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O Enigma Delcy

Delcy Eloína Rodríguez Gómez não é uma figura acidental, mas a herdeira da “aristocracia civil” bolivariana. Filha do mártir Jorge Antonio Rodríguez, ela combina capital simbólico revolucionário com uma formação europeia que a distingue da elite militar. Agora presidente interina sob a chancela do TSJ após a captura de Maduro, Delcy emerge como o pivô de uma transição de alto risco, operando na interseção entre a retórica anti-imperialista e o pragmatismo da diplomacia financeira internacional.

No tabuleiro de Caracas, ela governa em simbiose absoluta com seu irmão, Jorge Rodríguez, formando um bloco tecnocrata que se contrapõe à ala radical e ideológica de Diosdado Cabello. Sem comando direto de tropas, sua sobrevivência política depende do “pêndulo” de Vladimir Padrino López, o Ministro da Defesa atua como o fiador dos militares chavistas. Enquanto Cabello personifica a brutalidade do Cartel de los Soles, os Rodríguez preferem a cooptação cirúrgica e a inteligência burocrática, sob a pressão asfixiante das sanções que pesam sobre Delcy desde 2018.

Sua liderança, contudo, é assombrada pelas delações de Hugo “El Pollo” Carvajal e pela iminente colaboração de Maduro em solo americano. Tais testemunhos são venenos de ação lenta que podem expor redes de financiamento ilícito, comprometendo sua viabilidade como interlocutora. Ela caminha sobre uma corda bamba geopolítica: depende do aparato de inteligência cubano (G2) para monitorar conspirações militares internas, mas qualquer transição que mantenha o cordão umbilical com a ditadura cubana será vista como uma “mudança cosmética” por Washington. Ela precisa projetar-se perante Trump como uma “Murillo venezuelana” — uma interlocutora técnica e moderada capaz de pacificar o país e garantir a estabilidade energética via PDVSA.

Para os interlocutores internacionais, incluindo Washington, Delcy apresenta-se como uma gestora capaz de operacionalizar a retomada do setor petrolífero e a renegociação de ativos estratégicos. Mesmo sob o peso de investigações externas e da histórica influência de Cuba, ela aposta em uma política de “distensão”, por enquanto, sem transição — uma reforma que torne o regime funcional e aceitável para o mercado global. O sucesso de sua gestão reside na capacidade de transformar o Estado venezuelano em um parceiro previsível, garantindo a permanência da elite civil antes de uma possível transição política definitiva.

Para os Estados Unidos, Delcy não é uma aliada confiável, mas uma ferramenta de conveniência transacional. Sua sobrevivência dependerá de movimentos táticos milimétricos: ela poderá libertar presos políticos para sinalizar boa vontade, mas dificilmente desmantelará o aparato repressivo, sob risco de sofrer um golpe militar por traição à casta armada. Sua missão é tentar converter o regime em uma estrutura de distensão rumo a uma possível transição — uma autocracia mais palatável e funcional. A volta da democracia dependerá do sucesso deste processo, entretanto, serão passos lentos de graduais, evitando uma guerra civil que poderia eclodir com o retorno abruto da oposição ao poder em conflito com um aparato repressor e armado, alimentado por práticas, recursos e cooptação de grupos terroristas, narcotraficantes e de aparatos de inteligência estrangeiros presentes na Venezuela.

Os Estados Unidos devem romper todos os laços com o regime de Maduro se planejam resolver os problemas da Venezuela

Se o regime de Nicolás Maduro é ilegítimo, como o presidente Trump declarou repetidamente antes de depor Maduro, por que o governo agora está em conluio com a vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez?

Quatro dias após a extraordinária captura de Maduro pelas forças especiais americanas, os relatos sobre a vida sob o governo de Rodríguez são sombrios para os venezuelanos que esperavam por mudanças.

Na terça-feira, coletivos armados pró-regime percorriam Carácas em busca de qualquer pessoa que pudesse estar comemorando a queda de Maduro. Jornalistas eram detidos e posteriormente liberados. Presos políticos permanecem encarcerados — apesar de algumas solturas durante o feriado antes da prisão de Maduro.

A infeliz decisão de agir por meio da estrutura de poder existente reflete a situação singular que Trump enfrenta agora na Venezuela.

A maioria dos líderes teria concluído que os desafios pós-Maduro eram insuperáveis ​​— e jamais teria tentado a operação. A ousada manobra de Trump foi bem-sucedida taticamente, mas agora vem o teste estratégico, muito mais difícil. 

A Defesa da Estabilidade

A justificativa do governo para trabalhar com o regime provavelmente se baseia em necessidades de curto prazo e na consciência de que a instabilidade poderia prejudicar os objetivos dos EUA na Venezuela.

Manter o status quo permite que o país continue extraindo petróleo, um objetivo fundamental para Trump.

No entanto, o governo provavelmente entende que seria um erro estratégico depender desse acordo por mais tempo do que o absolutamente necessário.

Rodriguez representa a continuidade do regime de Maduro e das redes criminosas que causaram tanta devastação na Venezuela. Vice-presidente desde 2018, ela foi sancionada pelos Estados Unidos, Canadá e União Europeia por seu papel na repressão à dissidência.

Mesmo que Rodríguez faça concessões aos Estados Unidos em relação ao narcotráfico e à presença de adversários dos EUA na Venezuela, a menos que as redes que conectam o regime e seus aliados criminosos sejam completamente desmanteladas, quaisquer ganhos serão de curta duração.

É improvável que isso aconteça até que a Venezuela tenha um governo democraticamente eleito com instituições à altura da tarefa. 

Um caminho realista a seguir

Uma estratégia realista para o governo é usar Rodríguez como uma ponte para um governo interino, não como uma parceira de longo prazo.

O governo poderia condicionar a parceria com ela ao atendimento de demandas específicas dos EUA, enquanto trabalha ativamente para a transição para um governo interino liderado por uma figura externa ao regime, capaz de organizar eleições.

Isso deve significar a expansão imediata dos direitos civis e dos espaços políticos. O foco inicial deve ser a libertação de todos os presos políticos e a garantia do retorno seguro dos exilados políticos, dando aos venezuelanos evidências de que a mudança está a caminho.

Os Estados Unidos precisam comunicar sua visão e expectativas. A ambiguidade gera incerteza e permite que agentes mal-intencionados explorem brechas.

