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Madeleine Lacsko

Sobre Madeleine Lacsko

Jornalista há 26 anos, especializada em Cidadania Digital, colunista do UOL e está à frente do projeto Cidadania Digital na Gazeta do Povo. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan e Antagonista.

Sambaram na cara da sociedade e o castigo veio a cavalo

A Marquês de Sapucaí viu de tudo ao longo das décadas. Viu escolas desafiarem governos, ironizarem presidentes, satirizarem a própria elite cultural que as financia. O que se viu neste carnaval foi diferente. A Acadêmicos de Niterói transformou a avenida em palanque e fez da homenagem ao presidente Lula um espetáculo que, em vez de fortalecer o governo, produziu o efeito contrário. Sambaram na cara da sociedade e o castigo veio a cavalo.

O desfile de carnaval foi alardeado como exaltação cultural. O resultado foi político demais até para aliados. Telões exibindo a trajetória do presidente, execução de trechos associados a jingles de campanha, referências a programas sociais dos governos petistas, menções ao número da legenda, o gesto do “L” repetido em alas inteiras. O próprio noticiário registrou que o presidente foi o único pré-candidato “homenageado”, circunstância que lhe rendeu “exatos 78 minutos de exposição no horário nobre”, segundo a representação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral.

Partido Missão protocolou no TSE uma representação com pedido de liminar contra Lula, o PT e a escola. A petição afirma que o desfile de carnaval trouxe “muitos mais elementos configuradores das irregularidades que esse TSE considera como propaganda antecipada punível”. Sustenta ainda que houve “muitos elementos eleitorais que convolaram a homenagem em descarada campanha eleitoral, desvirtuando completamente a liberdade de expressão cultural e carnavalesca”. O caso foi distribuído à ministra auxiliar da propaganda eleitoral Estela Aranha.

No dia seguinte, o PL foi além e apresentou pedido de produção antecipada de provas para apurar “indícios claros de abuso de poder político e econômico”. O objetivo declarado foi reunir elementos para eventual Ação de Investigação Judicial Eleitoral após a formalização das candidaturas. A peça solicita levantamento de informações sobre possível uso da estrutura da Presidência para captação de recursos e articulação de apoios, além de preservação de documentos, registros de comunicação e fluxo de recursos públicos e privados. Maria Cláudia Bucchianeri, responsável pela petição, registra que os dados “não se apresentam de forma consolidada, padronizada ou estruturada para permitir análise comparativa e contextualizada” e que “a complexidade do fluxo financeiro envolvido” impede aferição clara com base em consultas fragmentadas.

O governo tentou reduzir o episódio a uma celebração carnavalesca. Aliados argumentaram que a cultura não pode ser cerceada e que manifestações artísticas são livres. O problema não foi a homenagem. O problema foi o contexto. Em ano pré-eleitoral, com um presidente apontado como pré-candidato à reeleição, transformar desfile em narrativa institucional produz efeito jurídico e político.

A repercussão foi ainda mais ruidosa quando a briga entre Janja e Lurian ganhou espaço na imprensa. A Folha de S. Paulo e o portal Metrópolesnoticiaram que houve discussão em camarote, com relatos de que a primeira-dama teria expulsado a filha de Lula de uma sala na Sapucaí. O episódio, por si só, seria apenas fofoca palaciana. Dentro de um desfile de carnaval já questionado judicialmente, virou combustível para a percepção de descontrole.

O efeito simbólico foi devastador. A escola acabou rebaixada e até a imprensa internacional repercutiu. Aliados fizeram balanço negativo. A pretendida consagração virou constrangimento. Em política, quando a exaltação é excessiva, a conta chega rápido.

Há algo estrutural nesse episódio. Arte que nasce para contestar e se transforma em instrumento de poder costuma trazer mau agouro. A função histórica da arte, quando transborda para a política, é tensionar o poder e provocar desconforto nos poderosos. Quando a arte se coloca a favor do governante de plantão, ela deixa de desafiar e passa a servir. Inevitável que envelheça mal.

Um ponto ainda mais delicado parece não ter sido percebido pelo governo. Uma das alas do desfile representou a família tradicional e os evangélicos dentro de uma lata de conserva, como se fossem valores ultrapassados, engarrafados, prontos para o descarte histórico. A imagem viralizou imediatamente. Não como triunfo progressista, mas como combustível para reação. Em poucas horas, o que era alegoria virou tendência nas redes a favor da família. A metáfora que pretendia ironizar acabou reforçando aquilo que buscava diminuir e uniu as pessoas contra Lula, com postagem das próprias famílias em latas de conserva.

Esse detalhe importa mais do que parece. Lula só venceu porque recebeu votos de centro, de eleitores que rejeitavam Bolsonaro, mas não abraçaram uma agenda identitária ou culturalmente confrontacional. Recebeu votos de pessoas que prezam pela estabilidade, pela família, pela religiosidade cotidiana, ainda que não se identifiquem com o bolsonarismo. Ao permitir que uma ala associasse esses grupos a uma caricatura enlatada, o desfile de carnaval deixou de ser apenas uma celebração partidária e passou a tocar em sensibilidades morais profundas. O efeito político é previsível: o eleitor que já votou contra Bolsonaro por cansaço pode não estar disposto a votar novamente se sentir que seus valores são tratados como folclore a ser superado.

A sociedade brasileira pode até se dividir sobre Lula, sobre o PT, sobre os limites da propaganda antecipada. O que dificilmente se sustenta é a ideia de que a instrumentalização estética do carnaval não teria consequências. Teve e foram rápidas. Sambaram como se estivessem acima da crítica. Descobriram que a avenida não absolve tudo. Em democracia, a arte deve ser livre. E, quando ela deixa de ser ater para ser propaganda do poder estabelecido, o julgamento não é só dos jurados, é da sociedade.

