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Márcio Coimbra

Sobre Márcio Coimbra

Márcio Coimbra é Presidente do Instituto Monitor da Democracia. Presidente do Conselho da Fundação da Liberdade Econômica e Coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília. Cientista Político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

Sinais da Direita

O resultado das eleições europeias surge como sinal dos tempos e indica claramente um movimento que vem ganhando força e tração, com potencial para mudar o mapa político do continente no curto prazo. A guinada para a direita é um caminho eleitoral sólido e consistente que deve se estender para os governos nacionais e mudar políticas em temas sensíveis que vão desde a imigração até o sistema de proteção social.

O mais recente recado das urnas europeias tem menor relevância objetiva, uma vez que os eurodeputados têm poderes limitados pelos temas comuns tratados em conjunto pela União. A importância subjetiva do resultado, entretanto, é aquilo que mais afeta a política, algo que começou a tomar força pela renúncia do governo da Bélgica e pela dissolução da Assembleia Nacional da França. Um jogo que agora começará a tomar forma de maneira mais definida.

Existe uma consolidação da centro-direita liberal em termos europeus, porém, também da ascensão de uma direita populista antiliberal em termos nacionais – o ponto mais importante desta guinada. Explico. O bloco comum de centro-direita, chamado de Partido Popular Europeu, é o maior grupamento parlamentar desde 1999. Seguirá nesta posição, agora no comando de 196 assentos. Porém, a mudança que mais importa está sendo gestada mais abaixo.

Estamos falando de um grupo que passará a ter 58 assentos, chamado de Identidade e Democracia, que inclui a Rassemblement National, da França (de Marine Le Pen). Este grupo ganhou quatro assentos nesta eleição e recentemente expulsou o Alternative für Deutschland, que ficou em segundo lugar nesta eleição na Alemanha com 15 vagas no parlamento europeu. Isto significa que se os alemães não tivessem sido expulsos, o Identidade e Democracia teria ganhado 19 assentos, o que significaria o maior crescimento em todos os grupamentos europeus, alcançando 73 deputados e se tornando a quarta força do parlamento. Aqui nosso ponto de inflexão.

Os partidos que fazem ou fizeram parte do Identidade e Democracia tiveram votações retumbantes para o parlamento europeu, o que significa que em breve deverão estar comandando governos de caráter nacionalista, populista, protecionistas e eurocéticos identificados com as versões de direita mais radicais. Isso explica que o bloco pode ainda possuir menor relevância no quadro comunitário europeu, porém, em breve pode estar no comando de vários países ditando sua política e influindo nos destinos do continente.

Atualmente a centro-direita liberal dita os rumos comunitários da Europa, entretanto, o populismo pode avançar pelas entranhas nacionais penetrando no coração do concerto de estabilidade desenhado pelo pós-guerra, colocando em risco sua aliança Atlântica, os valores do Ocidente, aproximando o bloco dos interesses russos. Atualmente esta é a maior preocupação política da região.

Os sinais de uma onda no meio político se espalham com ímpeto e velocidade. Estamos diante de uma tendência, um rumo que vem se cristalizando. A política é uma ciência que mostra constante movimento e seu pêndulo vem tomando aos poucos o rumo de uma direita de corte populista e nacionalista, aquilo que se torna um grande risco para a União Europeia e a estabilidade internacional.

Lições de Pequim

O giro de Geraldo Alckmin pelo Oriente tem como objetivo estreitar o relacionamento com os chineses e sauditas com foco em buscar investimentos estrangeiros para o país.  Ele faz um movimento correto, algo sabidamente necessário para nossa economia, carente de recursos e refém de um déficit de poupança interna que torna praticamente mandatória a busca por investimentos internacionais.

Atualmente 65% de nossas exportações concentraram-se em apenas cinco parceiros comerciais: China, União Europeia, Estados Unidos, Mercosul e Japão. Se considerarmos apenas a China, o percentual é de 29%, tornando o país oriental o principal parceiro comercial do Brasil. Uma realidade que gera ganhos no curto prazo e preocupações no longo, uma vez que a excessiva dependência exportadora para somente um país gera incerteza e insegurança dentro da economia.

