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A necessária guerra contra a teocracia iraniana

A guerra que, no momento, vai atravessando o Oriente Médio deriva, principalmente, de um antigo e existencial litígio entre a República islâmica do Irã e Israel. Os Estados Unidos que, sob comando do presidente Donald Trump, tomou iniciativa da guerra ao lado do antigo aliado Israel, foi fator deflagrador em uma guerra que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Para Israel, melhor que tenha sido mais cedo; pois, se fosse mais tarde, depois que o Irã tivesse produzido bombas atômicas, o pequeno país poderia ser riscado do mapa antes de qualquer reação possível.

Com efeito, desde a revolução islâmica de 1979, com a implantação da  teocracia comandada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, a República islâmica do Irã tem por objetivo explícito e declarado destruir Israel. Khomeini repetia-se em exortações pela destruição do Estado judeu, no que foi seguido pelo seu sucessor aiatolá Ali Khamenei, recentemente eliminado; ambos diziam coisas assim: “Israel é um tumor cancerígeno que deve ser extirpado”; “Israel deve ser eliminado do mapa”; “Israel terá um destino amargo e doloroso” e por aí vai.

É fato inegável que a ditadura teocrática do Irã pretende destruir Israel; Israel, por sua vez, não pretende destruir o Irã, mas destruir o regime dos fanáticos aiatolás, que não só inflamam seus acólitos com o discurso da destruição de Israel, como financiam, armam e instrumentalizam grupos terroristas que constantemente o atacam. 

Certamente que uma guerra pode ter desfechos imprevistos, torço, porém, pelo melhor desfecho: que à vitória de Israel some-se a vitória do povo iraniano; isto porque, do ponto de vista da liberdade e do progresso, o fim da abominável ditadura dos aiatolás é também do interesse da maioria das gentes do Irã, que é a antiga Pérsia, o centro de um Império que conduziu uma magnífica civilização da Antiguidade.

As mulheres são as mais visadas pela crueldade do regime teocrático ora ameaçado, podendo ser submetidas à prisão, chicotadas e pena de morte por “crimes” como adultério, mostrar o rosto ou mesmo usar o hijab de forma inadequada. 

Em tão atrasado regime, palco das mais cruéis intolerâncias, também são duramente perseguidos os homossexuais, que podem ser presos, chicoteados e executados pelo “crime” de manter relações homoafetivas.

Tudo isso é coisa já sabida, constatada e extensamente divulgada; se aqui repito o que todo mundo sabe é porque, no debate que se tem travado em torno da guerra em curso, a maior parte da turma da esquerda, fincando pé na monocórdica campanha “anti-imperialista”, toma hipocritamente o partido do regime dos aiatolás, a despeito de todas as atrocidades por ele perpetradas. 

Sim, ocorrem erros na condução da guerra, como foi o caso da explosão de uma escola de meninas em Minab. Os EUA não assumiram responsabilidade oficial, mas investigações internas preliminares indicam que é “provável” ou “muito provável” que forças americanas tenham sido responsáveis, possivelmente por erro de inteligência (a escola ficava ao lado de uma antiga base naval da Guarda Revolucionária Islâmica, que pode ter sido o alvo pretendido). 

Um acidente triste e lamentável. Mas por que aqueles que se apressaram em difundir como real uma imagem falsa, gerada por IA, acerca do referido episódio não se deram ao trabalho de criticar também o recente massacre perpetrado pelo regime contra os manifestantes que lutavam por liberdade? Por que não se indignaram por ocasião daquela brutal repressão que deixou dezenas de milhares de vítimas?

Como observa Brendan O’Neill, ativistas e comentaristas que nunca expressaram indignação diante da repressão brutal do regime teocrático iraniano – das execuções de dissidentes à perseguição sistemática de mulheres e minorias – tornam-se subitamente inflamados quando uma ação militar ocidental ameaça o poder dos aiatolás. 

Essa inversão moral decorre de uma lógica ideológica segundo a qual todo mal no mundo deve ser, em última instância, atribuído ao Ocidente. 

Essa postura tem sido criticada de forma particularmente contundente pela escritora Ayaan Hirsi Ali, que há décadas denuncia a complacência ocidental diante do islamismo político. Para ela, o regime iraniano não é simplesmente um governo autoritário entre outros, mas uma expressão de um projeto ideológico mais amplo que busca submeter a sociedade à lei religiosa e suprimir direitos fundamentais, sobretudo os das mulheres.

A própria existência de um sistema que pune com chicotadas, prisão ou morte comportamentos privados deveria ser suficiente para expor o caráter profundamente iliberal dessa ordem política. Ainda assim, setores da opinião pública ocidental preferem relativizar tais abusos, temendo que a crítica ao islamismo seja confundida com intolerância cultural. 

O paradoxo torna-se ainda mais evidente quando se observa quem são as principais vítimas do regime iraniano: mulheres que desafiam o véu obrigatório, jovens que protestam nas ruas, minorias religiosas, homossexuais e dissidentes políticos. Ou seja, exatamente aqueles grupos cuja defesa constitui, em tese, o núcleo moral do progressismo contemporâneo. No entanto, quando esses mesmos indivíduos se levantam contra a tirania teocrática, muitos dos que proclamam defender os oprimidos preferem o silêncio ou, pior ainda, denunciam como “imperialista” qualquer força que ameace enfraquecer o regime que os oprime. 

No fundo, essa contradição revela algo mais profundo do que mera incoerência circunstancial, ela denuncia uma crise intelectual do próprio pensamento político ocidental. Quando a lente ideológica se torna tão rígida que impede reconhecer a diferença entre uma sociedade aberta e uma teocracia repressiva, a análise política degenera em propaganda. A defesa da liberdade deixa de ser um princípio universal e transforma-se em instrumento seletivo, aplicado apenas quando conveniente ao esquema narrativo dominante. 

A questão decisiva colocada pela guerra em curso é, além de geopolítica, também moral e civilizacional. Se o regime dos aiatolás cair, será um golpe contra um dos centros mais poderosos do islamismo político contemporâneo. E, talvez mais importante, poderá abrir caminho para que o povo iraniano recupere aquilo que lhe foi confiscado desde 1979: a possibilidade de viver em liberdade. 

