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Márcio Coimbra

Sobre Márcio Coimbra

Márcio Coimbra é Presidente do Instituto Monitor da Democracia. Presidente do Conselho da Fundação da Liberdade Econômica e Coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília. Cientista Político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

Epílogo Castrista

A história da Revolução Cubana, quando despojada de seu misticismo romântico, revela-se como o registro de um sucesso singular na arte do parasitismo geopolítico. Por mais de seis décadas, Havana sobreviveu não pela eficiência de seu modelo econômico ou pela solidez de suas instituições, mas pela habilidade magistral em comercializar sua localização estratégica. A ilha transformou-se em uma espécie de entreposto para potências e movimentos dispostos a financiar uma aventura autoritária no Caribe em troca de uma base avançada contra o Ocidente. Havana tornou-se, na prática, um “Airbnb para ditaduras”, alugando sua soberania primeiro aos soviéticos e, posteriormente, aos chavistas. No entanto, neste início de 2026, Cuba depara-se com um fenômeno inédito e aterrador em sua trajetória: a ausência absoluta de um hóspede disposto ou capaz de financiar sua insolvência.

A débâcle econômica da ilha não é mais um ciclo de escassez, mas um colapso sistêmico de infraestrutura. Os números são brutais e revelam uma nação despedaçada. O PIB cubano, que já vinha de uma contração acumulada nos últimos anos, enfrenta hoje uma paralisia produtiva quase total. A inflação, que o governo tenta maquiar, explode nos mercados informais onde o peso cubano tornou-se uma moeda de ficção. Com o dólar sendo negociado a 450 pesos no câmbio negro, o salário médio de um profissional de elite não cobre o custo de uma proteína básica para uma semana. 

A crise energética de 2025, que viu o país mergulhar em apagões nacionais de até 20h por dia, transformou-se em 2026 em uma “morte térmica” da rede. Sem peças de reposição para as obsoletas centrais termoelétricas soviéticas e sem crédito internacional para comprar combustível a preço de mercado, Havana é hoje uma capital à luz de velas, onde a fome deixou de ser uma ameaça estatística para se tornar uma realidade onipresente. O êxodo demográfico completa o quadro: desde 2022, mais de 10% da população fugiu da ilha, drenando o capital humano e abandonando uma sociedade envelhecida e desiludida.

Neste cenário de terra arrasada, a variável geopolítica mudou drasticamente com a ascensão de Marco Rubio ao Departamento de Estado. Diferente de seus antecessores, Rubio não enxerga Cuba através das lentes da Guerra Fria ou do pragmatismo comercial, mas como uma questão de política interna americana e reparação histórica. Como descendente de cubanos, sua estratégia é de asfixia logística e moral. A nova doutrina de Washington, liderada pelo governo Trump, abandonou a retórica do “engajamento” para adotar o que se pode chamar de “isolamento terminal”. Rubio compreende que a sobrevivência do regime depende da capacidade do GAESA — o conglomerado militar que controla 80% da economia dolarizada e o turismo — em movimentar fundos ilícitos. Ao aplicar sanções cirúrgicas nas contas e rotas logísticas da elite militar, os EUA estão forçando uma fratura entre a cúpula política e o braço armado do Estado. A mensagem enviada pela captura de Maduro foi clara: o escudo da impunidade soberana foi rompido no Hemisfério Ocidental.

A análise sobre se Cuba seguirá o modelo venezuelano de fragmentação em feudos criminais esbarra na própria natureza das instituições cubanas. Enquanto o chavismo era um movimento populista que corrompeu as Forças Armadas através do tráfico de influência, o castrismo é um sistema totalitário onde o Partido e o Exército são uma única entidade indissociável. Isso torna a queda do regime mais perigosa, porém potencialmente mais limpa em termos de transição. Não há um “Cartel dos Sóis” cubano com a mesma autonomia do venezuelano, existe uma hierarquia rígida que, se rompida por uma revolta interna de oficiais de médio escalão, pode desmoronar como um castelo de cartas. O risco de “venezuelanização” — um estado de anomia prolongada — é mitigado pela proximidade geográfica com a Flórida e pela capacidade de investimento imediato da diáspora, mas condicionado à remoção total da casta militar que hoje sequestra as fontes de riqueza da ilha.

