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Madeleine Lacsko

Sobre Madeleine Lacsko

Jornalista há 26 anos, especializada em Cidadania Digital, colunista do UOL e está à frente do projeto Cidadania Digital na Gazeta do Povo. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan e Antagonista.

Nosso 2026 será de novos começos ou de mais do mesmo?

O ano de 2026 se anuncia como um marco simbólico. Teremos Copa do Mundo, eleições presidenciais e um país atravessado por um cansaço profundo. Não se trata apenas de fadiga econômica ou política, mas de um esgotamento mais amplo, que atravessa instituições, linguagem e expectativas. O Brasil entra nesse novo ciclo sem ter resolvido as tensões acumuladas na última década e sem demonstrar maturidade para enfrentá-las de forma honesta.

O ambiente institucional já vinha fragilizado, mas o episódio envolvendo o Banco Master representou uma inflexão qualitativa. Não foi apenas mais um conflito jurídico ou uma disputa de interpretações legais.

O que se tornou visível foi algo mais grave: a sensação de que determinadas estruturas passaram a operar em circuito fechado, com mecanismos de autoproteção que escapam ao controle público. A questão deixou de ser técnica e passou a ser simbólica. Quando decisões relevantes parecem blindadas contra questionamentos, a confiança na institucionalidade se rompe.

Esse deslocamento altera profundamente a relação da sociedade com o Estado. Durante anos, as críticas ao Supremo Tribunal Federal se concentraram em excessos pontuais ou em leituras jurídicas consideradas expansivas.

Agora, a percepção mudou de patamar. A crítica passou a atingir a própria ideia de imparcialidade. Não se discute apenas se uma decisão foi correta, mas se o sistema ainda é capaz de se autorregular. Quando essa dúvida se instala, a legitimidade sofre um abalo que não se resolve com notas técnicas ou discursos institucionais.

É nesse contexto que se revela um traço recorrente da vida pública brasileira: a dificuldade de lidar com a responsabilidade. Diante de situações complexas, uma parte significativa da sociedade prefere reagir emocionalmente a compreender. Em vez de enfrentar o desconforto de uma análise mais profunda, opta por narrativas que confirmem certezas prévias. O gesto do “eu avisei” substitui o esforço de compreender o que, de fato, está acontecendo.

A pesquisa Datafolha de dezembro escancara uma contradição que já não pode mais ser tratada como ruído estatístico. Segundo o levantamento, 47 por cento dos brasileiros se declaram de direita ou centro-direita, enquanto 28 por cento se dizem de esquerda ou centro-esquerda.

Ao mesmo tempo, 40 por cento afirmam ser petistas, e 34 por cento se dizem bolsonaristas. Isso significa, de forma objetiva, que há brasileiros que se dizem de direita e, ao mesmo tempo, se identificam como petistas, assim como há pessoas que se dizem de esquerda e se reconhecem como bolsonaristas. Não se trata de incoerência pontual, mas de um padrão.

Esse dado revela algo mais profundo do que confusão ideológica. Ele mostra que, para uma parcela significativa da população, as categorias políticas deixaram de ser referências de pensamento e passaram a funcionar como identidades emocionais.

A identidade política deixa de ser um conjunto de ideias e passa a ser uma marca de grupo, quase um rótulo social. Nesse cenário, dizer-se de direita ou de esquerda não significa defender projetos distintos de país, mas apenas sinalizar de que lado se está.

O resultado é uma política cada vez menos racional e mais performática. Em vez de discutir propostas, discute-se pertencimento. Em vez de analisar consequências, escolhe-se um lado. O debate se transforma em espetáculo, e a participação política, em afirmação de identidade. A lógica não é mais convencer, mas sinalizar. Não se busca compreender, mas marcar posição.

Nesse ambiente, a figura do salvador da pátria retorna com força. Diante da frustração e da sensação de impotência, cresce a expectativa de que alguém resolva tudo em nome de todos. A responsabilidade individual é terceirizada. O pensamento crítico cede espaço à esperança de que uma liderança carismática faça o trabalho que a sociedade não quer fazer. É uma forma de infantilização coletiva, em que a política passa a ser vivida como promessa de alívio emocional.

O problema é que essa dinâmica não produz maturidade democrática. Pelo contrário, aprofunda a dependência e reduz a capacidade de ação consciente. Quanto mais se espera por um salvador, menos se constrói cidadania. Quanto mais se delega o pensamento, mais fácil se torna manipular afetos e conduzir massas.

O Brasil entra em 2026 diante dessa encruzilhada. Ou enfrenta o desconforto de pensar com autonomia, reconhecer limites e assumir responsabilidades, ou seguirá preso ao ciclo de frustração, indignação e expectativa messiânica. A questão central não é quem vencerá a eleição, mas se a sociedade está disposta a amadurecer.

Sem esse movimento, qualquer mudança será apenas cosmética. O país continuará oscilando entre euforia e decepção, sem nunca enfrentar o núcleo do problema. O verdadeiro desafio não é escolher um novo salvador, mas aprender, finalmente, a viver sem um.

O vício mais poderoso e perigoso do mundo não é mais uma substância

Durante décadas, quando se falava em vício, o imaginário social recorria a drogas, álcool, nicotina ou jogos de azar. Substâncias químicas e comportamentos já reconhecidos como destrutivos. O que mudou no nosso tempo não foi apenas o objeto do vício, mas sua forma de apresentação. O vício mais poderoso do mundo contemporâneo não tem cheiro, não deixa marcas físicas imediatas e raramente é percebido como ameaça enquanto se instala. Ele se apresenta como entretenimento leve, descanso mental e até como forma legítima de informação.

