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O Conto da Aia de Margaret Atwood

Margaret Atwood (1985), autora de The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), desenha um futuro sob o jugo de uma teonomia totalitária fundamentalista cristã-militar. O romance virou uma interessante série de televisão estadunidense, criada por Bruce Miller (2017). Vale a pena ler o livro e assistir a série (pelo menos a primeira temporada).

Baixe e leia o livro.

Assista a série.

Segue abaixo um resumo do NEXOS, o agente de Inteligência Artificial das Casas da Democracia dedicado à investigação de padrões autocráticos nas distopias.

O livro O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), escrito por Margaret Atwood em 1985, descreve a República de Gilead, uma teocracia totalitária que se instalou nos antigos Estados Unidos após um golpe de Estado que suspendeu a Constituição. Devido a uma crise demográfica causada pela infertilidade resultante de poluição, radiação e doenças, o regime classifica as mulheres por funções, sendo as Aias(Handmaids) mulheres férteis destinadas exclusivamente à procriação para a elite governante.

A Estrutura Social e o Papel das Aias

Despessoalização e Controle: As Aias perdem seus nomes originais e recebem patronímicos possessivos, como o da protagonista Offred(De-Fred), indicando que ela pertence ao Comandante Fred. Elas vestem uniformes vermelhos que simbolizam o sangue e o parto, e usam toucas brancas com abas largas que limitam sua visão e as tornam “impenetráveis”.

Vigilância e Castigo: A sociedade é monitorada pelos Olhos (polícia secreta) e as Aias são vigiadas pelas Tias, mulheres encarregadas de sua reeducação e que utilizam punições físicas severas. Dissidentes, como padres, médicos que realizaram abortos ou homossexuais, são executados e expostos publicamente no Muro.

A Cerimônia: A base reprodutiva do Estado fundamenta-se em precedentes bíblicos (como a história de Raquel e Bilha), resultando em um ritual mensal onde o Comandante copula com a Aia, que permanece deitada entre as pernas da Esposa legítima.

O Enredo e a Vida de Offred

A narrativa intercala o presente de Offred em Gilead com suas memórias do “tempo de antes”, quando tinha um marido (Luke), uma filha e uma carreira. No presente, Offred vive em um estado de “animação suspensa”, pontuado por caminhadas diárias para compras com sua parceira, Ofglen.

Relação Ilícita com o Comandante: O Comandante quebra o protocolo ao convidar Offred para encontros noturnos secretos em seu gabinete, onde jogam mexe-mexe (Scrabble), leem revistas proibidas e conversam. Ele busca uma conexão emocional e intelectual que o regime, ironicamente, eliminou da vida pública.

O Caso com Nick: Serena Joy, a Esposa do Comandante, desconfiada da esterilidade do marido, propõe que Offred durma secretamente com o motorista, Nick, para garantir uma gravidez. Offred e Nick iniciam um relacionamento genuinamente sexual e emocional, o que a torna imprudente quanto à sua segurança.

O Desfecho e as Notas Históricas

O clímax ocorre quando Serena Joy descobre a visita ilícita de Offred a um bordel clandestino (a Casa de Jezebel) com o Comandante. Pouco depois, uma camionete preta dos Olhos chega para buscar Offred. Nick sussurra que se trata de uma operação do Mayday (a resistência clandestina) e que ela deve confiar neles. Offred entra na camionete, sem saber se ruma para a liberdade ou para a morte.

A obra encerra-se com as “Notas Históricas”, um epílogo situado no ano de 2195. Durante um simpósio, acadêmicos discutem a autenticação do relato de Offred, que foi encontrado gravado em trinta fitas cassete escondidas em Bangor, Maine. O destino final de Offred permanece um mistério, servindo como um lembrete da natureza fragmentada e muitas vezes silenciosa da história das mulheres em regimes opressores.

Padrões Autocráticos

Na distopia O Conto da Aia, a República de Gilead é estruturada como uma teocracia totalitária que exibe diversos padrões autocráticos.

Um dos indícios mais claros é a despessoalização e a uniformização, onde os nomes originais são substituídos por patronímicos possessivos (como Offred, significando “De-Fred”) e as vestimentas são rigidamente codificadas por cores para identificar a função social: vermelho para Aias, azul para Esposas e verde para as Marthas.

vigilância constante de todos sobre todos é exercida pela polícia secreta, conhecida como os “Olhos”, e pelo sistema de caminhadas obrigatórias em pares, no qual uma Aia atua efetivamente como espiã da outra.

O regime impõe severas restrições à liberdade, tornando a escrita e a leitura atos proibidos para as mulheres e mantendo a Bíblia trancada em caixas de latão, sendo considerada um instrumento “incendiário” cujo acesso é restrito aos Comandantes.

resolução do conflito pela eliminação do polo conflitante é manifestada visualmente no “Muro”, onde corpos de dissidentes — como médicos que realizaram abortos no passado ou membros de seitas heréticas — são pendurados em ganchos para servirem de exemplo e intimidação.

A prática da Particicução funciona como um indicador de regulação autocrática extrema, onde o Estado canaliza a raiva das mulheres para o linchamento de um “bode expiatório” (muitas vezes um prisioneiro político rotulado como estuprador), transformando a violência em um rito de coesão social.

A estrutura de poder é estritamente top-down, com a sociedade organizada como um dominium do Estado, onde as mulheres são reduzidas a “recursos nacionais” ou “cálices ambulantes” destinados exclusivamente à procriação para a elite, baseando-se em precedentes bíblicos distorcidos.

Gilead também busca a naturalização da ordem social e a produção do Homem Novo por meio da doutrinação no “Centro Vermelho”, onde as “Tias” ensinam que a falta de liberdade atual é, na verdade, uma “liberdade de” perigos, e que o novo sistema deve ser aceito como o único “costumeiro” possível.

Mudanças moleculares

No artigo Manifestações de rua não dão em nada? (publicado aqui e aqui em 26/01/2026) falei das possíveis “mudanças moleculares” que grandes manifestações de rua provocam, mas que só aparecem muito depois e, por isso, dão a impressão de que não tiveram nenhum (ou pouco) efeito. Neste artigo vou tratar mais diretamente dessas mudanças.

Há muita confusão entre mudanças políticas e mudanças sociais que, talvez, tenha a ver com uma incompreensão do que chamamos propriamente de ‘social’. E há ainda um grande desconhecimento sobre o funcionamento das redes sociais propriamente ditas (e é bom não confundi-las com as mídias sociais: redes sociais são pessoas interagindo, enquanto estão interagindo, por qualquer meio – não plataformas, programas, algoritmos, tecnologias, dispositivos). É disso que vou tratar neste artigo, que deve ser visto como uma segunda parte do anterior.

As manifestações de rua, por maior tamanho que tenham, na maior parte dos casos, desencadeiam modificações na sociedade, não nos regimes políticos. Não tomam o poder – a menos que haja uma força organizada para tal no seu interior; ou dissensões graves nas forças que conduzem ou apoiam o regime; ou, ainda, ameaça externa de uma força superior beligerante. Como, na maior parte dos casos, não tomaram o poder, não derrubaram governos, então muitos analistas decretam que não tiveram efeito ponderável.

Comecemos com alguns exemplos do que manifestações sociais provocam (ou podem provocar) nas sociedades onde ocorrem.

Elas aumentam a confiança, a cooperação, a reciprocidade e a solidariedade entre os que se manifestam.

Elas inaguram novas práticas comunitárias que estão na base da democracia como modo-de-vida. Ampliam as conversações com novos interlocutores confiáveis e aumentam a frequência dessas conversações quando se faz necessário mobilizar e organizar a ação coletiva.

No limite, elas podem ser embriões daquele “governo comum” – ou do ‘common government’, associado à ‘grassroots democracy’ – de que falava Jefferson ou daquele “governo civil” de que falava Tocqueville.

Elas permitem que as pessoas reconheçam e valorizem o seu próprio modo de vida quando esse modo de vida está sendo ameaçado por interferências abusivas de um poder exercido top down.

Quando são gigantes – ou verdadeiros swarmings – elas tornam visível a dimensão do poder que a sociedade tem quando não está fragmentada em indivíduos, grupos ou tribos isolados ou com poucos atalhos entre si. Os manifestantes são, em geral, os primeiros a se surpreender com isso. Mas é o principal recado que elas enviam ao poder estatal.

Elas aproximam pessoas que não se relacionavam diretamente por pertencerem a clusters ou tribos diferentes, dando a base de um sentido comum para que possam interagir. Promovem assim uma oportunidade de “miscigenação cultural” entre pessoas de diferentes extrações ou profissões: histórias de vida, classes sociais, gêneros, etnias, nacionalidades, idade, escolaridade, tipos de trabalho e posições funcionais etc.

Elas aumentam a desconfiança no governo, sobretudo quando há repressão. Esse é um “gene” liberal importante: nas democracias (liberais ou plenas) a sociedade deve controlar o governo e não ser controlada por ele.

Elas ficam marcadas na memória coletiva (dos que participaram e dos que viram o fenômeno acontecer) como um atestado indelével de que, sim, é possível. Como dizia Václav Havel, elas são o poder dos sem-poder.

Mas elas são a expressão de um outro tipo de poder. É óbvio que o poder do Estado – em termos de força para normatizar comportamentos, exercer controle, conquistar alinhamento e submissão, conter e reprimir descontentamentos – é assimétrico em relação ao poder da sociedade. Tal comparação, porém, é inadequada porque não são o mesmo tipo de poder. O poder do Estado é vertical e se exerce pela sua capacidade de alterar a topologia e a dinâmica da rede (a rigor excluindo nodos, eliminando conexões ou cortando atalhos entre clusters). O poder da sociedade é um poder horizontal. Opera por contágio (como na reprodução bacteriana, em que o material genético não está aprisionado em um núcleo e se transfere de um doador a um receptor por uma ponte citoplasmática). É um poder de rede, de transmissão de influência.

Grandes manifestações sem coordenação centralizada, quando acontecem, são manifestações da fenomenologia da interação em mundos altamente conectados, ou seja, fenômenos próprios de redes sociais stricto sensu (não confundir isso – insista-se – com mídias sociais). Ou reconhecemos que existe rede realmente e entendemos a sua estrutura e o seu funcionamento ou não há como explicar as mudanças moleculares provocadas por protestos de rua e manifestações sociais em geral.

Aqui começa a nossa conversa. Basicamente, é necessário compreender:

Como as pessoas se aglomeram (clustering).

Como uma aglomeração enxameia (swarming).

Como as pessoas, sem intenção de imitação, reproduzem comportamentos que percebem em outras pessoas (cloning).

Como, quando esses fenômenos ocorrem, o mundo social se contrai, diminuindo a extensão característica de caminho e fazendo despencar os graus de separação (crunching).

Como tudo isso pode começar a partir de uma pequena perturbação, mesmo que parta da periferia do sistema (feedbackpositivo e múltiplos laços de retroalimentação de reforço).

Como, cada vez que rodam com o sistema aparentemente parado, os impulsos se potencializam (looping de recursão) e tudo reverbera.

Responder essas questões é o desafio para um terceiro artigo.

A suprema corte dos aiatolás?

Saindo em defesa corporativa do comportamento inadmissível de Dias Toffoli, Luiz Fachin, presidente do STF, escreveu em nota oficial da corte:


“É preciso afirmar com clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações. Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de direito. O Supremo age por mandato constitucional, e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel. Defender o STF é defender as regras do jogo democrático e evitar que a força bruta substitua o direito. A crítica é legítima e mesmo necessária. Não obstante, a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder; e o STF não permitirá que isso aconteça. O Supremo fez muito no Brasil em defesa do Estado de direito democrático; fará ainda mais. Sim, todas as instituições podem e devem ser aperfeiçoadas, isso sempre, mas jamais destruídas. Quem almeja substituir a ousada pedagogia da prudência pelo irresponsável primitivismo da pancada errou de endereço”.

