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Márcio Coimbra

Sobre Márcio Coimbra

Márcio Coimbra é Presidente do Instituto Monitor da Democracia. Presidente do Conselho da Fundação da Liberdade Econômica e Coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília. Cientista Político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

Onda Azul

O mundo atravessa uma reconfiguração política que já não se explica pelos manuais das últimas décadas. Em países de diferentes continentes, eleitores vêm rejeitando a combinação da elevação do custo de vida e narrativas culturais percebidas como imposições. O resultado é uma sequência de vitórias de forças de direita e centro-direita que está alterando o equilíbrio de poder internacional e, por extensão, as condições nas quais o Brasil decide seu futuro neste domingo.

Essa onda começou a se desenhar com clareza em 2016, com o Brexit no Reino Unido e a primeira eleição de Trump nos EUA. Ambos os eventos romperam a ideia de que globalização e multilateralismo eram processos irreversíveis e devolveram ao centro do debate temas como soberania, controle de fronteiras e prioridade dos interesses nacionais. A partir dali o movimento ganhou força na Europa e na América Latina, em ritmos e com características próprias em cada nação.

Na Europa, Giorgia Meloni chegou ao poder na Itália em 2022 com uma agenda explícita de direita, mantendo alta popularidade mesmo enfrentando resistências de instituições europeias. Na França, Marine Le Pen e o Rassemblement National ampliaram a presença parlamentar, sendo favoritos ao Élysée. Na Alemanha, a AfD cresceu e forçou o centro a discutir temas que eram tabus. Na Polônia, os conservadores recuperaram a Presidência com Karol Nawrocki, enquanto Tusk mantém viva a força da direita-liberal.

Do outro lado do Atlântico, a reeleição de Trump em 2024 recolocou os EUA em uma postura de reindustrialização e contenção da China. A administração passou a tratar migração e segurança de fronteiras como questões de soberania nacional. Esse reposicionamento pragmático gerou um efeito cascata, influenciando o direcionamento político de toda a região.

Na América Latina, o movimento é nítido e o ponto de inflexão foi a chegada de Nayib Bukele à Presidência de El Salvador em 2019. Sua política transformou o país de um dos mais violentos do mundo em um dos mais seguros. No Paraguai, o Partido Colorado manteve o poder com Santiago Peña em 2023. Na Bolívia, Rodrigo Paz venceu em 2025 e encerrou décadas de domínio do MAS com uma plataforma de capitalismo para todos e drástica redução do peso estatal.

No Peru, Keiko Fujimori conquistou a Presidência em 2026, alinhando o país ao bloco de governos conservadores da região. Vitórias que se somam às de Milei na Argentina,  Kast no Chile e Abelardo de la Espriella na Colômbia. Um bloco que não é fruto de conspiração, mas de respostas reais aos mesmos problemas. A comunicação digital amplificou narrativas alternativas, permitindo que os eleitores comparem resultados concretos e eficientes entre os países.

No Brasil, o primeiro turno já registrou o recado das urnas. A direita ampliou bancadas no Congresso e colocou Flávio Bolsonaro na liderança para a rodada final. O resultado dialoga com o ambiente internacional: os eleitores valorizam aqueles que prometem ordem, pragmatismo e menor adesão ao ativismo estatal. A tendência deste domingo insere-se num ciclo global em que nações redefinem prioridades e redesenham o xadrez político mundial. A conferir.

Risco Lula

A poucos dias do segundo turno, o governo Lula transformou o Orçamento e a legislação em instrumentos de campanha. Não se trata de ajustes debatidos com antecedência, mas de benefícios, renúncias e mudanças aceleradas depois do susto diante da avalanche conservadora vista nas urnas. O recado do momento é claro: a reeleição vale o risco de quebrar com o país.

O pacote inclui reajuste no Bolsa Família, perdão de dívidas, Pix de até R$ 5 mil sem devolução, elevação do teto para empreendedores, recursos para universitários e “alívios” nos combustíveis. O cardápio é vasto e o custo entrará no orçamento de 2027, comprometendo o superávit projetado. A maioria das medidas não estava no texto original e depende do Congresso. O discurso oficial fala em manter o arcabouço e chegar a superávit até 2030. Na prática, porém, o que se vê é expansão permanente sem fonte clara de compensação — um verdadeiro manicômio fiscal.