Ao contrário do Brasil, a China cerca sua economia de cuidados, diversificando parceiros, sem criar dependência de qualquer nação, algo que protege Pequim de solavancos e crises. Nenhum país possui uma fatia maior do que 9% nas importações chinesas e no tocante ao percentual exportado, o principal parceiro são os americanos, com cerca de 16%, seguidos por Japão e Coreia do Sul com pouco menos de 5%. Uma forma hábil de evitar dependências excessivas, blindando a economia por meio da diversificação.

Para além disso, a China controla também o fluxo de investimento estrangeiro por meio da avaliação criteriosa da origem e objetivos dos recursos que aportam no país. Pequim é uma das nações que possui um sistema de avaliação dos investimentos externos, um mecanismo que se tornou um importante instrumento de defesa contra aquisições de caráter predatório e entrada de capitais sem origem comprovada.

Para além dos investimentos chineses no Brasil, deveríamos nos atentar também sobre os modelos adotados por Pequim para blindar sua economia, instrumentos e atitudes que poderiam ser implementados pelo nosso país. Não há dúvidas que um sistema forte, blindado e confiável tornaria o Brasil ainda mais atrativo para chegada de investimentos de qualidade, evitando a entrada de recursos de origem duvidosa que podem, ao fim e ao cabo, enfraquecer nossa economia e afetar a soberania em setores estratégicos.

A diversificação é outra lição que devemos aprender com os chineses. Evitar qualquer tipo de dependência comercial é um caminho virtuoso que devemos buscar. Para isso devemos diversificar nossa economia e buscar acordos e novos parceiros comerciais que nos deixem menos vulneráveis nas cadeias globais de comércio. Desta forma, qualquer tipo de instabilidade internacional teria menor potencial de atingir nossas exportações. É um caminho inteligente tomado pela China, mas também pelos Estados Unidos, Japão e União Europeia. É provável que além de investimentos, Alckmin retorne do Oriente com impressões e leituras atentas sobre o modelo de verificação na atração de recursos e a necessidade de diversificação para um modelo econômico sadio. Temos muito a aprender com Pequim neste tema. O potencial do Brasil é imenso, porém devemos estar atentos para evitar que nossos ativos em comunicação, dados, energia e transportes se tornem bens vulneráveis em um mundo onde recursos predatórios e capitais sujos circulam em busca de porto seguro.

Verificação Necessária

Existe uma máxima em nossa economia há tempos, uma premissa que faz enorme sentido em nações que possuem forte déficit de poupança interna: o Brasil precisa de investimento externo para alavancar sua economia. Ao mesmo tempo que existe esta necessidade, qualquer país precisa de cautela ao receber o investimento estrangeiro. Esta realidade levou a adoção daquilo que se convencionou chamar de Instrumentos de Avaliação dos Investimentos Externos (IAIE) em várias legislações ao redor do mundo.

O Brasil é uma daquelas nações que ainda não possui em sua legislação qualquer um dos diversos mecanismos de avaliação de investimento estrangeiro, uma falha que precisa rapidamente ser sanada. Nosso país iniciou esta discussão mediante um estudo chamado “Instrumentos de Avaliação dos Investimentos Externos (IAIE) em Diversos Países: Recomendações para o Brasil”, iniciado em 2020 pelo IPEA, que mapeou quinze modelos de diferentes países para análise descritiva de suas estruturas organizacionais.

A partir de suas experiências, o que se observou foram tendências convergentes quanto aos motivos de controle e avaliação do investimento externo, ancorados no conceito de segurança nacional e suas derivações, como no caso português, que estabelece o regime de salvaguarda de ativos estratégicos essenciais para garantir segurança país em serviços fundamentais. O governo pode opor-se a qualquer transação da qual resulte, direta ou indiretamente, a aquisição de controle de terceiros à União Europeia sobre ativos estratégicos nos setores de energia, transportes e comunicações.

