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Paulo Kramer

Sobre Paulo Kramer

Paulo Kramer é cientista político, com doutorado pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), e professor licenciado do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB). Mantém conta no Twitter em homenagem aos pensadores liberais Alexis de Tocqueville e Max Weber. É autor do vol. 65 da coleção Perfis Parlamentares, dedicado ao homem das diretas-já!, Dante de Oliveira (Edições Câmara)

China, Estados Unidos, Japão e o Futuro de Taiwan 

Como os acontecimentos da atualidade internacional impactam a segurança de Taiwan (uma segurança cada vez mais ameaçada pela perspectiva de anexação à República Popular da China-RPC)? Se levarmos em conta os sentimentos da grande maioria dos 23,5 milhões de habitantes da ilha, principalmente suas gerações mais jovens, nascidas e criadas em liberdade, desde o final dos anos 1980, essa anexação só poderá ser realizada mediante forte coação militar e/ou ‘psicológica’…. Também pudera. Nos últimos anos, a sociedade taiwanesa vem assistindo, atenta e apreensiva, à escalada de repressão com que Pequim destrói os vestígios do modelo “Um País, Dois Sistemas”, ainda restantes em Hong Kong. No final do século passado, quando o Reino Unido transferiu o controle de sua próspera colônia à RPC, esta se comprometeu a não alterar as instituições políticas de Hong Kong por um prazo de 50 anos. À época, o Ocidente acalentava o sonho de que, ao longo do tempo, o forte desenvolvimento econômico acabaria ‘democratizando’ o regime comunista. A realidade que se seguiu não poderia ter sido mais decepcionante. Em 2020, Pequim impôs legislação de segurança nacional destinada a reprimir protestos populares, censurar a imprensa e prender ativistas pró-democracia. O mais recente ato dessa escalada foi a condenação a 20 anos de prisão do empresário e editor Jimmy Lai, fundador do jornal oposicionista Apple Daily, em fevereiro. Acusações contra ele: conspirar contra a segurança nacional com apoio de estrangeiros e publicar material subversivo. Enfim, Hong Kong é um espelho do que o futuro reserva para Taiwan em caso de anexação à China continental.

E qual seria o impacto disso na arquitetura de defesa da livre navegabilidade no Indo-Pacífico, por onde trafega quase metade de toda a riqueza produzida no planeta e cujo esteio são as alianças militares dos Estados Unidos com potências da região, tais como as Filipinas, a Austrália, a Nova Zelândia e, sobretudo, o Japão?

Uma primeira — e apressada — leitura de dois importantes documentos recém-publicados pelo governo americano poderia levar a conclusões pessimistas e perigosas para o futuro de Taiwan. A Estratégia de Segurança Nacional (ESN, datada de novembro, mas divulgada em dezembro de 2025) e a Estratégia de Defesa Nacional (EDN, de janeiro deste ano) reafirmam a proteção do território nacional e o entorno hemisfério imediato dos Estados Unidos como prioridade número 1. A EDN mobiliza os meios necessários à consecução das metas da ESN, e cada novo governo tem por obrigação a formulação de ambas, à luz da evolução da tecnologia e da conjuntura internacional.

O secretário Pete Hegseth (neste segundo mandato, o presidente Donald Trump alterou o nome da pasta da Defesa para “Departamento da Guerra”, com a intenção de fortalecer o chamado ethos guerreiro no estabelecimento militar americano, mas a mudança depende ainda de autorização do Congresso para ser oficializada) declarou essa prioridade, em 6 de dezembro último, um dia depois da publicação da ESN, durante evento no Fórum “Reagan” de Defesa Nacional, na Califórnia.

A espetacular ‘extração’ do déspota venezuelano Nicolás Maduro pelos serviços secretos dos Estados Unidos (operação “Absolute Resolve”), no dia 3 de janeiro deste ano, precedida de intensa campanha aeronaval americana contra embarcações alegadamente utilizadas pelo narcotráfico no Caribe e no Pacífico, pareceu comprovar essa opção preferencial pela defesa das Américas, o chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, rebatizada por alguns observadores de “Doutrina Donroe”…. A operação pegou de surpresa não somente o regime bolivariano, mas também o aparentemente firme aliado chinês. Horas antes de sua captura na companhia da primeira-dama Cília Flores, Maduro participara de recepção a uma comitiva de representantes da China, sinal de que os zelosos oficiais da inteligência de Pequim não tinham a menor suspeita do que estava para acontecer. Certos analistas veem aí uma ‘deixa’ tácita de que o regime comunista chinês pode se sentir à vontade para agir irrestritamente em sua esfera de influência asiática, assim como agora faz na sua própria esfera a superpotência americana.

Associa-se a essa percepção o fato de que a guerra dos Estados Unidos e seu aliado israelense contra o Irã, iniciada na madrugada de 28 de fevereiro para 1º de março últimos, está deslocando preciosos foco, energia e recursos militares de Washington para o Oriente Médio, o que tenderia a fragilizar a defesa da Coreia do Sul e do Japão. Do primeiro desses países foram transferidas baterias antimísseis “Thaad” (Terminal-High Altitude Area Defense) para países árabes do Golfo aliados dos americanos; e do segundo, dois navios pertencentes ao Grupo Anfíbio de Prontidão, capitaneado pelo “USS Tripoli”, e a 31ª Unidade Expedicionária dos Marines (fuzileiros navais). O “Tripoli” se deslocou rumo ao Oriente Médio deixando seu porto no Japão com 2.500 fuzileiros navais a bordo e transportando caças furtivos “F-35”, além de veículos anfíbios para desembarque de tropas, o que equivale a dizer que a disuassão de americanos e aliados no Indo-Pacífico passa a depender mais de aviões e de submarinos do que de forças expedicionárias com apoio aéreo oferecido por porta-aviões.

A Coreia do Sul, quinta potência mundial em termos de armamento convencional, é também sede da maior base militar americana fora do território dos Estados Unidos, com uma tropa total de 28.500. Apesar de o presidente esquerdista Lee Jae Myung ter tornado menos frequente a participação dos militares sul-coreanos nos exercícios conjuntos com seus colegas americanos, no suposto intuito de acalmar as desconfianças do regime comunista da Coreia do Norte, e, ao mesmo tempo, ter-se comprometido a elevar as despesas militares dos atuais 2,5% do PIB para 3,5% até 2035, o governo de Seul, curiosamente, protestou contra a saída dos “Thaad”….

Defesa hemisférica ou deterrência no Indo-Pacífico (falso dilema) — Uma reflexão cuidadosa sobre esses fatos deve nos acautelar contra raciocínios simplistas e conclusões superficiais.

Para começo de conversa, não deveria constituir motivo de espanto para ninguém que os dois documentos aqui referidos convergem na avaliação de que os desafios à hegemonia americana decorrentes das ambições geopolíticas chinesas só poderão ser adequadamente enfrentados se os Estados Unidos forem capazes de, ‘no mínimo’, assegurar a defesa do próprio território e do entorno continental. Desde que foi formulada, em 1823, a Doutrina Monroe rechaça intervenções de potências extracontinentais no Hemisfério Ocidental. E, hoje, o preenchimento do seu “Corolário Trump” requer pleno acesso — e também plena ‘manobrabilidade’ — dos Estados Unidos a pontos estrategicamente vitais desse hemisfério, como o Canal do Panamá e a Groenlândia, diante de ameaças reais ou potenciais da China ou da Rússia.

É digno de registro que, desde que Trump voltou à Casa Branca, a imigração ilegal, séria fonte de vulnerabilidade do território doméstico da América, praticamente cessou. No Canal do Panamá, via indispensável à rápida transferência de forças navais do Atlântico para o Pacífico na eventualidade de confronto militar com a China, teve sucesso a pressão de Trump sobre o governo de seu colega panamenho José Raúl Mulino: a empresa C. K. Hutchinson, com sede em Hong Kong, deixou de operar os portos de Cristóbal e Balboa, nas duas extremidades do canal; o Panamá abandonou a “nova rota da seda” (multibilionária iniciativa chinesa de conectividade infraestrutural e de telecomunicações oficialmente denominada “Um Cinturão, Uma Rota”); e o governo Mulino determinou a substituição de equipamentos e instalações da Huawei por tecnologia americana, no marco de um acordo de cibersegurança com o Comando Sul das forças armadas dos Estados Unidos.

Quanto ao México, parceiro dos Estados Unidos e do Canadá no acordo comercial USCAM, sua corrente de intercâmbio bilateral com a América chegou a US$ 935 bilhões em 2024. Em setembro do ano passado, o secretário de Estado Marco Rubio visitou a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, resultando desse encontro a criação de grupo de trabalho para a coordenação de políticas de segurança, combate e prevenção à criminalidade. Comitê especial da Câmara de Representantes dos Estados Unidos verificou que empresas da China colaboram com os cartéis mexicanos do crime organizado no fornecimento de insumos e equipamentos para a fabricação de fentanil, traficado para a América. Para ter sucesso, o programa de desenvolvimento econômico de Sheinbaum depende da cooperação americana na erradicação desses cartéis, requisito indispensável à atração de novos e maiores investimentos estrangeiros.

Nada disso, todavia, significa que os Estados Unidos tenham resolvido abandonar o Indo-Pacífico aos desígnios chineses. Na verdade, tanto a ESN quanto a EDN requerem que a região se mantenha aberta de modo a assegurar a livre-navegação e a integridade de importantes cadeias de suprimentos, dissuadindo ambições chinesas em contrário a partir de uma posição de força (“Peace through Strength”). O que o governo Trump2 se recusa a fazer é tentar alcançar esse objetivo com base puramente na confrontação ou em ameaças de estrangulamento dos legítimos interesses econômicos da China, muito menos na humilhação do seu orgulho nacional, o que, aliás, difere claramente da EDN do governo Trump1, na qual a RPC era caracterizada como existencialmente antagônica aos Estados Unidos. Nas atuais versões de ambos os documentos estratégicos, Washington agora se define em busca de uma paz estável, de relações comerciais justas e mutuamente respeitosas, enfim, de estabilidade estratégica com Pequim.

Em linha com o mesmo requisito de compartilhamento de ônus e responsabilidades com seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o governo Trump espera que seus aliados no Indo-Pacífico se disponham a cumprir sua cota de sacrifícios, com a elevação de suas despesas militares em proporção aos respectivos PIBs.

É sob essa perspectiva que o governo Trump encara a questão do deslocamento das atenções e de parte importante dos armamentos americanos baseados na Ásia-Pacífico para a atual guerra contra o Irã. O governo americano considera, por exemplo, que o atual estágio de desenvolvimento econômico da Coreia do Sul já permite que esta assuma responsabilidades maiores com a própria defesa ante o regime comunista de Pyongyang.



Compromisso bilionário — Até agora, a mais cabal comprovação do compromisso dos Estados Unidos com a segurança e a defesa de Taiwan é um megapacote, avaliado em US$ 11,1 bilhões, de transferência de sofisticados armamentos americanos, incluindo: 82 “Himars” (High-Mobility Artillery Rocket Systems); 420 “Atacms” (Army Tactical Missile Systems, movido a combustível sólido, com alcance de 186,4 milhas, ou 300 quilômetros, 4 metros de altura e 610 milímetros de diâmetro); US$ 1,1 bilhão em drones “Altius”; mísseis “Javelin” (‘lote’ com valor aproximado de US$ 350 milhões); 1.545 mísseis “TOW2B” (US$ 353 milhões); rede de softwares para missões táticas (US$ 1,01 bilhão); partes sobressalentes de helicópteros “AH-1W” (US$ 96 milhões) — além de plataformas para foguetes de alcance reduzido (finalidade: adestramento); metralhadoras “5.56”; caminhões; veículos de reabastecimento; sistemas de rádio de canal único terrestre e aerotransportado.