O caráter eleitoreiro está na cronologia. As medidas de maior apelo saíram depois do primeiro turno, quando Lula percebeu o risco real de ser apeado do poder pelo voto. O governo alega que parte das dívidas é irrecuperável ou vem de fundos específicos. Ainda assim, o timing coincide com a necessidade de recuperar terreno. Afinal, todos sabem a verdade: não estamos diante de uma política de Estado, mas de uma disputa de voto.

A isso se soma a aprovação acelerada do fim da escala 6×1. O Senado aprovou por 75 a 1 a redução gradual da jornada de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem corte salarial. A proposta tem apelo popular e virou vitrine de campanha. Para o país, contudo, é absurda e vai na contramão do necessário. Reduzir a jornada de forma compulsória, mantendo salários integrais e sem ganhos de eficiência, eleva o custo da hora trabalhada e não dialoga com a realidade da nova economia. Impor essa mudança é jogar fora o futuro do país, pois o resultado será menos vagas formais e menor crescimento.

Para o brasileiro médio, a conta não aparece no anúncio. A dívida já está elevada e os juros altos. Cada benefício permanente ou renúncia aumenta a pressão: juros mais altos por mais tempo, crédito mais caro, inflação mais resistente e real mais fraco. O benefício que entra agora é imediato para quem recebe. O serviço da dívida, o ajuste futuro e os custos de produção mais altos são o imposto diferido que todos pagam — em preços, financiamentos e crescimento menor. O resultado será mais uma geração perdida.

Além disso, o risco de eleger Lula depois do tsunami conservador que chegou ao Congresso é o de instalar um “pato manco” no Planalto em plena crise fiscal: um presidente que, desde o primeiro dia, terá de lutar pela legitimidade de sua própria cadeira, sem maioria, diante de um Parlamento dominado pela oposição. O mandato seria uma sucessão de impasses, vetos e derrotas legislativas. Em vez de governar, Lula passaria quatro anos negociando sua sobrevivência política.

Lula escolheu um caminho perigoso ao abraçar o populismo fiscal para tentar mais um mandato. O benefício eleitoral é imediato, mas a conta será amarga. Sem força política, sua reeleição representaria o mergulho em uma incerteza que pode, mais uma vez, tragar o futuro de nossa nação.

Tsunami Conservador

O primeiro turno selou mais do que um resultado eleitoral, consagrou uma transfiguração profunda na geografia política do Brasil. O avanço avassalador de candidaturas de direita e centro-direita no Congresso e nos governos estaduais reconfigurou os eixos de poder da República. Trata-se de um verdadeiro tsunami conservador, movido por uma indignação social articulada. Contudo, para compreender a real magnitude dessa onda, é preciso olhar para a Praça dos Três Poderes: o Supremo Tribunal Federal tornou-se o principal catalisador desse processo por um clássico efeito bumerangue.

Ao longo dos últimos anos, a corte assumiu um protagonismo atípico na vida pública nacional. Sob o pretexto de resguardar a ordem constitucional, o tribunal frequentemente ultrapassou as fronteiras da autocontenção. A judicialização ostensiva — marcada por condenações severas, restrições de fala, bloqueios de redes e intervenções na reta final — encontrou contraste direto na anulação dos processos da Lava Jato, que devolveram Lula ao jogo. Onde a toga alegou técnica processual, o eleitor leu perseguição e blindagem seletiva. Ao trocar a neutralidade de árbitro pela tutela política, o ativismo judicial converteu sanção em “efeito mártir” e transformou a rejeição ao STF no combustível eleitoral mais potente do país.

As urnas refletiram esse embate com precisão matemática. Flávio Bolsonaro liderou a corrida presidencial com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, mandando a decisão para 25 de outubro. Enquanto o herdeiro somou cinco milhões de votos a mais do que o pai em 2022, o incumbente perdeu 3,4 milhões e registrou o pior desempenho petista na etapa inicial desde 1998. Nos estados, a onda foi igualmente avassaladora: das 20 disputas resolvidas de primeira, 13 consagraram nomes de direita, com vitórias expressivas de Tarcísio de Freitas em São Paulo, Sergio Moro no Paraná e Cleitinho Azevedo em Minas Gerais, isolando o PT em sua cidadela nordestina.

