Todos os posts de Mário Machado

Mário Machado

Sobre Mário Machado

Consultor em Relações Internacionais, com experiência na formulação e execução de política internacional e comércio internacional. Tendo participado de rodadas de negócios e negociações internacionais. Palestrante em eventos acadêmicos e corporativos. Com trabalhos publicados nas áreas de Relações Internacionais, Desenvolvimento Econômico, Macroeconomia e Economia Criativa. Mestre em Desenvolvimento Econômico e Estratégia Empresarial PPGDEE/UNIMONTES.

Guerra cognitiva da China contra Taiwan usando inteligência artificial

A Inteligência Artificial como Arma na Guerra Cognitiva da China contra Taiwan

O debate em torno dos benefícios econômicos, avanços técnicos e consequências da adoção massiva das tecnologias de Inteligência Artificial domina não só o noticiário econômico e comportamental, mas também o político. Um aspecto, contudo, tem sido pouco explorado: o uso da inteligência artificial como uma nova frente de conflito silencioso no Estreito de Taiwan, alimentando campanhas de desinformação projetadas para corroer o tecido social de uma nação sem que um único tiro seja disparado.

Essa estratégia é conhecida como Guerra Cognitiva, que pretende conquistar territórios ao conquistar a mente de um povo. Pequim há anos investe em operações de influência que combinam propaganda tradicional com ferramentas da chamada IA generativa — como, por exemplo, as deepfakes, que geram conteúdo capaz de imitar vozes de autoridades, fabricar vídeos de líderes taiwaneses e inundar redes sociais com narrativas que semeiam dúvidas sobre a capacidade de defesa de Taiwan ou sobre a confiabilidade de seus aliados ocidentais.

A instrumentalização da IA nesse contexto se aproveita das redes sociais ao dar escala a essas falsificações, uma vez que os modelos permitem a difusão de milhares de publicações persuasivas em minutos e em múltiplos idiomas, simulando um debate orgânico onde na verdade existe coordenação centralizada. Outra forma de atuação é a entrega manipulada desses conteúdos, explorando algoritmos de recomendação para que narrativas específicas cheguem a públicos vulneráveis, como eleitores indecisos. Isso só é possível graças à verossimilhança alcançada pelas novas tecnologias, com áudios e vídeos cada vez mais difíceis de distinguir em relação aos autênticos. Esse problema tende a se agravar à medida que a tecnologia se torna mais barata e acessível.

As operações de guerra cognitiva não visam necessariamente convencer, mas exaurir. Ao saturar o debate público com contradições, a estratégia busca produzir fadiga cognitiva e ceticismo generalizado, que faz com que os cidadãos deixem de confiar em qualquer fonte, inclusive nas legítimas. Esse é o efeito mais perigoso, uma vez que uma sociedade que não acredita em nada se torna paralisada em suas tomadas de decisão, criando um ambiente sem diálogo saudável e democrático, polarizado em torno de posições extremas.

Taiwan, consciente da ameaça que esse cenário cria para sua sobrevivência, tem respondido com iniciativas de alfabetização midiática, verificação de fatos em tempo real e parcerias com plataformas tecnológicas para identificar contas inautênticas. Ainda assim, a assimetria é evidente: enquanto a defesa exige verificação lenta e criteriosa, o ataque se beneficia da velocidade e da caixa preta dos algoritmos das gigantes de tecnologia. 

As democracias de todas as partes do mundo devem olhar para o Estreito de Taiwan com atenção, não só pela natural solidariedade entre as democracias, mas porque esse tipo de campanha é facilmente replicável e os processos eleitorais são naturalmente vulneráveis a ela. Uma lição importante a ser notada é que a realidade criada por essa revolução tecnológica transforma a capacidade dos cidadãos de identificar e resistir a campanhas de guerra cognitiva em um aspecto crucial para a defesa nacional.

O dilema reside na dualidade da tecnologia de IA, que por um lado facilita a falsificação e a manipulação massiva, por outro abre uma janela de oportunidade para o desenvolvimento econômico, típica dos períodos de ‘destruição criativa’. Precisamos enfrentar o tema com seriedade e construir políticas públicas que criem mecanismos capazes de detectar ataques de Guerra Cognitiva, mantendo o debate público aberto e franco. Isso inclui a criação de regulações inteligentes e transparentes para as gigantes da tecnologia, além de investimento na educação da população para torná-la menos vulnerável ao arsenal da IA empregado na guerra cognitiva. Taiwan nos ensina que a consciência e a atenção dos cidadãos são os verdadeiros campos de batalha no século XXI.

