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Conexão Moscou 

Na alta geopolítica, a ingenuidade é um luxo caríssimo e a coincidência, uma ilusão para amadores. Quando o Palácio do Planalto recebe, de portas fechadas e fora da agenda oficial, o homem apontado pelo Ocidente como o verdadeiro número dois do Kremlin, o recado ao mundo vai muito além do protocolo. A presença silenciosa de Nikolai Patrushev em Brasília, em meio a atritos com Washington e a poucos meses do pleito eleitoral, não é um fato isolado. É o ponto de convergência de uma estratégia russa de longo alcance que envolve guerra híbrida, dependência energética e a instrumentalização do território brasileiro.

A escolha do Brasil pelo aparato de segurança de Moscou não é recente. O país tornou-se entreposto global para a “lavagem de identidades” do programa de espiões “Ilegais” da Rússia. Casos como os de Sergey Cherkasov e Mikhail Mikushin mostraram como a inteligência russa usou brechas cartorárias para fabricar passaportes e infiltrar agentes no TPI e na OTAN. A exploração avançou também sobre o capital humano, atraindo jovens brasileiros para o front com falsas promessas. O padrão é claro: Moscou enxerga o Brasil como um território conveniente, capaz de fornecer desde identidades falsas até infantaria descartável para sua combalida máquina de guerra.

A dimensão mais pragmática dessa aliança subterrânea, contudo, é financeira e logística. Enquanto o discurso oficial empunha a “neutralidade”, a economia real revela a adesão ao financiamento do esforço de guerra de Vladimir Putin. Mais de R$ 6,2 bilhões em diesel russo sancionado entraram no país por uma “frota fantasma” de 32 navios com rotas maquiadas e ligações com o crime organizado expostas pela Operação Carbono Oculto. Hoje, a Rússia responde por 63% de todo o diesel importado pelo Brasil. Neste contexto, a figura de Patrushev — presidente do Conselho Marítimo russo — é decisiva. Sua passagem por Brasília, reunindo-se com ministérios estratégicos, civis e militares, buscou garantir blindagem regulatória e a manutenção dessas rotas paralelas.

Essa articulação ganha gravidade sob a ótica da guerra de informação. Patrushev, sancionado pela OFAC, é o mestre intelectual das operações globais de manipulação eleitoral do Kremlin. Sua visita ocorreu quando a diplomacia brasileira entrava em rota de colisão com os EUA, com revogações cruzadas de vistos e acusações de ingerência. O sinal é inequívoco: Brasília acusa os americanos de interferência eleitoral enquanto acolhe no Planalto, fora da agenda, o ex-chefe da antiga KGB, hoje chamada de FSB, e arquiteto da guerra suja russa com um currículo interminável de desinformação política no exterior. Em ano de eleições, a presença da cúpula da inteligência russa não é coincidência de calendário, mas uma troca de conveniências geopolíticas.

Ao tolerar o uso de seu território para espionagem, permitir o atracamento de uma frota clandestina de combustível e receber em segredo o chefe da inteligência do Kremlin sancionado internacionalmente, o Brasil sacrifica sua histórica reputação diplomática. A visita de Patrushev consolidou um pacto silencioso de cooperação logística, energética e de inteligência que insere nosso país no mapa das operações híbridas da Rússia — com custos que cobrarão seu preço por gerações.

Autocratas, populistas e identitaristas

Os democratas liberais não são contra a esquerda ou contra a direita. São contra três tipos de esquerda e de direita: a autocrática (como Ortega e Bukele), a populista (como Lula e Bolsonaro) e a identitarista (como Erika Hilton e Jordan Bardella).

Às vezes esses tipos se misturam em cada lado. Por exemplo, um populista de esquerda pode ser um autocrata (como Maduro) ou não (como Sheinbaum). Um populista de direita pode ser um autocrata (como Erdogan) ou não (como Milei).

Em geral a esquerda (autocrática, populista ou identitarista) tem raiz marxista e é composta por revolucionários travestidos de progressistas. Enquanto que a direita (autocrática, populista ou identitarista) não raro é composta por reacionários que se disfarçam de conservadores.

Alguns podem estranhar essa caracterização de ‘identitarismo de direita’. Mas ele existe. Vejamos alguns exemplos de populistas de direita que também são identitaristas (e, pelo menos um deles, autocrata):

Bardella baseia sua plataforma no “nacional-identitarismo”, defendendo a prioridade de cidadãos franceses nativos em serviços públicos e a proteção da identidade cultural francesa contra a influência do islamismo e da imigração em massa.

Geert Wilders, na Holanda, tem uma plataforma quase integralmente focada na preservação da identidade cultural ocidental e secular. Ele argumenta que os valores tradicionais da Holanda estão sob ameaça devido à imigração proveniente de culturas não ocidentais.

Para não falar de Narendra Modi. A lógica de sua governança fundamenta-se exatamente no conceito de identitarismo de direita. Ou seja, a mobilização política baseada na identidade cultural e religiosa do grupo demográfico majoritário. Modi e seu partido, o BJP (Bharatiya Janata Party), são historicamente ligados ao grupo RSS, uma organização que formula a doutrina do Hindutva. Essa ideologia defende que a verdadeira identidade nacional indiana é indissociável da cultura e tradição hindus. É a outrificação (othering). O identitarismo de direita costuma se consolidar definindo claramente quem pertence à identidade nacional e quem é o “outro”.

A esquerda identitarista fixa-se na identidade de minorias marginalizadas ou discriminadas, enquanto que a direita identitarista mobiliza politicamente a identidade da maioria ou da tradição histórica (étnica, religiosa ou nacional), argumentando que os valores, a história e a cultura do povo nativo estão sob ataque devido à globalização, à imigração e ao progressismo cultural.

O conservadorismo clássico foca na preservação de instituições (como o livre mercado, a família e a Constituição) e na limitação do poder do Estado. A direita identitarista, em geral, utiliza o aparato do Estado de forma ativa para moldar e proteger a cultura. O foco central não é a economia ou a liberdade individual, mas a sobrevivência e a supremacia cultural do grupo identitário nacional.

E os democratas liberais?

Os democratas liberais não são autocratas, populistas ou identitaristas de esquerda ou de direita. Não são revolucionários, nem reacionários: são reformistas. A democracia nasceu de uma reforma: a reforma distrital de Clístenes (em 509 a.C.). Ou seja, a democracia não nasceu de uma revolução para frente, nem de uma revolução para trás – como queriam os patriotas oligárquicos Crítias e Cármides (estes sim reacionários) e Alcebíades (também populista, talvez o primeiro da história). Aliás, esses três, juntos ou separados, desfecharam três golpes sangrentos contra a democracia ateniense (em 411, 404 e 401 a.C. – este último neutralizado pelos democratas antes de se consumar).

Brasil contra os Estados Unidos e a Argentina: o dia em que o país rompeu com o hemisfério

Há datas que os historiadores demoram décadas para reconhecer como pontos de inflexão. Outras se anunciam de imediato, com a clareza brutal dos desastres. O dia 4 de agosto de 2026 pertence à segunda categoria. Em menos de 24 horas, o governo Lula conseguiu a proeza, inédita em mais de 200 anos de história diplomática, de romper simultaneamente com os seus dois parceiros mais importantes do Hemisfério Ocidental. 

Mais do que contexto diplomático particularmente grave, trata-se da erosão deliberada de um dos ativos estratégicos mais valiosos que uma nação pode possuir, sua credibilidade internacional. 

Na política internacional, confiança não é um atributo moral; é ativo de poder que determina onde o capital será investido, quais tecnologias serão compartilhadas, que alianças sobreviverão às crises e quais países serão considerados parceiros em momentos de tensão. Credibilidade leva décadas para ser construída, mas pode ser destruída em poucos meses.

Em Washington, o Departamento de Estado anunciou o cancelamento do visto da embaixadora do Brasil, Maria Luiza Viotti, episódio sem precedente na relação bilateral desde que os Estados Unidos, em 1824, tornaram-se o primeiro país do mundo a reconhecer a independência brasileira. 

Em Brasília, no mesmo dia, o Itamaraty convocou o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, para comunicar-lhe que estava dispensado, que a relação com o principal sócio sul-americano do Brasil ficaria rebaixada ao nível de encarregados de negócios e que o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, não retornaria à capital argentina. 

Foram necessárias oito gerações de diplomatas para construir esses dois pilares. Bastou um governo lulopetista para dinamitar ambos no mesmo dia.

Convém medir a profundidade do buraco antes de perguntar quem cavou. A relação com os Estados Unidos jamais foi uma relação qualquer. Foi para Washington que o Barão do Rio Branco deslocou o eixo da política externa brasileira em 1905, elevando ali a primeira embaixada do Brasil no mundo e nela instalando Joaquim Nabuco.

 Foi ao lado dos americanos que a Força Expedicionária Brasileira tomou Monte Castello, e foi de Natal, transformada em principal plataforma logística dos Aliados no Atlântico Sul, o trampolim da vitória, que partiu parcela relevante do esforço de guerra que ajudou a derrotar o nazifascismo.

Essa aproximação nunca significou subordinação. Significou o reconhecimento de uma realidade elementar da geopolítica: grandes estratégias são construídas sobre interesses permanentes, não sobre afinidades ideológicas transitórias. Como ensinava Hans Morgenthau, o primeiro dever da política externa é preservar e ampliar o interesse nacional, jamais instrumentalizá-lo em favor de disputas domésticas.

 Apesar da hostilidade de Lula, os EUA permanecem sendo o principal destino das manufaturas brasileiras, o maior investidor estrangeiro acumulado no País há um século e a fonte de tecnologia, capital e certificações de que dependem setores inteiros da economia nacional. Brasil e EUA jamais travaram guerra entre si, jamais lutaram em lados opostos, jamais se trataram como inimigos. Era, como escreveram tantos dos nossos maiores, de Rui Barbosa a Afonso Arinos, uma aliança natural. Era.