Difamaram Ana Paula Valadão para defender os aiatolás

No Irã, ser pego com uma Bíblia pode resultar em anos de prisão. Abandonar o islã para se converter ao cristianismo pode ser punido com morte. É a realidade de um regime teocrático que controla a vida privada, reprime minorias religiosas e trata a liberdade de consciência como crime. Foi nesse contexto que a cantora evangélica Ana Paula Valadão Bessa publicou um vídeo pedindo oração pelos cristãos iranianos. Muitos deles reagiram com esperança cautelosa às notícias sobre a morte do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, responsável direto por décadas de perseguição religiosa e repressão política. Para quem vive sob esse regime, qualquer mudança no topo do poder pode significar um pequeno respiro.

Bastou isso para que começasse mais uma campanha de linchamento virtual contra Ana Paula Valadão. Influenciadores e militantes passaram a afirmar que a cantora estaria comemorando a morte de civis iranianos. A acusação se baseou em uma notícia sobre um suposto ataque a uma escola que teria matado centenas de meninas. O detalhe é que essa informação foi divulgada apenas pelo próprio regime iraniano e não pôde ser investigada de forma independente por jornalistas. Mesmo assim, a narrativa se espalhou rapidamente nas redes sociais.

Uma semana depois, novas investigações publicadas por jornais americanos passaram a indicar que o ataque poderia ter sido realizado pelos Estados Unidos. No momento em que Ana Paula Valadão publicou seu vídeo, essa informação sequer existia. O que ela comentou foi outra coisa: a precisão dos ataques israelenses contra alvos militares do regime iraniano e o possível impacto disso para civis que vivem sob a ditadura dos aiatolás.

No próprio vídeo ela afirma que não é necessário gostar de Israel para reconhecer que ataques direcionados a estruturas militares podem reduzir riscos para a população civil. A mensagem principal de Ana Paula Valadão era simples: oração pelos cristãos perseguidos e esperança de que o regime responsável por esse sofrimento possa perder força. Mas nada disso importa quando o objetivo é cancelar alguém.

A reação revela um fenômeno cada vez mais comum no ambiente digital. Parte do progressismo brasileiro importou da classe média alta americana uma cartilha ideológica pronta. Nela, os Estados Unidos são sempre o inimigo estrutural. Israel passa automaticamente para o papel de vilão. E qualquer adversário desses dois pólos passa a ser tratado como aliado tático, mesmo quando se trata de um regime teocrático que prende cristãos, executa dissidentes e governa segundo uma interpretação radical da lei islâmica.

Daí surgem situações absurdas. Pessoas que se apresentam como defensoras dos direitos das mulheres acabam relativizando um regime que permite casamento de meninas de nove anos. Militantes que dizem lutar pelos direitos LGBT passam pano para um governo que executa homossexuais. Influenciadores que se proclamam campeões da liberdade defendem uma teocracia que pune conversão religiosa com a morte. Como conciliar essas contradições? Simples: divorciando-se da realidade.

O problema não é defender o regime iraniano explicitamente. Isso seria constrangedor demais. O caminho mais confortável é outro. Primeiro inventa-se uma acusação monstruosa contra alguém que esteja do lado errado da guerra cultural. Depois se diz que toda a indignação é apenas uma reação moral a essa suposta monstruosidade. Assim, quem passa o dia difamando pode continuar se apresentando como defensor da justiça social.

No caso de Ana Paula Valadão, bastou espalhar que ela teria comemorado a morte de crianças. O fato de que ela não disse nada disso no vídeo virou um detalhe irrelevante. A acusação cumpre sua função: gerar indignação, produzir cancelamento e permitir que os acusadores preservem a própria imagem de pessoas virtuosas. É um comportamento repugnante, mas cada vez mais previsível.

A boa notícia é que esse mecanismo já está ficando evidente para muita gente. A indústria do cancelamento depende de uma encenação moral permanente. Quem participa dela precisa fingir boas intenções enquanto dedica o dia a difamar pessoas e tentar destruir reputações. No fundo, trata-se apenas de mais um ritual de pureza ideológica.

Nesse episódio específico de Ana Paula Valadão, há uma ironia difícil de ignorar. Pessoas que vivem em democracias liberais, com liberdade de expressão e liberdade religiosa, decidiram atacar uma cantora cristã que pediu oração por vítimas de perseguição religiosa. Tudo isso para não precisar admitir o óbvio: o regime dos aiatolás é uma ditadura brutal.

Se os defensores desse regime realmente acreditam que ele representa um avanço civilizatório, a solução é simples: podem sempre fazer as malas e experimentar de perto as maravilhas dessa liberdade que dizem defender. Eu adoraria testemunhar essa experiência.

O Crepúsculo dos Aiatolás

O dia 28 de fevereiro de 2026 consolida-se como um divisor de águas na história contemporânea do Oriente Médio. A confirmação da morte de Ali Khamenei — o Líder Supremo que personificou a República Islâmica com inabalável rigidez desde 1989 — em decorrência de uma operação cirúrgica e coordenada entre Estados Unidos e Israel, transcende o êxito tático-militar. Trata-se do colapso do pilar central de uma teocracia que, por quase meio século, fundamentou sua política externa na exportação da instabilidade e sua política interna na opressão sistemática. A vacância deste centro de gravidade impõe à comunidade internacional a necessidade de gerir um vácuo de poder com rara clareza moral e pragmatismo analítico.

A decisão por um ataque de “decapitação” contra o complexo de Khamenei em Teerã não foi um evento isolado, mas o desfecho inevitável do esgotamento da paciência estratégica ocidental. Durante décadas, o regime iraniano operou sob a égide da defesa avançada, terceirizando conflitos através de proxies como Hezbollah, Hamas e Houthis, mantendo o ônus da guerra longe de suas fronteiras. Ao atingir o ápice da hierarquia, Washington e Jerusalém alteraram a gramática do conflito, atingindo diretamente os arquitetos da desestabilização. Diante de um ator que interpreta o diálogo como oportunidade de rearmamento, a ação direta revelou-se o único recurso capaz de prevenir uma catástrofe nuclear e a hegemonia de um Estado pária no Golfo Pérsico.