Além de Portugal, não são poucas as nações que adotam este mecanismo de verificação. Os exemplos mais conhecidos são África do Sul, Austrália, Canadá, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, Índia, Japão, México, Reino Unido, Rússia e União Europeia, que adota o instrumento em legislação comunitária, criando uma camada dupla de avaliação, uma vez que países membros também adotam o sistema internamente, como Alemanha, Espanha e o caso de Portugal, aqui já mencionado.

O objetivo principal dos instrumentos de avaliação está longe de afastar o investimento estrangeiro. Pelo contrário, o mecanismo serve para que os países que o adotem sejam destino de investimentos de qualidade, com capitais de origem lícita, evitando que recursos sujos, oriundos de corrupção e outros crimes transnacionais sejam lavados na economia, ao mesmo tempo que protege a infraestrutura de recursos predatórios, que podem afetar as soberanias nacionais.

A OCDE vem acompanhando a implementação destes mecanismos, especialmente porque são adotados por seus membros, países desenvolvidos e em desenvolvimento, grandes exportadores e importadores de capital externo. Se no início o foco destas legislações era controlar o investimento nos setores militar e de defesa, hoje o foco se ampliou para o setor de energia, transporte, telecomunicações, abastecimento de água, recursos minerais e especialmente acesso de investidores estrangeiros a dados confidenciais de cidadãos nacionais.

Diante das novas tecnologias e dos investimentos predatórios que circulam pelo mundo, já é momento de nosso Congresso Nacional se debruçar sobre este tema, observar as experiências externas e introduzir em nossa legislação mecanismos que deixem o Brasil menos vulnerável e nossa economia e cidadãos mais protegidos.

Teocracia Política

A morte de Ebrahim Raisi está muito além de ser apenas a perda do Presidente do Irã. Raisi, além de presidir a teocracia iraniana, era o principal candidato a sucessor de Líder Supremo do país, posição ocupada por Ali Khamenei desde 1989. Tudo se torna ainda mais turvo diante do jogo de intrigas na alta cúpula do país porque o outro nome cotado para a sucessão de Khamenei é justamente seu filho, Mojtaba Khamenei.

O Irã é uma teocracia islâmica republicana, longe de ser uma monarquia, aquilo que poderíamos inferir diante da possível escolha de um descendente direto para a sucessão de Líder Supremo. Diante do falecimento de Ebrahim Raisi, o jogo da sucessão toma um novo contorno, uma vez que a presidência do país pode servir de plataforma para um clérigo ser alçado a Líder Supremo. Foi o caso do atual, Ali Khamenei, Presidente quando do falecimento do primeiro Líder Supremo do país, Ruhollah Khomeini em 1989.

Porém, para Mojtaba Khamenei suceder Ali Khamenei, é preciso passar pela Assembleia de Peritos, composto por 88 clérigos eleitos. Eleger o filho do Líder Supremo, entretanto, pode ser um problema, uma vez que a Revolução Islâmica se orgulha de ter derrubado uma monarquia e o Irã aprecia seu modelo republicano, que possui pilares definidos em sua ordem institucional teocrática e uma escolha como esta pode ensejar riscos que seus líderes talvez não estejam dispostos a correr.

A estabilidade do sistema caberá especialmente ao Conselho de Guardiões, composto por seis clérigos especialistas em jurisprudência islâmica escolhidos diretamente pelo Aiatolá e seis juristas nomeados pelo chefe do Poder Judiciário. Cabe ao Conselho vetar candidatos nas eleições para Parlamento, Presidência e Assembleia de Peritos, ou seja, passará pelas suas mãos aquele que irá suceder Ebrahim Raisi, assim como os nomes que devem eleger o sucessor do atual Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei.

Esta dinâmica mostra o delicado momento político atravessado pelo país com a perda de seu Presidente, que servia de ponto de equilíbrio para eleição do Líder Supremo, ao mesmo tempo que mantinha controle do aparato estatal e estabilidade política ao redor do establishment. A saída de cena abrupta de Ebrahim Raisi embaralha o jogo e mexe com as placas tectônicas do regime.