No momento, o pacote, que já recebeu o sinal verde preliminar da Casa Branca, percorre os canais burocráticos do Executivo, mas é praticamente certo que conte com a aprovação do Capitólio, em virtude do sólido e tradicional consenso bipartidário pró-Taiwan. Recente visita de uma delegação de senadores americanos ao Japão, a Taiwan e à Coreia do Sul insistiu na urgência de que o Yuan Legislativo (parlamento taiwanês) aprove uma suplementação do orçamento militar a fim de acomodar essa compra gigantesca, medida que vem sendo obstruída pela Oposição, sob a liderança do Kuomintang (KMT), partido favorável a uma aproximação com Pequim, em contraste com o governista Partido Democrático-Popular (DPP). (Mais sobre isso abaixo.)

A China faz o que pode para inviabilizar a concretização do negócio. Em fevereiro último, durante conversa telefônica com Donald Trump, o presidente da RPC e secretário-geral geral do Partido Comunista, Xi Jinping, recomendou-lhe “cautela” com essa megaoperação, e isso foi o bastante para preocupar seriamente setores do governo e da opinião pública de Taipei com a possibilidade de a China vir a ‘cobrir o lance’, com uma oferta ainda mais vantajosa ao mundo dos negócios americano, durante o próximo encontro dos dois chefes de Estado em Pequim, inicialmente marcado para o começo de abril, mas remanejado, a pedido de Trump, para os dias 14 e 15 de maio. (Mais sobre isso também abaixo.)

Com habitual imodéstia, o presidente americano afirmou, em agosto último, que a presença dele — Trump — na Casa Branca constitui o principal penhor da segurança de Taiwan. Na oportunidade, ele acrescentou ter recebido de Xi a promessa de que a China não invadiria a ilha, pelo menos durante o mandato do Republicano, que expira em janeiro de 2029. No mesmo fôlego, Xi teria lembrado serem os chineses “muito pacientes”….

Prioridade de Xi — A anexação de Taiwan à soberania da RPC é a ‘meta-síntese’ do “Sonho Chinês de Rejuvenescimento Nacional”, lançado por Xi Jinping em 2013, logo que assumiu o comando da segunda superpotência mundial. E até há pouco tempo a inteligência militar dos Estados Unidos acreditava que essa anexação seria tentada até 2027, ano do centenário do Exército de Libertação Popular (ELP). Essa convicção guiou a edição de dezembro último do relatório anual que o Pentágono apresenta ao Congresso informando sobre os desenvolvimentos militares chineses (armamentos nucleares e convencionais; operações de ‘zona cinzenta’, na tênue fronteira entre a paz e a guerra; guarda costeira/milícias marítimas; etc). O documento dedica especial atenção ao empenho chinês em construir capacidades que lhe permitam prevalecer sobre Taiwan na eventualidade de uma anexação manu militari, ainda que o governo de Taipei conte com apoio direto dos Estados Unidos. Nessa hipótese, a contenção da intervenção americana pelo ELP não excluiria o sequer o emprego parcial de armas nucleares e se voltaria, também, a dissuadir a abertura de frentes de combate adicionais com o envolvimento de aliados e parceiros dos Estados Unidos, como Japão, Filipinas e Austrália, entre outros.

O relatório do Pentágono delimitou quatro cenários. O primeiro deles — hipótese de coerção sem guerra — combina operações psicológicas, escalada militar e pressões diplomáticas, econômicas e informacionais (ataques cibernéticos, inclusive), objetivando degradar a infraestrutura de Taiwan e, com ela, a confiança do seu povo na capacidade de se defender.

No segundo cenário, a hipótese é de uma campanha de ataques de precisão, visando decapitar as lideranças taiwanesas e, assim, dificultar a coordenação de contra-ataques e a avaliação/o controle de danos em tempo limitado.

Terceiro cenário: campanha de bloqueio para obrigar Taiwan a se render depois de prolongada interdição do tráfego marítimo e aéreo, com apoio de ataques balísticos, ocupação de ilhas adjacentes e sabotagem cibernética. Objetivo: isolar e pressionar Taiwan até forçá-la a capitular.

O quarto e último cenário é considerado o mais difícil e arriscado: uma invasão anfíbia em larga escala, na qual os militares chineses procurariam obter superioridade naval, rompendo defesas costeiras e estabelecendo cabeças-de-ponte até forçar a unificação.

Ainda de acordo com o documento do Pentágono, a China procura compensar a limitada experiência de combate do ELP com grandes exercícios sofisticados. Um exemplo recente é o das manobras “Justice Mission/2025”, de 29 e 30 de dezembro. (‘Pró-memória’: o último engajamento real das forças armadas chinesas data de 1979, quando o país invadiu o Vietnã, que contava com apoio da União Soviética, e foi derrotado.)

Todavia, documento ainda mais recente, divulgado em março último — o relatório anual de avaliação das ameaças à segurança dos Estados Unidos, assinado pela diretora nacional de Inteligência, Tulsi Gabbard —, estima que os chineses preferirão vencer sem luta (na melhor tradição do estratego Sun Tzu, século VI a. C…..), usando meios ‘pacíficos’ para controlar Taiwan e sem compromisso com um calendário rígido para a anexação. Isso porque a China, temerosa da imprevisível ‘letalidade’ de uma resposta militar americana, considera um engajamento militar como cartada por demais arriscada.

Essa estimativa do Gabinete Nacional de Inteligência reforça declarações de Trump de que seu governo almeja um relacionamento mutuamente respeitoso e produtivo com o regime de Pequim. Vale ainda lembrar que nem a ESN nem a EDN citam Taiwan nominalmente, e ambas advogam “estabilidade” para as relações sino-americanas.

O relatório Gabbard, ainda assim, assinala áreas em que a China ameaça os interesses da América no Indo-Pacífico, inclusive com potencial emprego de artefatos nucleares. E também reconhece que os chineses já deslocaram os russos da posição de principais rivais dos Estados Unidos na corrida armamentista aeroespacial, e que Pequim constitui atualmente a mais grave ameaça cibernética à segurança dos Estados Unidos.

Xi Jinping parece sinalizar cada vez mais que o caminho ‘pacífico’ para a anexação passa pelo KMT. Neste mês de abril, ele recebeu com toda pompa a visita de Cheng Li-wun, presidente do partido, evento astutamente agendado para um mês antes do já mencionado encontro entre os líderes chinês e americano em Pequim (meados de maio)…. Para realçar o prestígio da visitante oposicionista taiwanesa, o governo chinês anunciou uma lista de 10 medidas, parte das quais inspirada por Cheng, a exemplo de: retomada de viagens individuais entre várias cidades chinesas e Taiwan; programa de intercâmbio estudantil; permissão para a circulação na China de conteúdos culturais produzidos por Taiwan, desde que estes respeitem a ‘linha justa’ emanada do PCCh; e acesso ao mercado chinês de produtos agrícolas, pescado e outros alimentos originários de Taiwan, contanto que sejam produzidos e comercializados por grupos contrários à independência da ilha.

Expurgos militares — Um sintoma das dificuldades enfrentadas pela China para dar uma definitiva ‘solução militar’ ao problema de Taiwan é a mais recente onda de expurgos nos mais altos escalões do ELP. Em janeiro deste ano a poderosa Comissão Militar Central (CMC) do PCCh, presidida pelo próprio Xi Jinping, afastou os generais Zhang Youxia (75 anos, amigo de infância de Xi e, como ele, filho de um líder revolucionário e herói da Guerra Civil) e Liu Zhenli, sob acusações de facciosismo partidário, corrupção e — algo considerado inverossímil pela imprensa internacional e suas fontes de inteligência — ‘vazamento’ de segredos nucleares para o governo dos Estados Unidos. Paralelamente, nove delegados militares ao Congresso Nacional do Povo (parlamento ‘carimbador’ das decisões do Partido) foram destituídos, entre eles o general Li Qiaoming, ex-comandante das forças terrestres, e o almirante Shen Long, ex-comandante da marinha. Antes composta por sete membros, a CMC conta agora somente com dois membros: o próprio Xi e um general a ele enfeudado, Zhang Shengmin, militar ‘de gabinete’ que já havia sido promovido a vice-presidente do colegiado em outubro último, na sequência do expurgo de outro ex-companheiro de farda. Provavelmente, a principal causa dos expurgos a que Xi vem submetendo a alta hierarquia do ELP desde 2013 é a mórbida desconfiança contra qualquer comandante capaz de fazer-lhe sombra ao poder absoluto. Mao Tsé-tung já ensinava que o poder está no cano do fuzil…. De qualquer modo, é preciso reconhecer que episódios de incompetência e corrupção também devem ter pesado nessas drásticas decisões. O rápido aumento das despesas militares da China fez-se acompanhar de escândalos. De 2015 a 2024, o Instituto de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Sipri) calcula que esses gastos cresceram 60% e também que eles são 30% maiores que os números oficialmente divulgados. (E aqui cabe uma observação: a rigor, em regime totalitário, cujo partido único não é limitado por requisitos de transparência, nem pelo ‘contrapeso’ de instituições representativas ao Poder Executivo, a corrupção, a patronagem e o clientelismo atravessam de cima a baixo todas as estruturas de poder. O comunismo é o avatar máximo do patrimonialismo.)

No maior desses escândalos, divulgado pelo Pentágono, muitos dos 360 silos de mísseis nucleares baseados em regiões remotas do Norte da China apresentavam defeitos em suas instalações, o que motivou a prisão de vários comandantes do ELP. Um dos atingidos era o general Li Shangfu, ex-ministro da Defesa, que caiu em desgraça em 2023. Li, anteriormente, havia chefiado o setor de equipamentos da CMC. Tudo leva a crer que o destino de Zhang Youxia e Liu Zhenli deverá ser o mesmo desse e de outros companheiros já expurgados: depois do sumário afastamento da CMC e do Politburo do PCCh, a excomunhão do Partido e a expulsão do ELP, seguidas de completo ‘desaparecimento’.

Papel do Japão — Em novembro do ano passado, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, enfureceu Pequim ao declarar que um ataque militar da China a Taiwan fatalmente arrastaria o Japão ao conflito. Os japoneses governaram Taiwan por meio século (1895/1945). Embora o Japão mantenha, desde 1954, uma doutrina exclusivamente autodefensiva, legislação sancionada em 2015 prevê que o governo poderá recorrer à força diante de situações que ameacem a sobrevivência do país. Assim pensava o falecido primeiro-ministro Shinzo Abe, mentor político de Takaichi no Partido Liberal-Democrata. Na eventualidade de uma violenta mudança do status quo por ação militar chinesa, o Japão estaria confrontado com situação desse tipo, e lhe caberia proteger as forças americanas estacionadas em seu território, em conformidade com o tratado nipo-americano de “Cooperação e Segurança Mútuas”, em vigor desde janeiro de 1960, quando substituiu o “Tratado de Segurança” bilateral, celebrado em setembro de 1951 na cidade de San Francisco.

Ainda durante o governo do presidente Democrata Joe Biden, o governo japonês assinou contrato no valor de US$ 2,4 bilhões para a compra de 400 mísseis de cruzeiro “Tomahawk”. A força aérea do Japão conta com uma esquadrilha de caças “F-35” que deverá chegar a 150 unidades transportando mísseis antinavio de fabricação norueguesa. De forma autônoma, os japoneses desenvolvem o seu modelo de míssil antinavio, o “Type-12”, com alcance superior a mil quilômetros.



