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Amigos da Rússia

A política externa brasileira atravessa hoje um momento de perigosa indefinição ética. Ao buscar um estreitamento de laços com a Federação Russa em meio à invasão da Ucrânia, o Brasil não apenas desafia o consenso das principais democracias ocidentais, mas também flerta com a erosão de sua própria identidade como nação democrática. O regime de Moscou, consolidado como uma autocracia que cerceia a liberdade de expressão e persegue opositores, utiliza a força militar como ferramenta sistemática de expansão territorial. Para um país que se orgulha de suas instituições, o silêncio — ou, pior, a cordialidade excessiva — diante de tais práticas configura uma dissonância cognitiva diplomática que compromete nossa credibilidade junto aos parceiros estratégicos que compartilham de nossa arquitetura de valores.

Essa aproximação torna-se ainda mais incompreensível quando se nota que o Brasil não apenas ignora a ordem global, mas negligencia evidências graves de que sua própria soberania tem sido instrumentalizada pelo Kremlin. A recente descoberta de uma rede de espiões russos operando em solo nacional, utilizando identidades brasileiras fraudulentas para infiltrar-se em organismos internacionais, é um alerta que a diplomacia de Brasília parece ignorar. Foram identificados ao menos nove agentes que teriam usado documentos brasileiros como parte de seus disfarces, como os casos de Sergey Cherkasov, que se passava por Victor Muller Ferreira, Mikhail Mikushin, sob o pseudônimo de José Assis Giammaria e Artem Shmyrev, que usava o nome Gerhard Daniel Campos. Estes casos revelam que Moscou enxerga o Brasil não como parceiro de igual estatura, mas como “fábrica de identidades” para suas operações de espionagem.

Essa falta de respeito pela integridade institucional brasileira manifesta-se também na opacidade que envolve a movimentação de aeronaves estatais russas em aeroportos nacionais. Relatos sobre voos suspeitos, registrados em Brasília entre 2025 e o início de 2026, envolvendo modelos como o Ilyushin Il-96 e o Tupolev Tu-204, levantam questionamentos profundos. Tais aeronaves, muitas vezes vinculadas ao Esquadrão de Voos Especiais do Kremlin ou a empresas sancionadas, realizam rotas complexas para evitar o espaço aéreo europeu, fazendo escalas em Casablanca, Dakar e Baku antes de pousar na capital federal e rumar para Havana e Caracas. A ausência de transparência sobre essas cargas e a finalidade real de tais visitas, ocorrendo em paralelo a fóruns empresariais, sugere uma “diplomacia das sombras” que fragiliza a imagem do Brasil perante o mundo civilizado.

Diante desse cenário de suspeição, causa espanto e perplexidade que o governo brasileiro estenda tapete vermelho para autoridades russas, como ocorre na visita do primeiro-ministro Mikhail Mischustin e sua comitiva ministerial. Esta recepção sugere que o compromisso brasileiro com o Direito Internacional é seletivo e que a defesa da autodeterminação dos povos pode ser sacrificada no altar de interesses imediatistas e de uma visão de mundo datada. O argumento de que o Brasil precisa manter essa proximidade por “necessidade comercial” não resiste a uma análise rigorosa: a realidade numérica desmascara a narrativa de uma parceria indispensável. Atualmente, as exportações brasileiras para a Rússia representam uma fração irrisória, oscilando entre 0,4% e 0,6% do total exportado.

Em contrapartida, a União Europeia, que lidera as sanções contra o regime autocrático de Vladimir Putin, é um de nossos maiores parceiros, destino de cerca de 15% de nossas vendas externas. Enquanto a corrente de comércio com Moscou é pautada quase exclusivamente pela importação de fertilizantes — insumo que poderia ser diversificado com parceiros como Canadá, Marrocos ou produtores do Oriente Médio —, o Brasil coloca em risco o trabalho de 25 anos de negociações para a conclusão do acordo Mercosul-União Europeia. Estamos trocando a possibilidade de acesso preferencial a um mercado de quase 450 milhões de consumidores por uma relação de dependência com uma economia em declínio. Manchar a reputação do país por benefícios comerciais marginais não é pragmatismo, é um isolacionismo ideológico que nos afasta das cadeias de valor mais sofisticadas do Ocidente.

Para além dos números, existe uma dimensão humanitária que o governo parece negligenciar: o sentimento de traição da vasta comunidade ucraniana residente no Brasil. Com cerca de 600 mil descendentes concentrados majoritariamente no Paraná, nosso país abriga uma das maiores diásporas ucranianas do mundo. Para esses cidadãos, a postura servil de Brasília diante de Moscou é uma ofensa direta às suas origens e ao sofrimento de seus familiares que enfrentam bombardeios e atrocidades. A dor dessa comunidade é amplificada ao ver o governo anfitrião confraternizar com representantes de um regime cujo líder é alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, incluindo a deportação ilegal de milhares de suas crianças.

Nesse contexto, preparar fóruns empresariais via ApexBrasil para incentivar negócios com uma economia sob sanções é um movimento que beira a imprudência. Ao tentar “normalizar” essas relações, o Brasil arrisca sofrer sanções secundárias e afasta investimentos de democracias liberais, sabotando sua inserção nos mercados globais mais dinâmicos. A insistência em acolher autoridades russas sancionadas, exatamente quando se busca a ratificação do acordo europeu, é um erro de cálculo sem precedentes. Ao ignorar o peso moral de se relacionar com um governo acusado de massacres em Bucha e Mariupol, o Brasil abdica de sua liderança moral. Ser diplomático não exige conivência com práticas que violam o Estatuto de Roma e os princípios básicos dos Direitos Humanos.

