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Fim do Inquérito das Fake News é necessário mas não suficiente

O envolvimento direto de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com o banqueiro bandido (ou bandido banqueiro) Daniel Vorcaro é, sem dúvida, um dos maiores escândalos da nossa já muito escandalosa República. Todavia, os sinais de degradação das nossas instituições já vinham se desenhando há tempos. 

Antigamente, as ditaduras eram estabelecidas por vias violentas; nos tempos atuais, elas se vão construindo através da perversão das instituições e das leis. 

Muitos foram os personagens que contribuíram para o caos institucional no qual nos encontramos, mas, ironicamente, aquele que colocou uma pá de cal na ilusão de que vivemos em um país democrático foi justamente aquele que se arvorou e foi aclamado como arauto e defensor da democracia. 

O tal “inquérito das Fake News”, aberto de ofício, no qual Alexandre de Moraes atuou como vítima, investigador e julgador e que se estende Ad infinitum como arma política intimidatória de adversários foi um ponto de inflexão. A aceitação pelos outros ministros e pelos outros poderes dessa aberração jurídica ainda em curso selou o destino vergonhoso do STF e talvez tenha selado também o trágico destino da Nova República.

Em participação recente no programa de Willian Waack, na CNN, o jornalista Mario Sabino fez notar que há uma continuidade entre o fim da Lava Jato e o inquérito das fake news.

Segundo ele, embora tenha se consolidado publicamente a tese de que o tal inquérito visava proteger a Corte e as instituições democráticas de ataques digitais, sua origem esteve diretamente atrelada a uma reação do tribunal às críticas feitas pelos procuradores da operação Lava Jato.

Sabino publicou no portal O Antagonista um artigo assinado pelo procurador da Lava Jato Diogo Castor, no qual o magistrado criticava asperamente uma decisão em curso no STF. A crítica do procurador voltava-se contra a intenção do Supremo de transferir o julgamento e a investigação de crimes de caixa 2 para a Justiça Eleitoral. 

A equipe da Lava Jato sustentava que a Justiça Eleitoral não possuía a estrutura nem os instrumentos técnicos adequados para conduzir apurações complexas dessa natureza, encarando a medida como uma forma velada de assegurar a impunidade dos investigados. 

Diante da forte repercussão do artigo e da contestação pública promovida pelos procuradores, somada ao conturbado contexto político da época envolvendo o governo Bolsonaro, os ministros do Supremo, enfurecidos com as críticas, decidiram instaurar de ofício o Inquérito das Fake News. 

Para Mario Sabino, portanto, a decisão do STF de reagir às pressões da operação deu início a um processo de centralização de poderes na Corte que acabou por enfraquecer o combate à corrupção e desidratar as conquistas da Lava Jato.

Pois bem, em capítulo recente da novela que se desenrola no Supremo, o presidente, ministro Edson Fachin, decidiu retirar das mãos de Alexandre de Moraes a condução do famigerado inquérito, assumindo sua relatoria. Além disso determinou que a investigação sobre as mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro seja submetida ao plenário da Corte. 

A toda evidência, o também chamado “inquérito do fim do mundo” constitui-se em uma excrescência inconstitucional, além de absolutamente imoral. Sua abrangência é tão larga que ninguém, salvo o antigo relator, sabia o que ele poderia alcançar. Ao arrepio de toda lógica regimental, esse instrumento intimidatório típico de ditaduras foi se arrastando para muito além de um tempo razoável. É mister que agora seja extinto. 

O que não se pode aceitar, porém, é que se considere isso uma punição suficiente para Alexandre de Moraes. Retirar das mãos do tirano o instrumento de exercício de sua tirania não deve ser moeda de troca para acomodações pouco republicanas. 

Moraes (sem falar também em Dias Toffoli) precisa ser investigado e, se os seus colegas ministros, por corporativismo insano e imoral, se recusarem a fazê-lo, o povo tem que tomar as ruas, mostrando que não aceita mais continuar a mercê da cleptocracia na qual se transformou o nosso arremedo de República. 

É preciso também apoiar André Mendonça. Não porque ele seja imune a críticas, mas pelo simples fato de que está tentando exercer a legalidade, enquanto a facção podre do STF está pervertendo a legalidade para obtenção da impunidade e perpetuação de crimes.

Se, em vez da investigação dos ministros envolvidos no caso Master, houver acomodação ou retaliação a Mendonça, só restará à sociedade o caminho não institucional de uma rebelião, um movimento organizado de desobediência civil. 

Guerra cognitiva da China contra Taiwan usando inteligência artificial

A Inteligência Artificial como Arma na Guerra Cognitiva da China contra Taiwan

O debate em torno dos benefícios econômicos, avanços técnicos e consequências da adoção massiva das tecnologias de Inteligência Artificial domina não só o noticiário econômico e comportamental, mas também o político. Um aspecto, contudo, tem sido pouco explorado: o uso da inteligência artificial como uma nova frente de conflito silencioso no Estreito de Taiwan, alimentando campanhas de desinformação projetadas para corroer o tecido social de uma nação sem que um único tiro seja disparado.

Essa estratégia é conhecida como Guerra Cognitiva, que pretende conquistar territórios ao conquistar a mente de um povo. Pequim há anos investe em operações de influência que combinam propaganda tradicional com ferramentas da chamada IA generativa — como, por exemplo, as deepfakes, que geram conteúdo capaz de imitar vozes de autoridades, fabricar vídeos de líderes taiwaneses e inundar redes sociais com narrativas que semeiam dúvidas sobre a capacidade de defesa de Taiwan ou sobre a confiabilidade de seus aliados ocidentais.

A instrumentalização da IA nesse contexto se aproveita das redes sociais ao dar escala a essas falsificações, uma vez que os modelos permitem a difusão de milhares de publicações persuasivas em minutos e em múltiplos idiomas, simulando um debate orgânico onde na verdade existe coordenação centralizada. Outra forma de atuação é a entrega manipulada desses conteúdos, explorando algoritmos de recomendação para que narrativas específicas cheguem a públicos vulneráveis, como eleitores indecisos. Isso só é possível graças à verossimilhança alcançada pelas novas tecnologias, com áudios e vídeos cada vez mais difíceis de distinguir em relação aos autênticos. Esse problema tende a se agravar à medida que a tecnologia se torna mais barata e acessível.

As operações de guerra cognitiva não visam necessariamente convencer, mas exaurir. Ao saturar o debate público com contradições, a estratégia busca produzir fadiga cognitiva e ceticismo generalizado, que faz com que os cidadãos deixem de confiar em qualquer fonte, inclusive nas legítimas. Esse é o efeito mais perigoso, uma vez que uma sociedade que não acredita em nada se torna paralisada em suas tomadas de decisão, criando um ambiente sem diálogo saudável e democrático, polarizado em torno de posições extremas.

Taiwan, consciente da ameaça que esse cenário cria para sua sobrevivência, tem respondido com iniciativas de alfabetização midiática, verificação de fatos em tempo real e parcerias com plataformas tecnológicas para identificar contas inautênticas. Ainda assim, a assimetria é evidente: enquanto a defesa exige verificação lenta e criteriosa, o ataque se beneficia da velocidade e da caixa preta dos algoritmos das gigantes de tecnologia. 

As democracias de todas as partes do mundo devem olhar para o Estreito de Taiwan com atenção, não só pela natural solidariedade entre as democracias, mas porque esse tipo de campanha é facilmente replicável e os processos eleitorais são naturalmente vulneráveis a ela. Uma lição importante a ser notada é que a realidade criada por essa revolução tecnológica transforma a capacidade dos cidadãos de identificar e resistir a campanhas de guerra cognitiva em um aspecto crucial para a defesa nacional.

O dilema reside na dualidade da tecnologia de IA, que por um lado facilita a falsificação e a manipulação massiva, por outro abre uma janela de oportunidade para o desenvolvimento econômico, típica dos períodos de ‘destruição criativa’. Precisamos enfrentar o tema com seriedade e construir políticas públicas que criem mecanismos capazes de detectar ataques de Guerra Cognitiva, mantendo o debate público aberto e franco. Isso inclui a criação de regulações inteligentes e transparentes para as gigantes da tecnologia, além de investimento na educação da população para torná-la menos vulnerável ao arsenal da IA empregado na guerra cognitiva. Taiwan nos ensina que a consciência e a atenção dos cidadãos são os verdadeiros campos de batalha no século XXI.

Geopolítica da Inteligência Artificial

Em Bishkek, o 25º aniversário da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) ergueu-se como um divisor de águas na geopolítica da Eurásia. Sob a presença de dezessete chefes de Estado — liderados por figuras centrais como Xi Jinping, Vladimir Putin, Narendra Modi e Masoud Pezeshkian —, a cúpula buscou projetar uma alternativa coesa ao domínio ocidental, delineando as contornadas ambições de um mundo multipolar.

Contudo, sob o espectro da guerra na Ucrânia e das tensões no Oriente Médio, os holofotes deram lugar a bastidores efervescentes, onde a retórica anti-imperialista conviveu com discretos e calculados gestos em direção a Washington. Porém, por trás dos discursos oficiais e da integração declarada, emergiu a verdadeira fratura que inquieta a Ásia Central: o desafio premente de aderir à revolução da inteligência artificial sem entregar sua soberania tecnológica ao sistema de monitoramento de Pequim.

A Rota da Seda Digital e a Armadilha da Centralização de Dados

No centro da SCO, a China projeta sua influência não apenas por meio de acordos comerciais tradicionais ou financiamentos da Iniciativa Cinturão e Rota, mas através de uma agressiva expansão da Rota da Seda Digital, assim como tem feito na América Latina. Em um momento em que a corrida computacional exige investimentos colossais para a criação de centros de processamento de dados e adoção de algoritmos avançados, Pequim oferece às capitais centro-asiáticas uma solução aparentemente sedutora: pacotes integrados de tecnologia, infraestrutura de telecomunicações e modelos de inteligência artificial de código aberto a custos substancialmente inferiores aos ocidentais. No entanto, a arquitetura digital proposta pela China é fundamentada no controle centralizado e na opacidade. Ao implementar sistemas de cidades inteligentes, data centers e redes de conectividade operadas por estatais ou gigantes corporativas chinesas, Pequim estabelece uma teia de captura de dados que desperta profundas suspeitas regionais.

O Dilema da Soberania e as Suspeitas Centro-Asiáticas

As preocupações que ecoam nas capitais da Ásia Central são reais. A concentração de dados estratégicos em servidores sujeitos à legislação de segurança nacional chinesa alimentam o receio de que a soberania dessas repúblicas possa ainda ser corroída. Para nações que historicamente exerceram uma diplomacia multivetorial — buscando equilibrar influências externas —, a entrega de sua infraestrutura crítica à China representa uma transição perigosa de uma autonomia relativa para um estado de vassalagem digital. A percepção de que a Rota da Seda Digital funciona como um aspirador de dados estratégicos e vetor de monitoramento tem gerado um desgaste silencioso na imagem de Pequim como parceiro confiável na região.

O Modelo Americano: Transparência, Hardware de Ponta e Soberania Digital

É justamente nesse vácuo de confiança que os Estados Unidos encontram uma oportunidade para se consolidarem como o parceiro mais confiável, seguro e viável para a Ásia Central. Diferente da abordagem de Estado totalizante adotada pela China, o modelo americano fundamenta-se na dinamização do setor privado, na transparência de governança e no respeito à soberania digital dos parceiros locais. Washington pode oferecer a mais avançada tecnologia computacional do planeta sem exigir o controle dos dados ou a submissão política. O projeto do “Data Center Valley” no Cazaquistão, avaliado em dez bilhões de dólares, exemplifica como a cooperação americana capacita a região a desenvolver ecossistemas próprios de dados sob sua gestão exclusiva. Ao alinhar esse avanço a iniciativas como a Pax Silica, os EUA oferecem um ecossistema seguro e auditável.