Um colar de ilhas japonesas que se espalham pelo Mar da China Oriental se mostra particularmente vulnerável a um hipotético ataque chinês a Taiwan. Por isso, as ‘contas’ desse colar vêm recebendo numerosos e sofisticados equipamentos militares, a exemplo de Yonaguni, que baseia tropas japonesas desde 2016, quatro anos depois de mísseis do ELP caírem em águas próximas durante um dos frequentes exercícios intimidatórios da RPC contra Taiwan.

Os rochedos de Senkaku, que os chineses chamam de Diaoyu, são administrados pelo Japão, mas reclamados tanto pela China quanto por Taiwan. Há quase 15 anos o atol é ininterruptamente ameaçada pela guarda costeira e pelas ‘milícias pesqueiras’ arregimentadas pelo ELP.

Kyushu, a maior ilha a Sudoeste do arquipélago japonês, é, desde 2018, sede de uma brigada anfíbia de prontidão, unidade que tem por missão retomar qualquer ilha que venha a ser invadida. Em 2022, o Japão transferiu 17 helicópteros “Osprey” para apoiar essa brigada. Nas proximidades, foi instalada uma bateria de mísseis de contra-ataque capazes de alvos a 620 milhas de distância.

Em outras ilhas da região, como Okinoerabu, Kume e Okinawa (esta sediando uma grande base conjuntamente operada por americanos e japoneses), o governo do Japão instalou bateria de mísseis “Patriot”, foguetes terra-ar e antinavio, além de estações de radar.

Em suma, na eventualidade de um ataque ao Norte e ao Leste de Taiwan, a China provavelmente teria que enfrentar não apenas a resistência armada taiwanesa e americana, mas também forças japonesas, o que dificultaria sobremaneira os planos do ELP no sentido de bloquear a ilha que Pequim considera sua.

*”Cadeias de ilhas” — O Japão ocupa lugar de destaque na arquitetura concebida pelos estrategos dos Estados Unidos durante a Guerra da Coreia (início da década de 1950) a fim de conter a expansão da União Soviética e da recém-proclamada República Popular da China no Pacífico. Essa estratégia compreende três “cadeias de ilhas”. A primeira delas se estende desde o Sul do Japão e passa por Taiwan até Bornéu (terceira maior ilha do mundo, compartilhada por três países do Sudeste Asiático: Malásia, Brunei e Indonésia, cabendo a esta última o controle de 75% daquele território).

A segunda cadeia de ilhas começa no arquipélago subtropical japonês de Ogasawara, cerca de mil quilômetros ao Sul de Tóquio, e ‘desce’ até a Indonésia, passando pelo território americano de Guam, pelas Ilhas Marianas Setentrionais (estado-associado aos Estados Unidos) e por Palau, no arquipélago da Micronésia.

A terceira e última cadeia de ilhas compreende o Alaska, o Havaí, o território americano da Samoa e a Nova Zelândia.

A primeira cadeia é, pois, a linha imediata de contenção do expansionismo chinês. Seu rompimento, por exemplo com a queda de Taiwan, colocaria em xeque a liberdade de navegação na região, ferindo dogma central da estratégia dos Estados Unidos. Por isso, acredito que, retórica autopromocional de Trump à parte, é nessa posição geográfica-chave que reside a melhor ‘apólice de seguro’ da integridade territorial de Taiwan contra qualquer agressão chinesa.

China X Taiwan: a disputa pelas boas graças de Trump — No final de outubro passado, em Busan, Coreia do Sul, Trump e Xi reencontraram-se pessoalmente pela primeira vez em seis anos. A conversa durou pouco mais de 90 minutos, e durante ela ambos concordaram numa trégua na guerra comercial iniciada com o tarifaço americano de abril (“Dia da Libertação”, na sempre colorida imagérie trumpista). O líder chinês topou fazer concessões como a retomada das compras de soja e de jatos comerciais dos Estados Unidos; um alívio às exportações de terras raras ao Ocidente (matéria-prima essencial à fabricação de aviões militares, veículos elétricos, telefones celulares, mísseis e uma infinidade de outros produtos tecnológicos); e a repressão ao tráfico de fentanil.

De sua parte, Trump se comprometeu a relaxar barreiras impostas pela administração Biden — e confirmadas no atual governo Republicano — ao acesso dos chineses a chips (semicondutores) de última geração, indispensáveis para o desenvolvimento dos maiores sistemas de Inteligência Artificial.

No encontro de Busan, nenhum dos dois tocou no tema Taiwan, mas decerto ele figurará com destaque na agenda da visita de Trump à China em maio (dias 14 e 15, como já foi dito acima). O regime chinês, com sua proverbial e paciente persistência, acredita, pelas razões que analisei neste artigo, num esmorecimento da disposição de Washington em defender Taiwan. Xi vai testar essa convicção propondo que o documento conjunto ‘tirado’ ao final da reunião introduza sutis, porém significativas alterações na linguagem que os Estados Unidos empregam até hoje. Exemplos: em vez de “não apoiar” a independência de Taiwan — modo como Biden expressou a fidelidade americana ao princípio deliberadamente ambíguo de “uma só China”, o qual, desde a década de 1970, define o equilíbrio da triangulação entre Washington, Pequim e Taipé —, Xi espera que Trump concorde com uma linguagem que se oponha inequivocamente a qualquer possibilidade de emancipação taiwanesa. O líder chinês gostaria, também, que o comunicado substituísse as reiteradas profissões de fé americanas em “uma solução pacífica para a questão de Taiwan” por um apoio explícito à visão de “unificação pacífica”.

Em Taiwan, empresas e governo dão-se as mãos para aplacar o humor mercurial do líder do mundo livre, lembrando que Trump, desde sua primeira campanha presidencial, em 2016, já prometia punir a indústria taiwanesa de semicondutores por “roubar” o mercado dos competidores americanos. Em abril do ano passado, um mês depois de o magnata C. C. Wei, da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, ter visitado a Casa Branca e prometido investimentos da ordem de US$ 100 bilhões no Arizona, o governo americano anunciou tarifas de 32% sobre os produtos importados de Taiwan. De modo a tentar apagar esse ‘incêndio’, Taipé, mais recentemente, lançou a ideia de um “Golden Plan” de investimentos nos Estados Unidos, avaliado em meio trilhão de dólares.

O povo de Taiwan e seus representantes torcem para que tanto a barreira formada pela primeira cadeia de ilhas quanto a notória vaidade pessoal de Trump concorram para frustrar a ambição anexacionista da China. Afinal, custa crer que Donald Trump se conformaria em passar para a História como o presidente americano que ‘perdeu’ Taiwan para o redivivo e vermelho “Império do Meio”.

Congresso dos Estados Unidos: o que esperar das MIDTERMS/2026

Acostumamo-nos a pensar que os eleitores escolhem os seus candidatos. Nos Estados Unidos, com a chamada redistritalização, os candidatos procuram inverter essa lógica, a fim de ‘escolher’ os seus eleitores….

O gerrymandering redesenha os limites dos distritos eleitorais de modo a favorecer um partido ou candidato sobre os outros nos pleitos bienais para a Câmara dos Representantes (total de 435 cadeiras, cada uma correspondendo a um distrito; hoje, o Partido Republicano detém uma precária maioria de 218 cadeiras, contra 213 ocupadas por deputados Democratas, e quatro dessas cadeiras estão, no momento vagas).

De acordo com a 4ª seção da Constituição estadunidense, recai sobre os estados e seus respectivos legislativos a responsabilidade primordial na determinação dos “tempos, lugares e modos” das eleições para a Câmara dos Representantes, mas o Congresso também pode, “a qualquer tempo”, alterar essas regras mediante Lei. Isso, porém, NÃO se aplica às eleições para o Senado, cujos candidatos disputam a maioria dos votos de todo o estado.

O censo demográfico decenal dita o número de cadeiras alocadas a cada estado. Alguns deles podem ganhar cadeiras, enquanto outros podem perdê-las, conforme suas populações aumentem ou diminuam.

Em 1964, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que o tamanho da população de cada distrito deve ser, tanto quanto possível, igual ao de todos os demais. Estados de população rarefeita — exemplo: Wyoming — enviam à Câmara dos Representantes somente um deputado cada e NÃO são obrigados à redistritalização periódica.

E quais são os métodos utilizados pelos estados para retraçar seus mapas eleitorais? Na maioria dos casos (33 estados), o legislativo estadual se incumbe do redesenho, e esse traçado pode ou não estar sujeito a veto do executivo estadual respectivo.

Em 9 estados, a tarefa cabe a uma comissão que pode ser ou não composta por políticos detentores de mandato eletivo.

Em apenas 2 estados, a responsabilidade pela redistritalizaçãoé compartilhada entre os legislativos e as comissões.

Os restantes estados possuem somente um distrito.

Polarização — A intensa polarização político-partidária tem tornado mais frequentes os gerrymanders fora do prazo ‘normal’ de uma década. Tendo em vista as eleições intercalares (midterms) de 3 de novembro próximo, cinco estados — Califórnia, Carolina do Norte, Missouri, Ohio e Texas — já produziram novos mapas, diferentes daqueles vigentes na eleição geral de 2024. No Utah, a disputa entre Democratas e Republicanos levou à judicialização do gerrymander Litígios judiciais também interferiram no redesenho dos mapas eleitorais do Alabama, da Geórgia e da Louisiana. Com a redistritalização, o governo federal espera ganhar mais cinco cadeiras para o Partido Republicano do Texas, o que provocou uma reação em sentido contrário dos Democratas californianos, liderados pelo governador Gavin Newsom, que sonha com a Casa Branca em 2028.

Já na Flórida, em Indiana, em Maryland e na Virgínia, os legisladores estaduais se abstiveram de modificar os mapas para o próximo pleito.

Normalmente, nas intercalares, o partido instalado na Casa Branca perde cadeiras no Congresso para o seu rival. No presente ciclo, o presidente Donald Trump e seus Republicanos temem uma vitória Democrata que lhes tire a precária maioria, especialmente na Câmara dos Representantes. Uma maioria Democrata em ambas as Casas, o que é menos provável, certamente turbinaria processos de impeachment do presidente.

Neste segundo mandato de Trump, sua aprovação, segundo pesquisas do instituto Gallup, está em 36%. Os entrevistados estão preocupados com o baixo ritmo de criação de novos empregos, com os altos preços em geral, com a perspectiva de eliminação dos subsídios governamentais ao Affordable Care Act — o que elevaria os custos do seguro-saúde — e com a escalada de envolvimento militar externo do colosso norte-americano (Irã, Venezuela). E, apesar de apenas 14% (60) do total dos distritos serem considerados competitivos neste ciclo, os Democratas estão envidando esforços para reconquistar a maioria. Vinte e cinco Republicanos, contra 21 Democratas, já declararam que não concorrerão à reeleição, e pelo menos 39 distritos estão na mira destes a exemplo do 17º distrito do estado de Nova York, hoje representado pelo deputado Republicano moderado Mike Lawler. Os Republicanos, por sua vez, estão de olho em 13 distritos ora representados por Democratas, onde Trump venceu em 2024, a exemplo do 2° distrito do Maine, hoje com o Democrata também moderado Jared Golden, que já declarou que vai se aposentar.

O novo gerrymander na Carolina do Norte pode beneficiar o GOP, enquanto a judicialização do mapa eleitoral de Utah abre novas oportunidades para os Democratas, cuja militância sem dúvida ganhou novo alento com as vitórias, no ano passado, de Abigail Spanberger para o governo da Virgínia, de Mike Sherrill para o governo de Nova Jersey e do socialista Zohran Mamdani, primeiro prefeito muçulmano da cidade de Nova York.

