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Risco Lula

A poucos dias do segundo turno, o governo Lula transformou o Orçamento e a legislação em instrumentos de campanha. Não se trata de ajustes debatidos com antecedência, mas de benefícios, renúncias e mudanças aceleradas depois do susto diante da avalanche conservadora vista nas urnas. O recado do momento é claro: a reeleição vale o risco de quebrar com o país.

O pacote inclui reajuste no Bolsa Família, perdão de dívidas, Pix de até R$ 5 mil sem devolução, elevação do teto para empreendedores, recursos para universitários e “alívios” nos combustíveis. O cardápio é vasto e o custo entrará no orçamento de 2027, comprometendo o superávit projetado. A maioria das medidas não estava no texto original e depende do Congresso. O discurso oficial fala em manter o arcabouço e chegar a superávit até 2030. Na prática, porém, o que se vê é expansão permanente sem fonte clara de compensação — um verdadeiro manicômio fiscal.

O caráter eleitoreiro está na cronologia. As medidas de maior apelo saíram depois do primeiro turno, quando Lula percebeu o risco real de ser apeado do poder pelo voto. O governo alega que parte das dívidas é irrecuperável ou vem de fundos específicos. Ainda assim, o timing coincide com a necessidade de recuperar terreno. Afinal, todos sabem a verdade: não estamos diante de uma política de Estado, mas de uma disputa de voto.

A isso se soma a aprovação acelerada do fim da escala 6×1. O Senado aprovou por 75 a 1 a redução gradual da jornada de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem corte salarial. A proposta tem apelo popular e virou vitrine de campanha. Para o país, contudo, é absurda e vai na contramão do necessário. Reduzir a jornada de forma compulsória, mantendo salários integrais e sem ganhos de eficiência, eleva o custo da hora trabalhada e não dialoga com a realidade da nova economia. Impor essa mudança é jogar fora o futuro do país, pois o resultado será menos vagas formais e menor crescimento.

Para o brasileiro médio, a conta não aparece no anúncio. A dívida já está elevada e os juros altos. Cada benefício permanente ou renúncia aumenta a pressão: juros mais altos por mais tempo, crédito mais caro, inflação mais resistente e real mais fraco. O benefício que entra agora é imediato para quem recebe. O serviço da dívida, o ajuste futuro e os custos de produção mais altos são o imposto diferido que todos pagam — em preços, financiamentos e crescimento menor. O resultado será mais uma geração perdida.

Além disso, o risco de eleger Lula depois do tsunami conservador que chegou ao Congresso é o de instalar um “pato manco” no Planalto em plena crise fiscal: um presidente que, desde o primeiro dia, terá de lutar pela legitimidade de sua própria cadeira, sem maioria, diante de um Parlamento dominado pela oposição. O mandato seria uma sucessão de impasses, vetos e derrotas legislativas. Em vez de governar, Lula passaria quatro anos negociando sua sobrevivência política.

Lula escolheu um caminho perigoso ao abraçar o populismo fiscal para tentar mais um mandato. O benefício eleitoral é imediato, mas a conta será amarga. Sem força política, sua reeleição representaria o mergulho em uma incerteza que pode, mais uma vez, tragar o futuro de nossa nação.

Tsunami Conservador

O primeiro turno selou mais do que um resultado eleitoral, consagrou uma transfiguração profunda na geografia política do Brasil. O avanço avassalador de candidaturas de direita e centro-direita no Congresso e nos governos estaduais reconfigurou os eixos de poder da República. Trata-se de um verdadeiro tsunami conservador, movido por uma indignação social articulada. Contudo, para compreender a real magnitude dessa onda, é preciso olhar para a Praça dos Três Poderes: o Supremo Tribunal Federal tornou-se o principal catalisador desse processo por um clássico efeito bumerangue.

Ao longo dos últimos anos, a corte assumiu um protagonismo atípico na vida pública nacional. Sob o pretexto de resguardar a ordem constitucional, o tribunal frequentemente ultrapassou as fronteiras da autocontenção. A judicialização ostensiva — marcada por condenações severas, restrições de fala, bloqueios de redes e intervenções na reta final — encontrou contraste direto na anulação dos processos da Lava Jato, que devolveram Lula ao jogo. Onde a toga alegou técnica processual, o eleitor leu perseguição e blindagem seletiva. Ao trocar a neutralidade de árbitro pela tutela política, o ativismo judicial converteu sanção em “efeito mártir” e transformou a rejeição ao STF no combustível eleitoral mais potente do país.

As urnas refletiram esse embate com precisão matemática. Flávio Bolsonaro liderou a corrida presidencial com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, mandando a decisão para 25 de outubro. Enquanto o herdeiro somou cinco milhões de votos a mais do que o pai em 2022, o incumbente perdeu 3,4 milhões e registrou o pior desempenho petista na etapa inicial desde 1998. Nos estados, a onda foi igualmente avassaladora: das 20 disputas resolvidas de primeira, 13 consagraram nomes de direita, com vitórias expressivas de Tarcísio de Freitas em São Paulo, Sergio Moro no Paraná e Cleitinho Azevedo em Minas Gerais, isolando o PT em sua cidadela nordestina.

A reação popular utilizou o sufrágio como o instrumento mais legítimo de freios e contrapesos. O Senado, arena constitucional para o controle do Judiciário, entregou a resposta com máxima nitidez institucional: o PL elegeu 19 senadores e atingirá 28 cadeiras em 2027 — o triplo da bancada do PT. Com aliados do PP, Republicanos, União e Novo, o bloco conservador aproxima-se de 60% do plenário. Vitórias no Distrito Federal, com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, e em Santa Catarina, somadas à eleição de críticos contundentes como Deltan Dallagnol e Marcel van Hattem, estruturam a maioria necessária para impor sabatinas rigorosas, limitar decisões monocráticas e pautar eventuais impeachments. Na Câmara, o PL atingiu o recorde de 121 deputados federais, puxado por votações históricas de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato.

A história demonstra que decisões judiciais não substituem a soberania popular nem pacificam controvérsias pela coerção. Ao tentar governar o conflito político, o STF acabou acelerando o levante que pretendia conter. O tsunami eleitoral deixa um recado indiscutível para a República: quando a toga invade o terreno da política, a democracia reage e as urnas se encarregam de reestabelecer a vontade popular.

O Brasil precisa discutir continuidade ou mudança

A eleição presidencial não deveria ser reduzida a nomes, slogans ou paixões partidárias. Quando colocamos lado a lado os programas de governo de Lula e Flávio Bolsonaro, aparecem diferenças importantes sobre o papel do Estado, educação, segurança pública, liberdade de expressão e valores. E há uma pergunta que considero inevitável: quanto tempo um projeto político precisa para demonstrar que é capaz de enfrentar os problemas estruturais do Brasil?

