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Autocratas, populistas e identitaristas

Os democratas liberais não são contra a esquerda ou contra a direita. São contra três tipos de esquerda e de direita: a autocrática (como Ortega e Bukele), a populista (como Lula e Bolsonaro) e a identitarista (como Erika Hilton e Jordan Bardella).

Às vezes esses tipos se misturam em cada lado. Por exemplo, um populista de esquerda pode ser um autocrata (como Maduro) ou não (como Sheinbaum). Um populista de direita pode ser um autocrata (como Erdogan) ou não (como Milei).

Em geral a esquerda (autocrática, populista ou identitarista) tem raiz marxista e é composta por revolucionários travestidos de progressistas. Enquanto que a direita (autocrática, populista ou identitarista) não raro é composta por reacionários que se disfarçam de conservadores.

Alguns podem estranhar essa caracterização de ‘identitarismo de direita’. Mas ele existe. Vejamos alguns exemplos de populistas de direita que também são identitaristas (e, pelo menos um deles, autocrata):

Bardella baseia sua plataforma no “nacional-identitarismo”, defendendo a prioridade de cidadãos franceses nativos em serviços públicos e a proteção da identidade cultural francesa contra a influência do islamismo e da imigração em massa.

Geert Wilders, na Holanda, tem uma plataforma quase integralmente focada na preservação da identidade cultural ocidental e secular. Ele argumenta que os valores tradicionais da Holanda estão sob ameaça devido à imigração proveniente de culturas não ocidentais.

Para não falar de Narendra Modi. A lógica de sua governança fundamenta-se exatamente no conceito de identitarismo de direita. Ou seja, a mobilização política baseada na identidade cultural e religiosa do grupo demográfico majoritário. Modi e seu partido, o BJP (Bharatiya Janata Party), são historicamente ligados ao grupo RSS, uma organização que formula a doutrina do Hindutva. Essa ideologia defende que a verdadeira identidade nacional indiana é indissociável da cultura e tradição hindus. É a outrificação (othering). O identitarismo de direita costuma se consolidar definindo claramente quem pertence à identidade nacional e quem é o “outro”.

A esquerda identitarista fixa-se na identidade de minorias marginalizadas ou discriminadas, enquanto que a direita identitarista mobiliza politicamente a identidade da maioria ou da tradição histórica (étnica, religiosa ou nacional), argumentando que os valores, a história e a cultura do povo nativo estão sob ataque devido à globalização, à imigração e ao progressismo cultural.

O conservadorismo clássico foca na preservação de instituições (como o livre mercado, a família e a Constituição) e na limitação do poder do Estado. A direita identitarista, em geral, utiliza o aparato do Estado de forma ativa para moldar e proteger a cultura. O foco central não é a economia ou a liberdade individual, mas a sobrevivência e a supremacia cultural do grupo identitário nacional.

E os democratas liberais?

Os democratas liberais não são autocratas, populistas ou identitaristas de esquerda ou de direita. Não são revolucionários, nem reacionários: são reformistas. A democracia nasceu de uma reforma: a reforma distrital de Clístenes (em 509 a.C.). Ou seja, a democracia não nasceu de uma revolução para frente, nem de uma revolução para trás – como queriam os patriotas oligárquicos Crítias e Cármides (estes sim reacionários) e Alcebíades (também populista, talvez o primeiro da história). Aliás, esses três, juntos ou separados, desfecharam três golpes sangrentos contra a democracia ateniense (em 411, 404 e 401 a.C. – este último neutralizado pelos democratas antes de se consumar).

A democracia brasileira entrou em transição autocratizante 

Os democratas brasileiros estão perplexos com as mais recentes ações e palavras de Gilmar Mendes. Ele não parece um juiz típico de suprema corte e sim um oligarca do novo arranjo de poder que se erigiu no Brasil graças ao hegemonismo lulopetista. Mas Gilmar é apenas o sintoma de uma transição política adversa à democracia que está em curso neste momento.

Se Lula for reeleito veremos a tentativa de consolidação de outro tipo de regime político no país, situado na zona de transição entre democracia eleitoral (não-plena e não-liberal, como é hoje – segundo as classificações da The Economist Intelligence Unit e do V-Dem) e autocracia eleitoral.

Ou seja, teremos no Brasil a consolidação de um tipo de regime híbrido (contra-liberal) em que uma maioria parlamentar de oposição ao governo, não importa o seu número, será neutralizada por uma oligarquia político-judiciária (com gilmares, alexandres, dinos, messias et coetera) a serviço de uma máquina administrativa crescentemente aparelhada em aliança com oligarcas “russos” (como os irmãos Batista, da JBS) e com a banda podre, corrupta, do Congresso. O Brasil se afastará ainda mais das democracias liberais e avançará no seu alinhamento ao eixo autocrático (já reunido sob a denominação genérica de Sul Global e articulado em várias iniciativas políticas fantasiadas de blocos econômicos, como o BRICS).

Tudo isso foi favorecido por uma oposição bolsonarista gerada, por enantiodromia, pelo populismo lulopetista. A esquerda populista (em parte revolucionária travestida de “progressista”) tanto caluniou quem não se subordinava a ela de extrema-direita, que “produziu” afinal uma direita populista (em parte reacionária disfarçada de “conservadora”).

Não ocorre apenas no Brasil. Na América Latina, por exemplo, Petro (da Colômbia) “produziu” Espriella, Kirchner (da Argentina) “produziu” Milei, Evo e Arce (da Bolívia) “produziram” Rodrigo Paz, Funes e Cerén (de El Salvador) “produziram” Bukele, Correa (do Equador) “produziu” Noboa e Lula (do Brasil) “produziu” Bolsonaro.

Aqui não há como fugir da realidade. Lula é o grande favorito para vencer as eleições de 2026 mais uma vez. Não se sabe como já não está 20 pontos acima do Flávio (aquele candidato escolhido para perder, mas manter a liderança da direita populista nas mãos da famiglia Bolsonaro). Com tantas besteiras que os bolsonaristas fazem, seria o esperável racionalmente.

Os dirigentes históricos do PT (como Dirceu) avaliam que estamos na antessala de uma situação revolucionária. É assim que eles chamam sua almejada mudança no regime político brasileiro, trocando democracia por cidadania ofertada ao povo pelo líder populista no comando do Estado e colocando a soberania (nacional) acima da democracia (como valor universal).

Não é absolutamente certo que os populistas de esquerda conseguirão consumar seu intento. Mas é certo que não há saída democrática, no curto prazo, para superar tal constelação aziaga de fatores.

Como foi dito, os democratas estão imprensados entre reacionários disfarçados de conservadores e revolucionários travestidos de “progressistas” – ambos populistas e, como tais, avessos à democracia liberal.

Nestas circunstâncias, qualquer saída será de longo prazo. A situação não vai mudar por um golpe de sorte eleitoral nos próximos dois pleitos. É necessário configurar comunidades políticas (redes humanas, mais distribuídas do que centralizadas), verdadeiras “poleis paralelas” (interativas) capazes de gerar agentes democráticos (reformistas liberais-inovadores), multiplicando seu número até alcançar o nível crítico necessário para fermentar o processo de emergência de uma opinião pública democrática, de resistir às tiranias e aos processos de autocratização (seja por meio de golpes de Estado ou de conquista de hegemonia) e de ensaiar a democracia como modo-de-vida, usinando novos padrões democráticos capazes de se replicar em outras regiões do tempo.

A rede suja do PT

Há mais de uma década o PT montou uma rede suja de veículos alternativos ao que chamava de PIG – Partido da Imprensa Golpista. Era a maneira de criar uma opinião favorável ao neopopulismo lulopétista enquando não conseguia emplacar sua velha proposta de ‘controle social da mídia’. Na verdade, o que o PT queria era um controle partidário-governamental dos meios de comunicação.

Nos tempos atuais, entretanto, o PT tem conseguido afinal avançar no controle partidário-governamental das mídias sociais, como resumiu magistralmente o editorial do Estadão (de 24/05/2026) intitulado A longa marcha do controle digital. Também já havia tratado do assunto dois dias antes (em 22/05/2026) no artigo Ainda sobre o decreto de censura. E três dias antes (em 21/05/2026) no artigo Decreto de Lula estabelece a censura no Brasil, sobre a volta da velha proposta petista de controle da mídia.

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Pois bem. O que aconteceu de 2014 para cá? Muitos veículos continuaram na rede, com um comportamente típico de rede suja (como Brasil 247 e DCM). Alguns desapareceram. Outros surgiram.