O governo precisa dizer ao regime, aos militares e ao povo venezuelano qual é o objetivo final dos EUA: uma Venezuela democrática e soberana, livre da influência de adversários dos EUA e do crime organizado.

Também deve abordar o papel da oposição. O aparente afastamento de María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, envia um sinal equivocado. As forças democráticas merecem um papel central na transição da Venezuela. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos não devem escolher as batalhas mais difíceis agora. Embora os EUA possam remover membros do regime do poder, as redes criminosas que operam na Venezuela não serão desmanteladas da noite para o dia. Tentar fazer isso agora garantirá que elas trabalhem para minar os objetivos dos EUA.

Finalmente, o governo precisa deixar claro que não se trata de petróleo. Enfatizar isso desvia a atenção dos objetivos maiores dos EUA na Venezuela.

As decisões sobre petróleo e outros recursos cabem ao povo venezuelano, e Trump deveria dizer isso.

Fazendo história ou repetindo-a

A captura de Maduro foi um triunfo militar e de inteligência impressionante, mas a história julgará Trump pelo que vier depois.

A verdadeira questão é se os EUA podem facilitar uma mudança duradoura na Venezuela ou se simplesmente trocaremos um regime autoritário por outro.

A parceria dos EUA com Rodríguez pode ser necessária como uma medida de curto prazo, mas não pode ser normalizada — e não pode ocorrer à custa da mudança.

Trump atualmente tem influência e impulso. Ele deve usá-los com sabedoria enquanto os tiver.

A farsa do 8 de janeiro

Três anos após os eventos de 8 de janeiro de 2023, a insistência do governo federal em sustentar a narrativa de uma “tentativa de golpe de Estado” revela-se cada vez menos um compromisso com a verdade factual e cada vez mais um expediente político. O episódio, que entrou para a história como um grave ato de vandalismo contra prédios públicos, vem sendo artificialmente inflado para servir como espantalho simbólico, usado para justificar excessos institucionais, silenciar opositores e desviar a atenção do desempenho pífio do governo em áreas centrais da administração pública.

Do ponto de vista técnico, jurídico e político, a tese de golpe não se sustenta.

Um golpe de Estado, conforme a ciência política e o direito constitucional, pressupõe elementos objetivos: liderança clara, coordenação estratégica, apoio ou ruptura dentro das Forças Armadas, controle de meios institucionais de poder e um projeto concreto de tomada e manutenção do governo. Nada disso esteve presente no 8 de janeiro. O que se viu foi uma massa desorganizada, sem comando central, sem respaldo institucional, sem apoio militar e sem qualquer capacidade real de substituir a ordem constitucional vigente.

Tratar vandalismo como golpe não é apenas um erro conceitual — é uma distorção deliberada.

A fragilidade dessa narrativa fica ainda mais evidente quando se analisam os próprios processos judiciais decorrentes dos fatos. Há denúncias de individualização precária de condutas, penas desproporcionais, inversão do ônus da prova e julgamentos que parecem mais orientados por uma lógica exemplarizante do que pelo devido processo legal. Em vez de responsabilização objetiva e equilibrada, optou-se por uma justiça de caráter simbólico, cujo objetivo maior parece ser a reafirmação de uma versão política previamente construída.

Se o 8 de janeiro tivesse sido, de fato, uma tentativa real de golpe, seria razoável esperar a identificação de líderes políticos relevantes, articuladores institucionais e financiadores com atuação comprovada. No entanto, três anos depois, não há nomes de peso do Congresso Nacional envolvidos, não há generais, não há governadores, não há cúpulas partidárias. A ausência de lideranças desmonta, por si só, a tese de uma conspiração estruturada contra o Estado democrático de direito.

Ainda mais revelador é o esvaziamento político e popular das cerimônias promovidas pelo presidente Lula para “relembrar” a data. Sem apelo popular, sem mobilização espontânea da sociedade e sem a presença significativa de líderes do Legislativo, os atos oficiais tornaram-se eventos protocolares, sustentados artificialmente pela máquina estatal e pela retórica governamental. A cada ano, fica mais evidente que o 8 de janeiro mobiliza mais o discurso do Planalto do que a consciência coletiva da população.

E não é difícil compreender o motivo.

Diante de dificuldades econômicas, aumento do custo de vida, crise fiscal, insegurança jurídica, desgaste internacional e promessas de campanha não cumpridas, o governo encontrou no 8 de janeiro um instrumento narrativo conveniente. Ao manter viva a ideia de um “golpe permanente”, cria-se um inimigo difuso, útil para justificar erros, atacar adversários e tentar preservar uma base política cada vez mais insatisfeita.

O problema é que democracias não se fortalecem com mitos, mas com fatos. Não se protegem instituições com narrativas forçadas, mas com respeito às garantias legais, à proporcionalidade das penas e à pluralidade política. Transformar um episódio de vandalismo grave — que deve, sim, ser punido nos limites da lei — em um marco fundacional de um governo é um sinal de fraqueza, não de força.

Três anos depois, o 8 de janeiro já não se sustenta como ameaça à democracia. Sustenta-se apenas como instrumento retórico de um governo que, incapaz de apresentar resultados concretos, precisa olhar constantemente para o passado para justificar o presente.

E quando um governo precisa de um espantalho para sobreviver politicamente, o problema não está na oposição — está na sua própria incapacidade de governar.

A Queda de Maduro

O amanhecer de 2026 marca um ponto de inflexão decisivo para a Venezuela. A queda de Nicolás Maduro e sua transferência sob custódia para Nova Iorque simbolizam o colapso de um sistema que exauriu o Estado, convertendo instituições em engrenagens do crime transnacional. No entanto, o vácuo deixado por décadas de autoritarismo exige prudência absoluta. A transição demanda cautela na estabilização interna e na recuperação de uma indústria petrolífera dilapidada por quase trinta anos de uma gestão que priorizou o saque sistemático e a repressão em parceria com máfias estrangeiras.

