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Domínio Mineral Chinês

A recente aquisição de subsidiárias da canadense Equinox Gold pela gigante CMOC, em uma transação de US$ 1 bilhão, não é apenas um movimento de mercado, é um marco geoeconômico. Ao assumir o controle das minas de Aurizona (MA), Riacho dos Machados (MG), Fazenda e Santa Luz (BA), a estatal chinesa não apenas expande seu faturamento — que atingiu R$ 5,6 bilhões em 2025 —, mas verticaliza seu domínio sobre recursos que são, em última análise, ativos estratégicos da soberania brasileira.

A CMOC consolidou-se no Brasil operando nióbio e fertilizantes desde 2016. Ao absorver o ouro da Equinox, a empresa diversifica seu portfólio em um momento de valorização histórica do metal. Contudo, o ponto nevrálgico é a internalização das etapas produtivas. Ao controlar a extração em solo nacional e a comercialização global via sua trading, a IXM, Pequim consolida seu domínio sobre as etapas da cadeia produtiva. Para o Brasil, resta a exportação de baixo valor agregado e o recebimento de royalties, enquanto a inteligência estratégica sobre o destino desses minerais é transferida para a China.

O interesse chinês é cirúrgico. O ouro tornou-se o refúgio supremo diante da instabilidade entre os blocos ocidentais e asiáticos em 2026. Todavia, o verdadeiro foco geopolítico reside nos minerais críticos. O Brasil detém cerca de 90% das reservas mundiais de nióbio, material indispensável para ligas de aço de alta resistência e supercondutores. A vulnerabilidade reside em permitir que o controle desses ativos — onde o país possui um monopólio geológico — seja concentrado em um único ator estatal estrangeiro, sem que haja contrapartidas em transferência tecnológica ou agregação de valor em solo nacional.

O cerne do problema é a profunda assimetria regulatória. Enquanto EUA, Austrália e a própria China endureceram legislações para monitorar investimentos estrangeiros em setores estratégicos, o Brasil carece de um mecanismo de triagem (screening) institucionalizado. Sem um equivalente ao CFIUS norte-americano, o Estado vê-se desprovido de base legal para avaliar se a transferência de ativos compromete a autonomia futura. Opera-se sob uma lógica comercial de curto prazo, negligenciando que a soberania hoje é exercida pelo controle das cadeias de suprimentos. Em essência: O Brasil está vulnerável.

A hegemonia chinesa reside no processamento químico, onde domina 90% da capacidade global de refino. Possuir reservas abundantes é inútil se a tecnologia de separação reside além-mar. Se o Brasil não exigir o refino doméstico, continuará a ser um exportador de solo e um importador de futuro, fornecendo ingredientes para uma revolução tecnológica da qual não é convidado a participar.

A criação de um marco legal de investimentos estratégicos deixou de ser uma opção burocrática para tornar-se uma imperatividade de sobrevivência. O Brasil precisa compreender que, no xadrez de 2026, nem todo dólar possui o mesmo peso. Instituir filtros não significa repelir capital, mas exercer a prerrogativa de um Estado soberano que protege sua inteligência e seus recursos estratégicos inalienáveis. 

Por que a ativista libertária Gloria Álvarez incomoda tanto os autoritários e extremistas?

O livro Como defender a liberdade sem se destruir no processo, de Gloria Álvarez, lançado no Brasil neste mês de janeiro, parte de uma constatação incômoda: defender a liberdade tem um custo humano real e fingir que esse custo não existe é uma forma sofisticada de autoengano. A obra não promete heroísmo, nem redenção política, nem pertencimento confortável. Ela descreve, com franqueza rara, o desgaste psicológico, social e moral de quem escolhe sustentar ideias sem se ajoelhar a um político específico e sem transformar convicção em seita.

A autora é uma das vozes mais corajosas na defesa da liberdade de expressão, Gloria Álvarez, cientista política guatemalteca. Formada em Relações Internacionais e Ciência Política pela Universidade Francisco Marroquín, com pós-graduações em Política e Economia pela Universidade de Georgetown e mestrados em Antropologia Aplicada e Desenvolvimento Internacional, Gloria ganhou projeção internacional após um discurso viral contra o populismo de esquerda em 2014, no Parlamento Ibero-Americano da Juventude. Desde então, construiu uma trajetória marcada pela crítica consistente a projetos autoritários de esquerda e de direita, pela defesa do liberalismo clássico e por uma recusa sistemática a servir como adereço intelectual de qualquer liderança.

O livro chega ao Brasil com tradução do LOLA, organização liberal da sociedade civil que também promoveu o evento de lançamento em São Paulo com a própria autora. Tive a honra de escrever a quarta capa.

Em um ambiente político viciado em rótulos, a obra se destaca por fazer algo que incomoda profundamente extremistas de todos os campos: desloca o debate do plano moralista para o plano humano. Gloria não escreve para provar superioridade ideológica. Escreve para expor mecanismos de captura emocional que transformam pessoas comuns em militantes exaustos, ressentidos e dependentes de aprovação.

Um dos méritos centrais do livro de Gloria Álvarez é tratar o ativismo como experiência subjetiva, e não como performance pública. “Ninguém me avisou que defender a liberdade significaria perder amigos, ser reduzida a caricaturas e carregar uma vigilância constante sobre cada palavra dita. Ninguém me avisou que a solidão não viria como exceção, mas como rotina.”, diz um trecho do livro que desmonta a fantasia do engajamento como gesto épico e revela o que costuma ser escondido por slogans.

Em outro momento, a autora vai ainda mais fundo ao descrever a relação entre redes sociais, identidade e exaustão emocional: “Quando sua opinião vira sua identidade, qualquer discordância soa como ataque pessoal. É assim que as pessoas se tornam prisioneiras da própria causa. Elas não defendem ideias, defendem a si mesmas de um colapso interno.” O alvo não é apenas o autoritarismo explícito, mas a estrutura psicológica que o sustenta.