A hospitalidade oferecida a oficiais russos soa como um endosso tácito ao autoritarismo e corrói o capital político construído ao longo de décadas como um mediador confiável. Substituir essa trajetória por uma “neutralidade” que, na prática, favorece o agressor, é um retrocesso que ignora a voz da nossa própria população. O Brasil possui estatura suficiente para manter canais de comunicação abertos sem que isso implique apoio a um regime que viola a ordem internacional. É imperativo que a política externa passe por uma recalibragem urgente, compreendendo que nosso futuro está ligado à solidez das democracias liberais e ao respeito à integridade territorial dos Estados. O “custo Rússia” é hoje muito superior a qualquer benefício material. É hora de o Brasil escolher: ou permanece firme ao lado do Direito Internacional, ou continua sua deriva em direção a um isolamento e a uma desonra diplomática sem volta.

Banco Master e BRB: o escândalo que colocou o Distrito Federal no centro da crise

O escândalo envolvendo o Banco Master já se consolidou como um dos episódios mais graves e simbólicos da recente história do sistema financeiro brasileiro. O caso extrapola a esfera bancária e alcança dimensões jurídicas, políticas e institucionais profundas, colocando sob suspeita não apenas dirigentes de uma instituição privada, mas também órgãos de controle, figuras do Judiciário, agentes políticos e, de forma especialmente sensível, um banco público estadual: o Banco de Brasília (BRB).

De forma resumida, o Banco Master cresceu rapidamente nos últimos anos oferecendo produtos financeiros com rentabilidade elevada, especialmente CDBs, atraindo investidores pessoas físicas e institucionais. As investigações apontam que parte relevante desses ativos não possuía lastro real, sendo sustentada por operações artificiais, créditos de difícil recuperação e engenharia financeira agressiva, quando não fraudulenta. Diante do colapso de liquidez e das evidências de irregularidades, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, abrindo caminho para uma série de inquéritos administrativos, civis e criminais.

O caso ganhou contornos ainda mais graves quando veio à tona a tentativa de envolvimento do BRB na aquisição de ativos — ou mesmo do controle — do Banco Master. A operação, abortada após alertas técnicos e pressão pública, levantou fortes suspeitas sobre gestão temerária de recursos públicos, possível assunção de prejuízos bilionários e uso político de uma instituição financeira estatal. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar a conduta dos envolvidos, e relatórios preliminares indicam que o risco assumido poderia comprometer a saúde financeira do banco público do Distrito Federal.

No campo jurídico-institucional, o escândalo expôs uma zona cinzenta altamente sensível: surgiram denúncias e questionamentos sobre eventuais conflitos de interesse envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente a partir de relações profissionais e contratuais indiretas com o Banco Master. Ainda que não haja, até o momento, condenações ou decisões definitivas, o simples fato de tais suspeitas recaírem sobre a mais alta Corte do país já produz um dano institucional relevante. A percepção pública de seletividade, blindagem ou leniência mina a confiança no Judiciário e reforça a sensação de que há um sistema de proteção para os poderosos.

No Congresso Nacional, o caso rapidamente se tornou objeto de disputa política. Há pedidos de CPI para investigar o Banco Master e suas conexões políticas. Ao mesmo tempo, movimentos claros para esvaziar ou retardar essas investigações revelam o desconforto de setores do poder com a possibilidade de que o escândalo avance sobre figuras influentes. A resistência à transparência, nesse contexto, acaba sendo quase tão grave quanto os fatos investigados, pois sugere que o sistema político ainda reage mais à autopreservação do que ao interesse público.

Do ponto de vista econômico, os impactos são igualmente preocupantes. A liquidação do Banco Master traz riscos concretos ao Fundo Garantidor de Créditos, que pode ser chamado a cobrir bilhões de reais, socializando prejuízos gerados por má gestão e possíveis fraudes privadas. Além disso, o episódio tende a elevar a percepção de risco no sistema financeiro, encarecer o crédito e aumentar a pressão regulatória sobre bancos médios, com efeitos indiretos sobre a economia real.

No Distrito Federal, porém, o caso assume uma gravidade ainda maior. O BRB não é apenas mais um banco: trata-se de uma instituição estratégica, vinculada ao governo local, responsável por financiar políticas públicas, investimentos e projetos estruturantes. Qualquer dano à sua credibilidade ou solidez afeta diretamente a economia do DF, a confiança dos investidores e a própria capacidade do governo local de executar políticas públicas. Politicamente, o escândalo já começa a reverberar no debate eleitoral, servindo como munição para embates entre grupos e como símbolo de uma gestão que, para muitos, teria flertado perigosamente com a irresponsabilidade.

Em ano pré-eleitoral, o envolvimento do BRB no caso Master tende a ser explorado de forma intensa no debate público do Distrito Federal. A oposição encontra um argumento poderoso para questionar governança, transparência e responsabilidade fiscal, enquanto a situação se vê obrigada a explicar decisões técnicas que, à luz dos fatos, parecem no mínimo imprudentes. O risco é que o debate se reduza a narrativas políticas, quando o que se exige é uma apuração rigorosa, técnica e independente.

O escândalo do Banco Master não é apenas um caso de polícia ou de mercado. Ele é um teste para as instituições brasileiras. Teste para o sistema financeiro, para o Banco Central, para o Congresso, para o Judiciário e, no caso do Distrito Federal, para a gestão de um banco público que deveria ser exemplo de prudência. A forma como esse episódio será esclarecido — ou abafado — dirá muito sobre o grau de maturidade institucional do país e sobre quem, de fato, paga a conta quando grandes erros são cometidos nos andares de cima.

STF: do “inquérito do fim do mundo” ao escândalo Master-Vorcaro

O Supremo Tribunal Federal (STF), instância mais alta do Judiciário, tem avançado sobre os outros poderes da República, impondo-se, para além das suas atribuições constitucionais, como poder moderador e amedrontador.

Essa marcha autoritária do STF vem desde o famigerado “inquérito das fake news”, aberto de ofício (sem pedido da PGR ou da Polícia Federal), em 2019, pelo então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, que designou (sem sorteio) o ministro Alexandre de Moraes como relator.

Na ocasião, o ministro Marco Aurélio Mello (hoje aposentado) manifestou sua posição contrária ao referido inquérito. Em 2020, na sessão plenária que analisava a constitucionalidade do inquérito, ele afirmou que se tratava de “um inquérito natimorto”, “uma afronta ao sistema acusatório do Brasil” e o apelidou de “inquérito do fim do mundo”.

