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Márcio Coimbra

Sobre Márcio Coimbra

Márcio Coimbra é Presidente do Instituto Monitor da Democracia. Presidente do Conselho da Fundação da Liberdade Econômica e Coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília. Cientista Político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

Geopolítica da Inteligência Artificial

Em Bishkek, o 25º aniversário da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) ergueu-se como um divisor de águas na geopolítica da Eurásia. Sob a presença de dezessete chefes de Estado — liderados por figuras centrais como Xi Jinping, Vladimir Putin, Narendra Modi e Masoud Pezeshkian —, a cúpula buscou projetar uma alternativa coesa ao domínio ocidental, delineando as contornadas ambições de um mundo multipolar.

Contudo, sob o espectro da guerra na Ucrânia e das tensões no Oriente Médio, os holofotes deram lugar a bastidores efervescentes, onde a retórica anti-imperialista conviveu com discretos e calculados gestos em direção a Washington. Porém, por trás dos discursos oficiais e da integração declarada, emergiu a verdadeira fratura que inquieta a Ásia Central: o desafio premente de aderir à revolução da inteligência artificial sem entregar sua soberania tecnológica ao sistema de monitoramento de Pequim.

A Rota da Seda Digital e a Armadilha da Centralização de Dados

No centro da SCO, a China projeta sua influência não apenas por meio de acordos comerciais tradicionais ou financiamentos da Iniciativa Cinturão e Rota, mas através de uma agressiva expansão da Rota da Seda Digital, assim como tem feito na América Latina. Em um momento em que a corrida computacional exige investimentos colossais para a criação de centros de processamento de dados e adoção de algoritmos avançados, Pequim oferece às capitais centro-asiáticas uma solução aparentemente sedutora: pacotes integrados de tecnologia, infraestrutura de telecomunicações e modelos de inteligência artificial de código aberto a custos substancialmente inferiores aos ocidentais. No entanto, a arquitetura digital proposta pela China é fundamentada no controle centralizado e na opacidade. Ao implementar sistemas de cidades inteligentes, data centers e redes de conectividade operadas por estatais ou gigantes corporativas chinesas, Pequim estabelece uma teia de captura de dados que desperta profundas suspeitas regionais.

O Dilema da Soberania e as Suspeitas Centro-Asiáticas

As preocupações que ecoam nas capitais da Ásia Central são reais. A concentração de dados estratégicos em servidores sujeitos à legislação de segurança nacional chinesa alimentam o receio de que a soberania dessas repúblicas possa ainda ser corroída. Para nações que historicamente exerceram uma diplomacia multivetorial — buscando equilibrar influências externas —, a entrega de sua infraestrutura crítica à China representa uma transição perigosa de uma autonomia relativa para um estado de vassalagem digital. A percepção de que a Rota da Seda Digital funciona como um aspirador de dados estratégicos e vetor de monitoramento tem gerado um desgaste silencioso na imagem de Pequim como parceiro confiável na região.

O Modelo Americano: Transparência, Hardware de Ponta e Soberania Digital

É justamente nesse vácuo de confiança que os Estados Unidos encontram uma oportunidade para se consolidarem como o parceiro mais confiável, seguro e viável para a Ásia Central. Diferente da abordagem de Estado totalizante adotada pela China, o modelo americano fundamenta-se na dinamização do setor privado, na transparência de governança e no respeito à soberania digital dos parceiros locais. Washington pode oferecer a mais avançada tecnologia computacional do planeta sem exigir o controle dos dados ou a submissão política. O projeto do “Data Center Valley” no Cazaquistão, avaliado em dez bilhões de dólares, exemplifica como a cooperação americana capacita a região a desenvolver ecossistemas próprios de dados sob sua gestão exclusiva. Ao alinhar esse avanço a iniciativas como a Pax Silica, os EUA oferecem um ecossistema seguro e auditável.