Pragmatismo Estratégico e o Futuro das Alianças Eurasianas

Para que essa superioridade estrutural se traduza em uma liderança duradoura, a política externa norte-americana precisa alinhar sua diplomacia à realidade pragmática vivida na Eurásia. Os desdobramentos da Cúpula de Bishkek evidenciaram que os líderes da Ásia Central não desejam ser empurrados para dinâmicas de soma zero ou ultimatos rígidos. Ao contrário da China, que utiliza sua proximidade geográfica e peso financeiro para exercer pressões assimétricas, os Estados Unidos ganham a confiança da região quando atuam como garantidores de escolhas soberanas e facilitadores de prosperidade tecnológica. Ao combinar a excelência de seus chips, a robustez de seus modelos fechados de IA e o suporte de agências de financiamento para mitigar riscos de infraestrutura, o governo americano consolida uma alternativa qualitativamente imbatível. No grande jogo tecnológico da Eurásia, a confiança não se constrói com a captura de dados, mas com capacitação real, segurança e respeito à autonomia, uma receita que também se encaixaria de forma perfeita na América Latina.

Na “festa da democracia”, Dias Toffoli escolhe quem pode entrar

Por vias tortas, entre abusos velhos e malandragens renovadas, a disputa presidencial 2026 no Brasil segue em direção a um pântano de desilusão, que será um segundo turno disputado pelos dois piores candidatos: o presidente atual Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que até o momento polarizam o pleito e se mantêm com intenções de voto muito acima dos outros concorrentes. 

Lula tenta seu quarto mandato (sexto mandato do PT). Para vencê-lo, a oposição teria de contar com um político vigoroso, determinado, disposto a enfrentar as responsabilidades e riscos de uma disputa tão importante quanto difícil. Infelizmente, a massa oposicionista tem optado por levantar contra Lula o herdeiro de quem foi derrotado pelo mesmo Lula; com o agravante de que o herdeiro é pior do que o pai. No mínimo, é mais covarde. Uma demonstração de sua tibieza foi ter fugido do primeiro debate entre presidenciáveis na Band.

Deste debate – uma tradição desde a eleição presidencial de 1989, a primeira após a redemocratização – também fugiu o presidente Lula. Neste caso, além de tibieza, houve malandragem. Ocorreu que, não satisfeito em fugir do debate, Lula usou do poder do seu cargo de presidente da República para convocar a Record a entrevistá-lo no Palácio da Alvorada no mesmo horário do debate da Band. O Alvorada é prédio público, portanto vedado ao uso eleitoral-partidário. 

Embora dificílima, a possibilidade de escapar de um segundo turno entre “o péssimo” e “o muito ruim”, ainda existe: ainda há tempo para o eleitorado de oposição perceber a inviabilidade do candidato do PL e avançar com outra opção. 

Renan Santos (Missão) foi quem se saiu melhor no debate da Band, tendo sua visibilidade nas redes sociais, que já era grande, crescido exponencialmente após o evento. Destacou-se também entre os entrevistados por César Tralli e Renata Vasconcelos no Jornal Nacional. Nessa entrevista para a Globo, usou os termos mais fortes para indicar a sua máxima disposição em enfrentar o crime organizado; coisas como “declarar guerra” e “banho de sangue”. 

Se o tom é exagerado, a disposição desassombrada para combater o crime é louvável. Seguramente, a maior desgraça coletiva avolumada e espalhada pela incompetência e omissão dos governos petistas é o domínio do crime sobre vastas regiões do território nacional, com milhões de brasileiros submetidos ao talante cruel de facções e milícias.

O fato é que a candidatura de Renan Santos estava começando a despertar curiosidade, interesse e potencial de crescimento. Tanto é assim que, em 31 de agosto, a revista The Economist publicou um perfil do candidato, apresentando-o ao mundo como o “azarão” que tentava se firmar como alternativa ao bolsonarismo, comparando sua obsessão pela agenda liberal à trajetória de Javier Milei antes de chegar ao poder na Argentina. 

A publicação britânica, historicamente parcimoniosa ao dedicar espaço a candidaturas de terceira via na América Latina, media ali um fenômeno real: um nome que crescia nas redes, mobilizava um partido recém-fundado e começava a ameaçar o duopólio Lulismo–bolsonarismo que sufoca o debate público brasileiro há anos.

Eis que o ministro Dias Toffoli, na função de relator no Tribunal Superior Eleitoral, suspendeu, de ofício, a campanha de Rennan: mandou derrubar suas redes sociais, cortou o repasse do fundo eleitoral à sua campanha e retirou dele o direito de participar de debates em rádio, TV, podcasts e qualquer outro meio de comunicação. O pretexto: alguns dias de atraso na comunicação ao TSE de alguns de seus perfis em redes sociais; uma exigência formal cujo descumprimento, segundo o jornal Estadão apurou, alcançaria hoje ao menos 2,7 mil outros candidatos pelo país, a maioria dos quais não sofreu absolutamente nenhuma sanção por isso. 

A Economist teve inclusive que alterar o título da própria reportagem, de um perfil elogioso sobre um fenômeno eleitoral emergente para uma nota sobre um candidato que autoridades brasileiras tentam banir da disputa.

Dias Toffoli e Banco Master

Não é fruto do acaso que a suspensão tenha vindo justamente do gabinete de Dias Toffoli. O ministro é uma das figuras mais expostas pelas investigações sobre o Banco Master, a instituição de Daniel Vorcaro liquidada pelo Banco Central em meio a um rombo bilionário no Fundo Garantidor de Créditos. 

Relatório da Polícia Federal, de cerca de duzentas páginas, elaborado a partir de mensagens extraídas do celular do próprio banqueiro, documentou pelo menos dez encontros entre Toffoli e Vorcaro e apontou uma venda de participação da família do ministro no resort Tayayá a um fundo controlado por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e hoje preso na operação Compliance Zero. 

Ora, Rennan Santos e os outros candidatos do partido Missão denunciaram exaustivamente esse caso. O próprio Rennan lembrou, ao reagir à censura de que foi vítima, ter convocado quatro manifestações ao longo do último ano contra Toffoli e contra o que chamou do “escândalo do Banco Master”, declarando publicamente que estava “pagando o preço por ter defendido o que defendeu”. 

Ele chamou a decisão de “cassação branca” e de “revanchismo” travestido de zelo processual. É difícil discordar da leitura. É inadmissível que um ministro cujo próprio nome circula em mensagens apreendidas de um banqueiro sob investigação por fraude bilionária tenha poder para censurar e talvez invalidar definitivamente a candidatura de um cidadão. 

Enquanto boa parte do debate sobre o Banco Master se organizou em torno da rivalidade entre bolsonaristas e petistas, cada lado tentando empurrar a lama para o adversário, foi a candidatura do Missão que insistiu em nomear as conexões dos dois lados com Daniel Vorcaro.

No debate da Band, Rennan comunicou ao eleitor desavisado que tanto Lula quanto Flávio, embora ideologicamente antípodas, estão ambos emporcalhados na lama de corrupção que engloba os três poderes da República. 

O que eles querem é criar uma competição para ver quem é o melhor amigo de Daniel Vorcaro. […] Essa eleição foi armada para ser um jogo de cartas marcadas entre Lula e Flávio Bolsonaro. Quem está patrocinando esse jogo de cartas marcadas? Banco Master. No primeiro dia não vamos ter perdão para Bolsonaro, mas perdão para Vorcaro”, afirmou o candidato do Missão. 

Foi para evitar verdades inconvenientes como essa que Toffoli proibiu o candidato do Missão de participar de novos debates.

O deputado Kim Kataguiri, coordenador da área econômica da candidatura de Rennan, chamou a decisão de Toffoli de “dantesca e teratológica” e de “atentado contra a democracia”, classificando-a como “típica de regime ditatorial”. Kataguiri também foi direto ao apontar a motivação real por trás da medida: segundo ele, a suspensão é retaliação às críticas públicas feitas pelo Missão à relação entre o ministro e Daniel Vorcaro.

Vale notar que nem todos os ministros do próprio TSE endossam a decisão. Circulou, em caráter reservado, a avaliação de que a irregularidade deveria, no máximo, ser apurada por uma ação de investigação por abuso de meios de comunicação – jamais servir de base para calar um candidato nos debates nacionais às vésperas da eleição ou para indeferir um registro de candidatura. Tais constatações, porém, são muito tímidas diante da gravidade do fato. 

Recentemente escrevi nas minhas redes sociais que Rennan Santos era ainda uma incógnita, mas que, após ter assistido ao primeiro debate e às primeiras sabatinas, estava considerando votar nele nessas eleições. Os donos do Brasil, porém, resolveram não mais permitir que eu e outros milhões de brasileiros continuemos a ouvir e avaliar suas opiniões e propostas. Calaram sua voz com uma canetada. E ainda podem cassar de vez sua candidatura. 

Como é mesmo que chamam esse período de eleições? Ah sim… é a festa da democracia!

O Brasil desaprendeu a pensar o mundo

Por Eduardo Bolsonaro e Marcos Degaut

A diplomacia lulopetista atravessa uma das maiores transformações da ordem internacional das últimas décadas como se ainda houvesse tempo e condições para improvisar. 

E o debate público, quando existe, é desfocado: o problema está no excesso de antagonismo aos Estados Unidos ou na aproximação exagerada com a China? A diplomacia deve ser mais ideológica ou mais pragmática? 

São disputas de rótulo. O problema da política externa lulopetista não decorre apenas de escolhas equivocadas, ausência de prioridades claras ou seleção inadequada de aliados. Sob Lula, o Brasil perdeu algo muito mais valioso do que uma agenda diplomática coerente: sua capacidade de pensar estrategicamente.

Enquanto o debate nacional permanece na superfície, o mundo ingressou silenciosamente em nova era geopolítica. O otimismo liberal que se seguiu ao fim da Guerra Fria apostava que a interdependência econômica, as instituições multilaterais e a expansão das normas internacionais reduziriam progressivamente a competição entre os Estados. A política internacional seria administrada por regras, organismos e consensos.

Essa ordem não desapareceu, mas perdeu a capacidade de organizar o sistema internacional. A competição entre grandes potências retornou ao centro da política mundial. A guerra voltou à Europa. O Oriente Médio permanece sujeito a sucessivas rupturas. EUA e China disputam não apenas mercados, mas tecnologias, infraestrutura, influência política, padrões digitais e posições estratégicas.

A interdependência, antes celebrada como fonte de prosperidade, revelou-se também vulnerabilidade. Sanções financeiras, controles de exportação, bloqueios logísticos, dependência energética e concentração de cadeias produtivas voltaram a ser empregados como instrumentos de coerção. 

O poder mudou de natureza. As grandes potências compreenderam rapidamente essa transformação.

Os EUA reorganizaram sua política externa a partir de uma visão integrada de segurança nacional, política industrial, inovação tecnológica e competição estratégica. A China converteu comércio, financiamento, infraestrutura, empresas estatais e tecnologia em instrumentos permanentes de projeção de poder. Mas o dado mais incômodo para o Brasil não vem das superpotências. Vem das potências médias.

