidem em Brasília. Some-se o cálculo eleitoral puro: admitir que PCC e CV são mais do que associações criminosas significaria entregar à oposição a moldura inteira do debate sobre segurança pública, justamente o terreno em que o lulopetismo acumula três décadas de fracassos resultantes de condescendência sociológica com o crime. Não é preciso supor conluio para enxergar interesse. Basta perguntar a quem serve a recusa.

É nesse ponto que o silêncio do cão se torna eloquente. A resistência às designações não é episódio isolado. Integra um padrão de opacidade que atravessa o atual governo e converge, com insistência reveladora, para temas nos quais transparência, política externa, interesses econômicos e conveniência política se encontram.

Em fevereiro de 2025, soube-se que o Itamaraty impusera sigilo de cinco anos a telegramas da Embaixada em Caracas sobre a J&F, a JBS e a Âmbar Energia, entre eles o relato de uma visita, em 27 de fevereiro de 2024, ao então ministro do Petróleo da Venezuela e presidente da estatal petroleira venezuelana PDVSA, Pedro Tellechea.

O Termo de Classificação não informa quem participou do encontro nem o que nele se tratou. O contexto é relevante: em 2023, a J&F adquiriu a petroleira Fluxus e passou a prospectar oportunidades na Venezuela, e em abril de 2024 a Âmbar obteve do Ministério de Minas e Energia do Brasil autorização para negociar a compra de eletricidade venezuelana. A J&F nega qualquer envolvimento da Embaixada do Brasil em Caracas em seus negócios, e nada nos registros públicos indica o contrário. Justamente por isso, a publicidade dos telegramas serviria à própria empresa tanto quanto ao interesse público.

Em outubro de 2025, durante as negociações tarifárias com os EUA, o Itamaraty classificou como reservados, por cinco anos, dois telegramas da Embaixada em Washington, de 14 e 31 de julho, que mencionavam a JBS e seus controladores. Segundo o próprio Termo de Classificação, o primeiro trata de investimentos de empresas brasileiras naquele país, e o segundo, de uma comissão parlamentar temporária sobre as relações econômicas bilaterais.

 Em janeiro de 2026, instado pela Câmara dos Deputados, o MRE alegou que a divulgação poderia prejudicar as negociações comerciais em curso. O problema não está necessariamente nas partes envolvidas, e sim no Estado que decide, sem explicação convincente, que o cidadão não pode saber o que seus diplomatas relataram.

Há mais. Em agosto de 2025, revelou-se que o ministério havia classificado nove telegramas como secretos e quatorze como reservados, trocados com a Embaixada em Washington ao longo de dez meses, num conjunto que envolvia as tarifas, a suspensão de vistos de ministros do STF, as sanções da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes e a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Mauro Vieira assinou pessoalmente parte das classificações. Entre elas, a de um telegrama de maio de 2025 sobre cooperação bilateral contra o tráfico. Releia-se: cooperação contra o tráfico, trancada por quinze anos pelo mesmo chanceler que hoje invoca a soberania para resistir à cooperação contra as facções. 

E há o episódio que beira a ópera bufa: a carta enviada pelo chanceler a Marco Rubio em novembro de 2024, primeira tentativa de aproximação com a futura administração norte-americana, foi classificada como secreta até 25 de novembro de 2039. Segundo fontes do próprio Itamaraty, tratava-se de felicitações protocolares. Um jornalista brasileiro afirma ter obtido o conteúdo junto às autoridades norte-americanas, pela lei de acesso à informação daquele país. Se a informação se confirmar, Brasília terá trancado no cofre o que Washington entregou no balcão.

Todos esses sigilos repousam sobre o mesmo dispositivo, o artigo 23 da Lei de Acesso à Informação, que autoriza restringir dados cuja divulgação possa prejudicar negociações ou relações com outros países. Nas mãos da atual gestão, o dispositivo converteu-se em coringa de baralho marcado, sacado sempre que a transparência ameaça constranger o governo, o partido ou seus aliados. A lógica foi invertida. Não se protege o Estado dos estrangeiros. Protege-se o governo dos brasileiros.

O Barão do Rio Branco serviu à Monarquia e à República, e sua autoridade nascia precisamente de jamais confundir o Estado com o regime, nem a nação com a facção que ocupava o poder. O Itamaraty de Mauro Vieira fez o percurso inverso e converteu-se em linha auxiliar do lulopetismo. Em nota oficial, qualificou como “agressão” e “ataque à soberania brasileira” sanções dirigidas à família de um ministro do STF, elevando a defesa de uma corte e de um projeto político à condição de causa diplomática do Estado, enquanto parte das decisões e comunicações que permitiriam compreender a política externa permanece fora do escrutínio público. Quando a chancelaria passa a proteger o governo de sua própria sociedade, deixa de ser instrumento do interesse nacional. Torna-se cartório de partido.

O custo não é apenas moral ou administrativo. É, sobretudo, estratégico. Há uma relação profunda entre opacidade interna e perda de capacidade externa. Uma diplomacia excessivamente ocupada em defender posições políticas domésticas, justificar decisões pretéritas e administrar constrangimentos do governo tende a tornar-se reativa. Passa a responder a iniciativas alheias em vez de antecipá-las; protesta contra arquiteturas concebidas por outros em vez de participar de sua formulação; invoca soberania depois que as decisões foram tomadas em vez de exercer soberania ajudando a moldá-las. A consequência não se mede apenas em documentos escondidos. Mede-se em influência perdida.

 No dia seguinte à declaração de Nova York, o Presidente paraguaio Santiago Peña subiu à tribuna da ONU para defender a reintegração da Venezuela ao MERCOSUL, depois de visitar Caracas e reabrir o diálogo rompido em 2025. O presidente chileno José Antonio Kast agendou encontro com a presidente interina Delcy Rodríguez. E uma fonte próxima a Lula admitiu à Reuters que qualquer esforço para trazer Caracas de volta ao bloco provavelmente teria de ser liderado pelo Paraguai.

A frase merece ser lida duas vezes. Em 2003, era o Brasil de Lula quem articulava o Grupo de Amigos da Venezuela. Vinte e três anos depois, o mesmo governo admite, por interposta fonte, que a condução do dossiê venezuelano caberá a Assunção, no bloco que o Brasil ajudou a fundar e cujo PIB responde, sozinho, por mais de dois terços do agregado.

E a liderança do processo importa mais do que o seu desfecho. A Venezuela emerge da era Maduro com uma economia devastada e um peso marginal nos fluxos de comércio intrabloco. Reintegrá-la ou não é questão de segunda ordem. O que conta é quem define o sequenciamento, as condicionalidades democráticas, os termos de acesso a mercados e, sobretudo, quem estará à mesa quando se desenharem a reconstrução energética e a reabertura do setor petrolífero venezuelano. Quem convoca, arbitra. Quem arbitra, molda. Essa mesa está sendo posta agora, e Brasília ainda não escolheu seu lugar nela. Não sabe, aliás, se sequer terá lugar.