O resultado da industrialização da mentira

Não é à toa que chamam de pós-verdade. Hoje, rumores e histórias compartilhadas na internet tomam tamanha proporção que temos a impressão de estar diante de algo verídico e baseado em fatos quando, na verdade, são mentiras ou teorias da conspiração. As pessoas espalham esse tipo de coisa para se autopromover ou até surfar na onda do assunto do momento tentando parecer que são informadas, sabem um segredo que ninguém quer que você saiba.

A ignorância e a desinformação são chamativas e atrativas. Muitas vezes, são ações deliberadas para enganar o público. Os mentirosos estão cada vez mais especialistas em mecanismos de autoproteção para que suas inverdades sejam vistas pelos demais como se fossem evidências de algo grave que todos querem esconder.

Esse fenômeno, infelizmente cada vez mais prevalente, se torna ainda mais voraz quando o alvo é a comunidade judaica. Essas manifestações aumentaram drasticamente nos últimos anos, considerando o contexto mundial, especialmente depois do maior massacre de judeus desde o Holocausto. Israel não só foi vítima de um terrível ataque terrorista em 7 de outubro de 2023 e passou a ser também algo de constantes ataques por foguetes e também pelo ar, mar e terra.

O ódio dispensado aos judeus é desproporcionalmente grande. Lembre quantas postagens antissemitas ou “antissionistas” você tem visto nesses últimos anos. Os judeus representam apenas 0,2% da população mundial e 0,06% da população brasileira.

Direcionar críticas e ódio aos judeus se tornou corriqueiro e fácil. Ao invés do aprofundamento em questões globais, que são complexas e muito específicas, teorias da conspiração tomam cada vez mais uma proporção assustadora. Talvez haja a intenção de que, se contada várias vezes, a mentira poderia virar verdade, assim como pregou o então ministro da Propaganda Nazista Joseph Goebbels.

Na semana passada vimos um dos piores exemplos disso, com uma atitude que requer consequências. O escritor Jessé Souza publicou um vídeo no último dia 9 de fevereiro, no qual comentava sua ‘’interpretação’’ sobre o caso de Jeffrey Epstein, notório por seus crimes sexuais terríveis contra inúmeras vítimas menores de idade.

Depois da tentativa pífia de atribuir inúmeras teorias da conspiração infundadas ao caso, sem nenhum embasamento factual e usando sua imaginação criativa, Jessé foi pressionado e apagou o vídeo em que incitava uma ligação entre o caso Epstein, a comunidade judaica e o Estado de Israel. Esta foi mais uma investida para repetir mentiras o suficiente até que elas aparentem ser verdades.

Infelizmente, ele resolveu publicar um novo vídeo no qual tentava se retratar e se desculpar por atribuir o caso Epstein a um suposto grupo de lobby judaico mundial. Porém, Jessé somente redobra suas falsas acusações, fazendo comparações que são a mais clara face do antissemitismo segundo os critérios da IHRA (Aliança Internacional pela Memória do Holocausto). Antissionismo é uma das formas de manifestação de antissemitismo, bem como as comparações entre o Estado de Israel e o regime nazista.

O caso de Epstein é constantemente discutido em Israel, sendo criticado por toda a gama política e todos os lados da sociedade israelense. Os crimes de Epstein não representam a comunidade judaica mundial, muito menos o Estado de Israel.

Além disto, há duas graves injustiças contra a memória das vítimas do holocausto. A primeira são tentativas de diminuir a escala e importância do genocídio sofrido pelo povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial, onde um terço da população judaica foi brutalmente assassinada. A outra é o requinte de usar contra os judeus os termos especificamente criados para descrever esses crimes. Aliás, o termo genocídio foi criado justamente para descrever o holocausto, já que não havia palavra para o horror inédito na história.

Excelências intocáveis: crimes de opinião serão mais graves quando o alvo é autoridade

Esta semana, o Supremo Tribunal Federal tomou uma decisão que vai diametralmente contra as mudanças pedidas pela Organização dos Estados Americanos para melhorar a liberdade de expressão no Brasil. Por 6 votos a 4, a corte manteve o aumento de pena para crimes contra a honra quando o alvo é autoridade pública, reforçando a punição criminal da palavra dirigida aos poderosos. É justamente no momento em que se esperava o movimento oposto: a descriminalização da opinião e o deslocamento desses conflitos para a esfera cível.

O julgamento encerrou uma ação proposta pelo Partido Progressista questionando a constitucionalidade do dispositivo do Código Penal que prevê acréscimo de um terço na pena de calúnia, difamação e injúria quando esses crimes são praticados contra funcionários públicos ou presidentes de Poder. Prevaleceu a tese apresentada pelo ministro Flávio Dino, acompanhada por Nunes Marques, Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Para essa maioria, o agravamento da pena não protege apenas a pessoa física do agente público, mas a instituição que ele representa.

A divergência expôs uma fratura relevante dentro do Tribunal. Luís Roberto Barroso, André Mendonça e Cármen Lúcia defenderam que o aumento de pena deveria se restringir à calúnia, único crime contra a honra que envolve imputação de crime. Edson Fachin foi além e votou pela improcedência total da norma, afirmando que a Constituição não autoriza hierarquizar a proteção penal da honra conforme o cargo ocupado pela vítima. Fachin lembrou que, em uma democracia, o controle dos abusos do poder se faz por transparência e escrutínio público, não por intimidação penal da crítica.

O contraste dessa decisão com o Relatório Especial sobre a Situação da Liberdade de Expressão no Brasil, publicado pela Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, é direto e incontornável. Não se trata de um texto opinativo, mas de um documento técnico elaborado após visita oficial ao Brasil entre 9 e 14 de fevereiro de 2025, liderada pelo relator Pedro Vaca Villarreal, com análise do marco jurídico, decisões judiciais e dezenas de oitivas com jornalistas, comunicadores, acadêmicos, organizações da sociedade civil, representantes de plataformas digitais e lideranças políticas. Fui uma das jornalistas censuradas que prestaram depoimento direto ao relator, relatando casos concretos de restrição à minha atuação profissional. Os próprios ministros do STF estiveram com o relator.