A reação popular utilizou o sufrágio como o instrumento mais legítimo de freios e contrapesos. O Senado, arena constitucional para o controle do Judiciário, entregou a resposta com máxima nitidez institucional: o PL elegeu 19 senadores e atingirá 28 cadeiras em 2027 — o triplo da bancada do PT. Com aliados do PP, Republicanos, União e Novo, o bloco conservador aproxima-se de 60% do plenário. Vitórias no Distrito Federal, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, e em Santa Catarina, somadas à eleição de críticos contundentes como Deltan Dallagnol e Marcel van Hattem, estruturam a maioria necessária para impor sabatinas rigorosas, limitar decisões monocráticas e pautar eventuais impeachments. Na Câmara, o PL atingiu o recorde de 121 deputados federais, puxado por votações históricas de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato.

A história demonstra que decisões judiciais não substituem a soberania popular nem pacificam controvérsias pela coerção. Ao tentar governar o conflito político, o STF acabou acelerando o levante que pretendia conter. O tsunami eleitoral deixa um recado indiscutível para a República: quando a toga invade o terreno da política, a democracia reage e as urnas se encarregam de reestabelecer a vontade popular.

República do Arbítrio

O Brasil caminha para mais um pleito eleitoral sob a atmosfera sufocante de uma nação fraturada, conflagrada e sem consensos. Contudo, a maior ameaça à integridade da disputa não reside unicamente no acirramento da polarização nas ruas, mas na consolidação de uma engenharia institucional orientada a transferir a decisão das urnas para os gabinetes dos tribunais. O fantasma da judicialização da eleição tornou-se um risco iminente, alimentado por sinais inequívocos de que setores do Supremo Tribunal Federal estão dispostos a levar o resultado do pleito para o “tapetão”.

Trata-se de uma estratégia que subverte a democracia. Sob o pretexto de combater a desinformação, observa-se a atuação articulada de uma ala da Corte historicamente alinhada ao grupo lulista. Esse estamento vem utilizando o poder jurisdicional de forma heterodoxa para intervir no processo político. A proliferação de inquéritos de ofício — sem provocação do Ministério Público ou da Polícia Federal —, o atropelo ao juiz natural, censuras e o sobrepujamento da Justiça Eleitoral compõem um roteiro deliberado de ingerência. O que está em curso é a consolidação de uma estrutura autocrática em que o critério de legalidade é moldado pela conveniência do candidato de estimação do estamento togado.

Essa dinâmica evidencia-se no fustigamento ostensivo ao Tribunal Superior Eleitoral. Sempre que a Justiça Eleitoral tenta impor freios ao arbítrio, a ala governista do STF reage com pressão e desconfiança, passando a intimidação por meio de vazamentos e chantagens explícitas. O inconformismo em não exercer o controle absoluto do processo revela a intenção de fabricar uma narrativa de nulidade do pleito. Prepara-se o terreno para contestar a legitimidade do resultado caso as urnas revelem uma escolha desfavorável ao grupo encastelado no poder.

Caso o resultado eleitoral seja arrastado para o tapetão e revirado por manobras pouco ortodoxas em favor do candidato lulista, o Brasil enfrentará uma imediata denúncia internacional. Governos estrangeiros e organismos multilaterais dificilmente chancelarão um governo cuja legitimidade decorra de atos arbitrários de magistrados partidarizados. Sanções diplomáticas, isolamento econômico e perda de credibilidade externa seriam inevitáveis, rebaixando a República à condição de pária internacional.

A soberania popular é o único alicerce capaz de sustentar a paz social e a estabilidade democrática. Quando o Judiciário abandona a sua função constitucional de guardião imparcial das leis para atuar como linha de defesa de uma candidatura, o pacto republicano é rompido. É urgente que os tribunais retomem a prudência, o respeito às normas processuais e a contenção institucional, um desafio especial para Fachin, um Presidente fraco, que não consegue liderar a corte. A insistência em manipular o resultado eleitoral levará o Brasil a um colapso sem volta, submergindo o país em um estado permanente de caos, ruína diplomática e ingovernabilidade.

Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. 

A Omertà Togada

A sessão do Supremo Tribunal Federal na última terça-feira figurará como um marco desconcertante na trajetória recente do Judiciário brasileiro. Em meio ao acirramento dos debates no plenário, a invocação do termo Omertà — o histórico código de silêncio das organizações mafiosas — pelo ministro Gilmar Mendes, expôs uma fissura preocupante na dinâmica da Suprema Corte. Quando a exigência de espírito de corpo e blindagem institucional é externada mediante analogias dessa natureza, abre-se uma crise de credibilidade sem precedentes, na qual a transparência do debate público parece sucumbir diante da pressão pelo alinhamento corporativo.

Nesse embate, a conduta de André Mendonça sobressaiu-se pela sobriedade. Distante de confrontos ruidosos, sua posição pautou-se pela observância do devido processo legal e pela defesa do debate aberto, fundamentando-se nas normas institucionais em vez de ceder aos constrangimentos de uma pretensa lealdade interna. Em contrapartida, a articulação observada no grupo alinhado ao ministro Alexandre de Moraes — exemplificada pelo pedido de vista do ministro Flávio Dino — soou para ampla parcela da sociedade como o uso tático de expedientes regimentais para postergar deliberações incômodas e arrefecer desgastes políticos. A percepção de que a chicana jurídica é empregada para proteger determinados polos do próprio tribunal corrói a confiança republicana.

Contudo, os desdobramentos dessa tentativa de autoproteção ultrapassam os limites do plenário e repercutem de forma devastadora na política nacional. Ao engajar o governo e ministros indicados por Lula — como Flávio Dino e Cristiano Zanin — na linha de frente para blindar Moraes, o Palácio do Planalto compromete seriamente suas próprias pretensões de conquistar mais um mandato presidencial. Essa operação de salvamento atua como poderoso catalisador para o eleitorado, impulsionando decisivamente a candidatura opositora de Flávio Bolsonaro, que protagoniza o duelo contra os arbítrios e as práticas heterodoxas no Supremo. Ao endossar o corporativismo da Corte, Lula pode ter entregado a vitória nas mãos de Flávio Bolsonaro.

O principal vetor desse contraponto reside nas eleições para o Senado Federal. O cidadão compreendeu de forma pragmática que a Câmara Alta é o único fórum constitucional dotado de competência para fiscalizar os excessos e impor limites à atuação do Judiciário. Se antes as projeções indicavam a eleição de uma bancada de direita com aproximadamente 43 senadores, o espetáculo corporativo presenciado nesta semana tende a inflar expressivamente esse número, transformando o pleito vindouro em uma verdadeira consulta popular sobre os rumos da jurisdição constitucional no Brasil.

Mais do que uma disputa partidária, a escolha que se aproxima carrega uma dimensão ética incontornável. Existe uma contradição insanável entre a ética da Omertà — fundamentada no silêncio cúmplice, na corporativização e no privilégio pessoal — e a ética republicana, ancorada na publicidade, na impessoalidade e na submissão irrestrita à lei. Cabe aos eleitores rejeitar categoricamente nas urnas o código mafioso do corporativismo cego invocado pelo Supremo, afirmando em seu lugar a ética da legalidade e o império da Constituição Federal.

Crise Suprema

O Poder Judiciário brasileiro atravessa um dos momentos de maior desgaste de sua história recente. O Supremo Tribunal Federal, desenhado pela Carta Magna para atuar como o guardião altivo e silencioso da Constituição, converteu-se em uma ruidosa arena de contenciosos políticos. Assiste-se a uma preocupante politização da cúpula judicial: atores vestidos de toga transferiram para o plenário embates partidários que deveriam permanecer contidos na arena parlamentar. A crise atual não é um fato isolado, mas o ápice de um longo processo de hipertrofia institucional, marcado pelo desapego ao devido processo legal.