Os acontecimentos de Washington dispensam adjetivos, mas não cronologia. Em março deste ano, o Conselheiro Sênior de Donald Trump, Darren Beattie, teve seu visto revogado. Beattie pretendia viajar ao Brasil para participar de uma conferência sobre minerais críticos em São Paulo e visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. O MRE alegou informações falsas prestadas pelo governo americano para fundamentar sua esdrúxula decisão, a qual apenas serviu para reforçar, no exterior, a percepção de que Bolsonaro estaria sendo tratado como um preso político e aprofundou o desgaste da imagem internacional do Brasil.

Em junho, o presidente Trump indicou Daniel Perez para a embaixada em Brasília. O governo brasileiro, em manobra tão mesquinha quanto obtusa, sentou-se sobre o agrément, o ato de cortesia mais elementar da gramática diplomática, calculando empurrar eventual aprovação para depois das eleições de outubro e transformando um procedimento técnico e rotineiro em instrumento de cálculo político doméstico.

 Em julho, o Itamaraty negou vistos a dois altos funcionários do Departamento de Estado, sob a acusação irresponsável e gravíssima de que se tratava de uma manobra norte-americana para interferir nas eleições brasileiras. A resposta, dura, veio na terça-feira 4 de agosto: a chefe da missão brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti teve seu visto revogado, com o aviso público de que o documento será restabelecido quando o agrément for concedido, e com o acréscimo de que outras ações não estão descartadas.

Traduzindo do diplomatês: a escada da escalada está armada, e o Brasil insiste em, levianamente, subir os degraus. Na literatura clássica das Relações Internacionais existe uma premissa frequentemente ignorada por governos imprudentes e excessivamente confiantes em sua capacidade de improvisação: crises diplomáticas são fáceis de iniciar, mas extremamente difíceis de controlar.

Uma vez rompida a confiança estratégica entre dois Estados, cada gesto passa a ser interpretado sob a lógica da escalada, e cada resposta tende a produzir outra ainda mais severa. Um governo minimamente sério teria resolvido o impasse em uma semana, com um telefonema e uma nota. O governo Lula preferiu transformar um expediente de rotina em casus belli eleitoral, porque um conflito com Trump rende palanque, e o palanque, para o lulopetismo, sempre valeu mais do que os interesses do Brasil.

O caso argentino é ainda mais revelador, porque ali nem sequer existe a desculpa da assimetria de poder. O que está em jogo não é uma disputa entre uma grande potência e um país emergente, mas a deterioração deliberada da relação entre dois países cuja prosperidade sempre esteve profundamente interligada.

A Argentina é o terceiro maior mercado das exportações brasileiras e o primeiro das nossas manufaturas de maior valor agregado; é o sócio fundador do Mercosul, o parceiro estratégico de meio século de integração paciente, de Itaipu ao acordo nuclear, da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), uma das mais bem-sucedidas experiências de construção de confiança estratégica entre antigos rivais regionais, às cadeias automotivas integradas.

Nada disso surgiu por acaso. Foi resultado de uma compreensão elementar da geopolítica, a de que países vizinhos podem competir, mas não podem se dar ao luxo de transformar divergências políticas em antagonismos permanentes. Governos passam. Interesses nacionais permanecem.

 Javier Milei simplesmente disse a verdade ao declarar que Lula foi condenado pela Justiça brasileira. Convém destacar, ainda, que Lula apoiou abertamente o adversário de Milei na disputa pela Presidência argentina, Sergio Massa, durante o processo eleitoral argentino de 2023. 

Em retaliação às verdades ditas por Milei, Lula escolheu a demolição: dispensou o embaixador argentino, reteve o embaixador brasileiro em Brasília, rebaixou a relação inteira ao nível de encarregados de negócios. Puniu, em nome do próprio orgulho ferido, o empresário brasileiro que exporta para Buenos Aires; o operário cuja fábrica integra cadeias binacionais; o produtor que depende de previsibilidade no comércio regional; o investidor, que foge de instabilidade; o próprio Mercosul que seu partido jura defender. A vaidade presidencial virou política de Estado, e a política de Estado virou refém de uma eleição.

Na economia internacional, relações diplomáticas deterioradas raramente permanecem confinadas às chancelarias. Elas elevam custos de transação, reduzem previsibilidade regulatória, inibem investimentos e comprometem decisões empresariais que dependem de horizontes de longo prazo. Confiança estratégica também possui valor econômico.

Somados, os episódios de Washington e Buenos Aires revelam uma transformação mais profunda do que simples atritos diplomáticos. A política externa brasileira deixou de operar segundo a lógica clássica do interesse nacional para incorporar a lógica da polarização política doméstica. Em vez de reduzir tensões externas para ampliar espaço de manobra internacional, passou a produzi-las deliberadamente como instrumento de mobilização eleitoral.

Essa talvez seja a ruptura mais grave. Desde Rio Branco, um dos princípios mais permanentes da diplomacia brasileira consistia em preservar relações construtivas com governos de diferentes orientações ideológicas, evitando que divergências partidárias contaminassem interesses permanentes do Estado. O Brasil negociava com democratas e republicanos, conservadores e socialistas, peronistas e liberais, preservando sempre um princípio fundamental: governos mudam; o Estado permanece. Essa tradição parece ter sido abandonada

Hoje, o Brasil encontra-se, simultaneamente, sem embaixador operante em Washington e sem embaixador em Buenos Aires. Conseguiu comprometer a relação com a maior potência econômica e militar do planeta e com seu principal parceiro regional.

Na América do Sul, o governo que prometia liderança regional colecionou atritos com a Argentina de Milei, com o Paraguai (grampeado pela inteligência brasileira, como o próprio governo admitiu), com o Equador, com o Peru, com o Uruguai de Orsi na negociação externa do Mercosul, e mantém com o regime venezuelano, ora numa interinidade que já se estende por 7 meses, uma relação que oscila entre o constrangimento e a cumplicidade.

 No Hemisfério, o Brasil de Lula fala sozinho e não é ouvido por ninguém. E enquanto se isola dos vizinhos e dos aliados naturais, o governo estreita laços com Pequim, recebe navios de guerra iranianos no Rio de Janeiro, perdoa dívidas de Havana e reserva seus silêncios mais respeitosos para Moscou. A política externa que se autodenomina altiva e ativa produziu o feito geométrico de afastar o Brasil de todas as democracias do seu entorno e aproximá-lo de todas as autocracias fora dele.

Nada disso é acidente de percurso ou inabilidade episódica. É método, e o método tem certidão de nascimento: o Foro de São Paulo, fundado em 1990 por Lula e Fidel Castro para reorganizar a esquerda latino-americana órfã do muro de Berlim. Desde 2003, a diplomacia lulopetista tratou a região não como espaço de interesses nacionais, mas como tabuleiro de solidariedades ideológicas.

 O caso venezuelano é o monumento dessa escolha, e a palavra criminoso, aqui, não é figura de retórica, é quase tipificação. Foi com aval político, financiamento do BNDES e empreiteiras brasileiras que o chavismo consolidou seu projeto de poder; foi Lula quem apresentou Hugo Chávez ao mundo como o melhor presidente da Venezuela em um século; foi o Brasil petista que emprestou legitimidade a cada eleição fraudada, que abafou cada denúncia de repressão, que chamou de narrativa, na palavra tristemente célebre do próprio presidente, a fraude escancarada de 2024. 

O resultado está à vista: uma ditadura consolidada na fronteira norte, oito milhões de refugiados espalhados pelo continente, Roraima transformada em válvula de escape da tragédia alheia, e o crime organizado transnacional, do Trem de Aragua às facções brasileiras, prosperando no vácuo que a conivência criou. Quem semeia ditadura na vizinhança colhe caos em casa. O Brasil colheu, e segue semeando.

A pergunta que o brasileiro deveria fazer agora não é se a crise pode piorar, mas o que acontecerá se ela continuar seguindo sua trajetória atual. A resposta exige menos indignação do que realismo. Nas Relações Internacionais, Estados raramente recorrem às medidas mais severas logo no início de uma crise. A lógica predominante é a da escalada gradual. Cada resposta procura aumentar o custo da conduta do outro lado, preservando espaço para negociação sem abrir mão da capacidade de elevar sucessivamente o nível de pressão, desde que possua recursos de poder para tanto.

O arsenal americano é conhecido, testado e escalonável, e parte dele já foi usada contra o Brasil. O país já amarga tarifas punitivas de 50% sobre parcela expressiva de suas exportações. Ministros do Supremo Tribunal Federal já tiveram vistos revogados, e um deles já foi alcançado pela Lei Magnitsky, instrumento que congela ativos e bane do sistema financeiro americano os sancionados. O degrau seguinte da escada é visível a olho nu. No plano diplomático, expulsões recíprocas e fechamento de consulados, com filas de vistos se arrastando por anos e a comunidade brasileira nos Estados Unidos, quase dois milhões de pessoas, pagando a conta.

No plano individual, a extensão das sanções Magnitsky e das restrições de visto a autoridades do governo, a operadores financeiros do partido e a seus familiares. No plano comercial, novas sanções tarifárias, barreiras regulatórias e o estrangulamento de setores que dependem de certificações americanas, a começar pela aviação: a Embraer, joia da engenharia nacional, vive do mercado e da certificação dos Estados Unidos, e seria a primeira vítima de qualquer regime de controles de exportação de tecnologia de uso dual.