O PT chegou à Presidência da República em 2003. Foram oito anos de Lula, quase seis de Dilma Rousseff e, desde 2023, um novo mandato de Lula. É verdade que houve uma interrupção nesse período, com os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Também é fato que uma parcela importante do governo Bolsonaro coincidiu com a pandemia de Covid-19, uma crise mundial que afetou profundamente economia, educação, saúde e contas públicas.

Feita essa contextualização, considero legítimo perguntar: depois de tantos anos de governos petistas, por que problemas tão básicos continuam tão presentes?

A educação talvez seja o exemplo mais didático. Os resultados do PISA 2025 mostram que o desempenho médio dos estudantes brasileiros ficou praticamente no mesmo nível de 2022 em matemática, leitura e ciências. Mais significativo ainda: segundo a OCDE, os resultados de 2025 ficaram próximos daqueles registrados nas avaliações realizadas desde 2015.

Em matemática, apenas 28% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência. Na média da OCDE, são 65%. Em leitura, são 49% no Brasil contra 69% na média da organização.

É preciso reconhecer que houve melhora recente no Ideb. Portanto, não seria correto afirmar que todos os indicadores educacionais pioraram. Mas o PISA revela um problema estrutural: quando nossos jovens são submetidos a uma avaliação internacional de aprendizagem, o Brasil continua abaixo da média da OCDE nas três áreas avaliadas. Para mim, depois de tantos anos, simplesmente ampliar estruturas e programas não basta. A pergunta fundamental precisa ser feita: o aluno está efetivamente aprendendo?

E é justamente aí que aparecem diferenças entre os programas. Lula enfatiza expansão da educação pública, ensino integral, universidades e institutos federais. Flávio Bolsonaro inclui alfabetização pelo método fônico, avaliação de resultados, escolas cívico-militares e outras mudanças na política educacional. São abordagens distintas para um problema que o Brasil ainda não resolveu.

Na economia, a discussão também é bastante concreta. O programa de Lula apresenta uma linha de continuidade baseada em investimentos públicos, PAC, política industrial e atuação do Estado como indutor do desenvolvimento. O programa de Flávio Bolsonaro propõe redução da estrutura federal, reforma administrativa, desestatizações e maior participação da iniciativa privada.

Esse debate acontece diante de um desafio fiscal relevante. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do Governo Geral chegou a 82,5% do PIB, ou R$ 10,9 trilhões, em julho de 2026. Somente nos sete primeiros meses do ano, houve aumento equivalente a 3,9 pontos percentuais do PIB.

Diante desses números, considero inevitável perguntar: qual deve ser o tamanho do Estado e como financiar suas políticas sem transferir uma conta crescente para a sociedade e para as próximas gerações? Essa não é uma discussão meramente ideológica. Dívida pública, juros e equilíbrio fiscal acabam produzindo consequências concretas para toda a economia.

Na segurança pública, os programas também apresentam abordagens distintas. O programa de Lula enfatiza integração entre as forças de segurança, inteligência, prevenção e investigação financeira das organizações criminosas. Flávio Bolsonaro apresenta propostas como classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas, reduzir a maioridade penal para 16 anos, ampliar o sistema penitenciário federal de segurança máxima e endurecer determinadas regras penais. São diferenças que estão expressamente registradas nos programas e que merecem ser conhecidas pela sociedade.

Há ainda divergências importantes sobre liberdade de expressão e plataformas digitais. O programa de Lula propõe avançar na regulação das redes sociais e plataformas para enfrentar desinformação e discurso de ódio, ao mesmo tempo em que afirma defender a liberdade de expressão. O programa de Flávio Bolsonaro propõe mudanças relacionadas ao Judiciário e apresenta uma iniciativa denominada no próprio documento de “Tesouraço na Censura”.

Nas questões de valores, as diferenças também aparecem de forma explícita. O programa de Flávio Bolsonaro coloca entre seus princípios o respeito à família, à liberdade religiosa e à vida desde a concepção. Já o programa de Lula contempla políticas relacionadas a gênero, identidade, orientação sexual, população LGBTQIA+ e direitos sexuais e reprodutivos. Não é necessário colocar palavras na boca de nenhum dos candidatos. Essas posições constam dos próprios documentos e cabe ao cidadão conhecê-las.

Para mim, portanto, uma das questões centrais desta eleição é a discussão entre continuidade e mudança. O Brasil convive há décadas com problemas que não podem ser apresentados como novidade a cada eleição. Na educação, o PISA mostra resultados próximos dos observados desde 2015. Nas contas públicas, a dívida bruta alcançou 82,5% do PIB em julho de 2026. Ao mesmo tempo, existem indicadores que avançaram e precisam ser reconhecidos. A realidade brasileira não cabe em slogans.

Mas justamente por isso considero legítimo questionar se a continuidade das mesmas linhas de atuação será suficiente para enfrentar problemas que permanecem há tantos anos. Os dois programas apresentam respostas diferentes para essa questão.

Economia, educação, segurança, liberdade e valores não são debates abstratos. Eles interferem diretamente na vida das pessoas. Por isso, esta eleição merece ser discutida menos pelo barulho das redes sociais e mais pelo conteúdo dos projetos apresentados ao país, com propostas na mesa, números verificáveis e clareza sobre as diferenças entre os caminhos apresentados para os próximos quatro anos.

A Sétima República

A República romana morreu muito antes de César atravessar o Rubicão. Morreu quando suas formas continuaram a funcionar sem que ninguém mais acreditasse nelas, quando o Senado ainda se reunia, os cônsules ainda eram eleitos, os augúrios ainda eram consultados, e nada daquilo decidia mais coisa alguma. Cícero gastou seus últimos anos de vida escrevendo sobre uma República que já só existia nos seus próprios livros.

O que mata um regime raramente é a violência. É a irrelevância, e a irrelevância chega sempre muito antes do epitáfio. A Sexta República brasileira, aquela a que se convencionou chamar de Nova em 1985 e que de nova nada tem senão o nome, morreu exatamente assim, por dentro e em silêncio, enquanto o noticiário discutia placares. O que o eleitorado fez no domingo, dia 4 de outubro, com a votação maciça em Flávio Bolsonaro e em candidatos da direita, não foi matá-la. Foi lavrar o atestado de óbito de um sistema político ineficaz e ineficiente.