A realidade atual ratifica as denúncias de Maria Corina Machado: a PDVSA foi, na prática, privatizada por máfias e potências revisionistas. Sob o manto da Lei Antibloqueio, o regime operou a transferência clandestina de ativos para figuras como Alex Saab e conglomerados sem expertise, como o Consórcio Petroluxe e a Tridente Servicios Petroleros. A teia estendeu-se a empresas de fachada ligadas ao Irã, China e Rússia, incluindo a Sinohydro Corporation e as obscuras Anhui Guangda e Beijing Huasheng Rongcheng — cujos objetos sociais originais, como processamento de dados, mascaravam a exploração de hidrocarbonetos. Até a entidade turca Kase Finansal, de natureza financeira, tornou-se operadora petrolífera, evidenciando uma prioridade na engenharia financeira para lavagem de capitais em detrimento da técnica industrial.

Sob o domínio de Pequim, Teerã e Moscou, o patrimônio nacional foi desidratado para financiar a repressão interna e máquinas de guerra globais. Essa pilhagem reduziu a produção a níveis inferiores a 30% de sua capacidade histórica — um déficit de 70% causado por corrupção e negligência. Reerguer este setor vital exigirá agora o aporte tecnológico e a transparência que apenas os Estados Unidos e o mercado global legítimo podem oferecer.

Esta reconstrução é indissociável de um resgate ético. Não há soberania legítima quando o Estado submete o povo a uma ditadura brutal e invocar o Direito Internacional para proteger um tirano que converteu o país em santuário da tortura situa-se em um absoluto vácuo moral. Aqueles que evocam a “não-ingerência” silenciaram enquanto o terror era institucionalizado nos porões do SEBIN e da DGCIM. A intervenção liderada pelos EUA deve ser vista como um ato de responsabilidade internacional necessário para desmantelar um Estado-narcomafioso que ameaçava a segurança hemisférica.

Contudo, remover Maduro é apenas o primeiro passo. O desafio hercúleo reside na rede sistêmica de controle militar. Permanecem no território centenas de generais vinculados ao narcotráfico, como Vladimir Padrino López, Domingo Hernández Lárez e Diosdado Cabello, responsáveis por pilhar o erário. É impossível reconstruir o país removendo apenas a “cabeça” do regime e a sobrevivência da democracia exige uma limpeza institucional cirúrgica nas raízes dessa narcocorrupção. Sem desmantelar essa casta militar, qualquer mudança será apenas cosmética. O êxito desta nova era depende da coragem em erradicar as estruturas que ainda infestam o Estado, devolvendo, finalmente, a verdadeira soberania ao povo venezuelano.

Nosso 2026 será de novos começos ou de mais do mesmo?

O ano de 2026 se anuncia como um marco simbólico. Teremos Copa do Mundo, eleições presidenciais e um país atravessado por um cansaço profundo. Não se trata apenas de fadiga econômica ou política, mas de um esgotamento mais amplo, que atravessa instituições, linguagem e expectativas. O Brasil entra nesse novo ciclo sem ter resolvido as tensões acumuladas na última década e sem demonstrar maturidade para enfrentá-las de forma honesta.

O ambiente institucional já vinha fragilizado, mas o episódio envolvendo o Banco Master representou uma inflexão qualitativa. Não foi apenas mais um conflito jurídico ou uma disputa de interpretações legais.

O que se tornou visível foi algo mais grave: a sensação de que determinadas estruturas passaram a operar em circuito fechado, com mecanismos de autoproteção que escapam ao controle público. A questão deixou de ser técnica e passou a ser simbólica. Quando decisões relevantes parecem blindadas contra questionamentos, a confiança na institucionalidade se rompe.

Esse deslocamento altera profundamente a relação da sociedade com o Estado. Durante anos, as críticas ao Supremo Tribunal Federal se concentraram em excessos pontuais ou em leituras jurídicas consideradas expansivas.

Agora, a percepção mudou de patamar. A crítica passou a atingir a própria ideia de imparcialidade. Não se discute apenas se uma decisão foi correta, mas se o sistema ainda é capaz de se autorregular. Quando essa dúvida se instala, a legitimidade sofre um abalo que não se resolve com notas técnicas ou discursos institucionais.

É nesse contexto que se revela um traço recorrente da vida pública brasileira: a dificuldade de lidar com a responsabilidade. Diante de situações complexas, uma parte significativa da sociedade prefere reagir emocionalmente a compreender. Em vez de enfrentar o desconforto de uma análise mais profunda, opta por narrativas que confirmem certezas prévias. O gesto do “eu avisei” substitui o esforço de compreender o que, de fato, está acontecendo.

A pesquisa Datafolha de dezembro escancara uma contradição que já não pode mais ser tratada como ruído estatístico. Segundo o levantamento, 47 por cento dos brasileiros se declaram de direita ou centro-direita, enquanto 28 por cento se dizem de esquerda ou centro-esquerda.

Ao mesmo tempo, 40 por cento afirmam ser petistas, e 34 por cento se dizem bolsonaristas. Isso significa, de forma objetiva, que há brasileiros que se dizem de direita e, ao mesmo tempo, se identificam como petistas, assim como há pessoas que se dizem de esquerda e se reconhecem como bolsonaristas. Não se trata de incoerência pontual, mas de um padrão.

Esse dado revela algo mais profundo do que confusão ideológica. Ele mostra que, para uma parcela significativa da população, as categorias políticas deixaram de ser referências de pensamento e passaram a funcionar como identidades emocionais.

A identidade política deixa de ser um conjunto de ideias e passa a ser uma marca de grupo, quase um rótulo social. Nesse cenário, dizer-se de direita ou de esquerda não significa defender projetos distintos de país, mas apenas sinalizar de que lado se está.

O resultado é uma política cada vez menos racional e mais performática. Em vez de discutir propostas, discute-se pertencimento. Em vez de analisar consequências, escolhe-se um lado. O debate se transforma em espetáculo, e a participação política, em afirmação de identidade. A lógica não é mais convencer, mas sinalizar. Não se busca compreender, mas marcar posição.

Nesse ambiente, a figura do salvador da pátria retorna com força. Diante da frustração e da sensação de impotência, cresce a expectativa de que alguém resolva tudo em nome de todos. A responsabilidade individual é terceirizada. O pensamento crítico cede espaço à esperança de que uma liderança carismática faça o trabalho que a sociedade não quer fazer. É uma forma de infantilização coletiva, em que a política passa a ser vivida como promessa de alívio emocional.

