O mundo parou para celebrar e viver as emoções esportivas que a Copa do Mundo FIFA desperta, os lances de perigo, as histórias de heroísmo, mas temos visto também, transmissões em resolução ultra HD para bilhões de telas, sistemas de arbitragem por inteligência artificial que detectam impedimentos em milissegundos. Toda essa infraestrutura digital, onipresente em cada segundo da competição, depende de semicondutores fabricados em sua esmagadora maioria em um único lugar: Taiwan.
Os chips produzidos pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, TSMC (empresa que concentra mais de 90% da fabricação mundial de semicondutores mais avançados) rodaram os algoritmos de VAR aprimorado, os modelos preditivos de desempenho atlético e os sistemas de segurança biométrica instalados nos estádios. Sem Taiwan, o maior espetáculo esportivo do planeta seria tecnologicamente impossível na forma em que o conhecemos hoje. Essa é uma faceta visível da importância geoeconômica da Paz no Estreito de Taiwan.
O ecossistema tecnológico taiwanês abrange também um investimento importante em pesquisas sobre os supercondutores, que são materiais capazes, em baixas temperaturas, conduzem cargas elétricas, sem resistência e sem criar campos magnéticos, o que na prática significa redução de ineficiências nas redes elétricas. Se os semicondutores foram a revolução que tornou a era digital possível, os supercondutores têm o potencial de ser o mesmo para a era da energia limpa economicamente viável. Outra aplicação dessa tecnologia são os processadores quânticos que podem introduzir ganhos de escala computacional suficientes para resolver problemas que a tecnologia atual não tem capacidade, tais como analisar bases de dados gigantescas em poucas horas o que os melhores supercomputadores atuais não conseguem no horizonte da expectativa de vida humana.
Todo esse progresso tecnológico acontece, contudo, sob a sombra permanente de um conflito territorial que o mundo prefere não nomear abertamente. A mesma ilha que garante que os árbitros da Copa vejam um impedimento em três centímetros é a mesma ilha que, se desestabilizada, poderia paralisar a transição energética global antes que ela realmente comece. Os países que aplaudiram suas seleções nos telões deveriam, com a mesma urgência, debater maneiras de, pelo menos, manter o status quo no Estreito de Taiwan.
A Copa do Mundo nos deu o que ela sempre dá: emoção, narrativa e o infelizmente ilusório senso de que o planeta compartilha algo em comum. Mas, o verdadeiro jogo decisivo para a economia e progresso tecnológico mundial não aconteceu em nenhum estádio. Ele acontece nos mares e céus do Estreito de Taiwan. E, diferente das fases de ‘mata-mata’, esse jogo não tem prorrogação.
A arte nos gramados e a diplomacia corporativa compartilham uma regra de ouro: o desenho tático dita os rumos antes de a bola rolar. Na Copa do Mundo de 2026, as chaves do torneio expõem as feridas históricas da nossa inserção econômica global. Liderando missões comerciais dentro e fora do governo, sempre analisei o mercado sob a ótica de um esquema de jogo: para vencer nos campos ou nos negócios, a estratégia é essencial.
O Brasil joga em uma “retranca estratégica”, exportando biomassa barata e importando inteligência manufaturada. A soberania econômica não se mede em toneladas despachadas, mas no controle dos canais de distribuição e no valor percebido. Frente a gigantes como EUA e Alemanha, nossa passividade é evidente. Nos EUA, mesmo com vendas de US$ 37 bilhões, o déficit atingiu US$ 7,5 bilhões por manufaturados complexos. Com a Alemanha, enviamos café e soja para importar US$ 14 bilhões em maquinários e insumos farmacêuticos.
Esse padrão se replica com o Marrocos, nosso adversário no torneio e o aparente empate não ocorreu apenas dentro de campo. A corrente de US$ 2,8 bilhões (US$ 1,39 bilhão de cada lado) esconde profunda assimetria: entregamos açúcar e melaços (66% dos envios) para receber fertilizantes (84% das importações). Exportamos caloria barata e importamos a tecnologia que alimenta nossa terra, enquanto o hub deles em Tanger Med dita as margens de lucro regionais.
O nó tático se acentua no Grupo A frente a Coreia do Sul e México. À Coreia (US$ 10,8 bi), vendemos óleo bruto (32,6%) e compramos chips e eletrônicos que superam 20% da pauta. Enquanto Seul lucra globalmente com o valor intangível do K-Beauty, o ecossistema brasileiro assiste passivamente. Com o México (US$ 13,6 bi), ficamos presos a autopeças de matrizes estrangeiras, exportando pífios US$ 16,8 milhões em móveis no varejo. O descompasso se repete com a Tchéquia (US$ 1,0 bi), onde fornecemos insumos mecânicos básicos, e com a África do Sul (US$ 2,2 bi), limitados a aves e petróleo, ignorando a união da SACU para distribuir marcas nacionais.
A ironia é que o mercado mundial busca sustentabilidade e saudabilidade, verticais bilionárias onde lideramos em insumos. No entanto, o cacau brasileiro ainda vira chocolate premium estrangeiro e nossos óleos essenciais retornam em frascos de luxo. Vendemos o ingrediente a granel e compramos a marca, o design e a propriedade intelectual. Esse é o jogo de alto nível que a diplomacia corporativa precisa passar a disputar com urgência.
Para virar esse placar histórico e atingir a soberania econômica, o Brasil deve mudar sua postura tática, abandonando a passividade. O caminho exige ação coordenada para projetar pequenas e médias empresas no varejo internacional via hubs mundiais estruturados. É hora de deixar de ser o eterno fornecedor de commodities para as indústrias alheias. Precisamos parar de exportar apenas o couro da bola e passar a dominar a tecnologia nela embutida, enxergando o mercado e o esporte modernos como ecossistemas indissociáveis de inovação. Este é o verdadeiro caminho para a vitória.
A censura no Brasil de 2026 já não depende de uma ordem judicial, de um inquérito espetaculoso ou de uma decisão monocrática do Supremo Tribunal Federal. O governo Lula encontrou um caminho mais simples, mais silencioso e mais perigoso: criar, por decreto, obrigações vagas, estruturas administrativas, deveres preventivos e mecanismos de pressão sobre plataformas digitais. Tudo com a embalagem das boas causas.
Em 20 de maio, o governo federal editou dois decretos que mexem em pontos centrais da regulação das plataformas digitais no Brasil. O Decreto 12.975/2026 pretende regulamentar a responsabilidade de provedores no contexto do julgamento do STF sobre o Marco Civil da Internet. O Decreto 12.976/2026 estabelece diretrizes para a proteção de mulheres na internet e para o enfrentamento da violência de gênero no ambiente digital.
O país precisa enfrentar abusos online, fraudes, redes artificiais de manipulação, violência digital e falhas reais das plataformas. Isso não autoriza o Executivo a reescrever, por ato unilateral, o regime jurídico da liberdade de expressão. Quando o tema envolve responsabilidade de intermediários, moderação de conteúdo, privacidade, proteção de dados, livre iniciativa e competência administrativa, o caminho constitucional passa pela lei, pelo Congresso, pelo debate público e pela deliberação democrática.