2014

Em 2014 a rede suja do PT reunia como veículos principais:

2026

Doze anos depois, em 2026, a rede suja do PT – salvo algum equívoco de avaliação – está basicamente assim:

Especialmente no YouTube a rede suja tem atualmente a seguinte configuração:

Claro que nos mosaicos acima não estão todos os veículos. Apenas alguns dos mais expressivos. Mas ver a constelação assim de uma vez, ajuda a explicar muita coisa. 

As duas principais aquisições, de 2014 para cá, foram o Intercept_Brasil e o ICL – Instituto Conhecimento Liberta. Além do SGBR – Sleeping Giants Brasil, que não entrou nos mosaicos acima dada a sua natureza de milícia digital. 

O Intercept_Brasil

O Intercept_Brasil só divulga vazamentos que favorecem o populismo de esquerda. A Vazajato serviu para descondenar Lula. Agora a Masterjato está servindo para reeleger Lula. O Intercept nunca vazou nada sobre as relações de Vorcaro com o PT e com Toffoli e com Moraes.

Pergunta-se, no caso atual do escândalo do banco Master, quem vazou as informações para o Intercept. O próprio Vorcaro, como um aviso aos que lhe abandonaram? Com a ajuda de quem ele fez isso? Só pode ser com a ajuda daqueles que queriam fazer sumir do noticiário as relações do PT, de Moraes e de Toffoli com Vorcaro. E sumiram mesmo.

Fica a dúvida se estamos tratando, no caso do Intercept_Brasil, de um veículo jornalístico ou de uma organização política de militantes já que, desavergonhadamente, faz luta política 24 horas por dia no estilo jihadismo de esquerda. E não ataca só o bolsonarismo. Ataca Israel (antissemitismo travestido de antissionismo), ataca os EUA (e não apenas por causa do governo Trump, mas na linha anti-imperialismo yankee da primeira guerra fria), ataca as democracias liberais e tenta cancelar, inclusive, personalidades de centro como Luciano Huck.

O Intercept_Brasil é presidido por Andrew Fishman, um jornalista investigativo norte-americano radicado no Rio de Janeiro. Antes ele havia trabalhado como repórter no The Intercept (versão americana) de 2013 a 2022. Participou da cobertura dos Arquivos Snowden (documentos vazados pela NSA) e integrou a equipe da Vaza Jato (e do “Brazil Secret Archive”), que revelou irregularidades na Operação Lava Jato, incluindo supostas relações secretas com o governo dos EUA (Departamento de Justiça e FBI).

Mas além do Fishman há uma equipe, aliás bem numerosa para um veículo tão pequeno, de jornalistas-militantes ou propagandistas partidários. Dele saiu, por exemplo, o Leandro Demori – que foi editor-executivo do The Intercept Brasil de 2018 a 2022 (ou 2023) e foi um dos principais coordenadores da cobertura da Vaza Jato – para trabalhar na empresa de marketing político oficial do governo Lula: a EBC – Empresa Brasil de Comunicação. Em setembro de 2023, Demori estreou o programa “Dando a Real com Demori” (ou DR com Demori) na TV Brasil (também chamada de “TV Lula”).

É indisfarçável e inegável o vínculo do Intercept_Brasil com o PT no governo. É um mundo chapa-branca.

O ICL – Instituto Conhecimento Liberta

A outra grande aquisição foi o ICL – Instituto Conhecimento Liberta, uma plataforma declarada como de educação online, cultura e jornalismo que foi criada em 2020. O destaque aqui é o ICL Notícias: portal de notícias e canal no YouTube (com ~1,7 milhão de inscritos) que transmite várias horas de conteúdo ao vivo por dia (programas como Desperta ICL, ICL Notícias 1ª e 2ª Edição, etc.). Tem viés editorial de esquerda, crítico ao bolsonarismo e alinhado a pautas progressistas.

Seus fundadores são Eduardo Moreira — ex-banqueiro de investimentos, Rafael Donatiello — especialista em marketing digital e Jessé Souza — sociólogo conhecido por suas posições de esquerda radical na academia e nos veículos de comunicação. Eduardo e Rafael são sócios e dirigentes do ICL e a partir de 2024 Felipe Neto passou a integrar o Conselho. Há também um Conselho Curador que inclui, salvo engano ou desatualização, Frei David (Educafro), Heloisa Villela (jornalista), João Paulo Pacifico (Grupo Gaia), Lindener Pareto (historiador) e Daniel Munduruku (ativista indígena). Por último há uma equipe grande de jornalistas e colaboradores: Leandro Demori (aquele mesmo do Intercept_Brasil e da EBC), Chico Pinheiro, Rodrigo Vianna, Xico Sá, Leonardo Boff, Marilena Chauí etc.

Às vezes o ICL dá a impressão de querer ser uma espécie de Brasil Paralelo da esquerda.

O SGBR – Sleeping Giants Brasil

Uma organização não incluída nos mosaicos acima é a milícia digital agressiva intitulada Sleeping Giants Brasil, associada a campanhas de desmonetização de empresas e veículos de mídia considerados contrários ou críticos ao governo Lula, ao PT e a esquerda em geral. Trata-se de uma adaptação brasileira do movimento Sleeping Giants (criado nos EUA em 2016 contra sites de extrema-direita).

O SGBR atua desde 2020 principalmente no Twitter/X, Instagram e outras mídias sociais, expondo anunciantes (empresas) que colocam publicidade em sites, canais ou perfis acusados de disseminar fake news, discurso de ódio, desinformação ou conteúdo conservador ou bolsonarista. Seu objetivo declarado é “desmonetizar” esses veículos, pressionando marcas a retirarem anúncios via e-mails, campanhas públicas e notificações, para reduzir o faturamento deles.

Não é propriamente um veículo de comunicação, mas, como foi dito, uma milícia digital alinhada à esquerda que atua de forma coordenada para silenciar vozes opositoras via pressão econômica além de promoção de cancelamento. 

O SGBR defende regulação mais forte das plataformas digitais, atua em parceria com pautas progressistas de combate à “desinformação” e pratica uma suposta legítima defesa contra ódio e fake news.

O Sleeping Giants Brasil (SGBR) é dirigido principalmente por três pessoas, que são seus fundadores e diretores: Mayara Stelle — Diretora Executiva, Institucional e Financeira, Leonardo de Carvalho Leal — Diretor de Comunicação e Humberto Ribeiro (Humberto Santana Ribeiro Filho) — Diretor Jurídico e de Pesquisa. Este último está perfeitamente integrado ao governo e foi nomeado por Lula para o Conselho Consultivo da Anatel (como conselheiro, representando sociedade civil). 

Inicialmente essa estranha milícia atuava de forma meio clandestina. Só depois os operadores do movimento revelaram suas identidades (por exemplo, em entrevista para Mônica Bergamo, da Folha).

O artigo poderia terminar aqui, mas antecipo-me às perguntas que virão.

E os veículos e jornalistas bolsonaristas?

Este artigo focaliza apenas os veículos lulopetistas (ou ditos de esquerda). Mas há também uma constelação de veículos bolsonaristas (ditos de direita ou de extrema-direita) que será tema de um novo artigo. Incluem-se nessa constelação, entre outros: Brasil Paralelo, Conexão Política, Gazeta do Povo (parcialmente), Jornal da Cidade Online, Revista Oeste e Terra Brasil Notícias. E os canais do Youtube, entre outros, de Ana Paula Henkel, André Fernandes, Daniel Alvarenga, Folha Política, Giro de Notícias, Gustavo Gayer, Jovem Pan (parcialmente), Nikolas Ferreira, Rodolfo Delmond, Sargento Fahur, Te Atualizei (Bárbara Destefani) e Terça Livre. Em breve vamos tratar do assunto.

E os veículos e jornalistas não populistas?