Além disso, o país passa por incertezas econômicas, inflação, a população sofre com a falta de água, mudanças climáticas, violações de direitos, amplamente conhecidas mundo afora, sendo a mais recente a morte da jovem Mahsa Amini enquanto estava sob custódia da polícia, presa por não usar um hijab corretamente. Sua perda ilustrou a brutalidade do regime em relação às mulheres e minorias. Ela era curda, membro de um dos grupos étnicos minoritários mais oprimidos do Irã.

Esta é a pressão sob a qual está colocado o país neste momento e a ausência de Raisi no cenário gera uma brutal disputa interna que passa pelo Conselho de Guardiões, mas deságua na Assembleia de Peritos e naqueles que decidirão quem será o novo Líder Supremo do país. Algo que dificilmente envolverá a oposição moderada, abrindo espaço para uma batalha na frente mais conservadora, mas que tem potencial de gerar choques políticos internos que ganhem as ruas em protestos. O tabuleiro está aberto e o jogo sendo estudado, especialmente diante da certeza que o caminho tomado pelo país pode influenciar decisivamente nos rumos do Oriente Médio.

Estratégia Ambiental

Há tempos defendo que o Brasil adote uma moderna agenda ambiental como cartão de visitas de nosso país na arena externa. As razões são claras, uma vez que possuímos protagonismo natural para lidar com o tema e depois da Rio 92 assumimos uma posição de destaque nas esferas de poder internacionais pautando o debate ambiental. Lembro que rejeitar esta agenda é também se afastar de um ativo estratégico. Para o Brasil, mais do que abraçar, é preciso se reconciliar com o tema, tornando-se novamente referência de políticas e ações que geram eco e ressonância externa.

O Brasil, entretanto, vem se movimentando de forma errática neste campo, o que levou o país a abandonar o protagonismo adquirido na década de 1990. O mais recente debate nacional sobre meio ambiente mostra uma perda de liderança, ao tragar o assunto para arena polarizada da política, sem qualquer movimento de convergência, que deveria ser a tônica usada por nosso país como liderança internacional.

Adotar uma estratégia inteligente, calcada em políticas públicas modernas, que usem o meio ambiente como ativo essencial do Brasil frente aos mecanismos da nova economia, pode tornar nosso território um ponto central diante do novo cenário mundial. Caberia ao país tomar esta decisão de forma sábia, usando um ativo natural único no planeta, capaz de impulsionar nossa economia e peso internacional a patamares jamais vistos.

Infelizmente setores do país insistem em duelar com esta realidade, rejeitando a pauta ambiental, jogando-a para patamares inferiores de discussão, como se uma economia virtuosa somente fosse possível de ser alcançada longe destas políticas. Na verdade, a realidade está em lado oposto: diante da nova realidade exterior, uma economia virtuosa somente é possível de ser alcançada quando suas políticas se encaixam de forma inteligente na pauta ambiental, como entes complementares.

Isto significa que uma economia verde é uma excelente oportunidade para o Brasil subir de patamar, já que conta com uma matriz energética limpa, motores movidos a etanol, de fonte renovável, e poderia fazer muito mais na recepção deste mundo novo de oportunidades. Segundo o Banco Mundial e a OIT, a projeção de aumento no PIB brasileiro, em função da economia verde, é de R$ 2,8 trilhões. E com isso podem surgir 7,1 milhões de empregos só aqui no Brasil. Uma verdadeira revolução.

Neste mundo, entretanto, não existe espaço para erros como vimos no Rio Grande do Sul. Depois de vencer o desafio das enchentes, com aportes e investimentos vindos do mundo inteiro, o estado terá oportunidade de construir um modelo sustentável que dialogue com o meio ambiente de forma eficiente e inteligente, fazendo com que a economia gaúcha possa crescer a níveis jamais vistos. É uma crise profunda, mas que assim como outras, geram incontáveis oportunidades, construindo um ambiente seguro para que catástrofes como esta jamais se repitam.

As oportunidades para o Brasil estão postas nesta nova realidade. Ao optar por abraçar um modelo de governança moderna, agenda social segura e economia que dialogue com o meio ambiente de forma complementar, nosso país pode criar caminhos e oportunidades capazes de mudar a face de nossa nação. É uma decisão que depende de cada um nós.