Pragmatismo Estratégico e o Futuro das Alianças Eurasianas

Para que essa superioridade estrutural se traduza em uma liderança duradoura, a política externa norte-americana precisa alinhar sua diplomacia à realidade pragmática vivida na Eurásia. Os desdobramentos da Cúpula de Bishkek evidenciaram que os líderes da Ásia Central não desejam ser empurrados para dinâmicas de soma zero ou ultimatos rígidos. Ao contrário da China, que utiliza sua proximidade geográfica e peso financeiro para exercer pressões assimétricas, os Estados Unidos ganham a confiança da região quando atuam como garantidores de escolhas soberanas e facilitadores de prosperidade tecnológica. Ao combinar a excelência de seus chips, a robustez de seus modelos fechados de IA e o suporte de agências de financiamento para mitigar riscos de infraestrutura, o governo americano consolida uma alternativa qualitativamente imbatível. No grande jogo tecnológico da Eurásia, a confiança não se constrói com a captura de dados, mas com capacitação real, segurança e respeito à autonomia, uma receita que também se encaixaria de forma perfeita na América Latina.

Geopolítica da Transição

O sistema internacional atravessa uma reconfiguração estrutural profunda. A crescente disputa por hegemonia entre Estados Unidos e China, aliada ao imperativo de transição energética e à corrida pela soberania em inteligência artificial, redefiniu os eixos do poder global. Nessa nova arquitetura geopolítica, a segurança energética e a disponibilidade de insumos tecnológicos deixaram de ser meros temas econômicos e passaram a constituir elementos centrais da alta estratégia dos Estados. O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica: não como espectador passivo, mas como um ator pivotal. A questão premente que se impõe à diplomacia e às elites políticas do país é saber se teremos a maturidade estratégica para negociar nosso futuro com altivez ou se repetiremos o erro histórico do alheamento frente às grandes transformações internacionais.

As evidências empíricas e geoeconômicas demonstram que o Brasil reúne condições ímpares para alterar qualitativamente sua inserção no cenário global. Enquanto os centros tradicionais de poder enfrentam complexos dilemas para descarbonizar suas matrizes e suprir a crescente demanda computacional dos centros de dados de inteligência artificial, o Brasil apresenta um ativo de inestimável valor diplomático: aproximadamente 88% de sua geração elétrica provém de fontes limpas e renováveis, contra uma média global que mal supera o patamar de 30%. Essa assimetria positiva confere ao país uma vantagem competitiva e negociadora sem paralelo para a atração de indústrias de ponta e infraestrutura de tecnologia crítica.

No plano geológico, a convergência entre transição tecnológica e segurança de suprimentos transforma nosso subsolo em um vetor de projeção de poder. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras — estimada em mais de 21 milhões de toneladas —, além de deter mais de 90% das reservas globais de nióbio e depósitos altamente estratégicos de lítio de alta pureza no Vale do Jequitinhonha, além de expressivas jazidas de níquel e cobre. Insumos dessa natureza constituem o cerne das cadeias de valor dos semicondutores, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa de última geração. Deter a posse desses recursos significa possuir as alavancas do novo arranjo produtivo mundial.

Sob a ótica da diplomacia econômica, o desafio fundamental é superar de forma definitiva o modelo tradicional de exportador primário. Negociar com Washington, Pequim ou Bruxelas exige abandono da passividade em favor de uma estratégia soberana e pragmática: o acesso aos recursos e ao mercado brasileiro deve estar condicionado à transferência efetiva de tecnologia, adensamento das cadeias produtivas locais e processamento de valor agregado em território nacional. Trata-se de instrumento político para consolidar a autonomia industrial e tecnológica do país.

O Brasil dispõe dos elementos necessários para sentar-se à mesa das grandes potências não como fornecedor de commodities, mas como formulador geopolítico. Infelizmente, cabe aos nossos líderes políticos, que estão muito aquém desta tarefa, desenhar um projeto de Estado denso e articulado, capaz de converter nosso potencial estratégico em influência diplomática concreta e desenvolvimento real. Neste ponto reside o grande desafio das próximas gerações. Sem lideranças de qualidade, perderemos a corrida geopolítica desta transição, nos tornando mais uma vez expectadores da nova ordem que se desenha.

Reconstrução Diplomática

A ideia de que as relações internacionais pertencem exclusivamente à burocracia de Brasília prescreveu. No século XXI, a fronteira entre decisões domésticas e disputas globais desapareceu: a capacidade de gerar empregos, atrair capital e proteger a produção nacional é determinada pelo posicionamento geopolítico do país. Do preço dos fertilizantes à atração de investimentos em infraestrutura, o cotidiano do cidadão depende da política externa. Em um mundo moldado pela rivalidade entre potências, o amadorismo ideológico e a volatilidade reputacional cobram um preço alto. Para reestruturar a inserção internacional do país, é imperativo substituir o voluntarismo por um pragmatismo liberal, firme e focado no interesse nacional.