O caminho para a democracia em Cuba exigirá uma “cirurgia de guerra” institucional. Após três gerações sob o controle da família Castro e seus burocratas, o país não possui memória de livre mercado ou pluralismo partidário. Os cenários que se desenham para o restante de 2026 variam entre a implosão súbita motivada por uma revolta popular impulsionada pela fome e escassez e uma transição negociada sob pressão extrema, onde a cúpula militar entrega Díaz-Canel em troca de anistia e a promessa de manutenção de algumas propriedades. Contudo, a firmeza de Rubio sugere que Washington não aceitará um “putinismo tropical” em Cuba. O objetivo é a desmontagem do aparato de segurança. Para que Cuba floresça, será necessário mais do que o fim do embargo, será preciso o desmantelamento do aparato de inteligência que ainda atua como o sistema nervoso central da repressão na América Latina.

A democracia em Cuba não será o resultado de uma evolução benevolente do sistema, mas o subproduto inevitável de uma falência múltipla de órgãos. O modelo de “Continuidade” de Díaz-Canel provou ser apenas o epílogo melancólico de uma tragédia histórica. Cuba está, finalmente, diante de seu destino geográfico e histórico: reintegrar-se ao sistema interamericano do qual se autoexilou por seis décadas. O fim do regime não é mais uma questão de possibilidade, mas de cronologia. Para o Brasil e para o continente, o colapso da ditadura cubana representará o fechamento da última fronteira ideológica do século XX, removendo o epicentro de instabilidade que, por décadas, exportou métodos de subversão democrática. Resta saber se essa transição será fruto de um diálogo forçado pela necessidade ou se o Palácio da Revolução será tragado pela mesma escuridão que hoje tenta impor ao seu próprio povo.

Força, Ucrânia

Neste 24 de fevereiro a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia completa quatro anos de horror e desafio à ordem global. O que o Kremlin planejou como uma “operação relâmpago” transformou-se na maior prova de resiliência democrática do século XXI. Sob o fogo de uma autocracia imperialista, a Ucrânia não apenas defende seu solo, atua como o último baluarte dos valores ocidentais e da integridade territorial na Europa.

O rastro deixado pela agressão russa é uma mancha indelével na história recente. Estima-se que as baixas totais — entre mortos e feridos — já superem a marca de 2 milhões de pessoas, com um custo humano civil dilacerante. Mais de 100 mil crimes de guerra foram documentados, incluindo as execuções sumárias em Bucha, o cerco medieval a Mariupol e o sequestro sistemático de milhares de crianças ucranianas — um ato de genocídio tipificado pelo Direito Internacional.

Apesar do terror, a resiliência ucraniana é absoluta. O país converteu cada cidadão em um bastião de resistência. No entanto, o preço social é imenso: 6,5 milhões de ucranianos permanecem refugiados, compondo o maior êxodo europeu desde 1945. É uma nação que luta enquanto sangra, mantendo sua identidade viva sob bombardeios deliberados a escolas e hospitais.

A economia ucraniana foi alvo de uma estratégia de terra arrasada. Com a perda de cerca de 30% do PIB e a destruição de infraestruturas vitais, o custo estimado para a reconstrução ultrapassa os US$ 524 bilhões. Especialistas são enfáticos: mesmo com apoio internacional massivo, a Ucrânia precisará de pelo menos duas décadas para recuperar seus níveis de desenvolvimento pré-guerra. A reconstrução não será meramente física, mas uma reestruturação total para desvincular-se de vez da órbita de um vizinho agressor.

Neste cenário de clareza moral, a postura do Brasil nos últimos governos revela uma preocupante erosão de princípios. Sob o pretexto de uma “neutralidade” que beira a conivência, Brasília tem evitado condenar a Rússia de forma enfática e pública. Essa ambiguidade é uma afronta direta aos Direitos Humanos e ao Direito Internacional, pilares que o Brasil outrora defendeu com brio.