Esse é, talvez, o retrato mais preciso do problema. Uma diplomacia estratégica não se limita a perguntar a quais iniciativas deve aderir ou contra quais deve protestar. Pergunta que ordem está sendo construída, quais interesses brasileiros estarão em jogo dentro de cinco, dez ou vinte anos e o que o País precisa fazer hoje para influenciar seu desenho. Não espera que o Escudo das Américas esteja pronto para então denunciá-lo ou aceitá-lo: participa de sua construção para assegurar que o combate ao crime transnacional seja compatível com os interesses e as salvaguardas brasileiras. Não assiste à reorganização da Venezuela para depois disputar espaço comercial: ajuda a definir as condições políticas, econômicas e institucionais dessa reorganização. Soberania, afinal, não é ausência da mesa. É capacidade de sentar-se a ela com interesses definidos e poder para defendê-los.

Daí uma das primeiras tarefas da próxima gestão do Itamaraty, que não custa um centavo e vale uma política externa inteira. A Lei de Acesso à Informação prevê a reavaliação e a desclassificação de informações pela autoridade competente, e a Comissão Mista de Reavaliação de Informações existe para isso. 

Nos primeiros 100 dias, convém que a futura gestão do Itamaraty reexamine as classificações feitas desde 2023 e torne públicos, com as ressalvas estritamente necessárias à proteção de terceiros Estados, documentos organizados em três grandes conjuntos: os documentos relativos à interface entre atuação diplomática e interesses empresariais privados, como os sobre os negócios da J&F, da JBS, da Âmbar e da Fluxus na Venezuela e os contatos com o regime Maduro, as comunicações sobre a JBS e os irmãos Batista no contexto das negociações comerciais com os Estados Unidos; as comunicações sensíveis sobre as relações Brasil–Estados Unidos, inclusive tarifas, sanções, vistos e interlocuções políticas, a carta a Marco Rubio, os telegramas sobre Trump, STF, Alexandre de Moraes, tarifas, vistos, sanções e Eduardo Bolsonaro; e, por fim, os documentos relacionados ao crime organizado transnacional e aos fundamentos da avaliação segundo a qual a designação das facções poderia ensejar ação unilateral ou mesmo uso da força militar norte-americana em território brasileiro. 

Não se trata de abrir indiscriminadamente os arquivos da diplomacia. Informações cuja divulgação possa produzir dano concreto à segurança do Estado, a negociações em curso, a fontes ou a terceiros devem permanecer protegidas pelo tempo estritamente necessário. O que precisa terminar é a cultura segundo a qual a invocação genérica do interesse nacional basta para dispensar a demonstração de qual interesse nacional está efetivamente sendo protegido. O juiz norte-americano Louis Brandeis ensinou que a luz do sol é o melhor dos desinfetantes. Não se trata de revanche. Trata-se de higiene institucional.

Em outubro, o Brasil escolherá entre a diplomacia do cofre e a diplomacia de Estado. Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição, seu governo terá diante de si a oportunidade rara de corrigir, de uma só vez, a subordinação da política externa a conveniências ideológicas e a interesses privados. Poderá cooperar com Washington contra o crime transnacional sem abdicar de nada, porque a soberania se exerce caçando criminosos, e não poupando-os de sanções estrangeiras. Poderá devolver ao Brasil a iniciativa no dossiê venezuelano, que é seu por geografia, por peso econômico e por história. E poderá restituir ao Itamaraty a vocação que Rio Branco lhe legou, que é a de servir ao País.

O cão não latiu durante quatro anos. Mas os cofres têm fechaduras, as fechaduras têm chaves, e as chaves, a partir de janeiro de 2027, poderão estar em mãos que não têm nada a esconder. Nesse dia, o Palácio dos Arcos voltará a ser o que nunca deveria ter deixado de ser: não o arquivo morto de um partido, mas a casa permanente do interesse nacional. E a luz entrará por todas as janelas.

**Marcos Degaut, ex-Secretário Especial Adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-Secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-Secretário-Executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX), é Doutor em Segurança Internacional.  

República do Arbítrio

O Brasil caminha para mais um pleito eleitoral sob a atmosfera sufocante de uma nação fraturada, conflagrada e sem consensos. Contudo, a maior ameaça à integridade da disputa não reside unicamente no acirramento da polarização nas ruas, mas na consolidação de uma engenharia institucional orientada a transferir a decisão das urnas para os gabinetes dos tribunais. O fantasma da judicialização da eleição tornou-se um risco iminente, alimentado por sinais inequívocos de que setores do Supremo Tribunal Federal estão dispostos a levar o resultado do pleito para o “tapetão”.

Trata-se de uma estratégia que subverte a democracia. Sob o pretexto de combater a desinformação, observa-se a atuação articulada de uma ala da Corte historicamente alinhada ao grupo lulista. Esse estamento vem utilizando o poder jurisdicional de forma heterodoxa para intervir no processo político. A proliferação de inquéritos de ofício — sem provocação do Ministério Público ou da Polícia Federal —, o atropelo ao juiz natural, censuras e o sobrepujamento da Justiça Eleitoral compõem um roteiro deliberado de ingerência. O que está em curso é a consolidação de uma estrutura autocrática em que o critério de legalidade é moldado pela conveniência do candidato de estimação do estamento togado.

Essa dinâmica evidencia-se no fustigamento ostensivo ao Tribunal Superior Eleitoral. Sempre que a Justiça Eleitoral tenta impor freios ao arbítrio, a ala governista do STF reage com pressão e desconfiança, passando a intimidação por meio de vazamentos e chantagens explícitas. O inconformismo em não exercer o controle absoluto do processo revela a intenção de fabricar uma narrativa de nulidade do pleito. Prepara-se o terreno para contestar a legitimidade do resultado caso as urnas revelem uma escolha desfavorável ao grupo encastelado no poder.

Caso o resultado eleitoral seja arrastado para o tapetão e revirado por manobras pouco ortodoxas em favor do candidato lulista, o Brasil enfrentará uma imediata denúncia internacional. Governos estrangeiros e organismos multilaterais dificilmente chancelarão um governo cuja legitimidade decorra de atos arbitrários de magistrados partidarizados. Sanções diplomáticas, isolamento econômico e perda de credibilidade externa seriam inevitáveis, rebaixando a República à condição de pária internacional.

A soberania popular é o único alicerce capaz de sustentar a paz social e a estabilidade democrática. Quando o Judiciário abandona a sua função constitucional de guardião imparcial das leis para atuar como linha de defesa de uma candidatura, o pacto republicano é rompido. É urgente que os tribunais retomem a prudência, o respeito às normas processuais e a contenção institucional, um desafio especial para Fachin, um Presidente fraco, que não consegue liderar a corte. A insistência em manipular o resultado eleitoral levará o Brasil a um colapso sem volta, submergindo o país em um estado permanente de caos, ruína diplomática e ingovernabilidade.

Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. 

Taiwan, ONU e a Defesa da Ordem Internacional

Dr. Lin Chia-lung
Ministro das Relações Exteriores da República da China (Taiwan)

A ordem internacional baseada em regras enfrenta forte pressão. Estados autoritários tentam enfraquecer suas salvaguardas e redefinir normas globais em benefício próprio, afrontando princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas, como a solução pacífica de controvérsias e a proibição da ameaça ou do uso da força.

A comunidade internacional vive um momento decisivo: ou agimos unidos para defender o Estado de Direito e a paz, ou assistiremos ao esfacelamento da ordem global, arrastando consigo a liberdade, a autodeterminação e a democracia.

Essa escolha é cristalina na primeira cadeia de ilhas do Indopacífico. A segurança regional sofre com a crescente pressão da China, que emprega táticas de “zona cinzenta” — intimidação militar, intrusões cibernéticas e coerção econômica — para alterar unilateralmente o status quo.

Na linha de frente da democracia, Taiwan manterá a estabilidade regional. A paz no Estreito de Taiwan — via marítima crucial e artéria vital para as cadeias globais de suprimento — é um interesse compartilhado por todos, como reforçado por declarações do G7 e de diversos fóruns multilaterais entre EUA, Japão, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.

Essa ordem também é solapada pela distorção deliberada da Resolução 2758 da Assembleia Geral da ONU. Adotada em 1971 para tratar da representação chinesa na ONU, seu texto não menciona Taiwan, não define seu status político nem aborda sua participação no sistema global. Ao fundir a resolução ao seu suposto “princípio de uma só China”, Pequim tenta isolar Taiwan, criando um precedente jurídico perigoso e um pretexto para futuras ações militares.

A despeito da exclusão, Taiwan atua como força para o bem. Líder global em semicondutores, inteligência artificial e tecnologia, o país constrói cadeias de suprimento seguras e resilientes. Pelo “Projeto de Prosperidade com Aliados Diplomáticos”, impulsiona o desenvolvimento com parcerias concretas: o sistema integrado de informação em saúde no Paraguai, a reserva estratégica de combustível em Eswatini e a saúde digital no Hospital Nacional de Palau.

O presidente eleito da 81ª Assembleia Geral da ONU, Khalilur Rahman, definiu como prioridades a restauração da confiança e a transformação institucional. Taiwan compartilha dessas metas. Contudo, recuperar a credibilidade da ONU exige tratar cada membro com justiça e tal transformação jamais estará completa enquanto um parceiro construtivo continuar excluído.

Instamos a comunidade internacional a honrar a inclusão e a solução pacífica de controvérsias. O mundo livre precisa de Taiwan — e uma ONU mais forte necessita de sua participação significativa para consolidar a segurança coletiva, a resiliência tecnológica e a capacidade de resistir à pressão autoritária.

O Brasil do lado de fora do Escudo

Há derrotas diplomáticas que chegam com a assinatura de um tratado hostil, uma votação perdida ou uma crise aberta. Há outras, mais silenciosas e, por isso, mais perigosas, que se consumam quando um país descobre que os demais começaram a organizar o seu entorno geopolítico sem esperar por ele. O Brasil vive, diante do Escudo das Américas, precisamente essa segunda situação, traduzida, simplesmente, como crescente irrelevância.

A reunião realizada por Estados Unidos e catorze países latino-americanos em Nova York, em 22 de setembro, às margens da Assembleia Geral da ONU, deixou de vez para trás a ideia de que o Escudo seria apenas mais uma coalizão episódica de combate ao narcotráfico. Trata-se de algo substancialmente mais relevante: uma arquitetura de concertação geopolítica hemisférica estruturada em três pilares de atuação: economia, segurança e coordenação multilateral.

A agenda inclui sanções financeiras, restrições de vistos, cooperação militar e de inteligência, tecnologias de segurança, triagem de investimentos, cadeias de minerais críticos e regras para fornecedores de infraestrutura digital. Sua primeira ação conjunta tem como alvo 24 organizações tratadas pelos participantes como narcoterroristas transnacionais. Entre elas estão o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.

Esse fato deveria bastar para encerrar uma das ficções mais persistentes da política externa deformada e desfocada do governo Lula: a de que permanecer fora de uma arquitetura internacional equivale, por si só, a preservar autonomia. Não equivale. No caso específico, significa apenas conservar intacta a liberdade de não influenciar nada.

A ironia histórica é difícil de exagerar. O Escudo pretende solicitar ao Conselho Permanente da OEA a convocação de um órgão de consulta com base no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, o TIAR. O tratado foi adotado no Rio de Janeiro, em 1947. Seu instrumento original está depositado no Itamaraty. Em 2001, depois dos atentados de 11 de setembro, foi o próprio governo brasileiro que pediu a convocação do mecanismo. Setenta e nove anos depois de o Rio ter dado nome ao tratado, e 25 anos depois de Brasília tê-lo mobilizado, o Brasil corre o risco de assistir de fora à tentativa de utilizá-lo contra duas organizações terroristas nascidas em seu próprio território. A geografia permaneceu. A diplomacia, acanhada e desmoralizada, saiu da sala.

É nesse ponto que a responsabilidade do governo Lula e da duplamente acéfala gestão Mauro Vieira/Celso Amorim precisa ser examinada sem eufemismos. O problema não se resume à divergência com Washington sobre a classificação jurídica de PCC e CV como organizações terroristas. Inclui também haver transformado essa divergência em substituto de estratégia.

Desde março, estava claro que a administração Trump pretendia converter o combate aos cartéis e às facções transnacionais em eixo de reorganização hemisférica. Em junho, Washington designou PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras. Em julho, o próprio Vieira advertia sobre os possíveis efeitos dessa decisão. Ainda assim, o Planalto e o Itamaraty alegam que foram surpreendidos pela inclusão das duas facções na primeira ação coletiva do Escudo, o que revela, no mínimo, dois aspectos igualmente constrangedores.

O primeiro é a constatação da minúscula capacidade de inteligência estratégica do Estado brasileiro, voltada para a antecipação de situações que tragam riscos potenciais ao País e à consecução dos interesses nacionais. O segundo, diretamente derivado do primeiro, é a materialização do isolamento geopolítico do Brasil e de sua incapacidade de coordenar posições sequer em âmbito regional. A diplomacia de Lula, para surpresa de zero pessoas, subitamente se descobriu sem voz e sem influência.

Diplomacia não é a arte de concordar. É, antes de tudo, a arte de antecipar. Um Ministério das Relações Exteriores pode discordar de uma iniciativa, tentar limitá-la, modificá-la ou bloqueá-la. O que não deveria fazer é descobrir pela imprensa que 15 vizinhos e parceiros acabaram de adotar uma posição sobre duas organizações terroristas brasileiras que afetam diretamente a segurança nacional do País. A surpresa, nesse caso, não é uma virtude da prudência, mas uma medida de perda de capacidade de leitura do entorno.