E a escada sobe. No plano financeiro, designações da OFAC contra entidades estatais, restrições a bancos brasileiros no acesso a dólares e a bancos correspondentes, o encarecimento brutal do crédito externo num país que rola dívida pública ao ritmo de trilhões.

 No plano estratégico, a suspensão do estatuto de aliado preferencial extra-OTAN, concedido ao Brasil em 2019 e hoje reduzido a peça de museu, o congelamento da cooperação militar e espacial, o veto informal à candidatura brasileira à OCDE e a oposição sistemática nos organismos financeiros multilaterais.

 Nada disso é profecia; é aritmética. Cada um desses instrumentos foi aplicado, nos últimos anos, contra países que escolheram a rota de colisão com Washington, e não há cláusula de exceção para governos que se julgam persuasores. O Brasil de lula, para todos os efeitos, já é considerado um país hostil aos interesses americanos, como declarou publicamente o Secretário de Estado Marco Rubio.

 O risco-país precifica tudo isso silenciosamente, o câmbio também, e quem paga não é o presidente que provoca, é o agricultor que exporta, o industrial que importa insumo, a família que financia a casa a juros que já são os mais altos do mundo real. Colocar o Brasil em rota de colisão com a maior economia e a maior potência militar da Terra, sem um único ganho concreto em troca, não é política externa. É sabotagem com passaporte diplomático, parte de um plano muito eficiente de destruição do Brasil e de suas instituições.

E aqui se chega ao ponto que dói, porque revela a natureza do projeto. Lula não está cometendo erros; está executando um cálculo. A crise com Trump é o único palanque que lhe restou. Sem economia para exibir, com a segurança pública em colapso e a popularidade em queda, o lulopetismo recorre ao expediente mais velho do populismo: fabricar o inimigo externo, embrulhar-se na bandeira que passou décadas chamando de símbolo do atraso e converter a palavra soberania em jingle de campanha.

 Cada escalada, cada provocação, cada gesto de rompimento é friamente dosado para render manchete e inflamar militância, na aposta de que o eleitor não perceberá que a conta da bravata será paga por ele, em tarifa, em juro, em emprego, em oportunidade perdida. Um estadista protege seu povo das tempestades; um demagogo invoca a tempestade para posar de timoneiro.

 Essa instrumentalização eleitoral da política externa, feita com o patrimônio diplomático de dois séculos, é a confissão definitiva do desprezo que Lula e seu partido nutrem pelo Brasil e pelos brasileiros: o País, para eles, nunca foi um fim, sempre foi um meio.

O Itamaraty, que já foi sinônimo mundial de excelência, assiste a tudo na condição de refém. A instituição que já contou com homens da estatura do Barão do Rio Branco, de Joaquim Nabuco, de Oswaldo Aranha e de Roberto Campos, que arbitrou fronteiras sem disparar um tiro e negociou com as maiores potências de igual para igual, foi convertida em despachante ideológico de um projeto partidário, obrigada a defender o indefensável em Caracas, a silenciar sobre Teerã, a fabricar eufemismos para Pequim e agora a administrar, em uma indignidade sem precedentes, a humilhação de ver sua embaixadora em Washington privada de visto como turista irregular.

 Não é preciso ser diplomata para medir o vexame; basta ser brasileiro. Um serviço exterior profissional não se recupera por decreto depois de ser usado como escudo humano de aventuras ideológicas. Recupera-se com anos de trabalho, com credibilidade reconstruída aperto de mão por aperto de mão, relatório por relatório, posto por posto, com uma muito necessária reforma funcional, administrativa e estrutural que jamais acontecerá em uma gestão lulopetista, porque a esquerda não gosta de valorizar quem trabalha. Gosta de constranger, deixar submissa, humilhar e manipular.

A trajetória para o Brasil, se nada a interromper, tem nome técnico e destino conhecido: Estado-pária. Pária não é o país pobre nem o país fraco; é o país imprevisível, aquele com quem não se assina contrato longo, em quem não se investe capital paciente, a quem não se confia cadeia de suprimento nem segredo tecnológico. A Argentina peronista levou décadas para construir essa reputação e levará décadas para desfazê-la; a Venezuela a converteu em ruína terminal. 

O Brasil, que sempre teve como maior ativo diplomático justamente a previsibilidade, a moderação e a ausência de antagonistas estruturais, está dilapidando em meses o capital político-estratégico que construiu em séculos. E o faz não por imposição de circunstâncias, não por tragédia geopolítica, mas por decisão deliberada de um consórcio de poder que já demonstrou, em cada área que tocou, que prefere reinar sobre escombros a servir sobre alicerces.

É por isso que outubro de 2026 não será uma eleição como as outras. Não se trata de escolher entre programas tributários ou estilos de gestão; Trata-se da escolha entre duas concepções profundamente distintas de inserção internacional.

De um lado, a continuidade de uma política externa crescentemente orientada por afinidades ideológicas improdutivas, confrontações desnecessárias e objetivos eleitorais domésticos. De outro, a possibilidade de reconstruir uma diplomacia baseada no interesse nacional, na credibilidade estratégica e no resgate do protagonismo internacional do Brasil.

Trata-se de decidir se o Brasil permanece no mundo livre e democrático, ou se completa sua conversão em sócio menor do clube das autocracias, isolado dos vizinhos, hostilizado pelos aliados naturais e tutelado por credores que não conhecem a palavra liberdade.

 Impedir a consumação desse projeto é o primeiro dever de todo brasileiro que ainda distingue pátria de partido. E o instrumento dessa interdição não é a rua, não é o atalho, não é o improviso: é o voto, dado com a serenidade de quem sabe exatamente o que está em jogo, e a fiscalização e cobrança da seriedade e da imparcialidade das instituições. 

Ao presidente conservador de direita, de sobrenome conhecido e reverenciado, o único em reais condições de enfrentar o rolo compressor do autoritarismo Planalto-STF, que, assim o queiram Deus e os brasileiros, sair das urnas de outubro e tomar posse em janeiro de 2027, caberá um trabalho de reconstrução que não encontra paralelo na história republicana. 

Será preciso reatar com Washington sem servilismo e com Buenos Aires sem rancor; devolver o agrément à sua natureza de cortesia e a embaixada em Washington à sua condição de posto maior da diplomacia nacional; reancorar o Brasil no Hemisfério que é o seu, resgatar o Mercosul do coma induzido, desmontar peça por peça a arquitetura de cumplicidades que atrela o país às ditaduras do continente e devolver ao Itamaraty a espinha, a técnica e a honra. 

Será uma obra de anos, talvez de uma geração inteira, erguida sobre o terreno arrasado que o lulopetismo deixará como herança. Mas há uma verdade que nenhuma demolição alcança: destruir é rápido, reconstruir é lento, e ainda assim as nações, como as catedrais, sempre foram erguidas por quem veio depois do incêndio. E toda reconstrução começa quando uma sociedade decide voltar a tratar suas instituições como patrimônio nacional, e não como instrumentos de um projeto de poder pernicioso e autoritário.

Diplomacia de Palanque

A diplomacia profissional assenta-se em dois pilares fundamentais: a previsibilidade dos ritos e a observância da comitas gentium — a cortesia internacional pautada no respeito mútuo e no pragmatismo. Em um sistema internacional marcado pela assimetria estrutural de poder, os Estados de médio porte dependem do rigor institucional e da discrição negociada. É assim que preservam sua margem de manobra e protegem seus interesses estratégicos perante as grandes potências. Quando uma nação flexibiliza essa tradição e adota uma postura de fricção velada — supondo que pode instrumentalizar ritos diplomáticos sem pagar um preço alto —, adentra um terreno de elevado risco geopolítico. Os desdobramentos recentes na relação bilateral entre Brasília e Washington oferecem um estudo de caso emblemático sobre o custo de desafiar a lógica do poder real por meio de provocações táticas e acertos de contas ideológicos.

Nos últimos meses, a condução da política externa brasileira revelou um padrão consistente de atrito silencioso. O represamento do agrément ao diplomata americano Daniel Perez, indicado para chefiar a embaixada em Brasília, marcou o ápice dessa engenharia de desgaste. Embora a Convenção de Viena de 1961 não fixe prazos peremptórios para a concessão da anuência estatal, a paralisação deliberada do credenciamento por razões de política interna viola o próprio espírito de cooperação bilateral. A essa inércia calculada somou-se a recusa ostensiva de vistos aos secretários-assistentes do Departamento de Estado, Riley Barnes e Samuel Samson, acompanhada por acusações públicas. Ao abandonar os canais velados de negociação e expor o dissenso em tom acusatório, o governo brasileiro cruzou os limites da divergência legítima, incitando uma resposta proporcional da contraparte americana.

O erro crasso da diplomacia brasileira esteve em presumir que a Casa Branca assistiria passivamente a esse acúmulo de hostilidades. Diferente de administrações anteriores, que preferiam amortecer atritos para preservar a estabilidade hemisférica, o atual governo dos Estados Unidos reage de pronto, guiado pela afirmação categórica de poder. Perante a recalcitrância de Brasília, Washington não hesitou: revogou o visto diplomático da embaixadora Maria Luiza Viotti em uma retaliação cirúrgica. Ao despojá-la de seu respaldo administrativo sem recorrer imediatamente à declaração formal de persona non grata (nos termos do Artigo 9º da Convenção de Viena), o Departamento de Estado deixou claro o peso de suas prerrogativas soberanas. A mensagem soou inequívoca: o exercício da representação diplomática em solo americano é um privilégio condicionado à reciprocidade — jamais um direito dado.

