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STF futebol clube contra o Estado Democrático de Direito

Agora devidamente anunciado ao público, havia já alguns anos que o STF Futebol Clube vinha atuando, dentro e fora de campo, de maneira bastante eficiente; sendo o seu ponto forte o espírito de equipe: no time do Supremo Tribunal Federal ninguém solta a mão de ninguém.

Forte na defesa, o time do Supremo é audacioso no ataque, atropelando os adversários sem qualquer preocupação com as regras do jogo. Jogando firmemente contra o frágil time da democracia, que alega defender, o atacante Alexandre de Moraes faz valer a força para golear o adversário, deixando atônitos os torcedores do time do Estado Democrático de Direito.

Antes de seguir com o relato das supremas irregularidades, devemos recordar a origem da nossa alegoria futebolística. Ela vem de uma fala do ministro Flávio Dino, feita em uma reunião do STF que deveria ser secreta, mas que foi gravada e vazada:

“Eu já disse para o meu amigo e irmão Dias Toffoli: veja que já tem maioria. Mas não vai ser unânime. Mas o ministro Dias Toffoli tem voto para continuar. […] Em qualquer outro pedido de arguição [de ministro] eu sou STF futebol clube”.

Essa reunião havia sido convocada às pressas pelo ministro-presidente Edson Fachin porque o STF estava sendo acuado por investigações da Polícia Federal, pela imprensa investigativa e pela opinião pública por envolvimento de ministros do Supremo no caso da liquidação do Banco Master; sendo especialmente visado o ministro Dias Toffoli, que segurava nas suas suspeitas mãos a relatoria do referido e escandaloso caso.

Contrariamente à previsão de Flávio Dino, a nota emitida pelo colegiado do STF – que resultou de um acordo com Dias Toffoli, que aceitou pedir afastamento da relatoria – foi unânime; e não só afastou do “amigo e irmão” qualquer suspeição, como enalteceu o seu trabalho.

Convém lembrar que, por ocasião da referida convocação, o presidente Fachin levantava publicamente e com grande insistência a bola do “código de ética”. Depois da decisão pouco ética exposta na acovardada nota do colegiado e pelas falas pouco republicanas da reunião vazada, viu-se que o código de Fachin era uma tentativa de drible na opinião pública, uma artimanha de jogador catimbeiro. 

Dias Toffoli parece sequer ter preocupação com a imagem pública do seu “time”, praticando um jogo feio que dá muito na vista. No caso Master-Vorcaro, tomou decisões esdrúxulas para se defender das suspeitas robustas derivadas das investigações da Polícia Federal. 

O ministro Alexandre de Moraes, por sua vez, antecipou jogadas adversárias e partiu para o ataque até mesmo por suspeitas que ele presumiu pudessem vir a macular ainda mais a sua já não muito honorável imagem. 

Recentemente, esse hábil jogador, determinou uma série de medidas cautelares contra quatro servidores públicos ligados à Receita Federal (ou cedidos a ela) no contexto de uma investigação sobre supostos acessos ilegais e possível vazamento de dados fiscais sigilosos de ministros do STF e de seus familiares. A ação ocorreu no âmbito do Inquérito 4.781 do qual Moraes é relator.

As restrições impostas aos servidores públicos impactam diretamente direitos como o de exercer o cargo, liberdade de locomoção (parcial), privacidade (sigilos quebrados) e acesso a ferramentas de trabalho. Algumas defesas já pediram revisão (ex.: retirada de tornozeleira e acesso a e-mails para comprovar álibi).

Para a aplicação de punições tão pesadas, o STF alegou que “Foram constatados diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema da Secretaria da Receita Federal do Brasil, seguindo-se de posterior vazamento das informações sigilosas”.

Consultada, a Procuradoria Geral da República (PGR), corroborou a decisão do ministro, afirmando o seguinte:

“o caso não se exaure apenas na violação individual do sigilo fiscal, uma vez que a exploração fragmentada e seletiva de informações sigilosas de autoridades públicas, divulgadas sem contexto e sem controle jurisdicional, tem sido instrumentalizada para produzir suspeitas artificiais, de difícil dissipação”.

Vejam que a iniciativa da denúncia contra os servidores da Receita não foi da PGR, que foi consultada depois que o ministro Moraes já havia tomado a decisão. E quem investigou, como transcorreu o processo? Tudo foi feito na alçada do STF, sob o talante autoritário e implacável de Alexandre de Moraes, no amparo do “inquérito das fake news”, o famigerado “inquérito do fim do mundo”. Inquérito este que é considerado inconstitucional por muitos, inclusive pelo ministro aposentado do STF Marco Aurélio Mello.

Naturalmente, sobrevieram reações à intempestiva condenação dos auditores da Receita Federal, algumas em tons de revolta e indignação, denunciando que estavam sendo feridas pelo STF regras básicas que devem ser observadas no Estado Democrático de Direito.

Um dos que reclamaram foi, justamente, quem mais tinha o direito e até mesmo o dever de reclamar: o presidente da Unafisco (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil), Kleber Cabral. O líder sindical, então, fez a seguinte declaração: “É menos arriscado fiscalizar membros do PCC do que altas autoridades da República.” 

E disse ainda:

“Há uma mensagem, que eu preciso registrar, subliminar, que isso afeta muitos auditores, que é o seguinte: esse tipo de medida busca humilhar, busca constranger e busca amedrontar. E o pior é que dá certo”

O ministro Alexandre de Moraes não perdeu tempo e abusou, pela enésima vez, do seu poder, mandando investigar o presidente da Unafisco por suas audaciosas declarações.

Uma nação democrática deve ter pela sua Suprema Corte o maior respeito; no Brasil, entretanto, ela é merecidamente objeto de desprezo e tenta se impor aos cidadãos incutindo neles o medo. 

Entre medos razoáveis ou desarrazoados, ventila-se estar em curso uma possível prisão da jornalista Malu Gaspar. 

Como se sabe, essa jornalista de O Globo e Globo News, realiza um trabalho de jornalismo investigativo dos mais eficientes e corajosos. Sua reportagem/investigação sobre o contrato milionário entre o escritório de Advocacia de Viviani Barci de Moraes (esposa do ministro Alexandre de Moraes) e o Banco Master foi o que abalou os alicerces do mundo jurídico-político nacional.

Pode ser alarde, mas os abusos continuados de Alexandre de Moraes justificam o temor e abrem precedentes perigosos, sendo sumamente importante nesse momento a defesa da liberdade de imprensa e a valorização e reconhecimento devidos ao que restou do jornalismo no Brasil, ainda não cooptado pelo poder do Lulismo e do STF. 

Arte de escrever X ChatGPT

Um leitor da Folha de S.Paulo enviou uma reclamação para a ombudsman do referido jornal, acusando uma colunista de usar inteligência artificial em seus artigos. A colunista respondeu à reclamação com um novo texto intitulado “meus textos usam inteligência artificial; meu pensamento não.”  

A frase carece de sentido; é incoerente. O uso de IA para a criação de um texto é exatamente aquilo que a frase nega que ele seja: uma muleta, um apoio ou um substituto para o pensamento que não teve força suficiente para se expressar. 

A frase pressupõe uma demarcação radical entre o pensamento e o texto escrito, como se o processo de transformar ideias desconexas em estrutura linguística adequada não fosse também um ato de pensar, só que em fase mais avançada. A reflexão apurada não se faz em um vácuo qualquer da mente fora da linguagem. 