Embora o objetivo imediato fosse a neutralização de capacidades nucleares, a inteligência aliada compreendeu que a destruição física de centrífugas é insuficiente se o “software” ideológico do regime permanecer operante. A eliminação de Khamenei ataca esta frente, ou seja, a vontade política que alimentava o programa. Sem seu principal fiador teológico, o projeto atômico perde a aura de missão divina e torna-se um ativo oneroso para uma estrutura focada agora apenas na própria sobrevivência. Os espasmos finais do sistema, como as tentativas de bloqueio ao Estreito de Ormuz, apenas solidificaram a percepção de que a República Islâmica era uma ameaça existencial à estabilidade econômica global, disposta a qualquer jogada no xadrez global.

Com a eliminação de Ali Khamenei, a Guarda Revolucionária (IRGC) entra em fase de cálculo pragmático, onde a oferta de imunidade por parte dos EUA visa transformar um exército ideológico em uma força preocupada com a própria preservação. Ao mesmo tempo, os aiatolás, acuados, perdem força no tabuleiro de poder enquanto o país ainda tenta se manter funcional. A queda final do regime, entretanto, exige convergência de pressão externa esmagadora, deserção das forças de segurança e uma alternativa política organizada.

Regionalmente, o colapso redesenha o mapa de forma sísmica. Proxies ficam órfãs de financiamento, permitindo uma limpeza de enclaves terroristas, enquanto os Acordos de Abraão tendem a uma expansão sem precedentes alcançando a Arábia Saudita. Para evitar erros do passado, a intervenção priorizou a decapitação seletiva em detrimento de ocupações terrestres massivas, preservando burocracias essenciais e removendo apenas a asfixia ideológica. A queda da teocracia permite que o Irã retorne ao concerto das nações, abrindo espaço para que a luz da soberania popular enfim emerja sobre o planalto iraniano como o maior dividendo de paz do século XXI.

Judicialização, timing e o avanço das investigações: quando a forma altera o curso da política

A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que suspendeu a votação de requerimentos de quebra de sigilo aprovados em bloco na CPMI do INSS, transcende o debate técnico sobre forma de deliberação parlamentar. O episódio precisa ser analisado dentro do contexto político-institucional em que ocorreu.

A CPMI avançava sobre estruturas sensíveis do aparelho estatal e sobre personagens com relevância institucional. Os requerimentos de quebra de sigilo não eram atos periféricos: constituíam instrumentos centrais para aprofundamento da investigação.

É nesse ponto que o timing da decisão assume relevância.

Formalmente, o argumento utilizado foi o da necessidade de deliberação individualizada para medidas invasivas de direitos fundamentais. No entanto, os requerimentos possuíam fundamentação individual expressa, delimitação temporal e pertinência temática. A controvérsia não residia no conteúdo, mas na técnica de votação: em bloco.

A prática regimental do Congresso Nacional admite votações em bloco como instrumento legítimo de racionalização dos trabalhos. O próprio STF, ao longo de sua jurisprudência, consolidou o entendimento de que a condução interna dos trabalhos legislativos constitui matéria interna corporis, insuscetível de revisão judicial salvo afronta direta e inequívoca à Constituição.

A pergunta que emerge não é meramente formal: por que elevar o grau de formalismo exatamente no momento em que a investigação ganha tração?

Quando o controle judicial incide sobre o instrumento que viabiliza o aprofundamento investigativo — e não sobre abuso material demonstrado — o efeito prático é a desaceleração ou redirecionamento do curso político da investigação.

Não se trata de afirmar intenção, mas de reconhecer consequência.

No constitucionalismo moderno, o Judiciário exerce papel contramajoritário essencial. Contudo, a expansão interpretativa de exigências procedimentais não previstas expressamente na Constituição pode produzir impactos políticos significativos.

Há um ponto delicado aqui: se toda técnica deliberativa parlamentar puder ser reavaliada judicialmente sob critérios variáveis de formalismo, o espaço de autonomia investigativa do Legislativo torna-se condicionado ao escrutínio permanente da Corte.

Isso altera o equilíbrio entre os Poderes.

O STF historicamente afirmou que não intervém em atos interna corporis. Ao intervir na forma da votação — e não na inexistência de fundamentação — a decisão parece deslocar a fronteira tradicional desse entendimento.

O debate que se impõe não é se o Judiciário deve proteger direitos fundamentais. Deve.

A questão é outra: pode o Judiciário, sob o pretexto de reforço formal, impactar diretamente o ritmo e a direção de investigações que alcançam estruturas sensíveis do Estado?

Em democracias consolidadas, o controle entre Poderes exige autocontenção recíproca. Quando essa autocontenção se enfraquece, o sistema passa a operar sob permanente tensão institucional.

O caso da CPMI do INSS talvez seja menos sobre votação em bloco e mais sobre a redefinição silenciosa das fronteiras entre investigação parlamentar e intervenção judicial.

O risco não é um conflito episódico.

O risco é a normalização da revisão judicial do modo como o Parlamento exerce sua função investigatória, especialmente quando essa função alcança núcleos relevantes da República.

Democracia não é ausência de conflito entre Poderes.
É convivência com limites claros.

Quando esses limites se tornam elásticos, o equilíbrio constitucional deixa de ser previsível.

E previsibilidade é um dos pilares da estabilidade institucional.

Taiwan: Amizade, Parceria e Prosperidade

Escrevo este artigo sob a sombra do autoritarismo chinês, mas com a convicção de quem lidera uma nação que transformou o compromisso com a liberdade, a democracia e os direitos humanos em sua própria identidade. Ao completar 30 anos desde nossa primeira eleição presidencial direta, Taiwan consolidou-se como uma democracia vibrante e um parceiro global indispensável. No entanto, o valor que oferecemos ao mundo hoje vai além dos ideais compartilhados, ele é profundamente estratégico e prático.