É por isso que Gloria Álvarez incomoda tanto. Autoritários precisam de fiéis, não de indivíduos capazes de sustentar ambiguidade, dúvida e custo pessoal. Extremistas precisam de adesão total, não de gente que reconhece fragilidades internas e se recusa a terceirizar a própria consciência. O livro desmonta a lógica da pureza política e expõe a autoindulgência embutida na adesão a grupos que oferecem pertencimento em troca de obediência.

A tecnologia aparece como personagem central dessa engrenagem. A autora descreve uma geração que cresceu confundindo viralização com verdade, alcance com legitimidade e repetição com consenso. Em um trecho especialmente incisivo, Gloria Álvarez afirma: “A mesma máquina que promete dar voz a todos permite que regimes autoritários e interesses escusos comprem relevância, fabriquem indignação e criem a ilusão de maioria. O problema não é só o poder, é a disposição das pessoas em entregar o próprio julgamento.” A crítica não se limita a governos. Ela inclui influenciadores, algoritmos e o público que consome tudo isso sem resistência.

Esse ponto torna a obra particularmente relevante para jovens que já nasceram na era digital. Ao contrário de livros que romantizam o engajamento, Como defender a liberdade sem se destruir no processo funciona como um aviso. A defesa da liberdade exige maturidade emocional, capacidade de frustração e disposição para ficar sem aplauso. Exige aceitar que nem toda batalha rende curtidas e que nem toda convicção vira tendência. Exige, sobretudo, resistir à tentação de transformar política em anestesia pessoal.

No fundo, o livro de Gloria Álvarez propõe uma libertação que vai além da esfera institucional. Ele sugere que a verdadeira prisão não está apenas no Estado inchado ou no líder autoritário, mas na necessidade psicológica de pertencer a qualquer custo. Aderir a um grupo, muitas vezes, é uma forma confortável de não olhar feridas internas, de não lidar com inseguranças e de não assumir responsabilidade pela própria vida.

Ao recusar o papel de mascote ideológico e ao expor o preço humano do ativismo, Gloria Álvarez não oferece consolo. Oferece lucidez. E é exatamente isso que a torna tão incômoda. Para autoritários porque desmonta o mecanismo de controle e para extremistas porque retira a fantasia da superioridade moral. Já para quem preserva a humanidade e lucidez, oferece algo muito precioso, a possibilidade rara mas efetiva de defender a liberdade sem se destruir no processo.

A suprema corte dos aiatolás?

Saindo em defesa corporativa do comportamento inadmissível de Dias Toffoli, Luiz Fachin, presidente do STF, escreveu em nota oficial da corte:


“É preciso afirmar com clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito. O Supremo age por mandato constitucional, e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel. Defender o STF é defender as regras do jogo democrático e evitar que a força bruta substitua o direito. A crítica é legítima e mesmo necessária. Não obstante, a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder; e o STF não permitirá que isso aconteça. O Supremo fez muito no Brasil em defesa do Estado de direito democrático; fará ainda mais. Sim, todas as instituições podem e devem ser aperfeiçoadas, isso sempre, mas jamais destruídas. Quem almeja substituir a ousada pedagogia da prudência pelo irresponsável primitivismo da pancada errou de endereço”.

O que ele está dizendo, em outras palavras, é que qualquer crítica das demais instituições da democracia (membros de outros poderes, imprensa etc.) a um membro da corte é um ataque à democracia. Isso seria, segundo Fachin, uma tentativa de, nada menos, destruir a suprema corte. Ou seja, na prática, está comparando as passadas investidas golpistas contra o STF, por parte de Bolsonaro e dos bolsonaristas, com as opiniões da cidadania brasileira numa época em que o ex-presidente está preso e não há sinal de nenhum movimento de ruptura ou de ameaça às instituições. Assim, os que não concordam com os desmandos de membros da corte seriam todos golpistas. Ou seja, Fachin e seus pares estão perfeitamente alinhados ao governo Lula e ao PT. Os que não concordam com eles são inimigos da democracia.

Fica-se na dúvida de se o STF sabe realmente o que está fazendo? Ao dizer que qualquer crítica ao comportamento flagrantemente irregular de certos membros da corte é um ataque à democracia está transformando o tribunal em uma instância soberana no sentido absolutista do termo. Isso, sim, é um ataque à democracia.

Numa democracia só a lei, democraticamente aprovada, é soberana, não as instituições – e muito menos seus membros – encarregadas de aprová-la, aplicá-la ou interpretá-la.

O STF não pode ser uma espécie de “partido dos clérigos”, acima da lei e subordinado apenas à sharia dos seus intérpretes. Seus membros são servidores públicos, não aiatolás. Ou são?

Segundo a fatwa de Luiz Fachin, a Malu Gaspar, o Sam Pancher e o Metropoles, o Estadão e a Folha, o Walter Maierovitch e uma multidão de juristas, “tentam destruir as instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder”. São, todos, portanto, golpistas contra a democracia.

Uma fatwa é uma decisão jurídica emitida por um mufti (ou um membro do STF) em resposta a uma questão sobre a sharia (ou seja, sobre sua privativa interpretação da lei).