O problema é que essa dinâmica não produz maturidade democrática. Pelo contrário, aprofunda a dependência e reduz a capacidade de ação consciente. Quanto mais se espera por um salvador, menos se constrói cidadania. Quanto mais se delega o pensamento, mais fácil se torna manipular afetos e conduzir massas.

O Brasil entra em 2026 diante dessa encruzilhada. Ou enfrenta o desconforto de pensar com autonomia, reconhecer limites e assumir responsabilidades, ou seguirá preso ao ciclo de frustração, indignação e expectativa messiânica. A questão central não é quem vencerá a eleição, mas se a sociedade está disposta a amadurecer.

Sem esse movimento, qualquer mudança será apenas cosmética. O país continuará oscilando entre euforia e decepção, sem nunca enfrentar o núcleo do problema. O verdadeiro desafio não é escolher um novo salvador, mas aprender, finalmente, a viver sem um.

Captura de Maduro foi justa, necessária, mas não suficiente

Na madrugada do sábado, 3 de janeiro de 2026, como vastamente divulgado, a Delta Force, unidade de operações especiais do exército americano, a mando do presidente Donald Trump,  capturou o ditador Maduro – acompanhado pela esposa Cilia Flores – e os levou para uma prisão nos EUA. Tendo por principal alegação a quebra da “soberania nacional” da Venezuela, vem sendo grande a gritaria contra a ação americana.

A reação indignada de parte do establishment intelectual e jornalístico à prisão de Nicolás Maduro diz mais sobre a confusão moral do nosso tempo do que sobre a operação em si. Na ótica de analistas respeitáveis, mesmo diante de um tirano, mesmo diante de um regime que tortura, mata, frauda eleições e converte o Estado em engrenagem do narcotráfico, seria preciso conter a ação em nome de uma abstração chamada “ordem internacional”. Como se essa ordem não estivesse já em ruínas, e como se ela tivesse, em algum momento, protegido os venezuelanos.

O primeiro ponto que precisa ser enfrentado é a inversão moral operada por esse tipo de crítica. Derrubar um ditador é considerado um “objetivo defensável”, mas os meios empregados seriam problemáticos. Ora, quando todos os meios ordinários foram tentados, insistir na pureza dos procedimentos equivale a aceitar, na prática, a perpetuação do mal. 

Em “A Sociedade Aberta e seus inimigos” Karl Popper dá uma interessante definição de democracia: um regime no qual o povo pode se livrar do governo sem derramamento de sangue. A Venezuela sob Maduro não entra nessa definição. 

Os meios legais e pacíficos de resistência foram exercidos pelo povo venezuelano até a exaustão. Restou a força, que acabou sendo usada não pelo povo venezuelano, massacrado e incapaz desse tipo de reação, mas por uma potência estrangeira. 

O debate sobre a legalidade da “Operação Resolução Absoluta” é válido e está aberto. A mim, no entanto, parece que o questionamento da prisão de Maduro à luz do direito internacional parte da falsa premissa de que a soberania de um Estado foi violada. Como bem explicou Leonardo Coutinho, em análise publicada no Estadão, Chávez e Maduro transformaram a Venezuela em algo que vai além do conceito clássico de narcoestado: 

Sob o chavismo, a Venezuela tornou-se um Estado-narco. Ao longo de 26 anos, o regime fez com que as instituições fossem mais do que o alvo da infiltração do crime, mas um Estado que atua como um chefe criminoso. Não é a interferência do tráfico no Estado, é o Estado como agente do tráfico.” 

Um regime que, além de oprimir seu próprio povo, funde aparato estatal e crime organizado abdica de qualquer pretensão legítima à inviolabilidade. O próprio conceito de soberania está ligado ao povo e não a uma estrutura que o oprime. Quem atacou a soberania da Venezuela foi Maduro quando o povo venezuelano foi agredido, preso, torturado, aviltado, enganado, e por todas as formas infelicitado por esse facínora que estava no poder há mais de 12 anos.

Em relação, portanto, à captura de Maduro, considero que a decisão do presidente dos Estados Unidos não foi condenável, mas acertada. O problema é o que virá depois. É ingenuidade achar que Trump age por valores morais e sensibilidade humanitária. 

A “Operação Resolução Absoluta” estará moralmente justificada se os presos políticos forem libertados, se o regime cair, se Edmundo González ou Maria Corina Machado assumirem a presidência e a economia voltar a florescer. 

Trump, porém,  já se apressou em desqualificar Corina Machado e iniciou conversas com a vice de Maduro, acendendo alerta para a possibilidade de uma atitude vil e traiçoeira, qual seja, fazer acordo com o entorno político-militar do ditador desalojado, inaugurando um madurismo sem Maduro, com uma cúpula que lhe sirva aos interesses.

A captura de Maduro foi necessária, mas não suficiente para a libertação dos venezuelanos. Derrubar o homem e preservar o sistema seria apenas trocar a face da opressão. A libertação imediata dos presos políticos, a abertura dos centros de tortura, o fim da perseguição sistemática à oposição e o reconhecimento efetivo da vontade popular são critérios mínimos para que a ação de Trump faça sentido do ponto de vista moral. Sem isso, a prisão de Maduro se reduzirá a um gesto espetacular e sem sentido. 

Maduro, a fraude ignorada e o colapso da ordem internacional

Durante anos, os fatos estiveram diante dos olhos do mundo. Relatórios da ONU, denúncias de organizações independentes, testemunhos de vítimas e investigações internacionais apontaram para um mesmo diagnóstico: o regime de Nicolás Maduro consolidou-se por meio da repressão, da fraude e da violação sistemática dos direitos humanos. Ainda assim, a comunidade internacional optou, em grande medida, pela omissão, pelo relativismo moral ou por gestos diplomáticos inócuos.

As acusações são graves e amplamente documentadas: execuções extrajudiciais, tortura de presos políticos, perseguição a opositores, censura à imprensa, aparelhamento do Judiciário e uso das forças de segurança como instrumentos de terror estatal. A isso se soma um elemento decisivo: a fraude eleitoral recorrente, que esvaziou completamente qualquer aparência de legitimidade democrática do regime chavista.

Mesmo diante desse cenário, organismos multilaterais e lideranças globais insistiram em tratar a ditadura venezuelana como um “ator político legítimo”, apostando em negociações intermináveis e resoluções simbólicas. A Organização das Nações Unidas, criada para conter abusos de poder e preservar a paz, limitou-se a relatórios e discursos, incapaz de produzir consequências reais. Na prática, a omissão internacional funcionou como um selo tácito de validação do regime.