Essa inflexão exige recompor laços de confiança com o eixo de democracias liberais do Ocidente — Estados Unidos, União Europeia e parceiros do Indo-Pacífico —, garantindo a segurança jurídica indispensável para atrair investimentos e cooperação estratégica. Paralelamente, quanto aos regimes autoritários, o país deve manter uma postura madura: preservar canais abertos com grandes mercados compradores sem conceder chancela política a modelos autocráticos. No âmbito regional, cabe ao Brasil liderar a modernização do Mercosul, flexibilizando o bloco para permitir acordos bilaterais em ritmos distintos.

A conversão da diplomacia em crescimento tangível passa pela conclusão da adesão do Brasil à OCDE, selo de maturidade regulatória e de livre mercado. Além disso, o país precisa se posicionar como fornecedor indispensável para a transição energética e tecnológica. Com valiosas reservas de minerais críticos — como lítio, níquel e terras raras — e uma matriz elétrica limpa, o Brasil deve usar esses ativos como moeda de negociação estratégica, condicionando o acesso aos recursos à instalação de plantas industriais e à transferência tecnológica, superando a condição de mero exportador de commodities brutas. Da mesma forma, a escala do agronegócio deve virar poder geopolítico para assegurar o suprimento de insumos.

No plano global, o Brasil deve exercer voz ativa, defendendo a soberania nacional e rejeitando restrições indevidas à sua agricultura e indústria. Para dar sustentação a esse protagonismo, é essencial firmar parcerias tecnológicas com nações democráticas, como Japão e Taiwan, priorizando a cooperação em inteligência artificial e semicondutores. Essa integração à cadeia global de inovação constrói soberania digital, desenvolve a indústria de alta complexidade e viabiliza os corredores bioceânicos, consolidando o país como o principal hub tecnológico e logístico da América do Sul.

A reconstrução da diplomacia brasileira não é uma abstração teórica, é um compromisso direto com o desenvolvimento e o bem-estar da população. Ao abandonar os equívocos do passado e adotar uma visão pautada pelo livre mercado, pela segurança jurídica, pelo respeito às democracias e pelo crescimento produtivo, o Brasil deixa de ser espectador para se tornar arquiteto do seu próprio destino. Uma diplomacia moderna, firme e pragmática converterá nossa atuação internacional no motor mais potente de prosperidade, soberania e orgulho nacional.

Conexão Moscou 

Na alta geopolítica, a ingenuidade é um luxo caríssimo e a coincidência, uma ilusão para amadores. Quando o Palácio do Planalto recebe, de portas fechadas e fora da agenda oficial, o homem apontado pelo Ocidente como o verdadeiro número dois do Kremlin, o recado ao mundo vai muito além do protocolo. A presença silenciosa de Nikolai Patrushev em Brasília, em meio a atritos com Washington e a poucos meses do pleito eleitoral, não é um fato isolado. É o ponto de convergência de uma estratégia russa de longo alcance que envolve guerra híbrida, dependência energética e a instrumentalização do território brasileiro.

A escolha do Brasil pelo aparato de segurança de Moscou não é recente. O país tornou-se entreposto global para a “lavagem de identidades” do programa de espiões “Ilegais” da Rússia. Casos como os de Sergey Cherkasov e Mikhail Mikushin mostraram como a inteligência russa usou brechas cartorárias para fabricar passaportes e infiltrar agentes no TPI e na OTAN. A exploração avançou também sobre o capital humano, atraindo jovens brasileiros para o front com falsas promessas. O padrão é claro: Moscou enxerga o Brasil como um território conveniente, capaz de fornecer desde identidades falsas até infantaria descartável para sua combalida máquina de guerra.