Os Emirados Árabes Unidos, com população menor que a da Grande São Paulo, decidiram há mais de 20 anos que o petróleo compraria o futuro, não o presente. Fundos soberanos transformaram a renda dos hidrocarbonetos em portos operados em dezenas de países, logística, aviação e, mais recentemente, inteligência artificial: foram o primeiro país a criar um ministério dedicado à IA, em 2017, e hoje negociam com Washington acesso a semicondutores avançados enquanto sediam projetos de infraestrutura computacional de escala global.

Ao mesmo tempo, mantém relações funcionais com EUA, China, Israel, Índia e até com Irã, sem que nenhuma delas tenha se tornado refém de afinidades ideológicas, pois quando mísseis iranianos atingiram seu território, em fevereiro de 2026, o governo emirático fechou a embaixada em Teerã no dia seguinte, com a mesma objetividade com que antes negociavam. Não é equilíbrio retórico, mas cálculo, operando em ambas as direções.

A Indonésia oferece contraponto ainda mais desconfortável, por ser um espelho: país insular de grandes dimensões, tropical, democrático, exportador de commodities, membro do G20 e tradicionalmente não alinhado. Em 2020, proibiu a exportação de minério de níquel bruto e condicionou o acesso às suas reservas, as maiores do mundo, à instalação de refinarias e fábricas em território nacional. Foi acionada na OMC, perdeu, recorreu e manteve o rumo.

Em poucos anos, deixou de vender minério para vender aço inoxidável e precursores de baterias, multiplicou o valor exportado e inseriu-se na cadeia global dos veículos elétricos. A Turquia, que construiu metodicamente em 20 anos uma indústria de defesa capaz de exportar drones para 3 continentes, conta história semelhante.

O que esses países têm em comum não é regime, geografia ou ideologia. É a decisão de tratar a inserção internacional como projeto de longo prazo, com objetivos definidos, instrumentos coordenados e revisão permanente. 

Todos compreenderam que prosperidade, segurança e influência dependem da capacidade de articular os instrumentos do poder nacional em torno de propósitos duradouros. Todos, menos o Brasil de Lula.

Não se percebeu que a geopolítica não substituiu a economia: incorporou-a. Comércio, crédito, investimentos, indústria, segurança alimentar, tecnologia e infraestrutura tornaram-se recursos de poder, cuja eficácia depende da capacidade de articulá-los com influência política, defesa, inteligência e desenvolvimento científico-tecnológico em torno de objetivos nacionais.

O Brasil possui ativos consideráveis: Somos uma das maiores economias do mundo, potência agrícola e energética, país continental, detentor de reservas minerais, biodiversidade, água, recursos marítimos e posição geográfica privilegiada. Mas nosso peso econômico não encontra correspondência em defesa, inteligência, tecnologia, capacidade dissuasória ou influência política.

Temos ativos de potência, mas não arquitetura de potência. Possuímos escala, mas não coordenação. Temos recursos, mas não estratégia capaz de convertê-los em poder.

Essa deficiência torna-se ainda mais grave diante da reorientação norte-americana para o Hemisfério Ocidental. A nova National Security Strategydevolveu à região centralidade no cálculo estratégico de Washington, que passou a interpretar a crescente presença chinesa em infraestrutura, tecnologia, energia, mineração e crédito como dimensão da competição global. 

Isso altera o ambiente no qual o Brasil precisa atuar. Durante anos, Brasília pôde ampliar sua dependência econômica da China, antagonizar os EUA e apresentar essa equação como expressão de autonomia.

Esse malabarismo tornou-se insustentável: decisões sobre tecnologia, minerais críticos, sistemas financeiros e cooperação militar serão cada vez mais avaliadas por suas implicações estratégicas.

Isso não significa que o Brasil deva aceitar alinhamentos automáticos. Significa abandonar a ilusão de que autonomia se preserva por retórica, equidistância abstrata ou recusa em escolher prioridades.

Autonomia não se proclama. Constrói-se. Depende de capacidade industrial, tecnologia, inteligência, defesa, diversificação econômica, segurança energética e poder de negociação. Um país dependente de terceiros para fertilizantes, equipamentos militares, tecnologias críticas, infraestrutura digital e financiamento não se torna autônomo porque repete a palavra “soberania”. Torna-se apenas vulnerável de maneira mais eloquente.

A NSS americana, portanto, deve ser compreendida como uma mudança estrutural que exigirá do Brasil mais clareza, mais capacidade de decisão e maior sofisticação estratégica, e não mais bravatas e populismo barato.

Sob Lula a diplomacia nacional substituiu estratégia por conjuntura, visão de Estado por visão de governo, planejamento por improviso. Deixou-se de se perguntar que Brasil desejávamos construir no mundo e passamos a apenas reagir aos acontecimentos produzidos por outros. 

Passou-se a tratar política externa e diplomacia como sinônimos. Não são. Política externa é substância, estratégia. Diplomacia é método.

A política externa define o papel que o país pretende exercer no mundo, seus interesses, prioridades e objetivos. A diplomacia é instrumento de execução. Possui linguagem, regras, protocolos e práticas próprias, mas não deve substituir a estratégia nem determinar os interesses do Estado. Quando essa relação se inverte, os meios passam a comandar os fins. 

A conjuntura passou a ser lida por duas lentes que nada têm a ver com o interesse nacional: a ideológica e a eleitoral. As escolhas externas foram postas a serviço da narrativa doméstica das solidariedades partidárias do lulopetismo, com prejuízo simultâneo de longo e de curto prazo.

Os exemplos abundam. O reconhecimento da pseudoeleição venezuelana de 2024, notoriamente fraudada, chegando a enviar sua embaixadora para a posse de Maduro, dissolveu o capital de credibilidade que permitiria ao Brasil atuar como mediador regional. A hostilidade pessoal e ideológica dispensada ao governo argentino, sócio fundador do MERCOSUL e um dos maiores parceiros comerciais do país, converteu a mais importante relação bilateral sul-americana em troca de insultos, enquanto Buenos Aires estreitava laços com Washington.

O “clube da paz” para a Ucrânia, formulado sem consulta a Kiev e recebido com ceticismo tanto na capital ucraniana quanto em Moscou, não produziu um único resultado verificável e custou credibilidade na Europa. Em cada caso, a preferência partidária ou o palanque doméstico determinou a posição externa; em cada caso, o Brasil pagou a conta.

Ademais de essencialmente reativa, essa diplomacia reage mal. O episódio das tarifas norte-americanas de 50%, em 2025, é ilustrativo. Enquanto outros países atingidos abriram imediatamente canais de negociação, mapearam interesses e obtiveram exceções, Brasília gastou meses em retórica de palanque, anúncios de reciprocidade sem lastro e vitimização com fins eleitorais. 

Mesmo na audiência pública no USTR, aberta a todos para se contestar as tarifas, Lula não mandou um representante sequer. Se o assunto é tão relevante quanto o presidente dizia ser, o que estava fazendo o presidente da APEX nesse dia? O que fazia o MRE de mais importante? Absolutamente ninguém foi enviado.  Verdade seja dita, o senador Flávio Bolsonaro se deslocou a Washington e apresentou defesa técnica para tentar reverter as tarifas, tarefa que deveria ter sido realizada pelo governo.

Quando as tarifas foram anunciadas, Lula usou a rede X para, mais uma vez, tentar tirar proveito político de uma situação causada por sua própria política externa desastrosa, no que foi prontamente desmentido tanto pelo Secretário de Estado Marco Rubio quanto pelo perfil do USTR na rede: o governo brasileiro não demonstrou vontade política para cooperar e negociar.

Confundiu-se, ainda, protagonismo com retórica. Presidir cúpulas, multiplicar viagens, acumular fotografias e reivindicar a liderança do “Sul Global” não altera o cálculo de nenhum ator relevante, pois, assim como agenda cheia não é estratégia, presença não é influência, ativismo não é protagonismo e retórica não é resultado.

Uma política externa deve ser julgada por sua capacidade de antecipar turbulências, reduzir vulnerabilidades, abrir mercados, atrair investimentos, incorporar tecnologia, diversificar parceiros, proteger cadeias estratégicas, fortalecer a defesa e ampliar a influência nacional. Quando esses resultados não aparecem, o protagonismo transforma-se em mera encenação burlesca. 

Por isso, a necessária reforma da política externa não consiste apenas em substituir uma orientação diplomática por outra, redefinir parceiros prioritários ou alterar o conteúdo dos discursos. Consiste em reconstruir a capacidade estratégica do Estado brasileiro, o que exige recolocar no centro do debate um conceito praticamente ausente da reflexão nacional contemporânea:  Grande Estratégia.

 “Grande” não significa grandiosa, mas integrada: a arquitetura intelectual e institucional de um projeto nacional de longo prazo que articula política externa, defesa, inteligência, política comercial, desenvolvimento tecnológico, base industrial, segurança energética, finanças e infraestrutura em torno de objetivos permanentes, estabelece uma hierarquia entre fins e meios e responde a perguntas elementares que o Brasil raramente formula de maneira sistemática: Que país pretendemos construir? Qual posição desejamos ocupar no mundo? Qual o caminho a ser percorrido? Como chegaremos lá? Em quanto tempo? Quais são nossos interesses permanentes? Que ameaças podem comprometer nossa soberania e nosso desenvolvimento? Quais capacidades estratégicas precisamos acumular? Quais parceiros oferecem complementaridade real? Quais dependências precisam ser reduzidas? Quais recursos podem ser transformados em poder de negociação? Sem essas respostas, a política externa reduz-se à administração de acontecimentos, cuja marca é o improviso. 

O método de execução dessa Grande Estratégia é o que denominamos Realismo Propositivo. Não se trata de doutrina ideológica, mas de disciplina de ação, organizada em quatro premissas: proatividade, pragmatismo, protagonismo e planejamento permanente.

Essas premissas precisam ser compreendidas em conjunto. Separadas, perdem sentido. Combinadas, formam um método. Proatividade sem planejamento transforma-se em voluntarismo. Pragmatismo sem interesse nacional degenera em oportunismo. Protagonismo sem capacidade converte-se em retórica. Iniciativa sem Planejamento produz apenas burocracia. 

Proatividade não é ativismo: conecta ações a objetivos e resultados. O Brasil não pode continuar limitado a reagir às iniciativas de terceiros ou adaptar-se a agendas já definidas. Precisa identificar tendências antes que se transformem em crises, perceber oportunidades antes que sejam ocupadas por concorrentes e construir posições antes que sejam definidas por outros. 

Considere os minerais críticos. Diante de reservas nacionais de enorme relevância para a transição energética global, a postura reativa consiste em esperar o interesse estrangeiro. A postura proativa consiste em definir previamente que posição queremos ocupar nessas cadeias, quais etapas internalizaremos quais tecnologias absorver, quais parcerias podem acelerar sua industrialização e quais dependências evitar.

No primeiro caso, administramos o interesse dos outros sobre nossos ativos. No segundo, utilizamos nossos ativos para promover nossos próprios interesses.

O sistema internacional não é uma comunidade de afinidades ideológica, mas ambiente de cooperação e competição. Pragmatismo é estruturar as relações externas a partir de interesses concretos, complementaridades reais e avaliações de risco, custo e benefício, não de solidariedades partidárias. 

 Não significa ausência de valores; significa conciliá-los com realidades de poder, como fazem os Emirados Árabes ao negociar simultaneamente com Washington, Pequim e Tel Aviv. A seletividade ideológica de Lula, complacente com autocracias politicamente próximas e hostil a governos do campo oposto, cobrou preço em credibilidade, margens de negociação e resultados comerciais.