É nesse vácuo de autoridade e coragem que se insere a ação de Donald Trump em relação a Nicolás Maduro. Ao reconhecer a ilegitimidade do governo venezuelano, impor sanções duras e tratar Maduro como aquilo que ele efetivamente é — um líder autoritário sustentado pela fraude e pela força —, Trump rompeu com o teatro diplomático que dominava o cenário internacional. Sua postura, ainda que controversa, não surgiu do nada: foi consequência direta da falência das instituições multilaterais em fazer cumprir seus próprios princípios.

O ponto central é desconfortável, mas inevitável: quando o sistema internacional falha em punir ditaduras evidentes, abre espaço para ações unilaterais. Trump não criou o problema venezuelano; ele reagiu a um problema que foi ignorado por tempo demais. A fraude eleitoral, tolerada e relativizada por observadores internacionais, foi o marco final dessa complacência.

Esse episódio revela algo maior do que o conflito entre Estados Unidos e Venezuela. Ele expõe a obsolescência do atual sistema geopolítico, estruturado após a Segunda Guerra Mundial, mas hoje incapaz de responder aos desafios reais do século XXI. A ONU, engessada por interesses cruzados, vetos políticos e um discurso cada vez mais distante da realidade, perdeu sua capacidade de dissuasão e autoridade moral.

O caso Maduro é sintomático: um regime acusado de crimes contra a humanidade permanece no poder, enquanto a ordem internacional debate sem agir. Quando alguém age fora desse sistema, a reação não é de autocrítica, mas de indignação seletiva.

Estamos, portanto, diante do início de uma nova ordem global — não porque ela foi planejada, mas porque a antiga deixou de funcionar. A ação contra Maduro simboliza a transição de um mundo regido por consensos artificiais para outro marcado por decisões duras, interesses nacionais explícitos e o enfraquecimento dos organismos multilaterais tradicionais.

A pergunta que fica não é se essa nova ordem será melhor ou pior. A pergunta correta é: quanto da atual desordem foi causada exatamente pela omissão daqueles que juraram proteger a democracia, a liberdade e os direitos humanos — e não o fizeram?

Ismael Almeida

Expurgos em Pequim: Como a paranoia de Xi Jinping fragiliza o regime chinês

A ascensão de Xi Jinping ao topo da hierarquia do Partido Comunista Chinês sempre foi acompanhada por uma promessa de rejuvenescimento nacional, mas o que o mundo testemunha nos últimos dias de 2025 é, na verdade, um mergulho em uma paranoia autocrática que remete aos períodos mais sombrios da era Mao Tsé-Tung. O recente expurgo no alto escalão militar, o mais profundo e abrangente em décadas, não é apenas um ajuste burocrático, mas um terremoto político que expõe as vísceras de um regime que, enquanto tenta projetar uma imagem de força inabalável, parece corroído por uma profunda insegurança interna. As substituições drásticas nos Comandos Leste e Central, responsáveis respectivamente pela sensível frente de Taiwan e pela segurança da capital, Pequim, revelam que a lealdade pessoal ao “timoneiro” se tornou a única moeda de troca válida em uma estrutura onde a competência técnica foi relegada ao segundo plano.

Em uma cerimônia oficial carregada de simbolismo no dia 22 de dezembro de 2025, Xi Jinping selou o destino de figuras que, até pouco tempo, eram consideradas pilares da defesa nacional. A destituição do General Lin Xiangyang do Comando Leste e do General Wang Qiang do Comando Central, substituídos pelos generais Yang Zhibin e Han Shengyan, ambos egressos da Força Aérea, marca o ápice de uma purga que começou a ganhar tração no Quarto Pleno do Partido entre outubro e novembro. Naquele momento, nomes de peso como He Weidong, vice-presidente da Comissão Militar Central, e o influente oficial político Miao Hua foram removidos sob a acusação genérica de “corrupção e violações disciplinares”. Um movimento que deixa claro que a campanha anticorrupção iniciada em 2012 transmutou-se definitivamente em uma ferramenta de controle absoluto e eliminação de rivais faccionais.

Este cenário de instabilidade no comando militar ocorre paradoxalmente em um momento em que a China acelera de forma alarmante sua expansão nuclear, criando uma combinação volátil de comando político instável e poder de destruição sem precedentes. Relatórios recentes do Pentágono indicam que Pequim já pode ter instalado mais de 100 mísseis nucleares de longo alcance em bases subterrâneas recém-construídas, localizadas estrategicamente perto da fronteira com a Mongólia. Com um arsenal que saltou para pelo menos 600 bombas nucleares em 2024 e que deve ultrapassar a marca de 1.000 até 2030, a recusa sistemática do regime em negociar limites para seu armamento nuclear coloca o planeta diante de uma nova e perigosa corrida armamentista tripolar envolvendo Estados Unidos e Rússia. A construção desses silos, longe de ser um movimento meramente defensivo, serve como um escudo de intimidação para que Xi Jinping possa conduzir seus expurgos internos sem interferência externa, ao mesmo tempo em que aumenta exponencialmente o risco de um erro de cálculo militar em torno de Taiwan.

A justificativa oficial da corrupção, embora conveniente, esconde falhas sistêmicas que afetam a própria prontidão do Exército de Libertação Popular. Investigações apontam que a rede de propinas envolvia desde a compra de postos até falhas graves na aquisição de equipamentos para a força de foguetes, onde mísseis defeituosos comprometeriam a capacidade de resposta imediata. Ao decapitar as redes de patronato que ele mesmo chama de “exércitos dentro do exército”, Xi Jinping tenta prevenir qualquer sombra de dissidência, mas o custo é a erosão da coesão militar. O expurgo de nove generais sêniores apenas em 2025 e a redução da influência militar no Comitê Central — que caiu de 67 para cerca de 55 membros — indicam que ele está sacrificando a expertise militar em prol de oficiais “vermelhos e experts”, cuja principal qualificação é o alinhamento ideológico total com sua visão pessoal de poder.