Tal posicionamento é, acima de tudo, um desrespeito à vibrante comunidade ucraniana no Brasil, composta por mais de 600 mil descendentes, concentrados majoritariamente no Paraná. Ignorar a agressão russa em fóruns internacionais, como o BRICS, em troca de pragmatismo comercial ou alinhamento ideológico, diminui a estatura diplomática brasileira e ignora o sofrimento de famílias que veem a terra de seus antepassados ser massacrada.

Ao longo desses 1.460 dias, a Ucrânia não apenas sobreviveu, o país se tornou o escudo da Europa, resistindo com sangue de seus filhos nos campos de batalha. A Ucrânia ensina ao mundo que a liberdade não se negocia. Para o Brasil, resta a urgência de realinhar sua política externa com a ética e a justiça. Não há equidistância possível entre agressor e vítima. Reconhecer a soberania ucraniana e condenar o imperialismo russo não é uma escolha política, é um imperativo moral. Por isso, quatro anos depois seguimos com a mesma mensagem: Força, Ucrânia.

Pax Trumpista

Ao analisar o tabuleiro global de 2026, torna-se evidente que a criação do Board of Peace por Donald Trump não foi um ato impulsivo, mas o resultado de uma leitura geopolítica realista sobre a obsolescência das instituições do século XX. Estamos falando de uma clareza que escapou à burocracia europeia: a falência terminal do sistema das Nações Unidas. A ONU, outrora o pilar da estabilidade mundial, converteu-se em um fórum de paralisia deliberativa e parasitismo burocrático, onde o poder de veto é usado como escudo para o imobilismo e onde a retórica multilateral mascara a incapacidade de resolver conflitos reais. Ao perceber que a ordem baseada em regras de 1945 ruiu sob o peso da polarização e da ineficiência, Trump propôs uma nova gramática de poder: o pragmatismo transacional elevado ao nível de governança global.

Essa percepção de vácuo institucional já havia se tornado responsável por outras frentes abertas no xadrez internacional, como por exemplo, o surgimento e a recente expansão dos BRICS. Historicamente, o bloco consolidou-se menos como uma aliança integrada e mais como um sintoma de descontentamento com a hegemonia do G7 e das instituições de Bretton Woods, porém nasce realmente no vácuo aberto pela inoperância da ONU e suas estruturas de poder. 

Ao entender este movimento, a estratégia da política externa americana demonstra inteligência analítica, mas para compreender seu impacto, é preciso também entender os problemas da nova arquitetura de poder idealizada pela China por meio do BRICS. O bloco, que se expandiu para o BRICS+, nunca foi uma aliança monolítica ou ideológica, mas apenas um casamento de conveniência diante do chamado “unilateralismo” ocidental. Contudo, essa coalizão abriga tensões internas profundas — como rivalidades históricas e divergências de interesses entre os exportadores de energia do Golfo e os importadores asiáticos. O BRICS baseia sua existência na promessa de um mundo multipolar, mas aos poucos ficou claro de que não há espaço para essas nações na mesa de decisões. É precisamente nesta fissura que entra o Board of Peace.

Este movimento americano enfraquece o BRICS ao oferecer o que o bloco nunca pôde garantir: acesso imediato, direto e pragmático ao epicentro do poder econômico e militar, sem as amarras da burocracia diplomática. Ao instituir uma taxa de US$ 1 bilhão por um assento permanente no Conselho, Trump não está apenas “vendendo influência”, mas realizando um processo de filtragem de relevância. Ele transforma a geopolítica em um ambiente de private equity, onde o compromisso financeiro garante um stakeholder com voz ativa. Para países como Arábia Saudita, Índia ou Brasil, o BoP oferece uma alternativa tentadora: em vez de serem “sócios minoritários” em um projeto hegemonizado pela China dentro do BRICS, eles podem se tornar sócios diretos na gestão da paz e da economia global sob a égide americana.

Este jogo transacional altera a ordem internacional de forma irreversível. Ao contornar a ONU, este movimento também retira de Rússia e China sua ferramenta mais potente de obstrução: o veto no Conselho de Segurança. No Board of Peace, o poder não emana de tratados de paz obsoletos, mas da capacidade de execução e do aporte de recursos. Isso cria um novo centro de gravidade. Se os grandes fluxos de capital, as garantias de segurança regional e as negociações de infraestrutura passarem a ser decididos no “balcão” do BoP, as cúpulas do BRICS e as assembleias da ONU esvaziam-se de significado real. O pragmatismo de Trump força as nações do Sul Global a uma escolha binária: a retórica de um bloco emergente liderado por Pequim ou a eficácia transacional de um conselho presidido pelo homem que controla o dólar.