A dimensão mais pragmática dessa aliança subterrânea, contudo, é financeira e logística. Enquanto o discurso oficial empunha a “neutralidade”, a economia real revela a adesão ao financiamento do esforço de guerra de Vladimir Putin. Mais de R$ 6,2 bilhões em diesel russo sancionado entraram no país por uma “frota fantasma” de 32 navios com rotas maquiadas e ligações com o crime organizado expostas pela Operação Carbono Oculto. Hoje, a Rússia responde por 63% de todo o diesel importado pelo Brasil. Neste contexto, a figura de Patrushev — presidente do Conselho Marítimo russo — é decisiva. Sua passagem por Brasília, reunindo-se com ministérios estratégicos, civis e militares, buscou garantir blindagem regulatória e a manutenção dessas rotas paralelas.

Essa articulação ganha gravidade sob a ótica da guerra de informação. Patrushev, sancionado pela OFAC, é o mestre intelectual das operações globais de manipulação eleitoral do Kremlin. Sua visita ocorreu quando a diplomacia brasileira entrava em rota de colisão com os EUA, com revogações cruzadas de vistos e acusações de ingerência. O sinal é inequívoco: Brasília acusa os americanos de interferência eleitoral enquanto acolhe no Planalto, fora da agenda, o ex-chefe da antiga KGB, hoje chamada de FSB, e arquiteto da guerra suja russa com um currículo interminável de desinformação política no exterior. Em ano de eleições, a presença da cúpula da inteligência russa não é coincidência de calendário, mas uma troca de conveniências geopolíticas.

Ao tolerar o uso de seu território para espionagem, permitir o atracamento de uma frota clandestina de combustível e receber em segredo o chefe da inteligência do Kremlin sancionado internacionalmente, o Brasil sacrifica sua histórica reputação diplomática. A visita de Patrushev consolidou um pacto silencioso de cooperação logística, energética e de inteligência que insere nosso país no mapa das operações híbridas da Rússia — com custos que cobrarão seu preço por gerações.

Diplomacia de Palanque

A diplomacia profissional assenta-se em dois pilares fundamentais: a previsibilidade dos ritos e a observância da comitas gentium — a cortesia internacional pautada no respeito mútuo e no pragmatismo. Em um sistema internacional marcado pela assimetria estrutural de poder, os Estados de médio porte dependem do rigor institucional e da discrição negociada. É assim que preservam sua margem de manobra e protegem seus interesses estratégicos perante as grandes potências. Quando uma nação flexibiliza essa tradição e adota uma postura de fricção velada — supondo que pode instrumentalizar ritos diplomáticos sem pagar um preço alto —, adentra um terreno de elevado risco geopolítico. Os desdobramentos recentes na relação bilateral entre Brasília e Washington oferecem um estudo de caso emblemático sobre o custo de desafiar a lógica do poder real por meio de provocações táticas e acertos de contas ideológicos.

Nos últimos meses, a condução da política externa brasileira revelou um padrão consistente de atrito silencioso. O represamento do agrément ao diplomata americano Daniel Perez, indicado para chefiar a embaixada em Brasília, marcou o ápice dessa engenharia de desgaste. Embora a Convenção de Viena de 1961 não fixe prazos peremptórios para a concessão da anuência estatal, a paralisação deliberada do credenciamento por razões de política interna viola o próprio espírito de cooperação bilateral. A essa inércia calculada somou-se a recusa ostensiva de vistos aos secretários-assistentes do Departamento de Estado, Riley Barnes e Samuel Samson, acompanhada por acusações públicas. Ao abandonar os canais velados de negociação e expor o dissenso em tom acusatório, o governo brasileiro cruzou os limites da divergência legítima, incitando uma resposta proporcional da contraparte americana.

O erro crasso da diplomacia brasileira esteve em presumir que a Casa Branca assistiria passivamente a esse acúmulo de hostilidades. Diferente de administrações anteriores, que preferiam amortecer atritos para preservar a estabilidade hemisférica, o atual governo dos Estados Unidos reage de pronto, guiado pela afirmação categórica de poder. Perante a recalcitrância de Brasília, Washington não hesitou: revogou o visto diplomático da embaixadora Maria Luiza Viotti em uma retaliação cirúrgica. Ao despojá-la de seu respaldo administrativo sem recorrer imediatamente à declaração formal de persona non grata (nos termos do Artigo 9º da Convenção de Viena), o Departamento de Estado deixou claro o peso de suas prerrogativas soberanas. A mensagem soou inequívoca: o exercício da representação diplomática em solo americano é um privilégio condicionado à reciprocidade — jamais um direito dado.

