Como os acontecimentos da atualidade internacional impactam a segurança de Taiwan (uma segurança cada vez mais ameaçada pela perspectiva de anexação à República Popular da China-RPC)? Se levarmos em conta os sentimentos da grande maioria dos 23,5 milhões de habitantes da ilha, principalmente suas gerações mais jovens, nascidas e criadas em liberdade, desde o final dos anos 1980, essa anexação só poderá ser realizada mediante forte coação militar e/ou ‘psicológica’…. Também pudera. Nos últimos anos, a sociedade taiwanesa vem assistindo, atenta e apreensiva, à escalada de repressão com que Pequim destrói os vestígios do modelo “Um País, Dois Sistemas”, ainda restantes em Hong Kong. No final do século passado, quando o Reino Unido transferiu o controle de sua próspera colônia à RPC, esta se comprometeu a não alterar as instituições políticas de Hong Kong por um prazo de 50 anos. À época, o Ocidente acalentava o sonho de que, ao longo do tempo, o forte desenvolvimento econômico acabaria ‘democratizando’ o regime comunista. A realidade que se seguiu não poderia ter sido mais decepcionante. Em 2020, Pequim impôs legislação de segurança nacional destinada a reprimir protestos populares, censurar a imprensa e prender ativistas pró-democracia. O mais recente ato dessa escalada foi a condenação a 20 anos de prisão do empresário e editor Jimmy Lai, fundador do jornal oposicionista Apple Daily, em fevereiro. Acusações contra ele: conspirar contra a segurança nacional com apoio de estrangeiros e publicar material subversivo. Enfim, Hong Kong é um espelho do que o futuro reserva para Taiwan em caso de anexação à China continental.
E qual seria o impacto disso na arquitetura de defesa da livre navegabilidade no Indo-Pacífico, por onde trafega quase metade de toda a riqueza produzida no planeta e cujo esteio são as alianças militares dos Estados Unidos com potências da região, tais como as Filipinas, a Austrália, a Nova Zelândia e, sobretudo, o Japão?
Uma primeira — e apressada — leitura de dois importantes documentos recém-publicados pelo governo americano poderia levar a conclusões pessimistas e perigosas para o futuro de Taiwan. A Estratégia de Segurança Nacional (ESN, datada de novembro, mas divulgada em dezembro de 2025) e a Estratégia de Defesa Nacional (EDN, de janeiro deste ano) reafirmam a proteção do território nacional e o entorno hemisfério imediato dos Estados Unidos como prioridade número 1. A EDN mobiliza os meios necessários à consecução das metas da ESN, e cada novo governo tem por obrigação a formulação de ambas, à luz da evolução da tecnologia e da conjuntura internacional.
O secretário Pete Hegseth (neste segundo mandato, o presidente Donald Trump alterou o nome da pasta da Defesa para “Departamento da Guerra”, com a intenção de fortalecer o chamado ethos guerreiro nº estabelecimento militar americano, mas a mudança depende ainda de autorização do Congresso para ser oficializada) declarou essa prioridade, em 6 de dezembro último, um dia depois da publicação da ESN, durante evento no Fórum “Reagan” de Defesa Nacional, na Califórnia.
A espetacular ‘extração’ do déspota venezuelano Nicolás Maduro pelos serviços secretos dos Estados Unidos (operação “Absolute Resolve”), no dia 3 de janeiro deste ano, precedida de intensa campanha aeronaval americana contra embarcações alegadamente utilizadas pelo narcotráfico no Caribe e no Pacífico, pareceu comprovar essa opção preferencial pela defesa das Américas, o chamado “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, rebatizada por alguns observadores de “Doutrina Donroe”…. A operação pegou de surpresa não somente o regime bolivariano, mas também o aparentemente firme aliado chinês. Horas antes de sua captura na companhia da primeira-dama Cília Flores, Maduro participara de recepção a uma comitiva de representantes da China, sinal de que os zelosos oficiais da inteligência de Pequim não tinham a menor suspeita do que estava para acontecer. Certos analistas veem aí uma ‘deixa’ tácita de que o regime comunista chinês pode se sentir à vontade para agir irrestritamente em sua esfera de influência asiática, assim como agora faz na sua própria esfera a superpotência americana.