O Regime Vazio: O Colapso do Irã à Sombra da Operação Martelo da Meia-Noite

A República Islâmica do Irã está seriamente ameaçada. Sete meses após a Operação Martelo da Meia-Noite — a devastadora campanha aérea dos EUA em junho de 2025 que, segundo relatos, “aniquilou” as capacidades de enriquecimento nuclear do Irã — o regime em Teerã perdeu sua última garantia e sua legitimidade interna. Privado da “carta nuclear” e economicamente arruinado pelas consequências da guerra de 12 dias com Israel, a liderança enfrenta uma revolta revolucionária que já deixou mais de 2.000 mortos. Com o presidente Trump agora prometendo que “a ajuda está a caminho” e ameaçando uma nova onda de intervenções militares ou econômicas, o Oriente Médio se prepara para o ato final de um drama que começou com a destruição dos bunkers no verão passado.

O Legado de Junho de 2025: Um Escudo Quebrado
A crise atual não pode ser compreendida sem o contexto de 22 de junho de 2025. Naquela noite, sete bombardeiros B-2 Spirit dos EUA lançaram quatorze bombas GBU-57 Massive Ordnance Penetrators (MOPs) sobre as usinas de enriquecimento de Fordow e Natanz.1

O Déficit Estratégico: O Pentágono avaliou que os ataques atrasaram o programa nuclear do Irã em pelo menos dois anos.2 Essa perda da “capacidade de ruptura” privou Teerã de sua principal alavanca contra o Ocidente. Diferentemente de 2024, o Irã não pode ameaçar “correr para a bomba” para dissuadir uma intervenção; está vulnerável diante de seus inimigos.

Consequências Econômicas: A guerra precipitou um colapso do rial, que perdeu 84% de seu valor em relação ao ano anterior. A destruição da infraestrutura e o choque psicológico dos ataques dos EUA catalisaram a fuga de capitais e a hiperinflação que desencadearam os protestos de dezembro de 2025.

A Nova Ameaça: Mudança de Regime, Não a Não Proliferação
Como a ameaça nuclear foi amplamente neutralizada em 2025, a postura atual dos EUA mudou da contenção para o que parece cada vez mais com a decapitação do regime.

Alvo da “Frota Fantasma”:*Com as instalações nucleares em ruínas, o novo alvo dos EUA é o bolso do Irã. O governo Trump está caçando agressivamente a “armada fantasma” de petroleiros que transportam petróleo para a China. Ao sufocar a receita que financia a repressão doméstica da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), Washington visa falir a máquina de repressão.

Hezbollah em Estado Crítico: Os ataques da Operação Martelo da Meia-Noite e as sanções subsequentes cortaram as artérias financeiras do Hezbollah. Privado do dinheiro iraniano (que muitas vezes era lavado através da frota paralela agora sancionada), a capacidade do grupo de ameaçar Israel diminuiu, reduzindo o risco de uma guerra em duas frentes caso os EUA intervenham novamente no Irã.

A Armadilha de Ormuz: A Última Carta
Um Irã enfraquecido e sem armas nucleares tem apenas uma carta na manga: o Estreito de Ormuz.

Jogada Desesperada: Em junho de 2025, o Irã não conseguiu fechar o estreito, apesar das ameaças. Agora, diante de um colapso existencial, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) pode calcular que minar o estreito é a única maneira de forçar o mundo a salvar o regime. Isso seria uma jogada suicida, convidando a uma resposta naval dos EUA muito maior do que os ataques aéreos de 2025.

Postura das Bases Armadas dos EUA: As bases americanas em Al Udeid (Catar) e na Base de Segurança Nacional do Bahrein, que apoiaram a operação de 2025, permanecem em alerta máximo. No entanto, sua vulnerabilidade a enxames de mísseis convencionais continua sendo o principal fator de dissuasão contra uma invasão americana em grande escala.

Consequências geopolíticas: Um vácuo na Eurásia
A potencial queda da República Islâmica cria um vácuo que aterrorizou Pequim e Moscou.

O duplo desastre da China: Tendo perdido o acesso ao petróleo venezuelano após a operação dos EUA em Caracas no início deste mês, a China agora enfrenta a perda do fornecimento iraniano (1,5 milhão de barris/dia). O fracasso da arquitetura de segurança do BRICS em proteger dois membros-chave em um mês expõe a incapacidade do bloco de projetar poder militar.

O isolamento da Rússia: O Irã era o pulmão logístico da Rússia. Se um governo interino pró-Ocidente ou caótico substituir os aiatolás, o “Corredor de Transporte Norte-Sul” se fechará, deixando a Rússia completamente cercada.

Conclusão: O Oriente Médio pós-nuclear
A operação “Martelo da Meia-Noite” de 2025 provou que instalações nucleares podem ser destruídas. A crise de 2026 determinará se o regime que as construiu conseguirá sobreviver às consequências. Para o mundo, o perigo passou de uma explosão nuclear para o colapso caótico e sangrento de uma potência hegemônica regional — um colapso que os EUA parecem prontos para acelerar, independentemente do custo.

Rota da Seda Tropical

O terceiro Policy Paper da China para a América Latina e o Caribe transcende o roteiro diplomático convencional: é um manifesto de poder suave que visa integrar a região a uma órbita econômica e política centrada em Pequim. Sob a retórica de uma “comunidade de destino compartilhado”, apresenta-se uma alternativa pragmática às ingerências ocidentais. Contudo, sob a superfície de uma cooperação técnica aparentemente neutra, desenha-se uma estratégia para expandir a hegemonia chinesa, tornando os países latino-americanos dependentes de sua economia e, por extensão, subalternos politicamente.

A arquitetura dessa dependência revela-se na discrepância entre o discurso e a prática. Embora a Nova Rota da Seda prometa industrialização, os dados de investimento entre 2024 e 2026 demonstram uma concentração maciça em setores extrativos e infraestruturas críticas. O foco no controle da cadeia de suprimentos de minerais estratégicos — como o lítio no Cone Sul — e na consolidação de redes elétricas no Brasil e Peru indica que Pequim busca, primordialmente, sua própria segurança energética, mantendo a América Latina como fornecedora de insumos primários sob uma nova roupagem tecnológica.