Ele criticou duramente o fato de o STF instaurar e conduzir a apuração de ofício (sem provocação do Ministério Público), com o próprio tribunal (vítima dos supostos ataques) atuando como investigador, acusador e julgador, violando assim o sistema acusatório adotado pela Constituição Federal de 1988, que separa as funções de acusar (MP) e julgar (Poder Judiciário). O plenário do STF, porém, validou a investigação por 10 votos a 1, sendo Marco Aurélio o único divergente.

Sob o talante do ministro Alexandre de Moraes, graves e constantes decisões de alcance geral decididas no âmbito deste “inquérito do fim do mundo” foram elaboradas politicamente, usando-se a técnica jurídica como enfeite e disfarce.

O inquérito tramita sob sigilo em grande parte, já foi prorrogado várias vezes (ainda em andamento em 2026, completando mais de 6 anos) e serviu de base para medidas como bloqueios de contas em redes sociais, buscas, prisões e quebras de sigilo.

Agora, neste início de 2026, os autoritários ministros do STF estão sob ameaça de serem engolfados pelos eventos de irregularidades e corrupção que levaram à liquidação do Banco Master e à prisão do seu dono Daniel Vorcaro.

Trata-se de uma das maiores fraudes no sistema financeiro brasileiro recente (cerca R$12 bilhões). É basicamente um escândalo que mistura finanças, política e poder em Brasília e na Faria Lima, uma espécie de “escândalo do fim do mundo”.

Até o momento, pelo que o STF permitiu que a Polícia Federal investigasse e que a imprensa investigativa divulgou, estão envolvidos agentes de todos os poderes da República; inclusive ministros do STF.

As revelações expõem uma teia de relações entre o banco e o Judiciário. As suspeitas envolvem principalmente Dias Toffoli (relator), Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski (ex-ministro, mas ligado ao caso).

Toffoli assumiu a relatoria do caso em 1º de dezembro de 2025 e tem sido criticado por decisões monocráticas e sigilosas, como centralizar a investigação no STF, restringir acesso às provas e designar peritos da PF nominalmente, procedimentos vistos como incomuns e que geram desconfiança. Além disso, houve o caso da carona em avião particular com um advogado do Master em 2025, que deixou exposta a proximidade com os interesses do banco.

Sobre o ministro Alexandre de Moraes a suspeição de envolvimento com as traficâncias Master-Vorcaro vem do contrato feito pelo Banco Master com o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes, esposa do ministro. Contrato esse de R$129 milhões por 3 anos de serviço, valor desproporcional ao valor usual de mercado.

Também veio à tona que o escritório de advocacia do ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, recebeu R$ 5 milhões do Banco Master por serviços de consultoria jurídica em 2025. Essa consultoria é vista como parte da rede de influência de Vorcaro no alto escalão, levantando suspeitas de lobby ou favorecimento. Essa e outras informações trazem também o governo Lula para dentro do escândalo.  

Lewandowski fora recomendado ao Banco Master pelo petista histórico Jaques Wagner, líder do governo no Senado. E aí já se mostra o avanço dos tentáculos do polvo Master-Vorcaro no poder legislativo. Alguns comentaristas chegam a garantir até mesmo a existência de uma “bancada do Vorcaro” no Congresso Nacional. Bancada até recentemente bastante ativa, e no momento bastante apavorada, fazendo de tudo para proteger o ex-dono do ex-banco; e, assim, seus componentes protegerem-se a si mesmos.

O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido mencionado em reportagens e investigações relacionadas ao caso, principalmente por meio de conexões indiretas ou encontros com Daniel Vorcaro, o dono do banco.

Em dezembro de 2024, Vorcaro teria se reunido com Lula no Palácio do Planalto, sem registro na agenda oficial do presidente. Esse encontro foi intermediado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuava como consultor do Banco Master na época.

Também chamam atenção e geram suspeitas os contratos da Biomm com o Ministério da Saúde: Vorcaro é acionista da Biomm (empresa de biotecnologia) por meio de um fundo de investimento. Em 2025, a Biomm firmou contratos no valor de R$ 303,65 milhões com o Ministério da Saúde para fornecer insulinas ao SUS.

O fato é que esse “escândalo do fim do mundo” cresce a olhos vistos. A opinião pública pressiona e a imprensa faz o seu papel. Devendo-se destacar nesse particular as denúncias provenientes da pertinácia investigativa da jornalista Malu Gaspar. As suas reportagens sobre o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes tiveram enorme repercussão.

Aqui, chamo a atenção para um aspecto particular das reações às denúncias de Malu Gaspar: parte da imprensa de esquerda posicionou-se em modo de desconstrução de tais denúncias e em ataque aberto à corajosa jornalista. No momento, essa imprensa esquerda chapa-branca ataca qualquer agente de mídia que noticie antigos contatos entre Vorcaro e o governo do PT.

No entanto, já se confirmou que Daniel Vorcaro e diretores do Banco Master tiveram pelo menos quatro encontros com o presidente Lula no Palácio do Planalto; não se sabendo, entretanto, se, em tais encontros, as conversas foram sórdidas ou honestas. O ministro Fernando Haddad e a ministra Gleisi Hoffmann, ao confirmarem alguns desses encontros, afirmam que foram legítimos e republicanos. Acredite quem quiser.

A Fratura Atlântica e a Nova Geometria do Comércio Global

A ordem atlântica pós-1945 não terminou com um lamento, mas com a tomada de território e um sequestro. Em apenas duas semanas, em janeiro de 2026, o presidente Donald Trump desmantelou efetivamente a arquitetura de segurança e econômica do Ocidente. O anúncio neste fim de semana de tarifas punitivas contra oito nações europeias — supostamente por sua recusa em concordar com a venda da Groenlândia — destruiu a ilusão de que a União Europeia poderia “esperar” ou “gerenciar” o segundo governo Trump.