Senado — O mandato de senador é de seis anos, e a cada dois anos 1/3 das cadeiras da Casa é submetido a renovação. Em 2026, NÃO haverá eleições para o Senado em 14 estados: Arizona, Califórnia, Connecticut, Dakota do Norte, Indiana, Maryland, Missouri, Nevada, Nova York, Pensilvânia, Utah, Vermont, Washington e Wisconsin.

Atualmente, são 53 senadores Republicanos, 45 Democratas e 2 independentes que votam com estes últimos. Ali, os próprios Democratas reconhecem que a probabilidade de uma virada é menor, embora esperem conquistar algumas (poucas) novas cadeiras: mais precisamente, duas. Num cenário de ‘empate’ (50 X 50), este seria desatado em favor do GOP pelo vice-presidente J. D. Vance.

De acordo com o portal www.racetothewh.com, que se baseia em um conjunto de pesquisas, o qual eu consultei no dia 13 de janeiro, os Republicanos têm 63% de chance para manter sua maioria no Senado em novembro próximo, enquanto a chance dos Democratas para reconquistá-la é de 36,7%.

Na Geórgia, as sondagens dão um empate técnico entre o incumbente Jon Ossof (Democrata) e o deputado e desafiante Republicano Mike Collins.

Enquanto isso, em Minnesota, onde o governador Tim Walz (companheiro de Kamala Harris na chapa derrotada por Trump e Vance em 2024), desistiu de buscar seu terceiro mandato sob a devastadora pressão de um megaescândalo de corrupção no sistema estadual de assistência social, sua vice, a também Democrata Peggy Flanagan, parece posicionada a conquistar a vaga senatorial em disputa.

Outras prováveis vitórias Democratas para o Senado são as seguintes: no Michigan, Mallory McMorrow, atualmente senadora estadual (com exceção de Nebraska, nos demais 49 estados o poder legislativo é bicameral); em New Hampshire, Chris Pappas, deputado federal; e na Carolina do Norte, o ex-governador Roy Cooper, cujas chances aumentaram significativamente depois que o senador Thom Tillis, Republicano, porém desafeto de Trump, desistiu de se candidatar à reeleição

Já os Republicanos torcem para que as urnas de novembro confirmem o favoritismo nas pesquisas destes candidatos a senador: a atual deputada federal Ashley Hinson em Iowa; a senadora e candidata à reeleição Ashley Moody na Flórida; o procurador-geral do estado Ken Paxton no Texas. Além de Moody, também buscam a reeleição, com boas chances de conquistá-la, os senadores Dan Sullivan (Alaska); Pete Ricketts (Nebraska); e Jon Husted (Ohio). Uma das escassas ‘viradas’ pró-Democratas previstas para novembro é a derrota, no Maine, da senadora Republicana Susan Collins, em busca de seu sexto mandato, contra a governadora Janet Mills.

Se os leitores me pedissem para resumir o sentido geral dos prognósticos acima, eu diria que os Democratas provavelmente recobrarão o controle da Câmara dos Representantes, ainda que sem uma ‘lavada’ contra o partido adversário, ao passo que os Republicanos manterão o controle do Senado, mas com maioria mais precária que a atual.

Segue a Guerra dos Gerrymanders

Como já expliquei neste mesmo espaço, o gerrymander consiste no caprichoso desenho de distritos eleitorais dos Estados Unidos (435 distritos, cada um correspondendo a uma cadeira na Câmara dos Representantes). De modo a facilitar a vitória de um dos partidos e a derrota do outro. Lembra o analista político Matthew Continetti que o termo foi cunhado em 1812, mas a prática é tão antiga quanto a Constituição…. Até o início deste século, o costume era os legislativos estaduais retraçarem os limites dos distritos no início de cada década à luz do resultado do censo demográfico. Mais recentemente, tornou-se frequente o redesenho distrital um ano antes das eleições de meio de mandato presidencial, as chamadas midterms, quando o partido do presidente tende a perder cadeiras para a oposição. Temendo ser ‘impichado’ por uma possível maioria Democrata a partir de 2027, Donald Trump urgiu que seus correligionários Republicanos tomassem providências para possibilitar a ampliação da estreita margem de vantagem do GOP nas duas Casas do Congresso (219 contra 214 cadeiras na Câmara, duas delas atualmente estão vagas; e 53 contra 47 no Senado, onde dois independentes votam com os Democratas).

Assim, em julho último, Trump – agora com pouco mais de 42% de aprovação na média das pesquisas –, obteve o governador do Texas, Gregg Abbott, a sanção de um novo mapa eleitoral, na expectativa de que esse redistritamento renda aos Republicanos mais cinco cadeiras na Câmara. Ocorre que os Democratas aceitaram o desafio e fizeram a mesma coisa em estados onde têm maioria. Além disso, estão recorrendo ao ‘tapetão’ Judiciário para impugnar gerrymanders adversos. Juízes federais já consideraram inconstitucional o novo mapa texano, que, em breve, dverá ser analisado pela Suprema Corte. Na Califórnia, o governador Gavin Newsom, pré-candidato Democrata à Casa Branca em 2028, liderou campanha para anular a possível vantagem Republicana do Texas no pleito do ano que vem, n o que foi seguido por outro presidenciável do seu partido, o governador de Maryland, Wes Moore. Os Democratas da Virgínia, agora energizados pela vitória de Abigail Spanberger, a governadora estadual recém-eleita, querem seguir o mesmo caminho. E em Utah, um juiz determinou a criação de um distrito tendencialmente pró-Democrata em Salt Lake City.

Ambos os partidos torcem por resultados opostos no julgamento no julgamento do caso Luisiana X Callais, marcado para 4 de dezembro próximo na Suprema Corte. Os Democratas invocam a Seção 2 da Lei do Direito de Voto (Voting Rights Act), de 1965, o qual autoriza a criação de distritos racialmente mistos, enquanto os Republicanos alegam que isso violaria a 14ª. emenda constitucional. Se este segundo ponto de vista for vitorioso, meia dúzia de distritos do estado da Luisiana terão que ser redesenhados.

Nem tudo, porém, confiança e otimismo em outros arraiais Republicanos. No estado ‘vermelho’ de Indiana, o governador e a maioria da legenda no legislativo estadual abriram mão de um novo gerrymander, temerosos de uma retaliação ‘azul’. No Kansas, os Republicanos não apoiaram uma “sessão especial” destinada ao redistritamento. E tanto na Carolina do Norte quanto no Missouri, os parcos ganhos que poderiam ser trazidos pelo redesenho dos mapas votados pelos legisladores do GOP enfrentam contestação judicial.

Ante a ameaça de perder o controle do Congresso, o presidente prometeu punir seus correligionários vacilantes apoiando adversários trumpistas-raiz nas próximas primárias. A ânsia de Trump para que o Congresso aprove logo medidas capazes de impulsionar a popularidade do governo, como a distribuição a cada cidadão de classe média ou baixa de “dividendos” oriundos de parte do saldo obtidos pelo tarifaço comercial, motiva a atual pressão da Casa Branca pela eliminação do venerando instituto senatorial do filibuster. Trata-se de mecanismo regimental de obstrução, que só permite que o processo legislativo avance se este contar com voto de 60% dos senadores. Os Republicanos da Casa não compartilham o entusiasmo presidencial com a inovação, por receio de que a quebra dessa regra tradicional redunde em futuro tiro pela culatra, quando a legenda passar de maioria para a minoria. Afinal, pau que dá em Chico também dá em Francisco, e filibuster que hoje prejudica John amanhã pode prejudicar Jack….

’Terras Raras’ no Contencioso Comercial Estados Unidos/China

Cério (Ce), Disprósio (Dy), Érbio (Er), Escândio (Sc), Európio (Eu), Gadolínio (Gd), Hólmio (Ho), Itérbio (Yb), Ítrio (Y), Lantânio (La), Lutécio (Lu), Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr), Promécio (PM), Samário (Sm), Térbio (Tb) e Túlio (Tm). Ao todo, dezessete são os elementos químicos popularmente conhecidos como terras raras, assim chamados porque dificilmente encontrados em grandes depósitos, mas, sim, misturados com outros elementos mais abundantes. Isso dificulta e encarece sua exploração comercial, muito embora sejam hoje as terras raras indispensáveis à fabricação de magnetos (ímãs) excepcionalmente potentes e duradouros, presentes em produtos de alta tecnologia com um sem-número de aplicações cotidianas: motores elétricos, turbinas eólicas, veículos elétricos, discos rígidos de computadores, sistemas de orientação de mísseis e aeronaves, baterias de telefones celulares, lâmpadas fluorescentes compactas, diodos emissores de luz (LEDs), amplificadores de sinais em linhas de fibra óptica (transporte de dados via internet e telefonemas de longa distância), lasers, câmaras digitais etc.

O contraste entre o valor de mercado das terras raras e o de outros materiais é um indicativo eloquente de sua preciosidade: enquanto um quilograma de minério de ferro custa por volta de 70 centavos, um quilo de neodímio ou de praseodímio pode valer até R$ 5.500!

Bottom of Form

Como começou a dependência da humanidade ante as terras raras? Há cerca de 40 anos o cientista japonês Marato Sagawa inventou um magneto contendo neodímio. Essa invenção hoje serve de base para os superímãs industriais de hoje. Naquele tempo, o Japão era o maior produtor mundial de terras raras, mas os custos elevados para sua produção logo desanimaram os investidores privados. Para a China comunista, isso não era problema, e, assim, o governo planejou e executou um programa de prospecção, extração, refino e exportação que agora sustenta a primazia do país nesse setor altamente ‘sensível’. O ‘império do meio’ produz todos esses 17 elementos. A maior mina do mundo (Bayan Obo) se localiza no Norte da China, e sua produtividade é seguida de longe pelos depósitos de Mount Weld, na Austrália, e de Kavanefjeld, na Groenlândia, controlada pela Dinamarca, mas cujo potencial tem despertado a cobiçosa atenção do governo dos Estados Unidos….

A dependência japonesa em relação às terras raras chinesas ganhou a atenção mundial com um incidente naval. Em 2009, o Japão importava dos chineses 85% de sua necessidade desses elementos. No ano seguinte um barco de pesca chinês colidiu com uma patrulha da guarda costeira japonesa ao largo das ilhas Senkaku (ou Diaoyu, para a China), no Mar da China Oriental, arquipélago controlado por Tóquio e reivindicado por Pequim. O governo nipônico chegou a prender por um tempo o capitão do pesqueiro. A China retaliou reduzindo exportasse terras raras, processados pela indústria japonesa. Desde então, o Japão procurou diversificar seu leque de fornecedores. A maior iniciativa nesse sentido foi uma joint venture com a mineradora australiana Lynas Rare Earths, que, mesmo assim, resultou insuficiente para abalar o predomínio chinês. A Japan Organization for Metals and Energy Security (Jogmec) e a trading company Sojitz Corporation emprestaram 225 milhões de dólares, mas o projeto australiano não conseguiu assegurar volumes adequados de terras raras ‘pesadas’ (disprósio, érbio, Gadolínio, Hólmio, Itérbio, Lutécio, Térbio e Túlio), ainda menos comuns que as modalidades mais ‘leves’. Até o ano passado, os japoneses dependiam dos fornecimentos da China para suprir 70% de sua demanda por magnetos industriais para produtos eletrônicos, automóveis e armamentos. Depois daquele incidente marítimo de 2010, grandes mineradoras do Japão se associaram a fabricantes de magnetos na China, na esperança de evitar novas chantagens minerais. Um desses maiores empreendimentos conjuntos é a parceria, celebrada em 2013, entre a TDK, de Tóquio, e a estatal chinesa Rising Nonferrous Metals Share. 