Nesse momento mesmo, busco um pensamento. Esforço-me por capturá-lo, traduzi-lo. Ele só se completará quando eu conseguir alcançá-lo, exprimindo-o. Estou tentando dizer que, intuitiva que sou, acredito que o real transcende a linguagem e que o mais importante está no silêncio. Mas quero dizer também que uma coisa é o silêncio sagrado, sereno, profundo, que transcende e supera as limitações da linguagem; outra coisa é o silêncio obtuso e inquieto de uma mente presa em si mesma porque sua inteligência rudimentar não lhe fornece condição favorável de expressão. Pronto. Algo me fugiu, mas algo capturei ao escrever o que estava tentando pensar. Foi necessário um esforço, uma atenção do espírito. É esse momento mágico e árduo que se pretende substituir com o uso indiscriminado da IA na escrita.

  “Perca inteligência e singularidade e ganhe tempo e produtividade”, eis a tentação diária a que o ChatGPT submete diariamente os que trabalham com a palavra escrita. Oferta essa aceita prazenteiramente, mesmo entusiasticamente pela colunista da Folha. E ela defende sua escolha acusando de medrosos aqueles que ainda valorizam a arte da escrita: “Medo de perder espaço, medo de não acompanhar, medo de admitir que o tempo ficou mais valioso que o ritual do esforço manual”, escreveu a multiempreendedora Natalia Beauty (ela mesma?). 

Outro equívoco. O esforço que a IA substitui ao ser usada como ferramenta para gerar um texto autoral não é um mero esforço manual, é o próprio esforço intelectual. O tempo de produtividade que ganhamos ao aceitar essa substituição é ganho em detrimento do nosso tempo real, da nossa “duração”, do nosso espírito. É algo mesmo como vender a alma para o diabo. 

Ao usar o termo “duração”, aproximo-me propositalmente do filósofo francês e ganhador do prêmio nobel de literatura, Henri Bergson (1859) que, em sua conferência “A alma e o corpo”, proferida em 1912, já estabelecia, com sua lucidez característica, uma distinção entre o pensamento em si e a sua imitação artificial:

“O pensamento real, concreto, vivo, é algo de que até agora os psicólogos pouco nos falaram. O que geralmente se estuda com esse nome é menos o pensamento em si do que uma imitação artificial, que se obtém compondo conjuntamente imagens e ideias. […]. Portanto deixem de lado as reconstruções artificiais do pensamento; considerem o pensamento em si; encontrarão nele menos estados do que direções, e verão que ele é essencialmente uma mudança constante e contínua de direção interior, mudança que tende incessantemente a traduzir-se por mudanças de direção exterior.”

Bergson continua, explicando que não nos damos conta desse movimento que é o pensamento  senão quando tentamos capturá-lo vivo, em seu dinamismo, “para transferi-lo ainda vivo para a alma de outra pessoa”:

 “Por mais então que as palavras sejam adequadamente escolhidas, não dirão o que queremos fazê-las dizer se o ritmo, a pontuação, e toda a coreografia do discurso não as ajudarem a levar o leitor, guiado por uma série de movimentos nascentes, a descrever uma curva de pensamento e de sentimento análoga a que nós descrevemos. Toda a arte de escrever está nisso”.

A principal justifica da colunista para o uso de IA nos textos autorais é o tempo. Diz ela (ou o chatGPT): “o ponto central não é a ferramenta, é o tempo. O tempo é o único ativo que não volta. Não se recupera, não se negocia e não se acumula. Usar tecnologia para ganhar tempo não é trapaça, é estratégia, maturidade, é entender que a produtividade não se mede pelo cansaço, mas pelo resultado”. 

A ponderação faz sentido para várias atividades, mas não para a escrita que se pretenda ofício ou arte, que almeje trazer para o mundo uma impressão nova, sui generis. O mais curioso, porém, é que, mesmo falando em maturidade, a justificativa trai uma compreensão superficial e imatura do tempo, o qual seria bem aproveitado se convertido em produtividade e resultado, seja lá por quais meios. 

Faltou considerar aqui o tempo real, a existência, a duração, o espírito. Mas alguém  escravizado a metas de produtividade não se dá conta de que existe um tempo da alma e  consequentemente que esse tempo da alma deve ser respeitado por quem exerce o ofício de escrever. 

Já é meio dia. Gastei muito tempo escrevendo esse texto. Poderia ter dado um simples comando e o chatGPT tê-lo-ia escrito por mim. Mas, então, eu não teria a satisfação de ter usado essa mesóclise, de reler as belas passagens de Bergson e de dá-las a conhecer ao meu leitor. Eu teria, de certo modo, traído o meu leitor se tivesse optado pela máquina ao invés de apresentar a ele o movimento do meu espírito no ato de produção do pensamento, que se confunde com o ato de produção da escrita. Escrever é resistir à escravização do tempo do relógio e repousar um pouco no fluxo de duração da própria alma. É também convidar o leitor a entrar nesse fluxo. Volta Bergson:

A arte do escritor consiste principalmente em fazer-nos esquecer que ele está usando palavras. A harmonia que procura é uma certa correspondência entre as idas e vindas de seu espírito e as de seu discurso – correspondência tão perfeita que, transportada pela frase, as ondulações de seu pensamento se comunicam com o nosso e então cada uma das palavras, tomadas individualmente, já não importa: não há nada além do sentido movente que atravessa as palavras, mais nada além de dois espíritos que parecem vibrar em uníssono diretamente, sem intermediário. Portanto, o ritmo da linguagem tem como único objetivo reproduzir o ritmo do pensamento.” 

Nada contra o uso pontual de inteligência artificial para organizar, estruturar e acelerar aquilo que pode organizado, estruturado e acelerado de forma mecânica e artificial. Mas escrever não é trabalho mecânico, é esforço intelectual, atividade altamente refinada do espírito. 

Quem sabe, a proliferação de textos homogêneos, repetidos, robóticos e artificiais fará com que o ofício do verdadeiro escritor seja novamente reconhecido. Quem sabe o uso abusivo de IA em textos jornalísticos, crônicas, redes sociais e até em livros seja o prenúncio de uma revalorização de quem teima em cultivar esse nobre exercício espiritual que é a escrita. 

O oposto, porém, é possível. O escritor poderá ser ainda mais desvalorizado, definitivamente superado e esquecido. Eles mesmos poderão ceder ao cansaço e se render às máquinas. Mas isso equivalerá à capitulação do próprio pensamento e à perda da dimensão de algo propriamente humano. 

STF: do “inquérito do fim do mundo” ao escândalo Master-Vorcaro

O Supremo Tribunal Federal (STF), instância mais alta do Judiciário, tem avançado sobre os outros poderes da República, impondo-se, para além das suas atribuições constitucionais, como poder moderador e amedrontador.

Essa marcha autoritária do STF vem desde o famigerado “inquérito das fake news”, aberto de ofício (sem pedido da PGR ou da Polícia Federal), em 2019, pelo então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, que designou (sem sorteio) o ministro Alexandre de Moraes como relator.

Na ocasião, o ministro Marco Aurélio Mello (hoje aposentado) manifestou sua posição contrária ao referido inquérito. Em 2020, na sessão plenária que analisava a constitucionalidade do inquérito, ele afirmou que se tratava de “um inquérito natimorto”, “uma afronta ao sistema acusatório do Brasil” e o apelidou de “inquérito do fim do mundo”.

Ele criticou duramente o fato de o STF instaurar e conduzir a apuração de ofício (sem provocação do Ministério Público), com o próprio tribunal (vítima dos supostos ataques) atuando como investigador, acusador e julgador, violando assim o sistema acusatório adotado pela Constituição Federal de 1988, que separa as funções de acusar (MP) e julgar (Poder Judiciário). O plenário do STF, porém, validou a investigação por 10 votos a 1, sendo Marco Aurélio o único divergente.