Essa degeneração não ocorreu por falta de avisos. Há mais de duas décadas, alertas veementes já apontavam para os riscos da expansão desmedida do Judiciário. No final dos anos 1990, o senador Antonio Carlos Magalhães travou duros embates ao propor a CPI do Judiciário, denunciando a morosidade, a ineficiência e a benevolência corporativa com desvios na magistratura. ACM advertiu que uma estrutura sem freios externos descambaria em arrogância e insularidade. O tempo confirmou o prognóstico: a omissão em reformar a instituição consolidou uma cúpula refratária ao controle republicano.

A conflagração interna observada hoje na Corte expôs um perigoso modelo autocrático e inquisitorial, centrado no uso perpétuo de inquéritos extraordinários, nos quais a mesma figura atua simultaneamente como vítima, acusador e julgador, atropelando prerrogativas do Executivo e do Legislativo sob o pretexto de defender a ordem democrática – uma prática que não dialoga com qualquer sistema de liberdades. A magistratura, ao contrário, deve pautar-se pela contenção, sobriedade técnica e estrita legalidade — uma postura comprometida com a transparência pública, com o rigor procedimental e a imparcialidade.

Este ativismo contrasta com a prática de democracias consolidadas. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte fundamenta sua autoridade na contenção (judicial restraint) e nas “virtudes passivas”, recusando-se a instaurar investigações de ofício ou decidir controvérsias puramente políticas. Na França, o Conseil Constitutionnel limita-se à fiscalização de constitucionalidade, sem usurpar a função parlamentar nem atuar como órgão de investigação criminal. Na Alemanha, o Tribunal Constitucional impõe a si mesmo estritas balizas de autolimitação para preservar a neutralidade do julgador.

Quando a reação a atos de transparência no Brasil se dá por meio de retaliações procedimentais e uso de decisões monocráticas para conter denúncias, revela-se a fragilidade moral do modelo inquisitorial. Como escreveu Piero Calamandrei, “se o juiz falha em servir de exemplo, as pessoas perdem a confiança nas leis e no próprio sistema judicial”. Não há democracia sem essa confiança.

Já passou da hora de promover uma reforma profunda no Poder Judiciário. É urgente romper a insularidade dos tribunais, impor limites às liminares individuais, fixar mandatos temporais e proibir investigações de ofício. A Crise Suprema é o sintoma derradeiro de um sistema que extrapolou suas balizas e exige imediata recondução aos limites estritos da Constituição.

Geopolítica da Inteligência Artificial

Em Bishkek, o 25º aniversário da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) ergueu-se como um divisor de águas na geopolítica da Eurásia. Sob a presença de dezessete chefes de Estado — liderados por figuras centrais como Xi Jinping, Vladimir Putin, Narendra Modi e Masoud Pezeshkian —, a cúpula buscou projetar uma alternativa coesa ao domínio ocidental, delineando as contornadas ambições de um mundo multipolar.

Contudo, sob o espectro da guerra na Ucrânia e das tensões no Oriente Médio, os holofotes deram lugar a bastidores efervescentes, onde a retórica anti-imperialista conviveu com discretos e calculados gestos em direção a Washington. Porém, por trás dos discursos oficiais e da integração declarada, emergiu a verdadeira fratura que inquieta a Ásia Central: o desafio premente de aderir à revolução da inteligência artificial sem entregar sua soberania tecnológica ao sistema de monitoramento de Pequim.

A Rota da Seda Digital e a Armadilha da Centralização de Dados

No centro da SCO, a China projeta sua influência não apenas por meio de acordos comerciais tradicionais ou financiamentos da Iniciativa Cinturão e Rota, mas através de uma agressiva expansão da Rota da Seda Digital, assim como tem feito na América Latina. Em um momento em que a corrida computacional exige investimentos colossais para a criação de centros de processamento de dados e adoção de algoritmos avançados, Pequim oferece às capitais centro-asiáticas uma solução aparentemente sedutora: pacotes integrados de tecnologia, infraestrutura de telecomunicações e modelos de inteligência artificial de código aberto a custos substancialmente inferiores aos ocidentais. No entanto, a arquitetura digital proposta pela China é fundamentada no controle centralizado e na opacidade. Ao implementar sistemas de cidades inteligentes, data centers e redes de conectividade operadas por estatais ou gigantes corporativas chinesas, Pequim estabelece uma teia de captura de dados que desperta profundas suspeitas regionais.