A reação de Brasília, traduzida em notas oficiais carregadas de retórica combativa, escancarou a profundidade da crise de método de sua política externa. Classificar a atitude americana de “falsidade”, “escalada ideológica” ou “ingerência” pode render dividendos eleitorais imediatos junto à militância doméstica, mas é um erro primário sob a ótica do Direito Internacional e da Teoria das Relações Internacionais. Em um cenário de profunda assimetria de poder, trocar a negociação reservada por comunicados à imprensa sinaliza fraqueza. O pedido anterior da Presidência da República pela anulação de sanções americanas a autoridades nacionais — feito sem que o Brasil dispusesse de qualquer alavanca real de barganha — já expusera a desconexão com a gramática do poder em Washington. A politização posterior do acesso diplomático apenas consolidou a percepção de um abandono deliberado da sobriedade institucional.

O impasse gerado por esse encadeamento de escolhas confina a representação brasileira em Washington a um severo isolamento funcional, fragilizando a defesa de interesses comerciais e regulatórios cruciais. A ilusão de sustentar uma equivalência de forças com a superpotência global corroeu o valioso capital diplomático construído ao longo de décadas pelo Itamaraty. Enquanto Brasília recorre à narrativa de ingerência para justificar a crise, os Estados Unidos acionam um arsenal inusitado de pressões — do travamento de vistos a restrições tarifárias e operacionais — para cobrar o preço da reciprocidade. Pragmatismo e neutralidade nunca representaram fraqueza, sempre foram os escudos mais eficientes das nações soberanas. Ao atropelar esses preceitos, a política externa brasileira colhe o desgaste inevitável da controvérsia calculada, reaprendendo a lição clássica: no tabuleiro internacional, a retórica militante curva-se, invariavelmente, à força objetiva do poder real.

Uma conversa honesta com o povo brasileiro e um alerta duro para os suspeitos de sempre

Não é fácil escrever um texto desse tipo — dá a impressão de que sou um oráculo e que apenas eu enxergo a verdade. Por isso, começo dizendo o óbvio: este texto apenas organiza, em palavras e parágrafos estruturados, o que muitos analistas de mercado já sabem com razoável grau de precisão. Seu único mérito é deixar claras as consequências econômicas de uma reeleição de Lula.

Tecnicamente, uma relação dívida/PIB elevada não é, por si só, motivo para alarde. É evidente que um endividamento elevado cria fragilidades e expõe o país a riscos maiores — sobretudo aos chamados riscos de cauda, que a literatura batiza de “cisnes negros”. Mas, na maior parte do tempo, se for possível rolar a dívida a taxas baixas, o problema do endividamento se reduz bastante.

Infelizmente, não é o caso do Brasil. Atualmente, a dívida bruta brasileira está em 81,9% do PIB

— patamar elevado para um país com o nosso nível de renda. Para dar uma ideia da trajetória: em dezembro de 2022, esse valor era de 71,7%. Ou seja, em três anos e meio, a dívida pública brasileira cresceu incríveis 10,2 pontos percentuais do PIB. E não bastasse o nível já elevado, o custo de rolagem dessa dívida está em patamares insustentáveis. Basta dizer que, em junho deste ano, o déficit nominal do setor público acumulado em 12 meses chegou a R$ 1,3 trilhão — 10% do PIB, valor superior ao registrado durante a pandemia de Covid-19.

Em termos técnicos, um país com o endividamento atual do Brasil e um custo de rolagem que em alguns casos chega a IPCA +8,3% é economicamente inviável. Essa taxa de juros implica um custo de rolagem capaz de dobrar o tamanho da dívida em menos de seis anos — algo insustentável dado o volume já acumulado. Tanto o endividamento em relação ao PIB quanto o custo de rolagem estão em níveis críticos, e esse custo drena recursos que poderiam financiar o crescimento do setor privado, direcionando-os para títulos do Tesouro. Além disso, o Estado passa a competir cada vez mais por recursos com o setor privado, encarecendo o custo de produção no Brasil — o efeito conhecido na literatura como crowding-out: à medida que o gasto do governo aumenta, o gasto do setor privado encolhe. Some-se a isso o aumento da carga tributária necessário para sustentar a expansão dos gastos públicos, e teremos uma situação extremamente difícil para o setor privado da economia.

O endividamento elevado, o aumento dos gastos e o custo de rolagem da dívida pública retiram recursos do setor privado e os transferem ao setor público, com efeitos negativos diretos sobre

produtividade, emprego e renda da sociedade. Nada disso é novidade para quem acompanha temas econômicos. Vamos então avançar um passo: é justamente por causa dessa situação fiscal delicada que a eleição do próximo presidente é decisiva para o que vai acontecer em 2028.

Note-se que o destino de 2027 já está dado: haverá redução da atividade econômica, pouco importa quem seja o próximo presidente. A dúvida real é o tamanho dessa retração e o que vem depois, em 2028. Vejamos dois cenários possíveis.

Primeirocenário:elegemos um candidato comprometido com o ajuste das contas públicas. Dado o tamanho do desarranjo fiscal, esse ajuste provocará redução da atividade econômica em 2027. Mas, se as medidas forem tomadas na direção correta, a trajetória da dívida/PIB se corrige, e a partir do segundo semestre de 2028 começa um processo de recuperação econômica. Uma equipe econômica experiente é capaz de colocar a casa em ordem em cerca de um ano e meio. Não é fácil, e não vamos virar a Suíça — mas é perfeitamente possível com técnica, experiência e credibilidade. Em paralelo, um amplo processo de desburocratização, desregulamentação, privatizações, abertura econômica e outras medidas pró-mercado tem potencial de destravar um crescimento relevante, reduzindo os custos do ajuste e liberando recursos para que o setor privado retome seu papel central no aumento da produtividade, na geração de empregos e no crescimento da renda. Combinadas, essas medidas fiscais e pró-mercado têm potencial de reduzir a taxa de juros estrutural, ancorar expectativas, reduzir o custo-país, reduzir o risco-Brasil, reduzir a inflação e elevar investimento, emprego e renda.

Segundo cenário: elegemos um candidato não comprometido com o ajuste fiscal, que apenas empurra com a barriga o problema das contas públicas e da baixa produtividade da economia brasileira. Nesse caso, ocorre um processo acelerado de desancoragem das expectativas, aumento do risco-Brasil e pressão simultânea sobre juros e inflação. Esse processo não se reverte nem com corte de juros pelo Banco Central — justamente por causa do nosso endividamento elevado e da fragilidade fiscal. Mesmo que o BC reduza a Selic, o Tesouro acaba pressionado a pagar juros mais altos em seus títulos, o que piora ainda mais a situação fiscal e retroalimenta um círculo vicioso: contas públicas piores, risco-país maior, inflação elevada e juros cada vez mais altos para rolar a dívida.

E aqui deixo meu alerta para os suspeitos de sempre: muitos de vocês apostam justamente no segundo cenário, na expectativa de embolsar taxas de IPCA +10%, +11% ou +12%. Prestem atenção no que vou dizer: um governo eleito nesse segundo cenário não terá problema algum em aprovar controle de capitais e um “haircut” na dívida. Sim, meus amigos — esse termo já rondou

a Casa Civil em 2015, quando alguns “craques” sugeriam exatamente isso: um haircut na dívida, ou, em palavras simples, um calote em parte dela.

Entendo o raciocínio de vocês, mas falta um segundo passo na análise. Vocês acreditam que um governo sem compromisso fiscal vai pagar juros elevados para rolar a dívida e que vocês vão embolsar um bom dinheiro com isso. Essa leitura está correta — para o primeiro momento. Mas, no momento seguinte, quando a situação ficar insustentável, vocês realmente acreditam que vão receber tudo o que lhes é devido? Não se iludam: um governo sem compromisso fiscal não tem dificuldade nenhuma em dar o calote nos detentores de títulos — especialmente nos que têm os valores mais altos.

Fica registrado o alerta: eleger Lula joga o Brasil no segundo cenário. E a você, que carinhosamente chamo de “suspeito de sempre” — que vive vazando informações para a imprensa dizendo que um eventual governo Lula 4 teria responsabilidade fiscal —, fica o recado: você vai levar um calote nos seus investimentos. E não adianta dizer que isso é péssimo para o Brasil — eu concordo com você. O problema é que você votou e fez campanha justamente por um grupo que não tem problema algum em impor controle de capitais e um haircut. Aposto que agora bateu o medo, certo? Que este alerta sirva para abrir seus olhos. Vamos trabalhar para eleger um presidente que compreenda que a consolidação fiscal e as reformas pró-mercado são essenciais para todo o povo brasileiro — especialmente para os mais vulneráveis, que são as maiores vítimas do desemprego e dos processos inflacionários.

Cazaquistão em Foco

No tabuleiro geopolítico contemporâneo, a Ásia Central transcendeu a condição de periferia pós-soviética para se consolidar como uma das arenas mais estratégicas da Eurásia. Sob a confluência de interesses de Pequim, Moscou, Washington e Bruxelas, a região exige um olhar atento da análise internacional — e é precisamente em seu coração que se desenrola uma das transformações institucionais mais instigantes da atualidade. Maior economia centro-asiática e detentor de recursos energéticos críticos, o Cazaquistão opera uma profunda reorganização em seu modelo de governança.

A política interna em Astana revela um projeto estruturado de reengenharia política. Cujas diretrizes ganharam tração no referendo constitucional de 2022, o processo redefine os limites do Executivo, a dinâmica partidária e a representação popular. A trajetória recente foi marcada pela transição de três décadas sob Nursultan Nazarbayev para a ascensão de Kassym-Jomart Tokayev, cujo governo enfrentou em janeiro de 2022 os protestos do Qantar, evento catalisador da nova arquitetura constitucional.