Poucos dias depois de as forças americanas lançarem a “Operação Resolução Absoluta” para capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, a declaração das tarifas forçou Bruxelas a uma constatação que havia sido adiada por lisonjas e paciência estratégica: os Estados Unidos não são mais um parceiro, mas um hegemônico imprevisível que age por impulso. A vítima imediata é a aliança transatlântica; o resultado a longo prazo pode ser um realinhamento do Sul Global e da Ásia que deixará Washington isolada em seu próprio hemisfério.

O Fim da Diplomacia “Taco”

Durante o último ano, os mercados europeus operaram sob a reconfortante teoria do “Taco” — “Trump Always Chickens Out” (Trump sempre recua). Acreditava-se que as ameaças do presidente americano eram piores do que suas ações, como evidenciado pelo acordo comercial diluído assinado em julho de 2025 em Turnberry. Essa complacência evaporou no sábado.

As novas tarifas — 10% a partir de 1º de fevereiro, subindo para 25% em junho — visam os principais motores econômicos da UE (Alemanha, França, Holanda) e seus parceiros de segurança mais próximos (Reino Unido, Noruega). Ao vincular explicitamente as sanções comerciais a uma disputa territorial soberana sobre a Groenlândia, Trump cruzou uma linha vermelha. Ele está usando o mercado americano como arma não para alavancagem econômica, mas para expansão territorial.

A resposta da UE mudou da conciliação para o confronto. O “Instrumento Anti-Coerção” — a “bazuca” comercial de Bruxelas, originalmente projetada para a China — está sendo preparado para Washington. Se ativado, congelará o acesso dos EUA aos mercados europeus de compras públicas e propriedade intelectual, uma medida que seria impensável há dois anos. A tragédia para os atlantistas europeus é que essa guerra comercial mata efetivamente a trégua de julho de 2025, deixando as indústrias do continente expostas justamente quando as “Tarifas Recíprocas” dos EUA (variando de 20% a 50%) começam a surtir efeito. A Tábua de Salvação do Mercosul: Um Escudo Geopolítico

Não é coincidência que, enquanto a ponte transatlântica se desfazia, outra estava sendo construída em Assunção. A assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul em 17 de janeiro — após 25 anos de negociações tortuosas — é a resposta direta à volatilidade americana.

Historicamente, esse acordo foi paralisado pelo protecionismo agrícola francês e por preocupações ambientais. Sua finalização repentina foi impulsionada por uma necessidade geopolítica urgente. Com o mercado americano se fechando e a China utilizando os metais raros como arma (como visto no “Segundo Choque da China” de 2025), a Europa enfrentava a asfixia econômica. O acordo com o Mercosul, que cria um mercado de 700 milhões de pessoas, é agora o pulmão de emergência da Europa.

Para a América Latina, o acordo é igualmente vital. A região ainda se recupera do choque da intervenção americana na Venezuela. A imagem das forças americanas bombardeando Caracas e transportando um chefe de Estado para Nova York reviveu as memórias mais sombrias da Operação Condor e do imperialismo do século XX. O apelo do presidente brasileiro Lula por “coragem política” não foi apenas retórica; foi um pedido por uma alternativa estratégica à dominação americana. Ao assinar com a Europa, as nações do Mercosul sinalizam que não serão estados vassalos em uma nova era da Doutrina Monroe.

Venezuela e a Consolidação dos BRICS

O ataque da “Operação Resolução Absoluta” contra a Venezuela fez mais para unificar o bloco BRICS do que uma década de cúpulas. Enquanto Washington enquadrou a captura de Maduro como um triunfo no combate ao narcotráfico, o Sul Global a vê como uma violação da soberania que poderia acontecer com qualquer um deles.

Essa ansiedade está impulsionando uma rápida consolidação dos BRICS como uma fortaleza econômica defensiva. O ataque justifica a busca do bloco pela desdolarização; nenhum país quer ter suas reservas detidas por uma nação que pode bombardear sua capital e prender seus líderes. Para o resto da América Latina, particularmente México e Colômbia, a mensagem é assustadora. Podemos esperar uma mudança drástica em 2026: as capitais latino-americanas provavelmente aprofundarão os laços de segurança e inteligência com a China e a Rússia, não por afinidade ideológica, mas como uma apólice de seguro contra uma Washington imprevisível.

O Paradoxo Asiático: Japão e China no Mesmo Barco

Talvez a maior ironia da agenda de “Tarifas Recíprocas” de Trump seja que ela colocou o Japão e a China no mesmo barco. A tabela de tarifas dos EUA — impondo 60% à China e cerca de 32% ao Japão — trata aliados e adversários com hostilidade quase indistinguível.

O Japão, tradicionalmente o porta-aviões inafundável dos EUA no Pacífico, encontra-se economicamente isolado. Tóquio está agora na posição impossível de depender dos EUA para sua segurança contra a China, enquanto é atingida pela política econômica americana. Isso pode forçar o Japão a uma distensão mais discreta e pragmática com Pequim e a uma busca mais agressiva por comércio com a Europa e a América Latina.

Para a China, a cisão entre EUA e UE é um presente estratégico. Apesar da retórica de “redução de riscos” da UE e das fricções sobre as exportações chinesas de veículos elétricos, a pura necessidade de sobrevivência pode forçar Bruxelas e Pequim a um casamento de conveniência. Se o mercado americano estiver fechado, a Europa precisa de compradores chineses e da tecnologia chinesa de energia solar/baterias para sobreviver à transição energética.

Conclusão: O Mundo Fragmentado

Os eventos de janeiro de 2026 marcam o fim definitivo do bloco “ocidental” como uma entidade econômica unificada. Estamos testemunhando o surgimento de um mundo de três blocos:

Fortaleza América: Isolada, protecionista e cada vez mais militarista em seu próprio hemisfério. A Deriva Euro-Atlântica: Uma Europa confusa tentando se equilibrar entre um EUA hostil, um Mercosul necessário e uma China inevitável.

O Sul Global (BRICS+): Agora munido do capital moral e político para rejeitar a hegemonia dos EUA após a intervenção na Venezuela.