Essa obsessão pelo controle absoluto revela sinais preocupantes de fraqueza e rachaduras no muro de Pequim. Um líder que se vê obrigado a promover purgas repetidas e de tal magnitude é alguém que não confia nas instituições que comanda. O ambiente interno na política chinesa atual é pautado pelo medo, onde oficiais remanescentes questionam sua própria segurança e evitam tomar iniciativas por receio de serem os próximos alvos da “purificação” partidária. Essa paralisia burocrática e operacional pode inibir a capacidade de combate imediato do PLA, levantando dúvidas entre analistas internacionais sobre se a China teria, de fato, condições de sustentar um movimento contra Taiwan, dadas as fragilidades expostas no alto comando.

Para a política externa, as implicações são igualmente graves. Ao projetar uma imagem de instabilidade interna e purgas constantes, Xi Jinping mina a credibilidade diplomática da China e sua capacidade de dissuasão. O mundo observa um regime que, enquanto constrói silos de mísseis na Mongólia e ameaça a ordem internacional, está mergulhado em uma luta intestina profunda para preencher vácuos de liderança deixados por generais que, até ontem, eram celebrados como heróis do partido. A remoção de aliados próximos, como He Weidong, sugere que o isolamento de Xi Jinping no topo do Politburo é cada vez maior, tornando-o dependente de um círculo cada vez menor de lealistas que podem não ter a coragem de lhe dizer a verdade sobre as reais capacidades militares do país.

Em última análise, o expurgo militar de 2025 é o testemunho de um sistema que prioriza a sobrevivência da facção no poder acima da eficácia do Estado. Xi Jinping pode ter consolidado seu controle absoluto sobre a Comissão Militar Central, mas o fez ao preço de criar uma estrutura de comando oca, onde o medo substitui a competência e a paranoia substitui a estratégia. Enquanto o Ocidente observa as movimentações no estreito de Taiwan e o crescimento do arsenal nuclear chinês, a verdadeira ameaça pode estar na instabilidade de um regime que, ao tentar eliminar todas as suas rachaduras internas, acaba por criar fissuras ainda mais profundas e perigosas para a estabilidade global. A China de hoje é um colosso armado até os dentes com mísseis de longo alcance, mas cujo timoneiro parece mais preocupado em caçar fantasmas dentro de seus próprios quartéis do que em garantir a paz que tanto apregoa em seus discursos oficiais.

Para o Brasil e o mundo, o sinal é claro: a China de Xi Jinping é um gigante com pés de barro político. A paranoia de seu líder, embora apresentada como força, é o testemunho mais eloquente de que a harmonia dentro do Partido é uma miragem mantida pela força bruta.

Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. 

A manipulação da opinião pública

Voltemos ao assunto do papel político dos institutos de pesquisa de opinião. Já tratei do tema em dois artigos. O primeiro, em 27/10/2025, intitulado Pesquisas de intenção de voto. O segundo, em 18/12/2025, intitulado Institutos de pesquisa de opinião. Em resumo, quais foram os problemas para a democracia apontados nesses artigos? (E peço perdão por repetir alguns argumentos já apresentados).

Em primeiro lugar as pesquisas de opinião podem ser instrumentalizadas para validar ou invalidar determinadas visões políticas, contribuindo para aumentar as chances de uma força política permanecer no governo ou sair do governo. Não é necessário fraudar pesquisas para fazer isso. A época em que é feita uma pesquisa, a escolha dos temas a serem pesquisados num determinado momento (e não em outro), o tipo de pergunta que a pesquisa faz, as perguntas que ela não faz, a ordem das perguntas, as opções listadas, as opções não listadas e a ordem das opções apresentadas aos entrevistados, determinam ou condicionam, em grande parte, os resultados.

Por exemplo, pesquisa Quaest divulgada no último domingo (21/12/2025), pergunta se os brasileiros acreditam ou não que Flávio Bolsonaro manterá sua candidatura até o fim. Como as pessoas podem saber isso? É uma pesquisa sobre crenças? O problema é de onde saem essas perguntas. Não se sabe de onde saem essas perguntas (nem sobre a escolha do momento para fazê-las), mas sabe-se onde entram as respostas: na pauta do debate político. E se nós resolvêssemos perguntar – às vésperas da campanha eleitoral – se a maioria dos brasileiros acredita que Lula é inocente de todos os crimes que o levaram a prisão? Ou se perguntássemos: quem acredita que Lula é a alma mais honesta do planeta e quem não acredita? A título de informar à população, podemos perguntar qualquer coisa que, devidamente amplificada pela mídia, influencia o debate político.

Podemos encomendar pesquisas de opinião para reforçar ou enfraquecer qualquer proposta do governo ou da oposição. Se um governo, por hipótese, está querendo enviar ao parlamento um projeto de lei (ou de emenda constitucional) que institua a pena de morte, podemos fazer uma pesquisa que mostra que a maioria da população é contra essa medida. Dependendo, porem, do formato da pesquisa e do momento escolhido para fazê-la (por exemplo, logo após uma chacina promovida por organizações criminosas, com centenas de mortes), podemos obter o resultado diametralmente oposto, mostrando que a maioria da população é a favor da medida. Exemplificando com casos menos extremos, podemos fazer pesquisas que mostrem que a população é favor da redução (ou do aumento) da maioridade penal; que a população aprova (ou desaprova) uma nova reforma da previdência; que a população é favorável (ou contrária) ao voto distrital, ou ao financiamento privado de campanhas eleitorais, ou ao fim da reeleição, ou ao aumento das dificuldades para a instalação de processos de impeachment de presidentes, governadores, prefeitos e membros da suprema corte. Qualquer resultado é possível – sem fraudar as pesquisas.

O governo vai mal das pernas em termos de popularidade? Não seja por isso. Fazemos uma pesquisa eleitoral mostrando que o presidente, candidato à reeleição, vence todos os concorrentes (mesmo que eles ainda não existam) no segundo turno das eleições (que só ocorrerão em um futuro distante). Ou fazemos uma pesquisa mostrando que o incumbente venceria com folga um concorrente seu do passado (que não poderá concorrer mais por estar legalmente inelegível). Vale tudo.