Buscando desmantelar o modelo superpresidencialista, descentralizar o poder e reduzir privilégios governamentais, essa reformulação terá seu ápice em agosto com a primeira eleição para o novo parlamento: o Kurultai. A principal mudança estrutural reside na transição do antigo modelo bicameral — composto pelo Mazhilis e pelo Senado — para um órgão supremo unicameral de representação, formado por 145 membros eleitos por voto proporcional de listas partidárias para mandatos de cinco anos.

Sob a ótica da Teoria das Instituições, a migração para o unicameralismo busca eliminar aquilo que a Ciência Política classifica como “pontos de veto” (veto players). Ao concentrar o Legislativo em uma única câmara, visa-se acelerar a produção legal e dar previsibilidade à agenda regulatória do Estado. Paralelamente, a escolha do nome Kurultai resgata as antigas assembleias dos povos nômades das estepes. Astana realiza um movimento clássico de “invenção das tradições” — no conceito célebre de Eric Hobsbawm —, ancorando a modernização na identidade nacional para conferir legitimidade ao novo desenho estatal.

Para o observador brasileiro, o processo oferece reflexões profundas. O Brasil convive com os dilemas do presidencialismo de coalizão e de um bicameralismo por vezes moroso, em que negociações pontuais engessam reformas estruturais. Ver uma nação emergente redesenhar sua engenharia política para ganhar eficiência legislativa, sem abrir mão da representatividade, provoca o debate sobre nossas próprias instituições.

No plano internacional, a diplomacia multivetorial e pragmática do Cazaquistão guarda sintonia com a tradição brasileira de autonomia estratégica e não alinhamento automático. Ambos compreendem que a soberania e a atração de investimentos dependem da coesão interna e de uma atuação externa previsível. O laboratório político em Astana demonstra que desenvolvimento econômico e maturidade institucional caminham lado a lado.

O mundo rearmado e a ilusão estratégica brasileira 

Em abril de 2026, o mundo ultrapassou um marco histórico que, embora tratado por parte da imprensa apenas como consequência de guerras recentes, talvez represente uma transformação profunda na ordem internacional. Segundo levantamento do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), principal centro independente de estudos estratégicos do mundo, os gastos militares globais atingiram US$ 2,887 trilhões em 2025, o maior valor registrado desde o início das medições sistemáticas consolidadas após o fim da Guerra Fria.

Trata-se do décimo primeiro ano consecutivo de crescimento. Em apenas uma década, o aumento acumulado ultrapassou 40%. Pela primeira vez desde os momentos mais tensos do século XX, praticamente todas as regiões do planeta ampliaram simultaneamente seus orçamentos de defesa.

Esse aumento não é apenas uma resposta episódica à guerra na Ucrânia, à rivalidade sino-americana, ao agravamento das tensões no Indo-Pacífico ou ao interminável conflito no Oriente Médio. O que está em curso é uma mudança estrutural na percepção das grandes potências sobre o futuro da ordem internacional, baseada na dissolução gradual da arquitetura política, econômica e psicológica que sustentou o mundo pós-1989.

O sistema internacional construído após a queda do Muro de Berlim fundava-se em três premissas: a globalização reduziria incentivos para guerras ou competições estratégicas entre grandes potências; a interdependência produtiva geraria estabilidade; e a hegemonia americana funcionaria como garantia estrutural da ordem. Países profundamente integrados não fariam guerras entre si porque os custos seriam altos demais. O comércio substituiria a geopolítica. Mercados substituiriam disputas de poder. Cadeias globais de produção produziriam estabilidade.

Essa hipótese moldou a arquitetura global pós-1989. A Europa desmontou parte significativa de suas capacidades militares. A Alemanha transformou-se em uma potência econômica deliberadamente desmilitarizada e, por que não, emasculada. A Otan entrou em uma crise existencial após o colapso soviético. Falava-se em “dividendos da paz”. Defesa passou a ser vista como resquício de um século ultrapassado, coisa de brucutus iletrados. Durante quatro décadas, o Ocidente viveu o que o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm chamou de “anomalia histórica”, um raro período em que as grandes potências não se preparavam para guerras de alta intensidade entre si.

Esse diagnóstico revelou-se equivocado. O pós-Guerra Fria não aboliu a geopolítica, apenas a suspendeu temporariamente sob a unipolaridade americana, ou unimultipolaridade, nos termos do cientista político americano Samuel Huntington, que descreveu um sistema internacional híbrido, com os EUA como única potência militar global, mas com o poder econômico repartido entre vários centros.

Essas premissas entraram em colapso simultaneamente. A ascensão chinesa, a recuperação militar russa, o desgaste relativo da capacidade americana de impor ordem global após o Iraque e o Afeganistão e a crescente instrumentalização econômica da tecnologia recolocaram a competição entre Estados no centro da política internacional. Sistemas unipolares raramente são permanentes, e a evolução da sociedade internacional quase nunca se comporta como imaginam os teóricos liberais do fim da história.

O crescimento dos gastos militares não se apresenta, portanto, apenas como fenômeno orçamentário, mas civilizacional. As grandes potências já não acreditam que o futuro será necessariamente mais estável que o passado. O mundo voltou a operar sob a lógica da insegurança estrutural e da geopolítica clássica, e essa talvez seja a transformação mais importante do século XXI até agora.

Como advertiam Morgenthau, Kennan e Kissinger, competição entre Estados, equilíbrio de poder e percepção de vulnerabilidade jamais deixaram de constituir o núcleo organizador da política internacional. Entretanto, a ideia de que prosperidade econômica produz automaticamente convergência política dominou o pensamento estratégico das elites ocidentais desde a década de 1990, moldando a relação com a China, a Rússia e a arquitetura financeira global. O erro analítico fundamental dessa premissa foi imaginar que racionalidade econômica substituiria racionalidade histórica, identitária e estratégica e que a burocracia tecnocrática substituiria a força dos nacionalismos. Não substituiu. Não substitui.

Essa interpretação confundiu uma conjuntura histórica específica com uma real transformação da natureza da política internacional. Historicamente, forças centrífugas de fragmentação têm se mostrado mais resilientes do que forças centrípetas de convergência. A China usou precisamente a integração econômica para financiar sua ascensão, incorporando cadeias globais, absorvendo tecnologia, expandindo capacidade manufatureira, acumulando reservas gigantescas e construindo um modelo de capitalismo de Estado orientado para competição estratégica de longo prazo.

A Rússia seguiu trajetória distinta, mas igualmente reveladora. Enquanto o Ocidente acreditava que a integração reduziria impulsos revisionistas, Moscou interpretava o avanço da Otan em sua periferia como ameaça existencial. A invasão da Geórgia, em 2008, a anexação da Crimeia, em 2014, e a invasão da Ucrânia, em 2022, demonstraram que cálculos geopolíticos continuavam prevalecendo sobre a racionalidade econômica estrita.

O caso iraniano é ainda mais emblemático e revela outra limitação dessa visão liberal: a crença de que sanções econômicas e isolamento financeiro seriam suficientes para neutralizar ambições estratégicas de Estados revisionistas. Submetido durante décadas a pesadas restrições econômicas, o Irã não abandonou seus objetivos geopolíticos. Ao contrário. Desenvolveu sofisticada arquitetura de guerra assimétrica baseada em mísseis balísticos, drones, guerra cibernética e redes de proxies regionais, tornando-se um dos principais polos de instabilidade do Oriente Médio. Em vez de buscar simetria militar convencional com os EUA, Teerã construiu capacidade de impor custos desproporcionais a adversários muito superiores militarmente. O caso iraniano demonstra que, em contextos de rivalidade estratégica profunda, resiliência ideológica, percepção de ameaça existencial e ambição regional prevalecem sobre a racionalidade econômica convencional.

Essa mudança tornou-se explícita na própria formulação doutrinária americana. As recentes National Security Strategy (NSS) e National Defense Strategy (NDS) abandonaram a linguagem da globalização e passaram a definir o cenário internacional como competição sistêmica entre grandes potências, percepção que ajuda a explicar por que os gastos militares crescem simultaneamente em praticamente todas as regiões estratégicas do planeta.

A nova corrida armamentista, entretanto, não se parece com a do século XX. O poder militar já não se mede apenas por arsenais nucleares, divisões blindadas, superioridade aérea e naval e capacidade industrial pesada. Hoje, a natureza do poder tornou-se mais difusa, sofisticada e integrada à estrutura econômica das sociedades, às cadeias produtivas, à infraestrutura digital, à inteligência artificial, aos semicondutores, às telecomunicações, ao espaço, à energia, à mineração, ao espaço virtual e ao controle de dados. Defesa, tecnologia, agro, indústria, comércio, segurança pública e soberania econômica deixaram de ser esferas separadas para formar um único ecossistema de poder nacional.

A trajetória é instrutiva. Na Guerra do Golfo, os EUA demonstraram uma superioridade tecnológica inédita. À época, muitos acreditaram que o futuro da guerra seria marcado apenas pela supremacia tecnológica americana. Mas as guerras do Iraque e do Afeganistão revelaram os limites da superioridade convencional diante de insurgências relativamente baratas e altamente adaptáveis.

Posteriormente, a ascensão chinesa expôs outra dimensão do problema: competição geopolítica depende não apenas de superioridade militar direta, mas da capacidade de controlar cadeias industriais críticas, dominar tecnologias emergentes e reduzir vulnerabilidades econômicas. Pequim não buscou apenas expandir suas Forças Armadas, mas construir autonomia sistêmica de poder, ao controlar infraestrutura logística global, ampliar domínio sobre minerais críticos, liderar setores estratégicos e reduzir dependências tecnológicas externas.

Reativamente, Washington passou a restringir exportações de semicondutores avançados, subsidiar a produção doméstica de chips, reorganizar cadeias produtivas estratégicas e tratar setores econômicos inteiros como ativos de segurança nacional. A política industrial, algo que parecia quase heresia liberal nos anos 1990, voltou ao centro da estratégia geopolítica.