Ao operar esta engenharia política, os EUA estão aplicando um xeque-mate sem a necessidade de um confronto direto. Longe de tentar destruir o BRICS por meio de sanções ou confrontos militares, o faz tornando o bloco irrelevante. Ao atrair os membros mais influentes do BRICS+ para o BoP — usando a isca do pragmatismo e da segurança — ocorre a fragmentação da coalizão por dentro. Sem a Índia ou os gigantes do petróleo, o BRICS reduz-se a um eixo sino-russo isolado, perdendo sua legitimidade como voz do “mundo em desenvolvimento”. A China, que investiu décadas na construção de uma alternativa ao dólar e à influência americana, vê agora seu esforço ser contornado por uma estrutura que absorve seus aliados através da lógica do mercado.

Dessa forma, ao mexer as peças da geopolítica com uma ousadia que ignora os protocolos tradicionais, Trump decreta o fim do BRICS como ameaça sistêmica. Ele entendeu que, no mundo contemporâneo, a influência não é conquistada apenas pela força, mas pela capacidade de oferecer resultados rápidos em um ambiente de caos institucional. O Board of Peace é a materialização de uma nova ordem onde a diplomacia é substituída pela negociação executiva. Ao final, a história poderá registrar que o fim da multipolaridade desafiadora não veio de uma guerra, mas de uma reconfiguração do tabuleiro onde os adversários de Washington descobriram, tarde demais, que o jogo mudou de lugar. Se a inicitiva vingar, Trump fez mais do que ler o cenário, ele reescreveu o roteiro, deixando para trás instituições que já não servem ao presente e oponentes que ficaram presos a uma estratégia de bloco que o Board of Peace acaba de tornar obsoleta.

A eficácia desta manobra depende, claro, da capacidade de Trump de manter a coesão deste novo “conselho de administração” global. No entanto, ao substituir o direito internacional pela governança corporativa, ele estabelece uma nova linguagem diplomática transacional — mais flexível, mais lucrativa e imensamente mais difícil de ser combatida por métodos tradicionais. É o triunfo da realpolitik sobre o idealismo, um xeque-mate silencioso que pode, de fato, ter alterado o modelo geopolítico que conhecemos. 

O Fenômeno Takaichi 

A vitória de Sanae Takaichi nas recentes eleições legislativas do Japão não representa apenas uma mudança de guarda no Kantei (nome dado ao escritório oficial e residência do Primeiro-Ministro do Japão), trata-se de um movimento tectônico que encerra o longo ciclo do Japão pós-Segunda Guerra Mundial e inaugura uma era de soberania reafirmada. 

O triunfo é histórico sob qualquer métrica quantitativa, com o Partido Democrático Liberal (PDL) conquistando sozinho 316 dos 465 assentos na Câmara de Representantes. Este feito, inédito desde 1945, confere a Takaichi uma supermaioria de dois terços que, somada aos votos do aliado Ishin no Kai, aniquila qualquer barreira legislativa e permite que a nova Primeira-Ministra controle as comissões parlamentares com punho de ferro. A derrota acachapante do Partido de Centro Reformista, que viu sua representação minguar de 172 para meras 49 cadeiras, sinaliza que o eleitorado japonês cansou da ambiguidade centrista e optou por um caminho de clareza ideológica e força estratégica. O que estamos testemunhando é a consolidação de uma liderança que o Japão ansiava: firme, identitária e estrategicamente audaciosa.