O discurso de Lula na ONU repetiu uma oposição que soa bem no palanque para os áulicos da delegação brasileira, sedentos por bajulação, mas que carece de qualquer densidade estratégica ou caráter propositivo: o Brasil não terceirizaria a defesa de suas fronteiras e não precisaria de porta-aviões em suas águas.

A frase constrói um adversário imaginário conveniente, típico das falácias esquerdistas, para evitar a questão real. Ninguém precisa defender subordinação militar estrangeira para concluir que o Brasil deve estar presente onde se escrevem regras que afetarão suas fronteiras, seus bancos, suas empresas, seus portos, suas redes digitais, seus cidadãos e suas cadeias minerais. Soberania não é isolamento, e sim capacidade de converter poder nacional em influência sobre decisões externas.

Existe aqui um passivo doméstico concreto. O narcoterrorismo não respeita a distinção administrativa entre política interna e política externa. PCC e CV operam por corredores logísticos, redes financeiras, portos, fronteiras, intermediários, empresas de fachada, fornecedores de armas e alianças transnacionais. Quando a repressão aumenta de forma desigual entre países vizinhos, as redes tendem a deslocar rotas, ativos e centros de comando para os espaços de menor risco.

Se o Escudo se tornar mais eficaz ao redor do Brasil enquanto o País permanece parcialmente desconectado de seus fluxos de inteligência, sanções e cooperação, cresce o risco de um efeito de deslocamento para território brasileiro. O crime organizado conhece, à sua maneira, a velha lógica hidráulica: pressione-se um ponto do sistema e o fluxo buscará outra saída.

O passivo externo é ainda maior. Ao não participar da fase formativa, o Brasil perde a oportunidade de definir critérios de designação, salvaguardas de soberania, mecanismos de compartilhamento de dados, padrões de sanções financeiras e limites para o emprego de instrumentos coercitivos. Perde também a possibilidade de transformar sua centralidade geográfica em poder de agenda. Países menores podem aceitar regras. Potências regionais devem tentar escrevê-las.

A imagem da cadeira vazia merece uma precisão histórica. Charles de Gaulle pôde usar, em 1965, a chamada política da cadeira vazia para pressionar a Comunidade Econômica Europeia porque a França era institucionalmente incontornável e dispunha de meios para bloquear o processo. A cadeira vazia só é instrumento de poder quando todos precisam que seu ocupante volte. Quando os demais descobrem que podem rearranjar a mesa, ela deixa de ser instrumento de pressão e passa a ser apenas mobília desocupada. O perigo para o Brasil é justamente que a América do Sul se habitue a organizar segurança, inteligência, minerais, comércio, infraestrutura e posições multilaterais sem esperar por Brasília.

O componente geoeconômico torna a omissão mais grave. O documento do Escudo menciona expressamente triagem de investimentos, proteção de cadeias de minerais críticos e fornecedores confiáveis de infraestrutura digital. Não se trata, portanto, de uma aliança policial com adereços econômicos. Trata-se do esboço de uma arquitetura hemisférica para um mundo no qual segurança, tecnologia, finanças, energia e recursos naturais voltaram a formar um único tabuleiro.

Poucos países teriam mais a ganhar com uma participação inteligente do que o Brasil. O próprio governo brasileiro reconhece que o País detém a maior reserva mundial de nióbio e figura entre os principais detentores de grafite, terras raras, níquel, manganês, bauxita e lítio. Isso permite pensar em uma pilha estratégica brasileira que vá da geologia à indústria: pesquisa mineral, extração, processamento, refino, metalurgia, ímãs, baterias, componentes, energia limpa, infraestrutura digital, financiamento e acesso a mercados. O erro seria reduzir essa riqueza a uma escolha infantil entre EUA e China. O objetivo deveria ser usar a competição entre grandes potências para aumentar a capacidade nacional, diversificar dependências e subir na cadeia de valor.

É precisamente por isso que participar do Escudo não exigiria aceitar seu desenho norte-americano em bloco. O Brasil poderia condicionar sua adesão ou cooperação a princípios claros: nenhuma operação em território nacional sem consentimento e comando brasileiro; primazia da legislação doméstica; compartilhamento de inteligência com regras de origem, finalidade e proteção de dados; sanções financeiras coordenadas mediante base probatória compatível com o ordenamento brasileiro; cooperação policial, aduaneira e judicial robusta; e participação efetiva nos mecanismos decisórios.

Poderia também chegar à mesa com ativos, e não apenas objeções. O Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, pode ser conectado a mecanismos hemisféricos sem ser subordinado a eles. A Polícia Federal, o COAF, a Receita Federal, o Banco Central e autoridades estaduais podem formar células específicas de rastreamento financeiro e logístico voltadas às redes externas de PCC e CV. O Brasil pode propor protocolos para portos, fronteiras e aviação clandestina, operações simultâneas contra lavagem de dinheiro e mecanismos de recuperação de ativos. Pode ainda exigir que qualquer arquitetura de inteligência preserve o controle nacional sobre dados sensíveis e impeça que a cooperação contra o crime se transforme em licença genérica para intervenção.

No plano econômico, Brasília poderia propor parcerias em minerais críticos que condicionem o acesso a jazidas ao processamento local, à transferência tecnológica, ao financiamento de infraestrutura, a contratos de compra de longo prazo e à formação de capacidade industrial no Brasil. Em terras raras, por exemplo, a soberania relevante não consiste apenas em possuir o minério no subsolo, mas em dominar etapas suficientes da cadeia para que o País não exporte minérios e importe poder. O mesmo raciocínio vale para grafite, lítio, níquel, nióbio, centros de dados, redes de telecomunicações e energia.

Nada disso exige adesão automática à visão de Washington. Ao contrário. É justamente porque Trump apresenta o Escudo como instrumento de reafirmação do poder norte-americano no Hemisfério Ocidental, e porque chegou a associar sua política regional ao emprego de poder militar em defesa de interesses vitais dos EUA, que a presença brasileira se torna mais, não menos, necessária. A resposta madura à concentração de poder não é desaparecer do processo em que esse poder está sendo institucionalizado. É entrar nele com massa crítica suficiente para impor limites, construir coalizões e oferecer alternativas.

O governo Lula preferiu outra coisa: transformar a palavra soberania em espécie de biombo retórico atrás do qual se esconde uma política de ausência. Mauro Vieira, por sua vez, parece ter permitido que uma divergência jurídica previsível se convertesse em cegueira estratégica evitável. O resultado é uma diplomacia que proclama protagonismo enquanto outros países definem instrumentos para combater organizações brasileiras, discutir minerais brasileiros e reorganizar o entorno estratégico brasileiro.

Há uma diferença entre ser independente e ser irrelevante para uma decisão. A primeira condição é atributo de soberania. A segunda é fracasso de influência.