O conflito na Ucrânia acelerou essa transformação e revelou a nova natureza da guerra. Drones relativamente baratos passaram a destruir plataformas militares multimilionárias, alterando a lógica tradicional de custo-benefício dos conflitos. Satélites comerciais tornaram-se instrumentos operacionais essenciais, e empresas privadas de tecnologia passaram a exercer influência direta sobre o campo de batalha. Guerra eletrônica, inteligência em tempo real, integração digital, capacidade de adaptação tecnológica, reposição industrial contínua e resiliência logística tornaram-se tão importantes quanto blindados, superioridade aérea e naval ou sofisticação militar convencional. A guerra voltou, em grande medida, a ser uma disputa entre Estados capazes de mobilizar sistemas nacionais integrados de poder.

Talvez seja esse o principal fenômeno geopolítico da atualidade: a militarização gradual da economia internacional, não no sentido clássico das economias de guerra total do século XX, mas no de que comércio, energia, tecnologia, dados e cadeias produtivas passaram a ser tratados como ativos centrais de segurança nacional. Os EUA compreenderam isso ao iniciar um processo de reindustrialização estratégica. A China já opera nessa lógica há décadas. A Europa tenta adaptar-se rapidamente após perceber sua vulnerabilidade energética e industrial diante da Rússia e sua vulnerabilidade econômica diante dos EUA.

Nesse cenário, o caso brasileiro torna-se particularmente revelador. O Brasil reúne praticamente todos os elementos de uma potência geopolítica: dimensões continentais, abundância de recursos naturais, liderança agroalimentar, reservas energéticas estratégicas, vasta projeção no Atlântico Sul e uma das maiores biodiversidades do planeta. Sob qualquer critério geopolítico clássico, deveria possuir uma cultura estratégica sofisticada.

Entretanto, talvez nenhuma grande potência territorial tenha desenvolvido percepção tão limitada sobre sua própria dimensão estratégica. Parte disso possui raízes históricas. Diferentemente da Europa, o Brasil não foi moldado por guerras interestatais recorrentes. Desde a Guerra do Paraguai, o país não enfrentou ameaças externas existenciais.

Aos poucos, consolidou-se a percepção difusa de um “isolamento geopolítico benigno”, que conformou e condicionou uma “ilusão estratégica brasileira”, assentada em um pacifismo estrutural involuntário e em cinco pressupostos: a crença de que a distância geográfica protegeria o país; a de que a diplomacia poderia substituir o poder material; a de que recursos naturais gerariam relevância automática; a de que a ausência de guerras regionais equivaleria à ausência de ameaças; e a de que a soberania seria garantida prioritariamente pelo direito internacional, e não pela capacidade nacional.

Essa ilusão não é apenas um traço difuso da cultura política nacional, mas uma doutrina operante dos que atualmente “formulam” nossa política externa. O segundo e o quinto pressupostos constituem o próprio sistema nervoso do atual pensamento diplomático. Morgenthau lembrava que a diplomacia é o cérebro do poder nacional, não seu substituto; entre nós, inverteu-se a equação, e passou-se a crer que a eloquência, o prestígio e o argumento jurídico poderiam compensar a ausência de capacidade material. O resultado é uma diplomacia farta de princípios e escassa de instrumentos.

Trata-se de uma herança que já foi racional. Para um Estado fraco, fazer-se “país do direito internacional” era uma estratégia inteligente de sobrevivência. Mas o tempo do Barão do Rio Branco, em que a diplomacia brasileira pensava em termos de território e poder, cedeu lugar a um juridicismo que toma a norma como anterior à força, quando a história ensina o contrário: o direito acompanha o poder, raramente o precede.

A esse desvio doutrinário soma-se um vício institucional. O Brasil não dispõe de uma instância capaz de fundir diplomacia, defesa, economia, tecnologia e inteligência em uma estratégia única: o Itamaraty pensa em um silo, o Ministério da Defesa em outro, a área econômica em um terceiro, e a política externa é conduzida como uma sequência de gestos e reações, não como execução de um desígnio. Onde os EUA preservam, de governo a governo, a continuidade de suas estratégias, o Brasil reescreve a sua a cada mandato, oscilando entre alinhamento automático e terceiro-mundismo reflexo, sem jamais acumular capital estratégico ao longo do tempo.

Daí uma cegueira específica e perigosa: a da interdependência convertida em arma. Enquanto as grandes potências mapeiam vulnerabilidades e transformam cadeias de suprimento, sistemas de pagamento e fluxos de dados em instrumentos de coerção, os formuladores brasileiros seguem lendo comércio e investimento como relações puramente comerciais, de ganhos mútuos. Negociamos acesso a mercados enquanto outros desenham gargalos. E, porque a estratégia não se ensina, o déficit se reproduz: a formação de nossas elites e a dos próprios diplomatas subestima tecnologia, geoeconomia, defesa e inteligência, perpetuando uma classe dirigente que não foi treinada para pensar em termos de poder e que, por isso, transmite a própria cegueira às gerações seguintes.

E segue-se operando com pressupostos estratégicos de um mundo que deixou de existir. Vulnerabilidades estratégicas já não se manifestam apenas na forma clássica de invasões militares. Dependência tecnológica, fragilidade cibernética, precariedade logística e infraestrutural, insuficiência industrial e disputa por recursos críticos passaram a integrar o núcleo da competição internacional.

O Brasil depende externamente de semicondutores, sistemas avançados de comunicação, satélites, GPS, componentes eletrônicos críticos, sistemas antiaéreos, smart weapons, defesa cibernética, inteligência artificial, drones, sensores e fertilizantes. Em muitos desses setores, a dependência externa, mais do que econômica, é geopolítica.

E, justamente quando o mundo amplia investimentos em defesa e reindustrializa setores estratégicos, o Brasil segue direção oposta. Sob Lula 3, o orçamento de defesa sofreu retração significativa, caindo de cerca de 1,5% do PIB para aproximadamente 1,1%, com redução acumulada superior a 11% nas despesas discricionárias, justamente a parcela responsável por investimentos, manutenção operacional, aquisição de equipamentos e modernização.

O contraste é eloquente. Europeus que durante décadas reduziram seus gastos militares passaram a elevar rapidamente seus orçamentos após a invasão da Ucrânia. A Alemanha criou um fundo extraordinário de € 100 bilhões para reequipamento militar e assumiu o compromisso de atingir 2% do PIB em defesa. A Polônia já ultrapassa 4% do PIB. Os EUA mantêm gastos superiores a US$ 950 bilhões anuais. A China segue ampliando seus investimentos em taxas reais de crescimento acima da expansão econômica global. Mesmo potências médias asiáticas vêm acelerando programas de modernização naval, espacial, cibernética e industrial.

O Brasil, em sentido inverso, reduziu sua capacidade relativa de investimento justamente quando se volta a tratar segurança, indústria e tecnologia como dimensões inseparáveis da soberania. O debate nacional continua aprisionado a simplificações ideológicas e fiscais de curto prazo, oscilando entre dois chavões igualmente pobres – “o Brasil gasta demais com militares” ou “o Brasil investe pouco em defesa” – que ignoram o núcleo real do problema.

A fragilidade brasileira não reside apenas no volume de recursos, mas na própria arquitetura da defesa nacional. O orçamento militar permanece rigidamente consumido por despesas obrigatórias, especialmente pessoal e Previdência, comprimindo o investimento em modernização operacional, pesquisa, inovação, prontidão logística e desenvolvimento tecnológico e produzindo um paradoxo: Forças Armadas relativamente grandes em efetivo, mas com limitada capacidade de dissuasão de alta intensidade.

Ao longo das últimas décadas, a defesa brasileira foi desconectada do restante do ecossistema econômico. Diferentemente do que ocorre nas grandes potências, o setor deixou de ser tratado como instrumento articulador de política industrial, inovação tecnológica, formação de capital humano avançado e projeção estratégica do Estado. A consequência foi uma espécie de isolamento em relação aos grandes ciclos de transformação econômica, tecnológica e industrial do país.

Essa desconexão produziu efeitos cumulativos. O Brasil perdeu densidade industrial em setores críticos, ampliou dependências tecnológicas externas e reduziu sua capacidade de transformar projetos militares em plataformas estruturantes de desenvolvimento nacional.

Essa fragmentação enfraqueceu a própria cultura geopolítica do Estado brasileiro. Sem integração entre defesa, indústria, tecnologia, infraestrutura, energia e planejamento econômico, o país perdeu capacidade de formular uma visão de longo prazo compatível com sua dimensão continental. O resultado é uma estrutura que preserva símbolos de poder estatal, mas com dificuldade crescente de converter potencial geográfico, econômico e demográfico em influência estratégica efetiva.

O Brasil é uma das poucas potências territoriais cujas elites perderam quase completamente o hábito de pensar geopoliticamente. Pensa-se excessivamente em gestão e cada vez menos em poder; em equilíbrio fiscal de curto prazo, mas não em resiliência estratégica; em commodities, mas não em autonomia tecnológica; em orçamento anual, mas não em projeção histórica de longo prazo.

Isso ajuda a explicar por que projetos fundamentais sofrem contingenciamentos sucessivos, interrupções e instabilidade orçamentária permanente, em um cenário no qual o Brasil permanece aprisionado à lógica fiscalista anual, à fragmentação burocrática e à ausência de coordenação entre política de defesa e projeto nacional de desenvolvimento.