A reação de Brasília, traduzida em notas oficiais carregadas de retórica combativa, escancarou a profundidade da crise de método de sua política externa. Classificar a atitude americana de “falsidade”, “escalada ideológica” ou “ingerência” pode render dividendos eleitorais imediatos junto à militância doméstica, mas é um erro primário sob a ótica do Direito Internacional e da Teoria das Relações Internacionais. Em um cenário de profunda assimetria de poder, trocar a negociação reservada por comunicados à imprensa sinaliza fraqueza. O pedido anterior da Presidência da República pela anulação de sanções americanas a autoridades nacionais — feito sem que o Brasil dispusesse de qualquer alavanca real de barganha — já expusera a desconexão com a gramática do poder em Washington. A politização posterior do acesso diplomático apenas consolidou a percepção de um abandono deliberado da sobriedade institucional.

O impasse gerado por esse encadeamento de escolhas confina a representação brasileira em Washington a um severo isolamento funcional, fragilizando a defesa de interesses comerciais e regulatórios cruciais. A ilusão de sustentar uma equivalência de forças com a superpotência global corroeu o valioso capital diplomático construído ao longo de décadas pelo Itamaraty. Enquanto Brasília recorre à narrativa de ingerência para justificar a crise, os Estados Unidos acionam um arsenal inusitado de pressões — do travamento de vistos a restrições tarifárias e operacionais — para cobrar o preço da reciprocidade. Pragmatismo e neutralidade nunca representaram fraqueza, sempre foram os escudos mais eficientes das nações soberanas. Ao atropelar esses preceitos, a política externa brasileira colhe o desgaste inevitável da controvérsia calculada, reaprendendo a lição clássica: no tabuleiro internacional, a retórica militante curva-se, invariavelmente, à força objetiva do poder real.

Cazaquistão em Foco

No tabuleiro geopolítico contemporâneo, a Ásia Central transcendeu a condição de periferia pós-soviética para se consolidar como uma das arenas mais estratégicas da Eurásia. Sob a confluência de interesses de Pequim, Moscou, Washington e Bruxelas, a região exige um olhar atento da análise internacional — e é precisamente em seu coração que se desenrola uma das transformações institucionais mais instigantes da atualidade. Maior economia centro-asiática e detentor de recursos energéticos críticos, o Cazaquistão opera uma profunda reorganização em seu modelo de governança.

A política interna em Astana revela um projeto estruturado de reengenharia política. Cujas diretrizes ganharam tração no referendo constitucional de 2022, o processo redefine os limites do Executivo, a dinâmica partidária e a representação popular. A trajetória recente foi marcada pela transição de três décadas sob Nursultan Nazarbayev para a ascensão de Kassym-Jomart Tokayev, cujo governo enfrentou em janeiro de 2022 os protestos do Qantar, evento catalisador da nova arquitetura constitucional.

Buscando desmantelar o modelo superpresidencialista, descentralizar o poder e reduzir privilégios governamentais, essa reformulação terá seu ápice em agosto com a primeira eleição para o novo parlamento: o Kurultai. A principal mudança estrutural reside na transição do antigo modelo bicameral — composto pelo Mazhilis e pelo Senado — para um órgão supremo unicameral de representação, formado por 145 membros eleitos por voto proporcional de listas partidárias para mandatos de cinco anos.

Sob a ótica da Teoria das Instituições, a migração para o unicameralismo busca eliminar aquilo que a Ciência Política classifica como “pontos de veto” (veto players). Ao concentrar o Legislativo em uma única câmara, visa-se acelerar a produção legal e dar previsibilidade à agenda regulatória do Estado. Paralelamente, a escolha do nome Kurultai resgata as antigas assembleias dos povos nômades das estepes. Astana realiza um movimento clássico de “invenção das tradições” — no conceito célebre de Eric Hobsbawm —, ancorando a modernização na identidade nacional para conferir legitimidade ao novo desenho estatal.

Para o observador brasileiro, o processo oferece reflexões profundas. O Brasil convive com os dilemas do presidencialismo de coalizão e de um bicameralismo por vezes moroso, em que negociações pontuais engessam reformas estruturais. Ver uma nação emergente redesenhar sua engenharia política para ganhar eficiência legislativa, sem abrir mão da representatividade, provoca o debate sobre nossas próprias instituições.