Também está fora do escopo deste artigo tratar dos veículos, programas, jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Em ordem alfabética poder-se-ia citar, entre outros, os anônimos editorialistas de O Estado de S. Paulo, Alexandre Schwartsman (Folha de S. Paulo), Caio Blinder (Manhattan Connection e Levante no Youtube), Caio Junqueira (CNN), Carlos Andreazza (O Estado de S. Paulo), Carlos Pereira (O Estado de S. Paulo), Daniel Rittner (CNN), Demétrio Magnoli (Folha de S. Paulo, O Globo, Globo News), Dora Kramer (Jovem Pan, Folha de S. Paulo), Duda Teixeira (Crusoé), Eduardo Affonso (O Globo), Fernando Gabeira (Globo News), Fernando Rodrigues (Poder 360), Fernando Schüler (Estadão, Band), Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo), Heni Ozi Cukier (Professor HOC, Canal do Youtube), Joel Pinheiro (Canal no Youtube, Folha de S. Paulo, Globo News), Lourival Sant’Anna (CNN), Luiz Felipe Pondé (Folha de S. Paulo, TV Cultura), Lygia Maria (Folha de S. Paulo), Madeleine Lacsko (Canal no Youtube e O Antagonista), Magno Karl (Canal Meio), Malu Gaspar (O Globo, Globo News, CBN), Mano Ferreira (Jovem Pan), Marcelo Rios (Hoje no Mundo Militar, Canal do Youtube), Marcio Coimbra (Monitor da Democracia, Crusoé), Marcus André Melo (Folha de S. Paulo), Mariliz Pereira Jorge (Canal Meio e Folha de S. Paulo), Merval Pereira (O Globo, Globo News), Oliver Stuenkel (Globo News e O Estado de S. Paulo), Pedro Doria (Canal Meio), Raquel Landim (SBT News), Rodrigo da Silva (Spotniks, O Estado de S. Paulo), Sam Pancher (Metrópoles)l, Sergio Fausto (O Estado de S. Paulo), Thais Herédia (CNN), Thaís Oyama (O Globo, TV Cultura), William Waack (WW CNN e O Estado de S. Paulo) e Wilson Gomes (Folha de S. Paulo). Esse elenco não é exaustivo, mas quase. E a lista, mesmo assim, parece extensa. Mas é mínima se compararmos às listas de nomes de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que pontificam nesses mesmos veículos da imprensa comercial, convencional ou alternativa (que foram citados entre parêntesis neste parágrafo) e que são de esquerda ou governistas. Não é tão difícil perceber a diferença entre os nomes acima e nomes como os de Celso Rocha de Barros (Folha de S. Paulo), Daniela Lima (UOL), Flávia Oliveira (Globo News), Guga Noblat (Metrópoles), Marcelo Lins (Globo News), Miriam Leitão (O Globo, Globo News), Reinaldo Azevedo (Metrópoles) e Ricardo Noblat (Metrópoles) – para citar apenas alguns exemplos de profissionais governistas que, de jornalistas (e bons jornalistas, em alguns casos), passaram a ser propagandistas ou defensores contumazes do PT ou da esquerda populista (de raiz marxista ou identitarista).

Cabem aqui, entretanto, algumas ressalvas para explicar muitas ausências da lista de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Quem não critica o neopopulismo lulopetista e o populismo-autoritário bolsonarista como alternativas iliberais (não-liberais ou contra-liberais) não pode se dizer democrata-liberal. Não adianta tentar escapar disso se declarando progressista ou conservador. Democratas-liberais podem ser inovadores ou conservadores. Mas não podem ser revolucionários disfarçados de progressistas ou reacionários travestidos de conservadores. Também não adianta se proclamar social-democrata. Nem todo social-democrata é um democrata-liberal. Existem social-democratas que são social-liberais e existem social-democratas estatistas, ou seja, estatal-democratas que são, a rigor, não-liberais.

E a GloboNews?

Por último, merece um destaque especial a GloboNews, que embora não possa ser considerada um nodo da rede suja do PT, virou um canal que inaugurou um novo tipo de “noticiário”, empenhado em dizer o que você deve pensar sobre o que aconteceu antes de dizer o que de fato aconteceu. Não é mais – stricto sensu – um canal de jornalismo, mas de opinião – com uma linha “progressista”, no sentido que o populismo de esquerda (de raiz marxista ou identitarista) atribui à palavra. Com algumas exceções, é claro – algumas até citadas acima, mas que confirmam a regra – é um canal governista ou colaboracionista com a força hegemonista que está no governo. (Já venho abordando esse assunto há muito tempo; por exemplo, no artigo de 16/12/2024 intitulado Por que GloboNews?)

No que tange à chamada imprensa comercial ou tradicional muitos problemas estariam resolvidos (ou seriam evitados) se os jornalistas adotassem um referencial democrático, como o sugerido no artigo (de 03/02/2025) intitulado Um código democrático para jornalistas.

O agente político sem comunidade política

Neste artigo vou tratar do chamado político “profissional” que se comporta como um agente político sem comunidade política. Não falo aqui dos chefes (ou donos) de partidos, dos seus prepostos ou serviçais, nem do militante partidário, do jihadista laico ou religioso.

A democracia representativa dos modernos acabou ensejando o surgimento desse novo tipo de ator político: o agente político sem comunidade política. Foi uma novidade importante porque realçou o papel do indivíduo na política, fundamental para o surgimento da democracia liberal moderna, mas revelou também problemas para a própria democracia. Vamos chamá-lo, provisoriamente porque a expressão não é boa, de empresário individual da política.

Ele é semelhante ao empresário individual numa economia de mercado. É mais ou menos como o dono de uma empresa que tem um produto único: ele mesmo. É um empreendedor, por certo, mas de si mesmo.

A trajetória do agente político sem comunidade política – doravante designado, salvo menção em contrário, como EIP (Empresário Individual da Política) – é sempre cheia de desvios e mudanças inesperadas de rumo. O imperativo é individual: a sobrevivência política – não de um projeto, mas daquele eu-ator em particular. O risco constantemente presente é o do arrivismo.

Não se deve ser muito implacável na crítica ao EIP. Todo político “profissional” – no sentido de alguém que vive da política – é um arrivista em algum grau. Foi isso que ele aprendeu interagindo com os seus aliados e concorrentes, com seus aliados que viraram concorrentes e com seus concorrentes que viraram aliados. Cada qual cuide de si. Lealdade não é um valor prático. Ele reinterpreta a frase, frequentemente creditada a Charles de Gaulle, de que “a ingratidão é um dever do estadista”. E normaliza isso ao confundir as razões de Estado com as suas próprias razões.

O EIP não caminha sozinho. Ele tem auxiliares, assessores e, sobretudo, admiradores que encara como potenciais eleitores. Pode até ter muitos aliados, mas sempre ocasionais, que mudam de acordo com as conveniências. O critério do que é conveniente em cada momento é sempre o da escolha da opção que mais favorece a carreira do eu-ator.

Por isso, dificilmente o agente político com grau significativo de arrivismo terá sense8s. Dificilmente avaliará suas ações com base em critérios como sintonia e sinergia em uma rede de conviventes. Na verdade, ele não se acha parte de uma koinonia política – e assim não consegue experimentar a liberdade, naquele sentido democrático originário do termo: de se comprazer na convivência da polis (não a cidade-Estado, mas a comunidade política). Mas o EIP – como um agente político sem comunidade política – não quer conceder a ninguém a autoridade para questionar suas decisões, tomadas solitariamente pelo eu-ator. Depois de tomada uma decisão de fazer isso ou aquilo, se posicionar assim ou assado, esse agente tenta convencer seus auxiliares a seguir no rumo que ele já escolheu. Ou nem isso. Seu pessoal não questiona.

O EIP mobiliza pessoas, mas não faz netweaving. Aposta, sim – e muito – no networking. Na verdade, espera tecer redes e se aproveitar delas. É tudo, porém, instrumental. Ele toma a rede como um instrumento para alcançar algum objetivo, mas não se sente vivendo em rede. Ele define o objetivo. Não espera que ele seja gerado pela interação de seus pares. Não há pares (outros nodos equivalentes com múltiplos caminhos entre si). O EIP é um íon social vagando num meio gelatinoso.

Embora possa ter muitos seguidores (nas mídias sociais) e eleitores, o EIP conta com pouca gente para empreender qualquer iniciativa coletiva. Quase tudo que faz tem de ser bancado por ele ou por alguém que o está bancando (sim, ele tem amigos, apoiadores, doadores, financiadores – do contrário não poderia fazer o que faz). As pessoas até confiam nele como seu representante, vão votar nele no dia do pleito, mas não se acham concernidas para a realização de tarefas conjuntas. Por isso o número de voluntários em seus projetos é sempre modesto. O EIP não tem rede ou tem uma rede muito esparsa ou pouco tramada por dentro. Raramente consegue juntar uma dúzia de pessoas que não sejam seus funcionários e que permaneçam juntas por um período relativamente longo de tempo fazendo a mesma coisa ou até que um projeto conjunto seja realizado. Em geral não existe projeto conjunto. É o projeto dele.