Essa contradição salta aos olhos porque o Brasil possui programas tecnologicamente sofisticados, como o Prosub, o Gripen, o KC-390, as Fragatas Tamandaré e iniciativas espaciais e cibernéticas, capazes de gerar encadeamentos industriais relevantes, transferência tecnológica, formação de mão de obra altamente qualificada e fortalecimento da autonomia produtiva nacional. No entanto, à semelhança do Sisfron, sufocado há quase 20 anos pela imprevisibilidade orçamentária, criando espaços de obsolescência tecnológica e conceitual, esses projetos são tratados como despesas fiscais contingenciáveis, e não como instrumentos estruturantes de autonomia tecnológica e poder nacional.

Defesa não é assunto apenas militar, mas ativo de toda a sociedade. Envolve política industrial, universidades, infraestrutura crítica, inteligência artificial, espaço, energia, investimentos, promoção comercial e ecossistemas de financiamento e garantias de produção e exportação. Países incapazes de dominar tecnologias estratégicas tornam-se dependentes não apenas economicamente, mas geopoliticamente. Lideranças políticas brasileiras ainda não compreenderam essa transformação e talvez esse seja seu maior risco: a ausência de consciência estratégica compatível com sua dimensão geopolítica.

Raymond Aron advertia que “a história é trágica” e costuma punir países que confundem estabilidade efêmera com garantias permanentes de paz, sobretudo aqueles que ignoram mudanças históricas e só enxergam o perigo quando ele se torna inevitável.

Mas a tragédia, em política, raramente é destino: é quase sempre escolha ou omissão repetida até virar hábito. A ilusão estratégica brasileira não foi imposta por nenhum inimigo. Foi cultivada em casa, paciente e voluntariamente, como quem confunde a ausência de tempestade com a solidez do telhado.

A democracia brasileira entrou em transição autocratizante 

Os democratas brasileiros estão perplexos com as mais recentes ações e palavras de Gilmar Mendes. Ele não parece um juiz típico de suprema corte e sim um oligarca do novo arranjo de poder que se erigiu no Brasil graças ao hegemonismo lulopetista. Mas Gilmar é apenas o sintoma de uma transição política adversa à democracia que está em curso neste momento.

Se Lula for reeleito veremos a tentativa de consolidação de outro tipo de regime político no país, situado na zona de transição entre democracia eleitoral (não-plena e não-liberal, como é hoje – segundo as classificações da The Economist Intelligence Unit e do V-Dem) e autocracia eleitoral.

Ou seja, teremos no Brasil a consolidação de um tipo de regime híbrido (contra-liberal) em que uma maioria parlamentar de oposição ao governo, não importa o seu número, será neutralizada por uma oligarquia político-judiciária (com gilmares, alexandres, dinos, messias et coetera) a serviço de uma máquina administrativa crescentemente aparelhada em aliança com oligarcas “russos” (como os irmãos Batista, da JBS) e com a banda podre, corrupta, do Congresso. O Brasil se afastará ainda mais das democracias liberais e avançará no seu alinhamento ao eixo autocrático (já reunido sob a denominação genérica de Sul Global e articulado em várias iniciativas políticas fantasiadas de blocos econômicos, como o BRICS).

Tudo isso foi favorecido por uma oposição bolsonarista gerada, por enantiodromia, pelo populismo lulopetista. A esquerda populista (em parte revolucionária travestida de “progressista”) tanto caluniou quem não se subordinava a ela de extrema-direita, que “produziu” afinal uma direita populista (em parte reacionária disfarçada de “conservadora”).

Não ocorre apenas no Brasil. Na América Latina, por exemplo, Petro (da Colômbia) “produziu” Espriella, Kirchner (da Argentina) “produziu” Milei, Evo e Arce (da Bolívia) “produziram” Rodrigo Paz, Funes e Cerén (de El Salvador) “produziram” Bukele, Correa (do Equador) “produziu” Noboa e Lula (do Brasil) “produziu” Bolsonaro.

Aqui não há como fugir da realidade. Lula é o grande favorito para vencer as eleições de 2026 mais uma vez. Não se sabe como já não está 20 pontos acima do Flávio (aquele candidato escolhido para perder, mas manter a liderança da direita populista nas mãos da famiglia Bolsonaro). Com tantas besteiras que os bolsonaristas fazem, seria o esperável racionalmente.

Os dirigentes históricos do PT (como Dirceu) avaliam que estamos na antessala de uma situação revolucionária. É assim que eles chamam sua almejada mudança no regime político brasileiro, trocando democracia por cidadania ofertada ao povo pelo líder populista no comando do Estado e colocando a soberania (nacional) acima da democracia (como valor universal).

Não é absolutamente certo que os populistas de esquerda conseguirão consumar seu intento. Mas é certo que não há saída democrática, no curto prazo, para superar tal constelação aziaga de fatores.

Como foi dito, os democratas estão imprensados entre reacionários disfarçados de conservadores e revolucionários travestidos de “progressistas” – ambos populistas e, como tais, avessos à democracia liberal.

Nestas circunstâncias, qualquer saída será de longo prazo. A situação não vai mudar por um golpe de sorte eleitoral nos próximos dois pleitos. É necessário configurar comunidades políticas (redes humanas, mais distribuídas do que centralizadas), verdadeiras “poleis paralelas” (interativas) capazes de gerar agentes democráticos (reformistas liberais-inovadores), multiplicando seu número até alcançar o nível crítico necessário para fermentar o processo de emergência de uma opinião pública democrática, de resistir às tiranias e aos processos de autocratização (seja por meio de golpes de Estado ou de conquista de hegemonia) e de ensaiar a democracia como modo-de-vida, usinando novos padrões democráticos capazes de se replicar em outras regiões do tempo.

Mordaça de Xangai

Na abertura da recente Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial. Com a adesão de 28 países — incluindo o Brasil —, Pequim vendeu a iniciativa como um marco emancipatório para o Sul Global, prometendo capacitar 5.000 profissionais e democratizar a governança do setor. Contudo, por trás da retórica inclusiva, esconde-se uma estratégia geopolítica calculada e o risco iminente de aprisionamento tecnológico.

Ao exaltar o open source como uma “oportunidade histórica”, o regime chinês expõe um paradoxo flagrante. A China opera o ecossistema digital mais censurado do mundo, protegido pelo Great Firewall e regido por normas que exigem que qualquer IA generativa reflita compulsoriamente os “valores socialistas” do Partido Comunista. Pregar abertura internacional enquanto se impõe uma mordaça algorítmica interna serve apenas para absorver dados e tecnologia ocidentais, sem jamais permitir auditoria transparente em seus próprios sistemas.

Essa promessa de representatividade para o Sul Global mascara a exportação deliberada de dependência. Ao financiar a infraestrutura e os padrões técnicos na América Latina, Pequim desenha a própria arquitetura que sustentará os serviços públicos digitais da região. Ao integrar essa estrutura, o Brasil vincula sua gestão pública e seus dados estratégicos a um stack autoritário cujo custo de transição futuro será proibitivo.

A hipocrisia se reflete também na crítica chinesa ao uso da “segurança nacional” para restringir tecnologias — uma alusão direta aos Estados Unidos. A China, sabemos, é pioneira na fusão civil-militar, bloqueia dados transfronteiriços e subsidia estatais sob esse exato pretexto. Além disso, o conceito de “controle humano” defendido por Pequim se traduz, na prática, no controle irrestrito do Estado sobre o cidadão, por meio de vigilância em massa e reconhecimento facial.

Diante desse cenário, a verdadeira soberania digital brasileira exige a construção de soluções próprias, alinhadas às nossas necessidades institucionais, culturais e aos valores democráticos. Em vez de se subordinar ao modelo de vigilância de Pequim, o Brasil deve priorizar o desenvolvimento de um modelo de linguagem em português (IA) por meio de alianças estratégicas com nações altamente confiáveis e tecnologicamente avançadas. Países como Japão e Taiwan, referências globais na produção de hardware de ponta e na pesquisa ética em inteligência artificial, representam parceiros ideais que merecem um olhar muito mais atento e prioritário por parte da diplomacia e do setor de inovação nacional.

A adesão à diplomacia de Xangai reflete uma ingenuidade estratégica perigosa. Uma governança de IA verdadeiramente inclusiva e democrática exige neutralidade pragmática, transparência algorítmica e a recusa firme em importar modelos fundamentados no controle e na vigilância estatal. Para garantir um futuro digital seguro e soberano, o Brasil deve escapar das mordaças e parcerias enganosas, fortalecendo cooperações éticas, preservando sua autonomia.

Política de cotas: fim do mérito e cooptação identitária das instituições

Por meio de seleções exclusivas para candidatos negros, a Unicamp colocou em prática um projeto que previa reserva de 20% das vagas do Magistério Superior. Estão sendo abertos em cada uma das unidades da referida Universidade, concursos para professor doutor nos quais só podem concorrer candidatos negros. Não se trata mais nem de percentagem de cota dentro de um concurso aberto a todos – modelo já bastante contestável; trata-se de algo mais radical: reserva de vaga exclusiva para um único grupo racial; um concurso segregado por raça, com base em análise fenotípica de fotografia e, se necessário, arguição por banca de heteroidentificação.

Recentemente o Ministério Público Federal moveu ação civil pública para obrigar o Hospital Albert Einstein a implantar de imediato cotas para negros, indígenas, quilombolas e pessoas trans na residência para médicos, perfazendo nada menos do que 55% das vagas no processo de formação mais seletivo e mais decisivo da medicina brasileira. A Justiça Federal indeferiu os pedidos liminares, mas a ação prossegue normalmente em relação aos pedidos de mérito da ação. 