A guerra comercial pela Groenlândia não se trata apenas de peixe ou gelo: é a rachadura final nos alicerces da aliança que venceu a Guerra Fria. A Europa percebeu que, no mundo de 2026, está, na prática, sozinha.

AKA GATE: https://sites.google.com/view/aka-gate/home?authuser=0

Domínio Mineral Chinês

A recente aquisição de subsidiárias da canadense Equinox Gold pela gigante CMOC, em uma transação de US$ 1 bilhão, não é apenas um movimento de mercado, é um marco geoeconômico. Ao assumir o controle das minas de Aurizona (MA), Riacho dos Machados (MG), Fazenda e Santa Luz (BA), a estatal chinesa não apenas expande seu faturamento — que atingiu R$ 5,6 bilhões em 2025 —, mas verticaliza seu domínio sobre recursos que são, em última análise, ativos estratégicos da soberania brasileira.

A CMOC consolidou-se no Brasil operando nióbio e fertilizantes desde 2016. Ao absorver o ouro da Equinox, a empresa diversifica seu portfólio em um momento de valorização histórica do metal. Contudo, o ponto nevrálgico é a internalização das etapas produtivas. Ao controlar a extração em solo nacional e a comercialização global via sua trading, a IXM, Pequim consolida seu domínio sobre as etapas da cadeia produtiva. Para o Brasil, resta a exportação de baixo valor agregado e o recebimento de royalties, enquanto a inteligência estratégica sobre o destino desses minerais é transferida para a China.

O interesse chinês é cirúrgico. O ouro tornou-se o refúgio supremo diante da instabilidade entre os blocos ocidentais e asiáticos em 2026. Todavia, o verdadeiro foco geopolítico reside nos minerais críticos. O Brasil detém cerca de 90% das reservas mundiais de nióbio, material indispensável para ligas de aço de alta resistência e supercondutores. A vulnerabilidade reside em permitir que o controle desses ativos — onde o país possui um monopólio geológico — seja concentrado em um único ator estatal estrangeiro, sem que haja contrapartidas em transferência tecnológica ou agregação de valor em solo nacional.

O cerne do problema é a profunda assimetria regulatória. Enquanto EUA, Austrália e a própria China endureceram legislações para monitorar investimentos estrangeiros em setores estratégicos, o Brasil carece de um mecanismo de triagem (screening) institucionalizado. Sem um equivalente ao CFIUS norte-americano, o Estado vê-se desprovido de base legal para avaliar se a transferência de ativos compromete a autonomia futura. Opera-se sob uma lógica comercial de curto prazo, negligenciando que a soberania hoje é exercida pelo controle das cadeias de suprimentos. Em essência: O Brasil está vulnerável.

A hegemonia chinesa reside no processamento químico, onde domina 90% da capacidade global de refino. Possuir reservas abundantes é inútil se a tecnologia de separação reside além-mar. Se o Brasil não exigir o refino doméstico, continuará a ser um exportador de solo e um importador de futuro, fornecendo ingredientes para uma revolução tecnológica da qual não é convidado a participar.

A criação de um marco legal de investimentos estratégicos deixou de ser uma opção burocrática para tornar-se uma imperatividade de sobrevivência. O Brasil precisa compreender que, no xadrez de 2026, nem todo dólar possui o mesmo peso. Instituir filtros não significa repelir capital, mas exercer a prerrogativa de um Estado soberano que protege sua inteligência e seus recursos estratégicos inalienáveis. 

Por que a ativista libertária Gloria Álvarez incomoda tanto os autoritários e extremistas?

O livro Como defender a liberdade sem se destruir no processo, de Gloria Álvarez, lançado no Brasil neste mês de janeiro, parte de uma constatação incômoda: defender a liberdade tem um custo humano real e fingir que esse custo não existe é uma forma sofisticada de autoengano. A obra não promete heroísmo, nem redenção política, nem pertencimento confortável. Ela descreve, com franqueza rara, o desgaste psicológico, social e moral de quem escolhe sustentar ideias sem se ajoelhar a um político específico e sem transformar convicção em seita.

A autora é uma das vozes mais corajosas na defesa da liberdade de expressão, Gloria Álvarez, cientista política guatemalteca. Formada em Relações Internacionais e Ciência Política pela Universidade Francisco Marroquín, com pós-graduações em Política e Economia pela Universidade de Georgetown e mestrados em Antropologia Aplicada e Desenvolvimento Internacional, Gloria ganhou projeção internacional após um discurso viral contra o populismo de esquerda em 2014, no Parlamento Ibero-Americano da Juventude. Desde então, construiu uma trajetória marcada pela crítica consistente a projetos autoritários de esquerda e de direita, pela defesa do liberalismo clássico e por uma recusa sistemática a servir como adereço intelectual de qualquer liderança.

O livro chega ao Brasil com tradução do LOLA, organização liberal da sociedade civil que também promoveu o evento de lançamento em São Paulo com a própria autora. Tive a honra de escrever a quarta capa.

Em um ambiente político viciado em rótulos, a obra se destaca por fazer algo que incomoda profundamente extremistas de todos os campos: desloca o debate do plano moralista para o plano humano. Gloria não escreve para provar superioridade ideológica. Escreve para expor mecanismos de captura emocional que transformam pessoas comuns em militantes exaustos, ressentidos e dependentes de aprovação.

Um dos méritos centrais do livro de Gloria Álvarez é tratar o ativismo como experiência subjetiva, e não como performance pública. “Ninguém me avisou que defender a liberdade significaria perder amigos, ser reduzida a caricaturas e carregar uma vigilância constante sobre cada palavra dita. Ninguém me avisou que a solidão não viria como exceção, mas como rotina.”, diz um trecho do livro que desmonta a fantasia do engajamento como gesto épico e revela o que costuma ser escondido por slogans.

Em outro momento, a autora vai ainda mais fundo ao descrever a relação entre redes sociais, identidade e exaustão emocional: “Quando sua opinião vira sua identidade, qualquer discordância soa como ataque pessoal. É assim que as pessoas se tornam prisioneiras da própria causa. Elas não defendem ideias, defendem a si mesmas de um colapso interno.” O alvo não é apenas o autoritarismo explícito, mas a estrutura psicológica que o sustenta.