A Guerra Invisível: como a desinformação chinesa mira Taiwan

As eleições em Taiwan, marcadas para novembro, intensificaram os casos de uso de desinformação por parte da China para buscar influenciar nos resultados do pleito, beneficiando forças políticas mais aliadas a Pequim. 

O processo eleitoral agudizou um problema que não é recente. Nos últimos anos, Taiwan se tornou um dos principais alvos de campanhas de desinformação que podem ser classificadas como uma verdadeira Guerra Cognitiva, isto é, buscar controlar o estado mental e comportamental de uma população por meio de estímulos em seus ambientes. Nesse tipo de combate um dos “armamentos” mais eficazes são as fakenews. 

Para exemplificar uma campanha de desinformação, temos o caso dos exercícios militares anuais Han Kuang, concluídos, em 14 de agosto de 2026. Esse é um exercício de larga escala, que dura 10 dias e visa testar a efetividade e a prontidão das forças taiwanesas diante de vários cenários de uma possível invasão chinesa, entre as novidades desse exercício se destaca treinamentos para aumentar a resiliência digital diante da interrupção de sinais de comunicação e invasão de redes. 

Um dos pontos desse  treinamento de resiliência foi testar a evacuação de autoridades, o tempo de chegada até bunkers e as formas de manter uma cadeia de comando ativa nos momentos iniciais de uma possível invasão. As imagens reais desse treinamento foram aproveitadas e distorcidas, como se estivesse havendo um ensaio da retirada da liderança da ilha durante uma invasão e abandono da população à própria sorte. Esse material passou a circular em redes sociais e aplicativos de mensagens, muitas vezes reaproveitando plataformas populares entre a diáspora chinesa e taiwanesa.

Essa campanha de desinformação foi desenhada para minar o moral da população, esgarçar a confiança da população nas autoridades civis e militares e sugerir fragilidade nas instituições democráticas da ilha. 

A estratégia chinesa parece ser evitar, no momento, o confronto militar direto, cujo custo seria altíssimo, enquanto corrói a coesão social e a confiança nas instituições democráticas taiwanesas por dentro. Erodindo sua soberania para conseguir a capitulação pacífica da ilha ou reduzir sua capacidade e até mesmo determinação em se defender militarmente. 

Taiwan, por sua vez, tem investido pesadamente em alfabetização midiática e em unidades de verificação de fatos, como o projeto liderado pela sociedade civil taiwanesa o Cofacts, que se tornou referência internacional em resposta rápida a desinformação. A sociedade civil taiwanesa é frequentemente citada como um dos exemplos mais resilientes de defesa democrática contra esse tipo de ataque assimétrico. E, talvez um exemplo, para outras nações que também enfrentam cenários eleitorais conturbados e sob efeito de campanhas de desinformação. 

A eficácia e o grande perigo da guerra cognitiva contra sociedades abertas e democráticas está na dificuldade que a natureza furtiva desse tipo de operação impõe ao seu combate. Uma vez que o regime de Pequim usa prepostos, que podem até não saber que estão sendo usados ou contas falsas que simulam ser de cidadãos para disseminar seu conteúdo. Um combate atabalhoado pode ajudar os objetivos dessa campanha ao cercear críticas legítimas aos governos, aos costumes, aos rumos de uma nação das várias correntes de opinião, estimulando ainda mais a desconfiança quanto à democracia. 

Assim, legisladores, analistas, pesquisadores e todos que se debruçam sobre esse tema precisam levar em conta não só o conteúdo das informações, mas, também, elementos como o padrão, a escala e o timing das campanhas que podem corroborar  a existência de uma coordenação estatal estrangeira. 

Há muitos séculos se sabe que a desinformação é uma arma poderosa nas guerras, o contexto atual de redes sociais ampliou os meios para criar essas campanhas e seu alcance e o potencial para corroer, de dentro para fora, a confiança que sustenta qualquer sociedade livre. O caso de Taiwan e suas respostas institucionais e de sua sociedade civil servem de alerta e exemplo para outras democracias. O combate contra a guerra cognitiva caminha pela máxima da vigilância eterna e não pelo caminho da censura.