Sob o talante do ministro Alexandre de Moraes, graves e constantes decisões de alcance geral decididas no âmbito deste “inquérito do fim do mundo” foram elaboradas politicamente, usando-se a técnica jurídica como enfeite e disfarce.

O inquérito tramita sob sigilo em grande parte, já foi prorrogado várias vezes (ainda em andamento em 2026, completando mais de 6 anos) e serviu de base para medidas como bloqueios de contas em redes sociais, buscas, prisões e quebras de sigilo.

Agora, neste início de 2026, os autoritários ministros do STF estão sob ameaça de serem engolfados pelos eventos de irregularidades e corrupção que levaram à liquidação do Banco Master e à prisão do seu dono Daniel Vorcaro.

Trata-se de uma das maiores fraudes no sistema financeiro brasileiro recente (cerca R$12 bilhões). É basicamente um escândalo que mistura finanças, política e poder em Brasília e na Faria Lima, uma espécie de “escândalo do fim do mundo”.

Até o momento, pelo que o STF permitiu que a Polícia Federal investigasse e que a imprensa investigativa divulgou, estão envolvidos agentes de todos os poderes da República; inclusive ministros do STF.

As revelações expõem uma teia de relações entre o banco e o Judiciário. As suspeitas envolvem principalmente Dias Toffoli (relator), Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski (ex-ministro, mas ligado ao caso).

Toffoli assumiu a relatoria do caso em 1º de dezembro de 2025 e tem sido criticado por decisões monocráticas e sigilosas, como centralizar a investigação no STF, restringir acesso às provas e designar peritos da PF nominalmente, procedimentos vistos como incomuns e que geram desconfiança. Além disso, houve o caso da carona em avião particular com um advogado do Master em 2025, que deixou exposta a proximidade com os interesses do banco.

Sobre o ministro Alexandre de Moraes a suspeição de envolvimento com as traficâncias Master-Vorcaro vem do contrato feito pelo Banco Master com o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes, esposa do ministro. Contrato esse de R$129 milhões por 3 anos de serviço, valor desproporcional ao valor usual de mercado.

Também veio à tona que o escritório de advocacia do ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, recebeu R$ 5 milhões do Banco Master por serviços de consultoria jurídica em 2025. Essa consultoria é vista como parte da rede de influência de Vorcaro no alto escalão, levantando suspeitas de lobby ou favorecimento. Essa e outras informações trazem também o governo Lula para dentro do escândalo.  

Lewandowski fora recomendado ao Banco Master pelo petista histórico Jaques Wagner, líder do governo no Senado. E aí já se mostra o avanço dos tentáculos do polvo Master-Vorcaro no poder legislativo. Alguns comentaristas chegam a garantir até mesmo a existência de uma “bancada do Vorcaro” no Congresso Nacional. Bancada até recentemente bastante ativa, e no momento bastante apavorada, fazendo de tudo para proteger o ex-dono do ex-banco; e, assim, seus componentes protegerem-se a si mesmos.

O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido mencionado em reportagens e investigações relacionadas ao caso, principalmente por meio de conexões indiretas ou encontros com Daniel Vorcaro, o dono do banco.

Em dezembro de 2024, Vorcaro teria se reunido com Lula no Palácio do Planalto, sem registro na agenda oficial do presidente. Esse encontro foi intermediado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuava como consultor do Banco Master na época.

Também chamam atenção e geram suspeitas os contratos da Biomm com o Ministério da Saúde: Vorcaro é acionista da Biomm (empresa de biotecnologia) por meio de um fundo de investimento. Em 2025, a Biomm firmou contratos no valor de R$ 303,65 milhões com o Ministério da Saúde para fornecer insulinas ao SUS.

O fato é que esse “escândalo do fim do mundo” cresce a olhos vistos. A opinião pública pressiona e a imprensa faz o seu papel. Devendo-se destacar nesse particular as denúncias provenientes da pertinácia investigativa da jornalista Malu Gaspar. As suas reportagens sobre o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes tiveram enorme repercussão.

Aqui, chamo a atenção para um aspecto particular das reações às denúncias de Malu Gaspar: parte da imprensa de esquerda posicionou-se em modo de desconstrução de tais denúncias e em ataque aberto à corajosa jornalista. No momento, essa imprensa esquerda chapa-branca ataca qualquer agente de mídia que noticie antigos contatos entre Vorcaro e o governo do PT.

No entanto, já se confirmou que Daniel Vorcaro e diretores do Banco Master tiveram pelo menos quatro encontros com o presidente Lula no Palácio do Planalto; não se sabendo, entretanto, se, em tais encontros, as conversas foram sórdidas ou honestas. O ministro Fernando Haddad e a ministra Gleisi Hoffmann, ao confirmarem alguns desses encontros, afirmam que foram legítimos e republicanos. Acredite quem quiser.

A coragem das mulheres iranianas e a covardia dos cúmplices da teocracia islâmica

A violência repressora, que no regime dos aiatolás é permanente, cresceu exponencialmente nos últimos dias, como indicado por vários organismos internacionais de Direitos Humanos. O próprio regime já declarou que mais de 2.000 pessoas foram mortas pelas forças de segurança dos aiatolás em decorrência dos atuais protestos, o que leva a crer que o número de vítimas é bem maior.

A brutalidade com que o regime iraniano está massacrando os manifestantes que ousam se sublevar contra a odiosa teocracia não é um desvio ocasional passível de ser contido por sanções econômicas; é a expressão da sua própria essência. Notas de repúdio da comunidade internacional (que o Brasil, para surpresa de ninguém, não se dignou a emitir) são bem-vindas, mas ineficazes. É preciso ação, é preciso uso da força contra os que há décadas a têm usado para oprimir seu povo. Até porque a violência perpetrada pelo Irã ultrapassa fronteiras, sendo um problema global.

O regime que espanca mulheres sem hijabe nas ruas de Teerã é o mesmo que sustenta os terroristas houthis no Iêmen, que fornece drones à Rússia para bombardear a Ucrânia, que foi pilar logístico, militar e financeiro do regime de Bashar al-Assad e que ordenou, financiou e armou o grupo terroristas Hamas para o terrível massacre contra israelenses, em 7 de outubro de 2023.

Os atuais protestos no Irã não são apenas uma explosão episódica de descontentamento econômico, embora os comerciantes, costumeiros aliados do regime, tenham se juntado às mulheres e aos estudantes na linha de frente dos protestos. O protagonismo feminino não é mera contingência. Ao desafiarem abertamente as leis do véu, ao queimarem símbolos do regime, ao ocuparem as ruas mesmo sabendo que o preço pode ser a prisão, a tortura ou a morte, as mulheres iranianas estão expondo a natureza essencialmente opressora da República Islâmica e deixando claro o que querem: liberdade.

A coragem das mulheres iranianas deixa à mostra a covardia dos que se dizem progressistas enquanto fecham os olhos para as atrocidades cometidas pelo regime islâmico; é constrangedor para intelectuais de esquerda falar sobre os acontecimentos no Irã porque eles se chocam com as suas tentativas hipócritas de romantizar o regime dos aiatolás. O silêncio — quando não a cumplicidade explícita — de amplos setores da esquerda diante da atual repressão remete a uma relação antiga. 

A esquerda e a Revolução Islâmica de 1979

Desde a Revolução Islâmica de 1979, parte significativa da esquerda ocidental decidiu ver no Irã não uma teocracia totalitária, mas um símbolo de resistência ao chamado “imperialismo”. 