O risco à soberania nacional é nítido no “aprisionamento tecnológico”. Ao exportar ecossistemas de governança digital através de padrões chineses de 5G, inteligência artificial e o sistema de satélites BeiDou, Pequim cria uma dependência estrutural de longo prazo. Politicamente, o apoio econômico atua como um freio à autonomia diplomática, condicionando investimentos ao rigoroso cumprimento do “Princípio de Uma Só China” (ferindo a autonomia de Taiwan) e ao alinhamento com as Iniciativas de Segurança Global. Paralelamente, a dependência financeira é reforçada por acordos de swap cambial e liquidação em Renminbi, que ancoram as reservas locais às políticas monetárias chinesas, configurando uma nova forma de vassalagem econômica.

Para evitar a passividade, os governos latino-americanos devem adotar diretrizes de negociação soberanas. É imperativo exigir transferência efetiva de tecnologia e transparência radical nos contratos, evitando o uso de recursos naturais como garantia de dívida. Além disso, a negociação deve ser coletiva, pois o fortalecimento de blocos regionais e frentes temáticas permitiria que a região negociasse a partir de uma posição de força, mantendo a diversidade de parceiros globais e utilizando a competição geopolítica em seu favor. Por fim, a aprovação de projetos que instituam autoridades de avaliação de investimento estrangeiro (já em tramitação no parlamento brasileiro) seria uma ação estratégica essencial neste cenário.

Em última análise, o documento chinês é a certidão de nascimento de uma nova ordem hegemônica nos trópicos. A América Latina não pode se dar ao luxo de trocar antigas tutelas por uma dependência tecnológica e financeira irreversível. O “destino compartilhado” só deixará de ser um eufemismo para a subalternidade se a região despertar para a necessidade de uma soberania ativa e coordenada. A escolha é inadiável: ou a América Latina se posiciona como um bloco estratégico e autônomo, ou será reduzida a um mero insumo nas ambições imperiais da China para o século XXI.

Não adianta mostrar o vídeo: eles dirão que não prova nada

Um estudo recente chega a uma conclusão desconfortável para a era da superexposição visual: provar com vídeo não funciona. Ao contrário do que se imagina, imagens não encerram disputas nem produzem consenso. Elas tendem a reforçar crenças prévias e a tornar posições ainda mais rígidas. Diante do mesmo registro visual, grupos diferentes não apenas discordam. Eles passam a se sentir mais certos do que já pensavam antes de assistir. A evidência visual não corrige o viés. Em muitos casos, o aprofunda.

Essa conclusão é apresentada em um trabalho publicado pela newsletter acadêmica The Power of Us, assinado por Anni Sternisko, pesquisadora em psicologia social, Dominic Packer, professor de psicologia na Universidade de Lehigh, e Jay Van Bavel, professor da Universidade de Nova York e um dos principais especialistas mundiais em identidade social e polarização. O estudo reúne evidências experimentais e análises de casos reais para mostrar como identidade, pertencimento e lealdade a grupos moldam não apenas a interpretação, mas o próprio ato de ver.

Um dos exemplos centrais analisados é um caso concreto ocorrido nos Estados Unidos, que se transformou em uma grande polêmica nacional. Em Minneapolis, uma jovem mulher foi morta durante uma abordagem do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. O ICE é uma agência federal responsável por fiscalizar imigração e executar deportações, e sua atuação já é, por si só, objeto de forte controvérsia política no país.

A mulher estava sozinha em seu carro, em uma área urbana, quando agentes do ICE tentaram abordá-la. Ao perceber a ação, ela tentou fugir com o veículo. O episódio foi registrado por múltiplas câmeras, incluindo imagens de celulares, de sistemas de vigilância e dos próprios agentes. Houve vídeos de vários ângulos, com áudio, sequência temporal e boa qualidade de imagem. Tudo aquilo que costuma ser exigido quando alguém diz que é preciso “ver o vídeo” antes de formar opinião. O presidente Donald Trump decidiu divulgar oficialmente o vídeo da abordagem policial para encerrar a discussão sobre o tema. O efeito foi exatamente o oposto do esperado.

Autoridades federais afirmaram que a agente agiu em legítima defesa, sustentando que o carro teria sido usado como arma. Outras autoridades, juristas, ativistas e lideranças políticas afirmaram que as imagens não sustentavam essa versão. Celebridades, comentaristas e figuras públicas se posicionaram de forma veemente. Protestos se espalharam. Cada novo vídeo divulgado não reduzia a controvérsia. A intensificava.

Quanto mais imagens surgiam, mais as pessoas se aferravam às convicções que já tinham antes de assistir a qualquer uma delas. Quem desconfiava da atuação do ICE via confirmação de abuso em cada frame. Quem defendia a agência via prova de ameaça em exatamente as mesmas cenas. O vídeo deixou de ser evidência e passou a ser munição. Servia para confirmar identidades, não para esclarecer fatos.

É exatamente esse mecanismo que o estudo descreve. A percepção visual não é neutra. Ela é orientada por expectativas, valores e pertencimento a grupos. Pessoas não assistem a vídeos para descobrir o que aconteceu. Assistem para confirmar quem são e de que lado estão. O cérebro seleciona detalhes, ignora outros e constrói causalidade de acordo com narrativas prévias. A prova visual não dissolve o conflito. Ela se encaixa nele.

Isso ajuda a explicar um paradoxo central do nosso tempo. Nunca houve tantas câmeras, tantos registros, tantos vídeos disponíveis. E nunca foi tão difícil construir uma narrativa comum sobre os fatos. A crença de que “agora está tudo filmado” convive com a incapacidade prática de concordar sobre o que se vê. O vídeo não funciona mais como árbitro da realidade. Funciona como extensão da disputa identitária.