A repressão que não respeita fronteiras

Regimes repressivos têm se tornado cada vez mais ostensivos no uso transnacional de seus arsenais de recursos de pressão política e econômica para intimidar, perseguir e calar opositores e dissidentes. Particularmente graves são os casos de incidentes físicos, em terceiros países, que envolvem sequestros, deportações irregulares e assassinatos.

De acordo com o Freedom House, uma das mais antigas e reconhecidas organizações de monitoramento e estudo sobre as liberdades civis do mundo, a China foi responsável por 253 dos 854 incidentes físicos de repressão transnacional registrados globalmente entre 2014 e 2022, o que corresponde a 25% dos casos. Colocando o gigante asiático como o líder nesse ranking nefasto. Os relatórios mais recentes mostram a tendência de aumento da repressão transnacional indicando que mais de 300 incidentes ocorreram só em 2025, incluindo detenções, deportações forçadas e até a morte suspeita do líder religioso tibetano Tulku Hungkar Dorje, em março de 2025 sob custódia do governo vietinamita.

O alerta para a gravidade da infiltração de terceiros Estados pelos mecanismos de repressão é ilustrado pelo caso de Chung Biu “Bill” Yuen, e Chi Leung “Peter” Wai, que, em maio, foram condenados por um tribunal britânico há 8 e 10 anos de prisão, respectivamente, por vigiar dissidentes de Hong Kong em solo do Reino Unido, numa operação que a promotoria classificou como “policiamento paralelo” de Pequim. 

A tendência se confirma, também, pelos relatos de ativistas uigures, tibetanos e defensores da democracia de Hong Kong que denunciam, em praticamente todos os continentes, o mesmo padrão: vigilância digital, ameaças a familiares que permaneceram na China, detenções em países terceiros e campanhas de intimidação online.

É particularmente preocupante observar como o poderio econômico parece estar sendo utilizado para pressionar os Estados a cooperar com a repressão chinesa, em especial. Casos recentes envolvendo deportações de uigures a partir da Tailândia e detenções em aeroportos da Malásia evidenciam esse mecanismo. 

É tentador tratar isso como um problema distante, que diz respeito ao adimplemento de leis internas e protegidas pelo princípio da não-interferência. Mas a repressão transnacional é, antes de tudo, um ataque insidioso à própria ideia de que existe um lugar seguro para discordar, principalmente no plano das ideias e do debate político. Quando um regime consegue perseguir, intimidar e silenciar pessoas em qualquer parte do mundo, ele não está apenas violando direitos humanos e exportando seu modelo autoritário, está de fato criando um efeito demonstração perigoso e testando os limites da ordem internacional estabelecida.

Lutar contra os mecanismos de repressão transnacional e separar a saudável cooperação internacional para repatriar foragidos da justiça do uso político dos tribunais é tema complexo e existencial para as Democracias. É preciso que os Estados lancem mão de seus instrumentos legais para responder à infiltração dos mecanismos de repressão sejam eles sanções, expulsões de diplomatas, ou investigações criminais como a do Reino Unido. Enquanto isso, cada uigur detido, cada tibetano vigiado e cada ativista de Hong Kong ameaçado nos lembra que a liberdade, quando confrontada com o poder de um Estado disposto a ultrapassar fronteiras, precisa ser defendida com a mesma determinação, em qualquer lugar do planeta. 

A tecnologia que move a Copa do Mundo 

O mundo parou para celebrar e viver as emoções esportivas que a Copa do Mundo FIFA desperta, os lances de perigo, as histórias de heroísmo, mas temos visto também, transmissões em resolução ultra HD para bilhões de telas, sistemas de arbitragem por inteligência artificial que detectam impedimentos em milissegundos. Toda essa infraestrutura digital, onipresente em cada segundo da competição, depende de semicondutores fabricados em sua esmagadora maioria em um único lugar: Taiwan. 

Os chips produzidos pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, TSMC (empresa que concentra mais de 90% da fabricação mundial de semicondutores mais avançados) rodaram os algoritmos de VAR aprimorado, os modelos preditivos de desempenho atlético e os sistemas de segurança biométrica instalados nos estádios. Sem Taiwan, o maior espetáculo esportivo do planeta seria tecnologicamente impossível na forma em que o conhecemos hoje. Essa é uma faceta visível da importância geoeconômica da Paz no Estreito de Taiwan. 