A revolução iraniana de 1979 pôs fim ao regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, uma monarquia autocrática pró-Ocidente. Com amplo apoio popular e viés fortemente religioso, essa rebelião teve, desde o início, influência do clero xiita, comandado do exterior pelo exilado aiatolá Ruhollah Khomeini. Após a vitória da revolução, fundada a República Islâmica do Irã, o clero xiita, tendo Khomeini como líder supremo, estabeleceu uma autocracia muito mais violenta do que jamais fora a monarquia de Mohammad Reza Pahlavi . 

O novo regime implementou uma teocracia autoritária com repressão intensa, incluindo execuções em massa de opositores (milhares nos primeiros anos), prisões políticas e consolidação de poder via Guarda Revolucionária, superando em escala imediata a brutalidade da SAVAK sob o xá, que já era notória por torturas e assassinatos. O chamado “regime dos aiatolás” caminhou então a passos largos para se tornar um dos mais perseguidores, cruéis e criminosos regimes do mundo, sob o beneplácito da esquerda anti-ocidental. 

O engajamento entusiasmado de pensadores como Michel Foucault, que interpretou a revolução iraniana como uma experiência espiritual e antimoderna capaz de fazer frente aos valores do Ocidente, foi apenas o exemplo mais conhecido dessa cegueira voluntária que não deixa de ser uma perversão moral. As mulheres, os dissidentes, os homossexuais — todos foram sacrificados no altar do anti-imperialismo abstrato.

Essa herança intelectual não desapareceu. Ela se atualiza hoje no relativismo cultural, no pós-colonialismo militante e na política identitária que seleciona vítimas e algozes de acordo com conveniências ideológicas. Um regime que grita “morte à América” e “morte a Israel” pode assassinar seus próprios cidadãos sem despertar a indignação proporcional daqueles que se dizem defensores universais dos direitos humanos. 

No Brasil, essa dissonância assume contornos graves. O atual governo mantém relações cordiais e politicamente engajadas com o Irã, em nome de uma diplomacia que se autoproclama “multipolar”, mas que, na prática, normaliza regimes abertamente repressivos. O fato de o vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, ter sido enviado, em 2024, para representar o governo brasileiro na posse do presidente iraniano Masoud Pezenshkian, não foi um detalhe protocolar irrelevante, mas um gesto político de alinhamento. Também é eloquente o silêncio oficial do Itamaraty diante do massacre de civis iranianos na atual onda de protestos. 

As mulheres iranianas, desarmadas diante de um Estado brutal, tornaram-se uma pedra de toque para qualquer discurso sobre liberdade, justiça e direitos humanos. As ruas do Irã hoje, com corpos empilhados em sacos e sob ameaça de mais execuções, expõem não apenas a malignidade da teocracia dos aiatolás, mas também a falência moral e hipocrisia do Ocidente dito progressista com seus governos que se dizem democráticos. 

Captura de Maduro foi justa, necessária, mas não suficiente

Na madrugada do sábado, 3 de janeiro de 2026, como vastamente divulgado, a Delta Force, unidade de operações especiais do exército americano, a mando do presidente Donald Trump,  capturou o ditador Maduro – acompanhado pela esposa Cilia Flores – e os levou para uma prisão nos EUA. Tendo por principal alegação a quebra da “soberania nacional” da Venezuela, vem sendo grande a gritaria contra a ação americana.

A reação indignada de parte do establishment intelectual e jornalístico à prisão de Nicolás Maduro diz mais sobre a confusão moral do nosso tempo do que sobre a operação em si. Na ótica de analistas respeitáveis, mesmo diante de um tirano, mesmo diante de um regime que tortura, mata, frauda eleições e converte o Estado em engrenagem do narcotráfico, seria preciso conter a ação em nome de uma abstração chamada “ordem internacional”. Como se essa ordem não estivesse já em ruínas, e como se ela tivesse, em algum momento, protegido os venezuelanos.

O primeiro ponto que precisa ser enfrentado é a inversão moral operada por esse tipo de crítica. Derrubar um ditador é considerado um “objetivo defensável”, mas os meios empregados seriam problemáticos. Ora, quando todos os meios ordinários foram tentados, insistir na pureza dos procedimentos equivale a aceitar, na prática, a perpetuação do mal. 

Em “A Sociedade Aberta e seus inimigos” Karl Popper dá uma interessante definição de democracia: um regime no qual o povo pode se livrar do governo sem derramamento de sangue. A Venezuela sob Maduro não entra nessa definição. 

Os meios legais e pacíficos de resistência foram exercidos pelo povo venezuelano até a exaustão. Restou a força, que acabou sendo usada não pelo povo venezuelano, massacrado e incapaz desse tipo de reação, mas por uma potência estrangeira. 

O debate sobre a legalidade da “Operação Resolução Absoluta” é válido e está aberto. A mim, no entanto, parece que o questionamento da prisão de Maduro à luz do direito internacional parte da falsa premissa de que a soberania de um Estado foi violada. Como bem explicou Leonardo Coutinho, em análise publicada no Estadão, Chávez e Maduro transformaram a Venezuela em algo que vai além do conceito clássico de narcoestado: 

Sob o chavismo, a Venezuela tornou-se um Estado-narco. Ao longo de 26 anos, o regime fez com que as instituições fossem mais do que o alvo da infiltração do crime, mas um Estado que atua como um chefe criminoso. Não é a interferência do tráfico no Estado, é o Estado como agente do tráfico.” 

Um regime que, além de oprimir seu próprio povo, funde aparato estatal e crime organizado abdica de qualquer pretensão legítima à inviolabilidade. O próprio conceito de soberania está ligado ao povo e não a uma estrutura que o oprime. Quem atacou a soberania da Venezuela foi Maduro quando o povo venezuelano foi agredido, preso, torturado, aviltado, enganado, e por todas as formas infelicitado por esse facínora que estava no poder há mais de 12 anos.

Em relação, portanto, à captura de Maduro, considero que a decisão do presidente dos Estados Unidos não foi condenável, mas acertada. O problema é o que virá depois. É ingenuidade achar que Trump age por valores morais e sensibilidade humanitária. 

A “Operação Resolução Absoluta” estará moralmente justificada se os presos políticos forem libertados, se o regime cair, se Edmundo González ou Maria Corina Machado assumirem a presidência e a economia voltar a florescer. 

Trump, porém,  já se apressou em desqualificar Corina Machado e iniciou conversas com a vice de Maduro, acendendo alerta para a possibilidade de uma atitude vil e traiçoeira, qual seja, fazer acordo com o entorno político-militar do ditador desalojado, inaugurando um madurismo sem Maduro, com uma cúpula que lhe sirva aos interesses.

A captura de Maduro foi necessária, mas não suficiente para a libertação dos venezuelanos. Derrubar o homem e preservar o sistema seria apenas trocar a face da opressão. A libertação imediata dos presos políticos, a abertura dos centros de tortura, o fim da perseguição sistemática à oposição e o reconhecimento efetivo da vontade popular são critérios mínimos para que a ação de Trump faça sentido do ponto de vista moral. Sem isso, a prisão de Maduro se reduzirá a um gesto espetacular e sem sentido. 

Os escândalos e os abusos dos ministros do Supremo

Durante uma das sessões da CPI do Crime Organizado, o relator, senador Alessandro Vieira, criticou duramente o fato de ministros de tribunais superiores aceitarem privilégios ou demonstrarem proximidade com figuras envolvidas em investigações criminais. A fala foi feita no contexto da discussão do avanço do crime organizado e sua infiltração nos poderes da República:

Nós temos ministros que acham normal, cotidiano, caronas em jatinho, jatinho pago pelo crime organizado, notoriamente pelo crime organizado, não é surpresa. ‘Descobri hoje que era crime organizado…’ Não, o cara sabe que é crime organizado. Então, entra no jatinho, vai para uma viagem paga pelo crime organizado, acessa um evento de luxo pago pelo crime organizado, se hospeda em hotel de luxo pago pelo crime organizado.” 