Em segundo lugar, pesquisas de intenção de voto – feitas por institutos de pesquisa de opinião – criam expectativas. A criação de expectativas é o mais eficaz movimento em uma campanha eleitoral. Por isso, diga-se o que se quiser dizer, os institutos de pesquisa de opinião e a interpretação de seus resultados, feita por analistas e divulgada por jornalistas, são o mais poderoso recurso de campanha que já foi inventado. Por exemplo, pesquisas de intenção de voto feitas neste momento (em que escrevo este artigo), com mais de 9 meses de antecedência, prestam-se a todo tipo de especulação política, em especial para animar campanhas antecipadas de candidatos que já estão no palanque e destruir alternativas que nem ainda se apresentaram. Não há como isso ser bom para a democracia.

Em terceiro lugar, há uma questão de fundo: pesquisas de opinião não são capazes de captar a opinião pública e sim a soma das opiniões privadas dos cidadãos. Não, não são a mesma coisa. A opinião pública emerge da interação – e da modificação – das opiniões privadas, não da sua soma. Se fossem a mesma coisa não seria necessário o processo eleitoral, que não compreende apenas depositar votos na urna num dia determinado, mas também a campanha eleitoral, a apresentação das propostas dos candidatos, o debate entre os candidatos, as negociações e modificações das propostas dos candidatos e o debate que se instala na sociedade sobre tudo isso. Bastaria então contratar o IBGE ou outra instituição com capacidade semelhante para fazer uma pesquisa censitária, indo de casa em casa para colher as preferências dos eleitores e depois totalizar os resultados. Isso não vale na democracia porque não capta o processo de formação da opinião pública, ou seja, o processo pelo qual as opiniões privadas são modificadas quando entram em interação entre si. A resultante desse processo é diferente daquela que se pode depreender ao totalizar opiniões ex ante à interação, quando essas opiniões privadas ainda não foram modificadas. Essa modificação é o que chamamos propriamente de política! Em suma, não é possível aferir a vontade política coletiva sem… política! Em outras palavras, não há um modo “técnico” de fazer isso.

Por tudo isso cheguei a dizer, no meu segundo artigo, que quem quiser influir na política pode entrar num partido, fundar um novo partido ou, o que é mais fácil, criar um instituto de pesquisa de opinião. Os resultados de pesquisas de opinião são amplificados pela reverberação dos meios de comunicação (que são, na verdade, caixas de ressonância de algumas notícias “autorizadas” a transitar em seu meio) e acabam pautando o debate político, influenciando as opiniões dos que eram chamados de formadores de opinião (ou, hoje, de influencers), as visões dos analistas políticos, as decisões dos atores políticos e dos eleitores, reforçando ou descartando propostas políticas e candidaturas. É um poder imenso, que pode ser usado para a manipulação da opinião pública.

Ora, se os institutos de pesquisa de opinião operam, objetivamente, como atores políticos, eles deveriam estar sujeitos a leis que controlam esse tipo de agente (político) para estabelecer um mínimo de equidade (ou paridade de armas) nas disputas políticas. Deveria haver um código de conduta que estabelecesse o que é permitido e o que é vedado a um instituto de pesquisa de opinião. Pesquisas de intenção de voto podem ser divulgadas até às vésperas das eleições ou serão proibidas nos 15 dias antes do pleito (como no Chile)? Pesquisas eleitorais precisam ser registradas sempre, mesmo em ano sem eleições (ao contrário do que determinou o TSE)? Partidos políticos que concorrem à eleições podem divulgar pesquisas eleitorais por eles contratadas? Quem pode contratar uma pesquisa (eleitoral ou não)? E será obrigatório ou não, na divulgação da pesquisa, revelar o nome do contratante? Institutos de pesquisa de opinião podem fazer pesquisas às suas próprias expensas (e, neste caso, devem provar como se financiaram)?

Claro que nada disso adianta muito em termos de controle democrático, embora ajude a aumentar a transparência. Há sempre como contornar restrições normativas ou legais. Empresas não podem doar dinheiro para campanhas? Tudo bem, elas então doam para pré-campanhas (que funcionam, para quase todos os efeitos, como campanhas). Analogamente, institutos de pesquisa de opinião não podem fazer isso ou aquilo? Eles arrumarão um jeito de contornar qualquer restrição, a não ser que sejam colocados na ilegalidade, como ocorre em várias ditaduras e não pode ocorrer em democracias.

Claro que se fizéssemos uma pesquisa de intenção de voto no universo dos dirigentes e técnicos dos institutos de pesquisa de opinião muita coisa seria esclarecida. Mas isso não é um procedimento legítimo em uma democracia, assim como não é legítimo fazer a mesma coisa nas agências de checagem e no conjunto dos jornalistas, analistas e comentaristas dos meios de comunicação profissionais. Já sabemos os resultados. E é um direito das pessoas terem suas preferências políticas.

No entanto… um consórcio (informal) formado por institutos de pesquisa de opinião, agências de checagem e grandes meios de comunicação alinhados, sobretudo agindo em conluio, explícito ou tácito, com o governo de turno, constitui um organismo ilegítimo de intervenção política do ponto de vista da democracia. Pode fazer parte de uma estratégia de conquista de hegemonia; ou seja, pode ajudar a prorrogar uma força política no governo, conferindo-lhe o tempo necessário para conquistar hegemonia sobre a sociedade para alterar, por dentro, o “DNA” da democracia – sem golpe!

Post Scriptum de 24/12/2025

Hoje o Datafolha divulgou uma nova pesquisa. O instituto perguntou aos entrevistados: “Considerando uma escala de 1 a 5, onde 1 é bolsonarista e 5 petista, em qual número você se encaixa?”. Aqueles que responderam “um” ou “dois” foram classificados como bolsonaristas. Já os que disseram “quatro” ou “cinco” foram categorizados como petistas. Quem respondeu “três” ficou como neutro. É por isso que o resultado foi absurdo: 40% de petistas, 34% de bolsonaristas e somente 18% não seriam petistas ou bolsonaristas. Só havia um número (o “três”) para classificar o que hoje é a maioria do eleitorado (que não é petista, nem bolsonarista). Como é que uma pessoa entrevistada na rua vai conseguir fazer de repente uma conta de cabeça para concluir que o “três” seria o único julgado neutro? Além disso, 1 a 5 normalmente é colocado como escala de grandeza ou qualidade e para uma variável apenas. Por último, quem quisesse ficar equidistante dos extremos ficaria tentada a procurar uma opção 2,5 – que não existe.