Protagonismo, conceito banalizado pela política externa lulopetista como sinônimo de presença, viagens, discursos, e participação em eventos sem nenhuma benefício concreto para o Brasil e nos quais se possui reduzida capacidade de alterar os incentivos dos atores envolvidos, não é exibicionismo diplomático nem uma percepção que um governo produz sobre si mesmo. É uma capacidade, reconhecida pelos outros, de alterar cálculos, influenciar decisões, organizar parceiros, produzir acordos, liderar processo e produzir consequências. 

Essa distinção é particularmente importante no momento atual, em que Lula buscou reconstruir uma narrativa de protagonismo internacional por meio de intenso ativismo presidencial. Mas protagonismo retórico e influência estratégica não são equivalentes.

É perfeitamente possível estar mais presente e ser menos influente, como se comprovou, pois a influência deriva da combinação entre reputação, credibilidade, previsibilidade, recursos materiais de poder, capacidade de coalizão, poder econômico e utilidade estratégica, ativos que Lula reduziu ao nível histórico mais baixo, resultando em nosso virtual isolamento nas Américas.

Planejamento permanente, a premissa menos visível e mais importante, significa trabalhar continuamente com análise prospectiva, cenários, inteligência estratégica, avaliação de riscos e revisão de prioridades. Estratégia que não é revisada vira documento histórico. 

Foi essa substituição da cultura de administração da conjuntura por uma de antecipação que permitiu à Polônia eliminar metodicamente, ao longo de uma década, sua dependência do gás russo. Planejar é identificar, com antecedência, os tabuleiros em que o país será chamado a jogar, e preparar as peças antes da partida.

Dois cenários básicos ilustram o que essa antecipação exige do Brasil. O primeiro é a bifurcação tecnológico-mineral entre EUA e China. Controles de exportação, listas de entidades e exigências de rastreabilidade tenderão a dividir as cadeias de semicondutores, baterias, terras raras e inteligência artificial em blocos parcialmente incompatíveis.

O Brasil, detentor de nióbio, terras raras, lítio e grafite, será cortejado por ambos. A linha de ação adequada não é a equidistância passiva, mas a negociação ativa: mapear reservas e gargalos, condicionar o acesso a investimento em processamento local, buscar o estatuto de fornecedor confiável nas cadeias ocidentais onde isso agregar valor e proteger setores sensíveis, como redes e infraestrutura digital, com critérios técnicos de segurança, não com improviso caso a caso.

O segundo é o retorno da América do Sul à condição de arena de competição e instabilidade: a crise venezuelana e a pressão militar americana no Caribe, a disputa do Essequibo, os fluxos migratórios e a transnacionalização do crime organizado, do PCC ao Tren de Aragua. Se o Brasil não organizar a resposta regional, ela será organizada de fora, e sem o Brasil à mesa.

Cabe a Brasília reconstruir pontes com todos os vizinhos, independentemente do matiz de seus governos, liderar mecanismos de segurança fronteiriça, inteligência compartilhada e vigilância amazônica, e apresentar-se a Washington não como problema a administrar, mas como sócio indispensável da estabilidade hemisférica.

Em cada um desses tabuleiros, a diferença entre chegar antes e chegar depois será medida em décadas de valor agregado.

Uma política externa assim orientada não se organiza apenas por geografias diplomáticas tradicionais, mas pelos vetores que determinam poder e prosperidade no século XXI: defesa e segurança, comércio e finanças, tecnologia e inovação, inteligência, energia, alimentos, minerais críticos e infraestrutura.

Também exige estabelecer hierarquias. Nem toda organização internacional possui a mesma relevância. Nem toda relação bilateral merece o mesmo investimento. Nem todo posto justifica a mesma estrutura. Nem toda agenda multilateral produz retorno proporcional aos recursos empregados.

No multilateralismo, substituir presença por utilidade. Fóruns internacionais são instrumentos para promover objetivos nacionais, não fontes abstratas de prestígio.

Nas relações bilaterais, parceiros precisam ser organizados segundo relevância econômica, política, tecnológica e estratégica. Com os EUA, precisaremos reconstruir uma relação histórica e definir uma agenda de cooperação que vá muito além de tarifas e comércio, incorporando defesa, segurança hemisférica, inteligência, investimentos, tecnologia e minerais críticos.

Com a China, preservar as oportunidades econômicas, reduzindo dependências e assimetrias, aumentando o valor agregado das exportações e avaliando com rigor a presença chinesa em setores sensíveis.

Com Europa, Índia, países árabes, africanos e vizinhos sul-americanos, organizar relações segundo complementaridades verificáveis. Promoção comercial, atração de investimentos e geração de negócios precisam adquirir centralidade: no mundo da geoeconomia, business é poder. Uma diplomacia desconectada de quem produz, investe, pesquisa, exporta e inova estará também desconectada de parte crescente do poder nacional.

Nada disso será possível com uma arquitetura institucional desenhada para outra época. A reforma do Itamaraty não é capítulo burocrático da política externa, mas sua condição de viabilidade.

 Não se trata de redesenhar organogramas para simular modernização. O Itamaraty continua sendo uma das instituições mais qualificadas do Estado brasileiro, tendo ajudado a projetar o Brasil durante o século XX e que precisa ser preparada para disputar influência no século XXI em quatro dimensões complementares.

A primeira é a funcional, e consiste em recuperar a capacidade de formular, antecipar e propor, operando como principal centro de inteligência estratégica e análise prospectiva do Estado, não como administrador de agenda.

A segunda é a administrativa: simplificar processos, rever fluxos e ampliar a delegação de competências, liberando os diplomatas para a atividade-fim.

 A terceira é a organizacional: dar centralidade à diplomacia econômica, tecnologia, defesa, comunicação estratégica e análise de riscos, estruturando cada unidade, inclusive a rede de postos, em função de sua contribuição para a capacidade estratégica nacional.

 A quarta é a profissional, e corresponde à reestruturação da carreira diplomática brasileira, com base em progressão funcional informada por critérios objetivos, lotações transparentes, ruptura do pernicioso binômio promoção-remoção, maior protagonismo decisório para conselheiros e secretários, trilhas de especialização que preservem memória institucional e remuneração compatível com uma carreira sujeita a mobilidade permanente e postos de adversidade, extensiva aos oficiais de chancelaria e ao corpo administrativo.

Essa transformação não pode ser uma coleção de medidas desconectadas. Precisa obedecer a uma sequência lógica. Primeiro, formular a Grande Estratégia; segundo, reorganizar eixos, vetores e linhas de atuação; terceiro, recuperar a capacidade de formulação estratégica do MRE, com as reformas funcional, administrativa, organizacional e profissional; e quarto, instituir planejamento permanente, indicadores, métricas de produtividade e KPIs (Key Performance Indicators) adequados às diferentes missões. 

Esses indicadores não substituirão a política, mas devem derivar da estratégia. Servirão para demonstrar se os objetivos estão sendo alcançados. Uma embaixada não deve ser avaliada apenas pelos eventos que realiza, mas por sua contribuição para abrir mercados, atrair investimentos, incorporar tecnologia, apoiar empresas, produzir informação estratégica e ampliar a influência brasileira.

Convém ser concreto sobre o que medir. Uma embaixada em mercado prioritário pode ser avaliada pelo número de barreiras sanitárias e técnicas efetivamente removidas, pelo valor dos investimentos confirmados com participação demonstrável do posto e pelos acordos de transferência de tecnologia acompanhados até a execução. 

Um posto em país fornecedor de insumos críticos, pela diversificação obtida nas fontes de fertilizantes ou de combustíveis. Uma delegação multilateral, pelo número de posições brasileiras incorporadas aos textos negociados, não pelo número de reuniões assistidas.

A rede consular, pela presteza e eficiência no atendimento aos demandantes de serviços consulares. E toda a rede, pela qualidade e tempestividade da informação estratégica produzida, avaliada por quem a consome.

Estabelecer esses indicadores exige método: definir a linha de base, negociar metas entre cada posto e a Secretaria de Estado à luz da estratégia, revisá-las anualmente, submeter os resultados a avaliação com participação externa e vinculá-los ao reconhecimento na carreira.

O objetivo não é transformar a diplomacia em planilha, mas impedir que a ausência de avaliação proteja a ineficiência. Sem medição não há accountability; sem accountability, nenhuma prioridade sobrevive à rotina. Essa mudança cultural estabelece a conexão entre estratégia, recursos, ação e resultado.

Lula deteriorou a capacidade do Estado de pensar o longo prazo, estabelecer prioridades, organizar seus instrumentos de poder e sustentar um projeto nacional no mundo. Durante anos, pagamos pela ausência de estratégia com mediocridade. Em um mundo novamente organizado pela competição entre grandes potências, começamos a pagá-la com vulnerabilidade. 

 O mundo que está surgindo não concederá relevância ao Brasil por dimensão territorial, tradição diplomática ou pretensão de grandeza. Teremos apenas a relevância que formos capazes de construir, exercer e preservar. A verdadeira escolha não é entre Washington e Pequim, Ocidente e BRICS. É entre pensar e ser pensado: ou o Brasil reconstrói sua capacidade de formular e executar sua própria estratégia, ou continuará oferecendo seus extraordinários ativos para que outros executem as deles.

Países que não fazem escolhas estratégicas não escapam à estratégia; apenas figuram nela como objeto. O Brasil tem tudo para voltar a ser sujeito da própria história. Falta-lhe apenas decidir sê-lo.

 A reforma necessária, portanto, não consiste apenas em redefinir prioridades diplomáticas, mas em reconstruir a capacidade estratégica do Estado brasileiro para compreender o mundo, formular objetivos, mobilizar recursos e sustentar políticas coerentes com o interesse nacional.

Isso exige uma Grande Estratégia, executada segundo o Realismo Propositivo, e um Itamaraty modernizado, com uma carreira valorizada e uma diplomacia capaz de converter presença em influência, recursos em oportunidades, oportunidades em negócios e negócios em prosperidade e poder.

Geopolítica da Transição

O sistema internacional atravessa uma reconfiguração estrutural profunda. A crescente disputa por hegemonia entre Estados Unidos e China, aliada ao imperativo de transição energética e à corrida pela soberania em inteligência artificial, redefiniu os eixos do poder global. Nessa nova arquitetura geopolítica, a segurança energética e a disponibilidade de insumos tecnológicos deixaram de ser meros temas econômicos e passaram a constituir elementos centrais da alta estratégia dos Estados. O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica: não como espectador passivo, mas como um ator pivotal. A questão premente que se impõe à diplomacia e às elites políticas do país é saber se teremos a maturidade estratégica para negociar nosso futuro com altivez ou se repetiremos o erro histórico do alheamento frente às grandes transformações internacionais.

As evidências empíricas e geoeconômicas demonstram que o Brasil reúne condições ímpares para alterar qualitativamente sua inserção no cenário global. Enquanto os centros tradicionais de poder enfrentam complexos dilemas para descarbonizar suas matrizes e suprir a crescente demanda computacional dos centros de dados de inteligência artificial, o Brasil apresenta um ativo de inestimável valor diplomático: aproximadamente 88% de sua geração elétrica provém de fontes limpas e renováveis, contra uma média global que mal supera o patamar de 30%. Essa assimetria positiva confere ao país uma vantagem competitiva e negociadora sem paralelo para a atração de indústrias de ponta e infraestrutura de tecnologia crítica.