O ecossistema tecnológico taiwanês abrange também um investimento importante em pesquisas sobre os supercondutores, que são materiais capazes, em baixas temperaturas,  conduzem cargas elétricas, sem resistência e sem criar campos magnéticos, o que na prática significa redução de ineficiências nas redes elétricas. Se os semicondutores foram a revolução que tornou a era digital possível, os supercondutores têm o potencial de ser o mesmo para a era da energia limpa economicamente viável. Outra aplicação dessa tecnologia são os processadores quânticos que podem introduzir ganhos de escala computacional suficientes para resolver problemas que a tecnologia atual não tem capacidade, tais como analisar bases de dados gigantescas em poucas horas o que os melhores supercomputadores atuais não conseguem no horizonte da expectativa de vida humana.

Todo esse progresso tecnológico acontece, contudo, sob a sombra permanente de um conflito territorial que o mundo prefere não nomear abertamente. A mesma ilha que garante que os árbitros da Copa vejam um impedimento em três centímetros é a mesma ilha que, se desestabilizada, poderia paralisar a transição energética global antes que ela realmente comece. Os países que aplaudiram suas seleções nos telões deveriam, com a mesma urgência, debater maneiras de, pelo menos, manter o status quo no Estreito de Taiwan.

A Copa do Mundo nos deu o que ela sempre dá: emoção, narrativa e o infelizmente ilusório senso de que o planeta compartilha algo em comum. Mas, o verdadeiro jogo decisivo para a economia e progresso tecnológico mundial não aconteceu em nenhum estádio. Ele acontece nos mares e céus do Estreito de Taiwan. E, diferente das fases de ‘mata-mata’, esse jogo não tem prorrogação.

O Estreito de Taiwan: a escolha entre armar e negociar

O recente cercamento de Taiwan por um número estimado de 100 navios chineses é o episódio mais recente de pressão militar de Pequim sobre Taipei. O episódio acontece dias após o governo chinês afirmar durante a visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que trabalha para aumentar a estabilidade e segurança global. 

Pelo Estreito de Taiwan circula cerca de 20% do comércio mundial, segundo dados do CSIS (Center For Strategic and International Studies), o que dá uma dimensão clara dos riscos para a economia global envolvidos em aventuras militares na região. 

Como resposta à escalada de tensões, vemos um movimento de Japão, Filipinas e Taiwan para aumentar seus gastos em defesa e a adoção de novas doutrinas de emprego de força militar. 

Essa movimentação reforça o valor estratégico da doutrina da Cadeia de Ilhas, que articula as nações insulares do Indo-Pacífico às bases navais e capacidades militares dos Estados Unidos com o objetivo de conter e contrabalançar o poderio chinês, uma vez que esses estados podem impedir ou dificultar muito a navegação na região.

Entre os movimentos podemos destacar a visita do presidente filipino Ferdinand Marcos Jr. ao Japão, entre 26 e 29 de maio, que objetiva estreitar ainda mais as relações entre os dois países, que recentemente assinaram acordos que facilitam exercícios militares conjuntos e a troca de materiais bélicos e recursos logísticos. 

Entre os armamentos e equipamentos que as Filipinas buscam comprar do Japão estão mísseis e sistemas de radar e defesa aérea, o que aponta para uma nova abordagem de emprego de força por Manila, substituindo a tradicional ênfase em forças terrestres e operações de contra-insurgência por capacidades voltadas à defesa aérea e guerra naval. 

Nesse contexto de tensões elevadas, o Japão anunciou, em 2025, seu programa escudo (da sigla Shield – Synchronized, Hybrid, Integrated and Enhanced Littoral Defense, em inglês) de defesa nacional que prevê aumento de gastos militares na ordem de 60 bilhões de dólares para construir capacidade militar em veículos não tripulados (barcos, aeronaves e submersíveis). 

Essa modernização material e doutrinária, em conjunto com uma estratégia externa mais assertiva, indica uma mudança importante do padrão histórico japonês pós-Segunda Guerra. 

Taiwan, por sua vez, também declarou a intenção de investir em drones, além disso, ampliou seu orçamento de defesa, que agora corresponde a 3,3% de seu PIB e inclui provisão para compra de materiais bélicos dos Estados Unidos, embora essa compra possa não acontecer a depender de negociações entre Washington e Pequim. 

Os estados da região demonstram comprometimento com a defesa de seus territórios, mesmo diante do crescente poderio chinês. Contudo, a paz não depende somente de dissuasão militar, é preciso engajamento político e diálogo. 