O EIP pertence a um partido onde isso é obrigatório para disputar eleições, mas não gosta muito de partidos. Nisso ele chega a ter razão, mas não pelos melhores motivos – porque partidos não são redes (comunidades políticas) e sim hierarquias, organizações privadas que querem chegar ao Estado para privatizá-lo e ficar com o butim, na base do spoil system – e sim porque partidos têm chefes (ou donos), que controlam os recursos públicos distribuindo-os diferencialmente para seus apaniguados e, além disso, cerceiam sua autonomia para se posicionar e se conduzir de acordo com o que julga ser o melhor para sua carreira em cada momento.

O EIP, como já foi dito, atua como um empreendedor de si mesmo. Nos graus mais graves de arrivismo se comporta como um empresário “selvagem” ou na vibe daquele “instinto assassino” (killer instinct) de que falou Donald Trump quando, em 1980, argumentou que o jogo separa quem tem e quem não tem esse instinto, referindo-se à pulsão competitiva e à fome de vitória. E que evoca também a expressão “animal spirits” usada anteriormente por John Maynard Keynes (1936) ao dizer, no capítulo 12 de “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, que sem esse impulso emocional e instintivo o capitalismo simplesmente para. Sim, o EIP tem a ver com capitalismo. Não teria surgido no contexto de outro sistema econômico.

Mas é importante esclarecer. O que motiva o EIP não é o lucro, o ganho material ou financeiro. Precisa de dinheiro e de outros recursos para viver, financiar suas campanhas eleitorais ou cavar postos no Estado, nem sempre obtidos legalmente, mas seu objetivo maior não é enriquecer e se dar bem na vida e sim o triunfo e a glória.

Mas há também aspectos positivos. Esse tipo de agente sem comunidade política costuma ser um democrata, no sentido geral do termo; ou seja, ele prefere a democracia à autocracia. Afinal, ele quer viver disso, da disputa por cargos representativos regulada por normas claras (constitucionais). Sabe que, numa ditadura, perderia autonomia e seu papel e seu ganha-pão desapareceriam. Mas sendo democrata, nesse sentido geral do termo, o EIP não faz oposição sistemática a um governo de viés autoritário ou populista (quer dizer, iliberal). E não faz porque não quer ficar malvisto como alguém “do contra”, o que dificultaria seu trânsito pelas várias vertentes do mundo político. E também porque não quer ficar malvisto pela imprensa, quando for o caso dessa imprensa estar, em boa parte, alinhada a um governo populista que parasita o regime eleitoral colocando-o em processo de iliberalização.

Esse tipo de agente prefere falar de si mesmo, da sua história, das suas realizações, dos seus projetos. Ele quer aparecer como uma persona positiva. Por isso só vai na boa. Quando sente que há uma volumosa corrente de opinião defendendo uma posição, ele adere. Se isso não é tão evidente, ele se omite, mesmo quando sua orientação democrática indique que deveria tomar posição, ficando eventualmente em minoria. Minoria? Não – pensa ele – isso não fará bem para minha carreira.

O EIP gosta da democracia, mas sobretudo porque a encara como o seu mercado. É nesse mercado, que ele vai tentar a sorte, vencer e extrair um sentido para sua vida como eu-ator político. Não sabe que, com isso, da democracia está perdendo a melhor parte – que não é o triunfo, que não é a glória obtida na luta, mas a experiência da liberdade.

Entretanto, ele busca permanentemente o sucesso. Vá-se lá repetir-lhe a frase atribuída a Golda Meir – no filme “Golda”, de Guy Nattiv (2023) – que “toda carreira política acaba em fracasso”.

Porque, para qualquer agente político que tenha uma comunidade política, não se trata propriamente de carreira e sim de viver como um ser político. E isso significa ser um netweaver, ou seja, um articulador e animador de uma rede de democratas. O EIP não compreende que, do ponto de vista da democracia como modo-de-vida, isso já é o maior sucesso que um agente político poderia alcançar. Aliás, não compreende porque, para ele, a democracia é apenas regime político, não também modo-de-vida. É a regra do jogo, mas não é o jogo.

Um EIP não vive, a rigor, como um ser político e por isso não será um democrata no sentido raiz do termo. Pois não há como alguém exercer o papel de agente democrático sem comunidade política. Se opor e resistir a qualquer tirania, seja dita de esquerda ou de direita, religiosa ou laica; recusar a guerra (ou não praticar a política como continuação da guerra por outros meios): repudiar o majoritarismo, o hegemonismo e o “nós contra eles”, pois política não é guerra e sim evitar a guerra; e fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática – todas essas são coisas que ninguém consegue fazer sozinho.

Sem a prática da continuada conversação democrática, a democracia fenece. Sem ambientes favoráveis à realização de projetos comuns democratizantes, a partir da congruência de desejos dos interagentes, a democracia falece. Mas essa é uma conversa que não interessa muito ao EIP. Ele pode até concordar intelectualmente com isso. Mas não mudará de comportamento.

Agora que, no mundo e no Brasil, estamos imprensados entre reacionários disfarçados de conservadores e revolucionários travestidos de “progressistas” – ambos populistas e, como tais, avessos à democracia liberal, o EIP não pode nos ajudar muito. Porque nestas circunstâncias é necessário fazer o que o EIP não faz: configurar comunidades políticas (redes humanas, mais distribuídas do que centralizadas), verdadeiras “poleis paralelas” (interativas), capazes de gerar novos agentes democráticos (reformistas liberais-inovadores), multiplicando seu número até alcançar o nível crítico necessário para fermentar o processo de emergência de uma opinião pública democrática, de resistir às tiranias e aos processos de autocratização (seja por meio de golpes de Estado ou de conquista de hegemonia) e de ensaiar a democracia como modo-de-vida, usinando padrões democráticos capazes de se replicar.

A “russificação” do Brasil

“Lê-se nos jornais que a J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, injetou R$ 25,9 milhões na empresa que comprou as cotas do resort Tayayá, pertencentes a Dias Toffoli do STF, em 2025. Quem lê fica com a impressão de que isso aqui tá parecendo a Rússia. Uma coalizão de Oligarcas + STF + PGR + Governo + PT se impõe como único poder soberano. E, ao que tudo indica, não está disposta a abrir mão desse poder”

Sim, parece exagero, mas não é. Percebe-se um processo de “russificação” do Brasil. Seguem abaixo apenas algumas evidências:

  • O STF não explica tantas relações financeiras escusas de Toffoli (indicado por Lula para a corte) com o Master, reveladas no escândalo do seu resort Tayayá.
  • O STF não explica por que Gilmar anulou a decisão da CPI do Crime Organizado de quebrar o sigilo do fundo Arleen, que é administrado pela Reag (central no escândalo Master e com relações com organizões do crime organizado) e comprou as cotas da família Toffoli no Tayayá.
  • O STF não explica os 130 milhões para o escritório da mulher de Moraes, previstos em contrato com o Master.
  • O STF não explica porque o Banco Master e a JBS (ou J&F) dos irmãos Batista, repassaram R$ 18 milhões a uma empresa de consultoria (com faturamento de apenas 25 mil reais) que, em seguida, fez pagamentos ao filho do ministro Kássio Nunes Marques.
  • O PT não explica o contrato com o Master de 1 milhão por mês para Mantega, ex-ministro da Fazendo do PT (indicado para aquela organização do crime organizado de Vorcaro pelo líder do PT no Senado, Jaques Wagner).
  • O PT não explica o contrato de 5 milhões do Master com o filho de Lewandowski (ex-membro da suprema corte indicado por Lula e ex-ministro da Justiça do seu terceiro governo).
  • O PT não explica as ligações (e os negócios) de Jerônimo, governador petista da Bahia, com o Master, via Augusto Lima.
  • O PT não explica as relações do filho de Lula (Lulinha) com o Careca do INSS, nem a mesada que ele supostamente recebia do ladrão dos aposentados.
  • O STF não explica porque Flávio Dino anulou a quebra de sigilo de Lulinha, na CPI do INSS.

Tá russo. Mas o que há de realmente russo nisso tudo?

Como se sabe, na Rússia autocrática, desde o início do século, houve uma coalizão estratégica entre 1) os oligarcas – grandes empresários (corruptos em boa parte) associados ao Estado ou favorecidos pelo governo – 2) a FSB (ex-KGB) e 3) os partidos sob o controle do ditador Putin e o judiciário completamente alinhado (ou subordinado) ao governo. Essa foi a forma que eles encontraram para não sair mais do poder: máfia! Putin está no comando há mais de 25 anos e pretende sair (ou ser substituído por um preposto) somente na década de 2030.