No plano geológico, a convergência entre transição tecnológica e segurança de suprimentos transforma nosso subsolo em um vetor de projeção de poder. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras — estimada em mais de 21 milhões de toneladas —, além de deter mais de 90% das reservas globais de nióbio e depósitos altamente estratégicos de lítio de alta pureza no Vale do Jequitinhonha, além de expressivas jazidas de níquel e cobre. Insumos dessa natureza constituem o cerne das cadeias de valor dos semicondutores, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa de última geração. Deter a posse desses recursos significa possuir as alavancas do novo arranjo produtivo mundial.

Sob a ótica da diplomacia econômica, o desafio fundamental é superar de forma definitiva o modelo tradicional de exportador primário. Negociar com Washington, Pequim ou Bruxelas exige abandono da passividade em favor de uma estratégia soberana e pragmática: o acesso aos recursos e ao mercado brasileiro deve estar condicionado à transferência efetiva de tecnologia, adensamento das cadeias produtivas locais e processamento de valor agregado em território nacional. Trata-se de instrumento político para consolidar a autonomia industrial e tecnológica do país.

O Brasil dispõe dos elementos necessários para sentar-se à mesa das grandes potências não como fornecedor de commodities, mas como formulador geopolítico. Infelizmente, cabe aos nossos líderes políticos, que estão muito aquém desta tarefa, desenhar um projeto de Estado denso e articulado, capaz de converter nosso potencial estratégico em influência diplomática concreta e desenvolvimento real. Neste ponto reside o grande desafio das próximas gerações. Sem lideranças de qualidade, perderemos a corrida geopolítica desta transição, nos tornando mais uma vez expectadores da nova ordem que se desenha.

A Guerra Invisível: como a desinformação chinesa mira Taiwan

As eleições em Taiwan, marcadas para novembro, intensificaram os casos de uso de desinformação por parte da China para buscar influenciar nos resultados do pleito, beneficiando forças políticas mais aliadas a Pequim. 

O processo eleitoral agudizou um problema que não é recente. Nos últimos anos, Taiwan se tornou um dos principais alvos de campanhas de desinformação que podem ser classificadas como uma verdadeira Guerra Cognitiva, isto é, buscar controlar o estado mental e comportamental de uma população por meio de estímulos em seus ambientes. Nesse tipo de combate um dos “armamentos” mais eficazes são as fakenews. 

Para exemplificar uma campanha de desinformação, temos o caso dos exercícios militares anuais Han Kuang, concluídos, em 14 de agosto de 2026. Esse é um exercício de larga escala, que dura 10 dias e visa testar a efetividade e a prontidão das forças taiwanesas diante de vários cenários de uma possível invasão chinesa, entre as novidades desse exercício se destaca treinamentos para aumentar a resiliência digital diante da interrupção de sinais de comunicação e invasão de redes. 

Um dos pontos desse  treinamento de resiliência foi testar a evacuação de autoridades, o tempo de chegada até bunkers e as formas de manter uma cadeia de comando ativa nos momentos iniciais de uma possível invasão. As imagens reais desse treinamento foram aproveitadas e distorcidas, como se estivesse havendo um ensaio da retirada da liderança da ilha durante uma invasão e abandono da população à própria sorte. Esse material passou a circular em redes sociais e aplicativos de mensagens, muitas vezes reaproveitando plataformas populares entre a diáspora chinesa e taiwanesa.

Essa campanha de desinformação foi desenhada para minar o moral da população, esgarçar a confiança da população nas autoridades civis e militares e sugerir fragilidade nas instituições democráticas da ilha. 

A estratégia chinesa parece ser evitar, no momento, o confronto militar direto, cujo custo seria altíssimo, enquanto corrói a coesão social e a confiança nas instituições democráticas taiwanesas por dentro. Erodindo sua soberania para conseguir a capitulação pacífica da ilha ou reduzir sua capacidade e até mesmo determinação em se defender militarmente. 

Taiwan, por sua vez, tem investido pesadamente em alfabetização midiática e em unidades de verificação de fatos, como o projeto liderado pela sociedade civil taiwanesa o Cofacts, que se tornou referência internacional em resposta rápida a desinformação. A sociedade civil taiwanesa é frequentemente citada como um dos exemplos mais resilientes de defesa democrática contra esse tipo de ataque assimétrico. E, talvez um exemplo, para outras nações que também enfrentam cenários eleitorais conturbados e sob efeito de campanhas de desinformação. 

A eficácia e o grande perigo da guerra cognitiva contra sociedades abertas e democráticas está na dificuldade que a natureza furtiva desse tipo de operação impõe ao seu combate. Uma vez que o regime de Pequim usa prepostos, que podem até não saber que estão sendo usados ou contas falsas que simulam ser de cidadãos para disseminar seu conteúdo. Um combate atabalhoado pode ajudar os objetivos dessa campanha ao cercear críticas legítimas aos governos, aos costumes, aos rumos de uma nação das várias correntes de opinião, estimulando ainda mais a desconfiança quanto à democracia. 

Assim, legisladores, analistas, pesquisadores e todos que se debruçam sobre esse tema precisam levar em conta não só o conteúdo das informações, mas, também, elementos como o padrão, a escala e o timing das campanhas que podem corroborar  a existência de uma coordenação estatal estrangeira. 

Há muitos séculos se sabe que a desinformação é uma arma poderosa nas guerras, o contexto atual de redes sociais ampliou os meios para criar essas campanhas e seu alcance e o potencial para corroer, de dentro para fora, a confiança que sustenta qualquer sociedade livre. O caso de Taiwan e suas respostas institucionais e de sua sociedade civil servem de alerta e exemplo para outras democracias. O combate contra a guerra cognitiva caminha pela máxima da vigilância eterna e não pelo caminho da censura.

Reconstrução Diplomática

A ideia de que as relações internacionais pertencem exclusivamente à burocracia de Brasília prescreveu. No século XXI, a fronteira entre decisões domésticas e disputas globais desapareceu: a capacidade de gerar empregos, atrair capital e proteger a produção nacional é determinada pelo posicionamento geopolítico do país. Do preço dos fertilizantes à atração de investimentos em infraestrutura, o cotidiano do cidadão depende da política externa. Em um mundo moldado pela rivalidade entre potências, o amadorismo ideológico e a volatilidade reputacional cobram um preço alto. Para reestruturar a inserção internacional do país, é imperativo substituir o voluntarismo por um pragmatismo liberal, firme e focado no interesse nacional.

Essa inflexão exige recompor laços de confiança com o eixo de democracias liberais do Ocidente — Estados Unidos, União Europeia e parceiros do Indo-Pacífico —, garantindo a segurança jurídica indispensável para atrair investimentos e cooperação estratégica. Paralelamente, quanto aos regimes autoritários, o país deve manter uma postura madura: preservar canais abertos com grandes mercados compradores sem conceder chancela política a modelos autocráticos. No âmbito regional, cabe ao Brasil liderar a modernização do Mercosul, flexibilizando o bloco para permitir acordos bilaterais em ritmos distintos.

A conversão da diplomacia em crescimento tangível passa pela conclusão da adesão do Brasil à OCDE, selo de maturidade regulatória e de livre mercado. Além disso, o país precisa se posicionar como fornecedor indispensável para a transição energética e tecnológica. Com valiosas reservas de minerais críticos — como lítio, níquel e terras raras — e uma matriz elétrica limpa, o Brasil deve usar esses ativos como moeda de negociação estratégica, condicionando o acesso aos recursos à instalação de plantas industriais e à transferência tecnológica, superando a condição de mero exportador de commodities brutas. Da mesma forma, a escala do agronegócio deve virar poder geopolítico para assegurar o suprimento de insumos.

No plano global, o Brasil deve exercer voz ativa, defendendo a soberania nacional e rejeitando restrições indevidas à sua agricultura e indústria. Para dar sustentação a esse protagonismo, é essencial firmar parcerias tecnológicas com nações democráticas, como Japão e Taiwan, priorizando a cooperação em inteligência artificial e semicondutores. Essa integração à cadeia global de inovação constrói soberania digital, desenvolve a indústria de alta complexidade e viabiliza os corredores bioceânicos, consolidando o país como o principal hub tecnológico e logístico da América do Sul.

A reconstrução da diplomacia brasileira não é uma abstração teórica, é um compromisso direto com o desenvolvimento e o bem-estar da população. Ao abandonar os equívocos do passado e adotar uma visão pautada pelo livre mercado, pela segurança jurídica, pelo respeito às democracias e pelo crescimento produtivo, o Brasil deixa de ser espectador para se tornar arquiteto do seu próprio destino. Uma diplomacia moderna, firme e pragmática converterá nossa atuação internacional no motor mais potente de prosperidade, soberania e orgulho nacional.

No Brasil, quem investiga vira investigado; quem denuncia vira réu

Assisti por esses dias ao filme Dois Procuradores, de Sergei Loznitsa, que se passa em 1937, no auge do regime stalinista. A cena de abertura mostra milhares de cartas sendo queimadas numa cela de prisão. Contra todas as probabilidades, uma delas escapa ao fogo e chega ao seu destino: a mesa do recém-nomeado procurador local de Briansk, Aleksandr Kornyev. A carta foi escrita com sangue. 

Kornyev é jovem, bolchevique convicto, íntegro e ingênuo. Após conseguir a muito custo visitar o prisioneiro que solicitou sua presença, o velho Stepniak, bolchevique da velha guarda, o jovem procurador fica sabendo que os prisioneiros tinham sido obrigados, sob tortura, a confessarem crimes ou “traições” que não cometeram. O jovem e o velho bolchevique acreditam, no entanto, que se trata de uma anomalia, um desvio que seria corrigido se a informação chegasse ao alto escalão próximo a Stalin. 

Kornyev parte então para Moscou a fim de informar o Procurador-Geral, Andrei Vichinski, dos crimes dos apparatchiks locais, sem se dar conta de que fora o próprio Procurador-Geral quem os ordenara. Vichinski não é personagem inventado, é o célebre acusador dos três Processos de Moscou de 1936-38, nos quais praticamente toda a liderança da Revolução de Outubro foi exterminada. O espectador sabe disso; Kornyev, não. 

Vichinski escuta-o com polidez, diz-lhe que precisa de mais provas e o manda de volta a Briansk. Manda-o, inclusive, com documentos que o autorizam a prosseguir as investigações. No trem de volta, dois passageiros simpáticos travam conversa, oferecem-lhe carona ao chegar à estação e, dentro do carro, informam-lhe que ele está preso. Quem denunciava os crimes se tornou, de repente, um “criminoso”. 

 Esse movimento rápido e surpreendente no qual o servidor público que investiga altas autoridades se torna, de uma hora para outra, investigado, soa muito familiar ao clima político do Brasil atual. Guardadas (graças a Deus!) as devidas proporções, essa inversão não é privilégio da URSS de 1937. Senão vejamos:

No âmbito dos desdobramentos da Operação Lava Jato, agentes que investigaram, denunciaram e julgaram autoridades de alto escalão por corrupção enfrentaram questionamentos, anulações e sanções disciplinares ou eleitorais.

Deltan Dallagnol, ex-coordenador da força-tarefa, pediu exoneração do MPF em novembro de 2021 e foi eleito deputado federal pelo Podemos (PR) em 2022, com cerca de 344 mil votos (mais votado do estado). O TSE, porém, cassou o registro de sua candidatura (e, consequentemente, o mandato). A ação que levou à sua cassação foi movida por partidos (incluindo a federação Brasil da Esperança, com o PT).  