O que ele está dizendo, em outras palavras, é que qualquer crítica das demais instituições da democracia (membros de outros poderes, imprensa etc.) a um membro da corte é um ataque à democracia. Isso seria, segundo Fachin, uma tentativa de, nada menos, destruir a suprema corte. Ou seja, na prática, está comparando as passadas investidas golpistas contra o STF, por parte de Bolsonaro e dos bolsonaristas, com as opiniões da cidadania brasileira numa época em que o ex-presidente está preso e não há sinal de nenhum movimento de ruptura ou de ameaça às instituições. Assim, os que não concordam com os desmandos de membros da corte seriam todos golpistas. Ou seja, Fachin e seus pares estão perfeitamente alinhados ao governo Lula e ao PT. Os que não concordam com eles são inimigos da democracia.

Fica-se na dúvida de se o STF sabe realmente o que está fazendo? Ao dizer que qualquer crítica ao comportamento flagrantemente irregular de certos membros da corte é um ataque à democracia está transformando o tribunal em uma instância soberana no sentido absolutista do termo. Isso, sim, é um ataque à democracia.

Numa democracia só a lei, democraticamente aprovada, é soberana, não as instituições – e muito menos seus membros – encarregadas de aprová-la, aplicá-la ou interpretá-la.

O STF não pode ser uma espécie de “partido dos clérigos”, acima da lei e subordinado apenas à sharia dos seus intérpretes. Seus membros são servidores públicos, não aiatolás. Ou são?

Segundo a fatwa de Luiz Fachin, a Malu Gaspar, o Sam Pancher e o Metropoles, o Estadão e a Folha, o Walter Maierovitch e uma multidão de juristas, “tentam destruir as instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder”. São, todos, portanto, golpistas contra a democracia.

Uma fatwa é uma decisão jurídica emitida por um mufti (ou um membro do STF) em resposta a uma questão sobre a sharia (ou seja, sobre sua privativa interpretação da lei).

Aliando Inteligência Artificial à Inteligência Humana

A febre da Inteligência Artificial parece sintoma de uma espécie de pandemia. O negócio é contagioso. Mentes criativas nas empresas e nos centros de ciência e tecnologia estão se voltando quase que exclusivamente para isso. Até aqui, tudo bem.

Mas de repente surge um novo ídolo: a organização artificial (impregnada de IA) será superior à organização humana. Isso vai acabar chegando a todas as organizações da sociedade civil e dos governos (é só questão de tempo).

Esse é um problema, mas também será uma boa oportunidade para os que conseguirem percorrer as trilhas abertas desde o início do século pela exploração das redes e da democracia como modo-de-vida. Modos de salvaguardar a inteligência tipicamente humana poderão ser “módulos sociais de sobrevivência” num mundo dominado por Estados autocráticos e Big Techs desumanizantes.

As organizações humanas que quiserem sobreviver não podem resistir à onda da Inteligência Artificial e ficar lutando para “colocá-la no seu lugar” por meio de uma retrógrada revolta ludista contra o avanço tecnológico trazido pela IA. Elas estão confrontadas com o desafio de descobrir maneiras criativas de se aliar à inteligência artificial mantendo um foco claro naquilo que nos torna humanos.

Para fazer isso uma parte de qualquer organização deve se dedicar ao netweaving, quer dizer, à articulação e animação de redes humanas.

A organização que conseguir fazer isso se tornará mais humana em aliança com a inteligência artificial em vez de se tornar mais artificial, deixando que a inteligência humana nela embarcada seja capturada pelos modos de “pensar” (ou de processar informações, ou de imitar o pensamento humano) da inteligência artificial (1).

E aqui vem um anúncio surpreendente: bastam poucas pessoas em uma organização fazendo isso para alcançar tal efeito. As organizações podem continuar correndo sofregamente para acompanhar a onda e não ser deixadas para trás, mas pequenos núcleos dentro delas farão esse papel. Serão espécies de zonas azuis (blue zones) dentro da organização.

Esses pequenos núcleos que vão “salvar” (não propriamente guardar, mas experimentar e re-experimentar continua ou intermitentemente – in situ, não in vitro) interações humanas, emoções humanas, conversações, conversações, conversações… podem estar em todo lugar. “Super-egos” (ou melhor, “super-não-egos”), “consciência crítica” (ou melhor, não-consciência – mas relembrança do que foi compelido a se tornar inconsciente), “mosteiros irlandeses” – aqueles que salvaram a civilização ocidental da idade das trevas que se instalou entre a queda do império romano e a ascensão de Carlos Magno – mas tudo em tempo real.

Se entendermos que aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo, inteligência é, ao fim e ao cabo, capacidade de aprender. Espero que fique claro que estou falando de educação. De um novo tipo de educação que agora pode ser experimentado em todo lugar. Uma nova educação – não propriamente para apenas melhorar a velha educação que temos, mas para abrir novos processos de aprendizagem que poderiam ser aplicados por empresas (para seus colaboradores e stakeholders), por entidades da sociedade e por governos.

Sim, é como se abríssemos uma startup de educação dentro de cada empresa, organização social ou órgão de governo. Mas o que essas “startups” fariam concretamente?

Bem, em primeiro lugar, entrando em contato com as principais descobertas da nova ciência das redes que surgiu na passagem do século 20 para o século 21, elas aprenderiam o que são redes, o que implica compreender as diferenças entre mídias sociais e redes sociais (como redes humanas) e compreender as topologias e dinâmicas de rede: as diferenças entre descentralização e distribuição e entre participação e interação. Além disso – e aqui esteja talvez o mais importante – elas entrariam em contato com as descobertas mais recentes da fenomenologia da interação: clustering, cloning, swarming, reverberação, múltiplos laços de retroalimentação de reforço, looping de recursão et coetera.

Em segundo lugar, eles aprenderiam a fazer netweaving (articulação e animação de redes), entendendo as diferenças entre networking e netweaving e a aplicar tecnologias de netweaving à desobstrução de fluxos interativos em organizações, à configuração de ambientes capazes de melhorar as condições de convivência social em organizações e localidades e de ensejar a emergência de uma inteligência tipicamente humana; em termos metafóricos, aprenderiam a usar redes humanas como “super-computadores”.

Em terceiro lugar, elas fariam, na prática, netweaving dentro das suas organizações, criando condições para que os seus integrantes aprendessem, na prática, a interagir em rede; ou iniciassem novas organizações ou empreendimentos já estruturados em rede (mais distribuída do que centralizada e mais interativa do que participativa).

Nos últimos 25 anos venho me dedicando à nova ciência das redes e ajudando pessoas, comunidades, empresas e outras organizações a fazer modificações em sua estrutura e em sua dinâmica de funcionamento para desobstruir os fluxos interativos que transitam em seu interior e no seu entorno mais próximo, diminuindo os custos invisíveis, em geral não contabilizados nos balanços corporativos, que drenam os resultados econômicos (como os custos de transação, os custos de atrito de gestão e os custos de déficit de sinergia), evitando o risco sistêmico de perda simultânea de inovatividade e produtividade que levam à perda de sustentabilidade, mesmo quando há crescimento. Também desenvolvi, em parceria com dezenas de outros pesquisadores, tecnologias de netweaving para configurar ambientes alterdidáticos de aprendizagem que ensejem a emergência de uma inteligência tipicamente humana que pode se acoplar à inteligência artificial impulsionando a colaboração e a criatividade. Implementei vários programas para melhorar as condições de convivência social em localidades e organizações, aumentando a qualidade de vida de seus habitantes ou participantes, despertando e dinamizando seu empreendedorismo e sua capacidade endógena de superar seus problemas (2).

Agora, com o auxílio de um Agente de Inteligência Artificial chamado REXOS, estou ministrando um programa de aprendizagem sobre netweaving: como articular e animar redes humanas. Nesse programa, além do conhecimento teórico (em cinco horas de aulas ao vivo, via Zoom, que ficarão disponíveis para ser acessadas a qualquer momento), teremos uma clínica (com conversas pessoais com cada inscrito que quiser trazer um caso concreto para ser analisado). Para saber mais sobre tudo isso clique neste link.

Notas

(1) Como questionou recentemente Pascal Bornet (2024), em Irreplaceable, “estamos ensinando máquinas a pensar como humanos — ou treinando humanos a pensar como máquinas? Parece uma pergunta técnica. Mas, para mim, é uma questão existencial. Ferramentas como rodas e motores ampliaram nossos corpos. A IA amplia nossas mentes. E isso muda tudo. A mudança da qual não falamos. Dizemos que estamos ensinando máquinas a pensar como nós. Mas, na realidade, estamos nos adaptando para pensar como elas. Otimizamos. Corremos atrás de respostas. Tratamos o pensamento como mera produção. Mas a inteligência humana nunca foi feita para a velocidade — foi feita para o significado. O ponto cego no boom da IA. Cada vez que interagimos com a IA, reforçamos sua lógica: Perguntar → obter → seguir em frente. Com o tempo, perdemos algo mais profundo: • A pausa antes de uma resposta • O desconforto de não saber • A intuição que precede as palavras. Esses são os momentos que nenhum modelo consegue replicar. O que estou tentando proteger. Estou aprendendo a preservar as partes do pensamento que ainda parecem humanas — lentas, emocionais e belamente incertas. Talvez o objetivo não seja tornar as máquinas mais humanas… Mas sim lembrar como permanecer humano ao usá-las”.

(2) Sim, esse é um assunto que investigo há mais de 25 anos: redes (e a emergência de uma sociedade em rede). Escrevi vários livros e dezenas de artigos sobre o assunto. No final de 2008, juntamente com alguns parceiros, fundei uma Escola-de-Redes que chegou a ter mais de 13 mil pessoas conectadas. Trabalhei com o tema em organizações da sociedade civil, grandes e pequenas empresas e governos de todos os níveis.

A história começa assim.

Surgiu no final do século passado uma chamada nova ciência das redes. Desse novo campo de investigação participaram vários cientistas, inicialmente físicos, em sua maioria, mas também matemáticos, sociólogos e pesquisadores de outras áreas do conhecimento. Pode-se citar alguns, meramente a título de exemplo: Albert-László Barabási, Steven Strogatz, Duncan Watts, Manuel Castells, Pierre Lèvy. E cada vez mais biólogos, epidemiologistas (e até médicos, como Nicholas Christakis).

As principais descobertas da nova ciência das redes, que surgiram nos primeiros dez anos do século 21, são surpreendentes. Mas as aplicações desse conhecimento às sociedades e organizações logo foram descontinuadas pela reação do mundo hierárquico, sobretudo dos Estados-nações e de outras organizações centralizadas, por medo de deixarem de ser os fulcros dos sistemas de governança públicos e privados.

No Brasil, em particular, houve (e continua havendo) uma confusão entre redes sociais (pessoas interagindo por qualquer meio) e mídias sociais (sites, programas, tecnologias) que dificulta o entendimento das redes e desestimula o interesse pelo assunto.

A nova ciência das redes foi o resultado da confluência de três campos investigativos: a análise de redes sociais (SNA), que está na pré-história dessa nova ciência, tendo como patrono Leonhard Euler (1707-1783); redes como estruturas que se desenvolvem; e redes como sistemas dinâmicos complexos.

Suas descobertas principais indicam:

1) que o comportamento coletivo não pode ser derivado do comportamento dos indivíduos (ou que – como escreveu o físico Marc Buchanan (2009) em O Átomo Social – “diamantes não brilham porque os átomos que os constituem brilham, mas devido ao modo como esses átomos se agrupam em um determinado padrão: o mais importante é frequentemente o padrão e não as partes, e isso também acontece com as pessoas”),

2) que redes são múltiplos caminhos e que o padrão de organização (a topologia da rede) determina ou condiciona fortemente os comportamentos possíveis de qualquer coletivo,

3) que redes sociais são redes humanas e que redes sociais mais distribuídas do que centralizadas estão se espalhando nas sociedades (e que é isso que chamamos de emergência de uma sociedade em rede),

4) que descentralização não é a mesma coisa que distribuição,

5) que centralização é o que chamamos de hierarquia (topologias mais centralizadas do que distribuídas),

6) que a conectividade acompanha a distribuição,

7) que a interatividade acompanha a conectividade,

8) que adesão ou participação não são a mesma coisa que interação,

9) que tudo que interage tende a clusterizar (clustering),

10) que tudo que interage pode enxamear (swarming),

11) que o imitamento (cloning) é uma forma de interação,

12) que tudo que interage se aproxima (crunching) diminuindo o tamanho social dos mundos,

13) que assim como a interatividade cresce com a transição para rede, a inovatividade tende a crescer com a interatividade,

14) que o aumento da interatividade depende da desobstrução de fluxos (e que é isso que chamamos de processos de rede nas organizações),

15) que só redes podem aprender, que – como disse Humberto Maturana – “aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo” e que o que chamamos de inteligência é um atributo dessa capacidade de aprender.