Um estudo publicado em 2025 no Psychological Bulletin oferece um mapa preciso desse fenômeno. Trata-se de uma revisão sistemática com meta-análise que reuniu dados de 71 estudos independentes, com quase 100 mil participantes, analisando os efeitos do consumo de vídeos de formato curto sobre a cognição e a saúde mental. O método é relevante justamente por eliminar impressões subjetivas e consolidar padrões que se repetem em diferentes contextos culturais e etários.

As conclusões são consistentes. O consumo frequente de vídeos curtos está associado a prejuízos significativos na atenção sustentada e no controle inibitório, isto é, na capacidade de manter foco e resistir a impulsos. Em um dos trechos, os autores afirmam que “o consumo de vídeos curtos está consistentemente associado a um funcionamento cognitivo mais fraco, especialmente em domínios relacionados à atenção e ao autocontrole”. Não se trata de um efeito marginal. Trata-se de uma reorganização do modo como a mente aprende a funcionar.

No campo da saúde mental, o padrão se repete. O estudo identifica associações claras entre uso intensivo desse tipo de conteúdo e níveis mais elevados de estresse e ansiedade, além de impactos negativos sobre o sono e o bem-estar geral. Os pesquisadores observam que “os efeitos negativos observados não se limitam a adolescentes, manifestando-se também de forma consistente em adultos”, desmontando a ideia de que estamos diante de um problema transitório ou geracional.

O ponto mais decisivo, porém, não está apenas nos números, mas no mecanismo. Plataformas baseadas em vídeos curtos operam com estímulos rápidos, recompensas imprevisíveis e rolagem infinita. Esse desenho favorece a formação de hábitos automáticos. O estudo descreve esse processo ao registrar que “os sistemas de design dessas plataformas promovem padrões de uso compulsivo, reforçando a fragmentação da atenção e a dificuldade de engajamento prolongado”. A mente passa a ser treinada para o imediato, para o fragmento, para o próximo estímulo.

É assim que a tecnologia deixa de ser ferramenta e se torna vício. E quando o vício se consolida, ele passa a moldar não apenas comportamentos, mas expectativas internas. O esforço começa a parecer sofrimento. O silêncio, ameaça. A continuidade, tédio. O vício mais poderoso não é aquele que paralisa, mas o que reconfigura silenciosamente o limiar do que é suportável para a mente humana.

Os próprios autores do estudo sugerem estratégias de mitigação, como limites de tempo, pausas deliberadas e estímulo a atividades que favoreçam atenção prolongada. Mas essa resposta, embora necessária, é insuficiente para compreender a dimensão do problema. O que está em jogo não é apenas desempenho cognitivo. É a própria relação do ser humano com a atenção, que sempre foi o fundamento da vida interior.

A tradição cristã nunca tratou a atenção como detalhe psicológico. Atenção é disposição da alma. Santo Agostinho já compreendia que o coração humano é inquieto porque se dispersa, e que a conversão envolve reunir o que foi espalhado. A palavra bíblica para conversão, metanoia, significa literalmente mudança da mente. Não há encontro com Deus sem uma mente capaz de permanecer.

É por isso que o Natal não pode ser reduzido a um sentimento vago de acolhimento. O nascimento de Cristo é a entrada do Logos no mundo. Logos não é emoção. É sentido, ordem, palavra que pede escuta.

Cristo não chama pela excitação, nem pela avalanche de estímulos. Ele chama pelo seguimento, que exige tempo, presença e fidelidade. “Permanecei em mim” não é uma metáfora confortável. É uma exigência espiritual.

O vício contemporâneo é especialmente corrosivo porque nos treina a fugir exatamente dessas condições. Ele nos educa a evitar o silêncio, a interromper qualquer desconforto, a substituir interioridade por estímulo. Não por acaso, as grandes práticas cristãs sempre caminharam na direção oposta. O deserto, o jejum, a vigília e a oração não são punições, mas pedagogias da atenção. Elas devolvem ao homem a capacidade de suportar a própria presença diante de Deus.

O Natal, nesse sentido, é um confronto direto com a lógica do vício moderno. A encarnação não acontece no barulho, nem na distração, mas na noite, no recolhimento, na espera. Em um mundo que nos treina a deslizar infinitamente para o próximo estímulo, o presépio nos obriga a parar. A olhar. A permanecer.

Talvez o aspecto mais perigoso desse vício aparentemente inofensivo seja exatamente este: ele não rouba apenas tempo ou foco. Ele compromete a condição interior necessária para reconhecer a verdade quando ela se apresenta.

Em uma cultura que nos quer permanentemente distraídos, proteger a atenção deixa de ser uma recomendação de bem-estar e se torna um ato espiritual. Porque seguir Cristo exige algo que o vício contemporâneo tenta corroer desde o início: a capacidade de permanecer quando tudo nos empurra a fugir.

Partido Comunista Chinês está conseguindo remodelar o conceito de direitos humanos no mundo por meio de IA

Durante décadas, direitos humanos foram entendidos como limites impostos ao poder do Estado para proteger o indivíduo. Liberdade de expressão, privacidade, devido processo legal e proteção contra vigilância arbitrária formavam o núcleo desse conceito. O que está em disputa agora não é apenas o respeito a esses direitos, mas o próprio significado deles. Aos poucos, a ideia de liberdade vem sendo substituída pela noção de eficiência, estabilidade e desenvolvimento administrado.