Os decretos de maio avançam sobre esse limite. Tratam como simples regulamentação aquilo que, na prática, cria obrigações novas, amplia competências administrativas e altera incentivos sobre o discurso público. O governo não está apenas organizando a execução de uma lei existente. Está preenchendo, pela própria caneta, o espaço que pertence ao Legislativo.
A Convenção Americana de Direitos Humanos, o Pacto de San José da Costa Rica, admite responsabilidades posteriores pelo exercício da liberdade de expressão, mas estabelece requisitos estritos: previsão em lei, finalidade legítima e necessidade em uma sociedade democrática. A palavra “lei”, nesse ponto, tem peso próprio. Não se confunde com decreto, portaria, diretriz administrativa ou interpretação conveniente de uma decisão judicial. Lei é produto de processo legislativo, com publicidade, disputa política, emendas, votação, controle social e responsabilização parlamentar.
É exatamente essa proteção que os decretos contornam. A exigência de lei existe para impedir que governos alterem sozinhos o equilíbrio entre liberdade, responsabilidade e controle do discurso. Quando o Executivo pode definir, sem passar pelo Congresso, novos deveres de prevenção, novas hipóteses de responsabilização e novas competências para interferir na circulação de conteúdo, a liberdade de expressão passa a depender menos da Constituição e mais da conveniência política do governo da vez.
A tentativa de apoiar os decretos no julgamento do STF sobre o Marco Civil da Internet não resolve o problema. Decisão judicial, mesmo em repercussão geral, não transforma o Executivo em legislador. O Supremo definiu parâmetros constitucionais e apontou a necessidade de disciplina legislativa posterior. Não entregou ao governo uma autorização aberta para criar obrigações permanentes, estruturas regulatórias, presunções de responsabilidade e canais administrativos de pressão sobre plataformas digitais.
No Decreto 12.975/2026, o governo cria deveres materiais para plataformas digitais, como obrigações permanentes de gerenciamento de riscos sistêmicos, deveres proativos de impedir redes artificiais de distribuição de conteúdos ilícitos e mecanismos de encaminhamento de informações ao poder público. A falha sistêmica, discutida pelo STF como critério de responsabilização, passa a funcionar como obrigação regulatória ampla, contínua e preventiva.
Essa mudança altera o comportamento esperado das plataformas. Se mantiver no ar um conteúdo controverso passa a representar risco jurídico, administrativo e político incerto, a tendência racional será remover mais, bloquear antes, restringir por excesso de cautela e reduzir o espaço de debate. A censura moderna não precisa aparecer como ordem direta de proibição. Ela pode operar pela criação de incentivos que tornam a liberdade custosa demais.
O Decreto 12.976/2026 repete e aprofunda a mesma lógica. Seu objetivo declarado é enfrentar a violência contra mulheres na internet, tema real e grave. O desenho escolhido, porém, cria um regime próprio de deveres para provedores, impõe prazos reduzidos de moderação, prevê obrigações técnicas de filtragem, interfere na arquitetura dos serviços digitais e atribui à ANPD poderes normativos e fiscalizatórios sobre moderação de conteúdo.
O texto trabalha com expressões amplas, como “sofrimento psicológico ou político”, “ódio ou aversão às mulheres” e “ataques coordenados”. Esses conceitos podem fazer parte de diagnósticos sociais e políticas públicas. Quando passam a servir de base para remoção de conteúdo, responsabilização e obrigações impostas a plataformas, precisam de definição legal precisa. Sem critérios objetivos aprovados pelo Congresso, abre-se espaço para enquadrar como violência aquilo que pode ser crítica dura, sátira, oposição política, jornalismo, denúncia, debate acadêmico ou contestação de interesse público.
O risco aumenta quando o decreto estabelece tratamento prioritário para conteúdos envolvendo mulheres com exposição pública decorrente de atuação profissional. A proteção contra violência digital é necessária. A criação de um regime administrativo capaz de interferir em críticas a figuras públicas exige cuidado extremo. Pessoas em posição de visibilidade estão sujeitas a escrutínio, contestação e oposição. A fronteira entre violência, discriminação, crítica legítima, sátira e disputa política não pode ser presumida por ato infralegal.
Também merece atenção a imposição de soluções técnicas obrigatórias. Ao exigir mecanismos de filtragem, bloqueio de reenvio e funcionalidades específicas de governança, o governo interfere diretamente no desenho dos produtos digitais. Isso aumenta custos de conformidade, favorece grandes plataformas, dificulta a operação de provedores menores e tenta fixar por decreto soluções tecnológicas em um ambiente que muda rapidamente. A regulação pode exigir diligência. Não pode transformar a Presidência da República em instância de engenharia de plataformas.
Nos dois decretos, aparece ainda a ampliação das competências da Agência Nacional de Proteção de Dados. A ANPD foi criada para proteger dados pessoais, com mandato definido em lei. Transformá-la em autoridade geral de governança de conteúdo online, por ato do Executivo, desvirtua sua função e amplia seu poder sem autorização legislativa. Moderação de conteúdo envolve liberdade de expressão, responsabilidade civil, defesa do consumidor, segurança pública, direitos políticos e devido processo. Esse arranjo institucional precisa nascer no Congresso.
Daniel Vorcaro foi às compras nos três poderes da República e comprou todos aqueles que estavam à venda. E foram muitos. De todos os espectros ideológicos.
A República brasileira foi negociada em um obscuro leilão que se vai revelando, mas cuja extensão ainda está longe de ser totalmente exposta; mesmo porque, apesar de Vorcaro e outros sócios compradores estarem presos, a maior parte das autoridades compradas permanece solta e no poder. De todo modo, sob a firme relatoria do ministro André Mendonça, que tenta garantir a independência da Polícia Federal (PF), as investigações do caso Master avançam.
Não estamos diante apenas de mais um episódio isolado de corrupção, de um político safado aqui ou de um banqueiro ganancioso ali. Estamos diante do retrato estrutural de uma República capturada: Brasília transformada em balcão de negócios de mafiosos, onde o bem comum não passa de pretexto e a toga, o mandato e o cargo são apenas instrumentos de barganha. Quem ainda acredita que este é um problema de “esquerda” ou de “direita” precisa acordar do seu sono infantil.
Os cidadãos acompanham atentos o desenrolar desse escândalo de grandes proporções nunca deixando de ser surpreendido. Uma surpresa recente veio do próprio STF: foi a tentativa do ministro Gilmar Mendes de tirar da prisão o pai e o primo de Vorcaro; o primeiro para prisão domiciliar, o segundo para ser solto de vez. Votaram pela manutenção da prisão André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques. O ministro Dias Toffoli, que é sócio de resort adquirido por fundo controlado pelo Banco Master, se deu por suspeito e não participou. Gilmar foi voto vencido (3 a 1); tendo contribuído para essa derrota o fato de que o ministro-relator André Mendonça decidiu, em pleno decorrer da discussão, retirar a parte do sigilo do caso em que se patenteava a periculosidade dos personagens que o ministro Gilmar tentava beneficiar.