Trata-se, como é sabido, de referência a episódio envolvendo o ministro Dias Toffoli, que tem se especializado no perdão de dívidas milionárias, causando robusto prejuízo aos cofres da União. 

“E aí eu volto ao ponto da minha provocação inicial – continuou Alessandro Vieira – Este é um país que já teve Presidente preso, que já teve ministro preso, Senador preso, Governador preso, Prefeito preso, Vereador, mas ainda não teve ministros de tribunais superiores. E me parece que este momento se avizinha.” 

O quadro, resumido nas palavras do senador Alessandro Vieira, relembra a sucessão de escândalos ocorridos na nossa inconstante República desde a chamada redemocratização e nos alerta para o fato de que, agora, até o próprio Supremo Tribunal Federal protagoniza as cenas escandalosas da nossa desvirtuada República.

Tendo por função precípua garantir o cumprimento da Constituição, o STF tem se esmerado em desrespeitá-la. Exemplo recente dessa audácia abusiva foi a liminar na qual o ministro Gilmar Mendes, legislando em causa própria para blindar a si mesmo e aos colegas, alterou trechos da Lei do Impeachment aplicáveis a ministros do STF.

O decano já recuou parcialmente da temerária empreitada inconstitucional; porém, vem sendo noticiado o encaminhamento de uma acomodação, com o Senado aceitando se prestar ao papel de providenciar um remendo constitucional que não desagrade totalmente os supremos ministros.

Enquanto isso, o ministro Alexandre de Moraes, reverenciado pela esquerda lulista como o salvador da nossa democracia, voltou aos holofotes por motivo nada republicano: o contrato de 129 milhões de reais do escritório de advocacia de sua esposa com o Banco Master.

Investigado e denunciado pela Polícia Federal por crimes financeiros, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central e teve alguns de seus dirigentes presos (punições abrandadas para medidas cautelares, com uso de tornozeleiras). 

Enquanto as investigações da PF ainda avançavam, o ministro Toffoli avocou o caso para o STF e estabeleceu rigoroso sigilo sobre todo o processo. Convém lembrar que um dos acompanhantes do ministro Toffolli na carona suspeita do jatinho era um dos advogados de um dos dirigentes do Banco Master.

Quanto à questão da contratação milionária do escritório de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes, deve-se considerar que os próprios ministros do STF já haviam, respondendo a uma demanda da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), mudado regra anterior proibitiva e decidido pela legalidade de casos desse tipo, estabelecendo que cônjuges e parentes de juízes podem advogar em causas em que seus clientes estejam em julgamento em qualquer Corte de Justiça. 

Cabe notar que o relator dessa causa de acintoso compadrio, ministro Edson Fachin, votou contra a demanda da AMB, tendo sido voto vencido. Fachin, que recentemente assumiu a presidência do STF, tenta no momento estabelecer um código de ética para os ministros da corte que preside. Sem surpresa, noticia-se que a resistência interna é grande.

Em uma perspectiva kantiana, a ética diz respeito à interioridade da ação, ao respeito à lei moral. A ética não pode ser imposta externamente: ninguém pode ser coagido a agir por dever. O campo da ética é o da autonomia, da consciência. 

Ora, se a casta dos supremos ministros trata com menosprezo a letra da lei constitucional, não se deixará constranger pela subjetividade de um código de ética. Não esperemos virtude onde já está claro que ela é inexistente. É preciso punir, pelo direito, aqueles que do direito abusam. 

María Corina Machado em Oslo: a “jornada rumo à liberdade” da Venezuela

A líder opositora venezuelana María Corina Machado, figura que há anos encarna a resistência contra o regime autoritário de Nicolás Maduro, tornou-se um símbolo de luta pela democracia, marcando indelevelmente a história política venezuelana. 

Seu percurso da clandestinidade venezuelana à presença em Oslo – onde deveria receber o prêmio Nobel da Paz — é o retrato vivo do drama e da resistência de um povo cuja soberania tem sido usurpada pelo arbítrio e pela violência institucionalizada.

Oculta dos olhos públicos por mais de um ano, Machado vivia em clandestinidade desde meados de 2024, quando uma ofensiva do regime venezuelano contra opositores foi intensificada após a eleição presidencial daquele ano – disputada em condições dramáticas, vencida pela oposição e usurpada pelo ditador Nicolás Maduro. 

Encarada como ameaça pelo aparato estatal, Corina Machado passou a ser procurada sob acusação de “conspiração, incitamento e terrorismo” — termos usados pelo regime ditatorial venezuelano para criminalizar a dissidência política.

Com o objetivo de receber o reconhecimento internacional que lhe fora outorgado, ela empreendeu nos últimos dias uma fuga clandestina que mais parece saída de um roteiro cinematográfico. 

Disfarçada, com peruca e sob tensão constante, atravessou múltiplos postos de controle militar venezuelanos até alcançar uma embarcação de pescadores que a conduziu ao mar do Caribe, rumo à ilha de Curaçao. Em Curaçao, exaustão e alívio: uma noite em um quarto anônimo, um breve descanso e uma mensagem gravada para agradecer “tantas pessoas que arriscaram suas vidas”, e a espera por um avião privado que cruzaria o Atlântico em direção à Noruega.

Pouco antes da meia-noite do dia 11 de dezembro, na sacada do Grand Hotel de Oslo, essa mulher formidável apareceu, saudando a multidão e entoando o hino da Venezuela. 

Horas antes, a sua filha havia assegurado que ela viria: “minha mãe nunca quebra uma promessa. E é por isso que eu, com toda alegria no meu coração, posso dizer que, dentro de poucas horas, nós poderemos abraçá-la aqui, em Oslo, depois de dezesseis meses vivendo no exílio.”  

O discurso do Nobel da Paz

Embora María Corina Machado não tenha conseguido chegar a tempo de receber presencialmente o Nobel da Paz, ela foi bem representada por sua filha, Ana Corina Sosa Machado, que leu o seu discurso na cerimônia. 

Nesse texto há uma dupla dimensão: o testemunho histórico da Venezuela pré-autoritarismo e a denúncia contundente das práticas que corroeram a vida política daquele país.

Logo no início de sua intervenção, Machado articula a genealogia da liberdade venezuelana como um legado avesso ao totalitarismo: a Constituição de 1811, evocada como referência fundadora, ressoa não como mera evocação histórica, mas como fundamento ético de uma comunidade política que foi desfigurada. 

Desfigurada por Hugo Chavez, que iniciou o desmonte das instituições, e por Nicolás Maduro, que efetivou um terrorismo de Estado:

“Quando percebemos quão frágeis nossos institutos haviam se tornado, um homem que havia liderado um golpe militar para derrubar a democracia foi eleito presidente. Muitos acreditaram que o carisma poderia substituir o Estado de Direito. A partir de 1999, o regime desmontou nossa democracia: violou a Constituição, falsificou nossa história, corrompeu as Forças Armadas, expurgou juízes independentes, censurou a imprensa, manipulou eleições, perseguiu dissidentes.

[…] Enquanto isso, algo ainda mais profundo e corrosivo acontecia: um método deliberado de dividir a sociedade por ideologia, raça, origem e modos de vida, empurrando os venezuelanos a desconfiarem uns dos outros, a se calarem, a se verem como inimigos. Eles nos esmagaram. Nos prenderam, nos mataram e nos forçaram ao exílio. […]

Após quase três décadas lutando contra uma ditadura brutal, tentamos de tudo. […]

Edmundo González Urrutia venceu com 67% dos votos. Em todos os estados, cidades e povoados.