Aqui no Brasil Joesley e Wesley Batista representam os oligarcas acima da lei, inclusive exercendo funções de Estado (negociando com governos estrangeiros; por exemplo, Venezuela e Estados Unidos, como se fossem chefes ou delegados informais, mas plenipotenciários, da nossa diplomacia). Financiam (e corrompem) grupos corporativos e políticos enquistados em todos os poderes, privatizando instituições públicas. E há muitos outros com atuação semelhante, em âmbito nacional e internacional, como o banqueiro André Esteves, preso em 2015 (em Bangu 8) e posteriormente perdoado pelo STF (com o arquivamento do inquérito contra ele em 2018) com os votos majoritários de Ricardo Lewandowski, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e… Dias Toffoli! No caso dos irmãos Batista, como estão acima da lei, tiveram suas dívidas, decretadas por sentenças judiciais, perdoadas pelo STF (escandalosamente pelo mesmo Toffoli, um ex-advogado da CUT e do PT que foi alçado, ainda jovem e despreparado, à condição de supremo magistrado por Lula – é bom nunca esquecer). Isomorfismo: máfia!

O aparelhamento merece um parágrafo. Além do advogado da CUT e do PT ter virado ministro do STF: o advogado pessoal de Lula virou ministro do STF; o amigo da família de Lula em São Bernardo e chegado ao sindicalismo do ABC virou ministro do STF; o aliado político de Lula e do PT, ex-militante petista e militante do Partido Comunista do Brasil até junho de 2021, virou ministro do STF. E o chefe da segurança de Lula virou chefe da Polícia Federal (essa mesma Polícia Federal que não explicou como o Sicário, principal operador mafioso de Vorcaro, se matou estando sob sua custódia, confinado em uma cela monitorada por câmeras).

Grandes meios de comunicação colonizados pela infantaria petista na imprensa e por colunistas partidarizados (ex-jornalistas, alguns arrivistas, outros trânsfugas, que viraram propagandistas oficiais) atuam como se estivessem no Pravda. Há canais de TV que parecem, às vezes, a TV estatal russa.

O PT, por sua vez, cumpre, na prática, funções da FSB. Lula (não por acaso admirador de Putin e aliado da Rússia – vanguarda do eixo autocrático contra as democracias liberais) é o líder populista supremo que se alia ao STF (aparelhado por indicações políticas) e a uma PGR sem espinha dorsal (subordinada ao STF e ao governo), formando uma coalizão para intimidar, coagir e reprimir concorrentes dificultando ou impedindo a troca de governo – com isso violando o critério democrático da rotatividade ou alternância.

A resistência à tentativa de golpe de Estado articulada pelo governo anterior não justifica nada disso. Já se passaram cerca de 40 meses, não há mais no horizonte qualquer perigo de golpe, mas o cadáver político de Bolsonaro continua sendo exumado dia após dia para que a coalizão no poder se apresente como eterna “salvadora da democracia”. O golpe agora, segundo essa coalizão, é Lula perder a eleição de 2026. Como se não fosse próprio das democracias a substituição eleitoral de governos.

Assim esperam eleger Lula, pela quarta vez, em 2026 e, se tudo der certo, entronizar um substituto seu em 2030 e além.

O PT como nosso “corpo da guarda da revolução islâmica”

Estamos vendo agora que vencer o Irã é impossível enquanto não for dissolvido o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica. Não adianta exigir do Irã que interrompa seu programa nuclear. Não adianta paralisar a produção de seus mísseis balísticos. Não adianta derrotar seus atuais braços terroristas (Hezbollah, Jihad Islâmica, Houthis, Hamas etc). E nem adianta matar os aiatolás e outros chefes religiosos, políticos ou militares iranianos. Se o corpo (Sepáh e-Pásdárán) não for dissolvido, nada feito.

É cabível um paralelo com o PT e a situação atual de degeneração das instituições da república brasileira, em que ministros do STF atropelam o parlamento e tornam nula a quebra de sigilo da empresa de um ministro. Protegem outro ministro que mente e concordam que ele use a corte para, em nota oficial da instituição, acusar falsamente uma instância do Congresso. A rigor, não há mais Estado de direito no Brasil e sim um Estado sob o arbítrio do STF. O império da lei virou império de um ente privado que age corporativamente para acobertar seus próprios malfeitos. E o que é pior: com objetivos políticos.

O que deve nos preocupar mais nem é o comportamento antidemocrático, ilegítimo e – como se vê agora – patentemente ilegal, de ministros da suprema corte. E sim ver que os militantes petistas estão negando tudo isso, dizendo que “Xandão está certo” e voltando a defender sua proposta histórica de “controle social da mídia” (sim, eles recuperaram seu velho slogan “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”).

Reelejam ou não Lula, esses negacionistas continuarão por aí: no governo (se não em cargos de confiança, como funcionários concursados), no parlamento (ainda que em minoria), nos tribunais de justiça e no ministério público, em coletivos de juristas “pela democracia”, nos institutos de pesquisa de opinião e nas agências de checagem, na infantaria de jornalistas dos grandes meios de comunicação (que agora passaram a atacar), nas universidades (sobretudo nas áreas de humanas das federais), em muitas ONGs e movimentos sociais, nos sindicatos, centrais e associações profissionais, nos meios artísticos e culturais (via artistas famosos), nos partidos satelizados (alinhados ao eixo autocrático) – e… na maioria do STF.

São alguns milhões de agentes de conquista de hegemonia compondo uma espécie, mutatis mutandis, de “corpo da guarda da revolução islâmica”, alocados em postos chaves das instituições do Estado e das organizações da sociedade, com alta resiliência ou capacidade de resistir (como fizeram após a condenação dos seus principais dirigentes no mensalão e no petrolão e após o impeachment de Dilma e a prisão de Lula).

Isso não se resolve apenas com eleições. Mesmo que Lula perca a eleição de 2026, eles continuarão atuando e tentando inviabilizar o novo governo (como fizeram após serem derrotados nas urnas de 2018 – ainda que o vencedor daquele pleito também não fosse democrático).

A composição do STF não mudará em 2026 (nem em 2030) e a maioria da corte prosseguirá agindo com base na ideologia delinquente de “democracia militante”, que justifica adotar métodos autoritários contra os que consideram seus inimigos (tidos por inimigos da democracia). De sorte que o PT continuará usando o STF para anular a vontade dos eleitores. Como sabe que não tem – e não terá – maioria no parlamento, usará a suprema corte para invalidar as decisões do Congresso. Isso é um ataque ao coração da democracia, pois não adianta eleger deputados e senadores em grande número: a canetada de um agente do PT na suprema corte – de apenas um militante – prevalecerá sobre a vontade de dezenas ou centenas de legítimos representantes eleitos.

E tudo isso será normalizado pelo, por assim dizer, “eixo da resistência iraniana” que se incrustou na nossa república. A analogia à primeira vista parece forçada, mas faz sentido: basta ver como o governo do PT se alinha ao eixo autocrático na sua campanha de destruição das democracias liberais: apoia as ditaduras russa, chinesa, cubana, venezuelana, nicaraguense, angolana e, inclusive… iraniana!

A permanecer o atual desenho institucional não há saída para a democracia brasileira a não ser um amplo e vigoroso movimento da nossa sociedade que questione tudo isso.

O Conto da Aia de Margaret Atwood

Margaret Atwood (1985), autora de The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), desenha um futuro sob o jugo de uma teonomia totalitária fundamentalista cristã-militar. O romance virou uma interessante série de televisão estadunidense, criada por Bruce Miller (2017). Vale a pena ler o livro e assistir a série (pelo menos a primeira temporada).

Baixe e leia o livro.

Assista a série.

Segue abaixo um resumo do NEXOS, o agente de Inteligência Artificial das Casas da Democracia dedicado à investigação de padrões autocráticos nas distopias.

O livro O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), escrito por Margaret Atwood em 1985, descreve a República de Gilead, uma teocracia totalitária que se instalou nos antigos Estados Unidos após um golpe de Estado que suspendeu a Constituição. Devido a uma crise demográfica causada pela infertilidade resultante de poluição, radiação e doenças, o regime classifica as mulheres por funções, sendo as Aias(Handmaids) mulheres férteis destinadas exclusivamente à procriação para a elite governante.