É nesse ponto que a inteligência artificial se torna central. Quando a tecnologia passa a organizar a vida social, jurídica e informacional, o controle deixa de parecer coerção e passa a parecer funcionamento normal do sistema. A vigilância se transforma em gestão, a censura em moderação automatizada, a repressão em prevenção de riscos. Direitos não desaparecem formalmente, mas são redefinidos por meio do hábito.

É exatamente esse processo que um relatório do Australian Strategic Policy Institute descreve ao analisar o uso de inteligência artificial pelo Partido Comunista Chinês. O estudo mostra como grandes modelos de linguagem e outros sistemas avançados de IA estão sendo integrados ao aparato estatal para automatizar censura, ampliar vigilância, prever comportamentos e suprimir dissidências de forma preventiva. A tecnologia deixa de ser ferramenta auxiliar e passa a operar como infraestrutura permanente de controle.

O relatório detalha como a IA está sendo incorporada a áreas sensíveis como o sistema de justiça criminal, incluindo policiamento preditivo, tribunais inteligentes e prisões inteligentes. Essa automação aumenta a eficiência do Estado, mas reduz transparência, enfraquece mecanismos de responsabilização e amplia a assimetria de poder entre governo e cidadãos. Direitos humanos, nesse modelo, deixam de ser barreiras e passam a ser reinterpretados como variáveis administrativas.

Outro ponto central é a industrialização da censura. As exigências legais do regime criaram um mercado robusto de tecnologias de controle baseadas em IA. Grandes empresas chinesas passaram a desenvolver e vender sistemas de censura cada vez mais baratos, rápidos e eficazes, incorporando a repressão ao funcionamento normal da economia digital. A censura não é mais exceção, é parte do negócio.

Essa análise foi apresentada ao público brasileiro pelo meu amigo Augusto de Franco, pesquisador e analista político, especialista em democracia, por meio de um artigo publicado no site Dagobah. Ao examinar o relatório, Augusto destaca como a IA transforma o controle estatal em algo difuso, distribuído e quase invisível. O poder não se impõe apenas pela força, mas pela normalização tecnológica. Quando tudo funciona, ninguém questiona. E quando ninguém questiona, o conceito de direito se dissolve.

Luiza Possi é atacada e tem intimidade exposta por Maria Gadú depois de defender Bolsonaro

A cena é conhecida. Uma artista resolve falar de política, mas não do jeito certo. Em vez de repetir o discurso padrão da classe, ela grava um vídeo em que diz viver “tempos injustos”, fala de “ímpios no poder”, pede livramento divino e afirma crer em uma nação reconstruída “pelo nome de Jesus”. O contexto é a confirmação da pena de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão. Luiza Possi, hoje casada, mãe de dois filhos e assumidamente cristã, escolheu se posicionar assim.

Não pediu voto, não convocou ato, não fez campanha. Luiza Possi apenas expressou a leitura de mundo que orienta a fé dela. A resposta não veio em forma de contraponto político, mas de ataque pessoal. Maria Gadú entrou nos comentários para revelar que as duas tiveram um relacionamento no passado, algo que nunca havia sido assumido publicamente, e escreveu: “Namoramos. Sim. E me arrependo amargamente”.

Não satisfeita, continuou: “Demorei muito tempo para me perdoar por ter vivido aquilo” e completou com a frase que marcou a violência simbólica do ataque: “Peça a Deus luz, verdade e humildade”. Ou seja, colocou a relação passada no campo do pecado e o presente de Luiza no campo da mentira.

O que está em jogo aqui não é fofoca de celebridade, é padrão de abuso. Expor a intimidade do outro para tentar destruir sua credibilidade pública é uma forma de violência.

Durante anos, Luiza Possi desmentiu o namoro com Gadú e relatou ter perdido contratos quando surgiram boatos sobre a relação. Em 2016, ela contou que, mesmo negando, o mercado passou a tratá-la como se aquela história fosse uma verdade que “simplesmente não podia existir”, acompanhada da frase amarga: “Luiza Possi não é gorda, não é gay, não é nada”. Ou seja, a suspeita sobre a orientação sexual dela já tinha sido usada como arma profissional no passado. Agora, a mesma história volta à cena, não para reparar injustiças, mas para punir a heresia política e religiosa.

Hoje, a cantora declara que “já foi bissexual” e que não é mais, que experimentou na juventude e agora se define de outra forma. Pode-se discordar, discutir conceitos de sexualidade fluida, criticar a ideia de que alguém “deixa de ser bissexual”. O que não se pode normalizar é que uma artista LGBT use essa biografia íntima como munição contra uma ex que ousou migrar de um imaginário progressista para um discurso cristão que inclui a defesa de Bolsonaro.

O ponto mais incômodo dessa história é a assimetria moral. O mesmo meio artístico que passou anos dizendo que “outing” é violência, que expor alguém sem consentimento é abuso, que não se usa sexualidade alheia como arma, agora assiste quase em silêncio à exposição de uma ex, com deboche e tom de penitência pública.

Nos comentários, Maria Gadú não só revelou o relacionamento como afirmou: “O tempo em que namoramos foi um erro”. Também escreveu que Luiza Possi “viveu uma grande mentira” e que seria necessário “Deus atuar na vida dela” para que encontrasse “verdade e humildade”. A mensagem é clara: a relação só volta à pauta porque uma das partes adotou hoje um discurso cristão que incomoda a bolha. Não é uma reparação histórica, é um acerto de contas ideológico.

A reação posterior de Luiza Possi, falando sobre querer ser porto seguro para os filhos, garantir que sempre terão uma casa para onde voltar quando o mundo pesar, mostra claramente que ela está tentando reenquadrar a narrativa no campo do afeto e da responsabilidade familiar. A internet, no entanto, respondeu com deboche e referências a músicas de Gadú, além de insinuações maldosas sobre o futuro dos filhos caso discordem da visão política da mãe.