Sérgio Moro deixou a magistratura em 2018 para ser ministro da Justiça no governo Bolsonaro e, depois, elegeu-se senador. Foi também alvo de pedidos de inelegibilidade, mas, aparentemente, deixou de representar qualquer ameaça aos bandidos de colarinho branco. De uma forma ou de outra, ele está nas mãos do STF, uma vez que é réu por conta de uma piada jocosa que fez em relação ao ministro Gilmar Mendes, em uma festa junina, na época em que ele ainda falava de combate à corrupção, em vez de “passar pano” para o ex-mensaleiro Valdemar da Costa e para o seu novo amigo Flávio, o amigo do Vorcaro.  

O caso da piada de São João de Moro está em andamento no STF, na fase de instrução da ação penal e não há notícia de julgamento de mérito, absolvição, condenação ou arquivamento. Mais recentemente, a juíza Gabriela Hardt, que atuou como substituta de Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba e homologou condenações e acordos da Lava Jato (incluindo casos envolvendo Lula), foi penalizada pelo CNJ com afastamento do cargo por dois anos. O motivo central foi a homologação, em 2019, de acordo entre a Lava Jato/MPF e a Petrobras, em um acordo que previa a criação de uma fundação privada para “combater a corrupção.” Sobre esse caso, a Transparência Internacional – Brasil, fez a seguinte postagem, que vale a pensa reproduzir:

O Brasil assiste inerte aos juízes do STF recebendo milhões através de laranjas, empresas de fachada e contratos obscuros de parentes, pagos por indivíduos e empresas corruptas com processos em seu tribunal, ao mesmo tempo em que persegue implacavelmente juízes de instâncias inferiores que confrontaram a corrupção.

Todos os corruptos investigados nas grandes operações da última década estão livres e prosperando – inclusive sendo eleitos, reeleitos e até fazendo negócios com ministros. Enquanto juízes, procuradores, policiais, auditores fiscais e ativistas (inclusive a Transparência Internacional) que ousam enfrentar a corrupção sistêmica são alvos de campanhas incessantes de difamação e assédio judicial.

O Brasil jamais será um país íntegro e justo enquanto esta lógica não for revertida”.

A nota da Transparência Internacional nos remete aos escândalos recentes envolvendo ministros do STF e o fraudulento Banco Master, de Daniel Vorcaro. Esse episódio escancarou a situação esdrúxula que vivenciamos. Acuados, os ministros suspeitos partiram descaradamente para o ataque do ilibado senador que ousou sugerir que os supremos juízos fossem investigados.  

Relembremos o caso: o senador Alessandro Vieira foi relator da CPI do crime organizado e, em seu relatório final, em abril de 2026, pediu o indiciamento de ministros do STF (incluindo Moraes, Toffoli e Gilmar Mendes) e do procurador-geral Paulo Gonet por crimes de responsabilidade, apontando relações financeiras e decisões questionadas no caso Master. Ato contínuo, durante sessão da 2ª Turma do STF, Gilmar Mendes pediu à PGR que investigasse Vieira por abuso de autoridade. 

Dias Toffoli, por sua vez, afirmou que a Justiça Eleitoral “não faltará em punir aqueles que abusam do seu poder para obter votos em proselitismo eleitoral” e que isso pode levar à inelegibilidade. Dirigiu-se, então, a ministros que atuariam no TSE, defendendo cassação eleitoral de quem “ataca as instituições para obter voto”.

Em outra ponta, o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados (da esposa e filhos de Alexandre de Moraes), que assinou contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master ajuizou, contra Alessandro Vieira, uma ação de indenização por danos morais, por este ter se referido sem muito eufemismo ao caso. 

Alexandre de Moraes, não esqueçamos, atuou também para identificar e investigar quem vazou informações sobre o indecente contrato. 

Em janeiro de 2026, Moraes abriu de ofício (sem provocação da PGR ou PF, procedimento previsto no regimento do STF) um inquérito, no âmbito do Inquérito das Fake News, para apurar suposto vazamento de dados fiscais de ministros do STF e familiares por meio da Receita Federal e do Coaf. A suspeita era de que informações sobre o contrato e os pagamentos ao escritório de Viviane (e dados de outros ministros/familiares, como de Toffoli) teriam vazado irregularmente desses órgãos. Em fevereiro de 2026, Moraes autorizou operação da PF (com aval da PGR) contra servidores suspeitos. Houve buscas e apreensões, afastamento de servidores e uso de tornozeleiras eletrônicas. A investigação segue no Inquérito das Fake News.

Esse preâmbulo foi importante para abordarmos de modo mais contextualizado o abuso de poder mais recente cometido pelo ministro Alexandre de Moraes.

Os fatos, em resumo. Em novembro do ano passado, o jornalista Luís Pablo publicou, com fotografias e documentos, que um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão, custeado por fundo destinado à segurança de magistrados, servia a deslocamentos particulares da família do ministro Flávio Dino. Passados nove meses, nenhum órgão de controle – nem o Ministério Público estadual, nem o Tribunal de Contas, nem o Conselho Nacional de Justiça – abriu apuração sobre o uso do veículo. Em vez disso, o ministro Alexandre de Moraes determinou busca e apreensão na casa do jornalista, a Polícia Federal periciou seus aparelhos e da perícia extraiu o nome da fonte, contra quem se determinou nova operação. 

Tudo sob sigilo, tudo no Supremo – tribunal perante o qual nem o jornalista nem sua fonte teriam por que responder – e tudo em conexão com o tal inquérito das fake news que há sete anos não tem objeto definido nem prazo para acabar. 

Não se apurou se a denúncia contra Dino era procedente. Não se apurou se o dinheiro público foi malversado. Apurou-se quem fez a denúncia e a sua fonte. O fato revelado deixou de importar e quem o revelou passou a ser investigado. Inversão típica de ditaduras.

A Constituição de 1988 tem passagens de interpretação ambígua; esta não é uma delas. O inciso XIV do artigo 5º assegura claramente o acesso de todos à informação e resguarda o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional. Dirão que Luís Pablo não é jornalista exemplar, que sobre ele pesam suspeitas de haver recebido dinheiro, que seu blog não é um grande jornal. Talvez. Mas a garantia constitucional não é prêmio de virtude. 

No artigo do mês passado, “Liberdade de imprensa e o valor de quem não se vende”, celebrei os jornalistas que não se vendem, e tornaria a fazê-lo; a liberdade de imprensa, porém, não existe apenas para jornalistas virtuosos e o poder não é confiável para decidir quais deles merecem proteção. O sigilo da fonte não vale apenas para os jornalistas irrepreensíveis.

Naquele mesmo texto, relatei as mensagens em que Daniel Vorcaro e seu interlocutor combinavam “revirar a vida” de uma jornalista incômoda e nada encontraram. Para devassar a vida de quem o incomodava, o poder econômico precisou de comparsas, de dinheiro e de clandestinidade; ao poder togado bastam um despacho e uma polícia obediente. 

Encerrei aquele artigo pedindo que estivéssemos atentos para que não nos fosse tirado o último front de batalha da liberdade no Brasil. Não foi preciso esperar muito.

O Brasil somos nós: um manifesto pela reconstrução nacional

Por Daniella Marques e Marcos Degaut

No artigo “O Brasil que Queremos”, publicado nesta Gazeta do Povo em outubro último, o deputado federal Eduardo Bolsonaro fez mais do que um preciso diagnóstico dos desafios nacionais, delineou um projeto de país assentado na liberdade econômica, na segurança jurídica, na defesa da propriedade, na liberdade de expressão, na recuperação da autoridade legítima do Estado e no fortalecimento das instituições, da capacidade de defesa nacional e de projeção internacional.

Essa visão parte de uma constatação simples: não há prosperidade sem liberdade, desenvolvimento sem segurança, justiça sem instituições fortes e futuro para uma nação que abandona seus valores fundacionais.

Este artigo nasce como complemento da plataforma apresentada por Eduardo. Se o primeiro texto apresentou os pilares econômicos, institucionais e estratégicos do Brasil que queremos construir, aprofundamos quatro dimensões igualmente decisivas para um projeto nacional duradouro: educação, saúde, reforma do Estado e cidadania com coesão social.

Para quem existem todas essas propostas de reformas? A resposta é simples: para o cidadão brasileiro, ao qual servimos.

O verdadeiro sucesso de um país não está no tamanho de seu orçamento, no número de ministérios ou na quantidade de leis aprovadas, mas na capacidade de oferecer segurança, oportunidades, empregos, renda, educação de qualidade, saúde eficiente e liberdade para construir sua própria história de prosperidade.

O Brasil ingressou no século XXI carregando uma promessa extraordinária: democracia consolidada, estabilidade monetária, abundância de recursos naturais, população jovem e inserção crescente nos fluxos globais de comércio. Poucos países reuniam condições tão favoráveis para um salto de desenvolvimento. Desperdiçamos, contudo, uma oportunidade atrás da outra. Crescemos menos do que poderíamos, investimos menos do que deveríamos e permitimos que a expansão da máquina estatal substituísse reformas estruturais indispensáveis. O resultado é um país que permanece distante de seu potencial, embora o Brasil tenha vindo ao mundo para ser grande, e não medíocre.

Mais grave, milhões de brasileiros passaram a conviver com a sensação de que trabalhar, estudar e empreender deixaram de ser caminhos suficientes para melhorar de vida. Essa talvez seja a maior derrota de uma nação. Quando uma sociedade perde a confiança de que o mérito, o esforço e o trabalho podem produzir ascensão social, compromete não apenas seu crescimento econômico, mas também sua coesão, estabilidade democrática e esperança. É um país que destrói seu futuro, e o futuro do Brasil não pode ser a terra arrasada que o atual Presidente da República e seu partido lhe estão deixando como herança maldita.

Este artigo nasce para enfrentar esse desafio: como transformar essas reformas em benefícios concretos para o cidadão? Nossa resposta parte de uma convicção simples: toda política pública deve ser avaliada por sua capacidade de ampliar oportunidades para as pessoas.

Uma reforma administrativa deve significar menos burocracia para quem empreende e melhores serviços para quem paga impostos. Uma reforma educacional, mais aprendizagem, melhores empregos e maior mobilidade social. Uma reforma da saúde, menos filas, mais prevenção e maior qualidade de vida. Uma reforma institucional, mais segurança jurídica, mais investimentos e maior confiança na democracia.

Nenhuma dessas reformas constitui um fim em si mesma. Todas existem para permitir que mais brasileiros construam uma trajetória de prosperidade. Essa é a diferença entre uma agenda centrada no Estado e uma centrada no cidadão.

É essa inversão que propomos. O Estado não existe para justificar sua própria expansão. Existe para servir ao cidadão, remover obstáculos, proteger direitos e criar oportunidades. Existe para garantir que uma criança tenha acesso a uma boa escola; que um jovem encontre oportunidades de trabalho; que um empreendedor consiga abrir uma empresa sem enfrentar um labirinto burocrático; que um trabalhador transforme esforço em patrimônio; e que um idoso encontre atendimento digno quando precisar.

Mas existe uma premissa anterior. Há uma tendência de se atribuir nossos fracassos exclusivamente aos governos, ao Congresso, ao Judiciário, às elites ou ao setor privado. Instituições, políticas públicas e lideranças importam. Mas nenhuma sociedade prospera quando transfere integralmente a terceiros a responsabilidade pelo próprio destino. Países desenvolvidos não são construídos apenas por governos eficientes. São construídos por cidadãos que valorizam educação, trabalho, responsabilidade, confiança, cooperação, mérito e compromisso com o bem comum.