O relatório parte de um princípio estruturante do sistema interamericano: a liberdade de expressão existe, sobretudo, para permitir a fiscalização do poder. Por isso, é explícito ao afirmar que “os agentes públicos, em razão da natureza de suas funções, devem demonstrar maior tolerância e menor sensibilidade frente à crítica”. A lógica é simples e democrática: quem exerce poder deve estar mais exposto ao escrutínio social, não mais protegido contra ele.

A partir desse princípio, a recomendação é clara. Opiniões não devem ser criminalizadas. Conflitos envolvendo honra, especialmente quando relacionados a agentes públicos e a assuntos de interesse público, devem ser tratados prioritariamente na esfera cível, por meio de mecanismos proporcionais de reparação. O uso do direito penal para reagir à crítica produz efeito inibidor sobre o debate público e incentiva a autocensura.

O relatório relembra que essa posição não é nova. Desde 1994 a Comissão Interamericana recomenda a revogação das leis de desacato por entender que elas reprimem a expressão necessária ao funcionamento de sociedades democráticas. A Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão afirma que tais leis atentam contra a liberdade de expressão. A própria Corte Interamericana já reconheceu que a descriminalização desses tipos penais adequa os ordenamentos nacionais à Convenção Americana de Direitos Humanos.

O documento mais recente apenas atualiza esse diagnóstico diante do cenário brasileiro, registrando preocupação com o uso recorrente dos crimes contra a honra para obstaculizar a divulgação de informações de interesse público. Aponta também que as penas previstas podem resultar em prisão, agravadas por fatores como o uso da internet e pela ausência de uma defesa clara baseada no interesse público da expressão.

A decisão do STF representa uma escolha institucional consciente. Em vez de avançar na descriminalização da palavra, a corte amplia a punição penal quando a crítica se dirige ao próprio poder. Em vez de reconhecer que autoridades devem ser mais abertas ao escrutínio, reafirma uma proteção penal diferenciada.

O efeito prático é imediato. A crítica política passa a carregar risco penal agravado. Jornalistas e cidadãos aprendem a medir palavras pelo medo, não pelo interesse público. O espaço de debate se estreita, e a autocensura se torna cálculo racional.

Neutralidade não é uma opção. Não se trata de um detalhe técnico do Código Penal, mas da redefinição dos limites do debate público no país. Ou a liberdade de expressão existe para incomodar autoridades, ou aceitaremos viver em um ambiente em que excelências se tornam cada vez mais intocáveis e a crítica passa a ser tratada como crime, não como fundamento da democracia.

Por que a ativista libertária Gloria Álvarez incomoda tanto os autoritários e extremistas?

O livro Como defender a liberdade sem se destruir no processo, de Gloria Álvarez, lançado no Brasil neste mês de janeiro, parte de uma constatação incômoda: defender a liberdade tem um custo humano real e fingir que esse custo não existe é uma forma sofisticada de autoengano. A obra não promete heroísmo, nem redenção política, nem pertencimento confortável. Ela descreve, com franqueza rara, o desgaste psicológico, social e moral de quem escolhe sustentar ideias sem se ajoelhar a um político específico e sem transformar convicção em seita.

A autora é uma das vozes mais corajosas na defesa da liberdade de expressão, Gloria Álvarez, cientista política guatemalteca. Formada em Relações Internacionais e Ciência Política pela Universidade Francisco Marroquín, com pós-graduações em Política e Economia pela Universidade de Georgetown e mestrados em Antropologia Aplicada e Desenvolvimento Internacional, Gloria ganhou projeção internacional após um discurso viral contra o populismo de esquerda em 2014, no Parlamento Ibero-Americano da Juventude. Desde então, construiu uma trajetória marcada pela crítica consistente a projetos autoritários de esquerda e de direita, pela defesa do liberalismo clássico e por uma recusa sistemática a servir como adereço intelectual de qualquer liderança.

O livro chega ao Brasil com tradução do LOLA, organização liberal da sociedade civil que também promoveu o evento de lançamento em São Paulo com a própria autora. Tive a honra de escrever a quarta capa.

Em um ambiente político viciado em rótulos, a obra se destaca por fazer algo que incomoda profundamente extremistas de todos os campos: desloca o debate do plano moralista para o plano humano. Gloria não escreve para provar superioridade ideológica. Escreve para expor mecanismos de captura emocional que transformam pessoas comuns em militantes exaustos, ressentidos e dependentes de aprovação.

Um dos méritos centrais do livro de Gloria Álvarez é tratar o ativismo como experiência subjetiva, e não como performance pública. “Ninguém me avisou que defender a liberdade significaria perder amigos, ser reduzida a caricaturas e carregar uma vigilância constante sobre cada palavra dita. Ninguém me avisou que a solidão não viria como exceção, mas como rotina.”, diz um trecho do livro que desmonta a fantasia do engajamento como gesto épico e revela o que costuma ser escondido por slogans.

Em outro momento, a autora vai ainda mais fundo ao descrever a relação entre redes sociais, identidade e exaustão emocional: “Quando sua opinião vira sua identidade, qualquer discordância soa como ataque pessoal. É assim que as pessoas se tornam prisioneiras da própria causa. Elas não defendem ideias, defendem a si mesmas de um colapso interno.” O alvo não é apenas o autoritarismo explícito, mas a estrutura psicológica que o sustenta.

É por isso que Gloria Álvarez incomoda tanto. Autoritários precisam de fiéis, não de indivíduos capazes de sustentar ambiguidade, dúvida e custo pessoal. Extremistas precisam de adesão total, não de gente que reconhece fragilidades internas e se recusa a terceirizar a própria consciência. O livro desmonta a lógica da pureza política e expõe a autoindulgência embutida na adesão a grupos que oferecem pertencimento em troca de obediência.