Esse fenômeno não se limita a casos extremos ou a grandes conflitos raciais e institucionais nos Estados Unidos. Ele aparece no cotidiano, em discussões familiares, em brigas de trânsito, em denúncias de abuso, em disputas políticas locais. Alguém mostra um vídeo acreditando que aquilo encerrará a conversa. A resposta quase sempre vem rápida: isso não prova nada, falta contexto, o recorte é enviesado. Não necessariamente por má-fé, mas porque as pessoas realmente não estão vendo a mesma coisa.

O estudo aponta para um limite estrutural da vida contemporânea. Não basta registrar a realidade. É preciso reconhecer que olhamos para ela carregando identidades, medos e compromissos prévios. Enquanto insistirmos na fantasia de que a imagem fala por si, continuaremos frustrados. O conflito não está na falta de provas. Está na dificuldade de admitir que ver não é o mesmo que compreender.

O Abismo Persa: Como a Implosão do Irã Está Remodelando a Ordem Global de Tóquio a Brasília 

Em meados de janeiro de 2026, a República Islâmica do Irã enfrenta sua crise existencial mais grave desde a revolução de 1979. Desencadeados pelo colapso da moeda e pela repentina remoção dos subsídios à energia, protestos em todo o país se transformaram em uma revolta revolucionária que o regime luta para conter, apesar de um “toque de recolher de fato” e de uma repressão brutal que, segundo relatos, deixou mais de 2.000 mortos. Essa combustão interna colide com a pressão externa: um governo Trump fortalecido por sua recente intervenção na Venezuela e que ameaça impor tarifas ou ações militares. O potencial colapso ou transformação radical do Irã não é apenas uma história do Oriente Médio; é um terremoto geopolítico que ameaça cortar o suprimento energético da China, desestabilizar a aliança BRICS e forçar nações do Japão ao Brasil a escolher um lado em uma nova era de diplomacia de “mudança de regime”.

O Colapso Interno: A Economia Encontra a Revolução

O catalisador para a atual revolta foi econômico, mas o combustível é político.

A espiral descendente do “Toman”: A moeda iraniana perdeu mais de 60% do seu valor em semanas, dizimando a classe média. Com a inflação desenfreada e o governo triplicando as taxas de impostos para cobrir o déficit orçamentário, o contrato social se rompeu.

O “Toque de Recolher de Fato”: Relatos vindos de Teerã descrevem uma capital sitiada por suas próprias forças de segurança. A internet foi cortada para romper o “cordão umbilical digital” com a diáspora, mas isso apenas impulsionou a resistência para formas mais cinéticas. Diferentemente de 2009 ou 2019, os slogans mudaram de reformas para apelos explícitos pelo fim da República Islâmica.

A Doutrina Trump 2.0: “A ajuda está a caminho”

Logo após a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, o governo dos EUA sinalizou que o Irã é o próximo alvo da “pressão máxima”.

A arma tarifária: A Casa Branca ameaçou impor uma tarifa de 25% a qualquer nação que faça negócios com Teerã. Este é um ataque direto à China e à Índia, as principais linhas de suprimento econômico do Irã.

Ambiguidade Militar: Embora o presidente Trump tenha prometido que “a ajuda está a caminho”, permanece incerto se isso significa intervenção direta (como na Venezuela) ou intensificação da guerra cibernética e por procuração. No entanto, o precedente estabelecido em Caracas aterrorizou a liderança iraniana, que teme que um “ataque de decapitação” não seja mais apenas retórica.

China e os BRICS: O Cenário de Pesadelo

Para Pequim, o caos no Irã é uma catástrofe estratégica que se desenrola em câmera lenta.

Segurança Energética: A China importa quase 1,5 milhão de barris de petróleo por dia do Irã, principalmente através da “frota paralela”. Um colapso do regime ou um bloqueio dos EUA cortaria essa artéria, agravando o choque da perda do fornecimento venezuelano.

A Fratura dos BRICS: A turbulência no Irã expõe os limites da garantia de segurança dos BRICS. Assim como no caso da Venezuela, o bloco parece impotente para proteger um Estado-membro da desintegração interna ou da pressão dos EUA. Essa “lacuna de soberania” pode levar os membros a buscarem seus próprios mecanismos de dissuasão nuclear, temendo serem os próximos.

Consequências Regionais: Japão e América Latina

As ondas de choque estão sendo sentidas em capitais muito distantes de Teerã.

Pânico Energético no Japão: Tóquio depende fortemente do petróleo do Oriente Médio. Qualquer interrupção no Estreito de Ormuz — uma provável retaliação iraniana — faria os preços da energia dispararem, ameaçando a frágil recuperação econômica do Japão. O primeiro-ministro Takaichi pode ser forçado a abandonar a tradicional neutralidade do Japão no Oriente Médio para garantir a proteção naval dos EUA para seus petroleiros.

Alerta para a América Latina: Para os líderes do Brasil e da Colômbia, a postura dos EUA em relação ao Irã reforça a mensagem enviada à Venezuela: o alinhamento com rivais dos EUA acarreta risco existencial. Podemos presenciar um esfriamento das relações entre as capitais latino-americanas e Teerã, à medida que os governos buscam evitar sanções secundárias dos EUA.

Conclusão: Um Mundo à Beira do Abismo

A situação no Irã ultrapassou a fase de repressão interna; agora é o fulcro da instabilidade global. Se o regime cair, abrirá um vácuo que poderá ser preenchido por uma guerra civil ou por um governo pró-Ocidente — qualquer um dos quais alteraria drasticamente o equilíbrio de poder. Se sobreviver pela força bruta, provavelmente acelerará seu programa nuclear, desencadeando uma guerra regional. Para o resto do mundo, a ilusão de contenção acabou; a crise iraniana agora é uma crise global.