Convém lembrar que o Brasil é um país de repúblicas sucessivas, e não de uma República contínua. Tivemos a República Velha, de 1889 a 1930. Tivemos o Governo Provisório e o arremedo constitucional de Vargas, de 1930 a 1937. Tivemos o Estado Novo, de 1937 a 1945. Tivemos a República Liberal de 1946, interrompida em 1964. Tivemos o regime militar, até 1985. E temos, desde então, a Nova República, que acaba de igualar em longevidade a Velha, 41 anos, e que morre exatamente da mesma enfermidade: uma classe política que confundiu os seus arranjos internos com a nação, e que passou a governar para preservar o arranjo, não o país.

O pacto de 1988 prometeu tudo e não financiou nada. Criou direitos sem lastro, instituições sem accountability e uma burocracia que se emancipou do eleitor. Ao longo de quarenta anos, essa engenharia foi capturada por um projeto específico, paciente e metódico, que entendeu antes de todos uma lição elementar de grande estratégia: quem domina as instituições permanentes não precisa vencer todas as eleições.

Daí a assimetria que a direita brasileira custou a compreender. A esquerda perdia pleitos e continuava governando o essencial, porque o essencial não estava no Planalto, estava nas agências, nas fundações, nos conselhos, nas carreiras de Estado, no Judiciário, nos currículos, na massa de manobra das universidades, nos editais e, de modo particularmente danoso, na política externa.

Nenhum setor ilustra melhor essa escalada de degradação do que o Itamaraty da última gestão Lula. Uma Casa construída por Rio Branco para defender o interesse nacional converteu-se em, mais do que concierge de criminosos, escritório de representação de autocracias, com uma diplomacia de comunicados insossos, de fotografias em cúpulas irrelevantes e de solidariedades automáticas a regimes que prendem opositores e eliminam liberdades fundamentais.

Chamou-se isso, com o auxílio da mídia chapa-branca, de protagonismo. Era o contrário. Protagonismo é a capacidade de alterar o cálculo alheio. O que se praticou foi a renúncia a essa capacidade em troca de afagos retóricos no circuito do chamado Sul Global, enquanto o país se tornava fornecedor cativo de commodities para quem lhe vende manufatura com valor agregado e lhe dita os termos. Trocou-se interesse por afinidade ideológica, e a conta, como sempre, chegou em forma de irrelevância.

Agora vem a parte que a imprensa ainda não processou. O Brasil não elegeu apenas uma maioria parlamentar conservadora. Elegeu governos estaduais conservadores, bancadas estaduais conservadoras e um Senado que, pela primeira vez na história republicana, não funcionará como câmara de contenção do impulso reformista, mas como seu motor. Isso muda a natureza do que está em jogo em 25 de outubro, com a esperança de eleição de um presidente de direita que prega a união nacional, e não a estratégia de divisão, como o anacrônico candidato da esquerda.

E o Brasil não está sozinho. Há uma recomposição política em curso na América do Sul, alimentada pelo esgotamento de modelos que prometeram proteção e entregaram estagnação, prometeram igualdade e multiplicaram privilégios, prometeram soberania e produziram dependência. O que acontece no Brasil integra uma transformação regional mais ampla. Mas nenhum país recebe da história a garantia de saber aproveitar a oportunidade que recebe.

A história inglesa oferece a analogia exata. Em 1660, os ingleses restauraram um rei. Em 1688, restauraram um regime. A diferença entre as duas datas é a diferença entre trocar o ocupante do trono e refundar as regras do jogo. O ciclo de 2018 foi o nosso 1660: uma vitória presidencial sem Estado, um comandante sem exército administrativo, um governo que passou quatro anos descobrindo, na carne, que a Presidência da República é a parte visível e menos poderosa do poder brasileiro. O que se desenha para 2027, com a eleição de Flávio Bolsonaro e um Congresso alinhado, é o nosso 1688. Não a troca do inquilino. A reescrita do contrato.

E aqui o ceticismo profissional exige a pergunta dura: alinhamento para quê? Maiorias não fazem história, projetos fazem. A Polônia de 1989 tinha a mesma janela e a usou para liberalizar preços e ancorar-se no Ocidente. O Chile dos anos oitenta a usou para reconstruir a previdência e abrir a economia. O Japão Meiji a usou para importar instituições sem importar subordinação. Em todos os casos, o que converteu o momento político em transformação histórica não foi o entusiasmo, foi a sequência: primeiro a arquitetura fiscal, depois a reforma do Estado, depois a inserção internacional. Fora dessa ordem, qualquer maioria se dissolve em quatro anos de administração de rotina e termina devolvendo o país aos seus antigos donos, com juros.

Mas, no fim, estamos falando de coisas que qualquer brasileiro conhece. Um Estado que cobre menos e entregue mais. Contas públicas que fechem. Ruas onde famílias possam andar sem medo. Um país em que trabalhar, produzir e empreender não sejam atos de resistência à burocracia. Energia abundante. Forças Armadas capazes de defender o território. Uma diplomacia que defenda o Brasil. E jovens que possam olhar para o futuro sem imaginar que precisam deixar o próprio país para encontrá-lo. É para isso que servem as reformas.

Reforma administrativa que devolva ao eleito o comando sobre o Estado, hoje sequestrado por corporações que se julgam poderes autônomos. Disciplina fiscal que não seja mais um contingenciamento cosmético, mas a extinção de distorções, gargalos e privilégios que nenhum país sério sustenta. Segurança pública tratada como política de Estado e não como reality show de ocasião. Exploração séria do nosso trunfo energético, do pré-sal ao ciclo completo do urânio, que o Brasil domina e subaproveita. Defesa orientada por dissuasão por negação, com a Amazônia e o Atlântico Sul como teatros prioritários, e não como temas de seminário. E uma política externa que volte a ter um critério único, o interesse nacional, com reposicionamento nas cadeias de valor, acordos comerciais que o Mercosul vem adiando há trinta anos e uma aliança sem complexos com as democracias que suportam o nosso futuro, não com os regimes que apenas o aplaudem.

Nada disso é utopia. É engenharia. A diferença entre um país grande e um país grandioso está inteiramente no intervalo entre o recurso e a decisão. Grandeza não é geografia. É escolha. E o Brasil é, desde sempre, o maior acervo de recursos subaproveitados do hemisfério. Temos terra, água, sol, urânio, nióbio, soja, povo jovem o bastante para produzir e velho o bastante para lembrar o que não deu certo. Falta-nos apenas o que nunca tivemos simultaneamente: vontade política e instrumento institucional para executá-la.

É fácil falar em Estado, instituições, reformas e estratégia como se tudo isso pertencesse apenas a Brasília. Não pertence. O fracasso de um Estado, materializado nas gestões petistas, tem endereço. Está na família que trabalha mais e vê o dinheiro comprar menos. Está no brasileiro que muda sua rotina porque tem medo de voltar para casa à noite. Está no pequeno empresário que perde horas tentando satisfazer uma burocracia que deveria servi-lo. Está no jovem qualificado que olha para outro país e se pergunta se precisará partir para ter futuro. É aí que o fracasso deixa de ser teoria. É quando entra dentro de casa.