Como Ministro das Relações Exteriores, tenho promovido uma transição fundamental em nossa estratégia: passamos da “diplomacia baseada em valores” para a “diplomacia de valor agregado”. Meu objetivo é mostrar que a solidariedade com Taiwan não é apenas um ato moral, mas um motor de prosperidade para nossos aliados. Taiwan funciona como um fosso que salvaguarda o Indo-Pacífico, uma região por onde circulam 50% dos navios de contêineres do mundo. Qualquer instabilidade aqui, provocada pelo expansionismo autoritário, colocaria em risco o comércio global e a ordem internacional baseada em regras.

Enfrentamos diariamente táticas de coerção econômica, infiltração e ameaças militares. Por isso, transformamos nossos desafios em expertise. Em 2025, intensificamos nossa defesa contra a sabotagem de cabos submarinos e combatemos ativamente a desinformação gerada por Inteligência Artificial. Essa resiliência é um bem público que compartilhamos através de plataformas como o GCTF (Estrutura de Cooperação e Treinamento Global), ajudando outras democracias a fortalecerem sua própria segurança.

No campo econômico, nossa posição é única: produzimos 60% dos semicondutores do mundo e 90% dos chips avançados e servidores de IA. Países que buscam diversificar suas cadeias de suprimentos para longe da dependência chinesa encontram em Taiwan uma alternativa segura e transparente. Diferente de modelos que geram armadilhas de dívida, nossa abordagem foca na sustentabilidade e no desenvolvimento mútuo. Estamos implementando projetos como o navio de emissão zero em Palau, o Parque Tecnológico Inteligente no Paraguai e parcerias de medicina digital no Reino de Essuatíni, na África.

Nossa aliança com os Estados Unidos é um exemplo prático dessa “diplomacia de valor agregado”. Recentemente, firmamos o compromisso de investir 250 bilhões de dólares nas indústrias de semicondutores e tecnologia americanas, com outros 250 bilhões em garantias de crédito para apoiar nossas empresas nessa expansão. Juntos, através da Declaração Pax Silica, estamos assegurando que as cadeias de suprimentos de IA permaneçam estáveis e protegidas.

A exclusão de Taiwan de organizações como a OMS e o CPTPP (Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica) não é apenas uma injustiça contra nosso povo, mas uma perda para a comunidade internacional. Nossa experiência no combate à COVID-19 e nossos altos padrões de governança comercial poderiam fortalecer a segurança sanitária e econômica global.

O mundo livre precisa de Taiwan porque, ao trabalhar conosco, as nações ganham o que não podem encontrar em nenhum outro lugar: segurança reforçada, prosperidade técnica e o conhecimento vital para resistir à pressão autoritária. Seja pelo prisma dos valores ou dos interesses, Taiwan está pronto para ajudar a proteger o futuro de todos.

STF futebol clube contra o Estado Democrático de Direito

Agora devidamente anunciado ao público, havia já alguns anos que o STF Futebol Clube vinha atuando, dentro e fora de campo, de maneira bastante eficiente; sendo o seu ponto forte o espírito de equipe: no time do Supremo Tribunal Federal ninguém solta a mão de ninguém.

Forte na defesa, o time do Supremo é audacioso no ataque, atropelando os adversários sem qualquer preocupação com as regras do jogo. Jogando firmemente contra o frágil time da democracia, que alega defender, o atacante Alexandre de Moraes faz valer a força para golear o adversário, deixando atônitos os torcedores do time do Estado Democrático de Direito.

Antes de seguir com o relato das supremas irregularidades, devemos recordar a origem da nossa alegoria futebolística. Ela vem de uma fala do ministro Flávio Dino, feita em uma reunião do STF que deveria ser secreta, mas que foi gravada e vazada:

“Eu já disse para o meu amigo e irmão Dias Toffoli: veja que já tem maioria. Mas não vai ser unânime. Mas o ministro Dias Toffoli tem voto para continuar. […] Em qualquer outro pedido de arguição [de ministro] eu sou STF futebol clube”.

Essa reunião havia sido convocada às pressas pelo ministro-presidente Edson Fachin porque o STF estava sendo acuado por investigações da Polícia Federal, pela imprensa investigativa e pela opinião pública por envolvimento de ministros do Supremo no caso da liquidação do Banco Master; sendo especialmente visado o ministro Dias Toffoli, que segurava nas suas suspeitas mãos a relatoria do referido e escandaloso caso.

Contrariamente à previsão de Flávio Dino, a nota emitida pelo colegiado do STF – que resultou de um acordo com Dias Toffoli, que aceitou pedir afastamento da relatoria – foi unânime; e não só afastou do “amigo e irmão” qualquer suspeição, como enalteceu o seu trabalho.

Convém lembrar que, por ocasião da referida convocação, o presidente Fachin levantava publicamente e com grande insistência a bola do “código de ética”. Depois da decisão pouco ética exposta na acovardada nota do colegiado e pelas falas pouco republicanas da reunião vazada, viu-se que o código de Fachin era uma tentativa de drible na opinião pública, uma artimanha de jogador catimbeiro. 

Dias Toffoli parece sequer ter preocupação com a imagem pública do seu “time”, praticando um jogo feio que dá muito na vista. No caso Master-Vorcaro, tomou decisões esdrúxulas para se defender das suspeitas robustas derivadas das investigações da Polícia Federal. 

O ministro Alexandre de Moraes, por sua vez, antecipou jogadas adversárias e partiu para o ataque até mesmo por suspeitas que ele presumiu pudessem vir a macular ainda mais a sua já não muito honorável imagem. 

Recentemente, esse hábil jogador, determinou uma série de medidas cautelares contra quatro servidores públicos ligados à Receita Federal (ou cedidos a ela) no contexto de uma investigação sobre supostos acessos ilegais e possível vazamento de dados fiscais sigilosos de ministros do STF e de seus familiares. A ação ocorreu no âmbito do Inquérito 4.781 do qual Moraes é relator.

As restrições impostas aos servidores públicos impactam diretamente direitos como o de exercer o cargo, liberdade de locomoção (parcial), privacidade (sigilos quebrados) e acesso a ferramentas de trabalho. Algumas defesas já pediram revisão (ex.: retirada de tornozeleira e acesso a e-mails para comprovar álibi).