AKA GATE: https://sites.google.com/view/aka-gate/home?authuser=0

Colapso Teocrático

Em janeiro de 2026, o Irã vive um momento de ruptura definitiva. As ruas de Teerã e das principais províncias não clamam mais por reformas graduais, mas pelo fim de um sistema que se tornou anacrônico. O regime, que por décadas utilizou o fervor religioso e o nacionalismo para se sustentar, enfrenta hoje uma combinação letal: o colapso econômico interno e a sucessão de derrotas no cenário externo. O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo.

Compreender a crise contemporânea exige revisitar o colapso de Mohammad Reza Pahlavi. Ao tentar converter o país em uma potência ocidentalizada, o Xá negligenciou as bases tradicionais e o clero xiita, enquanto a repressão da Savak, sua polícia política, alienava a elite intelectual. Esse cenário culminou na Revolução de 1979 — uma coalizão heterogênea onde emergiu a liderança de Ruhollah Khomeini, que ascendeu após a queda da monarquia. O vácuo de poder foi preenchido pela Velayat-e Faqih, doutrina que submeteu a nação à tutela política e espiritual de um clérigo supremo, consolidando a teocracia moderna.

Quase meio século depois, o contrato social da República Islâmica ruiu. O sistema que prometia justiça social entregou uma economia de espoliação, controlada por fundações opacas e pelo braço empresarial da Guarda Revolucionária, que opera em moldes mais cruéis que a antiga Savak. A crise atual é o ápice de uma década de má gestão e expansionismo baseado no terror, agravada pelas sanções e pelo impacto da “Guerra dos 12 Dias” em 2025, que degradou a infraestrutura nuclear e militar do país.

Diferente de 2022, as manifestações atuais têm caráter existencial. O coração do levante bate no Bazar, o termômetro da estabilidade política persa. Quando mercadores fecham as portas e se unem aos jovens e às minorias étnicas, o regime perde sua última âncora de legitimidade. Ao mesmo tempo, a repressão mostra sinais de fadiga, com relatos de deserções e a incapacidade de conter focos simultâneos em todas as 31 províncias.

A análise de risco político nos obriga a desenhar caminhos para este desenlace. O Irã de amanhã não será o mesmo de ontem, e sua transição é um debate com reflexos globais. Um cenário provável é a solução pretoriana: diante da queda iminente, a Guarda Revolucionária poderia desferir um golpe interno, afastando os aiatolás em troca de uma abertura econômica nacionalista e pragmática, aos moldes do Egito. Outro caminho é a restauração de uma democracia parlamentarista laica, com Reza Pahlavi como símbolo de unidade transicional, assemelhando-se ao modelo espanhol pós-Franco. Contudo, não se deve subestimar a resiliência ideológica de uma teocracia acuada e o recrudescimento do regime ainda é uma opção, o que poderia transformar o país em uma “Coreia do Norte do Oriente Médio”, mantendo o poder pelo terror e isolamento absoluto. Por fim, existe o risco latente da fragmentação e “balcanização”, onde o colapso fomentaria movimentos separatistas e uma guerra civil devastadora. 

Os sinais são de que o experimento teocrático chega ao seu epílogo. A questão não é mais se o regime mudará, mas quem estará no controle quando a poeira baixar. O mundo deve estar preparado para o que emergirá das cinzas da teocracia.

Congresso dos Estados Unidos: o que esperar das MIDTERMS/2026

Acostumamo-nos a pensar que os eleitores escolhem os seus candidatos. Nos Estados Unidos, com a chamada redistritalização, os candidatos procuram inverter essa lógica, a fim de ‘escolher’ os seus eleitores….

O gerrymandering redesenha os limites dos distritos eleitorais de modo a favorecer um partido ou candidato sobre os outros nos pleitos bienais para a Câmara dos Representantes (total de 435 cadeiras, cada uma correspondendo a um distrito; hoje, o Partido Republicano detém uma precária maioria de 218 cadeiras, contra 213 ocupadas por deputados Democratas, e quatro dessas cadeiras estão, no momento vagas).

De acordo com a 4ª seção da Constituição estadunidense, recai sobre os estados e seus respectivos legislativos a responsabilidade primordial na determinação dos “tempos, lugares e modos” das eleições para a Câmara dos Representantes, mas o Congresso também pode, “a qualquer tempo”, alterar essas regras mediante Lei. Isso, porém, NÃO se aplica às eleições para o Senado, cujos candidatos disputam a maioria dos votos de todo o estado.

O censo demográfico decenal dita o número de cadeiras alocadas a cada estado. Alguns deles podem ganhar cadeiras, enquanto outros podem perdê-las, conforme suas populações aumentem ou diminuam.

Em 1964, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que o tamanho da população de cada distrito deve ser, tanto quanto possível, igual ao de todos os demais. Estados de população rarefeita — exemplo: Wyoming — enviam à Câmara dos Representantes somente um deputado cada e NÃO são obrigados à redistritalização periódica.

E quais são os métodos utilizados pelos estados para retraçar seus mapas eleitorais? Na maioria dos casos (33 estados), o legislativo estadual se incumbe do redesenho, e esse traçado pode ou não estar sujeito a veto do executivo estadual respectivo.

Em 9 estados, a tarefa cabe a uma comissão que pode ser ou não composta por políticos detentores de mandato eletivo.

Em apenas 2 estados, a responsabilidade pela redistritalizaçãoé compartilhada entre os legislativos e as comissões.

Os restantes estados possuem somente um distrito.