Associa-se a essa percepção o fato de que a guerra dos Estados Unidos e seu aliado israelense contra o Irã, iniciada na madrugada de 28 de fevereiro para 1º de março últimos, está deslocando preciosos foco, energia e recursos militares de Washington para o Oriente Médio, o que tenderia a fragilizar a defesa da Coreia do Sul e do Japão. Do primeiro desses países foram transferidas baterias antimísseis “Thaad” (Terminal-High Altitude Area Defense) para países árabes do Golfo aliados dos americanos; e do segundo, dois navios pertencentes ao Grupo Anfíbio de Prontidão, capitaneado pelo “USS Tripoli”, e à 31ª Unidade Expedicionária dos Marines (fuzileiros navais). O “Tripoli” se deslocou rumo ao Oriente Médio deixando seu porto no Japão com 2.500 fuzileiros navais a bordo e transportando caças furtivos “F-35”, além de veículos anfíbios para desembarque de tropas, o que equivale a dizer que a deterrência de americanos e aliados no Indo-Pacífico passa a depender mais de aviões e de submarinos do que de forças expedicionárias com apoio aéreo oferecido por porta-aviões.
A Coreia do Sul, quinta potência mundial em termos de armamento convencional, é também sede da maior base militar americana fora do território dos Estados Unidos, com uma tropa total de 28.500. Apesar de o presidente esquerdista Lee Jae Myung ter tornado menos frequente a participação dos militares sul-coreanos nos exercícios conjuntos com seus colegas americanos, a fim de, supostamente, acalmar as desconfianças do regime comunista da Coreia do Norte, e, ao mesmo tempo, ter-se comprometido a elevar as despesas militares dos atuais 2,5% do PIB para 3,5% até 2035, o governo de Seul, curiosamente, protestou contra a saída dos “Thaad”….
Defesa hemisférica ou deterrência no Indo-Pacífico (falso dilema) — Uma reflexão cuidadosa sobre esses fatos deve nos acautelar contra raciocínios simplistas e conclusões superficiais.
Para começo de conversa, não deveria constituir motivo de espanto para ninguém que os dois documentos aqui referidos convergem na avaliação de que os desafios à hegemonia americana decorrentes das ambições geopolíticas chinesas só poderão ser adequadamente enfrentados se os Estados Unidos forem capazes de, ‘no mínimo’ assegurar a defesa do próprio território e do entorno continental. Desde que foi formulada, em 1823, a Doutrina Monroe rechaça intervenções de potências extracontinentais no Hemisfério Ocidental. E, hoje, o preenchimento do seu “Corolário Trump” requer pleno acesso — e também plena ‘manobrabilidade’ — dos Estados Unidos a pontos estrategicamente vitais desse hemisfério, como o Canal do Panamá e a Groenlândia, diante de ameaças reais ou potenciais da China ou da Rússia.
É digno de registro que, desde que Trump voltou à Casa Branca, a imigração ilegal, séria fonte de vulnerabilidade do território doméstico da América, praticamente cessou. No Canal do Panamá, via indispensável à rápida transferência de forças navais do Atlântico para o Pacífico na eventualidade de confronto militar com a China, teve sucesso a pressão de Trump sobre o governo de seu colega panamenho José Raúl Mulino: a empresa C. K. Hutchinson, com sede em Hong Kong, deixou de operar os portos de Cristóbal e Balboa, nas duas extremidades do canal; o Panamá abandonou a “nova rota da seda” (multibilionária iniciativa chinesa de conectividade infraestrutural e de telecomunicações oficialmente denominada “Um Cinturão, Uma Rota”; e o governo Mulino determinou a substituição de equipamentos e instalações da Huawei por tecnologia americana, no marco de um acordo de cibersegurança com o Comando Sul das forças armadas dos Estados Unidos.