A tecnologia aparece como personagem central dessa engrenagem. A autora descreve uma geração que cresceu confundindo viralização com verdade, alcance com legitimidade e repetição com consenso. Em um trecho especialmente incisivo, Gloria Álvarez afirma: “A mesma máquina que promete dar voz a todos permite que regimes autoritários e interesses escusos comprem relevância, fabriquem indignação e criem a ilusão de maioria. O problema não é só o poder, é a disposição das pessoas em entregar o próprio julgamento.” A crítica não se limita a governos. Ela inclui influenciadores, algoritmos e o público que consome tudo isso sem resistência.

Esse ponto torna a obra particularmente relevante para jovens que já nasceram na era digital. Ao contrário de livros que romantizam o engajamento, Como defender a liberdade sem se destruir no processo funciona como um aviso. A defesa da liberdade exige maturidade emocional, capacidade de frustração e disposição para ficar sem aplauso. Exige aceitar que nem toda batalha rende curtidas e que nem toda convicção vira tendência. Exige, sobretudo, resistir à tentação de transformar política em anestesia pessoal.

No fundo, o livro de Gloria Álvarez propõe uma libertação que vai além da esfera institucional. Ele sugere que a verdadeira prisão não está apenas no Estado inchado ou no líder autoritário, mas na necessidade psicológica de pertencer a qualquer custo. Aderir a um grupo, muitas vezes, é uma forma confortável de não olhar feridas internas, de não lidar com inseguranças e de não assumir responsabilidade pela própria vida.

Ao recusar o papel de mascote ideológico e ao expor o preço humano do ativismo, Gloria Álvarez não oferece consolo. Oferece lucidez. E é exatamente isso que a torna tão incômoda. Para autoritários porque desmonta o mecanismo de controle e para extremistas porque retira a fantasia da superioridade moral. Já para quem preserva a humanidade e lucidez, oferece algo muito precioso, a possibilidade rara mas efetiva de defender a liberdade sem se destruir no processo.

Não adianta mostrar o vídeo: eles dirão que não prova nada

Um estudo recente chega a uma conclusão desconfortável para a era da superexposição visual: provar com vídeo não funciona. Ao contrário do que se imagina, imagens não encerram disputas nem produzem consenso. Elas tendem a reforçar crenças prévias e a tornar posições ainda mais rígidas. Diante do mesmo registro visual, grupos diferentes não apenas discordam. Eles passam a se sentir mais certos do que já pensavam antes de assistir. A evidência visual não corrige o viés. Em muitos casos, o aprofunda.

Essa conclusão é apresentada em um trabalho publicado pela newsletter acadêmica The Power of Us, assinado por Anni Sternisko, pesquisadora em psicologia social, Dominic Packer, professor de psicologia na Universidade de Lehigh, e Jay Van Bavel, professor da Universidade de Nova York e um dos principais especialistas mundiais em identidade social e polarização. O estudo reúne evidências experimentais e análises de casos reais para mostrar como identidade, pertencimento e lealdade a grupos moldam não apenas a interpretação, mas o próprio ato de ver.

Um dos exemplos centrais analisados é um caso concreto ocorrido nos Estados Unidos, que se transformou em uma grande polêmica nacional. Em Minneapolis, uma jovem mulher foi morta durante uma abordagem do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. O ICE é uma agência federal responsável por fiscalizar imigração e executar deportações, e sua atuação já é, por si só, objeto de forte controvérsia política no país.

A mulher estava sozinha em seu carro, em uma área urbana, quando agentes do ICE tentaram abordá-la. Ao perceber a ação, ela tentou fugir com o veículo. O episódio foi registrado por múltiplas câmeras, incluindo imagens de celulares, de sistemas de vigilância e dos próprios agentes. Houve vídeos de vários ângulos, com áudio, sequência temporal e boa qualidade de imagem. Tudo aquilo que costuma ser exigido quando alguém diz que é preciso “ver o vídeo” antes de formar opinião. O presidente Donald Trump decidiu divulgar oficialmente o vídeo da abordagem policial para encerrar a discussão sobre o tema. O efeito foi exatamente o oposto do esperado.

Autoridades federais afirmaram que a agente agiu em legítima defesa, sustentando que o carro teria sido usado como arma. Outras autoridades, juristas, ativistas e lideranças políticas afirmaram que as imagens não sustentavam essa versão. Celebridades, comentaristas e figuras públicas se posicionaram de forma veemente. Protestos se espalharam. Cada novo vídeo divulgado não reduzia a controvérsia. A intensificava.

Quanto mais imagens surgiam, mais as pessoas se aferravam às convicções que já tinham antes de assistir a qualquer uma delas. Quem desconfiava da atuação do ICE via confirmação de abuso em cada frame. Quem defendia a agência via prova de ameaça em exatamente as mesmas cenas. O vídeo deixou de ser evidência e passou a ser munição. Servia para confirmar identidades, não para esclarecer fatos.

É exatamente esse mecanismo que o estudo descreve. A percepção visual não é neutra. Ela é orientada por expectativas, valores e pertencimento a grupos. Pessoas não assistem a vídeos para descobrir o que aconteceu. Assistem para confirmar quem são e de que lado estão. O cérebro seleciona detalhes, ignora outros e constrói causalidade de acordo com narrativas prévias. A prova visual não dissolve o conflito. Ela se encaixa nele.

Isso ajuda a explicar um paradoxo central do nosso tempo. Nunca houve tantas câmeras, tantos registros, tantos vídeos disponíveis. E nunca foi tão difícil construir uma narrativa comum sobre os fatos. A crença de que “agora está tudo filmado” convive com a incapacidade prática de concordar sobre o que se vê. O vídeo não funciona mais como árbitro da realidade. Funciona como extensão da disputa identitária.