Stefan Zweig chamou-nos de país do futuro, e a piada nacional completou que assim haveria de ser para sempre. A piada envelheceu mal, porque supunha que o futuro fosse um destino e não uma obra. Não é. Futuro é apenas o nome que se dá à soma das decisões que uma geração teve coragem de tomar no instante exato em que a história lhe abriu a porta. E a porta está aberta agora. Janelas históricas não permanecem abertas por simpatia nem por mérito, fecham-se com a mesma indiferença soberana com que se abriram, e o povo que não atravessa quando pode volta a esperar quarenta anos, de chapéu na mão, diante de uma parede.

Pensem no que esperou conosco. Esperou a geração de 1822, que fez um país e não conseguiu fazer uma nação. Esperou a de 1889, que trocou o Imperador por oligarquias e chamou aquilo de República. Esperou a de 1930, que prometeu modernizar e entregou o Estado Novo. Esperou a de 1964, que salvou o país de um naufrágio e não soube devolvê-lo ao timoneiro certo. Esperou a de 1985, que recebeu a democracia nas mãos como quem recebe um templo e a transformou numa repartição.


Mas não foram datas que esperaram. Foram nossos pais. Nossos avós. Esperaram milhões de brasileiros que trabalharam uma vida inteira acreditando que seus filhos finalmente viveriam no país que lhes havia sido prometido. Muitos morreram sem vê-lo.

Seis gerações olharam para este território imenso, para este povo generoso, para esta abundância quase indecente de sol, de terra, de água e de gente, e morreram sem ver o país que tudo isso prometia. O luto de um povo não se mede em estatísticas. Mede-se no que ele deixou de ser.

Pois bem. A espera acabou. A Sexta República está morta, e o enterro foi marcado para 25 de outubro. O que virá depois não será restauração, não será alternância, não será mais um governo. Será fundação. E fundações não se julgam pelo discurso de posse nem pelas manchetes do primeiro ano, julgam-se pelo que ainda estiver de pé meio século adiante, quando ninguém mais se lembrar dos nomes de quem as ergueu.

Que esta geração seja digna da hora que lhe coube. Que os homens que assumem o leme jamais esqueçam que não foram eleitos para administrar o declínio com mais competência, mas para interrompê-lo, e que a posteridade é impiedosa com quem teve o poder e só exerceu o cargo.

O Brasil esperou duzentos anos. Esperou calado, esperou resignado, esperou sendo roubado, esperou sendo ensinado a ter vergonha de si mesmo. Esperaram nossos pais e nossos avós. Agora nossos filhos olharão para nós. E terão o direito de perguntar o que fizemos quando chegou a nossa vez, quando se teve a oportunidade de votar por mudanças.

Chega. Que se levante, enfim, este gigante que o mundo admira por educação e teme por instinto. Que deixe de ser a promessa eterna de um futuro que nunca chega e se torne, de uma vez, o presente que o mundo precisará respeitar. Não por simpatia. Por necessidade.

O futuro do Brasil começa em 25 de outubro. Começa com cada um de nós. E, desta vez, não haverá desculpa.

Uma agenda externa difícil aguarda quem vencer o segundo turno 

A onda de vitórias das correntes da direita parece ter chegado ao Brasil, dotando esse campo político de maiorias no Senado e o governo de vários estados, além de ter levado seu candidato ao segundo turno, na liderança da corrida eleitoral. Independente da corrente ideológica, o vencedor do Segundo Turno terá que navegar por um cenário internacional desafiador. A política externa, tratada nas campanhas de forma superficial, será um dos terrenos em que o novo governo será testado mais rápido. 

O primeiro item na agenda é a relação com os Estados Unidos. O retorno do protecionismo e o uso de tarifas como instrumento de pressão política mostraram que o comércio bilateral pode ficar refém de disputas ideológicas, e mesmo concordâncias e alinhamentos ideológicos não retiram forte pressão dos EUA, a rejeição interna do público americano a carne argentina, mesmo com o alinhamento dos governantes, exemplifica os limites desses alinhamentos quando a base do governo Trump se mostra refratária a importações em geral. 

O segundo é a China, nosso maior investidor direto. A venda de soja, minério e petróleo garante superávits, que agradam setores do agronegócio, mas as importações da China são alvos de protestos constantes dos setores industriais. Cabe ao próximo presidente buscar abrir mercado para exportações com maior valor agregado e atrair investimentos que gerem tecnologia e empregos aqui, ao mesmo tempo que evite ser cooptado pela rivalidade entre Washington e Pequim. 

As relações com parceiros grandes como China e Estados Unidos mostram que é preciso preparar o que é interesse nacional permanente (acesso a mercados, investimentos, cooperação tecnológica) das afinidades ou antipatias do governante da hora. Mas, tanto as bases de Lula como a de Flávio Bolsonaro têm posições muito calcificadas quanto aos Estados Unidos e China, opostas é verdade, mas que igualmente agem como freio para posturas mais pragmáticas.

Na lista das relações que precisam de atenção temos também a agenda europeia. O acordo Mercosul-União Europeia, negociado por mais de vinte anos, segue cercado de resistências agrícolas e exigências ambientais. Concluí-lo e implementá-lo seria um contrapeso valioso tanto quanto a China e Estados Unidos, mas exigirá credibilidade na proteção da Amazônia, velha exigência e para alguns desculpa européia para resistir ao acordo. E é outro tema que deve encontrar muita resistência no Congresso e nas bases. 

As políticas climáticas são, ao mesmo tempo, nosso maior ativo diplomático e nossa maior vulnerabilidade. Depois de sediar a COP30, em Belém, o país carrega a expectativa de liderar com resultados concretos: queda do desmatamento, financiamento florestal, transição energética. Retórica sem entrega custará caro em reputação e em acesso a mercados. Abandonar essa agenda pode prejudicar até setores do agronegócio, que dependem de certificação ambiental para acesso a mercados lucrativos. 

Soma-se a isso a corrida por minerais críticos e tecnologia. O Brasil tem reservas relevantes e energia limpa em abundância, o que o torna peça cobiçada. A pergunta é se seremos apenas fornecedores de matéria-prima ou sócios na cadeia de valor, com processamento, pesquisa e indústria instalados em território nacional.

Na América Latina, temos como itens importantes na agenda internacional a instabilidade venezuelana, as fragilidades e contradições do Mercosul e o avanço do crime organizado transnacional que exigem liderança brasileira e concertação com os vizinhos. 