Em cada estado, cidade e vila, cada ata contava a mesma história. Em poucas horas, elas foram digitalizadas e publicadas em um site para o mundo ver. Mas a ditadura respondeu com terror.

Duas mil e quinhentas pessoas foram sequestradas, desapareceram e foram torturadas. Casas foram marcadas, famílias inteiras transformadas em reféns. Padres, professores, enfermeiros, estudantes. Qualquer pessoa que ousasse compartilhar uma ata foi caçada. Esses são crimes contra a humanidade documentados pelas Nações Unidas. Terrorismo de Estado usado para enterrar a vontade do povo.

Mais de 220 crianças detidas após as eleições foram eletrocutadas, espancadas e sufocadas até repetirem a mentira que o regime precisava: incriminarem-se falsamente, dizendo que haviam sido pagas por mim para protestar. […]”

A Venezuela, sob Maduro, não é apenas um país em crise política é um país destruído pela perversidade dos que sustentam tal regime. O discurso de Corina Machado expôs a captura autoritário do Estado venezuelano, transformado em instrumento de aniquilação da esfera pública; o testemunho de Corina Machado expôs os valores que regem sua alma ordenada e equilibrada; o reconhecimento de Corina Machado expôs que tais valores são reais, objetivos e compartilhados por todos aqueles que não estão entorpecidos por nefastas ideologias.

“Compreendemos que nossa luta era muito mais do que eleitoral. Era uma luta ética pela verdade, uma luta existencial pela vida, e uma luta espiritual pelo bem”, escreveu a ganhadora do prêmio Nobel da Paz. E continuou:

“A causa da Venezuela transcende nossas fronteiras. Um povo que escolhe a liberdade, escolhe contribuir não apenas para si mesmo, mas para a humanidade. Somente por meio desse alinhamento interior, dessa integridade vital, nos erguemos para encontrar nosso destino. Só então nos tornamos quem realmente somos, capazes de viver uma vida digna de ser vivida.” 

Tais palavras têm força porque não são meramente retóricas. Há total coerência entre seu discurso e suas ações. 

Maduro cairá. A História, se descrita com seriedade e fidedignidade, mostrará à posterioridade sua mediocridade e a covardia dos que, como o presidente do Brasil, Luís Inácio Lula as Silva, o ajudaram a instaurar e a manter a tirania. E honrará a grandeza de uma heroína que liderou seu povo em uma jornada rumo à liberdade”.

Operação Contenção expõe ao mundo a guerra interna do Brasil

A Operação Contenção — a maior da história do Rio de Janeiro, com mais de 120 mortos e o envolvimento de 2.500 policiais — trouxe o problema da expansão do crime organizado para o debate público de maneira incontornável.

Enquanto helicópteros sobrevoavam o Complexo do Alemão e da Penha, drones explosivos, barricadas incendiadas e fuzis transformavam a cidade em uma zona de guerra, levando o Brasil para manchetes do noticiário internacional.

Se os que padecem sob o jugo tirânico das facções criminosas nas comunidades e periferias já conheciam o enorme poder de facções como o Comando Vermelho, penso que a maioria da classe média do país, embora ciente do problema, não atinava ainda para a dimensão real do problema.

A repercussão do confronto entre policiais e criminosos no Rio trouxe novamente à tona uma clivagem ideológica no país, além de deixar transparecer a fragilidade de certas narrativas.

A palavra soberania, por exemplo, tão ecoada ultimamente pelo governo Lula, devido às tarifas e sanções impostas pelos EUA ao Brasil, se volta agora contra aqueles mesmos que dela tanto se utilizaram com afetação nacionalista.

De fato, como falar em soberania quando o Estado não detém o monopólio da força, mas o divide com criminosos que têm seu próprio “tribunal” e impõe suas “leis” em território no qual a população mais pobre vive como refém?

Aqueles que, em nome dos Direitos Humanos, se mostram tão preocupados com os alvos da ação policial, acaso mostram a mesma preocupação com os moradores da comunidade cujo direito de ir e vir é rotineiramente suspenso por barricadas?

Aqueles que apontam “barbárie” na ação da polícia contra o Comando Vermelho não consideram barbárie as torturas perpetradas contra moradores inocentes e contra rivais como prática sistemática de punição e controle territorial?

Aqueles que acusam a polícia de agir seletivamente contra “pobres” se solidarizaram com os milhares de pobres expulsos de suas próprias casas pelas facções?

O êxodo imposto pelas facções teve um crescimento espantoso no meu estado, Ceará, há mais de dez anos governado pelo Partido dos Trabalhadores. Uma reportagem recente da mídia local dá conta de que as facções criminosas expulsaram moradores de pelo menos 49 bairros de Fortaleza.

Em entrevista no papo Antagonista, o ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel, comentou algo que foi motivo de indignação aqui em Fortaleza: a polícia não garantiu a segurança para que os moradores continuassem em suas próprias casas após receberem ameaças das facções, mas garantiu escolta para que abandonassem suas casas em segurança.

Certa noite, em setembro, eu estava em casa com meu filho quando sobreveio o barulho de uma expressiva e inusitada queima de fogos que durou vários minutos. Ele se agitou um pouco, eu fechei as janelas. Imaginei que era alguma vitória de time de futebol, Fortaleza ou Ceará. No outro dia, li que tinha sido a celebração do Comando Vermelho pela conquista de novo território.

Foi também aqui, em Fortaleza, o caso da cozinheira executada a facadas e tiros na frente dos seus filhos, por membros do Comando Vermelho, por ter se recusado a envenenar a comida de policiais. Esses e outros crimes de uma violência bárbara tornaram-se cada vez mais comuns.

O caso do Ceará mostra que o crime organizado está se expandindo com força total para todo o Brasil e que não se trata mais de problema restrito ao Rio de Janeiro.

Ao dar visibilidade a isso, a Operação Contenção forçou a sociedade a se posicionar. A questão lançada é a seguinte: o brasileiro comum quer que o Estado continue fazendo vista grossa para a expansão do crime organizado ou quer que ele seja efetivamente enfrentado?

Para espanto de boa parte da bolha esquerdista, as pesquisas apontaram claramente a disposição do brasileiro para o enfrentamento.

Segundo o instituto AtlalIntel, 62,2% da população da cidade do Rio de Janeiro e 55,2% da população brasileira aprovaram a Operação Contenção.

O dado mais significativo, porém, é que, entre os moradores de favelas do Rio, 87,6% aprovaram a operação e entre os moradores de favelas do Brasil, a aprovação foi de 80,9%.

Esses dados mostram uma enorme dissonância entre o discurso da elite progressista em nome dos pobres e o que os pobres realmente desejam para si.

“Massacre”, “genocídio”, “barbárie policial”, “extermínio de pobres”, escreveram os especialistas progressistas, e pulularam notas de condenação à operação que sequer mencionavam o nome Comando Vermelho, como se policiais do BOPE, entediados, tivessem resolvido subir o morro para matar pobres por diversão, como se jogassem uma partida de vídeo game.

A deputado Jandira Fechali (PCdoB/RJ) escreveu no X que “é possível combater o crime sem dar um tiro”.

Uma professora da UFF, ouvida como “especialista em segurança pública” tornou-se chacota nacional devido às suas análises do tipo: “um criminoso com um fuzil na mão é facilmente rendido por uma pistola e até por uma pedra na cabeça”.

intelligentsia progressista prestou solidariedade à professora e colocou o deboche na conta de misoginia e do preconceito contras cabelos laranjas, optando por permanecer descolada da realidade.