Esse episódio do voto de Gilmar Mendes merece atenção especial, por sua desfaçatez e por revelar como o sistema se protege a si mesmo. Gilmar afirmou que os investigadores estão “no rumo errado” e que a Polícia Federal usou as prisões para pressionar a delação de Daniel Vorcaro. Segundo o decano, a prisão do pai serviu para pressionar o fundador do Master, que estava em fase de negociação de delação premiada, o que destoaria “da isonomia e proporcionalidade”. O decano considerou que há efeitos danosos da midiatização das investigações e voltou a citar as “práticas autoritárias da Lava Jato” para exemplificar o uso da prisão preventiva como instrumento de pressão.
É preciso aqui distinguir o garantismo legítimo da sua instrumentalização retórica seletiva em favor da impunidade dos criminosos poderosos, que é o que caracteriza o ativismo do ministro em questão. A derrota de Gilmar é uma boa notícia. Mas o voto em si merece registro histórico: em plena investigação do maior escândalo bancário da história brasileira, um ministro do Supremo Tribunal Federal, com gravata bem-posta e linguagem empolada, defendeu ardorosamente a soltura dos mafiosos investigados.
O desdobramento mais recente do caso foi o escancaramento das relações do senador petista Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, com o Banco Master. O aliado de Lula foi apanhado pela PF na nona fase da Operação Compliance Zero. As transações suspeitas indicadas no relatório da PF (vindo a público em 18 de junho) foram acordadas e implementadas com Augusto Ferreira Lima, sócio e gestor do Banco Master e dono do Banco Pleno. Carinhosamente, Jaques Wagner chama Augusto Lima de “Guga”.
O relatório da PF indica que Jaques e Guga, além de tratamento carinhoso, trocaram favores milionários. O parlamentar teria atuado em favor de projetos de interesse do Master no Congresso, entre eles a chamada “Emenda Master” e uma proposta que ampliava o limite do crédito consignado. Em contrapartida, os investigadores suspeitam que Wagner tenha recebido vantagens indevidas, como um apartamento e repasses que somariam R$ 3,5 milhões.
A PF encontrou também US$ 55.175 e 33,5 mil euros em endereços ligados ao senador. Parte do dinheiro, US$ 49 mil, foi apreendida no quarto de hotel em que Wagner mora, em Brasília. Sua assessoria afirmou que os valores são fruto de diárias de missões internacionais não utilizadas.
Tais favores já estão fartamente divulgados; tal como foi, e continua a ser, a divulgação do envolvimento do senador Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. Num e noutro caso, os suspeitos vieram a público alegar inocência e apresentar desculpas e justificativas. Num e noutro caso, as desculpas foram esfarrapadas e as justificativas imprestáveis.
Vale lembrar que as mensagens amplamente divulgadas na imprensa indicaram a conexão direta entre o senador Flávio Bolsonaro e o dono do Banco Master, com uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar cerca de R$ 134 milhões para financiar a produção de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Desse montante prometido, R$ 61 milhões foram pagos. Flávio havia negado publicamente qualquer contato com o banqueiro. A mentira deslavada deixou ainda mais claro a baixa estatura moral do pré-candidato a presidência da República pelo PL.
O lulismo tem explorado ao máximo o escândalo dark horse do Flávio Bolsonaro. Agora, os bolsonaristas estão dando o troco, explorando o caso Jacques Wagner. Flávio é, ele próprio, candidato a presidente da República; assim, seus possíveis malfeitos haverão de incidir diretamente na sua candidatura, fragilizando-a. Jaques Wagner não é candidato a presidente, mas é muito colado ao Lula; coladíssimo, a ponto de já haver quem levante suspeita de que ele teria sido intermediário entre o Banco Master e o presidente da República.
O referido escândalo de corrupção não pode, porém, ser reduzido a uma disputa PT versus PL. Documentos cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça apontaram os luxos que integravam o tratamento privilegiado e diferenciado dado a Ciro Nogueira (PP-PI), que Vorcaro considerava “um dos amigos da vida”.
O banqueiro também pagou a viagem e a hospedagem do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para o “Gilmarpalooza” em Lisboa. Motta confirmou a carona e o hotel de luxo, acrescentando que não via problema nisso. Eis o tamanho do desmantelo da bússola moral e do cinismo dos nossos políticos: o presidente da Câmara dos Deputados do Brasil aceita viagens e hospedagem pagas por um banqueiro fraudador investigado pela Polícia Federal e não enxerga nisso nem crime nem problema ético.
Já antes da eclosão do escândalo Master/Vorcaro, podia-se perceber que a casta política do Brasil havia sequestrado o Estado para seus próprios interesses de maneira despudorada e insustentável: emendas secretas bilionárias, fundo eleitoral e partidário bilionários, supersalários, penduricalhos, etc. Muitos dos que foram comprados pelo Banco Master já estavam, portanto, “podres de ricos”; podres por dentro também.
A parte sadia da República precisa reagir. E sempre há alguma reação, tanto que Daniel Vorcaro e alguns dos seus cúmplices estão presos; e a investigação da Polícia Federal avança. Nessa reação contra a corrupção cabe também louvar o papel de parte da imprensa, que tem exercido um intenso jornalismo investigativo; podendo-se destacar, por exemplo, a ação eficiente, corajosa e pertinaz da jornalista Malu Gaspar.
Entretanto, é preciso tomar o máximo de cuidado. Como foi dito, o poderoso ministro cujo nome não preciso repetir, já deu todos os sinais de que se prepara para dar o bote, desmantelando qualquer avanço efetivo no combate à corrupção; tal qual foi feito contra a Lava Jato.
Por décadas, o Brasil operou sob a premissa de que o que é nosso dispensa validação externa. Essa mentalidade autárquica, que moldou a industrialização por substituição de importações no século XX, encontrou espelho fiel em nossos gramados. O futebol brasileiro, pilar da identidade nacional, orgulhava-se de uma autossuficiência mística. Contudo, a contratação do italiano Carlo Ancelotti para a Seleção rompeu esse lacre ideológico. A chegada do treinador simboliza o colapso do último bastião do protecionismo cultural e serve de metáfora sobre a urgência de abertura do Brasil na economia globalizada.
O paralelo entre política comercial e gestão desportiva é evidente: ambos adotaram a reserva de mercado. Enquanto o mundo se integrava, o futebol brasileiro estagnou em uma autoconfiança anacrônica, pagando o preço com o isolamento técnico e duas décadas de jejum em Copas. Como na economia, o fechamento cobrou seu tributo em obsolescência.
Essa quebra de paradigma começou nos clubes com a importação de técnicos. As passagens de Jorge Jesus no Flamengo e Abel Ferreira no Palmeiras trouxeram novos processos, expondo o atraso metodológico local. O mercado doméstico, antes blindado, viu-se obrigado a expandir horizontes. Essa oxigenação estendeu-se às quatro linhas: a vinda de craques como Luis Suárez e Memphis Depay chancelou o retorno do país como polo atrativo. Ao subirem a régua da concorrência, esses atletas forçaram a elevação do nível interno, de forma idêntica a multinacionais que, ao se instalarem aqui, dinamizam a cadeia produtiva local.
Paralelamente, a estrutura de propriedade passou por metamorfose. Viabilizada pela Lei das SAFs em 2021, essa transição funcionou como o marco regulatório para a atração de Investimento Estrangeiro Direto, resgatando clubes asfixiados por dívidas. O aporte de R$ 1 bilhão do City Football Group no Bahia exemplifica essa virada. Essa enxurrada de capital, atrelada a práticas de governança, injetou liquidez, impôs auditorias e sepultou o amadorismo dos antigos cartolas.