Há muito em jogo e é preciso sempre ter em mente que uma aventura militar nessa região é uma receita para ruína econômica e desastre humanitário. Desse modo, é preciso muita temperança dos atores locais e globais envolvidos. E, sobretudo, é preciso que a China prove seu compromisso com a estabilidade global e não aja para desestabilizar o delicado equilíbrio do status quo no Estreito de Taiwan. 

Taiwan e Organização Mundial de Saúde

A Organização Mundial de Saúde é uma Organização Internacional formada por 194 estados-membros, parte do sistema das Nações Unidas que objetiva ser um fórum de Liderança e Cooperação em temas de saúde, bem como gerir emergências, estabelecer normas e padrões, prestar assistência técnica, coletar dados e fomentar pesquisas. 

A recente epidemia de Covid-19 deixou claro as dificuldades de coordenação internacional em caso de emergências globais e demonstrou também a importância da pesquisa científica e da coleta e difusão de informações e boas práticas de saúde. 

A gravidade da epidemia e a severidade das ações tomadas em seu combate também colocou a OMS no centro de debates políticos partidários em vários locais do mundo.

Esse debate, contudo, tem um aspecto que não tem sido colocado em discussão pela opinião pública mundial. A insistência da China na adoção da política de “Uma Só China” limita uma participação efetiva, de Taiwan, em um fórum com impacto direto na vida de milhões de pessoas, sobretudo,  levando em conta a capacidade tecnológica taiwanesa. 

Saúde Pública é tema muito importante para que justificativas geopolíticas sejam aplicadas para causar diminuição da capacidade global de resposta aos desafios que afetam a expectativa de vida da população mundial, e também sua qualidade de vida. 

Dentre as contribuições potenciais de Taiwan que podem surtir efeito positivo se adaptados e replicados está o programa 888 de controle de Doenças Crônicas Não Transmissíveis, como diabetes, hipertensão entre outras condições, que pretende atingir 80% desses pacientes, garantir que 80% deles controlem com eficácia suas condições, fazendo com que 80% dos pacientes nessa rede apresentem estabilização ou melhora de seus quadros clínicos. 

Segundo dados da própria OMS 41 milhões de pessoas morrem anualmente por causa dessas Doenças Crônicas Não Transmissíveis, o que também gera um impacto econômico considerável. 

O programa funciona aliando inovações tecnológicas como Inteligência Artificial em Saúde, com ferramentas de tecnologia e protocolos de detecção e aconselhamento. Esse sistema de atenção primária pode ser expandido para outras doenças, ao redor do mundo. 

Outro campo de inovação em saúde tem sido a digitalização do cuidado de idosos, com sensores de mobilidade, robótica e monitoramento em tempo real em casas de repouso e instituições semelhantes, o tema do envelhecimento populacional é cada vez mais relevante para países como Brasil, além das economias mais desenvolvidas do mundo.

Dentre as experiências com potencial de contribuição com o debate global, Taiwan disponibiliza a seus cidadãos ferramentas de gestão digital da saúde tanto aplicativos quanto plataformas que fornecem informações de saúde personalizadas, fortalecem a consciência sanitária e estimulam o autocuidado. O que amplia a autonomia de seus cidadãos no controle da própria saúde, complementando o trabalho dos profissionais de saúde. O potencial de contribuição passa também por biossegurança, vigilância epidemiológica, inovação na produção de insumos e novas tecnologias e inteligência artificial aplicada à saúde. 

Em um mundo marcado por pandemias, envelhecimento populacional e crises sanitárias transnacionais, excluir capacidades tecnológicas e experiências bem-sucedidas de Taiwan da cooperação internacional se configura como um risco para a saúde global

Um precedente perigoso: o caso do bloqueio do voo presidencial de Taiwan

No mundo dezenas de voos por minuto entram em espaços aéreos estrangeiros, ou seja, em países distintos de sua decolagem, seja com destino a essa jurisdição seja apenas sobrevoando, cumprindo sua rota até algum outro ponto no globo terrestre. Os critérios de admissão dessas aeronaves são em sua maioria técnicos, baseados por exemplo na qualificação de pilotos e equipamentos, na aprovação prévia do plano de voo, etc. Um episódio recente, contudo, trouxe à tona o aspecto político, desse ato corriqueiro. 

A República das Seicheles, a República de Maurício e a República de Madagascar impediram a passagem do voo presidencial de Lai Ching-te, presidente de Taiwan que visitaria o Reino de Essuatini (antiga Suazilândia). 