É por isso que Gloria Álvarez incomoda tanto. Autoritários precisam de fiéis, não de indivíduos capazes de sustentar ambiguidade, dúvida e custo pessoal. Extremistas precisam de adesão total, não de gente que reconhece fragilidades internas e se recusa a terceirizar a própria consciência. O livro desmonta a lógica da pureza política e expõe a autoindulgência embutida na adesão a grupos que oferecem pertencimento em troca de obediência.

A tecnologia aparece como personagem central dessa engrenagem. A autora descreve uma geração que cresceu confundindo viralização com verdade, alcance com legitimidade e repetição com consenso. Em um trecho especialmente incisivo, Gloria Álvarez afirma: “A mesma máquina que promete dar voz a todos permite que regimes autoritários e interesses escusos comprem relevância, fabriquem indignação e criem a ilusão de maioria. O problema não é só o poder, é a disposição das pessoas em entregar o próprio julgamento.” A crítica não se limita a governos. Ela inclui influenciadores, algoritmos e o público que consome tudo isso sem resistência.

Esse ponto torna a obra particularmente relevante para jovens que já nasceram na era digital. Ao contrário de livros que romantizam o engajamento, Como defender a liberdade sem se destruir no processo funciona como um aviso. A defesa da liberdade exige maturidade emocional, capacidade de frustração e disposição para ficar sem aplauso. Exige aceitar que nem toda batalha rende curtidas e que nem toda convicção vira tendência. Exige, sobretudo, resistir à tentação de transformar política em anestesia pessoal.

No fundo, o livro de Gloria Álvarez propõe uma libertação que vai além da esfera institucional. Ele sugere que a verdadeira prisão não está apenas no Estado inchado ou no líder autoritário, mas na necessidade psicológica de pertencer a qualquer custo. Aderir a um grupo, muitas vezes, é uma forma confortável de não olhar feridas internas, de não lidar com inseguranças e de não assumir responsabilidade pela própria vida.

Ao recusar o papel de mascote ideológico e ao expor o preço humano do ativismo, Gloria Álvarez não oferece consolo. Oferece lucidez. E é exatamente isso que a torna tão incômoda. Para autoritários porque desmonta o mecanismo de controle e para extremistas porque retira a fantasia da superioridade moral. Já para quem preserva a humanidade e lucidez, oferece algo muito precioso, a possibilidade rara mas efetiva de defender a liberdade sem se destruir no processo.

A suprema corte dos aiatolás?

Saindo em defesa corporativa do comportamento inadmissível de Dias Toffoli, Luiz Fachin, presidente do STF, escreveu em nota oficial da corte:


“É preciso afirmar com clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito. O Supremo age por mandato constitucional, e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel. Defender o STF é defender as regras do jogo democrático e evitar que a força bruta substitua o direito. A crítica é legítima e mesmo necessária. Não obstante, a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder; e o STF não permitirá que isso aconteça. O Supremo fez muito no Brasil em defesa do Estado de direito democrático; fará ainda mais. Sim, todas as instituições podem e devem ser aperfeiçoadas, isso sempre, mas jamais destruídas. Quem almeja substituir a ousada pedagogia da prudência pelo irresponsável primitivismo da pancada errou de endereço”.

O que ele está dizendo, em outras palavras, é que qualquer crítica das demais instituições da democracia (membros de outros poderes, imprensa etc.) a um membro da corte é um ataque à democracia. Isso seria, segundo Fachin, uma tentativa de, nada menos, destruir a suprema corte. Ou seja, na prática, está comparando as passadas investidas golpistas contra o STF, por parte de Bolsonaro e dos bolsonaristas, com as opiniões da cidadania brasileira numa época em que o ex-presidente está preso e não há sinal de nenhum movimento de ruptura ou de ameaça às instituições. Assim, os que não concordam com os desmandos de membros da corte seriam todos golpistas. Ou seja, Fachin e seus pares estão perfeitamente alinhados ao governo Lula e ao PT. Os que não concordam com eles são inimigos da democracia.

Fica-se na dúvida de se o STF sabe realmente o que está fazendo? Ao dizer que qualquer crítica ao comportamento flagrantemente irregular de certos membros da corte é um ataque à democracia está transformando o tribunal em uma instância soberana no sentido absolutista do termo. Isso, sim, é um ataque à democracia.

Numa democracia só a lei, democraticamente aprovada, é soberana, não as instituições – e muito menos seus membros – encarregadas de aprová-la, aplicá-la ou interpretá-la.

O STF não pode ser uma espécie de “partido dos clérigos”, acima da lei e subordinado apenas à sharia dos seus intérpretes. Seus membros são servidores públicos, não aiatolás. Ou são?

Segundo a fatwa de Luiz Fachin, a Malu Gaspar, o Sam Pancher e o Metropoles, o Estadão e a Folha, o Walter Maierovitch e uma multidão de juristas, “tentam destruir as instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder”. São, todos, portanto, golpistas contra a democracia.

Uma fatwa é uma decisão jurídica emitida por um mufti (ou um membro do STF) em resposta a uma questão sobre a sharia (ou seja, sobre sua privativa interpretação da lei).

O Regime Vazio: O Colapso do Irã à Sombra da Operação Martelo da Meia-Noite

A República Islâmica do Irã está seriamente ameaçada. Sete meses após a Operação Martelo da Meia-Noite — a devastadora campanha aérea dos EUA em junho de 2025 que, segundo relatos, “aniquilou” as capacidades de enriquecimento nuclear do Irã — o regime em Teerã perdeu sua última garantia e sua legitimidade interna. Privado da “carta nuclear” e economicamente arruinado pelas consequências da guerra de 12 dias com Israel, a liderança enfrenta uma revolta revolucionária que já deixou mais de 2.000 mortos. Com o presidente Trump agora prometendo que “a ajuda está a caminho” e ameaçando uma nova onda de intervenções militares ou econômicas, o Oriente Médio se prepara para o ato final de um drama que começou com a destruição dos bunkers no verão passado.