É um ambiente tóxico em que a pauta da diversidade, em teoria voltada a garantir que ninguém seja reduzido a rótulos, se transforma em chantagem identitária. Você só é protegido se continuar obedecendo à cartilha. O dia em que ousar questionar a narrativa dominante, seu passado será usado como arma. O direito de rever trajetórias, amadurecer e mudar de opinião, tão celebrado quando alguém migra para o campo progressista, vira prova de hipocrisia quando o movimento é na direção contrária.

A mensagem enviada a qualquer artista que hoje esteja em dúvida é pedagógica no pior sentido. Se você experimentar, se se aproximar de um universo que odeia o cristianismo conservador, a conta virá caso escolha seguir outro caminho. Vão dizer que você é ingrato, traidor, “lobotomizado”, como escreveu o ex-marido de Luiza sobre ela.

A discussão não é sobre concordar ou não com a defesa de Bolsonaro, nem sobre a teologia da cantora. É sobre o limite entre crítica política e revanche íntima. Quem diz lutar por liberdade, diversidade e respeito à subjetividade alheia não pode achar normal que uma mulher tenha sua intimidade exposta anos depois como punição por ter se tornado cristã e assumir um posicionamento impopular na bolha.

Quando a mesma turma que denuncia abuso emocional, outing e violência simbólica aplaude ou silencia diante de um episódio assim, não está defendendo minorias, está defendendo um campo ideológico. Contra cristãos, pode tudo. Se for cristão e ainda por cima bolsonarista, aí a licença para agredir é quase automática.

A pergunta final não é retórica, é diagnóstica: a esquerda pode tudo?

Senado aprova voto de censura a chanceler alemão por falar a verdade sobre a COP 30

O Brasil conseguiu transformar um alerta internacional em farsa diplomática. Em vez de reconhecer falhas e aproveitar a oportunidade para preparar a COP 30 com o mínimo de seriedade, o governo Lula escolheu teatralizar indignação contra uma crítica que era verdadeira. Friedrich Merz, líder alemão, afirmou que os alemães que participaram da COP da Amazônia em Belém ficaram contentes ao ir embora. A frase parece ríspida, mas descreve com precisão o que qualquer participante do evento testemunhou. Belém não ofereceu estrutura mínima. E o pior ainda estava por vir.

A reação do governo brasileiro expôs mais do que sensibilidade ferida. Lula respondeu que Merz deveria ter visitado um boteco no Pará. Janja declarou que o alemão foi infeliz e insinuou que ele estava na cidade apenas a passeio. O curioso é que essa interpretação só faz sentido se presumirmos que a COP da Amazônia foi planejada como roteiro de turismo político. Talvez esse seja o problema de origem. O próprio discurso de Lula sobre a COP 30 tem sido o de um anfitrião que quer exibir a Amazônia como atração exótica. Janja reforça a mesma lógica em diversas entrevistas. Parece que o governo imagina que chefes de Estado viajam para contemplar cenários, não para participar de uma conferência decisiva sobre o futuro climático do planeta. A resposta que deram a Merz diz muito sobre o que Lula e Janja devem fazer nas viagens internacionais.

A situação degringolou quando o Senado brasileiro aprovou um voto de censura contra Merz. Não houve mentira, ofensa deliberada ou desinformação. Houve crítica. E houve verdade. Transformar essa crítica em ofensa nacional é o subdesenvolvimento convertido em coreografia oficial. O Brasil não se incomodou com o vexame que produziu, mas sim com o fato de alguém tê-lo notado. É como se a função do Estado fosse obrigar o mundo a participar da fantasia, nunca da realidade.

A verdade é que os relatos vindos de Belém não podiam ser mascarados. Calor insuportável, filas absurdas para conseguir água, falta de energia elétrica, ambientes improvisados, participantes passando mal. Vídeos mostram estandes que não resistiram à chuva. A estrutura que mais tarde pegaria fogo custou pelo menos 211 milhões de reais. Um montante que, na prática, só comprou risco. O ministro do Turismo, Celso Sabino, afirmou que incêndio pode acontecer em qualquer lugar. É verdade. Acontece em qualquer lugar onde um evento internacional é entregue a pessoas que confundem logística com vitrine e responsabilidade com marketing governamental.

É aqui que entra o ponto central. A COP 30 já nasceu com uma herança tóxica produzida pelo próprio governo brasileiro. Em vez de compromisso, oferece cosmética. Em vez de planejamento, oferece performance. Em vez de autocrítica, oferece constrangimento alheio. O que queimou em Belém não foi apenas uma estrutura. Foi uma oportunidade de ajustar rumos antes que o mundo estivesse presente, olhando tudo de perto.

Deus é brasileiro e por isso a COP da Amazônia terminou apenas como fiasco. Não como tragédia. O evento já havia sido alvo de alertas da ONU quando manifestantes invadiram a estrutura, toda revestida de tecido e materiais inflamáveis. As autoridades sabiam dos riscos. Mesmo assim, insistiram na encenação. Se Deus não fosse brasileiro, estaríamos discutindo hoje vítimas fatais, não apenas o desempenho diplomático do governo.

A COP 30 é um retrato fiel do Brasil. A parte que Deus fez e cuida é deslumbrante. A parte que entregamos aos políticos é um acúmulo de improviso, vaidade e irresponsabilidade. Ainda assim, o governo preferiu reagir como quem foi afrontado por uma crítica injusta, quando a única injustiça real é com o próprio país. Belém não falhou porque foi criticada. Belém falhou porque foi mal administrada e porque o PT, no seu quinto mandato neste século, jamais cuidou como deveria do desenvolvimento da Amazônia.