A decisão de permanecer fora do Escudo, contudo, não é irreversível. Governos passam; geografia, fronteiras, facções criminosas, cadeias minerais e interesses nacionais permanecem. O Presidente da República empossado em 5 de janeiro de 2027 herdará um mecanismo mais desenvolvido do que aquele que Lula decidiu observar de fora. Se houver mudança de governo e Flávio Bolsonaro for eleito, sua administração poderá rever essa opção já no início do mandato. Se a maldição de uma eventual reeleição de Lula recair sobre o Brasil, a mesma realidade estratégica, que reflete uma compreensão pedestre tanto das relações de poder quanto da arquitetura securitária regional, continuará à sua frente, ainda que o discurso prefira não reconhecê-la.

O Escudo das Américas ainda está em construção, o que significa que ainda existe espaço para negociação e influência. É precisamente agora, e não quando a arquitetura estiver consolidada, que o Brasil deveria assumir posição de liderança.

Não por alinhamento com Washington. Não por afinidade ideológica. Muito menos por submissão. Mas porque, se uma nova arquitetura das Américas está sendo gestada em nosso entorno, o Brasil não deveria perguntar apenas se pretende participar dela. Deveria decidir que moldura deseja construir e, desde já, assumir a responsabilidade de ajudar a liderá-la.

Entretanto, a desastrosa decisão de Lula não precisa converter-se em destino nacional. A cadeira brasileira está vazia não porque nos faltem dimensão, recursos ou poder, mas porque faltou ao atual governo visão para ocupá-la. Uma nova administração poderá fazê-lo desde o primeiro dia, não para seguir Washington, nem para escolher entre capitais estrangeiras, mas para devolver ao Brasil algo mais elementar e mais ambicioso: a capacidade de decidir sobre a ordem que se forma ao seu redor.

Se Flávio Bolsonaro assumir a Presidência em janeiro de 2027 e reverter essa ausência, ainda haverá tempo para transformar uma retirada voluntária em retorno estratégico, uma omissão em iniciativa e uma cadeira vazia em lugar de comando. A história raramente reserva para as grandes nações o conforto de permanecer à margem. Reserva-lhes algo melhor: a oportunidade de voltar à mesa e ajudar a redesenhá-la.

Taiwan merece um lugar na ONU

O conflito no Estreito de Hormuz, a guerra da Ucrânia, as múltiplas crises comerciais monopolizam o interesse da imprensa global durante a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a atenção não é descabida, uma vez que essas crises geram sofrimento humano e grandes prejuízos econômicos, contudo existem outras regiões estratégicas em disputa acirrada no mundo, uma disputa, que por hora é um pouco mais sutil com o uso de intimidação militar, invasões cibernéticas e coerção econômica. Essa é a situação no Estreito de Taiwan. 

Em 1971, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Resolução 2578, que transferiu a representação da China nas Nações Unidas da República da China para a República Popular da China. A diplomacia de Pequim tem colocado sua habilidade e capacidade de influência para usar essa resolução como sustentação legal internacional para o isolamento de Taiwan dentro da de sua política de “uma só China”. 

O texto da Resolução 2758 trata apenas da representação da China na ONU. Ela não afirma que Taiwan é parte da República Popular da China, nem concede a Pequim qualquer direito de representar o povo taiwanês. A posição chinesa visa minar o direito soberano de cada país de definir suas próprias relações com Taiwan e criando, se não for contida, um pretexto legal perigoso para uma eventual invasão militar. Trata-se de uma ameaça grave à paz e à estabilidade regionais, diante da qual a comunidade internacional não pode permanecer em silêncio O atual contexto econômico de expansão de investimentos massivos em infraestrutura computacional avançada, utilizada em Inteligência Artificial, aumenta ainda mais os riscos para a economia global de um eventual conflito nessa parte do mundo. 

Para contextualizar, essa importância é preciso ter em mente que o Estreito de Taiwan é uma das vias marítimas mais movimentadas do mundo e uma artéria vital das cadeias de suprimento globais por onde cerca de 50% dos navios porta-contêineres do planeta passam por ali. Além disso, cerca de 90% dos chips de computador mais avançados são produzidos na ilha e 60% da fundição global de chips.  

Mesmo excluída da ONU, Taiwan tem atuado como força positiva no cenário internacional ao executar uma agenda de política externa, voltada a fortalecer alianças democráticas, promover segurança coletiva, sobretudo, na região do indo-pacífico e construir resiliência econômica. Essa estratégia de ação é construída sob o conceito de diplomacia integrada, que pretende unir a iniciativa privada e o poder público, em política externa. 

Esse elemento de pensamento estratégico é materializado no Projeto de Prosperidade dos Aliados Diplomáticos, no qual Taiwan compartilha know-how em iniciativas concretas com seus parceiros, como, por exemplo, um sistema integrado de informação de saúde no Paraguai. 

Como democracia vibrante em meio ao crescimento da repressão transnacional exercida por regimes autoritários, a exclusão de Taiwan do sistema da ONU é incoerente com os valores que a própria organização diz defender. Khalilur Rahman, presidente eleito da 81ª Assembleia Geral da ONU, definiu como temas centrais de sua presidência “restaurar a confiança” e “gerir a transformação institucional”. De fato, para restaurar a confiança é preciso que a ONU trate todos os membros da comunidade internacional com justiça.

Um primeiro passo no sentido da justiça seria permitir que portadores de passaporte taiwanês, incluindo jornalistas, possam acessar as instalações da ONU para reuniões, visitas e cobertura jornalística, o que atualmente tem sido negado com base numa interpretação ampla e viesada da resolução 2578. Esse primeiro passo não exige que a ONU resolva, de uma vez, a questão do status político de Taiwan, um debate que nenhuma organização internacional está em posição de arbitrar unilateralmente. O que está em jogo é mais modesto e, por isso mesmo, mais urgente, o acesso às Nações Unidas deveria ser um direito de todos, não um privilégio seletivo, negar credenciamento à imprensa taiwanesa fere a liberdade de expressão consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A comunidade internacional precisa atuar para impedir que um texto de 1971 continue sendo usado como escudo retórico para excluir um ator relevante dos debates sobre a governança global. Trabalhar ao lado de Taiwan fortaleceria a segurança coletiva, ampliaria a resiliência econômica e tecnológica global e reforçaria a capacidade conjunta de resistir à pressão autoritária.

A Omertà Togada

A sessão do Supremo Tribunal Federal na última terça-feira figurará como um marco desconcertante na trajetória recente do Judiciário brasileiro. Em meio ao acirramento dos debates no plenário, a invocação do termo Omertà — o histórico código de silêncio das organizações mafiosas — pelo ministro Gilmar Mendes, expôs uma fissura preocupante na dinâmica da Suprema Corte. Quando a exigência de espírito de corpo e blindagem institucional é externada mediante analogias dessa natureza, abre-se uma crise de credibilidade sem precedentes, na qual a transparência do debate público parece sucumbir diante da pressão pelo alinhamento corporativo.