Como tenho dito, são os institutos de pesquisa de opinião atuando como agentes políticos e manipulando a opinião pública. O Datafolha aplicou um chaveco metodológico enganoso para inflar os números de petistas e bolsonaristas, calcificar a polarização e descredibilizar alternativas. Como teve o desplante de fazer isso? Sinal de que até os institutos de pesquisa de opinião vão entrar no vale tudo.

A Erosão da “Opção Nuclear”: O Caso Moraes e o Futuro da Lei Magnitsky

A Lei Global Magnitsky de Responsabilidade de Direitos Humanos é frequentemente descrita nos corredores de Washington como a “opção nuclear” da diplomacia americana moderna. Desenhada para ser uma ferramenta cirúrgica e devastadora contra indivíduos que operam na impunidade, a legislação permite aos Estados Unidos projetar poder moral e financeiro para além de suas fronteiras. No entanto, o recente e tumultuado episódio envolvendo o Ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro, Alexandre de Moraes — cuja inclusão na lista de sanções em julho de 2025 foi revertida apenas meses depois, em dezembro — levanta uma questão existencial para a eficácia desta política. Se uma lei criada para punir torturadores e cleptocratas passa a ser utilizada e recolhida como moeda de troca em disputas político-ideológicas, ela corre o risco iminente de perder sua capacidade de dissuasão global.

Para compreender a gravidade desse cenário, é fundamental retomar a gênese trágica da legislação. A lei carrega o nome de Sergei Magnitsky, um advogado e auditor russo que, em 2008, expôs uma fraude fiscal massiva de 230 milhões de dólares perpetrada por oficiais do próprio governo russo. Em vez de ser condecorado, Magnitsky foi preso, torturado e teve assistência médica negada até sua morte em uma prisão de Moscou, em 2009. A indignação global, liderada pelo financista Bill Browder, culminou na assinatura da lei pelo presidente Barack Obama em 2012, focada inicialmente na Rússia, e sua expansão global pelo Congresso em 2016. Desde então, a lei serve como um aviso de que as fronteiras nacionais não protegem violadores de direitos humanos do alcance do sistema financeiro americano.

A aplicação da Lei Magnitsky não é meramente simbólica; ela impõe uma “morte cível” econômica ao sancionado. Quando um indivíduo é incluído na lista de Cidadãos Especialmente Designados (SDN) do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), as consequências são imediatas e catastróficas. Primeiramente, todos os bens e interesses em propriedade do alvo que estejam nos Estados Unidos ou em posse de cidadãos americanos são bloqueados e congelados. Isso vai muito além de imóveis em Miami ou Nova York, afeta qualquer ativo financeiro que transite pelo sistema bancário americano.

Ainda mais grave é o isolamento do sistema financeiro global. Embora a lei seja americana, a onipresença do dólar torna a sanção extraterritorial na prática. Bancos internacionais, temendo multas secundárias ou a perda de acesso ao mercado americano, cortam laços com o sancionado quase instantaneamente. O indivíduo perde a capacidade de realizar transações via SWIFT, o sistema de mensagens que sustenta as transferências internacionais, tornando-se um pária financeiro incapaz de manter contas bancárias, cartões de crédito internacionais ou realizar comércio exterior. Adicionalmente, a lei impõe restrições severas de visto, impedindo a entrada do sancionado e, frequentemente, de seus familiares imediatos nos Estados Unidos.

Diante desse poder de fogo, a aplicação da lei contra um juiz de uma suprema corte de uma democracia ocidental, como ocorreu com Alexandre de Moraes, foi um evento sem precedentes. A sanção foi impulsionada por alegações de censura e violação da liberdade de expressão, pautas fortemente defendidas por uma ala do Congresso americano. Contudo, a rápida retirada do nome de Moraes da lista, após ajustes nas políticas de plataformas digitais e negociações diplomáticas, sugere uma flexibilização perigosa dos critérios da lei. Ao remover a sanção tão rapidamente, os Estados Unidos enviaram um sinal de que a inclusão na lista Magnitsky pode ser revertida não necessariamente por uma mudança fundamental de caráter ou justiça, mas por realinhamentos políticos e concessões estratégicas.

Esse movimento de “vai e vem” alimenta o argumento de críticos e autocratas de que a lei é, na verdade, uma ferramenta de coerção política seletiva, e não um instrumento imparcial de justiça. Desde 2017, o programa Global Magnitsky sancionou mais de 740 entidades e indivíduos em mais de 50 países. A lista inclui figuras notórias, desde oficiais chineses envolvidos na repressão aos Uigures em Xinjiang até os assassinos do jornalista Jamal Khashoggi na Arábia Saudita, passando pelos irmãos Gupta na África do Sul. A eficácia da lei contra esses alvos reside na percepção de que a sanção é técnica e baseada em evidências robustas de atrocidades ou corrupção sistêmica.

A retirada de nomes da lista de sanções, conhecida como delisting, é historicamente rara e desenhada para ser difícil. Ela geralmente exige provas concretas de que o comportamento do sancionado mudou, que houve erro na designação original ou a morte do indivíduo. O precedente mais notório de volatilidade antes do caso brasileiro foi o do bilionário israelense Dan Gertler, sancionado por corrupção na República Democrática do Congo. Em um movimento controverso nos últimos dias do governo Trump, Gertler recebeu uma licença que suspendia as sanções, apenas para tê-las reimpostas semanas depois pela administração Biden, que citou a inconsistência da licença com os valores anticorrupção americanos.

O episódio de Alexandre de Moraes, somado ao precedente de Gertler, cria uma jurisprudência de instabilidade. Se ditadores e violadores de direitos humanos ao redor do mundo perceberem que a Lei Magnitsky é permeável ao lobby e à pressão política momentânea, o medo de serem sancionados diminuirá drasticamente. A força da lei reside na sua certeza e na sua perenidade; ao transformá-la em um interruptor que pode ser ligado e desligado conforme a temperatura política de Washington, os Estados Unidos correm o risco de embotar uma das armas mais importantes já criadas para a proteção dos direitos humanos globais. Para que a lei mantenha sua relevância e capacidade de pressão, sua aplicação deve permanecer blindada contra disputas ideológicas passageiras, focando-se estritamente naqueles crimes universais que a inspiraram: a tortura, a execução extrajudicial e o roubo massivo de recursos públicos.