Polarização — A intensa polarização político-partidária tem tornado mais frequentes os gerrymanders fora do prazo ‘normal’ de uma década. Tendo em vista as eleições intercalares (midterms) de 3 de novembro próximo, cinco estados — Califórnia, Carolina do Norte, Missouri, Ohio e Texas — já produziram novos mapas, diferentes daqueles vigentes na eleição geral de 2024. No Utah, a disputa entre Democratas e Republicanos levou à judicialização do gerrymander Litígios judiciais também interferiram no redesenho dos mapas eleitorais do Alabama, da Geórgia e da Louisiana. Com a redistritalização, o governo federal espera ganhar mais cinco cadeiras para o Partido Republicano do Texas, o que provocou uma reação em sentido contrário dos Democratas californianos, liderados pelo governador Gavin Newsom, que sonha com a Casa Branca em 2028.

Já na Flórida, em Indiana, em Maryland e na Virgínia, os legisladores estaduais se abstiveram de modificar os mapas para o próximo pleito.

Normalmente, nas intercalares, o partido instalado na Casa Branca perde cadeiras no Congresso para o seu rival. No presente ciclo, o presidente Donald Trump e seus Republicanos temem uma vitória Democrata que lhes tire a precária maioria, especialmente na Câmara dos Representantes. Uma maioria Democrata em ambas as Casas, o que é menos provável, certamente turbinaria processos de impeachment do presidente.

Neste segundo mandato de Trump, sua aprovação, segundo pesquisas do instituto Gallup, está em 36%. Os entrevistados estão preocupados com o baixo ritmo de criação de novos empregos, com os altos preços em geral, com a perspectiva de eliminação dos subsídios governamentais ao Affordable Care Act — o que elevaria os custos do seguro-saúde — e com a escalada de envolvimento militar externo do colosso norte-americano (Irã, Venezuela). E, apesar de apenas 14% (60) do total dos distritos serem considerados competitivos neste ciclo, os Democratas estão envidando esforços para reconquistar a maioria. Vinte e cinco Republicanos, contra 21 Democratas, já declararam que não concorrerão à reeleição, e pelo menos 39 distritos estão na mira destes a exemplo do 17º distrito do estado de Nova York, hoje representado pelo deputado Republicano moderado Mike Lawler. Os Republicanos, por sua vez, estão de olho em 13 distritos ora representados por Democratas, onde Trump venceu em 2024, a exemplo do 2° distrito do Maine, hoje com o Democrata também moderado Jared Golden, que já declarou que vai se aposentar.

O novo gerrymander na Carolina do Norte pode beneficiar o GOP, enquanto a judicialização do mapa eleitoral de Utah abre novas oportunidades para os Democratas, cuja militância sem dúvida ganhou novo alento com as vitórias, no ano passado, de Abigail Spanberger para o governo da Virgínia, de Mike Sherrill para o governo de Nova Jersey e do socialista Zohran Mamdani, primeiro prefeito muçulmano da cidade de Nova York.

Senado — O mandato de senador é de seis anos, e a cada dois anos 1/3 das cadeiras da Casa é submetido a renovação. Em 2026, NÃO haverá eleições para o Senado em 14 estados: Arizona, Califórnia, Connecticut, Dakota do Norte, Indiana, Maryland, Missouri, Nevada, Nova York, Pensilvânia, Utah, Vermont, Washington e Wisconsin.

Atualmente, são 53 senadores Republicanos, 45 Democratas e 2 independentes que votam com estes últimos. Ali, os próprios Democratas reconhecem que a probabilidade de uma virada é menor, embora esperem conquistar algumas (poucas) novas cadeiras: mais precisamente, duas. Num cenário de ‘empate’ (50 X 50), este seria desatado em favor do GOP pelo vice-presidente J. D. Vance.

De acordo com o portal www.racetothewh.com, que se baseia em um conjunto de pesquisas, o qual eu consultei no dia 13 de janeiro, os Republicanos têm 63% de chance para manter sua maioria no Senado em novembro próximo, enquanto a chance dos Democratas para reconquistá-la é de 36,7%.

Na Geórgia, as sondagens dão um empate técnico entre o incumbente Jon Ossof (Democrata) e o deputado e desafiante Republicano Mike Collins.

Enquanto isso, em Minnesota, onde o governador Tim Walz (companheiro de Kamala Harris na chapa derrotada por Trump e Vance em 2024), desistiu de buscar seu terceiro mandato sob a devastadora pressão de um megaescândalo de corrupção no sistema estadual de assistência social, sua vice, a também Democrata Peggy Flanagan, parece posicionada a conquistar a vaga senatorial em disputa.

Outras prováveis vitórias Democratas para o Senado são as seguintes: no Michigan, Mallory McMorrow, atualmente senadora estadual (com exceção de Nebraska, nos demais 49 estados o poder legislativo é bicameral); em New Hampshire, Chris Pappas, deputado federal; e na Carolina do Norte, o ex-governador Roy Cooper, cujas chances aumentaram significativamente depois que o senador Thom Tillis, Republicano, porém desafeto de Trump, desistiu de se candidatar à reeleição

Já os Republicanos torcem para que as urnas de novembro confirmem o favoritismo nas pesquisas destes candidatos a senador: a atual deputada federal Ashley Hinson em Iowa; a senadora e candidata à reeleição Ashley Moody na Flórida; o procurador-geral do estado Ken Paxton no Texas. Além de Moody, também buscam a reeleição, com boas chances de conquistá-la, os senadores Dan Sullivan (Alaska); Pete Ricketts (Nebraska); e Jon Husted (Ohio). Uma das escassas ‘viradas’ pró-Democratas previstas para novembro é a derrota, no Maine, da senadora Republicana Susan Collins, em busca de seu sexto mandato, contra a governadora Janet Mills.