Por isso, o título deste artigo não é casual. O Brasil, no fim das contas, somos nós. Somos nós quando aceitamos a mediocridade como destino, mas também quando decidimos enfrentá-la. Somos nós quando toleramos a ineficiência, mas também quando exigimos excelência. Somos nós quando toleramos privilégios, mas também quando defendemos igualdade perante a lei. Somos nós quando permitimos que a política nos transforme em grupos rivais, mas também quando reconstruímos um senso compartilhado de pertencimento, responsabilidade e destino comum.

Essa é a razão pela qual propomos uma agenda de transformação baseada na liberdade com responsabilidade, que é a única forma possível de liberdade; na prosperidade construída pelo trabalho; na solidariedade que emancipa em vez de perpetuar dependências; e na mobilidade social como finalidade das políticas públicas.

Não se trata de lamentar o passado, mas de compreender como a inércia e a falta de visão estratégica das administrações destruidoras dos petistas nos aprisionaram em um ciclo de subdesenvolvimento. Trata-se de construir um Brasil no qual cada criança possa acreditar que estudará em uma escola melhor do que a de seus pais; que cada trabalhador tenha condições de conquistar renda crescente; que cada empreendedor encontre ambiente favorável para inovar; que cada família possa viver com segurança; e que cada brasileiro volte a acreditar que seu esforço será recompensado. Essa é a verdadeira jornada da prosperidade, pela qual começa a reconstrução nacional.

Reforma do Estado: a condição para todas as demais reformas

Nenhuma sociedade prospera com instituições ineficientes, nem se desenvolve quando o Estado consome parcela crescente da riqueza nacional sem entregar serviços compatíveis com os recursos arrecadados. A reforma do Estado condiciona, portanto, todas as demais.

O debate oscila entre dois extremos igualmente equivocados. De um lado, a crença de que a simples expansão do gasto público produzirá desenvolvimento. De outro, a visão de que todos os problemas seriam resolvidos por uma redução mecânica do Estado. Nenhuma dessas alternativas responde aos desafios brasileiros. O verdadeiro desafio é construir um Estado mais enxuto em sua burocracia, mais eficiente em sua gestão e mais forte em suas funções essenciais. O critério deve ser quanto valor ele entrega ao cidadão para cada real arrecadado.

A percepção de que o Estado brasileiro é caro, lento e excessivamente complexo não é mera impressão. Trata-se de realidade que afeta a competitividade do país, reduz investimentos, compromete a produtividade e limita o crescimento econômico.

Construído ao longo de décadas sobre camadas sucessivas de regulamentações, privilégios corporativos e sobreposições institucionais, o Estado brasileiro evoluiu para uma estrutura que serve a si mesma antes de servir ao cidadão. O chamado “Custo Brasil” alcança aproximadamente R$ 1,5 trilhão por ano, cerca de 22% do PIB, resultado da burocracia excessiva, da insegurança jurídica, da complexidade tributária e da baixa eficiência regulatória, que asfixiam o setor produtivo, inibem investimentos e impedem a geração de um ciclo virtuoso de crescimento.

Essa realidade ajuda a explicar por que, em 2024, o Brasil ocupou apenas a 124ª posição entre 184 países no Índice de Liberdade Econômica, com pontuação de 53,2 (de 0 a 100), sendo classificado como “majoritariamente não-livre”, com direitos de propriedade relativamente fracos, integridade governamental baixa e sistema judicial vulnerável a interesses políticos.

Também explica por que abrir uma empresa continua sendo mais demorado e oneroso do que na maioria das economias desenvolvidas. Enquanto no Brasil o processo leva, em média, 30 dias, nos países da OCDE a média é de oito dias.

Por trás desses números existem milhares de histórias. É o pequeno empresário que deixa de contratar, o jovem que não encontra emprego, o agricultor que enfrenta custos logísticos desnecessários, a indústria que perde competitividade diante de concorrentes estrangeiros, o consumidor que paga mais caro por produtos e serviços. No fim da cadeia, o custo da ineficiência estatal sempre recai sobre o cidadão.

O setor privado não é apenas mais um agente econômico, mas o principal gerador de investimentos, inovação, produtividade e empregos. O Brasil tem homens e mulheres de inteligência extraordinária, e, quando o ambiente institucional sufoca a atividade produtiva, toda a sociedade paga a conta na forma de crescimento menor, salários mais baixos e oportunidades reduzidas.

A carga tributária de 34% do PIB figura entre as mais elevadas do mundo. A média latino-americana é de 21%. O problema, contudo, não é apenas quanto se arrecada, mas o que se entrega em troca. Arrecadamos como países desenvolvidos, mas oferecemos serviços incompatíveis com esse esforço fiscal, alimentando descrença nas instituições, incentivando a evasão fiscal, enfraquecendo o dinamismo produtivo e aumentando a informalidade.

O problema não decorre da falta de talento dos brasileiros, mas de um ambiente institucional que dificulta aquilo que deveria incentivar. Obter licenças, cumprir obrigações acessórias, interpretar normas tributárias ou enfrentar disputas judiciais tornou-se parte do custo cotidiano de produzir no Brasil.

Mas há também um custo humano. Cada hora consumida pela burocracia é uma hora subtraída da produção, da inovação, da convivência familiar ou do descanso. Cada investimento cancelado representa empregos destruídos. Cada decisão empresarial adiada significa oportunidades que deixam de chegar.

É justamente por isso que a reforma administrativa deve ser compreendida como uma agenda voltada para as pessoas. Modernizar significa simplificar a vida do cidadão. Digitalizar serviços significa devolver tempo às famílias. Eliminar procedimentos desnecessários significa reduzir custos para trabalhadores e empresas. Avaliar permanentemente o desempenho dos órgãos públicos garante que os recursos arrecadados retornem à sociedade na forma de serviços melhores.

Nesse contexto, a meritocracia deve voltar a ocupar posição central na administração pública. Valorizar desempenho não enfraquece o serviço público; fortalece sua legitimidade. Os melhores servidores devem ser reconhecidos, estimulados e recompensados. A inovação precisa deixar de ser exceção. A eficiência deve tornar-se parte da cultura institucional. Um Estado moderno não mede seu sucesso pela quantidade de processos que movimenta, mas pela capacidade de resolver problemas concretos das pessoas.

Essa transformação exige também um ambiente econômico mais racional. É fundamental reduzir a carga tributária sobre a produção e o consumo, simplificar o sistema tributário e ampliar a previsibilidade regulatória. Nenhum investimento de longo prazo prospera em ambiente marcado por insegurança jurídica.

A reforma do Estado exige, ainda, enfrentar tema que a classe política frequentemente evita: a necessidade de restaurar os limites institucionais entre os Poderes da República. O avanço da judicialização sobre matérias próprias do Executivo e do Legislativo produziu crescente insegurança jurídica e enfraquecimento da representação democrática.

O Brasil precisa resgatar o princípio de que mudanças estruturais devem decorrer do debate democrático e da deliberação dos representantes eleitos, e não da substituição crescente da política pelo ativismo judicial. Nenhuma democracia funciona adequadamente quando decisões legislativas ou executivas migram sistematicamente para instâncias não submetidas ao mesmo grau de controle democrático.

Restabelecer a previsibilidade das decisões judiciais, fortalecer a segurança jurídica e reafirmar os limites constitucionais de cada Poder são condições indispensáveis para a liberdade, os investimentos, o crescimento econômico e a própria legitimidade da democracia brasileira.

Um Estado eficiente não é um fim em si mesmo. É instrumento que libera a energia produtiva da sociedade, amplia oportunidades e cria condições para que os brasileiros prosperem por seus próprios méritos.

Educação: o alicerce da prosperidade e da liberdade

Nenhuma política pública possui maior capacidade de transformar vidas do que a educação. Uma boa escola amplia horizontes, multiplica oportunidades, reduz desigualdades e rompe ciclos intergeracionais de pobreza. É por meio dela que uma criança deixa de ser definida pelas circunstâncias de seu nascimento e passa a ser reconhecida por seu talento, esforço e capacidade de construir o próprio futuro.

Por isso, a educação deve ocupar posição central em qualquer projeto nacional comprometido com a prosperidade. Não apenas porque melhora indicadores econômicos, mas porque representa o principal instrumento de mobilidade social.

A educação brasileira vive um paradoxo doloroso: reconhecida como chave para o desenvolvimento, continua marcada por descaso histórico e investimentos erráticos. O acesso à escola básica se universalizou, mas a qualidade permanece profundamente desigual.

Garantir matrícula não significa garantir aprendizagem. Milhões de jovens concluem a educação básica sem dominar leitura, matemática ou ciências, carregando limitações que restringem sua empregabilidade, produtividade e possibilidades de ascensão social.

Os números revelam a dimensão do problema. O Brasil permanece entre os últimos colocados no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Em 2022, obtivemos 379 pontos em leitura, 357 em matemática e 403 em ciências, muito abaixo da média da OCDE (476, 472 e 485, respectivamente). Apenas 30% dos estudantes alcançaram o indicador mínimo para resolver problemas cotidianos de forma autônoma.

O mesmo diagnóstico emerge do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024: 29% da população entre 15 e 64 anos é analfabeta funcional, incapaz de compreender adequadamente textos ou realizar operações matemáticas básicas.

Esses resultados revelam mais do que uma crise educacional: uma crise de desenvolvimento. Uma economia baseada em trabalhadores pouco qualificados dificilmente será capaz de competir em um mundo movido por inovação, inteligência artificial, automação e conhecimento. Países desenvolvidos investem em educação porque compreenderam que seu principal ativo estratégico é o capital humano.

O problema não reside no volume de recursos investidos. O Brasil destina 5,5% do PIB à educação pública, percentual comparável ao de países desenvolvidos. A diferença está na qualidade da gestão, na eficiência da alocação dos recursos e na capacidade de transformar investimento em aprendizagem efetiva. Ao mesmo tempo, persistem deficiências básicas: cerca de 20% das escolas rurais não possuem energia elétrica e 40% não têm acesso à internet.

Há também uma crise de prioridades. O debate educacional concentrou-se excessivamente em questões burocráticas, relegando a segundo plano sua missão fundamental: garantir que crianças e jovens aprendam português, matemática, ciências, história, geografia e as competências necessárias para prosperar.

É necessário recolocar a aprendizagem no centro da política educacional. Isso exige revisão curricular orientada por excelência acadêmica, rigor intelectual e preparação para a vida adulta. A escola deve formar cidadãos capazes de pensar criticamente, resolver problemas e competir com menos desigualdades em um mercado de trabalho cada vez mais exigente.

Também é urgente fortalecer a gestão escolar, ampliar a autonomia dos diretores e expandir a educação em tempo integral, comprovadamente eficaz na melhoria do desempenho e na redução da evasão. Hoje, apenas 15,4% dos estudantes do ensino fundamental e médio permanecem em tempo integral.

Ao mesmo tempo, é indispensável recuperar o valor do mérito, da disciplina, da responsabilidade e do esforço individual. Educação de qualidade depende de recursos, mas também de uma cultura que valoriza o conhecimento, respeita o professor e reconhece a importância do empenho pessoal.

Valorizar professores é parte inseparável dessa agenda. Nenhuma reforma educacional prosperará sem professores qualificados, motivados e adequadamente preparados. Isso requer formação inicial e continuada de qualidade, avaliação permanente de desempenho e políticas que tornem a carreira mais atrativa e mais bem remunerada.

Paralelamente, projetos de qualificação profissional e requalificação devem ser ampliados e alinhados às necessidades de um mercado de trabalho dinâmico, favorecendo a reinserção produtiva, especialmente dos mais vulneráveis, impulsionando a produtividade, reduzindo a dependência estatal e oferecendo múltiplos caminhos para que cada jovem desenvolva seu potencial.