Nesse embate, a conduta de André Mendonça sobressaiu-se pela sobriedade. Distante de confrontos ruidosos, sua posição pautou-se pela observância do devido processo legal e pela defesa do debate aberto, fundamentando-se nas normas institucionais em vez de ceder aos constrangimentos de uma pretensa lealdade interna. Em contrapartida, a articulação observada no grupo alinhado ao ministro Alexandre de Moraes — exemplificada pelo pedido de vista do ministro Flávio Dino — soou para ampla parcela da sociedade como o uso tático de expedientes regimentais para postergar deliberações incômodas e arrefecer desgastes políticos. A percepção de que a chicana jurídica é empregada para proteger determinados polos do próprio tribunal corrói a confiança republicana.

Contudo, os desdobramentos dessa tentativa de autoproteção ultrapassam os limites do plenário e repercutem de forma devastadora na política nacional. Ao engajar o governo e ministros indicados por Lula — como Flávio Dino e Cristiano Zanin — na linha de frente para blindar Moraes, o Palácio do Planalto compromete seriamente suas próprias pretensões de conquistar mais um mandato presidencial. Essa operação de salvamento atua como poderoso catalisador para o eleitorado, impulsionando decisivamente a candidatura opositora de Flávio Bolsonaro, que protagoniza o duelo contra os arbítrios e as práticas heterodoxas no Supremo. Ao endossar o corporativismo da Corte, Lula pode ter entregado a vitória nas mãos de Flávio Bolsonaro.

O principal vetor desse contraponto reside nas eleições para o Senado Federal. O cidadão compreendeu de forma pragmática que a Câmara Alta é o único fórum constitucional dotado de competência para fiscalizar os excessos e impor limites à atuação do Judiciário. Se antes as projeções indicavam a eleição de uma bancada de direita com aproximadamente 43 senadores, o espetáculo corporativo presenciado nesta semana tende a inflar expressivamente esse número, transformando o pleito vindouro em uma verdadeira consulta popular sobre os rumos da jurisdição constitucional no Brasil.

Mais do que uma disputa partidária, a escolha que se aproxima carrega uma dimensão ética incontornável. Existe uma contradição insanável entre a ética da Omertà — fundamentada no silêncio cúmplice, na corporativização e no privilégio pessoal — e a ética republicana, ancorada na publicidade, na impessoalidade e na submissão irrestrita à lei. Cabe aos eleitores rejeitar categoricamente nas urnas o código mafioso do corporativismo cego invocado pelo Supremo, afirmando em seu lugar a ética da legalidade e o império da Constituição Federal.

O velório do STF e o fim da Nova República

Convocada para decidir sobre a investigação de suspeição de crimes nas relações entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro – hoje presidiário – Daniel Vorcaro, a reunião do Supremo Tribunal Federal (STF), realizada em 15 de setembro, arrastou a já degradada instituição para a sarjeta, dando mostras cabais de que não tem mais condições de exercer as funções que se exigem de uma Suprema Corte de Justiça. 

Por exigência e máxima pressão da sociedade, a referida reunião foi realizada como sessão pública, transmitida pela TV Justiça, e muitos puderam testemunhar a desavergonhada trama de dois ministros inescrupulosos para impedir a investigação do colega suspeito.

Vociferantes e cínicos ao extremo, os ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino roubaram quase todo o tempo da sessão para gastá-lo com picuinhas e mentiras que justificassem a patifaria final do pedido de vista, feito por Flávio Dino com base em um pretexto covarde e ofensivo ao ministro-presidente do STF, Edson Fachin.

Flávio Dino disse que os ali reunidos estavam “em termos que degradam a imagem do Tribunal”; e afirmou que o presidente Fachin estava “conduzindo o Supremo para ficar deste modo degradante do ponto de vista técnico e ético por meses”, quando foi ele mesmo um dos principais protagonistas da degradação citada, em parceria com o colega desbocado Gilmar Mendes.

Atacando o ministro André Mendonça, o boquirroto ministro Gilmar Mendes, de forma imprudente, trouxe a máfia para dentro do STF: “É uma atitude covarde e vil. Já disse isso antes: até a máfia tem ética”. Tão cínico foi Gilmar na sua fala, que clamou contra a politização do STF: “É evidente e até as pedras sabem que há inequívoco viés eleitoral na forma como o tema foi conduzido nos autos dessa PET. Escolha da data, 7 de Setembro, todo esse cenário envolvendo essa Corte em campanha eleitoral”.

O que até as pedras sabem, ministro Gilmar, é que a Corte Suprema, já faz algum tempo, foi politizada; entretanto, deve-se acrescentar, os principais agentes dessa politização foram vossa excelência e seus comparsas, Flávio Dino e Alexandre de Moraes e não o ministro André Mendonça. 

Em meio à falta de decoro dos ministros já citados houve um rápido momento de destoante mea-culpa protagonizado pela ministra Cármen Lúcia: “O Poder Judiciário existe para tranquilizar o povo, e nós geramos intranquilidade”, disse a ministra. E completou: “eu me sinto até um pouco envergonhada”; “eu peço desculpas ao povo brasileiro.”

Penso que nós, brasileiros, podemos desculpar Cármen Lúcia – apesar de ela ter votado pela constitucionalidade do inquérito das Fake News, em junho de 2020, acompanhando a maioria do plenário. Não podemos nem devemos, porém, desculpar o conjunto do STF; alguns ministros simplesmente não podem mais continuar no cargo que reiteradamente desonram. 

Quem poderia lhes pôr cobro seria o Senado Federal, que tem autoridade constitucional para destituir ministro do Supremo através de impeachment. Porém, na atual legislatura isto está descartado, pois vige um acordo de conveniência em favor da impunidade, amarrado entre os caciques do STF e o presidente do Senado; com a muito provável conivência do governo federal. Convém lembrar que, recentemente, o ministro Alexandre de Moraes reuniu em seu gabinete o presidente Lula da Silva e o presidente Davi Alcolumbre para que aparassem arestas. 

Há quem acredite que esse quadro possa mudar na próxima legislatura, já que 2/3 das cadeiras do Senado estarão em disputa nas eleições deste ano de 2026. É sempre uma esperança e acho que se deve fazer o máximo esforço para eleger parlamentares dignos, comprometidos com a investigação, afastamento e punição dos ministros do STF envolvidos em escândalos, entretanto guardo certo ceticismo quanto a esta via constitucional e, diante de uma República cada vez mais vilipendiada por aqueles que deveriam zelar pela constituição, penso que resta apenas a rebelião pacífica e a desobediência civil.

 Ao achincalharem a sessão que deveria decidir pela abertura de investigação contra Alexandre de Moraes, o “quarteto da obstrução” ou “quarteto da impunidade” que votou a favor da esdrúxula questão de ordem meramente protelatória, optou por manter em seus quadros um ministro contra o qual há forte material probatório de cometimento de crime comum. A sessão de 15 de setembro de 2026, foi, portanto, na feliz expressão de Demétrio Magnoli, o dia do velório do Supremo Tribunal Federal. O STF perdeu efetivamente a sua legitimidade. 