Quanto ao México, parceiro dos Estados Unidos e do Canadá no acordo comercial USCAM, sua corrente de intercâmbio bilateral com a América chegou a US$ 935 bilhões em 2024. Em setembro do ano passado, o secretário de Estado Marco Rubio visitou a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, resultando desse encontro a criação de grupo de trabalho para a coordenação de políticas de segurança, combate e prevenção à criminalidade. Comitê especial da Câmara de Representantes dos Estados Unidos verificou que empresas da China colaboram com os cartéis mexicanos do crime organizado no fornecimento de insumos e equipamentos para a fabricação de fentanil, traficado para a América. Para ter sucesso, o programa de desenvolvimento econômico de Sheinbaum depende da cooperação americana na erradicação desses cartéis, requisito indispensável à atração de novos e maiores investimentos estrangeiros.
Nada disso, todavia, significa que os Estados Unidos tenham resolvido abandonar o Indo-Pacífico aos desígnios chineses. Na verdade, tanto a ESN quanto a EDN exijam que a região se mantenha aberta de modo a assegurar a livre-navegação e a integridade de importantes cadeias de suprimentos, dissuadindo ambições chinesas em contrário a partir de uma posição de força (“Peace through Strength”). O que o governo Trump2 se recusa a fazer é tentar alcançar esse objetivo com base puramente na confrontação ou em ameaças de estrangulamento dos legítimos interesses econômicos da China, muito menos na humilhação do seu orgulho nacional. Em ambos os documentos estratégicos, Washington se define em busca de uma paz estável, de relações comerciais justas e mutuamente respeitosas, enfim, de estabilidade estratégica com Pequim.
Em linha com o mesmo requisito de compartilhamento de ônus e responsabilidades com seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o governo Trump espera que seus aliados no Indo-Pacífico se disponham a cumprir sua cota de sacrifícios, com a elevação de suas despesas militares em proporção aos respectivos PIBs.
É sob essa perspectiva que o governo Trump encara a questão do deslocamento das atenções e de parte importante dos armamentos americanos baseados na Ásia-Pacífico para a atual guerra contra o Irã.
Compromisso bilionário — Até agora, a mais cabal comprovação do compromisso dos Estados Unidos com a segurança e a defesa de Taiwan é um megapacote, avaliado em US$ 11,1 bilhões, de transferência de sofisticados armamentos americanos, incluindo: 82 “Himars” (High-Mobility Artillery Rocket Systems); 420 “Atacms” (Army Tactical Missile Systems, movido a combustível sólido, com alcance de 186,4 milhas, ou 300 quilômetros, 4 metros de altura e 610 milímetros de diâmetro); US$ 1,1 bilhão em drones “Altius”; mísseis “Javelin” (‘lote’ com valor aproximado de US$ 350 milhões); 1.545 mísseis “TOW2B” (US$ 353 milhões); rede de softwares para missões táticas (US$ 1,01 bilhão); partes sobressalentes de helicópteros “AH-1W” (US$ 96 milhões) — além de plataformas para foguetes de alcance reduzido (finalidade: adestramento); metralhadoras “5.56”; caminhões; veículos de reabastecimento; sistemas de rádio de canal único terrestre e aerotransportado.
No momento, o pacote, que já recebeu o sinal verde preliminar da Casa Branca, percorre os canais burocráticos do Executivo, mas é praticamente certo que conte com a aprovação do Capitólio, em virtude do sólido e tradicional consenso bipartidário pró-Taiwan. Recente visita de uma delegação de senadores americanos ao Japão, a Taiwan e à Coreia do Sul insistiu na urgência de que o Yuan Legislativo (parlamento taiwanês) aprove uma suplementação do orçamento militar a fim de acomodar essa compra gigantesca, medida que vem sendo obstruída pela Oposição, sob a liderança do Kuomintang (KMT), partido favorável a uma aproximação com Pequim, em contraste com o governista Partido Democrático-Popular (DPP). (Mais sobre isso abaixo.)