Como consequências dessas descobertas – no que tange especificamente à inovação – é possível afirmar:

1) que não adianta querer mudar (a dinâmica de funcionamento) sem mudar (o padrão de organização) e que – como se pode derivar de tudo o que escreveu Marshall McLuhan – é o ambiente que muda as pessoas, não a tecnologia,

2) que uma mudança só é possível do conhecido para o desconhecido, não do conhecido para o conhecido,

3) que inovação é sempre um resultado inesperado e, assim, é inútil tentar controlar processos de inovação verificando se foram alcançados os resultados esperados,

4) que inovação copiada é reprodução, não inovação. A inovação é sempre inédita e, portanto, é inútil tentar reproduzir os processos particulares pelos quais uma organização inovou com sucesso,

5) que nunca se trata de substituição, de colocar uma coisa no lugar de outra e sim de deixar que os novos processos que se acrescentam aos antigos gerem novas configurações emergentes,

6) que uma boa dose de comportamento aleatório é necessária para a inovação e que não é possível ser criativo sem partir em novas direções sem um plano pré-definido,

7) que é estúpido tentar organizar a auto-organização.

É possível aplicar esses novos conhecimentos da nova ciência das redes às organizações atuais, desobstruindo fluxos para mudar o padrão de organização (de mais centralizado do que distribuído para mais distribuído do que centralizado) e a dinâmica de funcionamento (de mais baseada em interação do que em adesão e participação e tendo como referência mais a lógica da abundância do que a da escassez).

A manipulação da opinião pública

Voltemos ao assunto do papel político dos institutos de pesquisa de opinião. Já tratei do tema em dois artigos. O primeiro, em 27/10/2025, intitulado Pesquisas de intenção de voto. O segundo, em 18/12/2025, intitulado Institutos de pesquisa de opinião. Em resumo, quais foram os problemas para a democracia apontados nesses artigos? (E peço perdão por repetir alguns argumentos já apresentados).

Em primeiro lugar as pesquisas de opinião podem ser instrumentalizadas para validar ou invalidar determinadas visões políticas, contribuindo para aumentar as chances de uma força política permanecer no governo ou sair do governo. Não é necessário fraudar pesquisas para fazer isso. A época em que é feita uma pesquisa, a escolha dos temas a serem pesquisados num determinado momento (e não em outro), o tipo de pergunta que a pesquisa faz, as perguntas que ela não faz, a ordem das perguntas, as opções listadas, as opções não listadas e a ordem das opções apresentadas aos entrevistados, determinam ou condicionam, em grande parte, os resultados.

Por exemplo, pesquisa Quaest divulgada no último domingo (21/12/2025), pergunta se os brasileiros acreditam ou não que Flávio Bolsonaro manterá sua candidatura até o fim. Como as pessoas podem saber isso? É uma pesquisa sobre crenças? O problema é de onde saem essas perguntas. Não se sabe de onde saem essas perguntas (nem sobre a escolha do momento para fazê-las), mas sabe-se onde entram as respostas: na pauta do debate político. E se nós resolvêssemos perguntar – às vésperas da campanha eleitoral – se a maioria dos brasileiros acredita que Lula é inocente de todos os crimes que o levaram a prisão? Ou se perguntássemos: quem acredita que Lula é a alma mais honesta do planeta e quem não acredita? A título de informar à população, podemos perguntar qualquer coisa que, devidamente amplificada pela mídia, influencia o debate político.

Podemos encomendar pesquisas de opinião para reforçar ou enfraquecer qualquer proposta do governo ou da oposição. Se um governo, por hipótese, está querendo enviar ao parlamento um projeto de lei (ou de emenda constitucional) que institua a pena de morte, podemos fazer uma pesquisa que mostra que a maioria da população é contra essa medida. Dependendo, porem, do formato da pesquisa e do momento escolhido para fazê-la (por exemplo, logo após uma chacina promovida por organizações criminosas, com centenas de mortes), podemos obter o resultado diametralmente oposto, mostrando que a maioria da população é a favor da medida. Exemplificando com casos menos extremos, podemos fazer pesquisas que mostrem que a população é favor da redução (ou do aumento) da maioridade penal; que a população aprova (ou desaprova) uma nova reforma da previdência; que a população é favorável (ou contrária) ao voto distrital, ou ao financiamento privado de campanhas eleitorais, ou ao fim da reeleição, ou ao aumento das dificuldades para a instalação de processos de impeachment de presidentes, governadores, prefeitos e membros da suprema corte. Qualquer resultado é possível – sem fraudar as pesquisas.

O governo vai mal das pernas em termos de popularidade? Não seja por isso. Fazemos uma pesquisa eleitoral mostrando que o presidente, candidato à reeleição, vence todos os concorrentes (mesmo que eles ainda não existam) no segundo turno das eleições (que só ocorrerão em um futuro distante). Ou fazemos uma pesquisa mostrando que o incumbente venceria com folga um concorrente seu do passado (que não poderá concorrer mais por estar legalmente inelegível). Vale tudo.

Em segundo lugar, pesquisas de intenção de voto – feitas por institutos de pesquisa de opinião – criam expectativas. A criação de expectativas é o mais eficaz movimento em uma campanha eleitoral. Por isso, diga-se o que se quiser dizer, os institutos de pesquisa de opinião e a interpretação de seus resultados, feita por analistas e divulgada por jornalistas, são o mais poderoso recurso de campanha que já foi inventado. Por exemplo, pesquisas de intenção de voto feitas neste momento (em que escrevo este artigo), com mais de 9 meses de antecedência, prestam-se a todo tipo de especulação política, em especial para animar campanhas antecipadas de candidatos que já estão no palanque e destruir alternativas que nem ainda se apresentaram. Não há como isso ser bom para a democracia.

Em terceiro lugar, há uma questão de fundo: pesquisas de opinião não são capazes de captar a opinião pública e sim a soma das opiniões privadas dos cidadãos. Não, não são a mesma coisa. A opinião pública emerge da interação – e da modificação – das opiniões privadas, não da sua soma. Se fossem a mesma coisa não seria necessário o processo eleitoral, que não compreende apenas depositar votos na urna num dia determinado, mas também a campanha eleitoral, a apresentação das propostas dos candidatos, o debate entre os candidatos, as negociações e modificações das propostas dos candidatos e o debate que se instala na sociedade sobre tudo isso. Bastaria então contratar o IBGE ou outra instituição com capacidade semelhante para fazer uma pesquisa censitária, indo de casa em casa para colher as preferências dos eleitores e depois totalizar os resultados. Isso não vale na democracia porque não capta o processo de formação da opinião pública, ou seja, o processo pelo qual as opiniões privadas são modificadas quando entram em interação entre si. A resultante desse processo é diferente daquela que se pode depreender ao totalizar opiniões ex ante à interação, quando essas opiniões privadas ainda não foram modificadas. Essa modificação é o que chamamos propriamente de política! Em suma, não é possível aferir a vontade política coletiva sem… política! Em outras palavras, não há um modo “técnico” de fazer isso.

Por tudo isso cheguei a dizer, no meu segundo artigo, que quem quiser influir na política pode entrar num partido, fundar um novo partido ou, o que é mais fácil, criar um instituto de pesquisa de opinião. Os resultados de pesquisas de opinião são amplificados pela reverberação dos meios de comunicação (que são, na verdade, caixas de ressonância de algumas notícias “autorizadas” a transitar em seu meio) e acabam pautando o debate político, influenciando as opiniões dos que eram chamados de formadores de opinião (ou, hoje, de influencers), as visões dos analistas políticos, as decisões dos atores políticos e dos eleitores, reforçando ou descartando propostas políticas e candidaturas. É um poder imenso, que pode ser usado para a manipulação da opinião pública.

Ora, se os institutos de pesquisa de opinião operam, objetivamente, como atores políticos, eles deveriam estar sujeitos a leis que controlam esse tipo de agente (político) para estabelecer um mínimo de equidade (ou paridade de armas) nas disputas políticas. Deveria haver um código de conduta que estabelecesse o que é permitido e o que é vedado a um instituto de pesquisa de opinião. Pesquisas de intenção de voto podem ser divulgadas até às vésperas das eleições ou serão proibidas nos 15 dias antes do pleito (como no Chile)? Pesquisas eleitorais precisam ser registradas sempre, mesmo em ano sem eleições (ao contrário do que determinou o TSE)? Partidos políticos que concorrem à eleições podem divulgar pesquisas eleitorais por eles contratadas? Quem pode contratar uma pesquisa (eleitoral ou não)? E será obrigatório ou não, na divulgação da pesquisa, revelar o nome do contratante? Institutos de pesquisa de opinião podem fazer pesquisas às suas próprias expensas (e, neste caso, devem provar como se financiaram)?

Claro que nada disso adianta muito em termos de controle democrático, embora ajude a aumentar a transparência. Há sempre como contornar restrições normativas ou legais. Empresas não podem doar dinheiro para campanhas? Tudo bem, elas então doam para pré-campanhas (que funcionam, para quase todos os efeitos, como campanhas). Analogamente, institutos de pesquisa de opinião não podem fazer isso ou aquilo? Eles arrumarão um jeito de contornar qualquer restrição, a não ser que sejam colocados na ilegalidade, como ocorre em várias ditaduras e não pode ocorrer em democracias.

Claro que se fizéssemos uma pesquisa de intenção de voto no universo dos dirigentes e técnicos dos institutos de pesquisa de opinião muita coisa seria esclarecida. Mas isso não é um procedimento legítimo em uma democracia, assim como não é legítimo fazer a mesma coisa nas agências de checagem e no conjunto dos jornalistas, analistas e comentaristas dos meios de comunicação profissionais. Já sabemos os resultados. E é um direito das pessoas terem suas preferências políticas.

No entanto… um consórcio (informal) formado por institutos de pesquisa de opinião, agências de checagem e grandes meios de comunicação alinhados, sobretudo agindo em conluio, explícito ou tácito, com o governo de turno, constitui um organismo ilegítimo de intervenção política do ponto de vista da democracia. Pode fazer parte de uma estratégia de conquista de hegemonia; ou seja, pode ajudar a prorrogar uma força política no governo, conferindo-lhe o tempo necessário para conquistar hegemonia sobre a sociedade para alterar, por dentro, o “DNA” da democracia – sem golpe!

Post Scriptum de 24/12/2025

Hoje o Datafolha divulgou uma nova pesquisa. O instituto perguntou aos entrevistados: “Considerando uma escala de 1 a 5, onde 1 é bolsonarista e 5 petista, em qual número você se encaixa?”. Aqueles que responderam “um” ou “dois” foram classificados como bolsonaristas. Já os que disseram “quatro” ou “cinco” foram categorizados como petistas. Quem respondeu “três” ficou como neutro. É por isso que o resultado foi absurdo: 40% de petistas, 34% de bolsonaristas e somente 18% não seriam petistas ou bolsonaristas. Só havia um número (o “três”) para classificar o que hoje é a maioria do eleitorado (que não é petista, nem bolsonarista). Como é que uma pessoa entrevistada na rua vai conseguir fazer de repente uma conta de cabeça para concluir que o “três” seria o único julgado neutro? Além disso, 1 a 5 normalmente é colocado como escala de grandeza ou qualidade e para uma variável apenas. Por último, quem quisesse ficar equidistante dos extremos ficaria tentada a procurar uma opção 2,5 – que não existe.