O Dilema da Soberania e as Suspeitas Centro-Asiáticas

As preocupações que ecoam nas capitais da Ásia Central são reais. A concentração de dados estratégicos em servidores sujeitos à legislação de segurança nacional chinesa alimentam o receio de que a soberania dessas repúblicas possa ainda ser corroída. Para nações que historicamente exerceram uma diplomacia multivetorial — buscando equilibrar influências externas —, a entrega de sua infraestrutura crítica à China representa uma transição perigosa de uma autonomia relativa para um estado de vassalagem digital. A percepção de que a Rota da Seda Digital funciona como um aspirador de dados estratégicos e vetor de monitoramento tem gerado um desgaste silencioso na imagem de Pequim como parceiro confiável na região.

O Modelo Americano: Transparência, Hardware de Ponta e Soberania Digital

É justamente nesse vácuo de confiança que os Estados Unidos encontram uma oportunidade para se consolidarem como o parceiro mais confiável, seguro e viável para a Ásia Central. Diferente da abordagem de Estado totalizante adotada pela China, o modelo americano fundamenta-se na dinamização do setor privado, na transparência de governança e no respeito à soberania digital dos parceiros locais. Washington pode oferecer a mais avançada tecnologia computacional do planeta sem exigir o controle dos dados ou a submissão política. O projeto do “Data Center Valley” no Cazaquistão, avaliado em dez bilhões de dólares, exemplifica como a cooperação americana capacita a região a desenvolver ecossistemas próprios de dados sob sua gestão exclusiva. Ao alinhar esse avanço a iniciativas como a Pax Silica, os EUA oferecem um ecossistema seguro e auditável.

Pragmatismo Estratégico e o Futuro das Alianças Eurasianas

Para que essa superioridade estrutural se traduza em uma liderança duradoura, a política externa norte-americana precisa alinhar sua diplomacia à realidade pragmática vivida na Eurásia. Os desdobramentos da Cúpula de Bishkek evidenciaram que os líderes da Ásia Central não desejam ser empurrados para dinâmicas de soma zero ou ultimatos rígidos. Ao contrário da China, que utiliza sua proximidade geográfica e peso financeiro para exercer pressões assimétricas, os Estados Unidos ganham a confiança da região quando atuam como garantidores de escolhas soberanas e facilitadores de prosperidade tecnológica. Ao combinar a excelência de seus chips, a robustez de seus modelos fechados de IA e o suporte de agências de financiamento para mitigar riscos de infraestrutura, o governo americano consolida uma alternativa qualitativamente imbatível. No grande jogo tecnológico da Eurásia, a confiança não se constrói com a captura de dados, mas com capacitação real, segurança e respeito à autonomia, uma receita que também se encaixaria de forma perfeita na América Latina.

Geopolítica da Transição

O sistema internacional atravessa uma reconfiguração estrutural profunda. A crescente disputa por hegemonia entre Estados Unidos e China, aliada ao imperativo de transição energética e à corrida pela soberania em inteligência artificial, redefiniu os eixos do poder global. Nessa nova arquitetura geopolítica, a segurança energética e a disponibilidade de insumos tecnológicos deixaram de ser meros temas econômicos e passaram a constituir elementos centrais da alta estratégia dos Estados. O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica: não como espectador passivo, mas como um ator pivotal. A questão premente que se impõe à diplomacia e às elites políticas do país é saber se teremos a maturidade estratégica para negociar nosso futuro com altivez ou se repetiremos o erro histórico do alheamento frente às grandes transformações internacionais.

As evidências empíricas e geoeconômicas demonstram que o Brasil reúne condições ímpares para alterar qualitativamente sua inserção no cenário global. Enquanto os centros tradicionais de poder enfrentam complexos dilemas para descarbonizar suas matrizes e suprir a crescente demanda computacional dos centros de dados de inteligência artificial, o Brasil apresenta um ativo de inestimável valor diplomático: aproximadamente 88% de sua geração elétrica provém de fontes limpas e renováveis, contra uma média global que mal supera o patamar de 30%. Essa assimetria positiva confere ao país uma vantagem competitiva e negociadora sem paralelo para a atração de indústrias de ponta e infraestrutura de tecnologia crítica.