Recado das Águas

O desastre que se abateu no Rio Grande do Sul é uma mensagem que já havia sido telegrafada há tempos, porém negada e rejeitada pelas autoridades. Os sinais de que a natureza reagiria com fúria aos erros e excessos em seu entorno estavam desenhados. Esta enchente de proporções épicas foi precedida por outras e significa um alerta para as próximas que devem chegar. Negar esta realidade é flertar com a irresponsabilidade, o risco e o perigo de perder vidas e dilacerar os pilares de uma economia sustentável.

Porto Alegre é banhada por um lago, chamado Guaíba, que recebe cinco afluentes, chamados de Gravataí, Taquari, Caí, Jacuí e Sinos. Este lago, se encaminha para a Lagoa dos Patos, que deságua no oceano. A enchente em Porto Alegre acontece na medida que o volume de água dos afluentes aumenta em razão das chuvas e a capacidade do lago atinge seu limite, transbordando para dentro da cidade.

A falta de estrutura para evitar a crise nos leva inevitavelmente a um ponto de reflexão que vai muito além do Rio Grande do Sul. A ocupação de encostas no Rio de Janeiro, a contaminação do Rio Doce por dejetos em Minas Gerais e tantas outras ações como construção de cidades em planícies de inundação, são ações que acabam por cobrar um alto preço na medida que o descuido e o negacionismo se tornam moeda corrente em nossas políticas públicas.

Os gestores públicos também precisam encarar o resultado de sua irresponsabilidade. A Prefeitura de Porto Alegre não investiu um real sequer em prevenção a enchentes em 2023. Até chegar a zero, o investimento para prevenção a enchentes caiu dois anos seguidos e o item chamado “melhoria no sistema contra cheias”, não recebeu recursos ano passado. A mesma situação ocorre com o departamento que cuida da área de águas e esgotos, que opera atualmente com a metade dos funcionários que tinha em 2013.

Entretanto, para além dos culpados, enquanto os gaúchos ainda contam suas vítimas e resgatam sobreviventes, esta tragédia deveria servir para unir o nosso país, por meio do diálogo e união, conversando sobre medidas resolutivas, diretas e objetivas para os desafios que ainda virão adiante, longe das diferenças partidárias e ideológicas. Porém, vemos nossos líderes fazendo política com o desastre, adotando discursos baratos e batidos, falando em orçamento de guerra sem qualquer coordenação ou transparência sobre uso e aplicação dos recursos. No país da impunidade, estamos diante da receita ideal para o desvio e demagogia, uma aliança perfeita para perpetuar o atraso. 

A mensagem recebida pela tragédia é objetiva: Faz-se necessário discutir os efeitos das mudanças climáticas ao invés de rejeitá-las por simples ranço ideológico e aqueles que enfrentarão as urnas este ano estão obrigados a lembrar do brutal recado recebido por esta tragédia. Ainda estamos no momento de doação e salvamento. Porém, devemos aprender com as lições deixadas pela força e volume das águas. A reconstrução deve levar em consideração aspectos ambientais que impedem novos desastres, como evitar construir em encostas e planícies de inundação, manter intacta a mata ciliar e os rios limpos.  A enchente de 2024 deixa um brutal recado. Rejeitá-lo é flertar com o caos e se tornar corresponsável por possíveis tragédias futuras. Já passou do tempo de o Brasil parar de brigar com meio-ambiente, entendendo que esta parceria é o mais importante ativo de nosso país.

Investimento, Diálogo e Pragmatismo

Depois de estarmos longe do foco do investimento estrangeiro por quase uma década, existe indicação de que algo está mudando neste panorama. O Brasil voltou a figurar na lista dos 25 países mais atrativos para Investimento Estrangeiro Direto no index publicado pela consultoria Kearney. Nosso país alcançou a 19ª posição como melhor destino para investimentos no mundo, o melhor resultado desde 2017.