A China faz o que pode para inviabilizar a concretização do negócio. Em fevereiro último, durante conversa telefônica com Donald Trump, o presidente da RPC e secretário-geral geral do Partido Comunista, Xi Jinping, recomendou-lhe “cautela” com essa megaoperação, e isso foi o bastante para preocupar seriamente setores do governo e da opinião pública de Taipei com a possibilidade de a China vir a ‘cobrir o lance’ durante o próximo encontro dos dois chefes de Estado em Pequim, inicialmente marcado para o começo de abril, mas remanejado, a pedido de Trump, para os dias 14 e 15 de maio. (Mais sobre isso também abaixo.)
Com habitual imodéstia, o presidente americano afirmou, em agosto último, que a presença dele — Trump — na Casa Branca constitui o principal penhor da segurança de Taiwan. Na oportunidade, ele acrescentou ter recebido de Xi a promessa de que a China não invadiria a ilha, pelo menos durante o mandato do seu interlocutor, que expira em janeiro de 2029. No mesmo fôlego, Xi teria lembrado serem os chineses “muito pacientes”….
Prioridade de Xi — A anexação de Taiwan à soberania da RPC é a ‘meta-síntese’ do “Sonho Chinês de Rejuvenescimento Nacional”, lançado por Xi Jinping em 2013, logo que assumiu o comando da segunda superpotência mundial. E até há pouco tempo a inteligência militar dos Estados Unidos acreditava que essa anexação seria tentada até 2027, ano do centenário do Exército de Libertação Popular (ELP). Essa convicção guiou a edição de dezembro último do relatório anual que o Pentágono apresenta ao Congresso informando sobre os desenvolvimentos militares chineses (armamentos nucleares e convencionais; operações de ‘zona cinzenta’, na tênue fronteira entre a paz e a guerra; guarda costeira/milícias marítimas; etc). O documento dedica especial atenção ao empenho chinês em construir capacidades que lhe permitam prevalecer sobre Taiwan na eventualidade de uma anexação manu militare, ainda que o governo de Taipei conte com apoio direto dos Estados Unidos. Nessa hipótese, a contenção da intervenção americana pelo ELP não excluiria o sequer o emprego parcial de armas nucleares e se voltaria, também, a dissuadir a abertura de frentes de combate adicionais com o envolvimento de aliados e parceiros dos Estados Unidos, como Japão, Filipinas e Austrália, entre outros.
O relatório do Pentágono delimitou quatro cenários. O primeiro deles — hipótese de coerção sem guerra — combina operações psicológicas, escalada militar e pressões diplomáticas, econômicas e informacionais (ataques cibernéticos, inclusive), objetivando degradar a infraestrutura de Taiwan e, com ela, a confiança do seu povo na capacidade de se defender.
No segundo cenário, a hipótese é de uma campanha de ataques de precisão, visando decapitar as lideranças taiwanesas e, assim, dificultar a coordenação de contra-ataques e a avaliação/o controle de danos em tempo limitado.
Terceiro cenário: campanha de bloqueio para obrigar Taiwan a se render depois de prolongada interdição do tráfego marítimo e aéreo, com apoio de ataques balísticos, ocupação de ilhas adjacentes e sabotagem cibernética. Objetivo: isolar e pressionar Taiwan até forçá-la a capitular.
O quarto e último cenário é considerado o mais difícil e arriscado: uma invasão anfíbia em larga escala, na qual os militares chineses procuram obter superioridade naval, rompendo defesas costeiras e estabelecendo cabeças-de-ponte até forçar a unificação.
Ainda de acordo com o documento do Pentágono, a China procura compensar a limitada experiência de combate do ELP com grandes exercícios sofisticados. Um exemplo recente é o das manobras “Justice Mission/2025”, de 29 e 30 de dezembro. (‘Pró-memória’: o último engajamento real das forças armadas chinesas data de 1979, quando o país invadiu o Vietnã, que contava com apoio da União Soviética, e foi derrotado.)