No plano geológico, a convergência entre transição tecnológica e segurança de suprimentos transforma nosso subsolo em um vetor de projeção de poder. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras — estimada em mais de 21 milhões de toneladas —, além de deter mais de 90% das reservas globais de nióbio e depósitos altamente estratégicos de lítio de alta pureza no Vale do Jequitinhonha, além de expressivas jazidas de níquel e cobre. Insumos dessa natureza constituem o cerne das cadeias de valor dos semicondutores, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa de última geração. Deter a posse desses recursos significa possuir as alavancas do novo arranjo produtivo mundial.

Sob a ótica da diplomacia econômica, o desafio fundamental é superar de forma definitiva o modelo tradicional de exportador primário. Negociar com Washington, Pequim ou Bruxelas exige abandono da passividade em favor de uma estratégia soberana e pragmática: o acesso aos recursos e ao mercado brasileiro deve estar condicionado à transferência efetiva de tecnologia, adensamento das cadeias produtivas locais e processamento de valor agregado em território nacional. Trata-se de instrumento político para consolidar a autonomia industrial e tecnológica do país.

O Brasil dispõe dos elementos necessários para sentar-se à mesa das grandes potências não como fornecedor de commodities, mas como formulador geopolítico. Infelizmente, cabe aos nossos líderes políticos, que estão muito aquém desta tarefa, desenhar um projeto de Estado denso e articulado, capaz de converter nosso potencial estratégico em influência diplomática concreta e desenvolvimento real. Neste ponto reside o grande desafio das próximas gerações. Sem lideranças de qualidade, perderemos a corrida geopolítica desta transição, nos tornando mais uma vez expectadores da nova ordem que se desenha.

Reconstrução Diplomática

A ideia de que as relações internacionais pertencem exclusivamente à burocracia de Brasília prescreveu. No século XXI, a fronteira entre decisões domésticas e disputas globais desapareceu: a capacidade de gerar empregos, atrair capital e proteger a produção nacional é determinada pelo posicionamento geopolítico do país. Do preço dos fertilizantes à atração de investimentos em infraestrutura, o cotidiano do cidadão depende da política externa. Em um mundo moldado pela rivalidade entre potências, o amadorismo ideológico e a volatilidade reputacional cobram um preço alto. Para reestruturar a inserção internacional do país, é imperativo substituir o voluntarismo por um pragmatismo liberal, firme e focado no interesse nacional.

Essa inflexão exige recompor laços de confiança com o eixo de democracias liberais do Ocidente — Estados Unidos, União Europeia e parceiros do Indo-Pacífico —, garantindo a segurança jurídica indispensável para atrair investimentos e cooperação estratégica. Paralelamente, quanto aos regimes autoritários, o país deve manter uma postura madura: preservar canais abertos com grandes mercados compradores sem conceder chancela política a modelos autocráticos. No âmbito regional, cabe ao Brasil liderar a modernização do Mercosul, flexibilizando o bloco para permitir acordos bilaterais em ritmos distintos.

A conversão da diplomacia em crescimento tangível passa pela conclusão da adesão do Brasil à OCDE, selo de maturidade regulatória e de livre mercado. Além disso, o país precisa se posicionar como fornecedor indispensável para a transição energética e tecnológica. Com valiosas reservas de minerais críticos — como lítio, níquel e terras raras — e uma matriz elétrica limpa, o Brasil deve usar esses ativos como moeda de negociação estratégica, condicionando o acesso aos recursos à instalação de plantas industriais e à transferência tecnológica, superando a condição de mero exportador de commodities brutas. Da mesma forma, a escala do agronegócio deve virar poder geopolítico para assegurar o suprimento de insumos.