Como tenho dito, são os institutos de pesquisa de opinião atuando como agentes políticos e manipulando a opinião pública. O Datafolha aplicou um chaveco metodológico enganoso para inflar os números de petistas e bolsonaristas, calcificar a polarização e descredibilizar alternativas. Como teve o desplante de fazer isso? Sinal de que até os institutos de pesquisa de opinião vão entrar no vale tudo.

A democracia como modo de vida

Como surgiu o conceito de ‘democracia como modo de vida’? Quais foram os autores que trabalharam essa ideia?

RESPOSTAS DO LEXOS – AGENTE DEMOCRÁTICO IA

O conceito de “democracia como modo de vida” é fundamental para entender a democracia em seu sentido forte, indo muito além da mera administração política do Estado.

Este conceito surgiu para lidar com a percepção de que a democracia não se restringe a um conjunto de regras formais ou procedimentos eleitorais, mas sim a um padrão de interação e convivência social. Ele representa a redescoberta do papel inovador da democracia, que é frequentemente ignorado quando o foco recai apenas sobre o modelo político transitório, como o sistema eleitoral.

A seguir, exploramos como o conceito surgiu e os principais autores que o desenvolveram.

I – John Dewey: A Democracia como Ideia Social e Modo de Vida

John Dewey é um dos autores mais explícitos na formulação desta distinção no século XX.

A Distinção Conceitual. Dewey estabeleceu uma distinção clara entre a democracia como uma ideia social e a democracia política como um sistema de governo. A ideia de democracia é mais ampla e completa do que a que pode ser exemplificada no Estado, mesmo no melhor dos casos.

O Modo de Vida. Para Dewey, a democracia é fundamentalmente um “modo de vida” (ou “modo de vida comunal”). Ele a via como uma aposta “nas possibilidades da natureza humana” e nas “atitudes que os seres humanos revelam em suas mútuas relações, em todos os acontecimentos da vida cotidiana”.

Abrangência. Para que a ideia de democracia se realize, ela deve afetar todos os modos de associação humana, incluindo a família, a escola, a indústria e a religião. A democracia é um ideal moral e, quando se torna um fato, é um fato moral.

Cooperação e Comunidade. Essa concepção forte de democracia é local e comunitária, sendo definida como a crença de que o hábito da cooperação amistosa é uma valiosa contribuição à vida. Dewey buscou uma nova noção de público que deságua no conceito de “comunitário”, especialmente a pequena comunidade local, a vizinhança, como o verdadeiro lugar da democracia.

II – Humberto Maturana: A Democracia como Obra de Arte e Emoção

Humberto Maturana aborda a democracia como modo de vida a partir de uma perspectiva biológica e emocional.

Fundamento Emocional. Para Maturana, a democracia não é um produto da razão humana, mas sim uma obra de arte e um produto do nosso emocionar. Ela surge de um desejo neomatrístico por uma coexistência dignificada na estética do respeito mútuo.

O Desejo Matrístico. A base emocional da democracia reside na “añoranza” (nostalgia/desejo inconsciente) por viver em coexistência fácil que surge do respeito mútuo, sem a dominação própria da cultura patriarcal.

Conspiração Social. Ele define a democracia como uma “conspiração social” para uma convivência em que a aceitação do outro como um legítimo outro é fundamental. A democracia é uma ruptura na cultura patriarcal europeia e só pode ser vivida, não estabilizada ou defendida racionalmente.

III – Augusto de Franco: A Redescoberta das Raízes Atenienses

Augusto de Franco, ao refletir sobre as origens da democracia, enfatiza que ela nasceu primariamente como um modo de vida antes de ser um regime político.

Origem na Convivência Social. Para os atenienses que a inventaram, a democracia era um modo de vida ou de convivência social, um modo pacífico e prazeroso de conviver. O objetivo era que as próprias pessoas pudessem, coletivamente, buscar melhorar suas vidas, sem que ninguém, um senhor, determinasse como deveriam agir.

Processo de Desconstituição. A democracia, no sentido forte, é um processo de desconstituição de autocracia (ou de desprogramar milênios de cultura autocrática). Experimentar processos democráticos como modo de vida é a única maneira de evitar a emergência de preconceitos autocráticos.

Liberdade e Ausência de Senhor. O sentido da política é a liberdade. A democracia surgiu do desejo das pessoas de viver sem um senhor, de serem cidadãos e não súditos.

IV – Hannah Arendt e outras contribuições

Outros pensadores também tocaram o cerne dessa ideia, influenciando a conceituação moderna.

Hannah Arendt. Ela é citada como tendo percebido esse componente original da democracia (o “gene” democrático). Em seus escritos sobre “O que é política?” (c. 1950), ela teria feito a “descoberta” de que, se as pessoas passarem a viver a sua convivência, um outro tipo de vida surgirá — a vida propriamente política, a fruição do viver prazerosamente a coisa pública. Para Arendt, a única matéria propriamente política é a liberdade.

Alexis de Tocqueville. Embora não tenha usado o termo “modo de vida”, Tocqueville lançou os fundamentos do conceito de capital social ao constatar o protagonismo político da sociedade americana, onde “a sociedade age por si e sobre si mesma”. Ele observou a capacidade dos americanos de se associarem livremente para promover o bem público.

Norberto Bobbio. Ele destaca a importância da democratização da sociedade, distinguindo-a da democratização do Estado, e levanta a questão crucial sobre a sobrevivência de um estado democrático em uma sociedade não democrática.

Em suma, o conceito de “democracia como modo de vida” transcende a mera formalidade do regime político, ancorando-se na ideia social de cooperação (Dewey), no desejo humano de convivência dignificada(Maturana) e na prática cotidiana de auto-organização (Franco), retomando o espírito original da experiência ateniense de viver “sem senhor”.

Mas tem mais…

V – Thomas Vernon Smith e a “Democracia como Modo de Vida”

O conceito de “democracia como modo de vida” (“The Democratic Way of Life”) é central para Thomas Vernon Smith, um autor que se destacou como professor, pensador político e também por sua atuação prática na política dos Estados Unidos.

Aqui está a contribuição de T. V. Smith para o desenvolvimento dessa ideia, conforme as fontes.

Definição e Interpretação do Ideal

V. Smith é explicitamente associado à interpretação da democracia como modo de vida. Ele escreveu uma obra intitulada The Democratic Way of Life, que é considerada uma discussão adequada desse ideal.

Para Smith, a democracia, quando vista como um modo de vida, implica uma transformação no desejo e na atitude humana:

Desejo Compartilhado e Treinamento. Smith argumenta que, embora a liberdade seja definida como “fazer o que se agrada”, a esperança de um modo de vida democrático surge do fato de que, por meio de um treinamento adequado, os indivíduos podem desejar cada vez mais compartilhar suas alegrias uns com os outros. Isso sugere que a democracia não é apenas um sistema de regras, mas uma pedagogia e um hábito de convivência.

Compreensão e Ação. Sua obra, escrita em coautoria com Eduard C. Lindeman, é descrita como um “manual prático e inspirador” que explica os ideais da democracia e oferece um programa sólido para o pensamento e a ação democráticos.

A Relação com John Dewey

A importância de T. V. Smith na discussão é reforçada por sua conexão direta com John Dewey, o pensador mais proeminente da democracia como ideia social:

Referência de Dewey: O próprio John Dewey, ao discutir o ideal da democracia como “uma vida de comunhão livre e enriquecedora”, fez uma referência explícita ao trabalho de Smith, citando The Democratic Way of Life como a discussão mais adequada desse ideal que ele conhecia.

Ética das Minorias e da Maioria

Smith também abordou as dinâmicas sociais inerentes a um modo de vida democrático, particularmente as tensões entre grupos:

Reatividade Antidemocrática. Ele advertiu que, quando grupos minoritários expressam hostilidade (inicialmente por subterfúgio e culminando em sabotagem), eles “convidam a si mesmos a uma atitude majoritária que é tão antidemocrática quanto natural”. Isso levanta uma questão crucial sobre como a ética da convivência (o modo de vida) deve ser praticada por todos os grupos, a fim de evitar a escalada de reações autoritárias e não cooperativas.

Thomas Vernon Smith, ao lado de Eduard C. Lindeman, ajudou a solidificar e popularizar a noção de que a democracia é um ideal prático que deve ser vivido e cultivado na sociedade civil, e não apenas um aparato estatal. Seu trabalho contribuiu para traduzir a “ideia de democracia” (tal como Dewey a via, mais ampla do que o Estado) em um programa de ação e atitude social, enfatizando que a liberdade individual se realiza plenamente quando orientada pela cooperação e pelo desejo de compartilhar.

Essa ênfase no comportamento cotidiano e no “treinamento” para a cooperação ressoa profundamente com a visão de que a democracia é um processo de aprendizado e autocondução mútua, realizado nas interações diárias.

Mas não é só. Faltam, entre outros, Althusius e Jefferson.

Vamos agora assinalar um autor que reformulou a própria fundação da política, vendo a associação como seu cerne! A ideia de simbiose de Johannes Althusius pode servir como um fundamento para o conceito de “democracia como modo de vida” (ou para a base da associação em geral).

A contribuição de Althusius, embora seja do início da Era Moderna (1603), ressoa profundamente com os princípios de associação e coexistência que são cruciais para a ideia de democracia como modo de vida.

Vejamos como a ideia de simbiose se articula nas fontes e seu potencial como fundamento.

VI – Johannes Althusius: A Política como Arte Simbiótica

Johannes Althusius, um dos grandes artífices de uma nova maneira de ver a política no início da Idade Moderna, definiu a política de maneira fundamentalmente associativa:

Definição da Política. “A política é a arte por meio da qual os homens se associam com o objetivo de instaurar, cultivar e conservar entre si a vida social. Por este motivo é definida como simbiótica“.

Ponto de Partida. Althusius parte dos “homens” e procede através da “obra dos homens em direção da descrição da comunidade política”.

Contraste com Aristóteles. Este ponto de partida é o oposto exato da visão clássica de Aristóteles, para quem o Estado (Pólis) existe por natureza e é anterior ao indivíduo. A inversão do ponto de partida de Althusius destaca problemas políticos como a liberdade dos cidadãos, o bem-estar e a prosperidade individual, em vez de focar apenas no poder dos governantes.

A Simbiose como Fundamento para a “Democracia como Modo de Vida”

O conceito de simbiose de Althusius, que enfatiza a arte de se associar para sustentar a vida social, serve como um forte fundamento para o conceito de democracia como modo de vida, pois:

Ênfase na Associação Recíproca. O conceito de simbiose implica cooperação e interdependência mútua, essenciais para a “vida social”. Isso ecoa a ideia de cooperação amistosa fundamental para a democracia como modo de vida defendida por outros autores.

Liberdade e Individualismo. A perspectiva de Althusius de que a sociedade política é um “produto voluntário dos indivíduos” que decidem viver em sociedade através de um acordo recíproco está ligada ao nascimento da democracia e à ideia de poder ascendente (o poder que sobe de baixo para cima). A teoria do contrato social, ligada a esses pensadores (mesmo que Althusius não seja contratualista puro), defende o indivíduo como a fonte última do poder, o que é um fundamento para a democracia contra a autocracia.

Oposto à Totalidade Orgânica. A simbiose, ao partir do indivíduo e do acordo, contrasta com as “concepções solidaristas, orgânicas, coletivistas, holísticas, universalistas, da sociedade e do estado” (como as de Hegel, que via o Estado como um corpo orgânico onde o todo vem antes das partes). A democracia como modo de vida valoriza o espaço-entre, a pluralidade e a coexistência de interesses diversos, não uma unidade imposta.

Em suma, a “arte simbiótica” de Althusius coloca a associação voluntária e a interdependência mútua no centro da política. Essa perspectiva, que prioriza a construção da vida social pelos próprios indivíduos, é altamente compatível com a visão de democracia como uma prática cotidiana de convivência (modo de vida) e não apenas como um aparato de governo.

Nota-se uma conexão crucial que, embora anterior à formalização do conceito por Dewey, estabelece a base para a primazia da vida associada na teoria política! 