Por sua vez, a União Europeia (UE) depende da China para 100% de suas necessidades de terras raras pesadas, enquanto os Estados Unidos importa dos chineses o equivalente a dois terços da sua demanda pelos 17 elementos.

Pequim frustra parcialmente o tarifaço de Trump – Bastou a ameaça do governo de Xi Jinping de reduzir drasticamente suas exportações de terras raras ao Ocidente, para que a administração Trump suspendesse as restrições ao acesso chinês a equipamentos sensíveis e de uso dual (civil e militar), como os semicondutores (chips) “H20” da Nvidia, atualmente a maior empresa dos Estados Unidos e do mundo, que fabrica esses componentes essenciais ao desenvolvimento dos modelos de inteligência artificial (IA) de última geração.

Quanto ao comércio bilateral propriamente dito, na hipótese de aplicação de todas as tarifas alfandegárias anunciadas por Trump desde março deste ano, as mercadorias chinesas serão gravadas em 145% ( tarifa punitiva pela exportação indiscriminada de fentanil [inicialmente de 10%, depois majorada para 20%] + tarifa “recíproca” de 10% + tarifa específica contra a China [115%]). O poder de barganha conferido aos chineses pelas terras raras explica a ‘trégua’ de maio último nas negociações bilaterais durante 90 dias. Essa trégua expira no dia 12 de agosto, quando se espera a celebração de novo acordo comercial entre os 2 países. Até o presente momento, as tarifas norte-americanas sobre produtos chineses em geral variam entre 30% e 50%. O valor supera aqueles negociados pela administração Trump com o Vietnã, o Japão e a Indonésia.

O mercado internacional de terras raras tem se comportado com extrema volatilidade durante esse período. Em junho último, o volume total exportado pela China caiu 38% em um ano. De maio de 2024 a maio de 2025, a queda foi ainda maior (74%). Em junho deste ano, a China vendeu ao mundo 3,2 milhões de quilos de terras raras, quase o triplo da quantidade exportada em maio (1,2 milhão de quilos), bem abaixo da média mensal de 2024: 4,8 milhões de quilos, depois de Pequim ter ordenado um alívio de alguns controles de exportações em troca da permissão norte-americana para a venda dos superchips aos chineses.

Para os Estados Unidos, as exportações de terras raras continuaram a cair drasticamente em junho (353 quilos, 52% a menos que no mesmo período de 2024). Em maio, essas vendas registraram um declínio ainda mais acentuado (93% a menos que em maio de 2024).

Mesmo com a recente trégua até 12 de agosto, as indústrias ocidentais reclamam não estar recebendo quantidade suficiente de magnetos, de vez que o processo burocrático de análise dos pedidos pela burocracia chinesa agora está levando semanas (as autoridades verificam ‘com lupa’ as aplicações declaradas pelos importadores). Paralelamente, Pequim intensificou sua vigilância a fim de evitar o contrabando. O Ministério do Comércio requisitou às mineradoras baseadas na China a entrega de listas de funcionários técnicos especializados, de modo a barrar o compartilhamento de segredos comerciais. E o Ministério da Segurança Estatal está acusando as agências de inteligência estrangeiras de furtar terras raras….


À espera da ‘mão visível’ do governo – Os empresários norte-americanos assinalam que o maior obstáculo à autossuficiência do seu país em terras raras são as montanhas de dólares necessárias para o desenvimento de projetos dedicados a obter uma quantidade relativamente pequena de matérias-primas e cujo prazo de maturação é, em média, de 10 anos. Os Estados Unidos possuem, sim, depósitos naturais desses elementos; o que falta é segurança para bancar essa aposta em um ramo amplamente dominado pela China. Esse poder de mercado que Pequim levou décadas para construir, no seu próprio território e também em outros países, desencoraja as mineradoras da América.

Mais recentemente, essas empresas se animaram com as restrições chinesas criando dificuldades para gigantes automobilísticos como a Ford, o que acendeu um sinal de perigo no governo Trump. As mineradoras esperam que isso, finalmente, estimule a União a dar-lhes uma ‘mãozinha’…. Alguns passos iniciais nesse sentido estão sendo dados. Um acordo entre o Pentágono e a firma MP Materials, de Nevada, prevê bilhões de dólares em empréstimos, um contrato de garantia de compra da produção e uma subscrição de ações que fará do Departamento de Defesa o sócio majoritário do empreendimento. A Ramaco, que extrai carvão no Kentucky, acaba de inaugurar sua mina de terras raras no Wyoming. As ações da American Rare Earths, com sede em Sydney, Austrália, dobraram de valor em uma semana graças ao anúncio de um contrato com o Eximbank dos Estados Unidos que poderá chegar a 456 milhões de dólares. A companhia agora espera que as autoridades estaduais do Wyoming acelerem o licenciamento para a entrada em operação da sua Cowboy State Mine — e que isso também apresse a decisão dos investidores privados a colocarem meio bilhão de dólares nesse projeto. (Levantamentos geológicos detectam que o sítio contém neodímio, praseodímio, disprósio e Térbio.


O problema é que a política do governo federal para o setor não tem demonstrado um histórico consistente. Os créditos fiscais da Lei de Redução da Inflação, sancionada pelo ex-presidente Joe Biden, começarão a expirar em 2030, como consequência da nova lei tributária e de gastos que Donald Trump acaba de assinar. Paralelamente, o manifesto desinteresse da atual administração Republicana na fabricação de veículos elétricos e em projetos de energia renovável lança novas incertezas no horizonte de longo prazo da demanda por terras raras. 

Parece que ainda por um bom tempo, no contexto da grande ‘recessão geopolítica’ atual, a China comunista continuará controlando o mercado internacional desses preciosos e raros elementos.

Guerra Fria eletrônica

Na disputa pela hegemonia econômica, tecnológica e militar do sistema internacional neste século, os Estados Unidos e a China lutam para ditar as regras de um padrão mundial de Inteligência Artificial (IA). Reportagem recente do Wall Street Journal focalizou os lances mais dramáticos dessa nova corrida armamentista da informação e do conhecimento. (**)

O segundo governo do Republicano Donald Trump, assim como o de seu antecessor Democrata Joe Biden, procura estreitar o espaço de manobra do rival chinês por meio de uma série de restrições que vão desde a proibição das exportações dos chips (semicondutores) de maior capacidade computacional aos chineses até novas barreiras à entrada de estudantes oriundos do “Império do Meio” em universidades norte-americanas e empresas do Vale do Silício. Trump, por exemplo, vetou a venda do superchip “HZO AI”, da Nvidia, mesmo ao custo de 10 bilhões de dólares em vendas não realizadas por essa companhia. O governo também veda o fornecimento de serviços públicos formatados pela DeepSeek, vedete chinesa de IA, e tramita no Capitólio um projeto de lei bipartidário proibindo as agências federais de usarem quaisquer produtos e serviços de IA made in China.

Um claro indicador desse processo de desacoplagem (decoupling) científico-tecnológica é a rápida e significativa queda dos investimentos americanos em empreendimentos chineses na área de IA. Em 2018, de acordo com levantamento do PitchBook citado pelo Journal, investidores dos Estados Unidos financiavam 30% desses empreendimentos na China, cujo total era então avaliado em 21,9 bilhões de dólares. Naquele mesmo ano, as vendas da Nvidia no mercado chinês somaram 9,7 bilhões de dólares. (O auge desses investimentos se deu em 2019, quando eles se aproximaram da marca de 40%.) A projeção para este ano de 2025 é que o financiamento americano não ultrapasse 5%.

A resposta do regime de Pequim à desacoplagem tem sido orientar e incentivar as empresas do país para que tornem suas cadeias de suprimentos cada vez mais independentes dos insumos da América.

Hoje em dia, a IA da China procura compensar a dianteira americana em inovação tecnológica, traduzida em maior rapidez de processamento e alimentadas por bilhões de dólares em pesquisa de ponta, oferecendo aos seus clientes no mundo inteiro (Oriente Médio, Ásia, África e mesmo Europa) uma mercadoria quase tão boa, a preços consideravelmente mais em conta. Por ora, o ChatGPT, da americana OpenAI, conta com 910 milhões de usuários ao redor do globo, contra 125 milhões atendidos pela chinesa DeepSeek. Todavia, os Large Language Models (LLM) da DeepSeek e de gigantes do comércio eletrônico chinês como Alibaba e Tencent têm fechado grandes negócios internacionais.

O banco britânico HSBC, e a Aramco (joint venture saudi-americana), maior petroleira do mundo, já rodam modelos da DeepSeek nos seus datacentros. E, a despeito de o cerco das proibições estar se fechando, até mesmo grandes marcas americanas em tecnologia da informação, como a Amazon Web Services, a Microsoft e o Google, oferecem DeepSeek aos seus clientes. A OpenAI contra-ataca abrindo cada vez mais filiais no continente europeu e na Ásia. Cerca de 85% dos clientes da IA made in USA estão em países estrangeiros. Enquanto isso a chinesa Zhipu AI fornece a assistência técnica a países do chamado Sul Global na montagem de suas infraestruturas de inteligência artificial.

Com um cerrado foco em aplicações práticas e baseando seus modelos em fontes abertas (open source), os modelos de IA da China possibilitam ampla adaptação às necessidades de cada cliente, de modo a disseminar sua adoção. Em contraste como os modelos ‘proprietários’ de companhias americanas como a Anthropic e a OpenAI, que os vendem a preços relativamente altos, os modelos chineses aliam boa qualidade a preços que podem ser até 17 vezes mais baratos, um atrativo muito importante para clientes geralmente parcos em capital como os do Brasil. Países mais ricos, como o Japão, tampouco se mostram insensíveis a esses diferenciais de preço e customização. O Ministério da Economia, da Indústria e do Comércio japonês, por exemplo, recebe consultoria de um desenvolvedor local que lhe fornece modelos open source baseados no “Qwen” da Alibaba. No mundo inteiro, o Qwen já serve de plataforma a mais de 100 mil modelos derivativos.

Tudo isso dito, para quem se preocupa com o destino da liberdade e da democracia neste admirável mundo novo, a expansão mundial da IA chinesa traz um grave inconveniente: aplicativos desenvolvidos sob a modelagem da DeepSeek produzem respostas ‘censuradas’ a questões que o Partido Comunista da China classifica como politicamente sensíveis, tais como a repressão aos budistas tibetanos ou aos muçulmanos da província de Xinjiang….

Seja como for, as empresas de tecnologia das duas superpotências sabem que aquilo que irá definir a vitória ou a derrota dos seus respectivos modelos será o número de usuários que seus respectivos modelos de IA conquistarão mundo afora.

(**) LIN, Liza et alii, “China is quickly gaining in AI race”, The Wall Street Journal, Wednesday, July 2, 2025 (capa e página A7).

Trump2 quer uma ‘Guerra nas Estrelas’ para chamar de sua

Em 1983, nos estertores da Guerra Fria, quando o presidente Ronald Reagan lançou a Iniciativa de Defesa Estratégica (logo popularizada pela imprensa como “Guerra nas Estrelas”), o estágio de desenvolvimento da tecnologia armamentista da época  ainda estava aquém da aspiração do estadista que passou para a História como o “Grande Comunicador”. Além disso, os custos estimados ultrapassavam as disponibilidades orçamentárias. Hoje, porém, no contexto do recrudescimento da rivalidade entre as grandes potências, Donald Trump retoma essa proposta e promete instalar até o fim do seu mandato uma rede de interceptação de ataques nucleares inimigos, com satélites baseados no espaço e estações terrestres, capaz de proteger o território dos Estados Unidos de mísseis chineses, russos e norte-coreanos.