Para a aplicação de punições tão pesadas, o STF alegou que “Foram constatados diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil, seguindo-se de posterior vazamento das informações sigilosas”.

Consultada, a Procuradoria Geral da República (PGR), corroborou a decisão do ministro, afirmando o seguinte:

“o caso não se exaure apenas na violação individual do sigilo fiscal, uma vez que a exploração fragmentada e seletiva de informações sigilosas de autoridades públicas, divulgadas sem contexto e sem controle jurisdicional, tem sido instrumentalizada para produzir suspeitas artificiais, de difícil dissipação”.

Vejam que a iniciativa da denúncia contra os servidores da Receita não foi da PGR, que foi consultada depois que o ministro Moraes já havia tomado a decisão. E quem investigou, como transcorreu o processo? Tudo foi feito na alçada do STF, sob o talante autoritário e implacável de Alexandre de Moraes, no amparo do “inquérito das fake news”, o famigerado “inquérito do fim do mundo”. Inquérito este que é considerado inconstitucional por muitos, inclusive pelo ministro aposentado do STF Marco Aurélio Mello.

Naturalmente, sobrevieram reações à intempestiva condenação dos auditores da Receita Federal, algumas em tons de revolta e indignação, denunciando que estavam sendo feridas pelo STF regras básicas que devem ser observadas no Estado Democrático de Direito.

Um dos que reclamaram foi, justamente, quem mais tinha o direito e até mesmo o dever de reclamar: o presidente da Unafisco (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil), Kleber Cabral. O líder sindical, então, fez a seguinte declaração: “É menos arriscado fiscalizar membros do PCC do que altas autoridades da República.” 

E disse ainda:

“Há uma mensagem, que eu preciso registrar, subliminar, que isso afeta muitos auditores, que é o seguinte: esse tipo de medida busca humilhar, busca constranger e busca amedrontar. E o pior é que dá certo”

O ministro Alexandre de Moraes não perdeu tempo e abusou, pela enésima vez, do seu poder, mandando investigar o presidente da Unafisco por suas audaciosas declarações.

Uma nação democrática deve ter pela sua Suprema Corte o maior respeito; no Brasil, entretanto, ela é merecidamente objeto de desprezo e tenta se impor aos cidadãos incutindo neles o medo. 

Entre medos razoáveis ou desarrazoados, ventila-se estar em curso uma possível prisão da jornalista Malu Gaspar. 

Como se sabe, essa jornalista de O Globo e Globo News, realiza um trabalho de jornalismo investigativo dos mais eficientes e corajosos. Sua reportagem/investigação sobre o contrato milionário entre o escritório de Advocacia de Viviani Barci de Moraes (esposa do ministro Alexandre de Moraes) e o Banco Master foi o que abalou os alicerces do mundo jurídico-político nacional.

Pode ser alarde, mas os abusos continuados de Alexandre de Moraes justificam o temor e abrem precedentes perigosos, sendo sumamente importante nesse momento a defesa da liberdade de imprensa e a valorização e reconhecimento devidos ao que restou do jornalismo no Brasil, ainda não cooptado pelo poder do Lulismo e do STF. 

Epílogo Castrista

A história da Revolução Cubana, quando despojada de seu misticismo romântico, revela-se como o registro de um sucesso singular na arte do parasitismo geopolítico. Por mais de seis décadas, Havana sobreviveu não pela eficiência de seu modelo econômico ou pela solidez de suas instituições, mas pela habilidade magistral em comercializar sua localização estratégica. A ilha transformou-se em uma espécie de entreposto para potências e movimentos dispostos a financiar uma aventura autoritária no Caribe em troca de uma base avançada contra o Ocidente. Havana tornou-se, na prática, um “Airbnb para ditaduras”, alugando sua soberania primeiro aos soviéticos e, posteriormente, aos chavistas. No entanto, neste início de 2026, Cuba depara-se com um fenômeno inédito e aterrador em sua trajetória: a ausência absoluta de um hóspede disposto ou capaz de financiar sua insolvência.

A débâcle econômica da ilha não é mais um ciclo de escassez, mas um colapso sistêmico de infraestrutura. Os números são brutais e revelam uma nação despedaçada. O PIB cubano, que já vinha de uma contração acumulada nos últimos anos, enfrenta hoje uma paralisia produtiva quase total. A inflação, que o governo tenta maquiar, explode nos mercados informais onde o peso cubano tornou-se uma moeda de ficção. Com o dólar sendo negociado a 450 pesos no câmbio negro, o salário médio de um profissional de elite não cobre o custo de uma proteína básica para uma semana. 

A crise energética de 2025, que viu o país mergulhar em apagões nacionais de até 20h por dia, transformou-se em 2026 em uma “morte térmica” da rede. Sem peças de reposição para as obsoletas centrais termoelétricas soviéticas e sem crédito internacional para comprar combustível a preço de mercado, Havana é hoje uma capital à luz de velas, onde a fome deixou de ser uma ameaça estatística para se tornar uma realidade onipresente. O êxodo demográfico completa o quadro: desde 2022, mais de 10% da população fugiu da ilha, drenando o capital humano e abandonando uma sociedade envelhecida e desiludida.

Neste cenário de terra arrasada, a variável geopolítica mudou drasticamente com a ascensão de Marco Rubio ao Departamento de Estado. Diferente de seus antecessores, Rubio não enxerga Cuba através das lentes da Guerra Fria ou do pragmatismo comercial, mas como uma questão de política interna americana e reparação histórica. Como descendente de cubanos, sua estratégia é de asfixia logística e moral. A nova doutrina de Washington, liderada pelo governo Trump, abandonou a retórica do “engajamento” para adotar o que se pode chamar de “isolamento terminal”. Rubio compreende que a sobrevivência do regime depende da capacidade do GAESA — o conglomerado militar que controla 80% da economia dolarizada e o turismo — em movimentar fundos ilícitos. Ao aplicar sanções cirúrgicas nas contas e rotas logísticas da elite militar, os EUA estão forçando uma fratura entre a cúpula política e o braço armado do Estado. A mensagem enviada pela captura de Maduro foi clara: o escudo da impunidade soberana foi rompido no Hemisfério Ocidental.