VII – Thomas Jefferson: As “Repúblicas nos Bairros” e a Democracia como Modo de Vida

Essa é uma conexão extraordinária e profunda! A proposta de Thomas Jefferson das “repúblicas elementares dos distritos” (ou “repúblicas nos bairros”— wards) é vista por John Dewey, e por outros, como o cerne de uma filosofia política que vai muito além das estruturas formais do governo, estabelecendo um vínculo direto com a democracia como modo de vida.

A seguir a relação entre a proposta jeffersoniana e o conceito de democracia como modo de vida, conforme as fontes.

Jefferson e o Conceito de Democracia (na Visão de Dewey)

Para John Dewey, a filosofia política de Jefferson era essencialmente moral, e sua crença na democracia tinha uma qualidade genuinamente religiosa. Jefferson defendia que o homem foi feito para a sociedade e possuía o direito de regulá-la “conjuntamente com todos aqueles que concorreram para a sua obtenção”.

A essência da democracia jeffersoniana não residia apenas nas formas de governo, mas sim no espírito do povo. É nesse contexto que as “repúblicas nos bairros” emergem como o ponto fulcral de sua doutrina política:

O Coração da Filosofia Política. O cerne da filosofia política de Jefferson é encontrado no seu esforço para instituir essas pequenas unidades legislativas e administrativas como a “pedra angular do arco” do governo. Sem este plano, sua visão de autogoverno é considerada incompleta tanto prática quanto teoricamente.

A Proposta das “Repúblicas nos Bairros” (Wards)

Jefferson propôs a divisão dos condados em pequenos distritos (ou wards) para facilitar a democracia de base (grassroots democracy), uma ideia que ele defendia desde 1779.

O objetivo não se limitava à administração de escolas ou estradas, mas sim a tornar os bairros “pequenas repúblicas”.

Funções Diretas. Nos bairros, os cidadãos exerceriam diretamente as funções de governo em relação aos seus próprios assuntos, incluindo polícia, eleições, nomeação de júris e administração da justiça em pequenos casos.

Participação Contínua. Este sistema visava garantir que todo homem partilhasse do governo dos assuntos não apenas no dia da eleição, mas todos os dias. A ausência de tais espaços públicos levava o povo à “letargia, precursora da morte da liberdade pública”.

Conexão Direta com a Democracia como Modo de Vida

A proposta de Jefferson se alinha perfeitamente com a ideia de democracia como modo de vida, que, segundo John Dewey, precisa afetar “todos os modos de associação humana”.

Agente Atuante. Jefferson acreditava que, ao tornar “cada cidadão um membro atuante do governo, e nos escritórios mais próximos e mais interessantes para ele, isso o ligaria pelos seus mais fortes sentimentos à independência do seu país e à sua constituição republicana”. Este envolvimento pessoal, constante e local, é a própria experiência da liberdade.

Preservação do Espírito Revolucionário. O sistema distrital era visto por Jefferson como a única alternativa para preservar o espírito revolucionário após o fim da revolução. A revolução havia dado liberdade ao povo, mas falhara em fornecer um espaço onde essa liberdade pudesse ser exercida, pois apenas os representantes, e não o povo, tinham a oportunidade de se engajar nas atividades próprias da liberdade, como “expressar, discutir e decidir”.

Aparência e Presença. Jefferson compreendia que o conselho de amar o próprio país mais do que a si mesmo seria uma exortação vazia se o “país” não fosse uma presença viva entre os cidadãos. As pequenas repúblicas seriam a “força principal da grande” república, pois eram o único local tangível onde cada um podia ser livre, constituindo a finalidade da grande república.

Em suma, a proposta jeffersoniana das “repúblicas nos bairros” é uma tentativa de institucionalizar a democracia no nível comunitário e cotidiano, transformando o cidadão de um mero eleitor ocasional em um participante ativo e contínuo no autogoverno. Isso corresponde à noção de que a democracia é um projeto comunitário que começa na “comunidade vicinal”.

Isto nos lembra de uma questão crucial levantada por Hannah Arendt ao discutir as propostas de Jefferson: se o sistema distrital tivesse sido implantado, teria evitado que o povo se afundasse na “letargia” e na “indiferença aos assuntos públicos”, males que ameaçam a liberdade quando a esfera pública se restringe apenas aos representantes. A ação local e a cooperação são, para Jefferson, o motor que mantém a república viva.

Quem mais trata, direta ou indiretamente, da democracia como modo de vida?

Vamos para um exercício de garimpo conceitual! A ideia de “democracia como modo de vida” é tão poderosa que, uma vez introduzida por autores como Dewey, Smith e Jefferson, ela revela ecos e fundamentos em pensadores de diversas épocas e escolas, que tratam da associação, da comunidade e da liberdade em termos de prática social.

Considerando os autores já discutidos (Dewey, Smith e Jefferson) e examinando o vasto acervo de fontes, podemos identificar outros pensadores que tratam, direta ou indiretamente, da democracia como um modo de vida, da comunidade cívica, ou da associação como elemento fundante da política e da coexistência.

A seguir algumas menções aos autores relevantes das fontes que, embora talvez não usem a frase exata “modo de vida”, trabalham conceitos que fornecem o arcabouço ou a prática dessa noção.

1. Alexis de Tocqueville (Indiretamente, através da Associação e do Espírito Cívico)

Tocqueville, em sua análise da democracia americana, é visto como um precursor fundamental do conceito de “modo de vida democrático”, especialmente ao focar na sociedade civil e nas práticas sociais cotidianas.

Associação como Prática Democrática. Para Tocqueville, o país mais democrático da Terra é aquele onde os homens mais aperfeiçoaram a arte de perseguir em comum o objeto de seus desejos em comum e aplicaram essa nova ciência ao maior número de objetivos.

A Ciência-Mãe da Associação. Ele sugere que a arte de se associar deve se desenvolver e se aperfeiçoar na mesma proporção que a igualdade de condições cresce, sendo a arte da associação a “ciência-mãe”.

O Âmbito Local e Cotidiano. Tocqueville descreve como os americanos de todas as idades e temperamentos estão sempre formando associações (comerciais, industriais, religiosas, morais, sérias, fúteis, grandes e pequenas), tratando a associação como o único meio de agir. Ele observou o uso cotidiano do direito de associação, onde vizinhos se estabelecem em corpo deliberador para resolver problemas na via pública antes que pensem em uma autoridade preexistente.

Vínculo Social. Tocqueville percebe que, nas democracias, os cidadãos só podem se ajudar livremente, ou cairão na impotência, e a democracia liga as pessoas pela comunhão de lembranças e pela livre simpatia das opiniões e dos gostos.

Visão Pós-Tocqueville. Robert Putnam, ao discutir o conceito de Capital Social e Comunidade Cívica, retoma Tocqueville como referência clássica da democracia americana, caracterizando a comunidade cívica pela participação de cidadãos atuantes e por uma estrutura social firmada na confiança e colaboração, ou seja, um modo de convivência social.

2. Baruch de Spinoza (Indiretamente, através da Liberdade como Finalidade do Estado)

Embora Spinoza não trate de “modo de vida” no sentido de engajamento social cotidiano como Dewey, sua definição do propósito do Estado democrático fornece o princípio fundamental para a liberdade individual que é o cerne do modo de vida:

Liberdade como Fim do Estado. Spinoza apresenta a democracia como uma forma de realização da própria natureza humana, visto que as instituições políticas aparecem nela como realização objetiva da liberdade que está inscrita na essência de cada indivíduo: “o fim do Estado é, realmente, a liberdade”.

Fundamento da Democracia. O fundamento e finalidade da democracia, para Spinoza, é evitar os absurdos do instinto e conter os homens nos limites da razão, para que vivam em concórdia e paz.

3. Hannah Arendt (Diretamente, através da Pluralidade, Ação e Comunidade Política)

Hannah Arendt é uma das pensadoras contemporâneas que mais resgatou a dimensão da política como uma experiência de vida para além do Estado:

A Matéria da Política. Arendt é creditada por ter percebido a dimensão original do “gene” democrático, que é a liberdade. A única matéria propriamente política é a liberdade.

Ação e Liberdade. Arendt sugere que se as pessoas passarem a viver a sua convivência, “um outro tipo de vida surgirá” — a vida propriamente política, que é a fruição de viver prazerosamente a coisa pública. Ela observou que a política, diferentemente da força, opera sob o signo do poder.

Pluralidade e Convivência. Para Arendt, a pluralidade dos homensé o pressuposto de todo teorizar sobre política. A democracia, ou a política em seu sentido forte, é vista como “a whole way of life” (um modo de vida integral), um conceito que Montesquieu já entendia como a estrutura na qual certos princípios de ação são promulgados.

A Visão Comunal (Pólis). A comunidade política (a koinonia, e não a cidade-Estado) é o local onde os homens interagem e podem exercer a liberdade. A política não é uma forma de dominação/Estado, mas “muito mais” um “a whole way of life”.

4. Norberto Bobbio (Indiretamente, através da Democracia Social e o Pluralismo)

Bobbio, ao analisar as transformações e o futuro da democracia, toca indiretamente no modo de vida ao distinguir a extensão da democracia para além do aparato estatal:

Democratização Social. Bobbio afirma que a extensão do processo de democratização deveria se revelar não na passagem da democracia representativa para a democracia direta, mas na passagem da democracia política para a democracia social. O crucial é saber se aumentaram os espaços nos quais os indivíduos podem exercer o direito de participar das decisões que lhes dizem respeito.

Pluralismo e Sociedade. O fato de a sociedade ser policêntrica ou poliárquica e pluralista exige que a democracia dos modernos faça as contas com o pluralismo, diferentemente do que ocorria na democracia dos antigos. A democracia é um sistema político que pressupõe o dissenso, a competição e a concorrência, necessitando de consenso apenas sobre as regras da competição.

5. Robert Dahl (Indiretamente, através do Associacionismo e Competência Cívica)

Robert Dahl aborda o tema de forma instrumental, focando na necessidade de instituições sociais para a democracia funcionar em grande escala.

Associações Independentes. Dahl defende que, em uma grande república, associações independentes (grupos de interesse, partidos) se tornam necessárias e desejáveis, sendo uma fonte de educação e esclarecimento cívico ao proporcionar informações e oportunidades para discutir, deliberar e adquirir habilidades políticas.

Requisitos para a Democracia em Grande Escala. Ele lista as associações independentes como uma das instituições políticas essenciais para a moderna democracia representativa.

6. Robert Putnam (Diretamente, através do Capital Social e Comunidade Cívica)

Putnam, apoiando-se em Tocqueville, utiliza o conceito de Comunidade Cívica para explicar o desempenho institucional, uma ideia que se encaixa na perfeição com o “modo de vida”:

Comunidade Cívica como Modo de Vida. A comunidade cívica, uma prática sociocultural, se caracteriza por cidadãos atuantes e imbuídos de espírito público, por relações políticas igualitárias, por uma estrutura social firmada na confiança e na colaboração.

Capital Social e Cooperação. Putnam define o capital social como características da organização social (confiança, normas, sistemas) que facilitam as ações coordenadas, sendo os sistemas horizontais de participação cívica uma forma essencial de capital social que estimula a cooperação e a confiança social.

Função das Associações. A participação em associações incute nos membros hábitos de cooperação, solidariedade e espírito público, desenvolvendo o senso de responsabilidade comum para com os empreendimentos coletivos, mesmo que o objetivo da associação seja apolítico (como um clube de ornitófilos).

7. Amartya Sen (Indiretamente, através do Papel Construtivo da Liberdade)

Sen relaciona a liberdade e a participação à própria definição de desenvolvimento, o que implica um modo de vida ativo e participativo:

Liberdade Constitutiva do Desenvolvimento. Sen argumenta que a participação e a dissensão política são partes constitutivas do próprio desenvolvimento. Negar a liberdade de participação é uma privação que o desenvolvimento, como liberdade, deve eliminar.

Discussão Pública. A discussão pública e a participação social são centrais para a elaboração de políticas em uma estrutura democrática, sendo o exercício das liberdades políticas e dos direitos civis uma parte crucial da elaboração de políticas.