A tecnologia balística hipersônica que os adversários da América estão desenvolvendo torna as atuais defesas, baseadas no Alasca e na Califórnia e que visam prevenir ataques oriundos da Coreia do Norte, claramente insuficientes. Os Estados Unidos tampouco dispõem de defesa suficientemente eficaz contra drones e mísseis de cruzeiro, que voam a baixas altitudes fora do alcance dos radares.

Para superar essas limitações, Trump assinou, logo no início desse seu segundo mandato, em 27 de janeiro último, uma ordem executiva orientando o establishment de defesa para, entre outras providências, a construção de um ‘escudo’, que, numa referência ao  sistema israelense do “Domo de Ferro”, já é conhecido como “Domo de Ouro” (ou “Domo Dourado”). Custo anunciado: 175 bilhões de dólares.

Recentemente, Ucrânia e Israel provaram, na prática, sua capacidade de neutralizar ofensivas balísticas da Rússia e do Irã, respectivamente.

Breve retrospectiva — Na segunda metade do século passado, os sistemas de defesa antimísseis davam seus primeiros passos, mas já atemorizavam os líderes das duas superpotências de então, Estados Unidos e União Soviética, com a perspectiva de uma descontrolada corrida armamentista em busca de mísseis mais modernos e potentes a fim de neutralizar aqueles sistemas. No início da década de 1970, essa preocupação recíproca possibilitou a assinatura dos acordos Salt (Strategic Arms Limitation Talks) e ABM (Anti-Ballistic Missiles). Em 1991, esse compromisso foi renovado pelos presidentes Mikhail Gorbachev e George H. W. Bush, com a assinatura do Start (Strategic Arms Reduction Treaty). Este tem prazo de validade até o próximo ano.

De lá para cá, a República Popular da China aumentou seu arsenal nuclear em ritmo acelerado. Segundo estimativas do Pentágono, até 2035, Pequim disporá de 1.500 ogivas nucleares, em comparação com apenas 200 há cinco anos. A Rússia, que tinha 30 mil ogivas nucleares durante a Guerra Fria, deve hoje possuir cerca de 6 mil.

O anúncio do Domo Dourado provocou duras respostas dos adversários da América: russos, chineses e norte-coreanos temem a desestabilização do atual paradigma estratégico, baseado na deterrência (dissuasão) e consagrado na sigla MAD-Destruição Mútua Assegurada, o equilíbrio do terror.

Armas hipersônicas — Chineses e russos estão na dianteira do desenvolvimento de vetores balísticos, capazes de voar a uma velocidade bem superior a cinco vezes a velocidade do som e que podem desviar-se de obstáculos até atingirem seus alvos. Em 2021, a China testou um desses novos mísseis, o qual voou a mais de 15 mil milhas por hora e orbitou em volta do planeta antes de explodir seu alvo em território chinês. Em 2018, o presidente Vladimir Putin já havia revelado ao mundo o programa russo de armas hipersônicas, proclamando orgulhoso que os Estados Unidos não teriam possibilidade de proteger sua costa Oeste desse tipo de ataque. Os hipersônicos da Rússia viam a uma velocidade relativamente mais baixa quando são lançados, e isso facilita a sua interceptação. Já no caso dos ICBMs (mísseis balísticos intercontinentais), a dificuldade para interceptá-los é maior porque seus propulsores o elevam rapidamente à estratosfera. Isso significa que, para detê-los, os Estados Unidos teriam que colocar em órbita satélites cobrindo cada um dos 11 fusos horários porque se estende o vasto território russo.

Quanto à Coreia do Norte, a inteligência militar norte-americana já descobriu que o regime de Pyongyang já possui mísseis de alcance suficiente para atingir o território dos Estados Unidos. O ditador da hora, Kim Jong Un, quer construir vetores que voem cada vez mais longe, carreguem ogivas cada vez maiores e possam ser lançados cada vez mais rapidamente. Em fase ainda experimental estão os drones submarinos portadores de cargas nucleares.

Os Estados Unidos, além das já mencionadas estações no Alasca e na Califórnia, operacionais desde o início deste século, já realizaram testes de interceptação através do sistema Aegis (escudo, em grego) contra mísseis intercontinentais. O sistema também foi usado pelos destroieres da Marinha norte-americana contra mísseis do Irã lançados sobre o território de Israel no ano passado. Versões terrestres do Aegis estão instaladas nos territórios de dois membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan): Romênia e Polônia. De alcance mais curto, mísseis da classe “Patriot” e o sistema Thaad-“Territorial High Altitude Area Defense se acham instalados na Coreia do Sul e em Guam.

Custos — Parcialmente graças às inovações introduzidas pela firma SpaceX, de Elon Musk, os custos de lançamento dos satélites interceptadores caíram hoje dramaticamente (de 30% a 40% em comparação com estimativas de 2004 e 2012, para o desenvolvimento de uma constelação de armas espaciais em condições de derrubar um ou dois ICBMs). De acordo com a American Physical Society, a derrubada de 10 ICBMs necessitaria de 36 mil unidades de interceptação, número que deveria ser multiplicado de várias vezes no cenário de um ataque maciço chinês ou russo. A modernização integral das forças nucleares ofensivas norte-americanas, até 2035, não ficará por menos de 946 bilhões de dólares.

Essa é mais uma razão pela qual, a par das complicações tecnológicas, os experts não acreditam que o “Domo Dourado” possa estar pronto para ser instalado em menos de três anos, como promete Donald Trump. Um os observadores mais pessimistas é Pavel Podvig, pesquisador-sênior do Instituto das Nações Unidas para Pesquisas sobre Desarmamento. Ouvido pelo Wall Street Journal, ele considera que qualquer sistema de defesa antimísseis ofereceria proteção contra, no máximo, 85% dos foguetes lançados pelos inimigos da América, o que, na sua opinião, fomentaria um falso (e perigoso) sentimento de segurança.

Reequilíbrio Comercial, Corte De Impostos, Desregulamentação: O Novo ‘Sonho Americano’ De Trump2

No meu mais recente podcast para o portal do Instituto Monitor da Democracia, em entrevista ao nosso presidente Márcio Coimbra, procurei lançar um pouco de luz sobre a aparentemente errática e sem dúvida volátil política econômica externa do segundo governo Donald Trump. No presente artigo, pretendo prosseguir  nessa reflexão, se possível aliviando o debate de sua forte carga emocional sempre que vem à baila a figura do polêmico presidente que promete fazer a América grande novamente….

Durante os 100 primeiros dias de Trump2, o stop-and-go da sua política alfandegária elevou escalonadamente os direitos de importação sobre as mercadorias  vendidas aos Estados Unidos por todos os seus parceiros comerciais, para, logo em seguida, suspender temporariamente essa majoração, na expectativa de uma ‘pausa para negociações, com a solitária e notável exceção da China,  cujas exportações ao mercado norte-americano continuam taxadas em 145% e que retaliou na mesma moeda, chutando para cima suas tarifas sobre produtos americanos.

O vaivém produziu um frenesi nos mercados, ora derretendo bilhões de dólares em ativos, ora impulsionando  recuperações de preços não menos espetaculares. Até o dia 5 deste mês de maio, as ações das empresas integrantes do índice S&P 500 — quinhentas maiores companhias de capital aberto listadas nas bolsas de valores dos Estados Unidos — acumularam nove dias seguidos em alta, algo inédito desde 2004. O crescimento de 10% em tão pouco tempo cancelou as perdas decorrentes do anúncio do tarifaço por Trump em 2 de abril, data que o presidente batizou de “Dia da Libertação”. Os sinais contraditórios emitidos pela nova política tarifária e a contração do PIB norte-americano em 0,3% no primeiro trimestre de 2025 projetaram um sombra de incerteza sobre os planos de investimentos das empresas, ao mesmo tempo em que reacenderam os temores de uma estagflação.

Para reavivar o otimismo dos empresários e consumidores, Trump e a bancada Republicana no Capitólio negociam um novo pacote de redução permanente de impostos e corte de gastos públicos. Fontes do governo também acenam com a possibilidade de atenuação das pressões tributárias sobre a China, em troca da cooperação de Pequim com a cruzada de Trump contra o ingresso ilegal de fentanyl produzido pela indústria farmacêutica chinesa,  princípio ativo dos opióides que alimentam uma epidemia mortal no seio das camadas mais pobres da sociedade americana.

Com a palavra, o secretário Bessent — Em artigo para o Wall Street Journal, Scott Bessent, o secretário do Tesouro que fez fortuna no mercado de capitais,  procura substanciar a estratégia de relações públicas de seu chefe Trump, visando à restauração da confiança dos agentes econômicos.

Bessent inicia sua argumentação lembrando que, desde a década de 1980, quando teve início a atual etapa de globalização, as desigualdades socioeconômicas na América se acentuaram entre uma minoria de vencedores (empreendedores tecnológicos, banqueiros de investimentos e segmentos profissionais de nível superior nos litorais do Atlântico e do Pacífico) e uma maioria de perdedores (classes média e trabalhadora,  empobrecidas pela liberalização comercial e pela desindustrialização no coração continental dos Estados Unidos). Trump se elegeu para ampliar a participação desses setores desfavorecidos, hoje a espinha  dorsal do seu eleitorado, nas riquezas acumuladas por Wall Street. O tarifaço é visto por Bessent como instrumento essencial  para o reequilíbrio do comércio exterior e a revitalização da base industrial do País, com a criação de mais e melhores postos de trabalho.

O autor cita um paper de 2016, elaborado por três economistas (“China shock”, de David Autor; David Dorn; e Gordon Hanson) que mediram o impacto socioeconômico da liberalização comercial na ‘América profunda’, durante o mesmo período que a China se transformou na fábrica do mundo e superpotência exportadora: os trabalhadores dos Estados Unidos perderam 3,7 milhões de empregos. Nas palavras de Bessent, “milhões de americanos sofreram um declínio absoluto da sua renda real”.

Para virar esse jogo, o secretário do Tesouro propõe uma tríplice estratégia:

( a ) renegociar os termos do comércio global. Isso inclui o tarifaço, mas também a redução das barreiras alfandegárias dos outros países ,  de modo a abrir mercados externos e, ao mesmo tempo, “trazer de volta milhares de postos de trabalho na indústria de transformação”;

( b ) tornar permanentes os cortes de impostos de 2017 (governo Trump1), acrescidos de inovações como a isenção de tributos sobre gorjetas, horas extras e Seguridade Social. Isso significa deixar mais dinheiro nos bolsos dos empresários para investir e dos consumidores para gastar. Lembra Bessent que a lei tributária de 2017 aumentou a renda de 50% dos domicílios da América mais rapidamente do que para os 10% mais ricos.  

Ele calcula que, se os cortes de impostos, programados para expirar no final deste ano, não forem perenizados, a família mediana dos Estados Unidos perderá US$ 4 mil em renda. O novo pacote propõe, ainda, deduções sobre financiamentos para a compra de automóveis _made in USA_, bem como incentivos fiscais para a construção de novas fábricas; e

( c ) desregulamentar/desburocratizar de forma a estimular a produção de tudo na América — de materiais de construção a _chips_ (semicondutores) de inteligência artificial.

Paralelamente ao impulso que dará à prosperidade de patrões e empregados, acredita Bessent, que essa nova estratégia também vai assegurar a dianteira militar dos Estados Unidos vis à vis a China.

As primeiras medidas desburocratizantes decretadas por Trump2, cancelando regulamentos da era Biden, teriam economizado US$ 2.100 para uma família norte-americana com quatro pessoas. Mais: a eliminação de requisitos de compliance, considerados excessivos, para pequenos bancos locais facilitará o acesso ao crédito do consumidor de bens duráveis. Outro objetivo dessa desregulamentação/desburocratização é tornar mais abundante a oferta de energia. Por isso, Trump recentemente decretou “emergência energética” e abriu 1,53 milhões de acres à exploração no Alasca. O preço da gasolina já caiu 50 cents em relação ao ano passado.