TikTok vai entregar dados dos usuários para o governo?

A pergunta não saiu de um blog conspiratório, mas da Forbes. A revista revelou que o TikTok alterou discretamente sua política de atendimento a requisições governamentais nos Estados Unidos, ampliando a possibilidade de compartilhar dados de usuários não apenas com forças de segurança, mas também com “autoridades regulatórias, quando relevante”, e enfraquecendo a promessa de avisar o usuário quando seus dados forem entregues ao governo.

Questionada repetidas vezes se compartilha ou não informações com o Departamento de Segurança Interna e com a ICE, agência responsável pela imigração e alfândega, a empresa simplesmente se recusou a responder. Só depois da publicação da reportagem o TikTok enviou uma nota oficial à Forbes.

Disse o chefe de comunicação corporativa global, Nathaniel Brown: “Esta matéria enganosa distorce e sensacionaliza deliberadamente a forma como lidamos com solicitações legais, apenas para gerar cliques. O fato é que o TikTok avalia cuidadosamente esses pedidos com base em nossas diretrizes públicas para autoridades policiais e divulga informações de forma transparente e regular sobre como respondemos a eles”.

A frase é um primor do discurso padrão das Big Techs: acusa a reportagem de ser enganosa e sensacionalista, fala em diretrizes públicas, transparência e relatórios regulares. Mas não responde à pergunta central. A empresa não nega ter mudado a política, não explica por que ampliou a margem de compartilhamento com o governo e, principalmente, não diz se entrega ou não dados de usuários à ICE. Quando uma plataforma de alcance global responde assim, o problema já não é tecnológico. É político.

Essa não é a primeira vez que o TikTok se vê no centro de um incêndio geopolítico. Em 2022, ao analisar o avanço da tecnologia chinesa, mostrei como a China passou a usar sua infraestrutura digital como um Cavalo de Troia do século XXI. O Estado chinês prevê a presença de representantes do Partido Comunista dentro das empresas, inclusive privadas. Nunca houve democracia na China. Não se discute liberdade individual como valor central. O que importa é coletivismo, paz social e progresso econômico. Nesse modelo, dados não são apenas insumo de negócios. São ferramenta de poder.

Naquela coluna, lembrei que o Parlamento britânico decidiu desativar sua conta oficial no TikTok por temor de que o governo chinês pudesse acessar os dados. Não era paranoia. Era a consequência lógica de uma investigação sobre violações de direitos humanos contra a minoria uigur e o uso de tecnologia como instrumento de pressão política. Mais tarde, o governo Biden reforçou sanções a empresas como Huawei e ZTE, reconhecendo que a tecnologia chinesa é parte de uma disputa de poder global.

Em 2023, outro capítulo. O TikTok teve de admitir publicamente que funcionários da ByteDance espionaram jornalistas nos Estados Unidos, rastreando localização e acessos de profissionais que investigavam a empresa. O que antes era tratado como teoria conspiratória virou fato: a plataforma foi usada para vigiar quem fiscalizava seu comportamento. Ali ficou impossível sustentar a narrativa inocente de “rede de vídeos divertidos”.

Agora, a reportagem da Forbes não fala da China, mas dos Estados Unidos. Mostra que o aplicativo ajustou sua política para facilitar a cooperação com o governo americano, especialmente após negociações para continuar operando no país. A discussão deixa de ser apenas “China espionando o Ocidente” e passa a ser algo mais desconfortável: qualquer grande plataforma, em qualquer lugar do mundo, tende a ceder quando um governo poderoso bate à porta pedindo dados de usuários.

Ele foi processado pelo MPF por chamar Lula, que já foi presidiário, de ex-presidiário

O caso é simples, público e, ainda assim, sintomático. O advogado pernambucano Thomas Crisóstomo foi denunciado pelo Ministério Público Federal por ter escrito em uma rede social que “a EBC virou um cabide de emprego para a mulher do ex-presidiário Lula”.

O MPF afirma que a expressão ofenderia a honra do presidente. A denúncia não questiona o fato em si, apenas o direito de dizê-lo. Lula foi condenado em segunda instância, preso por 580 dias e depois beneficiado pela anulação dos processos por questões processuais, sem revisão de mérito. O dado histórico é objetivo: Lula foi preso, então é, literalmente, um ex-presidiário. Ainda assim, o Estado decidiu transformar a frase em delito.

O MPF chegou a oferecer um acordo de não persecução penal a Thomas Crisóstomo. Ele recusou. Disse que não admitiria reconhecer culpa por algo que é fato público, sustentado documentalmente e inserido no debate político. A recusa é o ponto mais importante dessa história. Quantos outros, com medo, tempo curto, recursos escassos ou filhos pequenos para sustentar, aceitaram calar? Quantos assinaram acordos para não enfrentar um processo, admitindo uma culpa que não existia em troca de alívio imediato? Quantos sentiram o peso do Estado e escolheram a sobrevivência ao invés da liberdade de expressão? Esse caso, público, transparente, rastreável, nos conduz à pergunta que a Gazeta do Povo tem insistido em fazer e que continua sem resposta: quantas vozes o Supremo já calou?

Não estamos falando de processos públicos como o de Thomas Crisóstomo. Estamos falando dos inquéritos sigilosos, das investigações sem réu definido, dos pedidos de quebra de sigilo que não chegam a ser tornados públicos, das medidas de restrição de fala que nunca foram sequer apresentadas ao debate democrático. Estamos falando do silêncio que não aparece no noticiário. Do silêncio sem rosto, sem nome, sem registro.