Nesta transição, a maior lição do futebol para a gestão pública reside na correlação entre equilíbrio fiscal e dominância. Palmeiras e Flamengo são emblemáticos: abdicaram do populismo em prol da austeridade. Após reestruturarem suas dívidas, alcançaram faturamentos bilionários e converteram superávits em hegemonia esportiva, demonstrando que a responsabilidade fiscal é o único meio sustentável para financiar o sucesso a longo prazo. É uma cartilha para Brasília, pois atesta que o respeito às contas gera a previsibilidade para atrair capitais e garantir estabilidade.
O diagnóstico para o futebol e para a macroeconomia brasileira guarda a mesma essência: o protecionismo e a leniência fiscal concedem uma ilusão de alívio imediato, mas cobram o preço do fracasso no longo prazo. Se o Brasil vencerá com Ancelotti é uma incógnita, mas a quebra do dogma mostra que a evolução dos clubes ecoou na CBF. A modernização é irreversível e deveria pavimentar o caminho para reconduzir o país a uma nova era de vitórias sustentáveis além dos gramados.
Talvez você sinta uma desesperança e um desapontamento quando fala de política. Nós, brasileiros, passamos do desinteresse total a uma vontade de tomar as rédeas da situação nos últimos anos. As pessoas falam de política e tentam se informar como nunca. Exatamente porque sabem mais se sentem mais enganadas, têm a comprovação do que antes era intuição.
Dá a impressão de que, toda vez que o povo consegue mexer em algo nas estruturas, as velhas raposas da política se reorganizam. Ocorre o expurgo de quem incomoda o poder estabelecido, o absurdo se normaliza, as coisas seguem iguais. Os políticos são hábeis em criar discussões artificiais para distrair do que realmente interessa, o fato de que não resolvem os problemas do povo e não enfrentam as consequências disso.
As pessoas ávidas por informação política e ter alguma mudança acabam enredadas. Não por culpa delas, mas porque o sistema é injusto. Os políticos conhecem a política, vivem disso, são profissionais em moldar e conduzir debates. O cidadão precisa encaixar sua participação política nos afazeres diários, tendo uma vida cada vez mais difícil.
Nesse cenário é fácil ceder a paixões e soluções simplistas. Acreditar que há anjo que nos salve ou demônio invencível. A salvação é que a realidade se impõe. Não é se, é quando. Parece que esse tempo chegou.
Fôssemos listar os problemas a resolver e injustiças a corrigir no Brasil, jamais acabaríamos. Mas tem algo que já explodiu porque toca a vida cotidiana de todos os cidadãos brasileiros: a criminalidade organizada.
Neste século, as organizações criminosas saíram dos presídios e ganharam o país. Se diz que controlam mais de ¼ do território brasileiro. A estética e a cultura do crime são naturalizadas pela mídia e por influencers. Mas os efeitos na vida do cidadão comum são impossíveis de naturalizar.
Segundo pesquisa Ipsos de março deste ano, a criminalidade é a principal preocupação de metade dos brasileiros. Não é pouco. Pense no tanto de problemas que temos. O peso do crime está sobre a vida de todas as famílias. Até agora, essa era uma discussão tangencial nas eleições. Um detalhe apenas. Sinalização de virtude, moralidade e demonização estavam no centro. Corrupção, como sempre, faz parte da pauta.
A ação da campanha de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump pode ter mudado a janela de discussão definitivamente. Os EUA declararam PCC e CV como organizações terroristas. A questão é que Lula reagiu imediatamente contra. Alega questões de soberania, incorpora o vocabulário de direita para tentar falar que os outros são traidores da pátria. Não vai colar. São conceitos abstratos e as pessoas querem respostas para medos diários e reais.
Estamos falando de um povo que não pode sair com celular na rua, da prática familiar de verificar o tempo todo onde cada um está com medo da ação dos criminosos. Isso sem falar nos verdadeiros absurdos violentos e de domínio de território que martirizam diariamente milhões de cidadãos.
Qual a resposta para isso?
A direita diz agora que é a ajuda de Trump e uma postura linha dura, como aquela contra terroristas, para enfrentar esses criminosos. Lula diz que essa não é a solução mas também não aponta qual seria.
Quando o PT chegou ao poder, as organizações criminosas já existiam, mas eram marginais, muito ligadas ao universo carcerário. Cinco governos petistas depois, são potências mundiais, presentes em vários países, parasitando nossas instituições e com um poder que parece impossível de deter.
O que Lula prometerá fazer? O mesmo que o PT fez em 5 governos? O governo alega que combate o crime organizado, que fez novas leis, que tem forças-tarefa. No entanto, o crime só cresceu durante o século petista no poder.
Outro ponto é a postura ideológica da esquerda, que tende a tratar criminoso como vítima da sociedade. O presidente Lula já chegou a dizer textualmente que os traficantes são vítimas dos usuários. Fala frequentemente sobre roubo de celular, algo que atormenta o cidadão, como se fosse uma brincadeira.
Não sabemos ainda quais serão os efeitos reais da atitude de Trump. Quais as consequências práticas de declarar PCC e CV terroristas? Quanto tempo levará para que o Brasil sinta as consequências disso no dia-a-dia? Só o tempo dirá.
O que sabemos é que a mudança no debate chegou. Não há problema maior em um país que o sequestro de todo o Estado por bandidos. E todos os candidatos têm o dever de dar respostas concretas. Ao longo da campanha veremos quem realmente tem interesse nisso.
Há mais de uma década o PT montou uma rede suja de veículos alternativos ao que chamava de PIG – Partido da Imprensa Golpista. Era a maneira de criar uma opinião favorável ao neopopulismo lulopétista enquando não conseguia emplacar sua velha proposta de ‘controle social da mídia’. Na verdade, o que o PT queria era um controle partidário-governamental dos meios de comunicação.
Nos tempos atuais, entretanto, o PT tem conseguido afinal avançar no controle partidário-governamental das mídias sociais, como resumiu magistralmente o editorial do Estadão (de 24/05/2026) intitulado A longa marcha do controle digital. Também já havia tratado do assunto dois dias antes (em 22/05/2026) no artigo Ainda sobre o decreto de censura. E três dias antes (em 21/05/2026) no artigo Decreto de Lula estabelece a censura no Brasil, sobre a volta da velha proposta petista de controle da mídia.
Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar nosso trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.
Inscreva-se
Pois bem. O que aconteceu de 2014 para cá? Muitos veículos continuaram na rede, com um comportamente típico de rede suja (como Brasil 247 e DCM). Alguns desapareceram. Outros surgiram.
2014
Em 2014 a rede suja do PT reunia como veículos principais:
2026
Doze anos depois, em 2026, a rede suja do PT – salvo algum equívoco de avaliação – está basicamente assim:
Especialmente no YouTube a rede suja tem atualmente a seguinte configuração:
Claro que nos mosaicos acima não estão todos os veículos. Apenas alguns dos mais expressivos. Mas ver a constelação assim de uma vez, ajuda a explicar muita coisa.