Se avaliarmos somente as economias em desenvolvimento, ocupamos o quinto lugar, subindo duas posições e superando o México. Hoje, acima do Brasil, apenas figuram China, Emirados Árabes, Índia e Arábia Saudita. Este é um caminho virtuoso já conhecido pelo nosso país, uma vez que entre 2000 e 2010 ocupávamos o terceiro lugar, ou seja, estamos no caminho certo, trilhando os passos corretamente como no passado.

Existem vários elementos que explicam este movimento, entretanto, se verificou que a proximidade com os Estados Unidos tem se tornado fator preponderante. Isto ocorre porque o mercado vive um período de “nearshoring”, que significa uma tendência das multinacionais em se deslocar para perto das matrizes, uma dinâmica que se fortalece diante das disputas geopolíticas e neste panorama, o Brasil surge como destino seguro.

Ademais, há espaço para se elogiar uma leitura acertada deste cenário por setores do governo brasileiro, especialmente liderados pelo Vice-Presidente Geraldo Alckmin na condução do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Alckmin e Jorge Viana são responsáveis pela guinada na política de comércio exterior e pelos novos caminhos trilhados pela Apex-Brasil com claro impacto no investimento estrangeiro.

Como ex-Diretor da Apex, entendo que é essencial a condução do órgão por alguém dotado de habilidade política. Ao optar por este caminho, o Brasil conseguiu destravar mecanismos essenciais para promoção do comércio exterior e internacionalização que propiciam, como via de mão dupla, a atração de investimentos. Jorge Viana mostrou que acertou na leitura do cenário, na mesma linha da pesquisa da Kearney: “O Brasil não pode ter ‘beicinho com os EUA’, tem que ter como prioridade o crescimento no comércio exterior com eles, afinal, os EUA são os melhores compradores de produtos brasileiros”.

Evidentemente precisamos, ao mesmo tempo, trabalhar políticas de proteção aos interesses nacionais, como fazem União Europeia e Estados Unidos. Isto significa blindar nossos ativos estratégicos essenciais para garantir a segurança do Brasil em serviços fundamentais, fornecendo ao governo uma espécie de sistema de verificação, o poder de opor-se a qualquer transação da qual resulte, direta ou indiretamente, a aquisição de controle de terceiros sobre ativos soberanos em setores como energia, transportes e comunicações.

Vemos que existe um alinhamento propício neste momento, ou seja, o crescimento do Brasil como destino de investimento estrangeiro, o período de nearshoring vivenciado pelas multinacionais e a retomada de uma postura pragmática e objetiva da Apex na condução do tema. Tudo isso explica os degraus que o Brasil vem galgando de volta no caminho de retomada de uma posição de destaque na atração de investimentos. Diálogo e pragmatismo são as cartas mais importantes no jogo do comércio exterior.

Levante Populista

Estamos diante de um delicado movimento político que encontra eco em diversas partes do mundo. Insurgentes e populistas ganharam protagonismo mediante uma avalanche de votos e ao mesmo tempo (e também por consequência disso) vivemos um hiato de bons quadros e lideranças políticas no debate público. Este desequilíbrio no sistema deve chegar em breve ao Reino Unido, mudando a configuração de forças no país.

Quando o outono chegar, o país deve enfrentar eleições gerais e os prognósticos deixam os conservadores cada vez mais preocupados. Existe a possibilidade de uma avalanche que pode balançar os pilares de seu partido, com avanço significativo dos trabalhistas. Um movimento tão devastador que pode incluir a derrota do Primeiro-Ministro Rishi Sunak em seu distrito, no norte de Yorkshire, deixando-o sem assento no parlamento.

O abalo do tradicional Partido Conservador se explica por uma série de fatores, porém um deles em especial: cerca de 66 deputados do partido anunciaram que estão se retirando da política e deixarão de disputar a reeleição. O número, entretanto, deverá ser maior, uma vez que se estima que mais de uma centena tomem este caminho, ou seja, praticamente um terço da bancada atual. Entre os nomes que desejam deixar a política encontram-se inclusive ex-chefes de governo, como Theresa May.