O que se vê é um Estado que se tornou minucioso na vigilância do discurso político e, ao mesmo tempo, displicente com crimes concretos. É como se a frase fosse mais relevante do que o fato que ela descreve. Como se a sensibilidade de determinadas pessoas importasse mais do que a legitimidade da crítica. A distorção é evidente: o sistema penal, que deveria proteger a sociedade contra violências reais, está sendo usado para proteger autoridades contra desconforto.

Quando o Estado deixa de punir crimes para punir palavras, ele desloca o centro moral da lei. O problema deixa de ser a conduta e passa a ser a opinião sobre a conduta. E, nesse ponto, a democracia é desfigurada. Porque a democracia exige fricção, conflito, ironia, provocação, confronto de interpretações. Não existe vida política adulta sem o direito de chamar as coisas pelo nome que os fatos sustentam.

O episódio também expõe a contradição mais profunda do discurso institucional brasileiro. A retórica oficial insiste em dizer que vivemos uma era de defesa da democracia. Mas democracia não é apenas manter eleições. Democracia é garantir que o cidadão possa criticar o governante. Mesmo quando exagera. Mesmo quando é duro. Mesmo quando fere sensibilidades. Soberania popular significa que o presidente não está acima do povo e muito menos acima da linguagem.

O que se está tutelando aqui não é a honra, mas a narrativa. E quando o Estado passa a tutelar narrativas, o resultado não é estabilidade, é medo. O cidadão começa a se perguntar o que pode ou não dizer, a medir palavras, a calcular cada vírgula antes de postar um comentário banal. A esfera pública, nesse ambiente, deixa de ser local de debate e se torna campo minado. A autocensura se torna hábito. O silêncio se torna prudência.

E é aí que a pergunta da Gazeta do Povo volta a ecoar. Se este é o tratamento dado a um caso público, registrado, conhecido, acompanhado pela imprensa, o que acontece nos casos que não chegam ao noticiário? Quantos processos, quantos inquéritos, quantas notificações foram aceitos sem questionamento para não “ter problema”? Quantos se calaram antes mesmo de falar?

O mais grave não é o que se vê. O mais grave é o que não se ouve. O processo contra Thomas Crisóstomo, no fim das contas, não é sobre a frase que ele escreveu. É sobre quem pode descrever a realidade e quem pode proibi-la. Quando o Estado decide que um fato se torna ofensivo ao ser mencionado, não estamos diante de proteção da honra, mas de controle da narrativa. E controlar a narrativa é controlar o imaginário, o horizonte das possibilidades, o próprio limite do que pode existir como pensamento público.

Por isso essa história não termina no episódio individual. Ela interpela o país. Porque uma sociedade que cala os que a descrevem se torna refém de sua própria mentira. E mentira de Estado tem consequências práticas: ela modela consensos artificiais, produz medo difuso, enfraquece a confiança social e, pouco a pouco, apaga a noção de cidadania. Não há democracia em que o cidadão precise pedir permissão para dizer o óbvio.

A pergunta volta, então, mais grave, mais urgente, mais profunda: se um comentário público, baseado em registros oficiais, pode se tornar crime, o que exatamente ainda podemos dizer? Até onde vai o perímetro do permitido? E quem o delimita?

É aqui que a questão proposta pela Gazeta do Povo ganha sua dimensão verdadeira. O caso de Thomas Crisóstomo é visível, rastreável, contestável. Mas há uma zona inteira de silêncio que se estende por inquéritos sigilosos, decisões sem publicidade, acordos aceitos por medo, autocensuras que nunca chegam às notícias. Ali está o campo mais perigoso. Não o grito reprimido, mas a voz que nunca chegou a nascer.

Se o Supremo e o sistema de Justiça não responderem claramente a essa pergunta, se não delimitarem com precisão o que é direito de crítica e o que é ataque real, se não devolverem ao debate público a coragem da divergência, o país não estará apenas cerceando palavras. Estará diminuindo a consciência e atrofiando a própria liberdade. Porque quando a sociedade se acostuma a calar, ela não cala apenas o que pensa. Cala também o que é. Uma democracia que cala o que é já deixou de existir.

Elite do Leblon critica, mas quase 90% dos moradores de favelas do Rio aprovam operação da polícia

Partido dos Trabalhadores é praticamente o único a ter governado o Brasil neste século. Foram quatro mandatos presidenciais e um quinto já no final. Nesse período, o crime organizado, que surgiu nos anos 1990, se tornou uma potência internacional. Hoje, segundo levantamentos oficiais, cerca de 26% do território nacional, incluindo parte do Rio de Janeiro, está sob domínio de facções criminosas. Só a título de comparação, na Colômbia e Nicarágua o percentual de território do crime não chega a 10%. É o retrato de um país onde o Estado foi sendo substituído por organizações armadas que impõem leis próprias, arrecadam “impostos” via extorsão, controlam o território e desafiam abertamente a autoridade pública.

A megaoperação realizada nos Complexos da Penha e do Alemão foi a mais letal da história do Rio de Janeiro. O saldo de 117 mortos expôs uma realidade que há anos vinha sendo ignorada. De acordo com a Polícia Civil, 109 corpos já foram identificados, e 78 dos mortos tinham histórico de crimes graves, incluindo homicídios e tráfico de drogas. Mais da metade dos suspeitos era de outros estados, confirmando que as favelas cariocas se tornaram o quartel-general do Comando Vermelho. Ali, as facções realizavam treinamentos de tiro e recrutamento de novos integrantes, que depois eram enviados para expandir o domínio da organização.