As duas principais aquisições, de 2014 para cá, foram o Intercept_Brasil e o ICL – Instituto Conhecimento Liberta. Além do SGBR – Sleeping Giants Brasil, que não entrou nos mosaicos acima dada a sua natureza de milícia digital.
O Intercept_Brasil
O Intercept_Brasil só divulga vazamentos que favorecem o populismo de esquerda. A Vazajato serviu para descondenar Lula. Agora a Masterjato está servindo para reeleger Lula. O Intercept nunca vazou nada sobre as relações de Vorcaro com o PT e com Toffoli e com Moraes.
Pergunta-se, no caso atual do escândalo do banco Master, quem vazou as informações para o Intercept. O próprio Vorcaro, como um aviso aos que lhe abandonaram? Com a ajuda de quem ele fez isso? Só pode ser com a ajuda daqueles que queriam fazer sumir do noticiário as relações do PT, de Moraes e de Toffoli com Vorcaro. E sumiram mesmo.
Fica a dúvida se estamos tratando, no caso do Intercept_Brasil, de um veículo jornalístico ou de uma organização política de militantes já que, desavergonhadamente, faz luta política 24 horas por dia no estilo jihadismo de esquerda. E não ataca só o bolsonarismo. Ataca Israel (antissemitismo travestido de antissionismo), ataca os EUA (e não apenas por causa do governo Trump, mas na linha anti-imperialismo yankee da primeira guerra fria), ataca as democracias liberais e tenta cancelar, inclusive, personalidades de centro como Luciano Huck.
O Intercept_Brasil é presidido por Andrew Fishman, um jornalista investigativo norte-americano radicado no Rio de Janeiro. Antes ele havia trabalhado como repórter no The Intercept (versão americana) de 2013 a 2022. Participou da cobertura dos Arquivos Snowden (documentos vazados pela NSA) e integrou a equipe da Vaza Jato (e do “Brazil Secret Archive”), que revelou irregularidades na Operação Lava Jato, incluindo supostas relações secretas com o governo dos EUA (Departamento de Justiça e FBI).
Mas além do Fishman há uma equipe, aliás bem numerosa para um veículo tão pequeno, de jornalistas-militantes ou propagandistas partidários. Dele saiu, por exemplo, o Leandro Demori – que foi editor-executivo do The Intercept Brasil de 2018 a 2022 (ou 2023) e foi um dos principais coordenadores da cobertura da Vaza Jato – para trabalhar na empresa de marketing político oficial do governo Lula: a EBC – Empresa Brasil de Comunicação. Em setembro de 2023, Demori estreou o programa “Dando a Real com Demori” (ou DR com Demori) na TV Brasil (também chamada de “TV Lula”).
É indisfarçável e inegável o vínculo do Intercept_Brasil com o PT no governo. É um mundo chapa-branca.
O ICL – Instituto Conhecimento Liberta
A outra grande aquisição foi o ICL – Instituto Conhecimento Liberta, uma plataforma declarada como de educação online, cultura e jornalismo que foi criada em 2020. O destaque aqui é o ICL Notícias: portal de notícias e canal no YouTube (com ~1,7 milhão de inscritos) que transmite várias horas de conteúdo ao vivo por dia (programas como Desperta ICL, ICL Notícias 1ª e 2ª Edição, etc.). Tem viés editorial de esquerda, crítico ao bolsonarismo e alinhado a pautas progressistas.
Seus fundadores são Eduardo Moreira — ex-banqueiro de investimentos, Rafael Donatiello — especialista em marketing digital e Jessé Souza — sociólogo conhecido por suas posições de esquerda radical na academia e nos veículos de comunicação. Eduardo e Rafael são sócios e dirigentes do ICL e a partir de 2024 Felipe Neto passou a integrar o Conselho. Há também um Conselho Curador que inclui, salvo engano ou desatualização, Frei David (Educafro), Heloisa Villela (jornalista), João Paulo Pacifico (Grupo Gaia), Lindener Pareto (historiador) e Daniel Munduruku (ativista indígena). Por último há uma equipe grande de jornalistas e colaboradores: Leandro Demori (aquele mesmo do Intercept_Brasil e da EBC), Chico Pinheiro, Rodrigo Vianna, Xico Sá, Leonardo Boff, Marilena Chauí etc.
Às vezes o ICL dá a impressão de querer ser uma espécie de Brasil Paralelo da esquerda.
O SGBR – Sleeping Giants Brasil
Uma organização não incluída nos mosaicos acima é a milícia digital agressiva intitulada Sleeping Giants Brasil, associada a campanhas de desmonetização de empresas e veículos de mídia considerados contrários ou críticos ao governo Lula, ao PT e a esquerda em geral. Trata-se de uma adaptação brasileira do movimento Sleeping Giants (criado nos EUA em 2016 contra sites de extrema-direita).
O SGBR atua desde 2020 principalmente no Twitter/X, Instagram e outras mídias sociais, expondo anunciantes (empresas) que colocam publicidade em sites, canais ou perfis acusados de disseminar fake news, discurso de ódio, desinformação ou conteúdo conservador ou bolsonarista. Seu objetivo declarado é “desmonetizar” esses veículos, pressionando marcas a retirarem anúncios via e-mails, campanhas públicas e notificações, para reduzir o faturamento deles.
Não é propriamente um veículo de comunicação, mas, como foi dito, uma milícia digital alinhada à esquerda que atua de forma coordenada para silenciar vozes opositoras via pressão econômica além de promoção de cancelamento.
O SGBR defende regulação mais forte das plataformas digitais, atua em parceria com pautas progressistas de combate à “desinformação” e pratica uma suposta legítima defesa contra ódio e fake news.
O Sleeping Giants Brasil (SGBR) é dirigido principalmente por três pessoas, que são seus fundadores e diretores: Mayara Stelle — Diretora Executiva, Institucional e Financeira, Leonardo de Carvalho Leal — Diretor de Comunicação e Humberto Ribeiro (Humberto Santana Ribeiro Filho) — Diretor Jurídico e de Pesquisa. Este último está perfeitamente integrado ao governo e foi nomeado por Lula para o Conselho Consultivo da Anatel (como conselheiro, representando sociedade civil).
Inicialmente essa estranha milícia atuava de forma meio clandestina. Só depois os operadores do movimento revelaram suas identidades (por exemplo, em entrevista para Mônica Bergamo, da Folha).
O artigo poderia terminar aqui, mas antecipo-me às perguntas que virão.
E os veículos e jornalistas bolsonaristas?
Este artigo focaliza apenas os veículos lulopetistas (ou ditos de esquerda). Mas há também uma constelação de veículos bolsonaristas (ditos de direita ou de extrema-direita) que será tema de um novo artigo. Incluem-se nessa constelação, entre outros: Brasil Paralelo, Conexão Política, Gazeta do Povo (parcialmente), Jornal da Cidade Online, Revista Oeste e Terra Brasil Notícias. E os canais do Youtube, entre outros, de Ana Paula Henkel, André Fernandes, Daniel Alvarenga, Folha Política, Giro de Notícias, Gustavo Gayer, Jovem Pan (parcialmente), Nikolas Ferreira, Rodolfo Delmond, Sargento Fahur, Te Atualizei (Bárbara Destefani) e Terça Livre. Em breve vamos tratar do assunto.