No plano internacional, a diplomacia multivetorial e pragmática do Cazaquistão guarda sintonia com a tradição brasileira de autonomia estratégica e não alinhamento automático. Ambos compreendem que a soberania e a atração de investimentos dependem da coesão interna e de uma atuação externa previsível. O laboratório político em Astana demonstra que desenvolvimento econômico e maturidade institucional caminham lado a lado.

Mordaça de Xangai

Na abertura da recente Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial. Com a adesão de 28 países — incluindo o Brasil —, Pequim vendeu a iniciativa como um marco emancipatório para o Sul Global, prometendo capacitar 5.000 profissionais e democratizar a governança do setor. Contudo, por trás da retórica inclusiva, esconde-se uma estratégia geopolítica calculada e o risco iminente de aprisionamento tecnológico.

Ao exaltar o open source como uma “oportunidade histórica”, o regime chinês expõe um paradoxo flagrante. A China opera o ecossistema digital mais censurado do mundo, protegido pelo Great Firewall e regido por normas que exigem que qualquer IA generativa reflita compulsoriamente os “valores socialistas” do Partido Comunista. Pregar abertura internacional enquanto se impõe uma mordaça algorítmica interna serve apenas para absorver dados e tecnologia ocidentais, sem jamais permitir auditoria transparente em seus próprios sistemas.

Essa promessa de representatividade para o Sul Global mascara a exportação deliberada de dependência. Ao financiar a infraestrutura e os padrões técnicos na América Latina, Pequim desenha a própria arquitetura que sustentará os serviços públicos digitais da região. Ao integrar essa estrutura, o Brasil vincula sua gestão pública e seus dados estratégicos a um stack autoritário cujo custo de transição futuro será proibitivo.

A hipocrisia se reflete também na crítica chinesa ao uso da “segurança nacional” para restringir tecnologias — uma alusão direta aos Estados Unidos. A China, sabemos, é pioneira na fusão civil-militar, bloqueia dados transfronteiriços e subsidia estatais sob esse exato pretexto. Além disso, o conceito de “controle humano” defendido por Pequim se traduz, na prática, no controle irrestrito do Estado sobre o cidadão, por meio de vigilância em massa e reconhecimento facial.

Diante desse cenário, a verdadeira soberania digital brasileira exige a construção de soluções próprias, alinhadas às nossas necessidades institucionais, culturais e aos valores democráticos. Em vez de se subordinar ao modelo de vigilância de Pequim, o Brasil deve priorizar o desenvolvimento de um modelo de linguagem em português (IA) por meio de alianças estratégicas com nações altamente confiáveis e tecnologicamente avançadas. Países como Japão e Taiwan, referências globais na produção de hardware de ponta e na pesquisa ética em inteligência artificial, representam parceiros ideais que merecem um olhar muito mais atento e prioritário por parte da diplomacia e do setor de inovação nacional.

A adesão à diplomacia de Xangai reflete uma ingenuidade estratégica perigosa. Uma governança de IA verdadeiramente inclusiva e democrática exige neutralidade pragmática, transparência algorítmica e a recusa firme em importar modelos fundamentados no controle e na vigilância estatal. Para garantir um futuro digital seguro e soberano, o Brasil deve escapar das mordaças e parcerias enganosas, fortalecendo cooperações éticas, preservando sua autonomia.

Lições das Tarifas

O tabuleiro comercial sofreu um realinhamento profundo, e o Brasil moveu-se tarde e mal. A confirmação de que o USTR concluiu a investigação sob a Seção 301, oficializando a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, é um revés severo. Mas, acima de tudo, é um diagnóstico implacável sobre o amadorismo e a saturação ideológica que paralisam nossa diplomacia governamental.

Diferentemente do tarifaço de 2025 — derrubado por seu vício político —, a investida atual possui blindagem técnica por ser um processo administrativo da Seção 301, de difícil reversão. O USTR apontou “práticas injustas” misturando assimetrias reais (etanol, propriedade intelectual e tarifas) com pautas sobre soberania, como o escrutínio sobre decisões do STF contra big techs, combate à corrupção e desmatamento.