Pela primeira vez, os policiais foram recebidos por criminosos armados com drones que lançavam explosivos. A cena simboliza a nova escala de poder do crime organizado no Rio e reacende um debate urgente: até quando será possível tratar essas facções como simples organizações criminosas e não como grupos terroristas? Quatro policiais morreram.

Mesmo diante da violência e da tragédia, a população mais afetada demonstrou apoio à ação. Segundo pesquisa AtlasIntel, 87,6% dos moradores de favelas do Rio aprovaram a operação. São pessoas que vivem diariamente sob o medo imposto por criminosos e que sabem o custo real da ausência do Estado. Enquanto isso, parte da elite progressista do Rio, especialmente nos bairros do Leblon, da Gávea e de Ipanema, reagiu com indignação moralista.

É uma elite que gosta de posar como consciência crítica do país, mas que não tem coragem de enfrentar a realidade. Do alto de seus apartamentos, multiplica discursos sobre “genocídio” e “violência policial”, sem jamais pisar num beco dominado por fuzis. Defendem o povo, mas condenam qualquer tentativa de garantir o direito mais básico: viver sem medo. Falam de empatia, mas se recusam a ouvir quem realmente sofre com o domínio das facções.

A distância entre quem diz defender o povo e o que o povo quer é abissal. O brasileiro comum, inclusive o morador das comunidades, quer trabalhar, estudar, criar os filhos em paz e andar na rua com segurança. Quer ver o Estado recuperar o controle. Mas a elite militante insiste em enxergar cada ação policial como opressão e cada criminoso como vítima. O discurso serve para sinalizar virtude, não para enfrentar o problema.

O fenômeno é político e cultural. Durante décadas, o PT e seus aliados sustentaram a ideia de que combater o crime com firmeza seria autoritarismo. Essa visão contaminou as universidades, as redações e o debate público. Criou-se a fantasia de que o Estado deve compreender o criminoso, não reprimi-lo. O resultado é um país onde o tráfico financia campanhas, compra autoridades e dita regras em um quarto do território nacional.

A megaoperação no Rio expôs o que os brasileiros já sabiam: a paciência acabou. As pessoas estão cansadas de ser usadas como biombo moral por quem vive em segurança e lucra com a narrativa da desigualdade. Cansaram da elite que se comporta como flanelinha de minoria, oferecendo indignação sob demanda para manter prestígio entre os pares.

A segurança pública será o calcanhar de Aquiles da esquerda nas eleições do próximo ano. Porque, enquanto essa elite performa virtude, o povo real, que mora onde o Estado se ausentou, sabe que a paz só virá quando a lei voltar a valer para todos.

Político palestino critica ativistas como Greta, que ficam em silêncio sobre execuções do Hamas

Os mesmos ativistas que, durante meses, gritaram “Palestina livre” nas ruas e nas redes, desapareceram quando a paz chegou. Nenhum gesto de celebração, nenhuma palavra de alívio. A conquista que deveria representar o triunfo da causa se tornou um constrangimento. A paz desarma não apenas os fuzis, mas também as narrativas. Quando o Hamas rompeu o próprio acordo e voltou a executar palestinos em público, os que se diziam defensores da liberdade simplesmente calaram. O silêncio não foi neutralidade, foi revelação.

Enquanto o Ocidente fazia de conta que não via, uma voz palestina expôs o absurdo. Ahmed Al Khalidi, político nascido em Jerusalém, advogado e professor universitário, publicou um artigo contundente sobre a hipocrisia dos ativistas ocidentais que dizem lutar por justiça, mas terminam servindo à tirania. “Eu me sinto profundamente intrigado por um certo fenômeno ocidental: os ativistas climáticos, defensores dos direitos humanos e autoproclamados progressistas que, de alguma forma, acabam repetindo as falas do Hamas”, escreveu.

Al Khalidi desmonta o que chama de modelo mental da confusão moral ocidental. Ele explica que boa parte desses militantes precisa de uma história simples, com mocinhos e vilões. É mais fácil viver num mundo dividido entre oprimidos e opressores do que lidar com a complexidade das tragédias humanas. Para eles, os palestinos são automaticamente as vítimas, e o Hamas, a resistência. “Eles não precisam de fatos, precisam de clareza moral, mesmo que seja falsa.”

O segundo ponto de sua análise é o mais incômodo: a projeção de culpa. O Ocidente, carregado de remorso por séculos de colonialismo e racismo, transforma causas “anti-imperialistas” em rituais de absolvição. “Eles se veem como aliados dos oprimidos, mas, na verdade, não estão nos ajudando, estão lavando a própria consciência.” É uma caridade estética, feita para exibição.

Mas há algo ainda mais profundo, e Al Khalidi toca na ferida: a atração pela intensidade emocional. Para jovens que cresceram em vidas fáceis, sem frustração real, o sofrimento alheio virou palco de experimentação moral. “Eles anseiam por luta moral como outros anseiam por aventura. Confundem destruição com profundidade.” É o mesmo narcisismo que transforma causas em acessórios, slogans em identidade e o drama de povos inteiros em espetáculo.

A geração que se diz rebelde confunde exibicionismo com luta, operações de marketing com ações de libertação, palavras com ação. Criados na era do elogio automático, acostumados a nunca ouvir “não” e a receber aplausos de pais frágeis e uma imprensa deslumbrada, acreditam que postar frases, fazer dancinhas ou usar um keffieh os torna parte de uma revolução. Querem aventura, mas não sabem nem lavar um copo.