Diante de uma derrota praticamente certa, o partido agora se mobiliza para evitar um desastre, similar ao que aconteceu em 1993 no Canadá. Naquele episódio, além de perder as eleições, o partido que ocupava o governo, progressista conservador, perdeu 169 das suas cadeiras no parlamento canadense, restando apenas duas. Praticamente um extermínio político. Os Tories britânicos temem por algo parecido.

Isto é explicado não somente pelo crescimento dos adversários ou pela debandada de políticos tradicionais, mas pela crescente popularidade dos populistas, que ao angariar votos e apoio, deslocam os conservadores moderados do espectro político, passando a ocupar seu lugar. Nigel Farage e seu Reform UK ocupam este espaço e seu sucesso com os eleitores passou a corroer as estruturas do Partido Conservador.

Explico. Hoje existe um confronto interno dentro do partido que opõe de um lado aqueles que defendem um alinhamento com as ideias populistas defendidas por setores mais extremados, próximos do discurso de Farage, uma vez que rendem votos, e os moderados, que defendem o pragmatismo e seu papel como defensores das tradições reformistas, do gradualismo, ou seja, os conservadores reais na verdadeira acepção do termo. A luta entre ambos pela alma do partido será até a morte.

A infiltração dos conservadores pelos populistas e a defesa de que o partido deve pender ao radicalismo dissocia os tories da sua essência moderada, eixo do conservadorismo britânico. Os populistas hoje se confundem com a direita na cabeça do eleitor e ao conseguir assumir este lugar, deslocam a tradicional centro-direita conservadora para fora do jogo político, o que explica a aposentadoria de tantos parlamentares. Restará saber que partido sobreviverá, ou seja, aquele da moderação tradicional ou apenas o apêndice de um populismo insurgente e radical.  

Foto: Atta Kenare/AFP

Nitidez Geopolítica

O ataque iraniano contra Israel serviu para cortar os interlocutores, grupos terroristas contratados pelo regime dos aiatolás, e colocar no tabuleiro o real enfrentamento que se escondia no Oriente Médio por trás de Hamas, Hezbollah, Houthis e outros grupos que trabalham em favor do regime de Teerã. Neste tabuleiro de xadrez internacional, o movimento do Irã trouxe respostas importantes do novo desenho geopolítico da região e terminou por reposicionar o jogo por trás do conflito.

A ofensiva dos iranianos, em um primeiro momento, serviu como uma clara assunção de autoria dos ataques de outubro perpetrados pelo Hamas em território israelense. Isto posto, apesar de já ser algo notório, escancara as intenções dos aiatolás e mostra, mesmo aos mais ingênuos, que as ações operadas pelo grupo terrorista de Gaza sempre estiveram longe da causa palestina e extremamente próximas dos objetivos espúrios e perigosos desenhados pelo governo de Teerã.

Portanto, se de um lado do conflito estava Israel e do outro uma confluência de grupos terroristas operando desde Gaza, passando pelo Líbano e desaguando no Iêmen, depois deste ataque, qualquer dúvida se dissipou, ou seja, o agressor veio à tona, assumindo sua posição. Se de um lado temos Israel, do outro, agora está o Irã.

Por mais que esta situação fosse clara nos corredores da política internacional, a nitidez do cenário ajuda a trazer respostas para diversas perguntas geopolíticas. O ataque do Irã, por exemplo, escancarou também seus aliados, fazendo com que iniciassem um movimento de blindagem de seus interesses nos fóruns internacionais. Como já era esperado, os dois principais pilares antidemocráticos, Pequim e Moscou, se alinharam aos aiatolás. Do outro lado, as democracias ocidentais ficaram apoiaram Israel.

Porém, a teia de influência, cooperação e interdependência econômica criada ao longo dos anos mais profundamente pela China e em certa medida pela Rússia, aliada aos seus instrumentos de desinformação, passaram a cobrar alinhamento e subserviência, onde se incluem membros do BRICS, autocracias, autoritários e ditaduras. O Brasil, estranho membro deste clube, ao se omitir, bateu palmas para os iranianos e deixou de condenar mais uma vez as violações cometidas pelo regime dos aiatolás.