A Estrutura Social e o Papel das Aias

Despessoalização e Controle: As Aias perdem seus nomes originais e recebem patronímicos possessivos, como o da protagonista Offred(De-Fred), indicando que ela pertence ao Comandante Fred. Elas vestem uniformes vermelhos que simbolizam o sangue e o parto, e usam toucas brancas com abas largas que limitam sua visão e as tornam “impenetráveis”.

Vigilância e Castigo: A sociedade é monitorada pelos Olhos (polícia secreta) e as Aias são vigiadas pelas Tias, mulheres encarregadas de sua reeducação e que utilizam punições físicas severas. Dissidentes, como padres, médicos que realizaram abortos ou homossexuais, são executados e expostos publicamente no Muro.

A Cerimônia: A base reprodutiva do Estado fundamenta-se em precedentes bíblicos (como a história de Raquel e Bilha), resultando em um ritual mensal onde o Comandante copula com a Aia, que permanece deitada entre as pernas da Esposa legítima.

O Enredo e a Vida de Offred

A narrativa intercala o presente de Offred em Gilead com suas memórias do “tempo de antes”, quando tinha um marido (Luke), uma filha e uma carreira. No presente, Offred vive em um estado de “animação suspensa”, pontuado por caminhadas diárias para compras com sua parceira, Ofglen.

Relação Ilícita com o Comandante: O Comandante quebra o protocolo ao convidar Offred para encontros noturnos secretos em seu gabinete, onde jogam mexe-mexe (Scrabble), leem revistas proibidas e conversam. Ele busca uma conexão emocional e intelectual que o regime, ironicamente, eliminou da vida pública.

O Caso com Nick: Serena Joy, a Esposa do Comandante, desconfiada da esterilidade do marido, propõe que Offred durma secretamente com o motorista, Nick, para garantir uma gravidez. Offred e Nick iniciam um relacionamento genuinamente sexual e emocional, o que a torna imprudente quanto à sua segurança.

O Desfecho e as Notas Históricas

O clímax ocorre quando Serena Joy descobre a visita ilícita de Offred a um bordel clandestino (a Casa de Jezebel) com o Comandante. Pouco depois, uma camionete preta dos Olhos chega para buscar Offred. Nick sussurra que se trata de uma operação do Mayday (a resistência clandestina) e que ela deve confiar neles. Offred entra na camionete, sem saber se ruma para a liberdade ou para a morte.

A obra encerra-se com as “Notas Históricas”, um epílogo situado no ano de 2195. Durante um simpósio, acadêmicos discutem a autenticação do relato de Offred, que foi encontrado gravado em trinta fitas cassete escondidas em Bangor, Maine. O destino final de Offred permanece um mistério, servindo como um lembrete da natureza fragmentada e muitas vezes silenciosa da história das mulheres em regimes opressores.

Padrões Autocráticos

Na distopia O Conto da Aia, a República de Gilead é estruturada como uma teocracia totalitária que exibe diversos padrões autocráticos.

Um dos indícios mais claros é a despessoalização e a uniformização, onde os nomes originais são substituídos por patronímicos possessivos (como Offred, significando “De-Fred”) e as vestimentas são rigidamente codificadas por cores para identificar a função social: vermelho para Aias, azul para Esposas e verde para as Marthas.

vigilância constante de todos sobre todos é exercida pela polícia secreta, conhecida como os “Olhos”, e pelo sistema de caminhadas obrigatórias em pares, no qual uma Aia atua efetivamente como espiã da outra.

O regime impõe severas restrições à liberdade, tornando a escrita e a leitura atos proibidos para as mulheres e mantendo a Bíblia trancada em caixas de latão, sendo considerada um instrumento “incendiário” cujo acesso é restrito aos Comandantes.

resolução do conflito pela eliminação do polo conflitante é manifestada visualmente no “Muro”, onde corpos de dissidentes — como médicos que realizaram abortos no passado ou membros de seitas heréticas — são pendurados em ganchos para servirem de exemplo e intimidação.

A prática da Particicução funciona como um indicador de regulação autocrática extrema, onde o Estado canaliza a raiva das mulheres para o linchamento de um “bode expiatório” (muitas vezes um prisioneiro político rotulado como estuprador), transformando a violência em um rito de coesão social.

A estrutura de poder é estritamente top-down, com a sociedade organizada como um dominium do Estado, onde as mulheres são reduzidas a “recursos nacionais” ou “cálices ambulantes” destinados exclusivamente à procriação para a elite, baseando-se em precedentes bíblicos distorcidos.

Gilead também busca a naturalização da ordem social e a produção do Homem Novo por meio da doutrinação no “Centro Vermelho”, onde as “Tias” ensinam que a falta de liberdade atual é, na verdade, uma “liberdade de” perigos, e que o novo sistema deve ser aceito como o único “costumeiro” possível.

Mudanças moleculares

No artigo Manifestações de rua não dão em nada? (publicado aqui e aqui em 26/01/2026) falei das possíveis “mudanças moleculares” que grandes manifestações de rua provocam, mas que só aparecem muito depois e, por isso, dão a impressão de que não tiveram nenhum (ou pouco) efeito. Neste artigo vou tratar mais diretamente dessas mudanças.

Há muita confusão entre mudanças políticas e mudanças sociais que, talvez, tenha a ver com uma incompreensão do que chamamos propriamente de ‘social’. E há ainda um grande desconhecimento sobre o funcionamento das redes sociais propriamente ditas (e é bom não confundi-las com as mídias sociais: redes sociais são pessoas interagindo, enquanto estão interagindo, por qualquer meio – não plataformas, programas, algoritmos, tecnologias, dispositivos). É disso que vou tratar neste artigo, que deve ser visto como uma segunda parte do anterior.

As manifestações de rua, por maior tamanho que tenham, na maior parte dos casos, desencadeiam modificações na sociedade, não nos regimes políticos. Não tomam o poder – a menos que haja uma força organizada para tal no seu interior; ou dissensões graves nas forças que conduzem ou apoiam o regime; ou, ainda, ameaça externa de uma força superior beligerante. Como, na maior parte dos casos, não tomaram o poder, não derrubaram governos, então muitos analistas decretam que não tiveram efeito ponderável.

Comecemos com alguns exemplos do que manifestações sociais provocam (ou podem provocar) nas sociedades onde ocorrem.

Elas aumentam a confiança, a cooperação, a reciprocidade e a solidariedade entre os que se manifestam.

Elas inaguram novas práticas comunitárias que estão na base da democracia como modo-de-vida. Ampliam as conversações com novos interlocutores confiáveis e aumentam a frequência dessas conversações quando se faz necessário mobilizar e organizar a ação coletiva.

No limite, elas podem ser embriões daquele “governo comum” – ou do ‘common government’, associado à ‘grassroots democracy’ – de que falava Jefferson ou daquele “governo civil” de que falava Tocqueville.

Elas permitem que as pessoas reconheçam e valorizem o seu próprio modo de vida quando esse modo de vida está sendo ameaçado por interferências abusivas de um poder exercido top down.

Quando são gigantes – ou verdadeiros swarmings – elas tornam visível a dimensão do poder que a sociedade tem quando não está fragmentada em indivíduos, grupos ou tribos isolados ou com poucos atalhos entre si. Os manifestantes são, em geral, os primeiros a se surpreender com isso. Mas é o principal recado que elas enviam ao poder estatal.

Elas aproximam pessoas que não se relacionavam diretamente por pertencerem a clusters ou tribos diferentes, dando a base de um sentido comum para que possam interagir. Promovem assim uma oportunidade de “miscigenação cultural” entre pessoas de diferentes extrações ou profissões: histórias de vida, classes sociais, gêneros, etnias, nacionalidades, idade, escolaridade, tipos de trabalho e posições funcionais etc.

Elas aumentam a desconfiança no governo, sobretudo quando há repressão. Esse é um “gene” liberal importante: nas democracias (liberais ou plenas) a sociedade deve controlar o governo e não ser controlada por ele.

Elas ficam marcadas na memória coletiva (dos que participaram e dos que viram o fenômeno acontecer) como um atestado indelével de que, sim, é possível. Como dizia Václav Havel, elas são o poder dos sem-poder.