No plano global, o Brasil deve exercer voz ativa, defendendo a soberania nacional e rejeitando restrições indevidas à sua agricultura e indústria. Para dar sustentação a esse protagonismo, é essencial firmar parcerias tecnológicas com nações democráticas, como Japão e Taiwan, priorizando a cooperação em inteligência artificial e semicondutores. Essa integração à cadeia global de inovação constrói soberania digital, desenvolve a indústria de alta complexidade e viabiliza os corredores bioceânicos, consolidando o país como o principal hub tecnológico e logístico da América do Sul.

A reconstrução da diplomacia brasileira não é uma abstração teórica, é um compromisso direto com o desenvolvimento e o bem-estar da população. Ao abandonar os equívocos do passado e adotar uma visão pautada pelo livre mercado, pela segurança jurídica, pelo respeito às democracias e pelo crescimento produtivo, o Brasil deixa de ser espectador para se tornar arquiteto do seu próprio destino. Uma diplomacia moderna, firme e pragmática converterá nossa atuação internacional no motor mais potente de prosperidade, soberania e orgulho nacional.

Conexão Moscou 

Na alta geopolítica, a ingenuidade é um luxo caríssimo e a coincidência, uma ilusão para amadores. Quando o Palácio do Planalto recebe, de portas fechadas e fora da agenda oficial, o homem apontado pelo Ocidente como o verdadeiro número dois do Kremlin, o recado ao mundo vai muito além do protocolo. A presença silenciosa de Nikolai Patrushev em Brasília, em meio a atritos com Washington e a poucos meses do pleito eleitoral, não é um fato isolado. É o ponto de convergência de uma estratégia russa de longo alcance que envolve guerra híbrida, dependência energética e a instrumentalização do território brasileiro.

A escolha do Brasil pelo aparato de segurança de Moscou não é recente. O país tornou-se entreposto global para a “lavagem de identidades” do programa de espiões “Ilegais” da Rússia. Casos como os de Sergey Cherkasov e Mikhail Mikushin mostraram como a inteligência russa usou brechas cartorárias para fabricar passaportes e infiltrar agentes no TPI e na OTAN. A exploração avançou também sobre o capital humano, atraindo jovens brasileiros para o front com falsas promessas. O padrão é claro: Moscou enxerga o Brasil como um território conveniente, capaz de fornecer desde identidades falsas até infantaria descartável para sua combalida máquina de guerra.

A dimensão mais pragmática dessa aliança subterrânea, contudo, é financeira e logística. Enquanto o discurso oficial empunha a “neutralidade”, a economia real revela a adesão ao financiamento do esforço de guerra de Vladimir Putin. Mais de R$ 6,2 bilhões em diesel russo sancionado entraram no país por uma “frota fantasma” de 32 navios com rotas maquiadas e ligações com o crime organizado expostas pela Operação Carbono Oculto. Hoje, a Rússia responde por 63% de todo o diesel importado pelo Brasil. Neste contexto, a figura de Patrushev — presidente do Conselho Marítimo russo — é decisiva. Sua passagem por Brasília, reunindo-se com ministérios estratégicos, civis e militares, buscou garantir blindagem regulatória e a manutenção dessas rotas paralelas.

Essa articulação ganha gravidade sob a ótica da guerra de informação. Patrushev, sancionado pela OFAC, é o mestre intelectual das operações globais de manipulação eleitoral do Kremlin. Sua visita ocorreu quando a diplomacia brasileira entrava em rota de colisão com os EUA, com revogações cruzadas de vistos e acusações de ingerência. O sinal é inequívoco: Brasília acusa os americanos de interferência eleitoral enquanto acolhe no Planalto, fora da agenda, o ex-chefe da antiga KGB, hoje chamada de FSB, e arquiteto da guerra suja russa com um currículo interminável de desinformação política no exterior. Em ano de eleições, a presença da cúpula da inteligência russa não é coincidência de calendário, mas uma troca de conveniências geopolíticas.

Ao tolerar o uso de seu território para espionagem, permitir o atracamento de uma frota clandestina de combustível e receber em segredo o chefe da inteligência do Kremlin sancionado internacionalmente, o Brasil sacrifica sua histórica reputação diplomática. A visita de Patrushev consolidou um pacto silencioso de cooperação logística, energética e de inteligência que insere nosso país no mapa das operações híbridas da Rússia — com custos que cobrarão seu preço por gerações.