Todavia, documento ainda mais recente, divulgado em março último — o relatório anual de avaliação das ameaças à segurança dos Estados Unidos, assinado pela diretora nacional de Inteligência, Tulsi Gabbard —, estima que os chineses preferirão vencer sem luta (na melhor tradição do estratego Sun Tzu, século VI a. C…..), usando meios ‘pacíficos’ para controlar Taiwan e sem compromisso com um calendário rígido para a anexação. Isso porque a China, temerosa da imprevisível ‘letalidade’ de uma resposta militar americana, considera um engajamento militar como cartada por demais arriscada.
Essa estimativa do Gabinete Nacional de Inteligência reforça declarações de Trump de que seu governo almeja um relacionamento mutuamente respeitoso e produtivo com o regime de Pequim. Vale ainda lembrar que nem a ESN nem a EDN citam Taiwan nominalmente, e ambas advogam “estabilidade” para as relações sino-americanas.
O relatório Gabbard, ainda assim, assinala áreas em que a China ameaça os interesses da América no Indo-Pacífico, inclusive com potencial emprego de artefatos nucleares. E também reconhece que os chineses já deslocaram os russos da posição de principais rivais dos Estados Unidos na corrida armamentista aeroespacial, e que Pequim constitui atualmente a mais grave ameaça cibernética à segurança dos Estados Unidos.
Xi Jinping parece sinalizar cada vez mais que o caminho ‘pacífico’ para a anexação passa pelo KMT. Neste mês de abril, ele recebeu com toda pompa a visita de Cheng Li-wun, presidente do partido, evento astutamente agendado para um mês antes do já mencionado encontro entre os líderes chinês e americano em Pequim (meados de maio)…. Para realçar o prestígio da visitante oposicionista taiwanesa, o governo chinês anunciou uma lista de 10 medidas, parte das quais inspirada por Cheng, a exemplo de: retomada de viagens individuais entre várias cidades chinesas e Taiwan; programa de intercâmbio estudantil; permissão para a circulação na China de conteúdos culturais produzidos por Taiwan, desde que estes respeitem a ‘linha justa’ emanada do PCCh; e acesso ao mercado chinês de produtos agrícolas, pescado e outros alimentos originários de Taiwan, os quais sejam produzidos e comercializados por grupos contrários à independência da ilha.
Expurgos militares — Um sintoma das dificuldades enfrentadas pela China para dar uma definitiva ‘solução militar’ ao problema de Taiwan é a mais recente onda de expurgos nos mais altos escalões do ELP. Em janeiro deste a poderosa Comissão Militar Central (CMC) do PCCh, presidida pelo próprio Xi Jinping, afastou os generais Zhang Youxia (75 anos, amigo de infância de Xi e, como ele, filho de um líder revolucionário e herói da Guerra Civil) e Liu Zhenli, sob acusações de facciosismo partidário, corrupção e — algo considerado inverossímil pela imprensa internacional e suas fontes de inteligência — ‘vazamento’ de segredos nucleares para o governo dos Estados Unidos. Paralelamente, nove delegados militares ao Congresso Nacional do Povo (parlamento ‘carimbador’ das decisões do Partido) foram destituídos, entre eles o general Li Qiaoming, ex-comandante das forças terrestres, e o almirante Shen Long, ex-comandante da marinha. Antes composta por sete membros, a CMC conta agora somente com dois membros: o próprio Xi e um general a ele enfeudado, Zhang Shengmin, militar ‘de gabinete’ que já havia sido promovido a vice-presidente do colegiado em outubro último, na sequência do expurgo de outro ex-companheiro de farda. Provavelmente, a principal causa dos expurgos a que Xi vem submetendo a alta hierarquia do ELP desde 2013, é a mórbida desconfiança contra qualquer comandante capaz de fazer-lhe sombra ao poder absoluto. Mao Tsé-tung já ensinava que o poder está no cano do fuzil…. De qualquer modo, é preciso reconhecer que episódios de incompetência e corrupção também devem ter pesado nessas drásticas decisões. O rápido aumento das despesas militares da China fez-se acompanhar de escândalos. De 2015 a 2024, o Instituto de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (Sipri) calcula que esses gastos cresceram 60% e também que eles são 30% maiores que os números oficialmente divulgados. (E aqui cabe uma observação: a rigor, em regime totalitário, cujo partido único não é limitado por requisitos de transparência, nem pelo ‘contrapeso’ de instituições representativas ao Poder Executivo, a corrupção, a patronagem e o clientelismo atravessam de cima a baixo todas as estruturas de poder. O comunismo é o avatar máximo do patrimonialismo.)