Esse fenômeno não se limita a casos extremos ou a grandes conflitos raciais e institucionais nos Estados Unidos. Ele aparece no cotidiano, em discussões familiares, em brigas de trânsito, em denúncias de abuso, em disputas políticas locais. Alguém mostra um vídeo acreditando que aquilo encerrará a conversa. A resposta quase sempre vem rápida: isso não prova nada, falta contexto, o recorte é enviesado. Não necessariamente por má-fé, mas porque as pessoas realmente não estão vendo a mesma coisa.

O estudo aponta para um limite estrutural da vida contemporânea. Não basta registrar a realidade. É preciso reconhecer que olhamos para ela carregando identidades, medos e compromissos prévios. Enquanto insistirmos na fantasia de que a imagem fala por si, continuaremos frustrados. O conflito não está na falta de provas. Está na dificuldade de admitir que ver não é o mesmo que compreender.

O escândalo da milícia virtual paga a peso de ouro pelo Banco Master

O Banco Master pode vir a se tornar o maior escândalo de corrupção da história do país. Ainda não sabemos o alcance total do que está sendo investigado, nem quantas camadas de poder serão expostas ao longo do caminho. O que já é possível afirmar é que o grau de desespero para impedir que informações cheguem à opinião pública não tem precedentes. Autoridades extremamente poderosas, ligadas a um banco que até pouco tempo atrás era praticamente desconhecido do grande público, passaram a agir de forma atabalhoada, opaca e agressiva. Mesmo dominando as maiores autoridades do país, o banco recorreu a influenciadores digitais.

As informações reveladas pela jornalista Malu Gaspar em O Globo indicam pagamento direto a influenciadores, com valores elevados, intermediações profissionais e contratos desenhados para produzir efeito político. Não se trata de opinião espontânea nem de engajamento orgânico. Houve coordenação clara de ataques ao Banco Central, tentativa deliberada de constranger a investigação da Polícia Federal contra o Banco Master e uso de narrativas conspiratórias para deslocar o foco dos fatos e uma atuação sincronizada em datas estratégicas.

O dado mais revelador sobre as milícias digitais do Banco Master não é o uso desse método, mas o contexto em que ele foi acionado. Quando instituições, cargos e relações já não são suficientes para conter a circulação de informações, recorre-se ao ruído. A lógica deixa de ser convencer e passa a ser confundir. O objetivo não é construir uma versão sólida, mas tornar qualquer versão indistinta. Criar cansaço, desinformação e medo de se posicionar. A milícia digital entra em cena quando o poder formal já não garante silêncio.

Esse mecanismo não surgiu agora. Ele é antigo, conhecido e amplamente documentado. Em colunas passadas na Gazeta do Povo, mostrei como a militância digital organizada foi estruturada, treinada e financiada ao longo dos anos, com métodos explícitos de coordenação e pagamento. Em Prepare a paciência: CUT ressuscita os MAVs, militância virtual do PT, ficou claro que essas engrenagens nunca desapareceram, apenas se adaptaram ao ambiente das redes.

Em Treinamento do ‘Mensalinho do Twitter’ ensinava a compartilhar notícias de Lindbergh e Tiburi, o modelo foi exposto de forma ainda mais direta, com metas, orientações e pagamento para amplificação coordenada de narrativas.

O que mudou desde então não foi o método, mas sua normalização. A militância paga deixou de ser escândalo para se tornar ferramenta. O que antes era denunciado como fraude do debate público passou a ser tratado como estratégia de comunicação oferecida por agências a empresas privadas. Influenciadores deixaram de ser vistos como intermediários de ideias e passaram a operar como peças contratadas de operações políticas e econômicas.

Nada disso prosperaria sem um elemento central, quase sempre ignorado por conveniência: o público. A milícia digital só funciona porque há terceirização do pensamento.

Pessoas não acompanham processos, não leem documentos, não confrontam versões. Elas confiam. Só que não confiam em quem tem experiência e credibilidade, confiam em quem fala com segurança, indignação performática e aparência de ser do seu grupo. A autoridade é trocada pela identificação emocional.

O ataque em manada como o do caso Banco Master segue um roteiro conhecido. Um nome com grande alcance lança a narrativa. Outros replicam com pequenas variações. Perfis médios amplificam. Quem questiona vira suspeito. Quem pede prova é acusado de má-fé. Quem tenta compreender é tratado como cúmplice. Não se busca esclarecer, busca-se ocupar o espaço. O silêncio do outro lado passa a ser a vitória.

Há ainda um traço psicológico incômodo nesse processo. Muitos só conseguem enxergar a milícia digital quando ela atua contra aquilo em que acreditam. Quando beneficia o seu campo, passam a chamar de engajamento, reação legítima ou coragem. É a cegueira seletiva de quem prefere preservar a sensação de lucidez a admitir que também está sendo manipulado. Ver o erro no outro virou identidade. Reconhecer o próprio engano virou ameaça.

O caso Banco Master é particularmente revelador porque mostra até onde esse sistema pode ir quando interesses realmente grandes entram em risco. Quando nem o poder institucional, nem a opacidade processual, nem a intimidação simbólica são suficientes, recorre-se ao que hoje é mais eficiente para deformar a realidade pública: a compra de influência em larga escala.

Esse escândalo do Banco Master ainda está em curso e pode revelar muito mais. Inclusive até que ponto a sociedade aceita viver em um ambiente onde opinião é mercadoria, ataque é terceirizado e a verdade depende de quem pagou mais caro para abafá-la. Obviamente é imoral e desonesto participar desse tipo de esquema. Infelizmente, ele será cada vez mais lucrativo enquanto o público continuar delegando o próprio juízo.

Nosso 2026 será de novos começos ou de mais do mesmo?

O ano de 2026 se anuncia como um marco simbólico. Teremos Copa do Mundo, eleições presidenciais e um país atravessado por um cansaço profundo. Não se trata apenas de fadiga econômica ou política, mas de um esgotamento mais amplo, que atravessa instituições, linguagem e expectativas. O Brasil entra nesse novo ciclo sem ter resolvido as tensões acumuladas na última década e sem demonstrar maturidade para enfrentá-las de forma honesta.