Scott Bessent busca contagiar com seu entusiasmo todo o público norte-americano informando que, por dois meses seguidos, as contratações de mão de obra no setor não rural superaram as expectativas, com a incorporação de 177 mil empregos ao mercado de trabalho.

Em suma, a política econômica de Trump2, formatada pelo secretário do Tesouro, promete um forte e duradouro ciclo virtuoso, com mais empregos, reindustrialização acelerada, menores custos de energia, robustecimento da segurança nacional e vitória na competição econômica e militar com os chineses.

Basta agora aguardar o que os parceiros e adversários da América farão para reagir e/ou se adaptar a todas essas mudanças decretadas pelo segundo governo Trump e pela estreita maioria Republicana no Congresso….

Em tempo: no fim de semana de 10 e 11 de maio, em Genebra, Suíça, a China e os Estados Unidos se reuniram pela primeira vez para negociar alternativas ao mútuo tarifaço. O lado norte- americano foi representado por Bessent e pelo embaixador Jamieson Greer (representante comercial da Casa Branca); e o lado chinês, pelo premiê He Lifeng. Do encontro resultou um acordo no sentido de reduzir, drasticamente, por 90 dias as tarifas recíprocas impostas desde o “Dia da Libertação”: os Estados Unidos,  de 145% para 30% sobre os produtos chineses; a China, de 125% para 10% sobre os produtos norte-americanos.

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( * ) Cientista político e _fellow_ do Instituto Monitor da Democracia.

Irã & Hezbollah: Uma ‘dobradinha’ patrono/cliente que ameaça a América Latina

Sempre preferi deixar a colegas deste portal mais experientes e bem-informados do que eu as análises sobre o Oriente Médio. Hoje, porém, vou abrir uma exceção para compartilhar com o distinto público do Instituto Monitor da Democracia minha angústia com informações que deveriam traduzir um alerta: o grupo terrorista libanês Hezbollah, cliente da teocracia iraniana, está transformando nossos países numa retaguarda logística, financeira e, por vezes, ‘operacional’ de sua guerra permanente contra Israel e os Estados Unidos….

A Rand Corporation, prestigioso think tank sediado em Santa Monica, Califórnia, publicou estudo inteiramente baseado em fontes públicas (noticiário de imprensa, artigos acadêmicos, transcrições de notas taquigráficas de audiências do Congresso americano etc) que comprova essa afirmação (**).

Nos anos 90 do século passado, as operações ‘militares’ do Hezbollah deixaram um rastro sangrento na região. Em 1992, num ataque à embaixada israelense em Buenos Aires, 20 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas. Dois anos depois, também na capital Argentina, o Hezbollah explodiu a sede da Amia-Asociación Mutual Israelita, matando 85 pessoas e ferindo mais de 200 — o mais devastador ataque terrorista nas Américas até o 11 de Setembro de 2001. Também em 1994, a organização bombardeou jato comercial panamenho: todos os passageiros morreram.

Mais recentemente, percalços enfrentados pelo próprio grupo e por seu patrono iraniano no Oriente Médio — queda do regime do aliado Bashar al-Assad na Síria; eliminação do secretário-geral do Hezbollah Hassan Nasrallah e do seu herdeiro presuntivo Hashem Safieddine; e o fortalecimento do apoio dos Estados Unidos a Israel — têm estimulado o Hezbollah a intensificar suas atividades na América Latina (redes de financiamento e apoio logístico, além de operações ‘militares’).

O recrudescimento dessas atividades levaram a Argentina, a Colômbia, Honduras e Paraguai a classificar formalmente o Hezbollah como organização terrorista — atitude infelizmente não acompanhada pelo Brasil, apesar da intensa movimentação de militantes e simpatizantes do Hezbollah na região da Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai) e também na Venezuela, país que compartilha uma extensa fronteira com o Brasil na Amazônia.

Com o desenvolvimento de redes de apoio ‘ativo’ e ‘passivo’ na diáspora libanesa e palestina, a organização estreitou seus laços com o contrabando, o narcotráfico, o comércio ilegal de armas, o tráfico de pessoas, o roubo de identidades, o garimpo ilegal e esquemas de lavagem de dinheiro.

A Rand calcula que de 20 a 30% dos recursos financeiros do Hezbollah provenham dessas atividades ilegais ao redor do mundo, inclusive da América Latina; os outros 70 a 80% provêm diretamente do Irã.

As evidências são abundantes. Em 2008, as atividades colombianas prenderam Chekri Harb, que operava uma rede de distribuição de cocaína, pagando ao Hezbollah uma ‘comissão’ de 12%. Dois anos antes disso, a Colômbia, por meio da Operação “Camel”, já havia descoberto outras operações de narcotráfico vinculadas à organização. Notório é a participação do Hezbollah no mercado venezuelano do ouro. Em 2020, os Estados Unidos conseguiram impedir carregamentos de gasolina iraniana em troca de ouro da Venezuela. 

Testemunhos prestados a comissões e subcomissões do Congresso americano apontam o ativo envolvimento do Hezbollah em operações de fraude documental: falsificação de passaportes, certidões de nascimento, cédulas de identidade e carteiras de habilitação, com a finalidade de facilitar a travessia de fronteiras.

Em 2014, a polícia peruana prendeu militantes da organização por atividades de vigilância de ‘alvos’. Em 2016, na Bolívia, autoridades descobriram um depósito de explosivos do Hezbollah.

Em 2020, outra vez a Colômbia sofisticada rede de lavagem de dinheiro administrada por Ayman Joumaa, que reciclava, em média, o equivalente a 200 milhões de dólares por mês graças a venda de carros usados e ao tráfico de cocaína. 

No Brasil, em 2006, a Polícia Federal deteve elementos da facção criminosa PCC-Primeiro Comando da Capital que negociavam a compra de armas com o Hezbollah. E, no ano retrasado, a PF ‘estourou’ uma célula do grupo terrorista que planejava ataques contra alvos da comunidade judaica.

É bem provável que, à medida que as Forças de Defesa Israelenses escalam sua guerra ao terror no Oriente Médio, alvos das comunidades judaicas em outras regiões se tornem cada vez mais visados, a pretexto de retaliação. 

Dificuldades

A Rand Corporation reconhece que o uso frequente de variados intermediários, entre outras complicações, dificulta o mapeamento e a repressão dessas atividades ilegais. Outra grande dificuldade é colocada pela íntima simbiose entre a organização e o regime bolivariano da Venezuela. A DEA, agência de combate ao narcotráfico dos Estados Unidos há alguns anos identificou o apoio de políticos venezuelanos à emissão de passaportes para o Hezbollah. O Departamento do Tesouro americano descobriu que o empresário venezuelano Fawzi Kan’an e o diplomata Nasr al-Din (encarregado de negócios da embaixada da Venezuela em Damasco, Síria), mais que simples apoiadores, eram militantes do grupo, diretamente envolvidos no treinamento ideológico e militar e no tráfico de armas e narcóticos.

Nos últimos tempos, a parceria Venezuela-Irã/Hezbollah se tornou ainda mais íntima, com a assinatura de acordo de cooperação (2022) que alinhou definitivamente o governo ditatorial de Nicolás Maduro ao chamado “Eixo da Resistência”, formado pelo Irã, Rússia, Coreia do Norte e China. Na prática, essa aliança se concretiza em atividades como o transporte de militantes e itens ilegais nos aviões da estatal Conviasa e o fornecimento de combustível iraniano a navios/tanque da Venezuela.

A diplomacia do Irã também multiplica sua ofensiva de soft power na América do Sul e no Caribe.  Em 2023, as embaixadas iranianas patrocinaram a tradução ao espanhol  e a distribuição do livro de memórias do “líder supremo” Ali Khamenei, que propaga a doutrina do islamismo radical. Centros culturais iranianos hoje se espalham por Cuba, Venezuela, Peru é Argentina. O governo de Teerã também distribui bolsas e oportunidades de intercâmbio acadêmico aos estudantes desses países. Outro braço do soft power iraniano em nações de língua espanhola é a “Hispan-TV”, canal de notícias lançado em 2011, com programação voltada aos decendentes de iranianos e membros de minorias islâmicas.

Com uma infraestrutura de inteligência e segurança muito mais frágil que a dos Estados Unidos — obviamente o alvo prioritário do estudo da Rand e das suas recomendações —, o Brasil e os seus vizinhos estão despreparados para monitorar e, se necessário, reagir a essas atividades do Irã e do Hezbollah, uma série ameaça à nossa segurança e às nossas instituições.

O desafio está lançado: até quando?

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( * ) Cientista político e fellow do Instituto Monitor da Democracia.

( * * ) O documento se intitula “Hezbollah’s networks in Latin America: potential implications for U. S. policy and research” (março de 2025) e foi coordenado pela pesquisadora da Rand Corporation Marzia Giambertoni.

Um olhar “realista”sobre o conflito Rússia x Ucrânia: Entrevista com Marcos Degaut

A mais casual conversa com Marcos DEGAUT equivale a uma aula sobre Geopolítica e Relações Internacionais, sob uma perspectiva realista, gostemos ou não do que ele tem a nos dizer. Degaut, que é mestre pela UnB, Ph D em Segurança Internacional pela University of Central Florida e doutor em Direito Internacional pela UDF, tem mais de 30 anos de experiência no serviço público e já trabalhou como secretário-adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, secretário de Produtos do Ministério da Defesa e secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil-Camex. Por isso, estava ansioso por ouvi-lo a respeito da situação atual e das perspectivas futuras da crise envolvendo Rússia, Ucrânia, Estados Unidos e Europa. Gentilmente, Degaut respondeu às perguntas abaixo. Mas a responsabilidade pela edição final de suas respostas é toda minha. Vamos lá?

1) PK – O acordo Estados Unidos/Ucrânia sobre minerais estratégicos, recentemente anunciado, garantiria a segurança ucraniana contra futuras invasões russas?

MD – O acordo que está sendo desenhado é de natureza comercial e financeira. Não inclui nenhum componente militar, de defesa. O que ele prevê é a exploração, pelos americanos, de terras raras/minerais estratégicos da Ucrânia. Prevê, também, a constituição de um fundo destinado a financiar a reconstrução ucraniana. O presidente da Ucrânia, Volodomyr Zelensky, desejava incluir essa componente militar, mas o presidente Donald Trump a vetou, pelo menos até o momento. Então, o futuro pacto NÃO oferece à Ucrânia nenhuma garantia contra possíveis novas invasões. Em tempo: considero que o objetivo maior da Rússia é impedir a presença militar ocidental (Otan) em território ucraniano, que o Kremlin encara como seu ‘entorno imediato’ — e não expandir o domínio russo.

2) PK – Ao quebrar o gelo das negociações com a Rússia de Vladimir Putin, estaria Trump enfraquecer a aliança Pequim/Moscou?

MD – Sim. A orientação atual da política externa é de segurança nacional do governo dos Estados Unidos baseia-se na percepção de que o seu principal adversário geopolítico, geoestratégico, é a China. Trump deseja a reinserção da Rússia no sistema financeiro internacional de modo a afastá-la da China, o que envolve a garantia de que a Otan não posicionará suas tropas na fronteira com a Rússia. Essa manobra pode dar certo, até porque a maioria dos generais russos hoje está descontente com a situação de seu país como ‘sócio menor’ dos chineses. Um benefício adicional da reintegração da Rússia ao sistema financeiro internacional é o seu impacto anti-inflacionário: com a revogação das atuais sanções econômicas, o reingresso do gás e do petróleo russos no mercado energético mundial contribuiria para manter a estabilidade geral dos preços. Ao mesmo tempo, isso normalizaria o acesso da Rússia às commodities agrícolas de que ela tanto necessita. Por tudo isso, creio que essa manobra teria, sim, boas chances de sucesso.