No maior desses escândalos, divulgado pelo Pentágono, muitos dos 360 silos de mísseis nucleares baseados em regiões remotas do Norte da China apresentavam defeitos em suas instalações, o que motivou a prisão de vários comandantes do ELP. Um dos atingidos era o general Li Shangfu, ex-ministro da Defesa, que caiu em desgraça em 2023. Li, anteriormente, havia chefiado o setor de equipamentos da CMC. Tudo leva a crer que o destino de Zhang Youxia e Liu Zhenli deverá ser o mesmo desse e de outros companheiros já expurgados: depois do sumário afastamento da CMC e do Politburo do PCCh, a excomunhão do Partido e a expulsão do ELP, seguidas de completo ‘desaparecimento’.
Papel do Japão — Em novembro do ano passado, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, enfureceu Pequim ao declarar que um ataque militar da China a Taiwan fatalmente arrastaria o Japão ao conflito. Os japoneses governaram Taiwan por meio século (1895/1945). Embora o Japão mantenha, desde 1954, uma doutrina exclusivamente autodefensiva, legislação sancionada em 2015 prevê que o governo poderá recorrer à força diante de situações que ameacem a sobrevivência do país. Assim pensava o falecido primeiro-ministro Shinzo Abe, mentor político de Takaichi no Partido Liberal-Democrata. Na eventualidade de uma violenta mudança do status quo por ação militar chinesa, o Japão estaria confrontado com situação desse tipo, e lhe caberia proteger as forças americanas estacionadas em seu território, em conformidade com o tratado nipo-americano de “Cooperação e Segurança Mútuas”, em vigor desde janeiro de 1960, quando substituiu o “Tratado de Segurança” bilateral, celebrado em setembro de 1951 na cidade de San Francisco.
Ainda durante o governo do presidente Democrata Joe Biden, o governo japonês assinou contrato no valor de US$ 2,4 bilhões para a compra de 400 mísseis de cruzeiro “Tomahawk”. A força aérea do Japão conta com uma esquadrilha de caças “F-35” que deverá chegar a 150 unidades transportando mísseis antinavio de fabricação norueguesa. De forma autônoma, os japoneses desenvolvem o seu modelo de míssil antinavio, o “Type-12”, com alcance superior a mil quilômetros.
*”Cadeias de ilhas” — O Japão ocupa lugar de destaque na arquitetura concebida pelos estrategos dos Estados Unidos durante a Guerra da Coreia (início da década de 1950) a fim de conter a expansão da União Soviética e da recém-proclamada República Popular da China no Pacífico. Essa estratégia compreende três “cadeias de ilhas”. A primeira delas se estende desde o Sul do Japão e passa por Taiwan até Bornéu (terceira maior ilha do mundo, compartilhada por três países do Sudeste Asiático: Malásia, Brunei e Indonésia, cabendo a esta última o controle de 75% daquele território).
A segunda cadeia de ilhas começa no arquipélago subtropical japonês de Ogasawara, cerca de mil quilômetros ao Sul de Tóquio, e ‘desce’ até a Indonésia, passando pelo território americano de Guam, pelas Ilhas Marianas Setentrionais (estado-associado aos Estados Unidos) e por Palau, no arquipélago da Micronésia.