Para além disso, foi importante perceber que a defesa de Israel contra o massivo ataque iraniano foi muito além de suas defesas, contando com o apoio logístico e efetivo dos Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e inclusive Jordânia e indiretamente a Arábia Saudita. Esta ampla aliança política costurada ao longo dos anos com apoio dos Estados Unidos foi essencial para fornecer segurança coletiva e possui lastro nos acordos de Abraão, que vinham trazendo normalização política na região.

Como vemos, o jogo geopolítico ficou mais nítido depois dos aiatolás do Irã assumirem suas posições no tabuleiro do Oriente Médio, o que serve em certa medida para melhor entendimento do conflito mais amplo entre democracias e autocracias e o real significado das razões dos recentes ataques contra Israel. Cabe neste momento a Israel e seus aliados desenharem de forma inteligente uma maneira de isolar os iranianos no cenário político internacional, enfraquecendo também as posições de nações antidemocráticas lideradas por Pequim e Moscou neste novo equilíbrio de poder.   

Instabilidade Chinesa

As notícias vindas de Pequim estão longe de serem boas. A mais recente indica forte e acentuada queda no investimento direto estrangeiro no país oriental. Este é mais um dos problemas encarados pelo governo Xi Jinping, que tem enfrentado uma sequência de crises internas recentemente e pode colocar em xeque a estratégia do regime diante de suas zonas de influência pelo mundo.

Se em 2023 o mundo assistiu a primeira queda de investimento direto estrangeiro na China em 25 anos, em 2024 este vetor acelerou, mostrando o primeiro índice negativo de IDE do país asiático em duas décadas. O movimento sugere que as empresas podem estar diversificando suas cadeias de fornecimento para reduzir riscos, porém, a suspeita é que este movimento vai além e pode indicar que os investidores estão buscando alternativas à China, inseguros com os rumos tomados pelo governo de Pequim.

Ao mesmo tempo, alguns analistas lembram que tudo isto pode indicar apenas um redirecionamento na repatriação de lucros que habitualmente eram reinvestidos. Pode ser, entretanto, todo o contexto indica algo mais preocupante, uma vez que as saídas líquidas de investimento ocorrem exatamente no momento que Pequim está tentando abrir seu setor industrial para novas captações. A sensação no mercado internacional é que a China não tem conseguido atrair capital externo, uma vez que suas políticas não têm conseguido mitigar os riscos embutidos no país.

Existem tentativas para tentar virar este jogo. O Ministério do Comércio, por exemplo, pediu aos governos locais que eliminassem políticas discriminatórias enfrentadas pelas empresas estrangeiras, numa tentativa de estabilizar a confiança dos investimentos. O resultado, entretanto, foi pífio. Ao mesmo tempo houve a recomendação para que os subsídios para veículos movidos a novas energias não se limitem às marcas nacionais. Outra medida que surtiu um efeito prático muito pequeno. Os investidores estrangeiros na verdade expressaram uma “fadiga de promessas” em meio ao ceticismo em relação aos movimentos do governo de Pequim.

Investir na China tem riscos altos. Além do plano geopolítico, as empresas também recuaram diante do aumento dos custos de produção e obstáculos de regulação. Outro problema tem sido a burocracia sobre empresas estrangeiras devido a preocupação com a segurança nacional. Fatores que prejudicam a percepção do ambiente de negócios, um tipo de confiança muito difícil de restaurar.

A falta de investimento entre as empresas globais na China pode ter efeitos de longo alcance na segunda maior economia do mundo, especialmente quando falamos de seus próprios aportes ao redor do globo, como a Nova Rota da Seda, abandonada em alguns países e redefinida depois de muitos cortes em outros. Além disso, o desequilíbrio de sua economia também afeta a capacidade de compra de comodities. Em ambos os casos a economia brasileira pode sofrer abalos significativos.

A economia chinesa enfrenta período sensível, agravada pela falta de transparência de orçamento, gestão da dívida, instabilidade no mercado financeiro e desaceleração do setor imobiliário, gerando abalo na confiança do setor privado e diminuição do volume de investimento estrangeiro. A ausência de democracia e liberdade geram instabilidade e risco. A China vem aprendendo isso da forma mais difícil.