Essa é a primeira vez que a política de isolamento atinge esse patamar de aviltamento à liberdade de locomoção dos líderes eleitos de Taiwan. O evento gera precedentes perigosos para todos os países, sobretudo, os que não têm saída direta para o mar que podem ver sua capacidade de autodeterminação limitada por caprichos políticos e desígnios de grandes potências.

Um presidente taiwanês esteve no Reino de Essuatini, sem bloqueios, em 2023, quando já estava em vigor a política de “Uma Só China” usada como base para a negação da autorização de sobrevoo. E não teve sua permissão de sobrevoo negada, o que mudou?

A imprensa tem veiculado que a negativa foi fruto de pressão econômica sobre a dívida externa e ajuda externa chinesa na região, mas essa explicação pode não encontrar lastro econômico, nenhuma das nações possui uma relação dívida com a China e PIB particularmente alta, menor que 3% do PIB. Dívida não é a chave, mas a explicação passa em parte pelos investimentos produtivos chineses nesses países, Maurício, por exemplo assinou acordo de Livre Comércio com a China, o que os leva a serem bem sensíveis a agradar Pequim. 

Essa negativa de permissão de sobrevoo, então, tem bases complexas e que mostram as dificuldades enormes que Taiwan enfrenta na busca por sua autodeterminação e pela manutenção pacífica de seu status quo. 

Pequim tem instrumentos econômicos enormes que servem de incentivo a adesão a sua posição, mas também podem eventualmente se tornar coercitivos. É notório que o governo chinês não tolera menções a Taiwan ou o incidente da Praça da Paz Celestial. Contudo, a diplomacia chinesa é sutil em suas abordagens e com certeza explora características locais em favor das políticas chinesas. 

A China entendeu que os Estados africanos são muito sensíveis à causa da não dissolução territorial e sempre se colocam com muitas reticências ao apoiar qualquer movimento que consideram separatismo e a China consegue comunicar sua tese que pinta a democracia taiwanesa como uma província separatista. 

Percebemos nessa ação sem precedentes os resultados da sofisticada política chinesa de propaganda e convencimento que se volta contra Taipei bloqueando o país insular de conseguir relações diplomáticas com o mínimo de normalidade. Ao que se soma os benefícios econômicos grandes para líderes desses países de estarem alinhados a Pequim. 

Um mundo onde líderes mundiais são bloqueados de fazerem missões diplomáticas ao terem seus planos de voo negados, por questões ideológicas ou por pressões de terceiros países é um mundo mais perigoso e menos afeito a solução pacífica de controvérsias. 

Tarifas e pressões: Brasil e um mundo convulsionado

O mundo está em rápida reacomodação de forças. O multilateralismo institucionalizado com sua previsibilidade de regras está rapidamente substituído por uma política internacional ainda não bem definida, em suas regras de funcionamento e por definição de baixa previsibilidade. E nesse contexto o Brasil está estrategicamente numa posição dividida entre os dois centros de poder global, nominalmente nossa maior fonte de Investimentos Estrangeiros Diretos, os Estados Unidos e nosso maior parceiro comercial a China.

A tradição diplomática brasileira é se mover com muita habilidade e muita discrição em períodos como esse, buscando maximizar o interesse nacional, um exemplo clássico dessa estratégia é a equidistância pragmática que o Brasil manteve durante os momentos iniciais da Segunda Guerra Mundial. E nesse momento os dois pólos de atração tentam influenciar o comportamento brasileiro, os Estados Unidos usando incentivos coercitivos aplicando tarifas às exportações brasileiras para os EUA e provavelmente uma série de restrições tecnológicas. A China por sua vez aproveita para aumentar sua participação em Investimentos Diretos no Brasil, sobretudo, com suas fabricantes de veículos elétricos e produtos eletrônicos.

Quando analisamos as questões internacionais não podemos ceder à tentação de ignorar que os decisores políticos são humanos, o que implica dizer que as decisões não são construídas com estratégias perfeitas e são afetadas por inúmeros fatores desde a qualidade e idoneidade das informações que embasam as decisões, passando pelas características de personalidade e visões de mundo dos decisores.

Goste-se ou não do presidente Lula é uma característica da atuação política uma facilidade para o diálogo e a capacidade de alternar entre os discursos inflamados e a negociação pragmática. Goste-se ou não do presidente Trump é uma característica desse, também a negociação a alternância entre o discurso inflamado e a busca por um acordo. São duas figuras capazes de inspirar a mesma medida que são polarizadores.