O Legado de Junho de 2025: Um Escudo Quebrado
A crise atual não pode ser compreendida sem o contexto de 22 de junho de 2025. Naquela noite, sete bombardeiros B-2 Spirit dos EUA lançaram quatorze bombas GBU-57 Massive Ordnance Penetrators (MOPs) sobre as usinas de enriquecimento de Fordow e Natanz.1

O Déficit Estratégico: O Pentágono avaliou que os ataques atrasaram o programa nuclear do Irã em pelo menos dois anos.2 Essa perda da “capacidade de ruptura” privou Teerã de sua principal alavanca contra o Ocidente. Diferentemente de 2024, o Irã não pode ameaçar “correr para a bomba” para dissuadir uma intervenção; está vulnerável diante de seus inimigos.

Consequências Econômicas: A guerra precipitou um colapso do rial, que perdeu 84% de seu valor em relação ao ano anterior. A destruição da infraestrutura e o choque psicológico dos ataques dos EUA catalisaram a fuga de capitais e a hiperinflação que desencadearam os protestos de dezembro de 2025.

A Nova Ameaça: Mudança de Regime, Não a Não Proliferação
Como a ameaça nuclear foi amplamente neutralizada em 2025, a postura atual dos EUA mudou da contenção para o que parece cada vez mais com a decapitação do regime.

Alvo da “Frota Fantasma”:*Com as instalações nucleares em ruínas, o novo alvo dos EUA é o bolso do Irã. O governo Trump está caçando agressivamente a “armada fantasma” de petroleiros que transportam petróleo para a China. Ao sufocar a receita que financia a repressão doméstica da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), Washington visa falir a máquina de repressão.

Hezbollah em Estado Crítico: Os ataques da Operação Martelo da Meia-Noite e as sanções subsequentes cortaram as artérias financeiras do Hezbollah. Privado do dinheiro iraniano (que muitas vezes era lavado através da frota paralela agora sancionada), a capacidade do grupo de ameaçar Israel diminuiu, reduzindo o risco de uma guerra em duas frentes caso os EUA intervenham novamente no Irã.

A Armadilha de Ormuz: A Última Carta
Um Irã enfraquecido e sem armas nucleares tem apenas uma carta na manga: o Estreito de Ormuz.

Jogada Desesperada: Em junho de 2025, o Irã não conseguiu fechar o estreito, apesar das ameaças. Agora, diante de um colapso existencial, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) pode calcular que minar o estreito é a única maneira de forçar o mundo a salvar o regime. Isso seria uma jogada suicida, convidando a uma resposta naval dos EUA muito maior do que os ataques aéreos de 2025.

Postura das Bases Armadas dos EUA: As bases americanas em Al Udeid (Catar) e na Base de Segurança Nacional do Bahrein, que apoiaram a operação de 2025, permanecem em alerta máximo. No entanto, sua vulnerabilidade a enxames de mísseis convencionais continua sendo o principal fator de dissuasão contra uma invasão americana em grande escala.

Consequências geopolíticas: Um vácuo na Eurásia
A potencial queda da República Islâmica cria um vácuo que aterrorizou Pequim e Moscou.

O duplo desastre da China: Tendo perdido o acesso ao petróleo venezuelano após a operação dos EUA em Caracas no início deste mês, a China agora enfrenta a perda do fornecimento iraniano (1,5 milhão de barris/dia). O fracasso da arquitetura de segurança do BRICS em proteger dois membros-chave em um mês expõe a incapacidade do bloco de projetar poder militar.

O isolamento da Rússia: O Irã era o pulmão logístico da Rússia. Se um governo interino pró-Ocidente ou caótico substituir os aiatolás, o “Corredor de Transporte Norte-Sul” se fechará, deixando a Rússia completamente cercada.

Conclusão: O Oriente Médio pós-nuclear
A operação “Martelo da Meia-Noite” de 2025 provou que instalações nucleares podem ser destruídas. A crise de 2026 determinará se o regime que as construiu conseguirá sobreviver às consequências. Para o mundo, o perigo passou de uma explosão nuclear para o colapso caótico e sangrento de uma potência hegemônica regional — um colapso que os EUA parecem prontos para acelerar, independentemente do custo.

Rota da Seda Tropical

O terceiro Policy Paper da China para a América Latina e o Caribe transcende o roteiro diplomático convencional: é um manifesto de poder suave que visa integrar a região a uma órbita econômica e política centrada em Pequim. Sob a retórica de uma “comunidade de destino compartilhado”, apresenta-se uma alternativa pragmática às ingerências ocidentais. Contudo, sob a superfície de uma cooperação técnica aparentemente neutra, desenha-se uma estratégia para expandir a hegemonia chinesa, tornando os países latino-americanos dependentes de sua economia e, por extensão, subalternos politicamente.

A arquitetura dessa dependência revela-se na discrepância entre o discurso e a prática. Embora a Nova Rota da Seda prometa industrialização, os dados de investimento entre 2024 e 2026 demonstram uma concentração maciça em setores extrativos e infraestruturas críticas. O foco no controle da cadeia de suprimentos de minerais estratégicos — como o lítio no Cone Sul — e na consolidação de redes elétricas no Brasil e Peru indica que Pequim busca, primordialmente, sua própria segurança energética, mantendo a América Latina como fornecedora de insumos primários sob uma nova roupagem tecnológica.

O risco à soberania nacional é nítido no “aprisionamento tecnológico”. Ao exportar ecossistemas de governança digital através de padrões chineses de 5G, inteligência artificial e o sistema de satélites BeiDou, Pequim cria uma dependência estrutural de longo prazo. Politicamente, o apoio econômico atua como um freio à autonomia diplomática, condicionando investimentos ao rigoroso cumprimento do “Princípio de Uma Só China” (ferindo a autonomia de Taiwan) e ao alinhamento com as Iniciativas de Segurança Global. Paralelamente, a dependência financeira é reforçada por acordos de swap cambial e liquidação em Renminbi, que ancoram as reservas locais às políticas monetárias chinesas, configurando uma nova forma de vassalagem econômica.