Quem subir a rampa do Palácio do Planalto dia 1º de janeiro terá uma agenda externa com dilemas importantes para o Interesse Nacional brasileiro e terá que navegar interesses concorrentes e antagônicos de diversos setores econômicos e sociais, em um cenário interno carregado ideologicamente que age como limite ao pragmatismo, desse modo, parafraseando Machado de Assis, em política externa ‘ao vencedor, as batatas quentes’. 

República do Arbítrio

O Brasil caminha para mais um pleito eleitoral sob a atmosfera sufocante de uma nação fraturada, conflagrada e sem consensos. Contudo, a maior ameaça à integridade da disputa não reside unicamente no acirramento da polarização nas ruas, mas na consolidação de uma engenharia institucional orientada a transferir a decisão das urnas para os gabinetes dos tribunais. O fantasma da judicialização da eleição tornou-se um risco iminente, alimentado por sinais inequívocos de que setores do Supremo Tribunal Federal estão dispostos a levar o resultado do pleito para o “tapetão”.

Trata-se de uma estratégia que subverte a democracia. Sob o pretexto de combater a desinformação, observa-se a atuação articulada de uma ala da Corte historicamente alinhada ao grupo lulista. Esse estamento vem utilizando o poder jurisdicional de forma heterodoxa para intervir no processo político. A proliferação de inquéritos de ofício — sem provocação do Ministério Público ou da Polícia Federal —, o atropelo ao juiz natural, censuras e o sobrepujamento da Justiça Eleitoral compõem um roteiro deliberado de ingerência. O que está em curso é a consolidação de uma estrutura autocrática em que o critério de legalidade é moldado pela conveniência do candidato de estimação do estamento togado.

Essa dinâmica evidencia-se no fustigamento ostensivo ao Tribunal Superior Eleitoral. Sempre que a Justiça Eleitoral tenta impor freios ao arbítrio, a ala governista do STF reage com pressão e desconfiança, passando a intimidação por meio de vazamentos e chantagens explícitas. O inconformismo em não exercer o controle absoluto do processo revela a intenção de fabricar uma narrativa de nulidade do pleito. Prepara-se o terreno para contestar a legitimidade do resultado caso as urnas revelem uma escolha desfavorável ao grupo encastelado no poder.

Caso o resultado eleitoral seja arrastado para o tapetão e revirado por manobras pouco ortodoxas em favor do candidato lulista, o Brasil enfrentará uma imediata denúncia internacional. Governos estrangeiros e organismos multilaterais dificilmente chancelarão um governo cuja legitimidade decorra de atos arbitrários de magistrados partidarizados. Sanções diplomáticas, isolamento econômico e perda de credibilidade externa seriam inevitáveis, rebaixando a República à condição de pária internacional.

A soberania popular é o único alicerce capaz de sustentar a paz social e a estabilidade democrática. Quando o Judiciário abandona a sua função constitucional de guardião imparcial das leis para atuar como linha de defesa de uma candidatura, o pacto republicano é rompido. É urgente que os tribunais retomem a prudência, o respeito às normas processuais e a contenção institucional, um desafio especial para Fachin, um Presidente fraco, que não consegue liderar a corte. A insistência em manipular o resultado eleitoral levará o Brasil a um colapso sem volta, submergindo o país em um estado permanente de caos, ruína diplomática e ingovernabilidade.

Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. 

Taiwan, ONU e a Defesa da Ordem Internacional

Dr. Lin Chia-lung
Ministro das Relações Exteriores da República da China (Taiwan)

A ordem internacional baseada em regras enfrenta forte pressão. Estados autoritários tentam enfraquecer suas salvaguardas e redefinir normas globais em benefício próprio, afrontando princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas, como a solução pacífica de controvérsias e a proibição da ameaça ou do uso da força.

A comunidade internacional vive um momento decisivo: ou agimos unidos para defender o Estado de Direito e a paz, ou assistiremos ao esfacelamento da ordem global, arrastando consigo a liberdade, a autodeterminação e a democracia.

Essa escolha é cristalina na primeira cadeia de ilhas do Indopacífico. A segurança regional sofre com a crescente pressão da China, que emprega táticas de “zona cinzenta” — intimidação militar, intrusões cibernéticas e coerção econômica — para alterar unilateralmente o status quo.

Na linha de frente da democracia, Taiwan manterá a estabilidade regional. A paz no Estreito de Taiwan — via marítima crucial e artéria vital para as cadeias globais de suprimento — é um interesse compartilhado por todos, como reforçado por declarações do G7 e de diversos fóruns multilaterais entre EUA, Japão, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.

Essa ordem também é solapada pela distorção deliberada da Resolução 2758 da Assembleia Geral da ONU. Adotada em 1971 para tratar da representação chinesa na ONU, seu texto não menciona Taiwan, não define seu status político nem aborda sua participação no sistema global. Ao fundir a resolução ao seu suposto “princípio de uma só China”, Pequim tenta isolar Taiwan, criando um precedente jurídico perigoso e um pretexto para futuras ações militares.

A despeito da exclusão, Taiwan atua como força para o bem. Líder global em semicondutores, inteligência artificial e tecnologia, o país constrói cadeias de suprimento seguras e resilientes. Pelo “Projeto de Prosperidade com Aliados Diplomáticos”, impulsiona o desenvolvimento com parcerias concretas: o sistema integrado de informação em saúde no Paraguai, a reserva estratégica de combustível em Eswatini e a saúde digital no Hospital Nacional de Palau.

O presidente eleito da 81ª Assembleia Geral da ONU, Khalilur Rahman, definiu como prioridades a restauração da confiança e a transformação institucional. Taiwan compartilha dessas metas. Contudo, recuperar a credibilidade da ONU exige tratar cada membro com justiça e tal transformação jamais estará completa enquanto um parceiro construtivo continuar excluído.

Instamos a comunidade internacional a honrar a inclusão e a solução pacífica de controvérsias. O mundo livre precisa de Taiwan — e uma ONU mais forte necessita de sua participação significativa para consolidar a segurança coletiva, a resiliência tecnológica e a capacidade de resistir à pressão autoritária.

O Brasil do lado de fora do Escudo

Há derrotas diplomáticas que chegam com a assinatura de um tratado hostil, uma votação perdida ou uma crise aberta. Há outras, mais silenciosas e, por isso, mais perigosas, que se consumam quando um país descobre que os demais começaram a organizar o seu entorno geopolítico sem esperar por ele. O Brasil vive, diante do Escudo das Américas, precisamente essa segunda situação, traduzida, simplesmente, como crescente irrelevância.