Soma-se a isso a contaminação de agendas, a chamada linkage diplomacy. A recente classificação de facções brasileiras como organizações terroristas por Washington fundiu governança econômica e segurança nacional. O comércio virou moeda de troca geopolítica de alta complexidade — tabuleiro em que nossa diplomacia estatal demonstrou pouca agilidade de manobra.

Diante desse cerco previsível, Brasília respondeu com passividade técnica e retórica inflamada para consumo interno. O Planalto preferiu a inércia para explorar o desgaste eleitoralmente. Essa postura gerou forte reação da FIESP, que criticou o governo por alimentar “ruídos desnecessários” e priorizar conflitos personalistas em vez da economia. Estão certíssimos.

A ameaça da Fazenda de retaliar via “Lei de Reciprocidade” expõe um desconhecimento preocupante de mercado. Como ex-diretor da Apex-Brasil, sei que barreiras de vingança encarecem insumos, asfixiam importadores e destroem empregos logísticos. A obsessão por superávits ignora que potências modernas usam importações estrategicamente para criar dependência mútua, e não guerras emocionais.

Enquanto Brasília flerta com o confronto, os EUA dão uma aula de realpolitik. Junto aos 25%, o USTR aplicou 2.100 exceções, poupando setores como aeroespacial (Embraer), café e carnes. Onde o Brasil tem indispensabilidade estrutural, a tarifa caiu para blindar o americano da inflação e onde somos substituíveis, fomos atingidos sem hesitação.

Esta assimetria ficou clara nos bastidores. Diante da omissão oficial, canais de representação setorial agiram. A articulação privada levou a Washington dados técnicos que provaram o impacto das tarifas nas próprias indústrias americanas, mitigando as sanções — esforço do qual participo ativamente nos EUA desde as primeiras medidas. A Casa Branca responde a dados e articulação direta, não a notas de repúdio.

A lição é urgente: a inserção internacional do país não pode ser refém de voluntarismos. O protecionismo não se combate com indignação, mas com inteligência comercial. Para reaver a confiança, o Brasil precisa devolver o protagonismo à diplomacia corporativa privada. Sem eficiência interna e interlocução técnica despida de ideologia, assistiremos passivos à erosão de mercados que levamos décadas para conquistar.

Jogo do Futuro 

O ápice dramático da Copa do Mundo de 2026 não se limitou ao talento nos gramados, manifestou-se na precisão invisível dos elétrons. No confronto que eliminou a Croácia diante de Portugal, a história do torneio foi selada por milímetros. Um gol croata decisivo acabou anulado após o sistema de impedimento semiautomático detectar uma posição irregular imperceptível ao olho humano. O veredito nasceu dos dados transmitidos a 500Hz pelo coração tecnológico da bola Trionda. E embora o rastreamento leve a assinatura da alemã Kinexon com a Adidas, a certidão de nascimento daquela jogada aponta para o Parque Científico de Hsinchu, em Taiwan, berço da tecnologia de semicondutores.

Esse episódio ilustra uma realidade incontornável: os chips são o novo petróleo da economia global. Da gestão do tráfego aos sistemas de defesa, passando por smartphones, finanças e, agora, o esporte, nenhuma engrenagem gira sem circuitos integrados. Hoje, a cadeia de microchips é o vetor de maior vulnerabilidade e, simultaneamente, de maior poder geopolítico do planeta. Países sem acesso garantido a essa produção enfrentam riscos de apagões industriais e submissão estratégica. A corrida tecnológica atual vai além da eficiência de mercado, é uma disputa feroz por soberania. Diante disso, nações em desenvolvimento não podem mais figurar como meras consumidoras passivas de tecnologia estrangeira.

Sob essa dependência, o Brasil precisa debater urgentemente sua soberania digital. Autonomia tecnológica e processamento local de dados não são pautas puramente econômicas, mas pré-condições para a segurança nacional e a preservação das liberdades civis. Em um ecossistema hiperconectado, delegar a custódia de nossas informações e riquezas a servidores controlados por potências externas significa fragilizar nossa integridade democrática. Sem infraestrutura nacional e governança forte, dados ficam vulneráveis a vazamentos e espionagem industrial. Apenas o domínio de tecnologias críticas assegura proteção contra monitoramentos invisíveis.