8. Jacques Rancière (Diretamente, através do Escândalo da Indistinção)

Rancière aborda a democracia não como uma forma de governo, mas como a revelação do princípio de igualdade que rompe a ordem social hierárquica (Polícia), sendo, em essência, o poder dos “sem título”:

Democracia além do Estado. Para Rancière, a democracia não é um tipo de constituição nem uma forma de sociedade, mas o poder próprio daqueles que não têm mais título para governar do que para ser governados.

O Escândalo Democrático. O escândalo da democracia é revelar que o título para o poder político só pode ser a ausência de título. A democracia é a força fundadora da heterotopia, a limitação primeira do poder das formas de autoridade que regem o corpo social.

Resumo de alguns autores já mencionados (com a inclusão de outros que exigem mais exploração)

Autor(a)Conceito-Chave Ligado ao “Modo de Vida”Relação com a Prática Social
TocquevilleArte de se Associar/Comunidade CívicaÊnfase na associação voluntária e contínua como a essência da liberdade e do autogoverno social.
SpinozaLiberdade Objetiva/ConcórdiaFundamento ético que torna possível a coexistência em paz e concórdia, base para a realização da liberdade individual.
H. ArendtAção/Pluralidade/A Whole Way of LifeO sentido da política é a liberdade, que surge no “entre” os homens, na vida em comunidade (Pólis/Koinonia) e não no Estado.
N. BobbioDemocracia Social/PluralismoExpansão da democracia para além do Estado (onde se vota?), englobando centros de poder autocráticos na sociedade (empresa, burocracia).
R. DahlAssociações Independentes/Competência CívicaAssociações são essenciais para a educação cívica, o esclarecimento e a participação efetiva em grandes repúblicas.
R. PutnamCapital Social/Comunidade CívicaA eficácia democrática depende de um “estoque” social de confiança e cooperação, corporificado em sistemas horizontais de participação cívica.
A. SenLiberdade Constitutiva/Discussão PúblicaA participação política e a dissensão não são apenas meios, mas partes intrínsecas e avaliatórias do processo de desenvolvimento humano.
J. RancièrePoder dos sem Título/Ausência de HierarquiaA democracia é a revelação da igualdade fundamental que subverte a ordem natural de autoridade (polícia), sendo um poder da indistinção que desconstitui autocracia.

Esses autores, de diferentes ângulos — seja pela primazia da associação(Tocqueville, Putnam), o fundamento da liberdade (Spinoza, Sen), a prática da convivência plural (Arendt, Rancière) ou a extensão do espaço democrático (Bobbio) — demonstram que a visão da democracia como modo de vida é uma linha de pensamento que atravessa toda a teoria política, ligando a eficácia do governo à saúde da sociedade civil.

Golpe de Estado

A esquerda populista (de raiz classista ou identitarista) não tem medo de um golpe de Estado. Ela tem medo do voto! Do voto de quem não vota na esquerda. Por isso ela denuncia golpe de Estado onde não há golpe de Estado. 

Vejamos. Segundo os populistas de esquerda, a condenação e prisão dos principais dirigentes do PT pelo mensalão e pelo petrolão foi um golpe de Estado. O impeachment de Dilma foi um golpe de Estado. A condenação e prisão de Lula foi um golpe de Estado. A eleição de Bolsonaro foi um golpe de Estado. Tudo falso. Nada disso foi golpe de Estado. 

Claro que, depois, uma parcela da direita populista (bolsonarista) quis mesmo dar um golpe de Estado (à moda antiga): articulou e intentou fazer isso, embora não tenha conseguido consumar sua intenção por falta de capacidade de organização, de estratégia e, fundamentalmente, de força político-militar para tanto. Condenados por tentativa de golpe de Estado, os principais líderes, civis e militares, da intentona, estão sendo presos. 

Mas o fato de parte dos antigos eleitores de Bolsonaro continuarem não querendo votar na esquerda, não é golpe de Estado. 

Frustrada a tentativa de golpe do final de 2022, não há mais golpe nenhum sendo tramado no Brasil por esses desastrados atores. Nem da parte de outros atores. Não há condições objetivas e subjetivas para um golpe de Estado (sobretudo à moda antiga, com intervenção militar). 

Mas o PT insistirá em dizer que quem não votar em Lula (no primeiro turno de 2026) ou mesmo quem se apresentar como candidato nas próximas eleições desafiando o quarto mandato de Lula e o sexto do PT (seja bolsonarista, quer dizer, súdito fiel da famiglia Bolsonaro – ou não) é um fascista golpista, disfarçado ou camuflado. É a tese do golpe continuado. Ou seja, o PT manteve sua narrativa anterior e continua dizendo que tudo que contraria seu projeto de poder é golpe de Estado.

O mapa do caminho

Descobrimos então que a COP 30 era muito mais importante para a esquerda populista (de raiz classista ou identitarista) do que imaginamos. Eles jogaram tudo para fazer da COP 30 um tipping point

Para o governo Lula foi um ato de campanha, pleno de marquetagens: “a maior COP do mundo”, “a COP do povo liderada por Lula” – o guia genial, o grande timoneiro. Basta ver que o último discurso de Lula na COP 30 foi tipicamente eleitoral. Uma fala populista num palanque para dentro. O tal “mapa do caminho” mesmo só teremos… nas próximas COPs. Compromissos com metas necessárias e críveis ocorrerão… nas próximas COPs. Para Lula, o mais importante vem antes: nas urnas de 2026.

Para a esquerda, órfã das grandes narrativas totalizantes do século 20, era para ser uma espécie de “enchente amazônica”, uma “explosão atlântica” onde os excluídos, os condenados da Terra, os povos originários e todas as minorias acordaram (woke) para dizer ao mundo dos ricos que não aceitam mais a situação de injustiça instalada. O climático serviu como um gancho perfeito para o social. Injustiça climática. Exclusão climática. Racismo climático. A discriminação climática é estrutural.

Uma revivescência da luta de classes e da luta contra a discriminação. O início de uma verdadeira revolução social. Uma sublevação do Sul Global. A esquerda agora não só lidera, mas se apropria da causa climática… contra a direita. 

Foi aí que apareceu a proposta do Mapa do Caminho para redução das emissões de CO2, lavando a contradição do Brasil querer liderar essa caminhada mantendo a exploração dos combustíveis fósseis. Porque no futuro, ah!, no futuro, não será mais assim. Vamos para o reino da liberdade e da abundância: mas amanhã, não hoje. Sim, vamos extinguir o Estado: mas amanhã, não hoje. Hoje, nós, os socialistas, fortalecemos o Estado para enfraquecê-lo. Mas hoje só amanhã.

(Se você não quiser deixar de fazer alguma coisa julgada reprovável, proponha um “mapa do caminho” para deixar de fazer essa coisa no futuro. Com esse truque você obtém uma licença para continuar fazendo o que não deve. É como uma ditadura prometendo um reino da liberdade amanhã). 

O Mapa do Caminho era um mapa para a reeleição de Lula e para o renascimento da esquerda como portadora da salvação universal.

Os países do eixo autocrático e os EUA trumpista, porém, não toparam essa parada. E o mapa ficou sem caminho; ou o caminho ficou sem mapa. A proposta de um plano de ação com etapas e metas para acabar com o uso de petróleo, gás natural e carvão mineral não avançou. China, Índia, Arábia Saudita e Nigéria não aceitam – pelo menos até agora – nenhum texto sobre o tema. E se aceitarem não irão realizar suas prescrições. Sem falar dos EUA, é claro. E da Rússia.

O ambientalismo, parasitado pelos órfãos das narrativas totalizantes do século 20, está alimentando o surgimento de uma militância proto-fundamentalista que passou a assombrar a humanidade com o apocalipse do aquecimento global. Não é que o aquecimento global não seja uma ameaça real. É que tratar isso na base do medo, crucificando como negacionistas climáticos os que não são fiéis do novo credo, instalará uma nova cruzada do bem contra o mal cujos resultados serão nocivos à liberdade. 

Entenda-se bem. O problema existe. E não há como resolvê-lo com uma grande vassourada. Como escreveu Quico Toro, o processo COP não funciona porque “imagina as emissões [de CO₂] como algo que o governo de um país pode definir, como o botão de um termostato” (1). Não há como resolver o problema derrotando os negacionistas climáticos e, para tanto, incentivando uma nova polarização em que os militantes ambientalistas vão abrir uma guerra contra os negacionistas climáticos. 

Se a chamada esquerda, que sempre se acha do lado do bem, abrir esse tipo de guerra contra a chamada direita negacionista, sempre avaliada, pela esquerda, como estando do lado do mal, isso não contribuirá em nada para resolver o problema. 

Não é uma guerra universal que precise ser vencida, com a derrota definitiva dos inimigos incréus para nos salvar do apocalipse. É preciso ver o que se pode fazer agora, a começar pelos nossos atos singulares e precários em todos os âmbitos, das pessoas e comunidades, dos pesquisadores e empreendedores inovadores, das empresas e dos governos dos municípios, regiões e países e das organizações internacionais.


Nota

(1) Como escreveu Quico Toro, em Persuasion (13/11/2025), o processo COP não funciona “porque se baseia em um modelo errado sobre o que determina o nível de emissões de gases de efeito estufa de um país. A COP imagina essas emissões como algo que o governo de um país pode definir, como o botão de um termostato. Mas as emissões são mais parecidas com o PIB: o resultado de um processo complexo que os políticos gostariam de controlar, mas que na realidade não controlam. Assim como o PIB, as emissões climáticas são o resultado cumulativo de bilhões de decisões tomadas por bilhões de atores — negociadores climáticos, empresas de serviços públicos, operadores de redes elétricas, reguladores, políticos, burocratas, banqueiros, investidores, empresas e famílias — cada um dos quais precisa ponderar uma série de compensações. Essas compensações incluem a qualidade do ar e as emissões de carbono, sim, mas também a acessibilidade, a confiabilidade, a soberania, a disponibilidade de recursos naturais e o nível de prontidão tecnológica. Nos países desenvolvidos, o resultado combinado dessas decisões tem sido uma queda gradual das emissões nas últimas duas décadas. Desde o pico em 2007, as emissões de CO₂ dos países desenvolvidos caíram de 15,7 gigatoneladas para 12,9 gigatoneladas em 2023. (Uma gigatonelada equivale a um bilhão de toneladas.) Também em 2023, pela primeira vez, a China emitiu mais dióxido de carbono do que todos os países desenvolvidos juntos. Entre 1970 e 2023, as emissões chinesas cresceram de 7,6 gigatoneladas por ano para 13,3 gigatoneladas por ano, e as emissões do restante do mundo em desenvolvimento aumentaram de 7,9 para 11,7 gigatoneladas. Para cada molécula de CO₂ que os países ricos reduziram suas emissões desde 2007, os países em desenvolvimento emitiram três a mais”.

Os democratas podem votar na chamada ‘direita’?

É muito difícil tirar um partido hegemonista do governo, sobretudo quando liderado por um parasita populista com alta gravitatem, pelos processos eleitorais normais num contexto em que o concorrente incumbente tem a simpatia da maioria dos jornalistas (comentaristas e analistas) políticos, dos pesquisadores de institutos de pesquisa de opinião e de agências de checagem, de uma rede suja de sites e influencers nas mídias sociais, dos artistas e famosos em geral, da maioria dos acadêmicos (sobretudo das áreas de humanas das universidades federais), dos sindicatos, centrais e associações profissionais, dos movimentos sociais e de boa parte das ONGs e, ainda por cima, conta com uma TV do maior grupo de comunicação do país para reverberar tudo isso diariamente. Sobretudo se o incumbente contar também com a simpatia da maioria da suprema corte, de vários tribunais superiores e de grupos influentes de juristas alinhados.

Nestas circunstâncias até entende-se a atratividade de uma alternativa antissistêmica, revolucionária (ainda que para trás, ou seja, reacionária). Há uma crença difusa de que a situação só muda com um curto-circuito no sistema, ainda que isso possa acelerar uma transição autocratizante do nosso regime político ou mesmo abrir a possibilidade de um golpe de Estado (embora hoje essa possibilidade esteja afastada no Brasil).