O ambiente institucional já vinha fragilizado, mas o episódio envolvendo o Banco Master representou uma inflexão qualitativa. Não foi apenas mais um conflito jurídico ou uma disputa de interpretações legais.

O que se tornou visível foi algo mais grave: a sensação de que determinadas estruturas passaram a operar em circuito fechado, com mecanismos de autoproteção que escapam ao controle público. A questão deixou de ser técnica e passou a ser simbólica. Quando decisões relevantes parecem blindadas contra questionamentos, a confiança na institucionalidade se rompe.

Esse deslocamento altera profundamente a relação da sociedade com o Estado. Durante anos, as críticas ao Supremo Tribunal Federal se concentraram em excessos pontuais ou em leituras jurídicas consideradas expansivas.

Agora, a percepção mudou de patamar. A crítica passou a atingir a própria ideia de imparcialidade. Não se discute apenas se uma decisão foi correta, mas se o sistema ainda é capaz de se autorregular. Quando essa dúvida se instala, a legitimidade sofre um abalo que não se resolve com notas técnicas ou discursos institucionais.

É nesse contexto que se revela um traço recorrente da vida pública brasileira: a dificuldade de lidar com a responsabilidade. Diante de situações complexas, uma parte significativa da sociedade prefere reagir emocionalmente a compreender. Em vez de enfrentar o desconforto de uma análise mais profunda, opta por narrativas que confirmem certezas prévias. O gesto do “eu avisei” substitui o esforço de compreender o que, de fato, está acontecendo.

A pesquisa Datafolha de dezembro escancara uma contradição que já não pode mais ser tratada como ruído estatístico. Segundo o levantamento, 47 por cento dos brasileiros se declaram de direita ou centro-direita, enquanto 28 por cento se dizem de esquerda ou centro-esquerda.

Ao mesmo tempo, 40 por cento afirmam ser petistas, e 34 por cento se dizem bolsonaristas. Isso significa, de forma objetiva, que há brasileiros que se dizem de direita e, ao mesmo tempo, se identificam como petistas, assim como há pessoas que se dizem de esquerda e se reconhecem como bolsonaristas. Não se trata de incoerência pontual, mas de um padrão.

Esse dado revela algo mais profundo do que confusão ideológica. Ele mostra que, para uma parcela significativa da população, as categorias políticas deixaram de ser referências de pensamento e passaram a funcionar como identidades emocionais.

A identidade política deixa de ser um conjunto de ideias e passa a ser uma marca de grupo, quase um rótulo social. Nesse cenário, dizer-se de direita ou de esquerda não significa defender projetos distintos de país, mas apenas sinalizar de que lado se está.

O resultado é uma política cada vez menos racional e mais performática. Em vez de discutir propostas, discute-se pertencimento. Em vez de analisar consequências, escolhe-se um lado. O debate se transforma em espetáculo, e a participação política, em afirmação de identidade. A lógica não é mais convencer, mas sinalizar. Não se busca compreender, mas marcar posição.

Nesse ambiente, a figura do salvador da pátria retorna com força. Diante da frustração e da sensação de impotência, cresce a expectativa de que alguém resolva tudo em nome de todos. A responsabilidade individual é terceirizada. O pensamento crítico cede espaço à esperança de que uma liderança carismática faça o trabalho que a sociedade não quer fazer. É uma forma de infantilização coletiva, em que a política passa a ser vivida como promessa de alívio emocional.

O problema é que essa dinâmica não produz maturidade democrática. Pelo contrário, aprofunda a dependência e reduz a capacidade de ação consciente. Quanto mais se espera por um salvador, menos se constrói cidadania. Quanto mais se delega o pensamento, mais fácil se torna manipular afetos e conduzir massas.

O Brasil entra em 2026 diante dessa encruzilhada. Ou enfrenta o desconforto de pensar com autonomia, reconhecer limites e assumir responsabilidades, ou seguirá preso ao ciclo de frustração, indignação e expectativa messiânica. A questão central não é quem vencerá a eleição, mas se a sociedade está disposta a amadurecer.

Sem esse movimento, qualquer mudança será apenas cosmética. O país continuará oscilando entre euforia e decepção, sem nunca enfrentar o núcleo do problema. O verdadeiro desafio não é escolher um novo salvador, mas aprender, finalmente, a viver sem um.

O vício mais poderoso e perigoso do mundo não é mais uma substância

Durante décadas, quando se falava em vício, o imaginário social recorria a drogas, álcool, nicotina ou jogos de azar. Substâncias químicas e comportamentos já reconhecidos como destrutivos. O que mudou no nosso tempo não foi apenas o objeto do vício, mas sua forma de apresentação. O vício mais poderoso do mundo contemporâneo não tem cheiro, não deixa marcas físicas imediatas e raramente é percebido como ameaça enquanto se instala. Ele se apresenta como entretenimento leve, descanso mental e até como forma legítima de informação.

Um estudo publicado em 2025 no Psychological Bulletin oferece um mapa preciso desse fenômeno. Trata-se de uma revisão sistemática com meta-análise que reuniu dados de 71 estudos independentes, com quase 100 mil participantes, analisando os efeitos do consumo de vídeos de formato curto sobre a cognição e a saúde mental. O método é relevante justamente por eliminar impressões subjetivas e consolidar padrões que se repetem em diferentes contextos culturais e etários.

As conclusões são consistentes. O consumo frequente de vídeos curtos está associado a prejuízos significativos na atenção sustentada e no controle inibitório, isto é, na capacidade de manter foco e resistir a impulsos. Em um dos trechos, os autores afirmam que “o consumo de vídeos curtos está consistentemente associado a um funcionamento cognitivo mais fraco, especialmente em domínios relacionados à atenção e ao autocontrole”. Não se trata de um efeito marginal. Trata-se de uma reorganização do modo como a mente aprende a funcionar.