E os veículos e jornalistas não populistas?
Também está fora do escopo deste artigo tratar dos veículos, programas, jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Em ordem alfabética poder-se-ia citar, entre outros, os anônimos editorialistas de O Estado de S. Paulo, Alexandre Schwartsman (Folha de S. Paulo), Caio Blinder (Manhattan Connection e Levante no Youtube), Caio Junqueira (CNN), Carlos Andreazza (O Estado de S. Paulo), Carlos Pereira (O Estado de S. Paulo), Daniel Rittner (CNN), Demétrio Magnoli (Folha de S. Paulo, O Globo, Globo News), Dora Kramer (Jovem Pan, Folha de S. Paulo), Duda Teixeira (Crusoé), Eduardo Affonso (O Globo), Fernando Gabeira (Globo News), Fernando Rodrigues (Poder 360), Fernando Schüler (Estadão, Band), Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo), Heni Ozi Cukier (Professor HOC, Canal do Youtube), Joel Pinheiro (Canal no Youtube, Folha de S. Paulo, Globo News), Lourival Sant’Anna (CNN), Luiz Felipe Pondé (Folha de S. Paulo, TV Cultura), Lygia Maria (Folha de S. Paulo), Madeleine Lacsko (Canal no Youtube e O Antagonista), Magno Karl (Canal Meio), Malu Gaspar (O Globo, Globo News, CBN), Mano Ferreira (Jovem Pan), Marcelo Rios (Hoje no Mundo Militar, Canal do Youtube), Marcio Coimbra (Monitor da Democracia, Crusoé), Marcus André Melo (Folha de S. Paulo), Mariliz Pereira Jorge (Canal Meio e Folha de S. Paulo), Merval Pereira (O Globo, Globo News), Oliver Stuenkel (Globo News e O Estado de S. Paulo), Pedro Doria (Canal Meio), Raquel Landim (SBT News), Rodrigo da Silva (Spotniks, O Estado de S. Paulo), Sam Pancher (Metrópoles)l, Sergio Fausto (O Estado de S. Paulo), Thais Herédia (CNN), Thaís Oyama (O Globo, TV Cultura), William Waack (WW CNN e O Estado de S. Paulo) e Wilson Gomes (Folha de S. Paulo). Esse elenco não é exaustivo, mas quase. E a lista, mesmo assim, parece extensa. Mas é mínima se compararmos às listas de nomes de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que pontificam nesses mesmos veículos da imprensa comercial, convencional ou alternativa (que foram citados entre parêntesis neste parágrafo) e que são de esquerda ou governistas. Não é tão difícil perceber a diferença entre os nomes acima e nomes como os de Celso Rocha de Barros (Folha de S. Paulo), Daniela Lima (UOL), Flávia Oliveira (Globo News), Guga Noblat (Metrópoles), Marcelo Lins (Globo News), Miriam Leitão (O Globo, Globo News), Reinaldo Azevedo (Metrópoles) e Ricardo Noblat (Metrópoles) – para citar apenas alguns exemplos de profissionais governistas que, de jornalistas (e bons jornalistas, em alguns casos), passaram a ser propagandistas ou defensores contumazes do PT ou da esquerda populista (de raiz marxista ou identitarista).
Cabem aqui, entretanto, algumas ressalvas para explicar muitas ausências da lista de jornalistas, analistas e comentaristas políticos que não são populistas (de esquerda ou de direita) e se aproximam de uma visão democrático-liberal. Quem não critica o neopopulismo lulopetista e o populismo-autoritário bolsonarista como alternativas iliberais (não-liberais ou contra-liberais) não pode se dizer democrata-liberal. Não adianta tentar escapar disso se declarando progressista ou conservador. Democratas-liberais podem ser inovadores ou conservadores. Mas não podem ser revolucionários disfarçados de progressistas ou reacionários travestidos de conservadores. Também não adianta se proclamar social-democrata. Nem todo social-democrata é um democrata-liberal. Existem social-democratas que são social-liberais e existem social-democratas estatistas, ou seja, estatal-democratas que são, a rigor, não-liberais.
E a GloboNews?
Por último, merece um destaque especial a GloboNews, que embora não possa ser considerada um nodo da rede suja do PT, virou um canal que inaugurou um novo tipo de “noticiário”, empenhado em dizer o que você deve pensar sobre o que aconteceu antes de dizer o que de fato aconteceu. Não é mais – stricto sensu – um canal de jornalismo, mas de opinião – com uma linha “progressista”, no sentido que o populismo de esquerda (de raiz marxista ou identitarista) atribui à palavra. Com algumas exceções, é claro – algumas até citadas acima, mas que confirmam a regra – é um canal governista ou colaboracionista com a força hegemonista que está no governo. (Já venho abordando esse assunto há muito tempo; por exemplo, no artigo de 16/12/2024 intitulado Por que GloboNews?)
No que tange à chamada imprensa comercial ou tradicional muitos problemas estariam resolvidos (ou seriam evitados) se os jornalistas adotassem um referencial democrático, como o sugerido no artigo (de 03/02/2025) intitulado Um código democrático para jornalistas.
Há tragédias que, por sua brutalidade, parecem desafiar qualquer tentativa de interpretação mais ampla. Contudo, justamente por revelarem certas tendências de uma época, acabam se tornando estopim para a indignação daqueles que ainda tentam resistir contra o avanço da barbárie. Os casos de Henry Nowak, no Reino Unido, e Henry Borel, no Brasil, pertencem a essa categoria. Embora distintos em circunstâncias, contexto e desfecho judicial, ambos expõem uma mesma enfermidade moral de nosso tempo: a crescente subordinação da justiça aos imperativos da política identitária.
Não é por acaso que esses dois casos me vieram juntos à reflexão. Há neles uma lógica perversa comum, uma tragédia anunciada que merece ser examinada com seriedade. Henry Nowak tinha 18 anos e voltava a pé para casa numa noite em Southampton, sul da Inglaterra. Henry Borel tinha 4 anos e estava num apartamento no Rio de Janeiro com a mãe e o companheiro dela. Ambos foram assassinados e ambos foram, à sua maneira, traídos pelo próprio Estado. E, nos dois casos, essa traição foi alimentada pelo mesmo veneno ideológico que corrói, lenta e metodicamente, as instituições do mundo ocidental: o identitarismo.
O assassinato de Henry Nowak e a cumplicidade do Estado
Em uma noite, quando voltava da faculdade, Henry Nowak teve a infelicidade de cruzar o caminho de Vickrum Digwa, um britânico sikh que carregava uma adaga de 21 centímetros. Uma altercação entre eles terminou da maneira mais brutal possível: Henry foi esfaqueado cinco vezes, com um golpe fatal no peito. Ele buscou refúgio na garagem da casa de um desconhecido e implorou por socorro. A polícia chegou. Mas, em vez de alívio, seu drama ganhou uma segunda camada, desta vez, com o imprimatur do Estado.