A legitimidade questionável de uma autoridade ou instituição abre uma crise que deveria ser resolvida por vias institucionais. Mas as instituições não estão resolvendo. Suas excelências, na verdade, dobraram a aposta. Eis um ponto que o Brasil precisa começar a discutir seriamente: as instituições da Nova República apodreceram, perderam legitimidade. E agora? Vamos continuar brincando dessa democracia de “faz de conta”, desse “estado de direito” da carochinha ou vamos tomar alguma providência? 

O jusnaturalismo e boa parte da filosofia política moderna diriam que uma ordem jurídica que perde legitimidade, seja por procedimento viciado, seja por injustiça flagrante, perde também sua pretensão de obediência automática. Desde pelo menos Sófocles (Antígona desafiando o decreto de Creonte) até Rawls e sua teoria da desobediência civil, passando por Agostinho (“lex iniusta non est lex”) e pelo direito de resistência de Locke, existe uma tradição robusta nesse sentido. 

Para Locke, a tirania dissolve a estrutura de autoridade, mas não a sociedade civil subjacente. O povo retorna a um estado em que pode reconstituir novo governo; não há retorno ao estado de natureza, mas uma reversão do poder político à comunidade. Não estaríamos nós, brasileiros, em condições parecidas? Não deveríamos agora nos dar conta de que tudo ruiu e que o poder de trazer algo novo está em nossas mãos?

A indignação coletiva, infelizmente, muitas vezes é canalizada por políticos populistas, demagogos e autoritários. Foi o que aconteceu recentemente e culminou no 8 de janeiro de 2023. Depois daquele evento, foi construída toda uma narrativa em torno da “salvação da democracia” e Alexandre de Moraes foi, e continua sendo, incensado por Lula como o grande salvador. 

É preciso compreender o sentimento do brasileiro médio, trabalhador, honesto, quando ele se cansar de “scrolar” no celular para conferir qual o último escândalo de alguma suprema autoridade envolvida em alguma orgia patrocinada pelo banqueiro do Master e der vazão à sua indignação: “foi isso que salvamos de um golpe? Seria melhor nem ter salvo.” 

Posso apostar que esse é o sentimento de uma boa parcela de brasileiros. Se, porventura, houver uma espécie de “8 de janeiro de 2027”, o apelo para salvar a democracia não vai mais colar. 

Crise Suprema

O Poder Judiciário brasileiro atravessa um dos momentos de maior desgaste de sua história recente. O Supremo Tribunal Federal, desenhado pela Carta Magna para atuar como o guardião altivo e silencioso da Constituição, converteu-se em uma ruidosa arena de contenciosos políticos. Assiste-se a uma preocupante politização da cúpula judicial: atores vestidos de toga transferiram para o plenário embates partidários que deveriam permanecer contidos na arena parlamentar. A crise atual não é um fato isolado, mas o ápice de um longo processo de hipertrofia institucional, marcado pelo desapego ao devido processo legal.

Essa degeneração não ocorreu por falta de avisos. Há mais de duas décadas, alertas veementes já apontavam para os riscos da expansão desmedida do Judiciário. No final dos anos 1990, o senador Antonio Carlos Magalhães travou duros embates ao propor a CPI do Judiciário, denunciando a morosidade, a ineficiência e a benevolência corporativa com desvios na magistratura. ACM advertiu que uma estrutura sem freios externos descambaria em arrogância e insularidade. O tempo confirmou o prognóstico: a omissão em reformar a instituição consolidou uma cúpula refratária ao controle republicano.

A conflagração interna observada hoje na Corte expôs um perigoso modelo autocrático e inquisitorial, centrado no uso perpétuo de inquéritos extraordinários, nos quais a mesma figura atua simultaneamente como vítima, acusador e julgador, atropelando prerrogativas do Executivo e do Legislativo sob o pretexto de defender a ordem democrática – uma prática que não dialoga com qualquer sistema de liberdades. A magistratura, ao contrário, deve pautar-se pela contenção, sobriedade técnica e estrita legalidade — uma postura comprometida com a transparência pública, com o rigor procedimental e a imparcialidade.

Este ativismo contrasta com a prática de democracias consolidadas. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte fundamenta sua autoridade na contenção (judicial restraint) e nas “virtudes passivas”, recusando-se a instaurar investigações de ofício ou decidir controvérsias puramente políticas. Na França, o Conseil Constitutionnel limita-se à fiscalização de constitucionalidade, sem usurpar a função parlamentar nem atuar como órgão de investigação criminal. Na Alemanha, o Tribunal Constitucional impõe a si mesmo estritas balizas de autolimitação para preservar a neutralidade do julgador.

Quando a reação a atos de transparência no Brasil se dá por meio de retaliações procedimentais e uso de decisões monocráticas para conter denúncias, revela-se a fragilidade moral do modelo inquisitorial. Como escreveu Piero Calamandrei, “se o juiz falha em servir de exemplo, as pessoas perdem a confiança nas leis e no próprio sistema judicial”. Não há democracia sem essa confiança.

Já passou da hora de promover uma reforma profunda no Poder Judiciário. É urgente romper a insularidade dos tribunais, impor limites às liminares individuais, fixar mandatos temporais e proibir investigações de ofício. A Crise Suprema é o sintoma derradeiro de um sistema que extrapolou suas balizas e exige imediata recondução aos limites estritos da Constituição.

Fim do Inquérito das Fake News é necessário mas não suficiente

O envolvimento direto de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com o banqueiro bandido (ou bandido banqueiro) Daniel Vorcaro é, sem dúvida, um dos maiores escândalos da nossa já muito escandalosa República. Todavia, os sinais de degradação das nossas instituições já vinham se desenhando há tempos. 

Antigamente, as ditaduras eram estabelecidas por vias violentas; nos tempos atuais, elas se vão construindo através da perversão das instituições e das leis. 

Muitos foram os personagens que contribuíram para o caos institucional no qual nos encontramos, mas, ironicamente, aquele que colocou uma pá de cal na ilusão de que vivemos em um país democrático foi justamente aquele que se arvorou e foi aclamado como arauto e defensor da democracia. 

O tal “inquérito das Fake News”, aberto de ofício, no qual Alexandre de Moraes atuou como vítima, investigador e julgador e que se estende Ad infinitum como arma política intimidatória de adversários foi um ponto de inflexão. A aceitação pelos outros ministros e pelos outros poderes dessa aberração jurídica ainda em curso selou o destino vergonhoso do STF e talvez tenha selado também o trágico destino da Nova República.

Em participação recente no programa de Willian Waack, na CNN, o jornalista Mario Sabino fez notar que há uma continuidade entre o fim da Lava Jato e o inquérito das fake news.

Segundo ele, embora tenha se consolidado publicamente a tese de que o tal inquérito visava proteger a Corte e as instituições democráticas de ataques digitais, sua origem esteve diretamente atrelada a uma reação do tribunal às críticas feitas pelos procuradores da operação Lava Jato.