A reunião realizada por Estados Unidos e catorze países latino-americanos em Nova York, em 22 de setembro, às margens da Assembleia Geral da ONU, deixou de vez para trás a ideia de que o Escudo seria apenas mais uma coalizão episódica de combate ao narcotráfico. Trata-se de algo substancialmente mais relevante: uma arquitetura de concertação geopolítica hemisférica estruturada em três pilares de atuação: economia, segurança e coordenação multilateral.

A agenda inclui sanções financeiras, restrições de vistos, cooperação militar e de inteligência, tecnologias de segurança, triagem de investimentos, cadeias de minerais críticos e regras para fornecedores de infraestrutura digital. Sua primeira ação conjunta tem como alvo 24 organizações tratadas pelos participantes como narcoterroristas transnacionais. Entre elas estão o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.

Esse fato deveria bastar para encerrar uma das ficções mais persistentes da política externa deformada e desfocada do governo Lula: a de que permanecer fora de uma arquitetura internacional equivale, por si só, a preservar autonomia. Não equivale. No caso específico, significa apenas conservar intacta a liberdade de não influenciar nada.

A ironia histórica é difícil de exagerar. O Escudo pretende solicitar ao Conselho Permanente da OEA a convocação de um órgão de consulta com base no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, o TIAR. O tratado foi adotado no Rio de Janeiro, em 1947. Seu instrumento original está depositado no Itamaraty. Em 2001, depois dos atentados de 11 de setembro, foi o próprio governo brasileiro que pediu a convocação do mecanismo. Setenta e nove anos depois de o Rio ter dado nome ao tratado, e 25 anos depois de Brasília tê-lo mobilizado, o Brasil corre o risco de assistir de fora à tentativa de utilizá-lo contra duas organizações terroristas nascidas em seu próprio território. A geografia permaneceu. A diplomacia, acanhada e desmoralizada, saiu da sala.

É nesse ponto que a responsabilidade do governo Lula e da duplamente acéfala gestão Mauro Vieira/Celso Amorim precisa ser examinada sem eufemismos. O problema não se resume à divergência com Washington sobre a classificação jurídica de PCC e CV como organizações terroristas. Inclui também haver transformado essa divergência em substituto de estratégia.

Desde março, estava claro que a administração Trump pretendia converter o combate aos cartéis e às facções transnacionais em eixo de reorganização hemisférica. Em junho, Washington designou PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras. Em julho, o próprio Vieira advertia sobre os possíveis efeitos dessa decisão. Ainda assim, o Planalto e o Itamaraty alegam que foram surpreendidos pela inclusão das duas facções na primeira ação coletiva do Escudo, o que revela, no mínimo, dois aspectos igualmente constrangedores.

O primeiro é a constatação da minúscula capacidade de inteligência estratégica do Estado brasileiro, voltada para a antecipação de situações que tragam riscos potenciais ao País e à consecução dos interesses nacionais. O segundo, diretamente derivado do primeiro, é a materialização do isolamento geopolítico do Brasil e de sua incapacidade de coordenar posições sequer em âmbito regional. A diplomacia de Lula, para surpresa de zero pessoas, subitamente se descobriu sem voz e sem influência.

Diplomacia não é a arte de concordar. É, antes de tudo, a arte de antecipar. Um Ministério das Relações Exteriores pode discordar de uma iniciativa, tentar limitá-la, modificá-la ou bloqueá-la. O que não deveria fazer é descobrir pela imprensa que 15 vizinhos e parceiros acabaram de adotar uma posição sobre duas organizações terroristas brasileiras que afetam diretamente a segurança nacional do País. A surpresa, nesse caso, não é uma virtude da prudência, mas uma medida de perda de capacidade de leitura do entorno.

O discurso de Lula na ONU repetiu uma oposição que soa bem no palanque para os áulicos da delegação brasileira, sedentos por bajulação, mas que carece de qualquer densidade estratégica ou caráter propositivo: o Brasil não terceirizaria a defesa de suas fronteiras e não precisaria de porta-aviões em suas águas.

A frase constrói um adversário imaginário conveniente, típico das falácias esquerdistas, para evitar a questão real. Ninguém precisa defender subordinação militar estrangeira para concluir que o Brasil deve estar presente onde se escrevem regras que afetarão suas fronteiras, seus bancos, suas empresas, seus portos, suas redes digitais, seus cidadãos e suas cadeias minerais. Soberania não é isolamento, e sim capacidade de converter poder nacional em influência sobre decisões externas.

Existe aqui um passivo doméstico concreto. O narcoterrorismo não respeita a distinção administrativa entre política interna e política externa. PCC e CV operam por corredores logísticos, redes financeiras, portos, fronteiras, intermediários, empresas de fachada, fornecedores de armas e alianças transnacionais. Quando a repressão aumenta de forma desigual entre países vizinhos, as redes tendem a deslocar rotas, ativos e centros de comando para os espaços de menor risco.

Se o Escudo se tornar mais eficaz ao redor do Brasil enquanto o País permanece parcialmente desconectado de seus fluxos de inteligência, sanções e cooperação, cresce o risco de um efeito de deslocamento para território brasileiro. O crime organizado conhece, à sua maneira, a velha lógica hidráulica: pressione-se um ponto do sistema e o fluxo buscará outra saída.

O passivo externo é ainda maior. Ao não participar da fase formativa, o Brasil perde a oportunidade de definir critérios de designação, salvaguardas de soberania, mecanismos de compartilhamento de dados, padrões de sanções financeiras e limites para o emprego de instrumentos coercitivos. Perde também a possibilidade de transformar sua centralidade geográfica em poder de agenda. Países menores podem aceitar regras. Potências regionais devem tentar escrevê-las.

A imagem da cadeira vazia merece uma precisão histórica. Charles de Gaulle pôde usar, em 1965, a chamada política da cadeira vazia para pressionar a Comunidade Econômica Europeia porque a França era institucionalmente incontornável e dispunha de meios para bloquear o processo. A cadeira vazia só é instrumento de poder quando todos precisam que seu ocupante volte. Quando os demais descobrem que podem rearranjar a mesa, ela deixa de ser instrumento de pressão e passa a ser apenas mobília desocupada. O perigo para o Brasil é justamente que a América do Sul se habitue a organizar segurança, inteligência, minerais, comércio, infraestrutura e posições multilaterais sem esperar por Brasília.

O componente geoeconômico torna a omissão mais grave. O documento do Escudo menciona expressamente triagem de investimentos, proteção de cadeias de minerais críticos e fornecedores confiáveis de infraestrutura digital. Não se trata, portanto, de uma aliança policial com adereços econômicos. Trata-se do esboço de uma arquitetura hemisférica para um mundo no qual segurança, tecnologia, finanças, energia e recursos naturais voltaram a formar um único tabuleiro.