No campo da saúde mental, o padrão se repete. O estudo identifica associações claras entre uso intensivo desse tipo de conteúdo e níveis mais elevados de estresse e ansiedade, além de impactos negativos sobre o sono e o bem-estar geral. Os pesquisadores observam que “os efeitos negativos observados não se limitam a adolescentes, manifestando-se também de forma consistente em adultos”, desmontando a ideia de que estamos diante de um problema transitório ou geracional.

O ponto mais decisivo, porém, não está apenas nos números, mas no mecanismo. Plataformas baseadas em vídeos curtos operam com estímulos rápidos, recompensas imprevisíveis e rolagem infinita. Esse desenho favorece a formação de hábitos automáticos. O estudo descreve esse processo ao registrar que “os sistemas de design dessas plataformas promovem padrões de uso compulsivo, reforçando a fragmentação da atenção e a dificuldade de engajamento prolongado”. A mente passa a ser treinada para o imediato, para o fragmento, para o próximo estímulo.

É assim que a tecnologia deixa de ser ferramenta e se torna vício. E quando o vício se consolida, ele passa a moldar não apenas comportamentos, mas expectativas internas. O esforço começa a parecer sofrimento. O silêncio, ameaça. A continuidade, tédio. O vício mais poderoso não é aquele que paralisa, mas o que reconfigura silenciosamente o limiar do que é suportável para a mente humana.

Os próprios autores do estudo sugerem estratégias de mitigação, como limites de tempo, pausas deliberadas e estímulo a atividades que favoreçam atenção prolongada. Mas essa resposta, embora necessária, é insuficiente para compreender a dimensão do problema. O que está em jogo não é apenas desempenho cognitivo. É a própria relação do ser humano com a atenção, que sempre foi o fundamento da vida interior.

A tradição cristã nunca tratou a atenção como detalhe psicológico. Atenção é disposição da alma. Santo Agostinho já compreendia que o coração humano é inquieto porque se dispersa, e que a conversão envolve reunir o que foi espalhado. A palavra bíblica para conversão, metanoia, significa literalmente mudança da mente. Não há encontro com Deus sem uma mente capaz de permanecer.

É por isso que o Natal não pode ser reduzido a um sentimento vago de acolhimento. O nascimento de Cristo é a entrada do Logos no mundo. Logos não é emoção. É sentido, ordem, palavra que pede escuta.

Cristo não chama pela excitação, nem pela avalanche de estímulos. Ele chama pelo seguimento, que exige tempo, presença e fidelidade. “Permanecei em mim” não é uma metáfora confortável. É uma exigência espiritual.

O vício contemporâneo é especialmente corrosivo porque nos treina a fugir exatamente dessas condições. Ele nos educa a evitar o silêncio, a interromper qualquer desconforto, a substituir interioridade por estímulo. Não por acaso, as grandes práticas cristãs sempre caminharam na direção oposta. O deserto, o jejum, a vigília e a oração não são punições, mas pedagogias da atenção. Elas devolvem ao homem a capacidade de suportar a própria presença diante de Deus.

O Natal, nesse sentido, é um confronto direto com a lógica do vício moderno. A encarnação não acontece no barulho, nem na distração, mas na noite, no recolhimento, na espera. Em um mundo que nos treina a deslizar infinitamente para o próximo estímulo, o presépio nos obriga a parar. A olhar. A permanecer.

Talvez o aspecto mais perigoso desse vício aparentemente inofensivo seja exatamente este: ele não rouba apenas tempo ou foco. Ele compromete a condição interior necessária para reconhecer a verdade quando ela se apresenta.

Em uma cultura que nos quer permanentemente distraídos, proteger a atenção deixa de ser uma recomendação de bem-estar e se torna um ato espiritual. Porque seguir Cristo exige algo que o vício contemporâneo tenta corroer desde o início: a capacidade de permanecer quando tudo nos empurra a fugir.

Partido Comunista Chinês está conseguindo remodelar o conceito de direitos humanos no mundo por meio de IA

Durante décadas, direitos humanos foram entendidos como limites impostos ao poder do Estado para proteger o indivíduo. Liberdade de expressão, privacidade, devido processo legal e proteção contra vigilância arbitrária formavam o núcleo desse conceito. O que está em disputa agora não é apenas o respeito a esses direitos, mas o próprio significado deles. Aos poucos, a ideia de liberdade vem sendo substituída pela noção de eficiência, estabilidade e desenvolvimento administrado.

É nesse ponto que a inteligência artificial se torna central. Quando a tecnologia passa a organizar a vida social, jurídica e informacional, o controle deixa de parecer coerção e passa a parecer funcionamento normal do sistema. A vigilância se transforma em gestão, a censura em moderação automatizada, a repressão em prevenção de riscos. Direitos não desaparecem formalmente, mas são redefinidos por meio do hábito.

É exatamente esse processo que um relatório do Australian Strategic Policy Institute descreve ao analisar o uso de inteligência artificial pelo Partido Comunista Chinês. O estudo mostra como grandes modelos de linguagem e outros sistemas avançados de IA estão sendo integrados ao aparato estatal para automatizar censura, ampliar vigilância, prever comportamentos e suprimir dissidências de forma preventiva. A tecnologia deixa de ser ferramenta auxiliar e passa a operar como infraestrutura permanente de controle.

O relatório detalha como a IA está sendo incorporada a áreas sensíveis como o sistema de justiça criminal, incluindo policiamento preditivo, tribunais inteligentes e prisões inteligentes. Essa automação aumenta a eficiência do Estado, mas reduz transparência, enfraquece mecanismos de responsabilização e amplia a assimetria de poder entre governo e cidadãos. Direitos humanos, nesse modelo, deixam de ser barreiras e passam a ser reinterpretados como variáveis administrativas.

Outro ponto central é a industrialização da censura. As exigências legais do regime criaram um mercado robusto de tecnologias de controle baseadas em IA. Grandes empresas chinesas passaram a desenvolver e vender sistemas de censura cada vez mais baratos, rápidos e eficazes, incorporando a repressão ao funcionamento normal da economia digital. A censura não é mais exceção, é parte do negócio.