A revolução tecnológica torna essa agenda ainda mais urgente. Inteligência artificial, automação, digitalização e novas formas de organização produtiva transformarão profundamente o mercado de trabalho. Os países que liderarem essa transição serão aqueles capazes de formar trabalhadores mais qualificados, adaptáveis e inovadores.

Mas a educação possui uma dimensão que vai além da economia. Ela prepara para a liberdade. Uma sociedade livre depende de cidadãos capazes de compreender seus direitos e deveres, interpretar informações, distinguir fatos de narrativas e participar conscientemente da vida pública.

A educação é um instrumento de fortalecimento da democracia e da coesão nacional. Não é gasto, mas investimento. Não é política social, mas estratégia de desenvolvimento e formação para a vida. O Brasil não precisa apenas de mais escolas e mais matrículas. Precisa de melhores escolas, mais aprendizagem e excelência, partindo da premissa de que a escola não deve servir à doutrinação política, ao ativismo identitário e ideológico ou à imposição de agendas progressistas ou de engenharia social, mas à formação de indivíduos livres, preparados e capazes de pensar por si próprios.

Saúde: cuidar das pessoas para fortalecer o país

A prosperidade de uma nação começa pelas pessoas. Não existe crescimento sustentável quando milhões de cidadãos convivem diariamente com filas intermináveis, atendimento precário, doenças evitáveis ou acesso insuficiente aos serviços básicos. Saúde é um dos principais ativos econômicos de um país. Uma população saudável trabalha mais, produz melhor, aprende com maior facilidade, empreende com maior confiança e vive com mais dignidade.

O Sistema Único de Saúde (SUS) constitui uma das maiores conquistas do país e atende mais de 150 milhões de brasileiros. Entretanto, convive com dificuldades estruturais que comprometem sua eficiência e reduzem a qualidade do atendimento. O problema não se resume ao volume de recursos investidos (9,2% do PIB), mas à capacidade de transformar gastos em resultados.

Ao cidadão, pouco importa o tamanho do orçamento da saúde se continua aguardando meses por uma consulta, anos por uma cirurgia ou horas por atendimento de urgência. Direitos somente adquirem significado quando se transformam em acesso efetivo. Isso exige mudança de paradigma: a gestão da saúde precisa deixar de medir processos e passar a medir resultados.

Hospitais, unidades básicas e redes assistenciais devem ser avaliados por indicadores claros de qualidade, resolutividade, tempo de atendimento, satisfação do usuário e eficiência. Profissionalizar a gestão, combater desperdícios e fraudes, utilizar intensivamente tecnologia e integrar capacidades públicas e privadas têm um único objetivo: oferecer atendimento mais rápido, eficiente e humano.

Cuidado especial deve ser dado à Atenção Primária à Saúde. Nenhum sistema moderno sustenta elevados níveis de qualidade concentrando seus esforços apenas no tratamento de doenças já instaladas. A prevenção continua sendo o investimento mais eficiente. Diagnóstico precoce, vacinação, acompanhamento contínuo, promoção de hábitos saudáveis e fortalecimento das equipes de saúde da família reduzem custos, evitam sofrimento e desafogam hospitais.

Nenhuma política, contudo, será plenamente eficaz sem enfrentar um dos maiores passivos sociais do país: a precariedade do saneamento básico, um dos maiores vetores de doenças e sobrecarga do SUS. 45% da população não tem acesso à coleta de esgoto, e menos de 40% do esgoto gerado é tratado.

Água tratada e coleta de esgoto representam menos doenças, menor mortalidade infantil, melhor desenvolvimento cognitivo das crianças, maior frequência escolar e menor pressão sobre o sistema hospitalar. Investir em saneamento significa investir simultaneamente em saúde, educação, produtividade e qualidade de vida. Por isso, o marco legal do saneamento básico (que prevê a universalização até 2033) deve ser cumprido com investimentos consistentes e fiscalização rigorosa.

Duas iniciativas complementam esse esforço. A primeira é fortalecer as equipes de saúde da família e a infraestrutura da atenção primária, capaz de resolver até 80% das demandas da população. A segunda é ampliar o uso da telemedicina e de prontuários eletrônicos integrados, reduzindo desigualdades de acesso, especialmente nas regiões mais remotas.

Ao final, o verdadeiro indicador de sucesso do sistema de saúde não será o número de programas criados nem o volume de recursos executados, mas a tranquilidade de uma família que consegue atendimento quando precisa; da criança que cresce saudável; do trabalhador que retorna rapidamente ao emprego; do idoso que encontra cuidado digno. Porque um sistema de saúde eficiente faz mais do que administrar hospitais. Ele protege vidas, a primeira responsabilidade de qualquer Estado comprometido com seus cidadãos.

Cidadania, família e coesão social: transformar assistência em autonomia

Nenhum país alcança desenvolvimento duradouro apenas pelo crescimento econômico. A prosperidade depende também da qualidade das relações sociais, da confiança entre cidadãos, da estabilidade das famílias e da capacidade de integrar a sociedade em torno de objetivos comuns.

Sob gestões petistas, o Brasil assistiu ao aprofundamento de divisões políticas, culturais e sociais que enfraqueceram o sentimento de pertencimento nacional. Uma sociedade permanentemente fragmentada perde sua capacidade de cooperar, reduz sua confiança nas instituições e dificulta a construção de consensos indispensáveis ao desenvolvimento.

Superar essa lógica exige recolocar o cidadão, e não grupos identitários ou interesses corporativos, no centro das políticas públicas. O combate à pobreza será um imperativo moral. Contudo, a melhor política social jamais será aquela que perpetua dependências, mas aquela que cria oportunidades para a autonomia.

Programas de transferência de renda cumprem papel importante na proteção das famílias mais vulneráveis, especialmente em momentos de crise. Mas sua finalidade maior deve ser funcionar como ponte para a emancipação, e não como destino permanente. Isso exige integrar assistência social, educação, qualificação profissional, empreendedorismo, microcrédito e inserção produtiva em uma estratégia nacional de mobilidade social.

A verdadeira inclusão ocorre quando uma família deixa de depender do Estado porque passou a depender de seu próprio trabalho, da capacidade empreendedora e das oportunidades criadas por uma economia dinâmica. Essa é a essência da dignidade.

Fortalecer a família também constitui elemento central dessa agenda. É nela que crianças aprendem responsabilidade, disciplina, cooperação, solidariedade e respeito às regras. Políticas públicas devem fortalecer, jamais substituir, o papel da família como primeira instituição formadora do cidadão.

Ao mesmo tempo, o Estado deve assegurar igualdade de oportunidades, independentemente de origem, religião, raça, condição econômica ou convicções políticas. Uma sociedade verdadeiramente livre não elimina diferenças individuais; cria condições para que cada pessoa desenvolva plenamente seu potencial.

Países bem-sucedidos não prosperam porque distribuem privilégios, mas porque distribuem oportunidades. Essa deve ser a base de uma nova agenda nacional de cidadania: unir, em vez de dividir; emancipar, em vez de tutelar; fortalecer a responsabilidade individual sem abandonar a solidariedade; e transformar proteção social em mobilidade social, devolvendo ao cidadão a confiança de que seu esforço pode construir um futuro melhor.

Ao longo das últimas décadas, acostumou-se a discutir o Estado como se ele fosse o protagonista da história. Debate-se o tamanho da máquina pública, a criação de programas e a expansão de estruturas administrativas, esquecendo como essas decisões melhoram, concretamente, a vida dos brasileiros. O propósito de um projeto nacional não é só fortalecer o Estado, mas as pessoas.

O sucesso de uma política pública não deve ser medido pelo volume de recursos que consome, mas pelas oportunidades que cria. O êxito de um governo está na sua capacidade de remover obstáculos para que cada cidadão possa estudar, trabalhar, empreender, inovar, constituir patrimônio e oferecer aos filhos uma vida melhor.

Essa é a verdadeira razão de ser das reformas que defendemos. A reforma do Estado devolve tempo, segurança jurídica e liberdade econômica. A da educação transforma conhecimento em mobilidade social. A da saúde preserva o capital humano e amplia a qualidade de vida. As políticas de cidadania substituem a dependência pela autonomia. Juntas, recolocam o cidadão no centro do desenvolvimento nacional.

O Brasil precisa recuperar uma visão mais ambiciosa de nosso principal ativo estratégico: as pessoas. Precisamos voltar a acreditar na capacidade dos brasileiros de construir riqueza, inovar, empreender, competir e transformar suas comunidades quando encontram um ambiente institucional que lhes ofereça segurança, liberdade e igualdade de oportunidades.

Essa é a essência da mobilidade social e deve ser a medida do sucesso nacional. Quando mais brasileiros conseguem ascender socialmente, constituir patrimônio, abrir seus próprios negócios, oferecer educação de qualidade aos filhos e viver com segurança e dignidade, o país inteiro avança.

É essa prosperidade compartilhada que fortalece a democracia, reduz desigualdades e consolida uma verdadeira comunidade nacional. Foi essa convicção que inspirou o artigo de Eduardo Bolsonaro. É essa mesma convicção que procuramos aprofundar neste manifesto.

O Brasil não precisa apenas de um novo governo. Precisa de uma nova lógica de governança. Uma lógica que substitua a cultura da burocracia pela cultura dos resultados, privilégios por oportunidades e dependência por autonomia.

Em síntese, precisamos recolocar o brasileiro, e não a máquina pública, no centro do projeto nacional. Estados existem para servir às pessoas. Mercados existem para gerar prosperidade. Instituições existem para proteger direitos. A economia existe para ampliar as oportunidades.

O Brasil que queremos não será construído apenas por governos ou instituições, mas por milhões de brasileiros que encontrem, finalmente, um Estado que deixe de lhes impor barreiras e passe a lhes abrir caminhos.

Porque o patrimônio de uma nação não é o tamanho de seu Estado, nem o volume de seu orçamento. É a liberdade de seu povo, a confiança de suas famílias, a força de suas instituições, a capacidade de cada cidadão transformar trabalho em dignidade, conhecimento em oportunidades e liberdade em prosperidade.

Essa é a reconstrução nacional que defendemos. Essa é a jornada da prosperidade que propomos. O “Brasil que Queremos” não é uma utopia distante, mas uma urgência silenciada por décadas de escolhas erradas que nos aprisionam em ciclos de subdesenvolvimento e injustiça. Chegamos a um ponto de inflexão. O futuro será uma construção forjada na coragem de confrontar a realidade e na ousadia de propor uma refundação.

O Brasil não precisa de mais um ciclo de promessas. Precisa de direção, coragem e liderança. Essa virada exige a adoção de medidas estruturais, fiscais, econômicas, políticas e sociais que removam os obstáculos para o dinamismo. Este não é um caminho fácil, mas um convite e um desafio a cada um: vamos parar de lamentar o Brasil que somos e construir o Brasil que merecemos. Um Brasil onde o Estado serve, não atrapalha; onde a riqueza é gerada pela inventividade e pelo trabalho árduo e qualificado, e não pela dependência; onde a prosperidade é uma realidade acessível a todos, e não um privilégio de poucos.

A hora de agir não é amanhã, é agora. A história nos julgará não pelo que sonhamos, mas pelo que ousamos e fizemos para transformar esse sonho em uma realidade palpável e duradoura para as gerações futuras. O Brasil que queremos começa pelo Brasil que decidimos construir, porque o Brasil somos nós!