Poucos países teriam mais a ganhar com uma participação inteligente do que o Brasil. O próprio governo brasileiro reconhece que o País detém a maior reserva mundial de nióbio e figura entre os principais detentores de grafite, terras raras, níquel, manganês, bauxita e lítio. Isso permite pensar em uma pilha estratégica brasileira que vá da geologia à indústria: pesquisa mineral, extração, processamento, refino, metalurgia, ímãs, baterias, componentes, energia limpa, infraestrutura digital, financiamento e acesso a mercados. O erro seria reduzir essa riqueza a uma escolha infantil entre EUA e China. O objetivo deveria ser usar a competição entre grandes potências para aumentar a capacidade nacional, diversificar dependências e subir na cadeia de valor.

É precisamente por isso que participar do Escudo não exigiria aceitar seu desenho norte-americano em bloco. O Brasil poderia condicionar sua adesão ou cooperação a princípios claros: nenhuma operação em território nacional sem consentimento e comando brasileiro; primazia da legislação doméstica; compartilhamento de inteligência com regras de origem, finalidade e proteção de dados; sanções financeiras coordenadas mediante base probatória compatível com o ordenamento brasileiro; cooperação policial, aduaneira e judicial robusta; e participação efetiva nos mecanismos decisórios.

Poderia também chegar à mesa com ativos, e não apenas objeções. O Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, pode ser conectado a mecanismos hemisféricos sem ser subordinado a eles. A Polícia Federal, o COAF, a Receita Federal, o Banco Central e autoridades estaduais podem formar células específicas de rastreamento financeiro e logístico voltadas às redes externas de PCC e CV. O Brasil pode propor protocolos para portos, fronteiras e aviação clandestina, operações simultâneas contra lavagem de dinheiro e mecanismos de recuperação de ativos. Pode ainda exigir que qualquer arquitetura de inteligência preserve o controle nacional sobre dados sensíveis e impeça que a cooperação contra o crime se transforme em licença genérica para intervenção.

No plano econômico, Brasília poderia propor parcerias em minerais críticos que condicionem o acesso a jazidas ao processamento local, à transferência tecnológica, ao financiamento de infraestrutura, a contratos de compra de longo prazo e à formação de capacidade industrial no Brasil. Em terras raras, por exemplo, a soberania relevante não consiste apenas em possuir o minério no subsolo, mas em dominar etapas suficientes da cadeia para que o País não exporte minérios e importe poder. O mesmo raciocínio vale para grafite, lítio, níquel, nióbio, centros de dados, redes de telecomunicações e energia.

Nada disso exige adesão automática à visão de Washington. Ao contrário. É justamente porque Trump apresenta o Escudo como instrumento de reafirmação do poder norte-americano no Hemisfério Ocidental, e porque chegou a associar sua política regional ao emprego de poder militar em defesa de interesses vitais dos EUA, que a presença brasileira se torna mais, não menos, necessária. A resposta madura à concentração de poder não é desaparecer do processo em que esse poder está sendo institucionalizado. É entrar nele com massa crítica suficiente para impor limites, construir coalizões e oferecer alternativas.

O governo Lula preferiu outra coisa: transformar a palavra soberania em espécie de biombo retórico atrás do qual se esconde uma política de ausência. Mauro Vieira, por sua vez, parece ter permitido que uma divergência jurídica previsível se convertesse em cegueira estratégica evitável. O resultado é uma diplomacia que proclama protagonismo enquanto outros países definem instrumentos para combater organizações brasileiras, discutir minerais brasileiros e reorganizar o entorno estratégico brasileiro.

Há uma diferença entre ser independente e ser irrelevante para uma decisão. A primeira condição é atributo de soberania. A segunda é fracasso de influência.

A decisão de permanecer fora do Escudo, contudo, não é irreversível. Governos passam; geografia, fronteiras, facções criminosas, cadeias minerais e interesses nacionais permanecem. O Presidente da República empossado em 5 de janeiro de 2027 herdará um mecanismo mais desenvolvido do que aquele que Lula decidiu observar de fora. Se houver mudança de governo e Flávio Bolsonaro for eleito, sua administração poderá rever essa opção já no início do mandato. Se a maldição de uma eventual reeleição de Lula recair sobre o Brasil, a mesma realidade estratégica, que reflete uma compreensão pedestre tanto das relações de poder quanto da arquitetura securitária regional, continuará à sua frente, ainda que o discurso prefira não reconhecê-la.

O Escudo das Américas ainda está em construção, o que significa que ainda existe espaço para negociação e influência. É precisamente agora, e não quando a arquitetura estiver consolidada, que o Brasil deveria assumir posição de liderança.

Não por alinhamento com Washington. Não por afinidade ideológica. Muito menos por submissão. Mas porque, se uma nova arquitetura das Américas está sendo gestada em nosso entorno, o Brasil não deveria perguntar apenas se pretende participar dela. Deveria decidir que moldura deseja construir e, desde já, assumir a responsabilidade de ajudar a liderá-la.

Entretanto, a desastrosa decisão de Lula não precisa converter-se em destino nacional. A cadeira brasileira está vazia não porque nos faltem dimensão, recursos ou poder, mas porque faltou ao atual governo visão para ocupá-la. Uma nova administração poderá fazê-lo desde o primeiro dia, não para seguir Washington, nem para escolher entre capitais estrangeiras, mas para devolver ao Brasil algo mais elementar e mais ambicioso: a capacidade de decidir sobre a ordem que se forma ao seu redor.

Se Flávio Bolsonaro assumir a Presidência em janeiro de 2027 e reverter essa ausência, ainda haverá tempo para transformar uma retirada voluntária em retorno estratégico, uma omissão em iniciativa e uma cadeira vazia em lugar de comando. A história raramente reserva para as grandes nações o conforto de permanecer à margem. Reserva-lhes algo melhor: a oportunidade de voltar à mesa e ajudar a redesenhá-la.

Taiwan merece um lugar na ONU

O conflito no Estreito de Hormuz, a guerra da Ucrânia, as múltiplas crises comerciais monopolizam o interesse da imprensa global durante a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a atenção não é descabida, uma vez que essas crises geram sofrimento humano e grandes prejuízos econômicos, contudo existem outras regiões estratégicas em disputa acirrada no mundo, uma disputa, que por hora é um pouco mais sutil com o uso de intimidação militar, invasões cibernéticas e coerção econômica. Essa é a situação no Estreito de Taiwan. 