Foram jovens da mesma idade que, em 1944, desembarcaram na Normandia para libertar a Europa do nazismo. Eram meninos que enfrentaram metralhadoras, lama e medo para restaurar a dignidade humana. No século XXI, os descendentes dessa coragem acreditam estar libertando povos enquanto repetem o discurso dos opressores. É o triunfo da pose sobre a consciência.

Al Khalidi conclui: “Quando vejo esses ativistas marchando com slogans que defendem o Hamas, não vejo solidariedade. Vejo confusão psicológica disfarçada de moralidade”, A frase resume um tempo em que a empatia virou performance e o sofrimento, matéria-prima para autopromoção.

A esquerda internacional, que se diz defensora dos oprimidos, ignora que o principal inimigo dos palestinos é o próprio Hamas. E o Ocidente, em seu conforto culpado, prefere a ilusão de pureza à responsabilidade moral de enxergar o real. O artigo de Ahmed Al Khalidi é mais que uma crítica: é um espelho incômodo. O Ocidente criou uma geração de supostos defensores dos direitos humanos incapazes de qualquer tipo de empatia com vítimas reais.

Nobel para María Corina expõe para o mundo a farsa lulista de defesa da democracia

Há ironias que a história se encarrega de narrar com perfeição. O Prêmio Nobel da Paz de 2025, concedido à venezuelana María Corina Machado, é uma delas. A líder liberal, cassada e perseguida pelo regime chavista, foi reconhecida por sua luta pela restauração da democracia na Venezuela. O gesto do comitê norueguês tem peso simbólico: o prêmio mais prestigiado do mundo foi entregue a uma mulher que enfrentou o ditador Nicolás Maduro, o mesmo homem que Luiz Inácio Lula da Silva ajudou a sustentar e continua a defender.

María Corina dedicou o prêmio a Donald Trump, gesto que escancarou um ponto incômodo para o progressismo internacional. O ex-presidente americano, que durante anos foi retratado como símbolo da polarização e do autoritarismo, conseguiu um feito diplomático que parecia impossível: negociar o fim da guerra na Faixa de Gaza com a devolução de todos os reféns israelenses. O acordo, mediado com o Egito e os Emirados Árabes, encerrou meses de terror e de impasse humanitário. María Corina fez questão de sublinhar isso em sua fala: “A paz real só existe quando a liberdade vence o medo”.

O gesto não foi apenas gratidão. Foi uma mensagem política clara: a coragem de enfrentar ditadores e negociar a paz exige princípios, não slogans. A atuação de Trump na resolução do conflito no Oriente Médio e na pressão direta sobre a ditadura de Maduro, incluindo novas sanções e congelamento de ativos da elite chavista, foi decisiva para enfraquecer o regime e abrir espaço para a resistência democrática venezuelana. Foi, portanto, também um reconhecimento indireto de que a liberdade na América Latina não virá dos discursos de esquerda, mas de quem ousa desafiar a tirania com resultados concretos.

O constrangimento para Lula foi inevitável. O presidente brasileiro é um dos principais aliados de Nicolás Maduro no Ocidente. Fez campanha pública por ele, aparecendo em anúncios de televisão na Venezuela. Parte dos presos da Lava Jato delatou que recursos desviados pelo PT no Brasil foram usados para financiar campanhas do chavismo. Os marqueteiros Mônica Moura e João Santana admitiram, em delação premiada, que receberam dinheiro de corrupção do Partido dos Trabalhadores para atuar na campanha de Nicolás Maduro. Em outras palavras, Lula não é apenas cúmplice político da ditadura venezuelana, ele contribuiu diretamente para instalá-la.

Enquanto María Corina Machado arriscava a própria vida para enfrentar um regime que persegue, prende e tortura opositores, Lula ironizava sua cassação. Em 2023, afirmou que o episódio era um “problema interno da Venezuela”, expressão usada há décadas por autocratas para justificar repressões. Também foi irônico e machista ao tirar sarro, dizendo que ela estava chorando demais, deveria escolher outro candidato quando Maduro impediu sua candidatura. A mulher que ele desprezou tornou-se agora símbolo mundial de coragem e democracia.

Há anos circula em Brasília um rumor persistente: o grande sonho de Lula é ganhar o Nobel da Paz. Organizações e movimentos ligados ao PT insistem nessa indicação e ele se envaidece com a ideia. Quer ser visto como o mediador universal, o estadista do diálogo, o líder que pacifica o mundo com discursos. Mas os fatos teimam em contradizê-lo. Desde que voltou ao poder, duas mulheres que enfrentaram ditadores amigos de Lula ganharam o prêmio. Em 2023, a iraniana Narges Mohammadi, presa por denunciar a opressão dos aiatolás. Em 2025, María Corina Machado, vítima do chavismo que ele ajudou a financiar.

O Nobel, neste caso, é mais que um prêmio. É um veredito. Mostra ao mundo que a verdadeira defesa da democracia não vem de cúpulas governamentais nem de líderes que se proclamam pacificadores enquanto aplaudem tiranos. Vem de quem paga o preço da liberdade com a própria vida.

A esquerda adora repetir que está do lado certo da história. O problema é que a história, de vez em quando, decide responder. E quando o faz é implacável. O Nobel da Paz de 2025 mostrou o que o marketing lulista tenta esconder: enquanto Lula cultiva a fantasia de pacificador global, são as vítimas de seus aliados que conquistam o reconhecimento moral do mundo. A história, afinal, tem um senso de justiça que nenhum comitê partidário é capaz de manipular.