3) PK – Como avaliar a solidez do compromisso da Europa Ocidental — especialmente França e Alemanha — para com a segurança ucraniana em face de uma nova ameaça militar russa?

MD – Uma coisa é a legitimidade desse compromisso; outra, muito diferente, é a sua credibilidade na prática, dentro de um prazo viável. Hoje, a Rússia, ao lado dos Estados Unidos e da China, é um dos países que mais gastam com armamentos. A quantidade dos estoques militares russos é muito superior à europeia. Isso para não falar da enorme superioridade dos arsenais nucleares da Rússia em comparação com os da França e do Reino Unido. Mesmo que a Europa comece a investir hoje tudo aquilo que líderes como o presidente francês Emmanuel Macron prometem, sobretudo no atual contexto de déficits públicos na maioria desses países — e na hipótese irrealista de a Rússia nada fazer para incrementar suas capacidades militares —, seriam necessários de 10 a 1 anos e cerca de 800 bilhões de dólares para equiparar esses arsenais…. Onde arranjar tanto dinheiro em meio a uma apertada situação fiscal? Uma coisa é certa: a Rússia não vai ficar esperando de braços cruzados.

4) PK – Podem os ucranianos confiar numa paz duradoura com os russos? Estaria a Ucrânia fadada a se conformar com perda de 20% do seu território para a Rússia como preço da paz?

MD – Volto àquele ponto anterior: a Rússia atual de Putin não é a antiga União Soviética, que estava interessada em exportar a revolução comunista para o resto do planeta. O que a Rússia de hoje quer são fronteiras seguras, o mais longe possível das forças da Otan. Para tanto, o Kremlin considera vital manter sua influência no ‘entorno imediato’: Ucrânia, Belarus etc. Não se trata de invadir, tomar conta desses territórios, mas, sim, impedir a influência das grandes potências ocidentais naquele entorno.

5) PK – Quer dizer que o destino da Ucrânia é jamais vir a se tornar membro da Aliança Atlântica? E da União Europeia?

MD – Da Otan, seguramente, jamais; os russos nunca aceitarão. Para eles, trata-se de uma questão existencial. Já quanto à UE, que é um bloco econômico sem componente militar, não vejo nenhum obstáculo intransponível a uma futura adesão ucraniana.

6) PK – Na sua opinião, Taiwan será a ‘próxima Ucrânia’?

*MD – Vejo aí uma diferença qualitativa muito importante: a Ucrânia sempre foi entendida como uma entidade à parte do território russo, o que contrasta vivamente com o caso de Taiwan, ilha que há séculos foi incorporada ao território da China imperial. Pertenceu ao Japão por 50 anos (1895/1945) e, em 1949, serviu de refúgio ao Kuomintang de Chiang Kai-shek, derrotado pela revolução comunista daquele ano. A República Popular da China exige como condição para o estabelecimento de relações oficiais com qualquer país que este rompa laços diplomáticos com a República da China (Taiwan). Os taiwaneses mantêm escritórios de representação comercial e intercâmbio cultural na maioria das nações, mas embaixadas em um número cada vez menor de países. Na minha opinião, a China de Xi Jinping está se preparando para anexar Taiwan (à força, se necessário); resta saber como o Ocidente reagirá….

7) PK – Lembrando o colapso final da presença norte-americana no Afeganistão (2021), como uma mediação de Trump para pôr fim à guerra Rússia X Ucrânia pode afetar sua popularidade perante a opinião pública dos Estados Unidos?

MD – Mais uma diferença marcante aqui…. Por 20 anos, os Estados Unidos mantiveram forte presença militar no Afeganistão (boots on the ground); vidas norte-americanas foram perdidas. E, no final, material bélico dos Estados Unidos foi abandonado e tomado pelo Taliban. No caso Rússia X Ucrânia, Trump se recusa a enviar soldados para lutar na Europa Oriental. Também já deixou claro que quer desescalar as tensões militares entre russos e ucranianos como prelúdio a um novo contexto que faça sentido comercial, econômico, para as partes envolvidas. Se isso der certo, a popularidade doméstica de Trump será alavancada.

PK – Muito obrigado!

A(s) política(s) externa(s) do Governo Trump2

Em 1971, Graham T. Allison, então jovem cientista político de Harvard, lançou uma obra hoje clássica para os estudos de processos decisórios de políticas públicas. Essence of Decision analisa a tomada de decisões do governo do presidente John F. Kennedy num dos mais dramáticos episódios da Guerra Fria: a crise dos mísseis soviéticos em Cuba (outubro de 1962). Fotos aéreas da Inteligência dos Estados Unidos revelaram que a União Soviética estava instalando mísseis nucleares apontados para o território norte-americano, a alguns quilômetros de distância, com o beneplácito do governo comunista de Fidel Castro. Naquele momento, o mundo jamais esteve tão próximo de um holocausto termonuclear.

As cúpulas burocráticas civis e militares do governo Kennedy — Departamento de Estado, Pentágono, Conselho de Segurança Nacional, Estado- Maior das Forças Armadas — competiam entre si para ‘fazer a cabeça’ do presidente quanto à melhor opção para enfrentar aquele desafio da URSS: conversações diplomáticas? Bombardeio aéreo? Invasão terrestre? Bloqueio naval das águas cubanas? Kennedy optou pela última alternativa. Na sequência, o presidente do Conselho de Ministros e primeiro secretário do Partido Comunista da União Soviética, Nikita S. Khrushchev acabou cedendo e ordenando o desmonte das plataformas de lançamento dos foguetes. E, num toma-lá-dá-cá à época não divulgado, os Estados Unidos concordaram com a retirada de mísseis da Otan apontados para a URSS..

Allison questionou a ‘falácia da composição’ subjacente ao paradigma do estudo das Relações Internacionais: o modelo do “ator racional unificado” (a União Soviética agiu assim, os Estados Unidos reagiram assado etc), como se todas as decisões emanassem de um estadista onisciente, frio, cem por cento racional, confrontando-o com dois outros. Um deles refletia a queda de braço entre os interesses das diversas organizações governamentais envolvidas; e o outro, a “política burocrática”, ora de competição, ora de cooperação, das autoridades de diferentes repartições. (Em 1999, com a colaboração de Philip Zelikow e graças à divulgação do conteúdo de arquivos diplomáticos e militares soviéticos mantidos sob sigilo absoluto até a implosão da URSS, Allison publicou uma segunda edição de Essence of Decision: Explaining the Cuban Missile Crisis, substancialmente revista e ampliada.

No início deste mês de fevereiro, em sua coluna para a Bloomberg, Hal Brands, docente da Escola de Estudos Internacionais Avançados (Sais)/Universidade Johns Hopkins, Washington, D. C., e pesquisador do American Enterprise Institute, reforçou a perene validade dos insights allissonianos.

Na visão de Brands, o segundo governo Trump tem não uma, mas cinco diferentes políticas externas, cada uma delas defendida por um segmento da coalizão Republicana hoje no poder e todas dispostas a garantir que os seus pontos de vista prevaleçam no processo decisório.

Em primeiro lugar, vêm os “Falcões Globais”, liderados pelo secretário de Estado Marco Rubio e pelo assessor-chefe de Segurança Nacional Mike Waltz. Esse grupo procura se manter fiel ao desejo de Trump no sentido de renegociar as alianças estratégicas dos Estados Unidos (países membros da Otan, Japão, Taiwan, Arábia Saudita etc), mas permanece convicto de que os desafios colocados pelo ‘eixo autoritário’ Pequim/Moscou/Pyongyang/Teerã só podem ser vitoriosamente confrontados mediante a estreita colaboração com esses e outros parceiros estrangeiros.

Em segundo lugar, Brands aponta a clique dos “Guardiões da Ásia”, capitaneada por nomes como Elbridge Colby, subsecretário de Defesa, e o senador Republicano Josh Hawley, do Missouri. Eles acreditam que o risco cada vez mais eminente de uma guerra com os chineses justifica e exige o redirecionamento dos recursos militares da América, hoje concentrados na Europa (guerra Rússia X Ucrânia) e no Oriente Médio, para o Indo-Pacífico, objetivando fortalecer a proteção de Taiwan diante das cada vez mais frequentes ameaças de invasão transmitidas por Pequim; incrementar os pactos armados já existentes com Austrália e Reino Unido (Aukus) e com Japão, Austrália e Índia (Quad, ou Diálogo Quadrilateral de Segurança); bem como celebrar novas alianças com outras nações da região, igualmente temerosas do expansionismo chinês no Mar do Sul da China, a exemplo das Filipinas e do antigo inimigo, o Vietnam).

Em terceiro lugar está a turma da “América, Volte para Casa!”. O vice-presidente J. D. Vance e a diretora da Inteligência Nacional Tulsi Gabbard (ex-deputada Democrata pelo Havaí) advogam um drástico enxugamento dos gastos e compromissos militares dos Estados Unidos mundo afora em troca de mais dinheiro do orçamento federal para turbinar programas domésticos de bem-estar social (Medicare e Medicaid são dois exemplos).

Em quarto lugar, Brands identifica os “Nacionalistas Econômicos”, destacando os secretários do Tesouro (Scott Bessent) e do Comércio (Howard Lutnick). Esta clique enxerga a política externa sob o prisma dos interesses comerciais dos Estados Unidos: uso, ou ameaça do uso, de barreiras tarifárias e não tarifárias como ferramentas para a abertura de mercados aos investimentos e exportações americanos. Esse grupo se alinha com o interesse de Trump em assegurar a hegemonia dos Estados Unidos em setores sensíveis como Inteligência Artificial e recursos energéticos. Diferentemente dos “Guardiões da Ásia”, os “Nacionalistas Econômicos” privilegiam a dimensão comercial e financeira da rivalidade com a China, em detrimento da dimensão militar.

Por último, mas não em último, a “Linha-Dura do MAGA, encabeçada pelo subchefe da Casa Civil Stephen Miller, se opõe a qualquer tipo de ajuda externa e subordinam a política externa às prioridades de sua agenda doméstica: imigração ilegal, em primeiríssimo lugar.

Sempre segundo Hal Brands, as disputas entre essas cinco facções elevam o grau de imprevisibilidade da política externa e de segurança nacional. Os “Falcões Globais” batem de frente com a “Linda-Dura do MAGA”, no exemplo mais óbvio; ou então, “Nacionalistas Econômicos” e “Guardiões da Ásia” procuram solapar as iniciativas recíprocas.

Ao mesmo tempo, ele aponta zonas de convergência importantes, o que pode abrir oportunidades de alianças táticas entre facções como as dos “Falcões Globais” e dos “Guardiões da Ásia”, ou até mesmo destes com a clique da “América, Volte para Casa”, ao menos no que respeita à redução de compromissos militares na Europa e no Oriente Médio….

Ao fim e ao cabo, o professor adverte as autoridades da nova administração contra o que considera falsas e perigosas soluções, entre as quais a vulgarização dos tarifaços comerciais a ponto de uma orgia protecionista enfraquecer as relações da América com aliados preciosos. Ou então, uma pressão tão descabida sobre a Aliança Atlântica, para que esta assuma parcela maior de responsabilidade financeira na estabilização da ordem internacional, a ponto de mergulhar os Estados Unidos, superpotência indispensável, num imprevisível isolacionismo.