Em outras palavras, o hegemonismo é tão sufocante que grande parcela da população – em sua maioria não convertida à democracia – prefere qualquer coisa à manutenção do status quo, no limite até a abolição da democracia. Essa é a razão pela qual um populismo dito de direita (bolsonarista) chegou ao governo depois de vários mandatos consecutivos da esquerda populista (lulopetista). Como tal revolução não houve, a hegemonia conquistada de 2003 a 2016 não foi substituída por outra, o sistema continuou rodando nos mesmos parâmetros e o lulopetismo voltou ao governo em 2023. E a via antissistema perdeu todas as suas chances de ressurgir entre nós num horizonte divisável.

Sem a via antissistêmica, dita de extrema-direita, o que chamam de direita é apenas um componente normal de qualquer regime democrático. Em princípio entende-se que direita é tudo que não é esquerda. Todavia, opor direita, como se fosse “o mal”, ao governismo, tido por “o bem” porque seria de esquerda, é uma fraude.

Até os mais lúcidos jornalistas políticos tratam quem não é governista como sendo ‘de direita’. Mas que conversa é essa de ser ‘de direita’? A maioria da nossa população – que não é governista – nada tem a ver com ‘direita’. Isso tem um nome: hegemonia. Muitas vezes sem ter consciência disso nosso jornalismo se habituou a pensar sob comando. Comando de quem? Ora, dos populistas que se dizem esquerda e que estão no governo e dos populistas que, remedando os primeiros com o sinal trocado, querem se dizer de direita e estão na oposição.

O ardil é especialmente maligno quando urdido e aplicado pelo populismo lulopetista. Basta não ser governista para ser qualificado como direita. E já vai embutida a ideia de que direita, no Brasil, é a extrema-direita bolsonarista. Repetindo e acrescentando: a maioria da população brasileira, além de não ser governista, não é de direita, nem bolsonarista. Afirmar o contrário é a fraude política de que estamos tratando neste artigo.

Um editorial da Folha de São Paulo de ontem (15/11/2025), comentando as recentes pesquisas de opinião (em especial a da Quaest) diz o seguinte:

O quadro geral que determinou o resultado apertadíssimo das eleições de 2022 não dá mostras de ter-se diluído. Parcela francamente majoritária dos 50,9% que votaram em Lula naquele segundo turno continua a apoiá-lo como presidente. Já os que o rejeitam correspondem quase matematicamente aos 49,1% que votaram em Jair Bolsonaro (PL). Um segmento de eleitores independentes — que ora oscila para um lado, ora para o outro — tem causado as idas e vindas na aprovação do petista desde a posse, em janeiro de 2023. A movimentação pendular prediz que essa fatia no centro do espectro ideológico vai decidir a sucessão presidencial em outubro de 2026.

Na luta para capturar os 10% (há quem diga que são apenas 3%) que vão decidir a eleição de 2026, a direita é pintada como tendo sido devorada, digerida e dejetada pela extrema-direita. O cadáver insepulto de Bolsonaro continuará, para tanto, sendo agitado como um espantalho. De modo que não reste alternativa, a qualquer pessoa de bom senso, senão rejeitar a direita. Por quê? Porque ela não passa de uma fantasia usada pela extrema-direita para voltar ao governo e tentar novamente seu plano de dar um golpe de Estado na nossa democracia, desta feita com a ajuda do imperalismo norte-americano returbinado por Donald Trump. A extrema-direita realmente existente, quer dizer, os reacionários antissistema que são, na verdade, os agentes da camorra bolsonarista, dão credibilidade a essa farsa assumindo-se como os únicos verdadeiros antipetistas (porque são anticomunistas). Para vencer os comunistas qualquer ajuda será válida, inclusive do governo dos Estados Unidos, mesmo violando a nossa soberania nacional.

Os opostos jogam juntos na criação desse ambiente deletério para a democracia. Superar essa constelação aziaga de fatores exige, entretanto, começar esquecendo as ideologias. Não importa se as forças políticas principais se dizem progressistas (uma sopa de socialistas e liberais que acham que devem ser posicionar mais à esquerda) ou conservadoras (em boa parte reacionárias travestidas de conservadoras que querem se dizer de direita).

E devemos esquecer também o esquema classificatório ultrapassado que divide as forças políticas em esquerda e direita. Do ponto de vista propriamente político existem governo e oposição. O governo é populista. Parte da oposição (a parte bolsonarista) também é populista. Os democratas, no sentido pleno ou liberal do termo, não são populistas. Esses últimos, embora minoritários, são o que há de oposição democrática no Brasil. Serão eles suficientes para apresentar uma alternativa não populista para 2026? Não parece ser o mais provável, ainda que possa acontecer.

Já está passando da hora de pré-candidatos que não são populistas (nem lulopetistas, nem bolsonaristas) e não apoiam ditaduras apresentarem à sociedade brasileira um programa coerente capaz de situá-los no centro de gravidade da política democrática. Mas embora o programa deva vir antes do nome, não adiantará mais, nesta altura do campeonato, um programa sem um nome. E também não adiantará um programa e um nome sem um movimento. Eduardo Leite poderia ser esse nome, mas – além de estar dependendo da conveniência política do chefe do seu partido, o PSD – parece ter medo de queimar a largada e virar vidraça antes do tempo se se lançar num franco movimento por uma via democrática para o Brasil. Há incerteza sobre se um movimento desse tipo não seria taxado, inclusive pela imprensa, como ‘de direita’, dificultando a adesão de eleitores moderados de centro.

O truque, reconheçamos, funcionou perfeitamente até agora. O medo da acusação de ser ‘de direita’ (e, na visão dos acusadores, antidemocrático) é tão grande que, por incrível que pareça, até uma parcela de liberais que querem ser esquerda (justamente para não ficarem com a pecha de ser ‘de direita’), trabalham objetivamente contra essa via democrática. Só há explicação se partirmos de uma hipótese abstrusa: parece que existem pessoas cujo córtex frontal é liberal, mas o cérebro límbico é de esquerda populista (ou seja, iliberal). É esse tipo de gente que, na reta final de 2026, acabará recomendando o voto em Lula como o menos pior. E atenção! A reta final pode não ser o segundo turno, de vez que o governo e o PT vão jogar tudo para reeleger Lula no primeiro turno.

É claro que há uma malandragem jornalística em curso para captar a simpatia dos 3 aos 10% de votos moderados de centro, que podem decidir a eleição. Na reta final os malandros dirão que, infelizmente, não apareceu ninguém que valha a pena e então recomendarão o voto em Lula como o menos pior. E já que é o menos pior, por que não elegê-lo logo no primeiro turno afastando o risco do governo cair nas mãos de um aventureiro reacionário ou de um fisiológico ou corrupto do “centrão”?

Assim, temos de passar a observar de perto não os que hoje defendem a reeleição de Lula ou a eleição de um oposicionista. Mas os que estão cativando a simpatia desses 3 a 10% de votos ditos centristas, projetando um caminho para, amanhã, recomendar o voto em Lula como o menos pior para a democracia.

Ao fazerem isso, porém, esses trânsfugas do liberalismo estarão não apenas eliminando a possibilidade de uma via democrática para 2026 (se houver um candidato não populista viável), mas inclusive para 2030 e, quiçá, além. Descartada a via antissistema, dita de extrema-direita, nos curto e médio prazos, o hegemonismo petista continuará aparelhando as instituições e colonizando as consciências durante o quarto mandato de Lula e o sexto do PT neste século. E, dependendo do que vier a acontecer nos próximos cinco anos, 2030 pode ser ainda mais difícil para uma via democrática do que 2026. Não se deve duvidar disso. Estamos sob uma terceira onda de autocratização e em plena recessão democrática desde o início deste século. É mais ou menos como a antessala de uma idade das trevas, semelhante àquela que vivemos nos anos 20-30 do século 20.

Há pouco mais de um ano (em 04/11/2024) publiquei um artigo intitulado Centro democrático? Sim, em 2030. O artigo terminava assim:

Claro que 2030 passa por 2026. E que se deve fazer o possível em 2026. Desde que a comichão de jogar todas as fichas na loteria do calculismo eleitoreiro de curto prazo não nos desvie das tarefas estratégicas cujo horizonte, queiramos ou não, salvo um acontecimento extraordinário, já vai se deslocando para 2030. Não somos idiotas. Não se trata de abrir mão de 2026 e sim de começar hoje, no final de 2024, a construir as condições para uma vitória futura, que não cairá do céu…

Porém um ano se passou e fizemos muito pouco nesse sentido. Se não houver um fato extraordinário, o tempo hábil é muito curto para estruturar, fermentar e fazer crescer um movimento democrático-liberal capaz de suplantar os dois populismos que estão alimentando uma polarização tóxica no Brasil.

Nestas circustâncias, qualquer candidato que não se alinhe ao eixo autocrático, seja pela esquerda (Rússia, Bielorrússia, China, Vietnam, Laos, Coreia do Norte, Irã e seus braços terroristas, Angola, Cuba, Venezuela, Nicarágua etc.), seja pela direita (Rússia novamente, Índia, Turquia, Hungria, Eslováquia, El Salvador, EUA-MAGA etc.) – e que não seja populista – é melhor do que Lula ou um lulopetista e do que um bolsonarista-raiz (ou seja, um súdito fiel da famiglia Bolsonaro).

Sim, a política externa passou a ser um tema de campanha na medida em que Lula e o PT tomaram e acentuaram, neste quinto mandato petista, posições francamente antidemocráticas e favoráveis à ditaduras de esquerda, como demonstra a folha corrida do PT desde o seu surgimento (e como elencou o Heni Ozi Cukier neste vídeo) e o bolsonarismo também o fez, ao não apoiar a resistência ucraniana à invasão do ditador Putin, da Rússia, ao apoiar o governo Netanyahu, de Israel, que abriga supremacistas judaicos, ao elogiar e pedir ajuda ao ditador Orbán da Hungria, ao tentar colocar o autocrata Nayib Bukele, de El Salvador, como modelo de combate ao crime, ao apoiar o populista Milei, da Argentina, adepto da servidão voluntária a Trump – tudo culminando com os pedidos para que o presidente dos EUA pressionasse os poderes da república brasileira para reverter a ilegibilidade e a condenação de Bolsonaro ou livrasse da prisão ele e algum (ou alguns) dos seus filhos (o que deu e continua dando muito errado, como estamos vendo).

De sorte que não há como tirar a política externa da campanha, a menos que o TSE e o STF – neste caso para favorecer Lula, o mais vulnerável pela sua aproximação crescente com ditaduras amigas – decidam proibir que os candidatos abordem o tema. Sim, absurdo, mas é possível no Brasil dos dias que correm.

Frisando esse ponto. Não havendo um candidato democrata-liberal viável, qualquer candidato não-alinhado ao eixo autocrático e não-populista (não lulopetista e não bolsonarista) será uma alternativa. Não precisa ser um social-democrata ou alguém dito de centro-esquerda. Qualquer político moderado de centro, ou até considerado do “centrão” – e dito ‘de direita’ – que jogue dentro das regras da democracia representativa, seria melhor do que a reeleição de Lula ou a eleição de um bolsonarista-raiz (quer dizer, nunca é demais repetir a definição: um súdito fiel da famiglia Bolsonaro).

Por todas as razões apresentadas, os democratas:

1 – Não devem votar na continuidade do atual governo (que se diz e é dito de esquerda – mas não por ser de esquerda e sim porque Lula e o PT são populistas e hegemonistas, além de estarem alinhando o Brasil ao eixo autocrático contra as democracias liberais).

2 – E não podem votar em ninguém considerado de extrema-direita (ou seja, num candidato reacionário antissistema) – por razões tão óbvias a esta altura que seria ocioso enumerar.

3 – Preferencialmente devem votar em um candidato democrata liberal (se houver algum viável). Mesmo que a campanha do PT diga que esse candidato é ‘de direita’ (querendo com isso dizer que ele é um bolsonarista de extrema-direita ou um golpista e fascista disfarçado).