É que o irmão de Digwa, seu assassino, havia telefonado para a polícia com uma mentira calculada: afirmou que Henry era um agressor e que ele e seu irmão haviam sido vítimas de racismo. A falsa acusação de racismo funcionou como uma palavra mágica. Os policiais chegaram enfeitiçados à cena do crime e, sem verificar os fatos, sem considerar o estado de Henry, que sangrava, que estertorava, repetindo com muito esforço “não consigo respirar”, decidiram acreditar no algoz e desacreditar a vítima. Algemaram um rapaz em agonia. Enquanto sua vida se extinguia, um policial ainda debochou quando ele disse que foi esfaqueado: “Acho que não, amigo.”
A indiferença e o sarcasmo com a verdadeira vítima, a absurda decisão de algemar o rapaz moribundo não foi um ato cruel de um agente isolado, nem um grosseiro equívoco da ação policial em conjunto: foi o resultado natural de um condicionamento ideológico. Como explica Brendan O’Neill, editor-chefe de política da revista Spiked, no artigo The merciless mistreatment of Henry Nowak, “a Polícia de Hampshire, que abrange Southampton, possui um ´plano de ação racial´ repleto de absurdos da teoria crítica racial”. Após décadas de doutrinação woke nas entranhas do Estado britânico, a acusação de racismo vindo de um indivíduo pertencente a alguma minoria, adquiriu o estatuto de uma prova em si mesma, independentemente de qualquer evidência, de qualquer contraditório, de qualquer bom senso.
Foi por conta da doutrinação woke que os agentes trataram a falsa acusação de racismo feita pelo irmão do assassino de Henry Nowak como verdade imediata e inquestionável. Embora o assassino tenha sido condenado, a liberação das câmeras corporais dos agentes de polícia gerou forte comoção pública porque deixou claro o perigo que é um Estado que subverte a justiça, que substitui a presunção de inocência pela presunção de culpa conforme a identidade racial do acusado, trocando o dever de imparcialidade pela militância disfarçada de protocolo.
O assassinato de Henry Borel e a misericórdia seletiva da juíza
A história de Henry Borel é igualmente perturbadora e igualmente reveladora das patologias do tempo presente. Henry tinha 4 anos. Morreu por hemorragia interna e laceração no fígado causadas por ação contundente, segundo sete laudos periciais independentes. Seu padrasto, o ex-vereador Jairinho, foi condenado a 43 anos de prisão. Mas há outra figura nessa tragédia: Monique Medeiros, a mãe. Os fatos são inequívocos: Monique sabia. O filho havia dito, por duas vezes, que o “tio” o agredia. A babá lhe alertara, com relatos e imagens, sobre os maus-tratos. Quando Henry morreu, ela orientou a empregada a se calar para não incriminar o casal. Os jurados chegaram a um veredicto que reconhecia a culpa da mãe. Foi então que a ideologia travestida de juíza entrou em cena para evitar o cumprimento da justiça.
A magistrada Elizabeth Louro concedeu perdão judicial a Monique pelo homicídio culposo. Sob que argumentação? Sob argumentação de que ela já havia sofrido o suficiente por ter sido vítima de um “massacre misógino” e que a sociedade lhe exigia ser “a mãe perfeita” nos moldes patriarcais, e que essa pressão cultural justificava a clemência excepcional.
Não foram poucos os articulistas que, com razão, reconheceram a gravidade da decisão. “Há poucas coisas mais desprezíveis do que usar retórica ideológica para justificar a maldade e o crime”, escreveu Fernando Schüller no Estadão; “Ao invocar conceitos como misoginia e discriminações de gênero, ambos presentes em sua sentença, a juíza introduziu uma categoria ideológica como parte da sustentação de uma decisão penal”, escreveu Thais Oyama em O Globo. “A militância da juíza esvazia o poder de agir e o dever de responsabilização das mulheres, perpetuando a vitimização e a infantilização do sexo feminino, verificadas em parcela significativa do discurso identitário”, escreveu Lygia Maria na Folha de S.Paulo.
A retórica identitária
O caso Henry Nowak, no Reino Unido, e o caso Henry Borel, no Brasil, ilustram um mesmo fenômeno: a substituição progressiva do ideal de justiça universal por uma lógica de interpretação fundada em identidades. A identidade da vítima ou do réu foi critério. No primeiro caso, a identidade sikh do assassino e a falsa acusação de racismo contribuiu para a suspeição imediata da verdadeira vítima, que morreu algemada antes que os policiais percebessem o grave erro que estavam cometendo; no outro caso, a identidade de gênero feminino serviu para atenuação da responsabilidade da ré de um crime cruel de infanticídio. Em ambos os casos, o princípio elementar da imparcialidade, que exige que a lei seja aplicada com base nos fatos foi sacrificado no altar de uma ideologia que, sob pretexto de “justiça social”, vem paulatinamente esvaziando o próprio conceito de justiça.
A justiça é representada cega justamente porque ela evita o favoritismo, o preconceito, o privilégio, a parcialidade. Quando retiramos a venda da justiça para que ela examine quem pertence a qual grupo, imaginando assim torná-la mais sensível ou mais consciente, acabamos por transformá-la em algo muito diferente daquilo que deveria ser.
A tradição democrática, liberal e humanista do Ocidente construiu-se com a convicção de que a dignidade humana é universal. O identitarismo, ao contrário, é um tribalismo, fragmenta a universalidade em uma infinidade de categorias concorrentes que buscam privilégios. Ele divide o mundo entre opressores e oprimidos, e essa divisão precede qualquer análise dos fatos concretos. Uma vez estabelecida a hierarquia identitária (quem pertence ao grupo dos privilegiados, quem pertence ao grupo dos oprimidos), o julgamento moral já está, de antemão, determinado. Os fatos tornam-se irrelevantes, ou pior, tornam-se obstáculos a contornar, ruídos a neutralizar com a retórica adequada. Quando a justiça se torna seletiva, quando ela distribui seus veredictos conforme a posição do réu na hierarquia das identidades, ela deixa de ser justiça e passa a ser política; a pior das políticas, aquela que se reveste de moralidade para dissimular sua arbitrariedade.
É essa a perversão que ambos os casos iluminam. Enquanto o progressismo woke continuar a colonizar as instituições e as mentes, haverá mais “casos Henrys”. Não se trata apenas de erros individuais de policiais despreparados ou de uma juíza ideologizada. Trata-se de uma deformação sistemática que tem corrompido as instituições, impedindo-as de cumprirem sua função primordial: fazer justiça com base na verdade e na lei, não com base em preferências identitárias.
O tabuleiro do comércio global acaba de sofrer um realinhamento profundo, e o Brasil, lamentavelmente, moveu-se tarde demais para evitar as ações desenhadas em Washington. A confirmação de que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, concluiu a investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, recomendando uma tarifa punitiva de 25% sobre uma vasta gama de produtos brasileiros, não é apenas um revés econômico de proporções severas. Representa o ápice de um diagnóstico preciso do amadurecimento institucional do protecionismo da administração Trump e, simultaneamente, expõe as fragilidades crônicas da atual condução da nossa diplomacia corporativa e governamental. Para quem dirigiu de a complexa engrenagem da promoção de exportações e a atração de investimentos no ecossistema da Apex Brasil, posso afirmar que o anúncio traz lições amargas sobre como o país perdeu a capacidade de antecipar o risco regulatório global e gerenciar assimetrias em mercados maduros.