Para evitar a passividade, os governos latino-americanos devem adotar diretrizes de negociação soberanas. É imperativo exigir transferência efetiva de tecnologia e transparência radical nos contratos, evitando o uso de recursos naturais como garantia de dívida. Além disso, a negociação deve ser coletiva, pois o fortalecimento de blocos regionais e frentes temáticas permitiria que a região negociasse a partir de uma posição de força, mantendo a diversidade de parceiros globais e utilizando a competição geopolítica em seu favor. Por fim, a aprovação de projetos que instituam autoridades de avaliação de investimento estrangeiro (já em tramitação no parlamento brasileiro) seria uma ação estratégica essencial neste cenário.

Em última análise, o documento chinês é a certidão de nascimento de uma nova ordem hegemônica nos trópicos. A América Latina não pode se dar ao luxo de trocar antigas tutelas por uma dependência tecnológica e financeira irreversível. O “destino compartilhado” só deixará de ser um eufemismo para a subalternidade se a região despertar para a necessidade de uma soberania ativa e coordenada. A escolha é inadiável: ou a América Latina se posiciona como um bloco estratégico e autônomo, ou será reduzida a um mero insumo nas ambições imperiais da China para o século XXI.

Não adianta mostrar o vídeo: eles dirão que não prova nada

Um estudo recente chega a uma conclusão desconfortável para a era da superexposição visual: provar com vídeo não funciona. Ao contrário do que se imagina, imagens não encerram disputas nem produzem consenso. Elas tendem a reforçar crenças prévias e a tornar posições ainda mais rígidas. Diante do mesmo registro visual, grupos diferentes não apenas discordam. Eles passam a se sentir mais certos do que já pensavam antes de assistir. A evidência visual não corrige o viés. Em muitos casos, o aprofunda.

Essa conclusão é apresentada em um trabalho publicado pela newsletter acadêmica The Power of Us, assinado por Anni Sternisko, pesquisadora em psicologia social, Dominic Packer, professor de psicologia na Universidade de Lehigh, e Jay Van Bavel, professor da Universidade de Nova York e um dos principais especialistas mundiais em identidade social e polarização. O estudo reúne evidências experimentais e análises de casos reais para mostrar como identidade, pertencimento e lealdade a grupos moldam não apenas a interpretação, mas o próprio ato de ver.

Um dos exemplos centrais analisados é um caso concreto ocorrido nos Estados Unidos, que se transformou em uma grande polêmica nacional. Em Minneapolis, uma jovem mulher foi morta durante uma abordagem do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. O ICE é uma agência federal responsável por fiscalizar imigração e executar deportações, e sua atuação já é, por si só, objeto de forte controvérsia política no país.

A mulher estava sozinha em seu carro, em uma área urbana, quando agentes do ICE tentaram abordá-la. Ao perceber a ação, ela tentou fugir com o veículo. O episódio foi registrado por múltiplas câmeras, incluindo imagens de celulares, de sistemas de vigilância e dos próprios agentes. Houve vídeos de vários ângulos, com áudio, sequência temporal e boa qualidade de imagem. Tudo aquilo que costuma ser exigido quando alguém diz que é preciso “ver o vídeo” antes de formar opinião. O presidente Donald Trump decidiu divulgar oficialmente o vídeo da abordagem policial para encerrar a discussão sobre o tema. O efeito foi exatamente o oposto do esperado.

Autoridades federais afirmaram que a agente agiu em legítima defesa, sustentando que o carro teria sido usado como arma. Outras autoridades, juristas, ativistas e lideranças políticas afirmaram que as imagens não sustentavam essa versão. Celebridades, comentaristas e figuras públicas se posicionaram de forma veemente. Protestos se espalharam. Cada novo vídeo divulgado não reduzia a controvérsia. A intensificava.

Quanto mais imagens surgiam, mais as pessoas se aferravam às convicções que já tinham antes de assistir a qualquer uma delas. Quem desconfiava da atuação do ICE via confirmação de abuso em cada frame. Quem defendia a agência via prova de ameaça em exatamente as mesmas cenas. O vídeo deixou de ser evidência e passou a ser munição. Servia para confirmar identidades, não para esclarecer fatos.

É exatamente esse mecanismo que o estudo descreve. A percepção visual não é neutra. Ela é orientada por expectativas, valores e pertencimento a grupos. Pessoas não assistem a vídeos para descobrir o que aconteceu. Assistem para confirmar quem são e de que lado estão. O cérebro seleciona detalhes, ignora outros e constrói causalidade de acordo com narrativas prévias. A prova visual não dissolve o conflito. Ela se encaixa nele.

Isso ajuda a explicar um paradoxo central do nosso tempo. Nunca houve tantas câmeras, tantos registros, tantos vídeos disponíveis. E nunca foi tão difícil construir uma narrativa comum sobre os fatos. A crença de que “agora está tudo filmado” convive com a incapacidade prática de concordar sobre o que se vê. O vídeo não funciona mais como árbitro da realidade. Funciona como extensão da disputa identitária.

Esse fenômeno não se limita a casos extremos ou a grandes conflitos raciais e institucionais nos Estados Unidos. Ele aparece no cotidiano, em discussões familiares, em brigas de trânsito, em denúncias de abuso, em disputas políticas locais. Alguém mostra um vídeo acreditando que aquilo encerrará a conversa. A resposta quase sempre vem rápida: isso não prova nada, falta contexto, o recorte é enviesado. Não necessariamente por má-fé, mas porque as pessoas realmente não estão vendo a mesma coisa.

O estudo aponta para um limite estrutural da vida contemporânea. Não basta registrar a realidade. É preciso reconhecer que olhamos para ela carregando identidades, medos e compromissos prévios. Enquanto insistirmos na fantasia de que a imagem fala por si, continuaremos frustrados. O conflito não está na falta de provas. Está na dificuldade de admitir que ver não é o mesmo que compreender.