A análise sobre se Cuba seguirá o modelo venezuelano de fragmentação em feudos criminais esbarra na própria natureza das instituições cubanas. Enquanto o chavismo era um movimento populista que corrompeu as Forças Armadas através do tráfico de influência, o castrismo é um sistema totalitário onde o Partido e o Exército são uma única entidade indissociável. Isso torna a queda do regime mais perigosa, porém potencialmente mais limpa em termos de transição. Não há um “Cartel dos Sóis” cubano com a mesma autonomia do venezuelano, existe uma hierarquia rígida que, se rompida por uma revolta interna de oficiais de médio escalão, pode desmoronar como um castelo de cartas. O risco de “venezuelanização” — um estado de anomia prolongada — é mitigado pela proximidade geográfica com a Flórida e pela capacidade de investimento imediato da diáspora, mas condicionado à remoção total da casta militar que hoje sequestra as fontes de riqueza da ilha.

O caminho para a democracia em Cuba exigirá uma “cirurgia de guerra” institucional. Após três gerações sob o controle da família Castro e seus burocratas, o país não possui memória de livre mercado ou pluralismo partidário. Os cenários que se desenham para o restante de 2026 variam entre a implosão súbita motivada por uma revolta popular impulsionada pela fome e escassez e uma transição negociada sob pressão extrema, onde a cúpula militar entrega Díaz-Canel em troca de anistia e a promessa de manutenção de algumas propriedades. Contudo, a firmeza de Rubio sugere que Washington não aceitará um “putinismo tropical” em Cuba. O objetivo é a desmontagem do aparato de segurança. Para que Cuba floresça, será necessário mais do que o fim do embargo, será preciso o desmantelamento do aparato de inteligência que ainda atua como o sistema nervoso central da repressão na América Latina.

A democracia em Cuba não será o resultado de uma evolução benevolente do sistema, mas o subproduto inevitável de uma falência múltipla de órgãos. O modelo de “Continuidade” de Díaz-Canel provou ser apenas o epílogo melancólico de uma tragédia histórica. Cuba está, finalmente, diante de seu destino geográfico e histórico: reintegrar-se ao sistema interamericano do qual se autoexilou por seis décadas. O fim do regime não é mais uma questão de possibilidade, mas de cronologia. Para o Brasil e para o continente, o colapso da ditadura cubana representará o fechamento da última fronteira ideológica do século XX, removendo o epicentro de instabilidade que, por décadas, exportou métodos de subversão democrática. Resta saber se essa transição será fruto de um diálogo forçado pela necessidade ou se o Palácio da Revolução será tragado pela mesma escuridão que hoje tenta impor ao seu próprio povo.

A estratégia do Ártico e a nova geopolítica dos recursos

A Ilusão da Paz no Alto Norte. O acordo “quadro” anunciado pelo Presidente Trump em relação à Groenlândia no Fórum Econômico Mundial em Davos suspendeu momentaneamente a ameaça de um conflito armado dentro da OTAN, mas acelerou uma corrida geoestratégica muito mais consequente. Embora o espectro imediato das tarifas americanas sobre os aliados europeus tenha recuado, o fator subjacente da crise — a corrida pela supremacia no Ártico — apenas se intensificou. A manobra agressiva de Washington, embora diplomaticamente desajeitada, revelou uma nova realidade: o Ártico não é mais uma zona de “alto norte, baixa tensão”, mas o teatro central da guerra por recursos do século XXI.

A “Armadilha da Groenlândia” para a Europa. O suspiro de alívio da Europa é prematuro. O “quadro” ao qual Trump se referiu provavelmente envolve concessões que vincularão a Groenlândia mais firmemente à arquitetura de segurança dos EUA, criando efetivamente um protetorado americano de facto, mesmo sem anexação formal. Para a UE, esta é uma derrota estratégica disfarçada de salvamento diplomático. A “autonomia estratégica” da Europa no Ártico foi exposta como uma fachada; sem o apoio militar dos EUA, a UE não tem poder coercitivo para garantir a Rota Marítima do Norte ou os depósitos minerais críticos na Groenlândia, essenciais para a sua própria transição verde. Os 15% da procura global de terras raras que poderiam ser supridos pelo sítio de Kvanefjeld, na Groenlândia, estão agora sob o guarda-chuva de segurança americano, sujeitando potencialmente o acesso europeu aos caprichos do nacionalismo de recursos “América Primeiro”.

China: O Sonho “Quase-Ártico” no Gelo. Para Pequim, os eventos de janeiro de 2026 representam um revés catastrófico. A estratégia da “Rota da Seda Polar” da China baseava-se numa entrada económica gradual no Ártico através de investimentos em infraestruturas e mineração. A abordagem de Trump, como um “elefante numa loja de porcelana” — citando explicitamente os destróieres chineses e o “Grupo General Nice” como ameaças — obrigou o Ocidente a fechar fileiras contra o capital chinês no Alto Norte.

  • Dilema de Malaca se Agrava: Com os EUA potencialmente assumindo o controle da região entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido (GIUK) e das rotas marítimas do Ártico, a esperança da China de contornar o vulnerável Estreito de Malaca por meio de uma Rota Marítima do Norte está agora ameaçada pela supremacia naval americana em ambas as extremidades da passagem.
  • Insegurança de Recursos: Como a maior refinadora mundial de terras raras, a China tem usado seu monopólio como moeda de troca. O controle dos EUA sobre as enormes reservas inexploradas da Groenlândia cria uma cadeia de suprimentos alternativa viável, minando diretamente uma das armas econômicas mais poderosas de Pequim.

Rússia: Cercada em seu próprio quintal. Enquanto a atenção pública se concentrava em Trump contra a Europa, o verdadeiro alvo sempre foi a Rússia. Moscou via o Ártico como seu bastião seguro — lar de sua Frota do Norte e de sua dissuasão nuclear. Uma Groenlândia americanizada, potencialmente abrigando defesa antimíssil e capacidades ofensivas expandidas (além da base existente de Thule/Pituffik), altera fundamentalmente o equilíbrio nuclear. Isso coloca sensores e interceptores americanos perigosamente perto dos bastiões de submarinos russos.