E não podemos ignorar o impacto das divisões internas causam na Política Externa Brasileira, não somente por que elementos da oposição ao governo ativamente buscam por sanções e tarifas a serem aplicadas ao Brasil, mas por que essas divisões também limitam o espaço de manobra do governo ao ter que fazer concessões aos setores mais confrontacionais de sua base de sustentação.

Nesse contexto, tanto a conjuntura de política interna dos dois países, quanto a personalidade dos líderes contribuem para um cenário que coloca em risco as relações estratégicas e na maior parte do tempo harmônicas entre Brasil e EUA. E trazem prejuízos que podem ser extremamente danosos à economia, sobretudo nos setores exportadores Há muito mais em risco do que as justificativas oficiais, como uma suposta preocupação com a qualidade da democracia brasileira que a despeito do que a oposição alardeia é muito mais ponto de pressão extra do que motivador dessa pressão coercitiva, no centro de tudo, está a disputa entre as grandes potências.

Estamos sendo puxados, mais uma vez, para romper a equidistância pragmática. Assim, a Política Externa Brasileira precisará ser nos próximos meses eficaz e serena, para navegar nesse mar bravio. A figura de linguagem de uma encruzilhada é uma imagem recorrente nas análises internacionais, mas isso não a faz menos didática, estamos numa encruzilhada com inúmeros caminhos possíveis. Serão capazes nossos líderes políticos de defender o interesse nacional acima de suas disputas político-eleitorais? Ou os interesses privados de pouquíssimos políticos trarão enormes prejuízos e desemprego para o Brasil? A ideologia vencerá o pragmatismo necessário para lidar com nações grandes, poderosas e aparentemente dispostas a usarem seu poder?

A última flor da Primavera Árabe

O regime cruel do ditador sírio Bashar Al-Assad foi derrubado, no final de 2024, pelo grupo militante  Hayat Tahrir al-Sham (HTS), após longa guerra civil, que teve seus início na onda de protestos da chamada Primavera Árabe. Quando uma série de protestos se espalhou pelo mundo árabe levando às ruas milhares de pessoas fartas dos abusos de diversas ditaduras que se espalhavam pelo chamado mundo árabe.

A primavera como esperança de governos mais democráticos e do rule of law como norma nas relações entre cidadãos e os diversos estados da região, não logrou seus resultados. Ditaduras caíram, mas logo o vácuo causado pela queda dos “homens fortes” resultou em conflitos sectários explorados pelo jogo das potências mundiais e dos líderes regionais. E novas autocracias foram se construindo.

Quando a pressão dos protestos da primavera começou a ameaçar Assad, ele construiu uma intrincada rede de apoio interna e balanceou e usou a seu favor interesses geopolíticos de outros atores, como Irã, Hezbollah e Rússia. Criando condições de sustentar o lado do regime na guerra civil.

Essa aliança de sustentação dotou o regime de meios operacionais e capacidade bélica para se manter no poder e enfrentar inimigos como o ISIS, Al-Qaeda e a oposição síria, isso para resumir os muitos atores numa guerra civil que começou, em 2011. Estimativas colocam os números de mortos neste conflito em mais de 600 mil pessoas.

O status-quo da guerra civil na Síria começou a se alterar por uma série de fatores externos e internos. No campo externo a capacidade logística da Rússia e principalmente sua capacidade coordenação e controle tem sido esgarçada no prolongado conflito na Ucrânia, diminuindo consideravelmente sua capacidade de investir na preservação do regime de Assad.

Outro aliado importante o Irã sofreu uma série de baixas importantes em sua liderança militar para a região e sofreu ataques importantes em Israel, que mostraram fragilidades reais cujo discurso e propaganda do regime persa pretendia manter encoberto. A liderança do Hezbollah foi dizimada por Israel.

Apesar desse cenário, a velocidade da queda do governo de Al-Assad, o avanço não contestado do grupo militante Hayat Tahrir al-Sham (HTS), um dos diversos grupos militantes. Esse grupo nasceu de uma célula da Al-Qaeda que rompeu com o movimento principal, mas ainda é mantido nas listas de terroristas de Estados Unidos e União Europeia.