Para além do hardware, essa soberania consolida-se na Inteligência Artificial. O desenvolvimento de um Grande Modelo de Linguagem (LLM) focado na língua portuguesa é um passo estratégico para reduzir a dependência de algoritmos cujos vieses refletem realidades externas. Além de mitigar o risco de bloqueios unilaterais em serviços públicos essenciais, um modelo nativo garante o alinhamento com o nosso contexto institucional. Essa busca não pressupõe isolacionismo, a infraestrutura e a formação de capital humano podem ser aceleradas por parcerias estratégicas, cooperando com polos globais e democráticos, a exemplo do modelo de Taiwan com o Paraguai, ou estreitando laços com o Japão.

Assim como os semicondutores na bola Trionda garantiram precisão em decisões nesta Copa, o futuro do Brasil depende de escolhas igualmente cirúrgicas. A dolorosa desclassificação diante da Noruega deixou claro que o futebol precisa se reconstruir, mas este processo reflete a urgência de uma modernização nacional muito mais ampla. A busca por soberania digital, IA própria e alianças com polos democráticos devem funcionar como o motor de uma economia forte. Afinal, tanto nos gramados quanto na geopolítica do silício, o protagonismo global não se sustenta com a nostalgia do passado, mas com a capacidade de dominar a tecnologia que dita as regras do jogo do futuro.

Milagre Colombiano

A Colômbia vive uma sintonia entre história política e paixão esportiva. Enquanto a seleção exibe rigor tático na Copa do Mundo de 2026, as urnas consagraram uma virada histórica: a eleição de Abelardo de la Espriella à presidência, consolidando a guinada à direita que redesenha o tabuleiro geopolítico da América Latina. No epicentro dessa catarse, a camisa amarela da seleção converteu-se no maior símbolo de disputa e identidade nacional. A tentativa da esquerda de judicializar a vestimenta provou-se um erro estratégico. Ao apropriar-se do amarelo, De la Espriella decodificou o sentimento de uma maioria silenciosa cansada de associar os símbolos pátrios ao declínio, canalizando o orgulho popular para seu projeto de reconstrução institucional.

Esse fenômeno insere-se no realinhamento conservador que varre a América Latina. Após anos de governos progressistas marcados por estagnação econômica e criminalidade, o eleitorado redescobriu o valor da ordem, da segurança jurídica e do livre mercado. Do Cone Sul ao ecossistema andino, a nova direita compreende que a soberania exige instituições fortes e alianças estratégicas claras. A proposta de De la Espriella de alinhar a Colômbia à vanguarda diplomática ocidental reflete essa mudança geopolítica, transformando o amarelo da “Tricolor” no emblema visual desse despertar regional.

Para tanto, De la Espriella estruturou uma agenda agressiva de 90 decretos para os primeiros 100 dias, focados em desregulamentação, investimentos e tolerância zero ao narcoterrorismo. Projetos estratégicos antes paralisados, como a interconexão elétrica com o Panamá, ganham uma urgência que espelha o contra-ataque veloz do futebol. A economia, sob essa ótica, deve funcionar como um meio-de-campo entrosado: menos entraves estatais, passes precisos ao setor produtivo e defesa intransigente da propriedade privada e da segurança pública, garantindo as regras fundamentais para a sociedade prosperar.

Nessa intersecção, futebol e política revelam-se complementares. O desempenho avassalador da seleção no mundial reflete uma nação que redescobriu a disciplina e a mentalidade vitoriosa. O sucesso em campo mostra que o êxito exige liderança firme e planejamento rigoroso — premissas centrais que levaram De la Espriella ao poder. Há uma simbiose psicológica entre a confiança de um povo que vê seus atletas vencerem potências globais e a coragem desse mesmo eleitorado de romper com o marasmo econômico, alimentando mutuamente a glória esportiva e a eficácia governamental.

O reconhecimento dos resultados pela oposição encerra o ciclo de incertezas e abre caminho para a transição. Ao discursar em Barranquilla vestindo orgulhosamente a camisa amarela que a justiça tentou banir, De la Espriella sinalizou o fim da timidez política. A Colômbia entra no segundo semestre de 2026 com os olhos no topo do mundo, acompanhando sua seleção rumo às fases decisivas e monitorando reformas que prometem destravar as forças vivas do país. O milagre colombiano está em campo e nas urnas, resta agora consolidá-lo com a mesma garra demonstrada nos gramados.