  • Eixo China-Rússia: Essa pressão forçará Moscou a se aproximar ainda mais de Pequim. Isolada pelo Ocidente e ameaçada no Ártico, a Rússia provavelmente acelerará a abertura da Rota Marítima do Norte para navios de guerra chineses, trocando soberania por sobrevivência. Devemos esperar mais patrulhas navais conjuntas sino-russas perto do Alasca, espelhando a pressão dos EUA na Groenlândia.

América Latina e os BRICS: Os efeitos colaterais da “Operação Resolução Absoluta”. O ataque à Venezuela e a tentativa de coerção da Dinamarca enviaram um sinal alarmante ao Sul Global: a soberania é condicional.

  • A “Doutrina Monroe” globalizada: a disposição de Trump em usar tarifas e ameaças militares contra um aliado da OTAN (Dinamarca) sugere que a guerra está declarada no Hemisfério Ocidental. Para a América Latina, os EUA não são mais apenas uma potência hegemônica, mas um predador imprevisível. Isso levará os governos da “onda rosa” da região (Brasil, Colômbia e México) a buscarem uma integração econômica protetora com o bloco BRICS.
  • Os BRICS como um “escudo de soberania”: a aliança BRICS provavelmente deixará de ser um fórum puramente econômico para se tornar uma defesa mútua da soberania. Podemos esperar que a cúpula dos BRICS de 2026 se concentre na criação de sistemas financeiros paralelos (para burlar as sanções dos EUA) e talvez até mesmo em um mecanismo formal de segurança coletiva ou compartilhamento de informações para combater as operações de “mudança de regime” dos EUA. O “precedente da Groenlândia” — de que os recursos justificam as tentativas de anexação — aterrorizará as nações ricas em recursos na África e na América do Sul, levando-as a diversificar suas parcerias e a se afastar de Washington.

Japão: O Perdedor Silencioso. O Japão encontra-se numa posição frágil. Como uma nação insular com poucos recursos naturais e dependente da segurança dos EUA, não pode criticar abertamente a questão da Groenlândia. No entanto, a instrumentalização do comércio e do território desestabiliza a ordem baseada em regras na qual o Japão se apoia. Se os EUA conseguem intimidar a Dinamarca, certamente podem intimidar o Japão a impor termos comerciais desfavoráveis ​​(como se vê com as tarifas de 32%). Tóquio provavelmente intensificará discretamente a sua própria diplomacia de recursos na África e na Ásia Central para reduzir a dependência tanto das terras raras chinesas quanto das garantias americanas potencialmente pouco confiáveis.

Conclusão: As Guerras por Recursos Começaram. A crise da Groenlândia nunca teve a ver com a compra de uma ilha; foi o primeiro ataque das guerras por recursos pós-globalização. O mundo fragmentou-se em esferas de influência concorrentes, onde minerais críticos, e não ideologia, ditam as alianças. Os EUA asseguraram o seu flanco norte e a sua base de recursos, mas ao custo de destruir a confiança que sustentava a aliança ocidental. Estamos entrando em uma era de mercantilismo desenfreado, onde as grandes potências se apoderarão do que precisam, e o resto do mundo terá que escolher um lado ou correrá o risco de ser engolido por completo.

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Sambaram na cara da sociedade e o castigo veio a cavalo

A Marquês de Sapucaí viu de tudo ao longo das décadas. Viu escolas desafiarem governos, ironizarem presidentes, satirizarem a própria elite cultural que as financia. O que se viu neste carnaval foi diferente. A Acadêmicos de Niterói transformou a avenida em palanque e fez da homenagem ao presidente Lula um espetáculo que, em vez de fortalecer o governo, produziu o efeito contrário. Sambaram na cara da sociedade e o castigo veio a cavalo.

O desfile de carnaval foi alardeado como exaltação cultural. O resultado foi político demais até para aliados. Telões exibindo a trajetória do presidente, execução de trechos associados a jingles de campanha, referências a programas sociais dos governos petistas, menções ao número da legenda, o gesto do “L” repetido em alas inteiras. O próprio noticiário registrou que o presidente foi o único pré-candidato “homenageado”, circunstância que lhe rendeu “exatos 78 minutos de exposição no horário nobre”, segundo a representação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral.

Partido Missão protocolou no TSE uma representação com pedido de liminar contra Lula, o PT e a escola. A petição afirma que o desfile de carnaval trouxe “muitos mais elementos configuradores das irregularidades que esse TSE considera como propaganda antecipada punível”. Sustenta ainda que houve “muitos elementos eleitorais que convolaram a homenagem em descarada campanha eleitoral, desvirtuando completamente a liberdade de expressão cultural e carnavalesca”. O caso foi distribuído à ministra auxiliar da propaganda eleitoral Estela Aranha.

No dia seguinte, o PL foi além e apresentou pedido de produção antecipada de provas para apurar “indícios claros de abuso de poder político e econômico”. O objetivo declarado foi reunir elementos para eventual Ação de Investigação Judicial Eleitoral após a formalização das candidaturas. A peça solicita levantamento de informações sobre possível uso da estrutura da Presidência para captação de recursos e articulação de apoios, além de preservação de documentos, registros de comunicação e fluxo de recursos públicos e privados. Maria Cláudia Bucchianeri, responsável pela petição, registra que os dados “não se apresentam de forma consolidada, padronizada ou estruturada para permitir análise comparativa e contextualizada” e que “a complexidade do fluxo financeiro envolvido” impede aferição clara com base em consultas fragmentadas.

O governo tentou reduzir o episódio a uma celebração carnavalesca. Aliados argumentaram que a cultura não pode ser cerceada e que manifestações artísticas são livres. O problema não foi a homenagem. O problema foi o contexto. Em ano pré-eleitoral, com um presidente apontado como pré-candidato à reeleição, transformar desfile em narrativa institucional produz efeito jurídico e político.