Até aqui o grupo HTS tem se mostrado favorável a construir um governo de conciliação, mas muitas variáveis ainda se mantêm ocultas para uma avaliação esperançosa para o futuro da governabilidade Síria, ainda mais por que a fraturas continua existindo, ainda há a questão curda e como esse grupo militante foi se manter em locais cosmopolitas como Damasco. E ainda há conflitos e outros grupos com apoio Turco, que geram muitas incertezas para a região.

Uma Síria fragmentada apresenta um dilema de segurança para Israel que intensificou seus ataques aéreos à Síria na tentativa de negar recursos bélicos, como mísseis, armas químicas, para o grupo militante HTS. E aumentou a presença militar nas colinas de Golã.

A perda da Síria como base para sua frota no mediterrraneo e como parte de sua rede logística em ações na Líbia apresenta um problema complicado para a estratégia russa no Oriente Médio e Norte da África.

A queda de Assad é provavelmente a última flor da primavera árabe, regada pelo sangue de centenas de milhares de pessoas e com muitos espinhos, alguns ainda ocultos.

Trump e o nó ucraniano

Os eleitores dos Estados Unidos deram uma vitória incontestável ao candidato republicano Donald Trump e ao movimento político que o cerca, conhecido pela sigla MAGA do slogan Make America Great Again usado pela primeira campanha de Trump. Em sua campanha Trump prometeu pacificar a Ucrânia no dia primeiro de sua gestão, descartando as hipérboles naturais de uma campanha eleitoral como se desenha, até o momento, a política do futuro governo para a Ucrânia.

É preciso ter em mente que a solução para a guerra na Ucrânia, ainda que negociada, não será uma reedição das conferências de Yalta e Potsdam nas quais os nascentes superpoderes decidiram os destinos de muitas nações ao findar da Segunda Guerra Mundial. E, qualquer construção negociada terá que balancear uma miríade de interesses alimentados por inúmeras correntes de opinião em cada um dos atores envolvidos. Em outras palavras, Trump e sua equipe terão que lidar com interesses internos de vários grupos nos EUA, com outros atores, incluindo aí, os aliados europeus e a China, além dos cálculos de Putin. E isso tudo sob forte escrutínio da imprensa, da opinião pública e das casas legislativas dos Estados Unidos.

Além de complexa, a situação ucraniana é dinâmica, ou seja, os interesses vão se adaptando aos movimentos dos atores e outras fontes de tensão extra-regional que influenciam e limitam a capacidade de ação dos envolvidos. A gestão Biden, por exemplo, teve dificuldade de implementar uma política de rápida ajuda militar para Ucrânia, uma vez que isso envolve o envio de equipamentos militares, em uso, ou da reserva das Forças Armadas Americanas, o que gera uma série de embaraços e reações no Congresso e na própria máquina burocrática.

A escassez de material bélico, por sua vez, propiciou a manutenção do lento e custoso, em termos de vidas humanas, avanço da Rússia e deu tempo para que o gigante eurasiático encontrasse maneiras de enfraquecer e subverter o isolamento internacional e as sanções. Construindo, por exemplo, seu acordo com a Coreia do Norte, para importação de armas e o envio de soldados.

Há relatos de múltiplas fontes sobre a concentração de forças russas na Ucrânia mostra que pode haver uma ofensiva russa de inverno, se as condições climáticas forem brandas, que deixa claro que para os russos a percepção é que um momento positivo nos esforços de guerra. No front interno a sociedade russa não dá sinais de inquietação e protestos massivos, mesmo com as elevadas perdas humanas e seu sistema econômico tem conseguido se manter funcionando. No contexto regional, a Europa não mostra sinais de compromisso em aumentar sua capacidade industrial bélica e todos esses fatores juntos apontam para uma Rússia, muito pouco disposta a negociar alguma resolução pacífica para a guerra.

O tema paz na Ucrânia tende a ocupar muito da agenda internacional do início de mandato de Trump e pode ser afetado por sua política comercial que tenciona aumentar tarifas dificultando as relações com aliados europeus e com a China, que muitos em seu movimento veem como o verdadeiro adversário estratégico dos EUA no mundo atual.

Diante desse cenário, não obstante uma eventual participação russa em fóruns, conferências e negociações bilaterais, esses esforços só obterão um acordo de paz, que preserve a independência ucraniana, se as circunstâncias pressionarem Putin a escolher a paz revertendo o cenário descrito acima, e esse é o nó que Trump precisa desatar.