Mas elas são a expressão de um outro tipo de poder. É óbvio que o poder do Estado – em termos de força para normatizar comportamentos, exercer controle, conquistar alinhamento e submissão, conter e reprimir descontentamentos – é assimétrico em relação ao poder da sociedade. Tal comparação, porém, é inadequada porque não são o mesmo tipo de poder. O poder do Estado é vertical e se exerce pela sua capacidade de alterar a topologia e a dinâmica da rede (a rigor excluindo nodos, eliminando conexões ou cortando atalhos entre clusters). O poder da sociedade é um poder horizontal. Opera por contágio (como na reprodução bacteriana, em que o material genético não está aprisionado em um núcleo e se transfere de um doador a um receptor por uma ponte citoplasmática). É um poder de rede, de transmissão de influência.

Grandes manifestações sem coordenação centralizada, quando acontecem, são manifestações da fenomenologia da interação em mundos altamente conectados, ou seja, fenômenos próprios de redes sociais stricto sensu (não confundir isso – insista-se – com mídias sociais). Ou reconhecemos que existe rede realmente e entendemos a sua estrutura e o seu funcionamento ou não há como explicar as mudanças moleculares provocadas por protestos de rua e manifestações sociais em geral.

Aqui começa a nossa conversa. Basicamente, é necessário compreender:

Como as pessoas se aglomeram (clustering).

Como uma aglomeração enxameia (swarming).

Como as pessoas, sem intenção de imitação, reproduzem comportamentos que percebem em outras pessoas (cloning).

Como, quando esses fenômenos ocorrem, o mundo social se contrai, diminuindo a extensão característica de caminho e fazendo despencar os graus de separação (crunching).

Como tudo isso pode começar a partir de uma pequena perturbação, mesmo que parta da periferia do sistema (feedbackpositivo e múltiplos laços de retroalimentação de reforço).

Como, cada vez que rodam com o sistema aparentemente parado, os impulsos se potencializam (looping de recursão) e tudo reverbera.

Responder essas questões é o desafio para um terceiro artigo.

A suprema corte dos aiatolás?

Saindo em defesa corporativa do comportamento inadmissível de Dias Toffoli, Luiz Fachin, presidente do STF, escreveu em nota oficial da corte:


“É preciso afirmar com clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito. O Supremo age por mandato constitucional, e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel. Defender o STF é defender as regras do jogo democrático e evitar que a força bruta substitua o direito. A crítica é legítima e mesmo necessária. Não obstante, a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder; e o STF não permitirá que isso aconteça. O Supremo fez muito no Brasil em defesa do Estado de direito democrático; fará ainda mais. Sim, todas as instituições podem e devem ser aperfeiçoadas, isso sempre, mas jamais destruídas. Quem almeja substituir a ousada pedagogia da prudência pelo irresponsável primitivismo da pancada errou de endereço”.

O que ele está dizendo, em outras palavras, é que qualquer crítica das demais instituições da democracia (membros de outros poderes, imprensa etc.) a um membro da corte é um ataque à democracia. Isso seria, segundo Fachin, uma tentativa de, nada menos, destruir a suprema corte. Ou seja, na prática, está comparando as passadas investidas golpistas contra o STF, por parte de Bolsonaro e dos bolsonaristas, com as opiniões da cidadania brasileira numa época em que o ex-presidente está preso e não há sinal de nenhum movimento de ruptura ou de ameaça às instituições. Assim, os que não concordam com os desmandos de membros da corte seriam todos golpistas. Ou seja, Fachin e seus pares estão perfeitamente alinhados ao governo Lula e ao PT. Os que não concordam com eles são inimigos da democracia.

Fica-se na dúvida de se o STF sabe realmente o que está fazendo? Ao dizer que qualquer crítica ao comportamento flagrantemente irregular de certos membros da corte é um ataque à democracia está transformando o tribunal em uma instância soberana no sentido absolutista do termo. Isso, sim, é um ataque à democracia.

Numa democracia só a lei, democraticamente aprovada, é soberana, não as instituições – e muito menos seus membros – encarregadas de aprová-la, aplicá-la ou interpretá-la.

O STF não pode ser uma espécie de “partido dos clérigos”, acima da lei e subordinado apenas à sharia dos seus intérpretes. Seus membros são servidores públicos, não aiatolás. Ou são?

Segundo a fatwa de Luiz Fachin, a Malu Gaspar, o Sam Pancher e o Metropoles, o Estadão e a Folha, o Walter Maierovitch e uma multidão de juristas, “tentam destruir as instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder”. São, todos, portanto, golpistas contra a democracia.

Uma fatwa é uma decisão jurídica emitida por um mufti (ou um membro do STF) em resposta a uma questão sobre a sharia (ou seja, sobre sua privativa interpretação da lei).

Aliando Inteligência Artificial à Inteligência Humana

A febre da Inteligência Artificial parece sintoma de uma espécie de pandemia. O negócio é contagioso. Mentes criativas nas empresas e nos centros de ciência e tecnologia estão se voltando quase que exclusivamente para isso. Até aqui, tudo bem.

Mas de repente surge um novo ídolo: a organização artificial (impregnada de IA) será superior à organização humana. Isso vai acabar chegando a todas as organizações da sociedade civil e dos governos (é só questão de tempo).

Esse é um problema, mas também será uma boa oportunidade para os que conseguirem percorrer as trilhas abertas desde o início do século pela exploração das redes e da democracia como modo-de-vida. Modos de salvaguardar a inteligência tipicamente humana poderão ser “módulos sociais de sobrevivência” num mundo dominado por Estados autocráticos e Big Techs desumanizantes.

As organizações humanas que quiserem sobreviver não podem resistir à onda da Inteligência Artificial e ficar lutando para “colocá-la no seu lugar” por meio de uma retrógrada revolta ludista contra o avanço tecnológico trazido pela IA. Elas estão confrontadas com o desafio de descobrir maneiras criativas de se aliar à inteligência artificial mantendo um foco claro naquilo que nos torna humanos.

Para fazer isso uma parte de qualquer organização deve se dedicar ao netweaving, quer dizer, à articulação e animação de redes humanas.

A organização que conseguir fazer isso se tornará mais humana em aliança com a inteligência artificial em vez de se tornar mais artificial, deixando que a inteligência humana nela embarcada seja capturada pelos modos de “pensar” (ou de processar informações, ou de imitar o pensamento humano) da inteligência artificial (1).

E aqui vem um anúncio surpreendente: bastam poucas pessoas em uma organização fazendo isso para alcançar tal efeito. As organizações podem continuar correndo sofregamente para acompanhar a onda e não ser deixadas para trás, mas pequenos núcleos dentro delas farão esse papel. Serão espécies de zonas azuis (blue zones) dentro da organização.

Esses pequenos núcleos que vão “salvar” (não propriamente guardar, mas experimentar e re-experimentar continua ou intermitentemente – in situ, não in vitro) interações humanas, emoções humanas, conversações, conversações, conversações… podem estar em todo lugar. “Super-egos” (ou melhor, “super-não-egos”), “consciência crítica” (ou melhor, não-consciência – mas relembrança do que foi compelido a se tornar inconsciente), “mosteiros irlandeses” – aqueles que salvaram a civilização ocidental da idade das trevas que se instalou entre a queda do império romano e a ascensão de Carlos Magno – mas tudo em tempo real.

Se entendermos que aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo, inteligência é, ao fim e ao cabo, capacidade de aprender. Espero que fique claro que estou falando de educação. De um novo tipo de educação que agora pode ser experimentado em todo lugar. Uma nova educação – não propriamente para apenas melhorar a velha educação que temos, mas para abrir novos processos de aprendizagem que poderiam ser aplicados por empresas (para seus colaboradores e stakeholders), por entidades da sociedade e por governos.

Sim, é como se abríssemos uma startup de educação dentro de cada empresa, organização social ou órgão de governo. Mas o que essas “startups” fariam concretamente?

Bem, em primeiro lugar, entrando em contato com as principais descobertas da nova ciência das redes que surgiu na passagem do século 20 para o século 21, elas aprenderiam o que são redes, o que implica compreender as diferenças entre mídias sociais e redes sociais (como redes humanas) e compreender as topologias e dinâmicas de rede: as diferenças entre descentralização e distribuição e entre participação e interação. Além disso – e aqui esteja talvez o mais importante – elas entrariam em contato com as descobertas mais recentes da fenomenologia da interação: clustering, cloning, swarming, reverberação, múltiplos laços de retroalimentação de reforço, looping de recursão et coetera.

Em segundo lugar, eles aprenderiam a fazer netweaving (articulação e animação de redes), entendendo as diferenças entre networking e netweaving e a aplicar tecnologias de netweaving à desobstrução de fluxos interativos em organizações, à configuração de ambientes capazes de melhorar as condições de convivência social em organizações e localidades e de ensejar a emergência de uma inteligência tipicamente humana; em termos metafóricos, aprenderiam a usar redes humanas como “super-computadores”.