A repercussão foi ainda mais ruidosa quando a briga entre Janja e Lurian ganhou espaço na imprensa. A Folha de S. Paulo e o portal Metrópolesnoticiaram que houve discussão em camarote, com relatos de que a primeira-dama teria expulsado a filha de Lula de uma sala na Sapucaí. O episódio, por si só, seria apenas fofoca palaciana. Dentro de um desfile de carnaval já questionado judicialmente, virou combustível para a percepção de descontrole.

O efeito simbólico foi devastador. A escola acabou rebaixada e até a imprensa internacional repercutiu. Aliados fizeram balanço negativo. A pretendida consagração virou constrangimento. Em política, quando a exaltação é excessiva, a conta chega rápido.

Há algo estrutural nesse episódio. Arte que nasce para contestar e se transforma em instrumento de poder costuma trazer mau agouro. A função histórica da arte, quando transborda para a política, é tensionar o poder e provocar desconforto nos poderosos. Quando a arte se coloca a favor do governante de plantão, ela deixa de desafiar e passa a servir. Inevitável que envelheça mal.

Um ponto ainda mais delicado parece não ter sido percebido pelo governo. Uma das alas do desfile representou a família tradicional e os evangélicos dentro de uma lata de conserva, como se fossem valores ultrapassados, engarrafados, prontos para o descarte histórico. A imagem viralizou imediatamente. Não como triunfo progressista, mas como combustível para reação. Em poucas horas, o que era alegoria virou tendência nas redes a favor da família. A metáfora que pretendia ironizar acabou reforçando aquilo que buscava diminuir e uniu as pessoas contra Lula, com postagem das próprias famílias em latas de conserva.

Esse detalhe importa mais do que parece. Lula só venceu porque recebeu votos de centro, de eleitores que rejeitavam Bolsonaro, mas não abraçaram uma agenda identitária ou culturalmente confrontacional. Recebeu votos de pessoas que prezam pela estabilidade, pela família, pela religiosidade cotidiana, ainda que não se identifiquem com o bolsonarismo. Ao permitir que uma ala associasse esses grupos a uma caricatura enlatada, o desfile de carnaval deixou de ser apenas uma celebração partidária e passou a tocar em sensibilidades morais profundas. O efeito político é previsível: o eleitor que já votou contra Bolsonaro por cansaço pode não estar disposto a votar novamente se sentir que seus valores são tratados como folclore a ser superado.

A sociedade brasileira pode até se dividir sobre Lula, sobre o PT, sobre os limites da propaganda antecipada. O que dificilmente se sustenta é a ideia de que a instrumentalização estética do carnaval não teria consequências. Teve e foram rápidas. Sambaram como se estivessem acima da crítica. Descobriram que a avenida não absolve tudo. Em democracia, a arte deve ser livre. E, quando ela deixa de ser ater para ser propaganda do poder estabelecido, o julgamento não é só dos jurados, é da sociedade.

Força, Ucrânia

Neste 24 de fevereiro a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia completa quatro anos de horror e desafio à ordem global. O que o Kremlin planejou como uma “operação relâmpago” transformou-se na maior prova de resiliência democrática do século XXI. Sob o fogo de uma autocracia imperialista, a Ucrânia não apenas defende seu solo, atua como o último baluarte dos valores ocidentais e da integridade territorial na Europa.

O rastro deixado pela agressão russa é uma mancha indelével na história recente. Estima-se que as baixas totais — entre mortos e feridos — já superem a marca de 2 milhões de pessoas, com um custo humano civil dilacerante. Mais de 100 mil crimes de guerra foram documentados, incluindo as execuções sumárias em Bucha, o cerco medieval a Mariupol e o sequestro sistemático de milhares de crianças ucranianas — um ato de genocídio tipificado pelo Direito Internacional.

Apesar do terror, a resiliência ucraniana é absoluta. O país converteu cada cidadão em um bastião de resistência. No entanto, o preço social é imenso: 6,5 milhões de ucranianos permanecem refugiados, compondo o maior êxodo europeu desde 1945. É uma nação que luta enquanto sangra, mantendo sua identidade viva sob bombardeios deliberados a escolas e hospitais.

A economia ucraniana foi alvo de uma estratégia de terra arrasada. Com a perda de cerca de 30% do PIB e a destruição de infraestruturas vitais, o custo estimado para a reconstrução ultrapassa os US$ 524 bilhões. Especialistas são enfáticos: mesmo com apoio internacional massivo, a Ucrânia precisará de pelo menos duas décadas para recuperar seus níveis de desenvolvimento pré-guerra. A reconstrução não será meramente física, mas uma reestruturação total para desvincular-se de vez da órbita de um vizinho agressor.

Neste cenário de clareza moral, a postura do Brasil nos últimos governos revela uma preocupante erosão de princípios. Sob o pretexto de uma “neutralidade” que beira a conivência, Brasília tem evitado condenar a Rússia de forma enfática e pública. Essa ambiguidade é uma afronta direta aos Direitos Humanos e ao Direito Internacional, pilares que o Brasil outrora defendeu com brio.

Tal posicionamento é, acima de tudo, um desrespeito à vibrante comunidade ucraniana no Brasil, composta por mais de 600 mil descendentes, concentrados majoritariamente no Paraná. Ignorar a agressão russa em fóruns internacionais, como o BRICS, em troca de pragmatismo comercial ou alinhamento ideológico, diminui a estatura diplomática brasileira e ignora o sofrimento de famílias que veem a terra de seus antepassados ser massacrada.

Ao longo desses 1.460 dias, a Ucrânia não apenas sobreviveu, o país se tornou o escudo da Europa, resistindo com sangue de seus filhos nos campos de batalha. A Ucrânia ensina ao mundo que a liberdade não se negocia. Para o Brasil, resta a urgência de realinhar sua política externa com a ética e a justiça. Não há equidistância possível entre agressor e vítima. Reconhecer a soberania ucraniana e condenar o imperialismo russo não é uma escolha política, é um imperativo moral. Por isso, quatro anos depois seguimos com a mesma mensagem: Força, Ucrânia.