4 – Na ausência dessa alternativa devem votar em algum democrata considerado de centro (que for viável). Idem; ou seja, mesmo que a campanha do PT diga que esse candidato é ‘de direita’ (querendo com isso dizer que ele é um bolsonarista de extrema-direita ou um golpista e fascista disfarçado).

5 – Se não houver um democrata de centro, devem votar num candidato rotulado (pela esquerda) como sendo moderado ‘de direita’. Idem-idem; quer dizer, mesmo que a campanha do PT diga que esse candidato não é ‘de direita’ e sim de extrema-direita, golpista e fascista.

Qual o problema?

As duas únicas democracias liberais da América do Sul – o Chile e o Uruguai – passaram por isso.

O caso do Chile. Aylwin é substituído por Frei, que é substituído por Lagos, que é substituído por Bachelet, que é substituída por Piñera, que é substituído novamente por Bachelet, que é substituída novamente por Piñera, que é substituído por Boric (dito ‘de esquerda’). E o mundo não acabou (pelo menos até às arriscadíssimas eleições de ontem). O Chile continuou sendo uma democracia liberal – coisa que nunca fomos no Brasil (1).

O caso do Uruguai. Sanguinetti é substituído por Lacalle, que é substituído por Sanguinetti novamente, que é substituído por Batlle, que é substituído por Vázquez, que é substituído por Mujica, que é substituído novamente por Vazquez, que é substituído por Lacalle Pou (dito ‘de direita’). E o mundo não acabou. O Uruguai continuou sendo uma democracia liberal – coisa que nunca fomos no Brasil.

Pelo exposto fica claro que os democratas podem, sim, votar num candidato que seja dito ou até que se diga ‘de direita’ – embora isso seja uma besteira. A esquerda inventou a esquerda e, pelo mesmo movimento, a direita. Mas vá-se lá dizer-lhes!

Nota

(1) Boric não conseguiu montar uma coalizão democrática expressiva. Já se sabia que sua candidata não venceria no primeiro turno e perderia para todos os concorrentes no segundo turno. O diabo é que o Chile, uma das poucas democracias liberais da América Latina (juntamente com Costa Rica e Uruguai), vai entrar em risco de decair para democracia apenas eleitoral no curto prazo e no médio prazo as consequências podem ser piores. O importante era que o Chile continuasse sendo uma democracia liberal, não que continuasse sendo governado pela esquerda. O Uruguai foi governado por Pou, que não era de esquerda, e continuou sendo uma democracia liberal. A coalizão governista no Chile perdeu ontem (16/11/2025) a Câmara e o Senado. E, não ocorrendo um milagre, perderá também a presidência. Essa besteira de querer ser ‘de esquerda’ levou à escolha de uma candidata do partido comunista (que não consegue nem dizer que Cuba é uma ditadura).

Facção criminosa e organização terrorista

Eu assisti, ninguém me contou. No decorrer da invasão das sedes dos três poderes em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023, o apresentador da Globo News chamou repetidamente os vândalos de terroristas. Depois a emissora corrigiu essa abordagem (sem dizer que corrigiu, nem porque corrigiu). Os invasores tinham intenções golpistas (chamar uma intervenção militar para interromper o mandato do presidente recém-eleito e já empossado, Lula da Silva), mas eles eram terroristas?

Jair Bolsonaro (já eleito e ainda não empossado) declarou no final de 2018 na avenida Paulista: “Bandidos do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], bandidos do MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem Teto], as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Ou vocês se enquadram e se submetem às leis ou vão fazer companhia ao cachaceiro lá em Curitiba [Lula]”. Os militantes do MST (de Stédile) e do MTST (de Boulos) são terroristas?

Putin acaba de fazer aprovar nestes dias, pelo parlamento fantoche da ditadura russa, um tratado de parceria estratégica com o ditador Maduro para, entre outras coisas, combater o… terrorismo. Ele, Putin, há sete anos, já havia chamado os opositores de Maduro (Maria Corina incluída) de terroristas e continua qualificando seus próprios opositores na Rússia como terroristas. O mesmo faz o ditador Erdogan na Turquia. Estão vendo como esse assunto é delicado?

O terrorismo é caracterizado por seu propósito e pelos seus métodos. O propósito do terrorismo é instalar, infundir ou difundir, o terror em populações, atingindo inocentes, com objetivos políticos. Os métodos do terrorismo são as ações violentas que atentam contra a vida, restringem brutalmente a liberdade ou impõem sofrimentos aos semelhantes, mas também visam causar perdas materiais e desorganizar a economia.

A ONU discute sem sucesso, desde 2004, um acordo para chegar a uma definição política de terrorismo. Um texto antigo em debate, de 1996, já caracterizava terrorismo como “o ato intencional e ilegal que provoca mortes, ferimentos e danos à propriedade pública ou privada, com o objetivo também de causar perdas econômicas, intimidação da população e de forçar um governo ou uma organização internacional a tomar ou se abster de uma decisão”.

Mas praticar atos que infundem o terror nem sempre é suficiente para caracterizar uma organização como terrorista. Por exemplo, em guerra mudam-se os critérios. No caso da guerra de secessão americana (1861-1865), quem era terrorista: os confederados ou os yankees? A pergunta procede porque ambos praticaram atentados contra a vida e contra propriedades com objetivo político de infundir o terror em populações indefesas (arrasando comunidades de não-combatentes, queimando plantações, abatendo o gado), mas aí não era terrorismo. Quer dizer que a guerra absolve o terrorismo?

La Résistance, a resistência francesa à ocupação hitlerista, era terrorista? Era uma organização armada, não-regular, não-legal, que praticava atos violentos (matava, sequestrava, mutilava seres humanos, sabotava, explodia bombas etc.) com efeitos claramente propagandísticos: visando atemorizar a população civil para dissuadi-la de colaborar com o nazismo. E aí? Aí vale porque os invasores eram estrangeiros? Quer dizer que o que define terrorismo não é a natureza das ações praticadas e sim os motivos pelos quais foram praticadas? Quer dizer que se ações tipicamente terroristas forem praticadas em defesa da pátria ou da nação – e da soberania nacional – está valendo? Que ética é capaz de resistir a tais critérios?

Além disso, todos os governos autoritários classificam seus opositores mais incômodos como terroristas e, para tornar juridicamente válida essa classificação, tentam criar novas leis (ou modificar leis já existentes) para tipificar como terroristas as ações ofensivas dos que se lhe opõem.

O assunto é espinhoso e exige que nos concentremos no básico. E o básico é o seguinte:

Organizações terroristas sempre têm uma causa político-religiosa (incluídas aí as religiões laicas, como certas ideologias revolucionárias). Na verdade o terrorismo é, a rigor, uma via antipolítica para alcançar algum objetivo não-mercantil (ou extra-mercantil).

Facções criminosas não são organizações terroristas. Elas não têm causa nenhuma. Não se vê “soldados” do narcotráfico (ou “trabalhadores do narcotráfico”, segundo Gustavo Petro) sacrificando suas vidas para atingir um objetivo. Por exemplo, se imolando em praça pública ou detonando um colete de explosivos no meio de uma multidão para matar o maior número de pessoas. Não se vê nem mesmo um “lobo solitário” do narcotráfico esfaqueando uma pessoa na rua em nome da sua causa de libertação (como faziam os zelotas na antiga Palestina ocupada pelos romanos) ou em nome da instauração de um califado universal (como os jihadistas do Estado Islâmico ou da Al Qaeda).

Facções criminosas, ditas do narcotráfico, como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, são organizações com objetivos de lucro. São empresas bandidas. Ou seja, seu comportamento não é presidido por uma racionalidade extra-mercantil. Pode-se dizer que são um novo tipo de organização criminosa para o enfrentamento do qual as forças de segurança não estão preparadas.

A rigor as facções criminosas, em especial o PCC, não são mais nem organizações dedicadas ao tráfico de drogas como seu negócio principal. São uma espécie de máfia (amoral, mas sem familismo), de base prisional (parte de seus principais comandantes estão protegidos dos seus concorrentes nas prisões, sob custódia do Estado), que lucram com a venda e a cobrança ilegal de serviços, a imposição de taxas sobre negócios privados e a extorsão da população capturada em seus territórios.

Segundo artigo de Arthur Trindade, publicado no Correio Braziliense de ontem, “um relatório do Ministério da Justiça apontou que, em 2024, existiam 88 facções de base prisional no Brasil. Sendo que 72 delas têm atuação local como os Bala na Cara, do Rio Grande do Sul, e o Comboio do Cão, do Distrito Federal. Há 14 facções regionais que atuam em mais de dois estados como o Comando da Fronteira, a Família do Norte e os Guardiões do Estado. O relatório também aponta a existência de duas facções nacionais: o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Elas estão presentes em quase todos os estados e têm conexões internacionais”.

Fala-se de uma coordenação entre governos federal e estaduais para enfrentar o crime organizado. Não basta. A situação chegou a tal ponto que é necessário um verdadeiro pacto social. Por mais que se aumente a repressão, a inteligência e os recursos, isso não bastará. É necessária a participação da sociedade e, inclusive, a colaboração das populações sequestradas nos territórios dominados pelas facções (muitas vezes na forma de resistência que não pode se revelar). Todavia, governos populistas, ditos de esquerda ou de direita, não são capazes de promover nada disso. Os de esquerda continuam acreditando que a criminalidade deriva da desigualdade social – o que leva à uma perigosa leniência, como se os criminosos fossem rebeldes primitivos que só existissem em razão da brutal desigualdade social e da exploração econômica, da opressão política e da dominação e discriminação ideológica das elites, dos capitalistas, dos imperialistas, dos neocolonialistas, sobre os trabalhadores ou o povo pobre. Os de direita continuam acreditando que existem os homens do bem e os homens do mal e que os primeiros devem exterminar os segundos pela força bruta, extirpando as maçãs podres da cesta – o que é a barbárie.

Definir as facções criminosas como organizações terroristas é uma armadilha autoritária. É conveniente para os que acham que se trata de eliminar fisicamente os bandidos (na base do “bandido bom é bandido morto”, ao arrepio das normas que regem os Estados democráticos de direito). Ninguém se escandaliza quando forças de segurança policiais ou militares abatem a tiros um terrorista, seja em Telavive, em Chicago, em Londres ou Amsterdã. Ninguém cobra que o terrorista seja preso, após a leitura de seus direitos e apresentado a um juiz. Há um consenso (tácito) sobre isso, que atravessa as ditaduras e chega até às mais plenas democracias liberais.

Mas matar os membros das facções criminosas não resolve o problema. Mil chacinas policiais ou militares não resolverão o problema. Cada “soldado” morto no narcotráfico será substituído rapidamente por outro. Cada “comandante” morto será sucedido por outro. Antes de qualquer coisa porque, a despeito dos riscos imensos, o negócio é muito lucrativo. E também porque o ambiente configurado nas favelas e periferias é favorável à instalação e replicação de uma cultura que valida, aos olhos de parte das comunidades, tal comportamento. Os feitos dos “heróis insurgentes” dos morros são cantados em prosa ou verso por artistas populares, cujas músicas são ouvidas por todos, crianças, jovens, adultos e idosos que nada têm a ver com o crime. Sim, o que estou dizendo é que há base social que permite que esse tipo de organismo nasça, cresça, se desenvolva e se reproduza.

Vários fatores combinados permitiram (e continuam permitindo) o surgimento (e a proliferação) desse tipo de organização criminosa. O principal desses fatores é uma depressão no campo interativo que extermina velozmente capital social. CV, PCC e Milícias surgem desse black hole. Uma deformação do tecido da sociedade – e uma degeneração do Estado inclusive (sobretudo no caso das milícias, que não surgem por ausência de Estado já que são uma espécie de dark side do próprio Estado). As facções criminosas do narcotráfico são uma degeneração do modo de agenciamento chamado mercado, assim como as milícias são uma degeneração do modo de agenciamento chamado Estado. Mas esse é assunto para um próximo artigo.