Se os leitores me pedissem para resumir o sentido geral dos prognósticos acima, eu diria que os Democratas provavelmente recobrarão o controle da Câmara dos Representantes, ainda que sem uma ‘lavada’ contra o partido adversário, ao passo que os Republicanos manterão o controle do Senado, mas com maioria mais precária que a atual.

A coragem das mulheres iranianas e a covardia dos cúmplices da teocracia islâmica

A violência repressora, que no regime dos aiatolás é permanente, cresceu exponencialmente nos últimos dias, como indicado por vários organismos internacionais de Direitos Humanos. O próprio regime já declarou que mais de 2.000 pessoas foram mortas pelas forças de segurança dos aiatolás em decorrência dos atuais protestos, o que leva a crer que o número de vítimas é bem maior.

A brutalidade com que o regime iraniano está massacrando os manifestantes que ousam se sublevar contra a odiosa teocracia não é um desvio ocasional passível de ser contido por sanções econômicas; é a expressão da sua própria essência. Notas de repúdio da comunidade internacional (que o Brasil, para surpresa de ninguém, não se dignou a emitir) são bem-vindas, mas ineficazes. É preciso ação, é preciso uso da força contra os que há décadas a têm usado para oprimir seu povo. Até porque a violência perpetrada pelo Irã ultrapassa fronteiras, sendo um problema global.

O regime que espanca mulheres sem hijabe nas ruas de Teerã é o mesmo que sustenta os terroristas houthis no Iêmen, que fornece drones à Rússia para bombardear a Ucrânia, que foi pilar logístico, militar e financeiro do regime de Bashar al-Assad e que ordenou, financiou e armou o grupo terroristas Hamas para o terrível massacre contra israelenses, em 7 de outubro de 2023.

Os atuais protestos no Irã não são apenas uma explosão episódica de descontentamento econômico, embora os comerciantes, costumeiros aliados do regime, tenham se juntado às mulheres e aos estudantes na linha de frente dos protestos. O protagonismo feminino não é mera contingência. Ao desafiarem abertamente as leis do véu, ao queimarem símbolos do regime, ao ocuparem as ruas mesmo sabendo que o preço pode ser a prisão, a tortura ou a morte, as mulheres iranianas estão expondo a natureza essencialmente opressora da República Islâmica e deixando claro o que querem: liberdade.

A coragem das mulheres iranianas deixa à mostra a covardia dos que se dizem progressistas enquanto fecham os olhos para as atrocidades cometidas pelo regime islâmico; é constrangedor para intelectuais de esquerda falar sobre os acontecimentos no Irã porque eles se chocam com as suas tentativas hipócritas de romantizar o regime dos aiatolás. O silêncio — quando não a cumplicidade explícita — de amplos setores da esquerda diante da atual repressão remete a uma relação antiga. 

A esquerda e a Revolução Islâmica de 1979

Desde a Revolução Islâmica de 1979, parte significativa da esquerda ocidental decidiu ver no Irã não uma teocracia totalitária, mas um símbolo de resistência ao chamado “imperialismo”. 

A revolução iraniana de 1979 pôs fim ao regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, uma monarquia autocrática pró-Ocidente. Com amplo apoio popular e viés fortemente religioso, essa rebelião teve, desde o início, influência do clero xiita, comandado do exterior pelo exilado aiatolá Ruhollah Khomeini. Após a vitória da revolução, fundada a República Islâmica do Irã, o clero xiita, tendo Khomeini como líder supremo, estabeleceu uma autocracia muito mais violenta do que jamais fora a monarquia de Mohammad Reza Pahlavi . 

O novo regime implementou uma teocracia autoritária com repressão intensa, incluindo execuções em massa de opositores (milhares nos primeiros anos), prisões políticas e consolidação de poder via Guarda Revolucionária, superando em escala imediata a brutalidade da SAVAK sob o xá, que já era notória por torturas e assassinatos. O chamado “regime dos aiatolás” caminhou então a passos largos para se tornar um dos mais perseguidores, cruéis e criminosos regimes do mundo, sob o beneplácito da esquerda anti-ocidental. 

O engajamento entusiasmado de pensadores como Michel Foucault, que interpretou a revolução iraniana como uma experiência espiritual e antimoderna capaz de fazer frente aos valores do Ocidente, foi apenas o exemplo mais conhecido dessa cegueira voluntária que não deixa de ser uma perversão moral. As mulheres, os dissidentes, os homossexuais — todos foram sacrificados no altar do anti-imperialismo abstrato.

Essa herança intelectual não desapareceu. Ela se atualiza hoje no relativismo cultural, no pós-colonialismo militante e na política identitária que seleciona vítimas e algozes de acordo com conveniências ideológicas. Um regime que grita “morte à América” e “morte a Israel” pode assassinar seus próprios cidadãos sem despertar a indignação proporcional daqueles que se dizem defensores universais dos direitos humanos. 

No Brasil, essa dissonância assume contornos graves. O atual governo mantém relações cordiais e politicamente engajadas com o Irã, em nome de uma diplomacia que se autoproclama “multipolar”, mas que, na prática, normaliza regimes abertamente repressivos. O fato de o vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, ter sido enviado, em 2024, para representar o governo brasileiro na posse do presidente iraniano Masoud Pezenshkian, não foi um detalhe protocolar irrelevante, mas um gesto político de alinhamento. Também é eloquente o silêncio oficial do Itamaraty diante do massacre de civis iranianos na atual onda de protestos. 

As mulheres iranianas, desarmadas diante de um Estado brutal, tornaram-se uma pedra de toque para qualquer discurso sobre liberdade, justiça e direitos humanos. As ruas do Irã hoje, com corpos empilhados em sacos e sob ameaça de mais execuções, expõem não apenas a malignidade da teocracia dos aiatolás, mas também a falência moral e hipocrisia do Ocidente dito progressista com seus governos que se dizem democráticos.