Sabino publicou no portal O Antagonista um artigo assinado pelo procurador da Lava Jato Diogo Castor, no qual o magistrado criticava asperamente uma decisão em curso no STF. A crítica do procurador voltava-se contra a intenção do Supremo de transferir o julgamento e a investigação de crimes de caixa 2 para a Justiça Eleitoral. 

A equipe da Lava Jato sustentava que a Justiça Eleitoral não possuía a estrutura nem os instrumentos técnicos adequados para conduzir apurações complexas dessa natureza, encarando a medida como uma forma velada de assegurar a impunidade dos investigados. 

Diante da forte repercussão do artigo e da contestação pública promovida pelos procuradores, somada ao conturbado contexto político da época envolvendo o governo Bolsonaro, os ministros do Supremo, enfurecidos com as críticas, decidiram instaurar de ofício o Inquérito das Fake News. 

Para Mario Sabino, portanto, a decisão do STF de reagir às pressões da operação deu início a um processo de centralização de poderes na Corte que acabou por enfraquecer o combate à corrupção e desidratar as conquistas da Lava Jato.

Pois bem, em capítulo recente da novela que se desenrola no Supremo, o presidente, ministro Edson Fachin, decidiu retirar das mãos de Alexandre de Moraes a condução do famigerado inquérito, assumindo sua relatoria. Além disso determinou que a investigação sobre as mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro seja submetida ao plenário da Corte. 

A toda evidência, o também chamado “inquérito do fim do mundo” constitui-se em uma excrescência inconstitucional, além de absolutamente imoral. Sua abrangência é tão larga que ninguém, salvo o antigo relator, sabia o que ele poderia alcançar. Ao arrepio de toda lógica regimental, esse instrumento intimidatório típico de ditaduras foi se arrastando para muito além de um tempo razoável. É mister que agora seja extinto. 

O que não se pode aceitar, porém, é que se considere isso uma punição suficiente para Alexandre de Moraes. Retirar das mãos do tirano o instrumento de exercício de sua tirania não deve ser moeda de troca para acomodações pouco republicanas. 

Moraes (sem falar também em Dias Toffoli) precisa ser investigado e, se os seus colegas ministros, por corporativismo insano e imoral, se recusarem a fazê-lo, o povo tem que tomar as ruas, mostrando que não aceita mais continuar a mercê da cleptocracia na qual se transformou o nosso arremedo de República. 

É preciso também apoiar André Mendonça. Não porque ele seja imune a críticas, mas pelo simples fato de que está tentando exercer a legalidade, enquanto a facção podre do STF está pervertendo a legalidade para obtenção da impunidade e perpetuação de crimes.

Se, em vez da investigação dos ministros envolvidos no caso Master, houver acomodação ou retaliação a Mendonça, só restará à sociedade o caminho não institucional de uma rebelião, um movimento organizado de desobediência civil. 

Guerra cognitiva da China contra Taiwan usando inteligência artificial

A Inteligência Artificial como Arma na Guerra Cognitiva da China contra Taiwan

O debate em torno dos benefícios econômicos, avanços técnicos e consequências da adoção massiva das tecnologias de Inteligência Artificial domina não só o noticiário econômico e comportamental, mas também o político. Um aspecto, contudo, tem sido pouco explorado: o uso da inteligência artificial como uma nova frente de conflito silencioso no Estreito de Taiwan, alimentando campanhas de desinformação projetadas para corroer o tecido social de uma nação sem que um único tiro seja disparado.

Essa estratégia é conhecida como Guerra Cognitiva, que pretende conquistar territórios ao conquistar a mente de um povo. Pequim há anos investe em operações de influência que combinam propaganda tradicional com ferramentas da chamada IA generativa — como, por exemplo, as deepfakes, que geram conteúdo capaz de imitar vozes de autoridades, fabricar vídeos de líderes taiwaneses e inundar redes sociais com narrativas que semeiam dúvidas sobre a capacidade de defesa de Taiwan ou sobre a confiabilidade de seus aliados ocidentais.

A instrumentalização da IA nesse contexto se aproveita das redes sociais ao dar escala a essas falsificações, uma vez que os modelos permitem a difusão de milhares de publicações persuasivas em minutos e em múltiplos idiomas, simulando um debate orgânico onde na verdade existe coordenação centralizada. Outra forma de atuação é a entrega manipulada desses conteúdos, explorando algoritmos de recomendação para que narrativas específicas cheguem a públicos vulneráveis, como eleitores indecisos. Isso só é possível graças à verossimilhança alcançada pelas novas tecnologias, com áudios e vídeos cada vez mais difíceis de distinguir em relação aos autênticos. Esse problema tende a se agravar à medida que a tecnologia se torna mais barata e acessível.

As operações de guerra cognitiva não visam necessariamente convencer, mas exaurir. Ao saturar o debate público com contradições, a estratégia busca produzir fadiga cognitiva e ceticismo generalizado, que faz com que os cidadãos deixem de confiar em qualquer fonte, inclusive nas legítimas. Esse é o efeito mais perigoso, uma vez que uma sociedade que não acredita em nada se torna paralisada em suas tomadas de decisão, criando um ambiente sem diálogo saudável e democrático, polarizado em torno de posições extremas.

Taiwan, consciente da ameaça que esse cenário cria para sua sobrevivência, tem respondido com iniciativas de alfabetização midiática, verificação de fatos em tempo real e parcerias com plataformas tecnológicas para identificar contas inautênticas. Ainda assim, a assimetria é evidente: enquanto a defesa exige verificação lenta e criteriosa, o ataque se beneficia da velocidade e da caixa preta dos algoritmos das gigantes de tecnologia. 

As democracias de todas as partes do mundo devem olhar para o Estreito de Taiwan com atenção, não só pela natural solidariedade entre as democracias, mas porque esse tipo de campanha é facilmente replicável e os processos eleitorais são naturalmente vulneráveis a ela. Uma lição importante a ser notada é que a realidade criada por essa revolução tecnológica transforma a capacidade dos cidadãos de identificar e resistir a campanhas de guerra cognitiva em um aspecto crucial para a defesa nacional.

O dilema reside na dualidade da tecnologia de IA, que por um lado facilita a falsificação e a manipulação massiva, por outro abre uma janela de oportunidade para o desenvolvimento econômico, típica dos períodos de ‘destruição criativa’. Precisamos enfrentar o tema com seriedade e construir políticas públicas que criem mecanismos capazes de detectar ataques de Guerra Cognitiva, mantendo o debate público aberto e franco. Isso inclui a criação de regulações inteligentes e transparentes para as gigantes da tecnologia, além de investimento na educação da população para torná-la menos vulnerável ao arsenal da IA empregado na guerra cognitiva. Taiwan nos ensina que a consciência e a atenção dos cidadãos são os verdadeiros campos de batalha no século XXI.