Como costuma acontecer no Brasil, o debate que deveria ser técnico e estratégico — como recuperar o território, como enfraquecer o poder das facções, como preservar vidas inocentes — foi tragado por paixões políticas.

Uma análise dos discursos expõe também o simplismo das duas visões de mundo extremistas que tentam moldar a política e se impor à sociedade: a que tende a ver o criminoso como vítima da sociedade e a que o vê como encarnação do mal a ser sumariamente executado.

Ambas as posições são confortáveis porque dispensam a complexidade. A primeira dissolve a culpa individual no sistema; a segunda apaga a necessária linha de contenção do Estado.

O humanitarismo da esquerda transformou-se em uma moral de absolvição. O traficante, o ladrão, o homicida tornam-se “vítimas do sistema”, enquanto o sistema — um ente abstrato e sempre culpado — substitui a responsabilidade pessoal.

Em nome da “justiça social” a narrativa da esquerda absolve os algozes dos pobres e condena a polícia que tenta assegurar o direito básico à segurança

Mas a direita não fica atrás em cegueira quando rotula toda e qualquer crítica a abusos policiais como “defesa de bandido”. Já há políticos brasileiros querendo viajar para El Salvador para aprender o modus operandi de Nayib Bukele.

Quando o poder público celebra o número de mortos como troféu, é preciso ficar alerta. Gosto daquela frase de Nietzsche, em “Para além de bem e mal”: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro”.

Certamente há uma posição mais sóbria entre o humanismo de gabinete e o punitivismo de palanque.

Não estamos mais diante de delinquência comum, mas de forças organizadas com comando, hierarquia, território, armamento pesado e vínculos econômicos com o Estado. O Brasil vive, ainda que não o reconheça oficialmente, uma forma de guerra civil.

O Comando Vermelho e o PCC são poderes paralelos com estrutura administrativa, logística e capacidade de arrecadação. Controlam serviços, impõem tributos, administram conflitos e exercem soberania sobre milhões de brasileiros.

Em várias regiões, são o único poder presente. O Estado, por omissão e covardia, cedeu o território e contentou-se com discursos e propaganda.

O governo federal culpa os estados; os estados culpam o Supremo; o Supremo culpa a polícia; a polícia culpa as leis. E o crime, em meio disso, se expande.

A Operação Contenção, no entanto, nos fez enxergar. Enxergar que a guerra já começou, que a soberania já foi fragmentada e que a segurança pública não deve ser teatro ideológico porque é questão de sobrevivência civilizacional.

Esquerdogata: um retrato da militância hipócrita

Aline Bardy Dutra é a “esquerdogata”, uma influenciadora digital brasileira cujo perfil, no Instagram (esquerdogata_79), possui 825 mil seguidores.

Ela se posiciona como ativista política, focada em críticas ao que considera “fascismo”, na defesa de pautas progressistas e na militância contra o conservadorismo. Apresenta-se como comunicadora popular, professora e apaixonada por política e história.

Ela também gerencia um “clube de política” para discussões temáticas e produz conteúdo sobre não-monogamia, militância LGBTQ+, feminismo, gatos e desabafos. 

A Esquerdogata também possui uma loja de produtos com roupas e “copos revolucionários” com imagens de Che Guevara, Fidel Castro, Lenin, etc.

Embora não utilize o X desde 2022, sua conta na plataforma traz uma foto de presidente Lula, e seu perfil é descrito na bio como um “espaço dedicado a destruir ideias fasc1st4as”.

Em 26 de outubro de 2025, a esquerdogata em questão foi presa por injúria racial. O caso ocorreu durante uma blitz de trânsito, em Ribeirão Preto (SP).

A influenciadora, que estava em um bar, e visivelmente embriagada, avistou PMs concluindo uma ação de fiscalização e se aproximou deles dizendo: “Um preto querendo foder outro preto”.

Após ser informada que seria detida, Aline Bardy continuou a ofender e desacatar os PMs, com inúmeras frases desairosas e preconceituosas sobre salário e cultura. Os PMs gravaram os insultos da influenciadora com seus celulares. Eis as falas da esquerdogata:

Contexto inicial (Intervenção na abordagem e injúria racial)

“Um preto querendo foder outro preto.” (Referindo-se ao policial negro abordando um homem negro, o que foi classificado como injúria racial.) 

“Nazistinha… fascistinha… preto bosta.” (Dirigido a um dos PMs ao questionar a abordagem.) 

Durante a detenção e resistência (desacato e ofensas)

Vai tomar no meio do seu cu. Você tem noção de quem é você e quem sou eu? […] Você não tem dinheiro nem para falar com meu advogado.” 

“Eu tenho 1 milhão de seguidores”.

Ai que delícia, gente! Sabe como uma militante ser presa? Isso vai me fazer deputada federal, vocês sabem disso, né? Vou mandar em vocês tanto.” 

Você é um policialzinho, ganha sei lá… tem licença-prêmio? Tem o quê? O que cê tem aqui?” 

Cês acham que tem cacife pra me mandar pra algum lugar. Sério! De verdade, olha pra mim! Olha pra vocês! Minha sandália vale o carro de vocês!” 

“Você já foi à Europa, meu amor? Vai pra Itália pra ver como são os policiais. Cês terão vergonha lá pra Londres. Já foi pra Londres? Tower Bridge. Já foi pra Londres? Nunca né, você não tem dinheiro pra isso. Ganham R$ 3 mil”

Polícia miliciana… bostas.

“Meu advogado?! Você não tem dinheiro nem pra falar com ele

***

O caso foi registrado como desacato, resistência e injúria racial, e ela foi liberada após pagar fiança.

Embora Aline Bardy Dutra tenha dito que trabalha como assessora na Secretaria de Comunicação do governo federal e tenha se identificado como “funcionária pública federal”, a Secom negou que ela integrasse o seu quadro de servidores.

O portal Metrópoles informou que Aline, na verdade, é professora de Educação Básica 1, na Secretaria Municipal da Educação de Ribeirão Preto, interior paulista, da qual está de licença não remunerada, de três anos, desde 22 de julho do ano passado.

Segundo o mesmo portal de notícias, ela conseguiu nove afastamentos remunerados, por faltas, motivos de saúde e licença-prêmio, informação que consta em edições do Diário Oficial do município.

Espero que continue de licença. As crianças da Educação Básica de Riberão Preto estarão mais seguras longe da influência de tal professora.

Derrubar Maduro é justo e necessário. Não há soberania sem legitimidade

O tema da queda de Nicolás Maduro voltou ao noticiário após dois recentes episódios: o prêmio Nobel da Paz concedido à venezuelana opositora Maria Corina Machado e a autorização formal, dada por Donald Trump, à CIA (Agência Central de Inteligência) para executar operações secretas e potencialmente letais dentro da Venezuela, visando a deposição do ditador.

Sobre as insinuações americanas, o deputado Guilherme Boulos (Psol) escreveu o seguinte: “A ameaça de Donald Trump de atacar a Venezuela é o maior ataque à soberania de países da América Latina desde o fim da Guerra Fria. Deve ser respondida com firmeza. Quem é latino-americano e compactua com isso ou é canalha ou submisso aos interesses dos EUA”.

O Partido dos Trabalhadores (PT), por sua vez, escreveu em nota oficial que “as declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em que autoriza operações secretas da CIA no território da Venezuela, são uma afronta à soberania do país sul-americano e uma violação do Direito Internacional.”