Outro caso controverso ocorreu em outubro de 2025 quando a Universidade Federal de Pernambuco abriu, em parceria com o Incra, uma turma de Medicina de 80 vagas destinadas exclusivamente a beneficiários da reforma agrária (assentados do MST) e quilombolas. Para essa turma não houve prova específica via Sisu regular. A seleção baseou-se apenas em uma redação e análise do histórico escolar do Ensino Médio. Houve polêmica forte, com críticas de entidades médicas por falta de isonomia e questionamentos sobre qualidade. Em março de 2026, a Justiça Federal (TRF-5) suspendeu o curso temporariamente. Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) derrubou a suspensão e determinou a continuidade da turma, mantendo o curso ativo até julgamento definitivo. 

Esses são apenas alguns exemplos mais recentes do avanço da política de identidade em busca da sua hegemonia no Brasil. Quando uma instituição troca o critério “quem está mais qualificado” pelo critério “quem pertence ao grupo certo”, ela não está apenas cometendo uma injustiça pontual contra o candidato preterido, está desmontando a própria função social daquela instituição, que é produzir e certificar competência. 

A falência das políticas afirmativas

No livro “Ação afirmativa ao redor do mundo: um estudo empírico sobre cotas e grupos preferenciais”, Thomas Sowell demonstra, por meio de estudos de caso em diversos países, que as políticas de ação afirmativa, apesar das particularidades históricas de cada nação, seguem padrões globais consistentes e, frequentemente, contraproducentes. Vale a pena enumerá-los porque cada um desses pontos tem correspondente exato no Brasil:

1. Expansão da temporalidade e do escopo: Nenhuma política de ação afirmativa documentada por Sowell, em nenhum dos países estudados, foi encerrada no prazo prometido: programas com prazos de 10 ou 20 anos são repetidamente prorrogados por décadas e preferências inicialmente voltadas para o ingresso (admissão) frequentemente se expandem para a aprovação, graduação, contratação e promoções no mercado de trabalho. Além disso, grupos que não sofreram as desvantagens históricas originais frequentemente conseguem ser incluídos nas categorias preferenciais.

2. A “nata” dos beneficiados:Os benefícios da ação afirmativa não atingem os membros mais pobres ou oprimidos do grupo preferencial. A maior parte das vagas e recursos é absorvida por uma pequena elite dentro do grupo preferido que já possui condições socioeconômicas superiores à média nacional.

3. Reclassificação em massa e fraude estrutural: Indivíduos tentam se reidentificar como membros de grupos preferenciais para obter vantagens; Sowell documenta o crescimento estatisticamente impossível do número de “índios americanos” autodeclarados nos EUA e de “aborígines” na Austrália durante os períodos de ação afirmativa.

No Brasil, o número de candidatos autodeclarados pretos ou pardos em concursos públicos e vestibulares disparou assim que as cotas raciais passaram a valer, forçando a criação das bancas de heteroidentificação, precisamente os “tribunais raciais” que o professor Wilson Gomes costuma denunciar em seus textos, cuja função é policiar, com base em fenótipo, quem “parece” negro o suficiente para ocupar a vaga. 

Causa-me espanto que tenhamos naturalizado uma polícia racial encarregada de examinar lábios, nariz, textura de cabelo, traços faciais e cor da pele de cidadãos para decidir quem pode ou não ter acesso a uma política pública”, declarou o professor, em entrevista ao jornal Estadão.  

Nesse ponto, cito uma das teses mais repisadas pelo antropólogo brasileiro Antônio Risério: o identitarismo, importado dos Estados Unidos, exige a imposição, sobre uma sociedade historicamente mestiça como a brasileira, de uma classificação racial binária (preto/branco) que nunca foi a nossa. Para que o sistema de cotas e de bancas de heteroidentificação funcione, é preciso primeiro negar, ou pelo menos apagar operacionalmente, a miscigenação que Caio Prado Júnior identificou como o traço definidor da formação nacional brasileira. 

4. Polarização social e violência:A politização da identidade de grupo frequentemente resulta em ressentimento e hostilidade intergrupal. O sentimento de injustiça entre os grupos não preferenciais muitas vezes supera o benefício real transferido, criando um ambiente de “soma negativa”. Em países como Índia, Nigéria e Sri Lanka, a disputa por cotas e o favoritismo governamental foram catalisadores de massacres, motins e guerras civis.

5. O resultado no combate à pobreza é irrisório:A taxa de pobreza entre negros nos Estados Unidos já havia caído pela metade antes da ação afirmativa; depois dela, pouco mudou.

Em suma, a análise empírica empreendida por Sowell sugere, portanto, que a ação afirmativa falha em atingir seus objetivos humanitários fundamentais. Os fatos são obstinados e as inclinações ideológicas não podem alterar a evidência de que a ação afirmativa tem sido, em muitos casos, um obstáculo à verdadeira conquista dos mais desfavorecidos na sociedade. 

Tornando a identidade étnico-racial o fator principal na distribuição de recursos estatais, essas políticas frequentemente institucionalizam o conflito. Em vez de elevar os desvalidos, sacrificam a eficiência econômica e acadêmica em nome de uma representatividade numérica artificial e mascaram a necessidade de melhorias reais na educação.

A guerra contra a ciência

No livro The War on Science, trinta e nove cientistas e estudiosos renomados manifestaram-se sobre as ameaças promovidos pela cultura do cancelamento e as políticas de DEI à livre investigação, à liberdade de expressão e ao próprio processo científico. “De ataques a contratações baseadas no mérito até o policiamento da linguagem e a substituição de estudos acadêmicos disciplinares bem estabelecidos por mantras ideológicos, a ciência e a produção acadêmica atuais estão sob ameaça em todas as instituições ocidentais”, afirmam os autores.

Editado pelo físico Lawrence Krauss, o livro mostra que o que antes era restrito às humanidades  penetrou formalmente nas ciências duras e documenta algo que nos interessa diretamente, ainda que a discussão seja americana. Está claro que estamos indo para o mesmo buraco. 

Há relatos bizarros de publicações acadêmicas (como a Physical Review) analisando “branquitude” no uso de quadros brancos em salas de aula, tratando ferramentas pedagógicas como organizações sociais raciais ou a Academia Nacional de Ciências premiando trabalhos que afirmam que a “epistemologia da física” é racializada.

Há relatos revoltantes como o de Carole Hooven, bióloga evolutiva de Harvard, que foi obrigada a deixar a universidade por afirmar, com base no consenso da própria biologia evolutiva, que sexo biológico se define por tamanho de gameta – fato científico banal transformado em heresia porque incomodava uma narrativa identitária. 

Mas aqui mesmo no Brasil temos exemplos de tais absurdos, como o caso recente da doutoranda Celina Lazzari, que, acusada de transfobia por comitê de ética da UFSC, teve sua pesquisa suspensa e precisou entrar na justiça para concluir seu doutorado. Ao analisar o caso, a Justiça afirmou que a universidade submeteu a doutoranda a um “rito inquisitorial”. A pesquisadora é também diretora da Matria, uma organização em defesa de mulheres e crianças frente aos impactos do conceito de “identidade de gênero”. O procedimento aberto contra a doutoranda teve origem em denúncias baseadas em manifestações públicas feitas fora do ambiente acadêmico.

A ameaça identitária

Os efeitos corrosivos dessa ideologia não podem ser subestimados, daí a importância de estudos como o do antropólogo Antônio Risério que, em seus vários livros, tem dissecado esse fenômeno social contemporâneo. No livro Identitarismo, Risério reconstrói a genealogia dessa ideologia, que nasce da convergência entre a contracultura dos anos 1960 e o desconstrucionismo francês de Foucault, Lyotard, Marcuse, etc.; pensadores que fizeram da recusa da racionalidade e da ciência um ponto central. 

Com a queda do comunismo, explica Risério, uma esquerda órfã de horizonte abandonou as classes sociais como categoria organizadora do mundo e as substituiu por raça, sexo e gênero. O resultado foi a fragmentação da sociedade em blocos étnicos e de gênero fechados sobre si mesmos, cada um cultivando seu próprio ressentimento, cada um reivindicando autoridade epistêmica exclusiva sobre a própria narrativa. 

O identitarismo é um pensamento intrinsecamente monológico que não debate, decreta; que não argumenta, denuncia. E é, sobretudo, antiuniversalista: abandona o ideal iluminista de que existem verdade, mérito e direitos que valem para todos os indivíduos, independentemente do grupo a que pertencem, e o substitui pela lógica de que tudo – inclusive a ciência, inclusive a leitura de um texto clássico – é, em última instância, uma questão de poder entre grupos.

Esse fenômeno da esquerda contemporânea pós-moderna dificilmente se encaixa na visão de mundo da esquerda tradicional, que se preocupa com a opressão concreta advinda das condições sociais e não com micro-opressões imaginárias. Um “marxista raiz” provavelmente argumentará que o identitarismo desvia a atenção da luta de classes e que não passa de uma ideologia burguesa que dispersa a energia revolucionária para questões simbólicas e de representação, enquanto preserva o sistema econômico capitalista.

Tampouco se trata de um fenômeno que possa ser bem absorvido por uma visão liberal ou conservadora. A primeira o vê como erosão do mérito individual e dos direitos universais, enquanto a segunda como enfraquecimento dos valores morais, da responsabilidade individual e da unidade nacional. 

O identitarismo é, em suma, uma forma pós-moderna de tribalismo com foco exclusivo em vitimização, opressão e crítica cultural sistemática. Ao eleger uma identidade específica (étnica, sexual, racial ou cultural) como o valor político supremo ao qual todos os outros devem se submeter, ele representa uma sedição contra os valores fundamentais do iluminismo: universalismo, liberdade e igualdade. 

Seu avanço, porém, presta um grande serviço à direita reacionária, que se fortalece ao se lhe contrapor de modo estridente e histriônico, mesmo sem saber confrontá-lo nas suas bases, mesmo sem saber sequer compreendê-lo ou defini-lo.