Em terceiro lugar, elas fariam, na prática, netweaving dentro das suas organizações, criando condições para que os seus integrantes aprendessem, na prática, a interagir em rede; ou iniciassem novas organizações ou empreendimentos já estruturados em rede (mais distribuída do que centralizada e mais interativa do que participativa).

Nos últimos 25 anos venho me dedicando à nova ciência das redes e ajudando pessoas, comunidades, empresas e outras organizações a fazer modificações em sua estrutura e em sua dinâmica de funcionamento para desobstruir os fluxos interativos que transitam em seu interior e no seu entorno mais próximo, diminuindo os custos invisíveis, em geral não contabilizados nos balanços corporativos, que drenam os resultados econômicos (como os custos de transação, os custos de atrito de gestão e os custos de déficit de sinergia), evitando o risco sistêmico de perda simultânea de inovatividade e produtividade que levam à perda de sustentabilidade, mesmo quando há crescimento. Também desenvolvi, em parceria com dezenas de outros pesquisadores, tecnologias de netweaving para configurar ambientes alterdidáticos de aprendizagem que ensejem a emergência de uma inteligência tipicamente humana que pode se acoplar à inteligência artificial impulsionando a colaboração e a criatividade. Implementei vários programas para melhorar as condições de convivência social em localidades e organizações, aumentando a qualidade de vida de seus habitantes ou participantes, despertando e dinamizando seu empreendedorismo e sua capacidade endógena de superar seus problemas (2).

Agora, com o auxílio de um Agente de Inteligência Artificial chamado REXOS, estou ministrando um programa de aprendizagem sobre netweaving: como articular e animar redes humanas. Nesse programa, além do conhecimento teórico (em cinco horas de aulas ao vivo, via Zoom, que ficarão disponíveis para ser acessadas a qualquer momento), teremos uma clínica (com conversas pessoais com cada inscrito que quiser trazer um caso concreto para ser analisado). Para saber mais sobre tudo isso clique neste link.

Notas

(1) Como questionou recentemente Pascal Bornet (2024), em Irreplaceable, “estamos ensinando máquinas a pensar como humanos — ou treinando humanos a pensar como máquinas? Parece uma pergunta técnica. Mas, para mim, é uma questão existencial. Ferramentas como rodas e motores ampliaram nossos corpos. A IA amplia nossas mentes. E isso muda tudo. A mudança da qual não falamos. Dizemos que estamos ensinando máquinas a pensar como nós. Mas, na realidade, estamos nos adaptando para pensar como elas. Otimizamos. Corremos atrás de respostas. Tratamos o pensamento como mera produção. Mas a inteligência humana nunca foi feita para a velocidade — foi feita para o significado. O ponto cego no boom da IA. Cada vez que interagimos com a IA, reforçamos sua lógica: Perguntar → obter → seguir em frente. Com o tempo, perdemos algo mais profundo: • A pausa antes de uma resposta • O desconforto de não saber • A intuição que precede as palavras. Esses são os momentos que nenhum modelo consegue replicar. O que estou tentando proteger. Estou aprendendo a preservar as partes do pensamento que ainda parecem humanas — lentas, emocionais e belamente incertas. Talvez o objetivo não seja tornar as máquinas mais humanas… Mas sim lembrar como permanecer humano ao usá-las”.

(2) Sim, esse é um assunto que investigo há mais de 25 anos: redes (e a emergência de uma sociedade em rede). Escrevi vários livros e dezenas de artigos sobre o assunto. No final de 2008, juntamente com alguns parceiros, fundei uma Escola-de-Redes que chegou a ter mais de 13 mil pessoas conectadas. Trabalhei com o tema em organizações da sociedade civil, grandes e pequenas empresas e governos de todos os níveis.

A história começa assim.

Surgiu no final do século passado uma chamada nova ciência das redes. Desse novo campo de investigação participaram vários cientistas, inicialmente físicos, em sua maioria, mas também matemáticos, sociólogos e pesquisadores de outras áreas do conhecimento. Pode-se citar alguns, meramente a título de exemplo: Albert-László Barabási, Steven Strogatz, Duncan Watts, Manuel Castells, Pierre Lèvy. E cada vez mais biólogos, epidemiologistas (e até médicos, como Nicholas Christakis).

As principais descobertas da nova ciência das redes, que surgiram nos primeiros dez anos do século 21, são surpreendentes. Mas as aplicações desse conhecimento às sociedades e organizações logo foram descontinuadas pela reação do mundo hierárquico, sobretudo dos Estados-nações e de outras organizações centralizadas, por medo de deixarem de ser os fulcros dos sistemas de governança públicos e privados.

No Brasil, em particular, houve (e continua havendo) uma confusão entre redes sociais (pessoas interagindo por qualquer meio) e mídias sociais (sites, programas, tecnologias) que dificulta o entendimento das redes e desestimula o interesse pelo assunto.

A nova ciência das redes foi o resultado da confluência de três campos investigativos: a análise de redes sociais (SNA), que está na pré-história dessa nova ciência, tendo como patrono Leonhard Euler (1707-1783); redes como estruturas que se desenvolvem; e redes como sistemas dinâmicos complexos.

Suas descobertas principais indicam:

1) que o comportamento coletivo não pode ser derivado do comportamento dos indivíduos (ou que – como escreveu o físico Marc Buchanan (2009) em O Átomo Social – “diamantes não brilham porque os átomos que os constituem brilham, mas devido ao modo como esses átomos se agrupam em um determinado padrão: o mais importante é frequentemente o padrão e não as partes, e isso também acontece com as pessoas”),

2) que redes são múltiplos caminhos e que o padrão de organização (a topologia da rede) determina ou condiciona fortemente os comportamentos possíveis de qualquer coletivo,

3) que redes sociais são redes humanas e que redes sociais mais distribuídas do que centralizadas estão se espalhando nas sociedades (e que é isso que chamamos de emergência de uma sociedade em rede),

4) que descentralização não é a mesma coisa que distribuição,

5) que centralização é o que chamamos de hierarquia (topologias mais centralizadas do que distribuídas),

6) que a conectividade acompanha a distribuição,

7) que a interatividade acompanha a conectividade,

8) que adesão ou participação não são a mesma coisa que interação,

9) que tudo que interage tende a clusterizar (clustering),

10) que tudo que interage pode enxamear (swarming),

11) que o imitamento (cloning) é uma forma de interação,

12) que tudo que interage se aproxima (crunching) diminuindo o tamanho social dos mundos,

13) que assim como a interatividade cresce com a transição para rede, a inovatividade tende a crescer com a interatividade,

14) que o aumento da interatividade depende da desobstrução de fluxos (e que é isso que chamamos de processos de rede nas organizações),

15) que só redes podem aprender, que – como disse Humberto Maturana – “aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo” e que o que chamamos de inteligência é um atributo dessa capacidade de aprender.

Como consequências dessas descobertas – no que tange especificamente à inovação – é possível afirmar:

1) que não adianta querer mudar (a dinâmica de funcionamento) sem mudar (o padrão de organização) e que – como se pode derivar de tudo o que escreveu Marshall McLuhan – é o ambiente que muda as pessoas, não a tecnologia,

2) que uma mudança só é possível do conhecido para o desconhecido, não do conhecido para o conhecido,

3) que inovação é sempre um resultado inesperado e, assim, é inútil tentar controlar processos de inovação verificando se foram alcançados os resultados esperados,

4) que inovação copiada é reprodução, não inovação. A inovação é sempre inédita e, portanto, é inútil tentar reproduzir os processos particulares pelos quais uma organização inovou com sucesso,

5) que nunca se trata de substituição, de colocar uma coisa no lugar de outra e sim de deixar que os novos processos que se acrescentam aos antigos gerem novas configurações emergentes,

6) que uma boa dose de comportamento aleatório é necessária para a inovação e que não é possível ser criativo sem partir em novas direções sem um plano pré-definido,

7) que é estúpido tentar organizar a auto-organização.

É possível aplicar esses novos conhecimentos da nova ciência das redes às organizações atuais, desobstruindo fluxos para mudar o padrão de organização (de mais centralizado do que distribuído para mais distribuído do que centralizado) e a dinâmica de funcionamento (de mais baseada em interação do que em adesão e participação e tendo como referência mais a lógica da abundância do que a da escassez).