Diferente do açodado tarifaço linear de 2025, que acabou naufragando nos tribunais constitucionais americanos devido ao seu caráter declaradamente político de retaliação ideológica, a investida atual liderada por Jamieson Greer possui uma blindagem técnica sofisticada. Ao ancorar as novas penalidades nas conclusões formais da Seção 301, o governo americano ergueu barreiras de difícil reversão jurídica ou diplomática. O USTR dissecou o ambiente de negócios brasileiro para justificar as sanções, apontando seis frentes estruturais que considera práticas comerciais injustas: as barreiras ao comércio digital, as assimetrias na regulação de serviços de pagamento eletrônico, as distorções em tarifas preferenciais, a histórica morosidade na proteção à propriedade intelectual, as perenes disputas sobre o acesso ao mercado de etanol e, em um lance de puro pragmatismo político, o desmatamento ilegal. Ao sequestrar a narrativa ambiental para transformá-la em argumento de dumping ecológico, Washington desarmou a retórica tradicional de Brasília, provando que a defesa dos interesses comerciais americanos não possui amarras ideológicas.
O desenho cirúrgico da nova lista de sobretaxas revela a face mais nítida da realpolitik americana e nos oferece um espelho de nossas próprias dependências. Ao poupar setores estratégicos como o aeroespacial — preservando a cadeia de valor integrada da Embraer —, além de combustíveis fósseis, minerais críticos, café e carne bovina, os formuladores da política em Washington protegeram sua própria indústria e o bolso de seus eleitores contra pressões inflacionárias. Onde o Brasil possui indispensabilidade estrutural nas cadeias globais de suprimentos, o pragmatismo de Trump prevaleceu. Onde somos substituíveis ou politicamente vulneráveis, fomos atingidos. Porém, vale apontar que o governo brasileiro contribuiu com sua retórica antiamericana e ao mesmo tempo foi incapaz de deter o processo dentro do prazo político negociado nos bastidores, algo que escancara o fato de que a nossa diplomacia pública perdeu densidade técnica e canais de interlocução de alto nível com o coração do poder decisório americano.
Para agravar o cenário, a diplomacia corporativa nacional agora precisa lidar com um fenômeno complexo de contaminação de agendas, a chamada linkage diplomacy. A classificação de facções criminosas domésticas, como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, como organizações terroristas internacionais sob a ótica de Washington, demonstra que a governança econômica foi irremediavelmente fundida à agenda de segurança nacional dos Estados Unidos. O comércio deixou de ser uma via de negociação estritamente tarifária para se transformar em moeda de troca geopolítica. Um tabuleiro onde Brasília tem dificuldade de se mover.
Diante desse cenário de terra arrastada no plano das relações entre governos, o Brasil precisa redesenhar imediatamente sua estratégia de defesa comercial, devolvendo o protagonismo à diplomacia corporativa privada e ao diálogo entre setores produtivos. Quando o canal entre governos falha por saturação ideológica ou desalinhamento de visões de mundo, cabe ao ecossistema empresarial assumir a liderança das narrativas. O empresariado brasileiro, em coordenação com as associações setoriais de exportação, precisa descer à arena de Washington não para fazer discursos soberanistas abstratos, mas para demonstrar, com dados econômicos rigorosos, como o encarecimento de 25% nos produtos brasileiros afetará a competitividade dos próprios distribuidores, indústrias e consumidores americanos que dependem das nossas manufaturas e insumos industriais intermediários.
A lição que a Seção 301 nos impõe em 2026 é clara e urgente: a inserção internacional do Brasil não pode ficar à mercê de voluntarismos políticos ou de uma leitura anacrônica das forças que movem as grandes potências. O protecionismo contemporâneo não se combate apenas com chancelarias e notas de repúdio, mas com inteligência comercial, previsibilidade jurídica e uma presença ativa e sofisticada dentro dos centros onde as regras do jogo global são escritas. Se o país não compreender que a eficiência interna e a estabilidade regulatória são as nossas melhores defesas comerciais no exterior, continuaremos assistindo, passivos, à erosão dos mercados que levamos décadas para conquistar.
A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da proposta que altera o modelo da escala 6×1 reacendeu um debate legítimo e necessário: como garantir mais qualidade de vida ao trabalhador sem comprometer empregos, a atividade econômica e o custo de vida.
A intenção é compreensível e socialmente relevante. Mais descanso, maior convivência familiar e melhores condições de trabalho são objetivos desejáveis. A questão é saber se isso pode ser implementado apenas por determinação legal, sem considerar os impactos econômicos e as diferenças entre os setores produtivos.
A economia não responde apenas à vontade política. Ela funciona com base em produtividade, custos, previsibilidade e capacidade de adaptação.
Quando uma norma reduz o tempo de trabalho e mantém integralmente os salários, transfere ao setor produtivo um custo que precisa ser absorvido. E isso tende a gerar efeitos concretos.
Estudos internacionais mostram que a redução da jornada pode funcionar — mas normalmente em ambientes preparados para isso.
No Reino Unido, um projeto-piloto acompanhado por pesquisadores da Universidade de Cambridge e do Boston College envolveu 61 empresas e quase 3 mil trabalhadores. O resultado foi positivo: a produtividade foi mantida, houve melhora no bem-estar e a maioria das empresas decidiu continuar com o modelo. Mas existe um detalhe essencial: a mudança foi voluntária, acompanhada por planejamento interno e reorganização das rotinas de cada empresa. Não foi uma imposição uniforme do Estado.
Na Alemanha, experiências semelhantes também mostraram manutenção da produtividade, porém com adaptação operacional e escalas flexíveis entre empresas participantes.
Por outro lado, quando se analisa o impacto macroeconômico de uma redução obrigatória sem ganho prévio de produtividade, o cenário exige cautela.
Uma nota técnica publicada neste ano estimou que, para sustentar uma redução relevante da jornada sem perda de produção, seria necessário elevar a produtividade em cerca de 8,5%. Isso mostra que o debate não é apenas jurídico ou político: ele envolve capacidade real da economia de absorver essa transição.
E essa preocupação pesa ainda mais em setores intensivos em mão de obra, como comércio, supermercados, restaurantes, hotelaria e serviços.
A realidade de uma padaria de bairro não é a mesma de uma grande rede.
A estrutura de um restaurante familiar não se compara à de uma multinacional.
Quando se impõe uma regra única para realidades tão diferentes, cresce o risco de efeitos colaterais: aumento de custos, menor ritmo de contratação, repasse ao consumidor e incentivo à informalidade.
Isso não significa negar a importância do descanso nem se opor à valorização do trabalhador.
Significa reconhecer que mudanças estruturais exigem responsabilidade.
O desafio é encontrar um equilíbrio entre proteção ao trabalhador e sustentabilidade econômica.
Esse equilíbrio passa por diálogo, segurança jurídica, previsibilidade e, principalmente, flexibilidade para que cada setor possa se adaptar conforme sua realidade.
A pergunta não é se o trabalhador merece melhores condições.
Ele merece.
A pergunta é qual modelo consegue entregar isso sem prejudicar emprego, renda e a própria economia real.
Como a proposta ainda será analisada pelo Senado, esse é o momento de aprofundar o debate.
Porque boas intenções são fundamentais.
Mas, sem uma transição responsável, elas podem produzir efeitos muito diferentes daqueles que foram prometidos.