Essa análise foi apresentada ao público brasileiro pelo meu amigo Augusto de Franco, pesquisador e analista político, especialista em democracia, por meio de um artigo publicado no site Dagobah. Ao examinar o relatório, Augusto destaca como a IA transforma o controle estatal em algo difuso, distribuído e quase invisível. O poder não se impõe apenas pela força, mas pela normalização tecnológica. Quando tudo funciona, ninguém questiona. E quando ninguém questiona, o conceito de direito se dissolve.

Luiza Possi é atacada e tem intimidade exposta por Maria Gadú depois de defender Bolsonaro

A cena é conhecida. Uma artista resolve falar de política, mas não do jeito certo. Em vez de repetir o discurso padrão da classe, ela grava um vídeo em que diz viver “tempos injustos”, fala de “ímpios no poder”, pede livramento divino e afirma crer em uma nação reconstruída “pelo nome de Jesus”. O contexto é a confirmação da pena de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão. Luiza Possi, hoje casada, mãe de dois filhos e assumidamente cristã, escolheu se posicionar assim.

Não pediu voto, não convocou ato, não fez campanha. Luiza Possi apenas expressou a leitura de mundo que orienta a fé dela. A resposta não veio em forma de contraponto político, mas de ataque pessoal. Maria Gadú entrou nos comentários para revelar que as duas tiveram um relacionamento no passado, algo que nunca havia sido assumido publicamente, e escreveu: “Namoramos. Sim. E me arrependo amargamente”.

Não satisfeita, continuou: “Demorei muito tempo para me perdoar por ter vivido aquilo” e completou com a frase que marcou a violência simbólica do ataque: “Peça a Deus luz, verdade e humildade”. Ou seja, colocou a relação passada no campo do pecado e o presente de Luiza no campo da mentira.

O que está em jogo aqui não é fofoca de celebridade, é padrão de abuso. Expor a intimidade do outro para tentar destruir sua credibilidade pública é uma forma de violência.

Durante anos, Luiza Possi desmentiu o namoro com Gadú e relatou ter perdido contratos quando surgiram boatos sobre a relação. Em 2016, ela contou que, mesmo negando, o mercado passou a tratá-la como se aquela história fosse uma verdade que “simplesmente não podia existir”, acompanhada da frase amarga: “Luiza Possi não é gorda, não é gay, não é nada”. Ou seja, a suspeita sobre a orientação sexual dela já tinha sido usada como arma profissional no passado. Agora, a mesma história volta à cena, não para reparar injustiças, mas para punir a heresia política e religiosa.

Hoje, a cantora declara que “já foi bissexual” e que não é mais, que experimentou na juventude e agora se define de outra forma. Pode-se discordar, discutir conceitos de sexualidade fluida, criticar a ideia de que alguém “deixa de ser bissexual”. O que não se pode normalizar é que uma artista LGBT use essa biografia íntima como munição contra uma ex que ousou migrar de um imaginário progressista para um discurso cristão que inclui a defesa de Bolsonaro.

O ponto mais incômodo dessa história é a assimetria moral. O mesmo meio artístico que passou anos dizendo que “outing” é violência, que expor alguém sem consentimento é abuso, que não se usa sexualidade alheia como arma, agora assiste quase em silêncio à exposição de uma ex, com deboche e tom de penitência pública.

Nos comentários, Maria Gadú não só revelou o relacionamento como afirmou: “O tempo em que namoramos foi um erro”. Também escreveu que Luiza Possi “viveu uma grande mentira” e que seria necessário “Deus atuar na vida dela” para que encontrasse “verdade e humildade”. A mensagem é clara: a relação só volta à pauta porque uma das partes adotou hoje um discurso cristão que incomoda a bolha. Não é uma reparação histórica, é um acerto de contas ideológico.

A reação posterior de Luiza Possi, falando sobre querer ser porto seguro para os filhos, garantir que sempre terão uma casa para onde voltar quando o mundo pesar, mostra claramente que ela está tentando reenquadrar a narrativa no campo do afeto e da responsabilidade familiar. A internet, no entanto, respondeu com deboche e referências a músicas de Gadú, além de insinuações maldosas sobre o futuro dos filhos caso discordem da visão política da mãe.

É um ambiente tóxico em que a pauta da diversidade, em teoria voltada a garantir que ninguém seja reduzido a rótulos, se transforma em chantagem identitária. Você só é protegido se continuar obedecendo à cartilha. O dia em que ousar questionar a narrativa dominante, seu passado será usado como arma. O direito de rever trajetórias, amadurecer e mudar de opinião, tão celebrado quando alguém migra para o campo progressista, vira prova de hipocrisia quando o movimento é na direção contrária.

A mensagem enviada a qualquer artista que hoje esteja em dúvida é pedagógica no pior sentido. Se você experimentar, se se aproximar de um universo que odeia o cristianismo conservador, a conta virá caso escolha seguir outro caminho. Vão dizer que você é ingrato, traidor, “lobotomizado”, como escreveu o ex-marido de Luiza sobre ela.

A discussão não é sobre concordar ou não com a defesa de Bolsonaro, nem sobre a teologia da cantora. É sobre o limite entre crítica política e revanche íntima. Quem diz lutar por liberdade, diversidade e respeito à subjetividade alheia não pode achar normal que uma mulher tenha sua intimidade exposta anos depois como punição por ter se tornado cristã e assumir um posicionamento impopular na bolha.

Quando a mesma turma que denuncia abuso emocional, outing e violência simbólica aplaude ou silencia diante de um episódio assim, não está defendendo minorias, está defendendo um campo ideológico. Contra cristãos, pode tudo. Se for cristão e ainda por cima bolsonarista, aí a licença para agredir é quase automática.

A pergunta final não é retórica, é diagnóstica: a esquerda pode tudo?