Em resposta à postagem de Boulos, cumpre retorquir que canalha mesmo é quem defende o regime de Nicolás Maduro. Quem defende que o poder na Venezuela seja entregue a Edmundo González Urrutia – que foi quem, de fato, venceu as últimas eleições – não é submisso a interesses dos Estados Unidos coisa nenhuma, apenas defende a libertação de um povo das garras de um maldito tirano.

É importante destacar esse ponto. Em entrevista recente à BBC, quando questionada se, em última instância, apoiaria uma “invasão” na Venezuela, Maria Corina Machado respondeu: “Quem está falando aqui sobre invasão? A invasão já existe. O que precisamos é de uma libertação”,respondeu a vencedora do Nobel da paz.

Em entrevista também recente à Folha de São Paulo, Corina explicou que o governo de Nicolás Maduro é um “regime criminoso de narcoterroristas” e que o país vinha sendo invadido desde os tempos de Hugo Chaves por agentes “inimigos do Ocidente” (Cuba, Rússia, Irã, Hamas…). Isso ela já tinha dito à BBC, mas acrescenta novidades, entre as quais uma recomendação para o presidente do Brasil:

Seria muito útil que o presidente Lula, assim como os demais chefes de Estado do continente, enviassem uma mensagem clara a Maduro: chegou a hora de ir embora. Acabou. Vá, para o seu próprio bem Maduro. Aceite isso”.

Lula, sabemos, não vai dizer nada disso para Maduro. Pelo contrário, tentará dissuadir Trump de ajudar o povo da Venezuela a se livrar do tirano.

Pelo menos é o que se depreende de matéria da Folha, assinada por Patrícia Campos Mello e Ricardo Della Coletta, onde se lê que Lula “pretende argumentar, em uma eventual reunião presencial com o americano Donald Trump, que ações militares dos EUA na Venezuela levariam à desestabilização de governos de diversos países e teriam consequências graves para toda a região”.

A referida matéria nos informa ainda que “embora a oposicionista venezuelana Maria Corina Machado tenha saído fortalecida ao ser laureada com o Prêmio Nobel da Paz, o governo brasileiro acredita que ela não tem representatividade no país. Na percepção do Brasil, não existe movimento político na Venezuela forte o suficiente para substituir o chavismo-madurismo”.

Tal percepção do governo brasileiro sobre a Venezuela seria incompreensivelmente distorcida se não soubéssemos que, na verdade, ele é ideológica e cínica. 

O Governo do Brasil obviamente sabe que, em outubro de 2023, Maria Corina foi vencedora absoluta da eleição realizada pela Comissão Nacional de Primárias para selecionar um candidato unitário para as eleições presidenciais de 2024.

Na ocasião, Corina recebeu aproximadamente 93% dos votos válidos, o que representou mais de 2,2 milhões de votos a seu favor. A participação total superou os 2,4 milhões de eleitores, tanto na Venezuela quanto no exterior, superando as expectativas e ocorrendo em meio a enormes desafios.

Esse resultado foi notável, com eleitores enfrentando longas filas sob condições climáticas adversas em bairros tradicionalmente pró-governo, demonstrando um desejo amplo por mudança. 

A vitória de Machado foi descrita como “esmagadora” e unificadora para a oposição, e, por isso mesmo, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), subserviente a Maduro, suspendeu os resultados dias depois, alegando fraude, e ratificado uma inabilitação política contra ela, impedindo sua candidatura oficial.

Sua liderança e popularidade são tais que, mesmo em meio a toda sorte de repressão, ardil, ameaça e perseguição do regime, Edmundo González Urrutia, o candidato por ela apoiado, obteve 7.443.584 votos nas eleições presidenciais de 28 de Julho de 2024, sendo ele, portanto, o verdadeiro e legítimo presidente da Venezuela com 67% dos votos válidos.

É, portanto, uma gritante hipocrisia e uma vil covardia para com os nossos irmãos venezuelanos que líderes de esquerda fiquem repetindo a ladainha de “soberania” para impedir que Maduro seja merecidamente deposto do lugar que ele simplesmente usurpou e que de modo algum é seu por direito.

Não há soberania se não há legitimidade

A esquerda autoritária – admiradora de tiranias e bajuladora de autocratas – tem sempre na manga a carta da “defesa da soberania” ou da “política de não intervenção” quando se trata de garantir que os companheiros ditadores se perpetuem no poder.

A soberania nacional é frequentemente citada como princípio que impede intervenções estrangeiras em assuntos internos de um país. Essa noção é, de fato, uma das bases do sistema internacional contemporâneo, segundo o qual o Estado possui o direito exclusivo de governar seu território sem ingerência externa. No entanto, esse direito é verdadeiramente ilimitado?

Quando o Estado se torna uma máquina de opressão, subjugando seu próprio povo e traindo o contrato social que justifica sua existência, sua soberania perde fundamento moral e político.

Na tradição contratualista (em especial John Locke), a legitimidade do Estado repousa na proteção dos direitos dos governados. Quando o poder se torna tirânico — isto é, quando é exercido além do direito e passa a perseguir ou subjugar o povo — o Estado viola a obrigação fundamental do contrato e perde sua legitimidade.

Dessa perspectiva, a invocação da soberania do tirano como proteção contra intervenção externa é incoerente: um poder que não cumpre as funções essenciais não pode reclamar soberania plena.

Em termos mais contemporâneos, pode-se afirmar que agentes externos — Estados e instituições — têm deveres morais de não permitir ou de corrigir grandes violações de direitos humanos, especialmente quando existe capacidade de agir sem prejudicar terceiros inocentes. 

A responsabilidade moral não termina na fronteira; há deveres positivos de evitar danos massivos a pessoas. Isso sustenta a obrigação moral de intervir em casos extremos de opressão.

Se um regime oprime sua população a ponto de negar liberdades fundamentais, a obrigação de justiça pode justificar ações externas destinadas a restabelecer direitos fundamentais — sobretudo quando outras vias (sanções, apoio à resistência civil, boicotes) falharam.

A teoria política moderna defende, portanto, que a soberania não é um direito absoluto, mas condicional à legitimidade do governo.

O governo de Nicolás Maduro não tem nenhuma legitimidade. Trata-se de um regime repressor, torturador e assassino que recentemente tentou enganar o mundo com uma gigantesca fraude eleitoral, e que, ao ser desmascarado, promoveu mais um autogolpe.

Politicamente criminoso, tal regime é também um desastre econômico de tal monta que tem levado milhões de venezuelanos, forçados pela pobreza extrema, pela fome, pela perseguição política, pelo desespero, a deixarem seu país.

A grande objeção contra apelos simplistas à intervenção é o risco de arbitrariedade, imperialismo, interesses ocultos e danos colaterais. Para mitigar isso, a literatura moral/política costuma exigir condições estritas — semelhantes às clássicas da teoria da guerra justa — que justificam uma intervenção legítima.

Para que uma intervenção seja legítima é preciso causa justa, intenção correta, último recurso, proporcionalidade, perspectivas razoáveis de sucesso e responsabilidade pós-intervenção. Esses critérios trabalham como salvaguardas filosóficas: se aprovados, transformam a ideia de intervenção num instrumento regulado por princípios morais, não num pretexto para agressão.

Não defendo, portanto, que Donald Trump, sozinho, autorize uma invasão à Venezuela. Não se trata disso, absolutamente. Mas a ajuda da CIA ou de qualquer agente estrangeiro para depor Maduro do poder e entregar a presidência a quem a detém por direito só pode ser bem-vinda. Buscar tal ajuda, como o faz Maria Corina Machado, não é trair seu povo. É lutar para libertá-lo.