A terceira e última cadeia de ilhas compreende o Alaska, o Havaí, o território americano da Samoa e a Nova Zelândia.
A primeira cadeia é, pois, a linha imediata de contenção do expansionismo chinês. Seu rompimento, por exemplo com a queda de Taiwan, colocaria em xeque a liberdade de navegação na região, ferindo dogma central da estratégia dos Estados Unidos. Por isso, acredito que, retórica autopromocional de Trump à parte, que nessa posição geográfica-chave reside a melhor ‘apólice de seguro’ da integridade territorial de Taiwan contra qualquer agressão chinesa.
China X Taiwan: a disputa pelas boas graças de Trump — No final de outubro passado, em Busan, Coreia do Sul, Trump e Xi reencontraram-se pessoalmente pela primeira vez em seis anos. A conversa durou pouco mais de 90 minutos, e durante ela ambos concordaram numa trégua na guerra comercial iniciada com o tarifaço americano de abril (“Dia da Libertação”, na sempre colorida imagérie trumpista). O líder chinês topou fazer concessões como a retomada das compras de soja e de jatos comerciais dos Estados Unidos; um alívio às exportações de terras raras ao Ocidente (matéria-prima essencial à fabricação de aviões militares, veículos elétricos, telefones celulares, mísseis e uma infinidade de outros produtos tecnológicos); e a repressão ao tráfico de fentanil.
De sua parte, Trump se comprometeu a relaxar barreiras impostas pela administração Biden — e confirmadas no atual governo Republicano — ao acesso dos chineses a chips (semicondutores) de última geração, indispensáveis para o desenvolvimento dos maiores sistemas de Inteligência Artificial.
No encontro de Busan, nenhum dos dois tocou no tema Taiwan, mas decerto ele figurará com destaque na agenda da visita de Trump à China em maio (dias 14 e 15, como já foi dito acima). O regime chinês, com sua proverbial e paciente persistência, acredita, pelas razões que analisei neste artigo, num esmorecimento da disposição de Washington em defender Taiwan. Xi vai testar essa convicção propondo que o documento conjunto ‘tirado’ ao final da reunião introduza sutis, porém significativas alterações na linguagem que os Estados Unidos empregam até hoje. Exemplos: em vez de “não apoiar” a independência de Taiwan — modo como Biden expressou a fidelidade americana ao princípio deliberadamente ambíguo de “uma só China”, o qual, desde a década de 1970, define o equilíbrio da triangulação entre Washington, Pequim e Taipé —, Xi espera que Trump concorde com uma linguagem que se oponha inequivocamente a qualquer possibilidade de emancipação taiwanesa. O líder chinês gostaria, também, que o comunicado substituísse as reiteradas profissões de fé americanas em “uma solução pacífica para a questão de Taiwan” por um apoio explícito à visão de “unificação pacífica”.
Em Taiwan, empresas e governo dão-se as mãos para aplacar o humor mercurial do líder do mundo livre, lembrando que Trump, desde sua primeira campanha presidencial, em 2016, já prometia punir a indústria taiwanesa de semicondutores por “roubar” o mercado dos competidores americanos. Em abril do ano passado, um mês depois de o magnata C. C. Wei, da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, ter visitado a Casa Branca e prometido investimentos da ordem de US$ 100 bilhões no Arizona, o governo americano anunciou tarifas de 32% sobre os produtos importados de Taiwan. De modo a tentar apagar esse ‘incêndio’, Taipé, mais recentemente, lançou a ideia de um “Golden Plan” de investimentos nos Estados Unidos, avaliado em meio trilhão de dólares.
O povo de Taiwan e seus representantes torcem para que tanto a barreira formada pela primeira cadeia de ilhas quanto a notória vaidade pessoal de Trump concorram para frustrar a ambição anexacionista da China. Afinal, custa crer que Donald Trump se conformaria em passar para a História como o presidente americano que ‘perdeu’ Taiwan para o redivivo e vermelho “Império do Meio”.