Em 1971, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Resolução 2578, que transferiu a representação da China nas Nações Unidas da República da China para a República Popular da China. A diplomacia de Pequim tem colocado sua habilidade e capacidade de influência para usar essa resolução como sustentação legal internacional para o isolamento de Taiwan dentro da de sua política de “uma só China”. 

O texto da Resolução 2758 trata apenas da representação da China na ONU. Ela não afirma que Taiwan é parte da República Popular da China, nem concede a Pequim qualquer direito de representar o povo taiwanês. A posição chinesa visa minar o direito soberano de cada país de definir suas próprias relações com Taiwan e criando, se não for contida, um pretexto legal perigoso para uma eventual invasão militar. Trata-se de uma ameaça grave à paz e à estabilidade regionais, diante da qual a comunidade internacional não pode permanecer em silêncio O atual contexto econômico de expansão de investimentos massivos em infraestrutura computacional avançada, utilizada em Inteligência Artificial, aumenta ainda mais os riscos para a economia global de um eventual conflito nessa parte do mundo. 

Para contextualizar, essa importância é preciso ter em mente que o Estreito de Taiwan é uma das vias marítimas mais movimentadas do mundo e uma artéria vital das cadeias de suprimento globais por onde cerca de 50% dos navios porta-contêineres do planeta passam por ali. Além disso, cerca de 90% dos chips de computador mais avançados são produzidos na ilha e 60% da fundição global de chips.  

Mesmo excluída da ONU, Taiwan tem atuado como força positiva no cenário internacional ao executar uma agenda de política externa, voltada a fortalecer alianças democráticas, promover segurança coletiva, sobretudo, na região do indo-pacífico e construir resiliência econômica. Essa estratégia de ação é construída sob o conceito de diplomacia integrada, que pretende unir a iniciativa privada e o poder público, em política externa. 

Esse elemento de pensamento estratégico é materializado no Projeto de Prosperidade dos Aliados Diplomáticos, no qual Taiwan compartilha know-how em iniciativas concretas com seus parceiros, como, por exemplo, um sistema integrado de informação de saúde no Paraguai. 

Como democracia vibrante em meio ao crescimento da repressão transnacional exercida por regimes autoritários, a exclusão de Taiwan do sistema da ONU é incoerente com os valores que a própria organização diz defender. Khalilur Rahman, presidente eleito da 81ª Assembleia Geral da ONU, definiu como temas centrais de sua presidência “restaurar a confiança” e “gerir a transformação institucional”. De fato, para restaurar a confiança é preciso que a ONU trate todos os membros da comunidade internacional com justiça.

Um primeiro passo no sentido da justiça seria permitir que portadores de passaporte taiwanês, incluindo jornalistas, possam acessar as instalações da ONU para reuniões, visitas e cobertura jornalística, o que atualmente tem sido negado com base numa interpretação ampla e viesada da resolução 2578. Esse primeiro passo não exige que a ONU resolva, de uma vez, a questão do status político de Taiwan, um debate que nenhuma organização internacional está em posição de arbitrar unilateralmente. O que está em jogo é mais modesto e, por isso mesmo, mais urgente, o acesso às Nações Unidas deveria ser um direito de todos, não um privilégio seletivo, negar credenciamento à imprensa taiwanesa fere a liberdade de expressão consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A comunidade internacional precisa atuar para impedir que um texto de 1971 continue sendo usado como escudo retórico para excluir um ator relevante dos debates sobre a governança global. Trabalhar ao lado de Taiwan fortaleceria a segurança coletiva, ampliaria a resiliência econômica e tecnológica global e reforçaria a capacidade conjunta de resistir à pressão autoritária.

A Omertà Togada

A sessão do Supremo Tribunal Federal na última terça-feira figurará como um marco desconcertante na trajetória recente do Judiciário brasileiro. Em meio ao acirramento dos debates no plenário, a invocação do termo Omertà — o histórico código de silêncio das organizações mafiosas — pelo ministro Gilmar Mendes, expôs uma fissura preocupante na dinâmica da Suprema Corte. Quando a exigência de espírito de corpo e blindagem institucional é externada mediante analogias dessa natureza, abre-se uma crise de credibilidade sem precedentes, na qual a transparência do debate público parece sucumbir diante da pressão pelo alinhamento corporativo.

Nesse embate, a conduta de André Mendonça sobressaiu-se pela sobriedade. Distante de confrontos ruidosos, sua posição pautou-se pela observância do devido processo legal e pela defesa do debate aberto, fundamentando-se nas normas institucionais em vez de ceder aos constrangimentos de uma pretensa lealdade interna. Em contrapartida, a articulação observada no grupo alinhado ao ministro Alexandre de Moraes — exemplificada pelo pedido de vista do ministro Flávio Dino — soou para ampla parcela da sociedade como o uso tático de expedientes regimentais para postergar deliberações incômodas e arrefecer desgastes políticos. A percepção de que a chicana jurídica é empregada para proteger determinados polos do próprio tribunal corrói a confiança republicana.

Contudo, os desdobramentos dessa tentativa de autoproteção ultrapassam os limites do plenário e repercutem de forma devastadora na política nacional. Ao engajar o governo e ministros indicados por Lula — como Flávio Dino e Cristiano Zanin — na linha de frente para blindar Moraes, o Palácio do Planalto compromete seriamente suas próprias pretensões de conquistar mais um mandato presidencial. Essa operação de salvamento atua como poderoso catalisador para o eleitorado, impulsionando decisivamente a candidatura opositora de Flávio Bolsonaro, que protagoniza o duelo contra os arbítrios e as práticas heterodoxas no Supremo. Ao endossar o corporativismo da Corte, Lula pode ter entregado a vitória nas mãos de Flávio Bolsonaro.

O principal vetor desse contraponto reside nas eleições para o Senado Federal. O cidadão compreendeu de forma pragmática que a Câmara Alta é o único fórum constitucional dotado de competência para fiscalizar os excessos e impor limites à atuação do Judiciário. Se antes as projeções indicavam a eleição de uma bancada de direita com aproximadamente 43 senadores, o espetáculo corporativo presenciado nesta semana tende a inflar expressivamente esse número, transformando o pleito vindouro em uma verdadeira consulta popular sobre os rumos da jurisdição constitucional no Brasil.

Mais do que uma disputa partidária, a escolha que se aproxima carrega uma dimensão ética incontornável. Existe uma contradição insanável entre a ética da Omertà — fundamentada no silêncio cúmplice, na corporativização e no privilégio pessoal — e a ética republicana, ancorada na publicidade, na impessoalidade e na submissão irrestrita à lei. Cabe aos eleitores rejeitar categoricamente nas urnas o código mafioso do corporativismo cego invocado pelo Supremo, afirmando em seu lugar a ética da legalidade e o império da Constituição Federal.