O fenômeno Takaichi é sustentado por uma combinação singular de carisma pop e conservadorismo rigoroso. Como a primeira mulher a alcançar o topo do poder político japonês, ela rompeu a barreira de um sistema tradicionalmente gerontocrático e masculino, mas fez isso sem recorrer ao discurso identitário convencional. Em vez disso, conectou-se com a juventude — uma classe historicamente apática no Japão — através de um toque de modernidade e pragmatismo. Ao declarar sua afinidade com o K-pop e a cultura coreana, Takaichi não apenas humanizou sua imagem perante os novos eleitores, como também desarmou críticas de que seu nacionalismo seria anacrônico. O resultado foi um aumento na participação eleitoral para 56,8%, um sinal claro de que sua mensagem de renovação e proteção nacional ressoou profundamente em uma geração que busca um Japão mais vibrante e menos submisso aos traumas do passado.

No campo econômico e social, Takaichi demonstrou uma sensibilidade aguda às angústias imediatas da população sem perder de vista as necessidades de longo prazo. A promessa de eliminar o imposto de consumo sobre alimentos por dois anos foi um golpe de mestre político para combater a inflação galopante, simbolizada pela duplicação do preço do arroz. Embora os críticos apontem para o desafio de abrir mão de 30 bilhões de dólares em receitas em um país com uma dívida pública de 260% do PIB, a estratégia de Takaichi é de um “realismo nacionalista”: estabilizar o custo de vida interno é a pré-condição necessária para obter o suporte popular aos pesados investimentos em defesa que o Japão agora exige. Simultaneamente, sua postura firme em relação ao controle imigratório e à restrição de residências permanentes para estrangeiros reflete um compromisso com a coesão social, alinhando-se a uma tendência global de líderes conservadores que priorizam a preservação da identidade nacional frente às pressões da globalização.

Contudo, é na geopolítica que a ascensão de Takaichi altera de forma mais dramática o balanço de poder na Ásia. Sua vitória é o pior pesadelo de Pequim. Ao classificar uma eventual agressão chinesa a Taiwan como uma questão de “sobrevivência nacional” japonesa, Takaichi retirou o Japão da zona de ambiguidade estratégica. Esse posicionamento pró-Taiwan não foi apenas retórico, foi o motor de sua campanha. O apoio recebido de Donald Trump reforça essa nova arquitetura de poder, onde o Japão deixa de ser um protetorado passivo dos Estados Unidos para se tornar um parceiro operacional de primeira linha. Sob sua liderança, a defesa japonesa já rompeu a barreira histórica de investimento de 1% do PIB e caminha para níveis muito superiores, impulsionada pela necessidade de dissuasão diante do fortalecimento do eixo entre China, Coreia do Norte e Rússia. A clareza de Takaichi sobre Taiwan sinaliza que o Japão está pronto para agir militarmente se o status quo regional for ameaçado, o que obriga a China a recalcular drasticamente qualquer plano de expansão territorial.

O horizonte que se abre para o Japão é de uma transformação constitucional sem precedentes. Com a supermaioria conquistada, Takaichi possui o capital político necessário para convocar o referendo que poderá alterar o Artigo 9º da Constituição, despojando o país de suas amarras pacifistas impostas no pós-guerra. Este movimento transformaria o Japão em uma “nação normal”, capaz de projetar força e garantir a paz através da força, e não apenas da diplomacia passiva. A ascensão da direita antimigrante do Sanseito (partido “alt-right” à japonesa) no Congresso apenas reforça que o espectro político japonês moveu-se para a direita, dando a Takaichi o suporte necessário para navegar os desafios fiscais e demográficos — como o envelhecimento populacional — através de uma visão de Estado forte e centralizado.

A vitória de Sanae Takaichi é, portanto, o amanhecer de um Japão que não mais pede licença para proteger seus interesses. Ela conseguiu unir a nostalgia pela estabilidade com a urgência pela modernização defensiva. No tabuleiro asiático, o recado é nítido: o Japão retornou como um protagonista de peso, disposto a pagar o preço necessário para manter a ordem democrática no Indo-Pacífico e para garantir que o seu sol continue a nascer sem a sombra de potências vizinhas agressoras. Takaichi não é apenas uma Primeira-Ministra, ela é o rosto de um Japão que reencontrou sua vontade de potência e seu senso de destino histórico.

Amigos da Rússia

A política externa brasileira atravessa hoje um momento de perigosa indefinição ética. Ao buscar um estreitamento de laços com a Federação Russa em meio à invasão da Ucrânia, o Brasil não apenas desafia o consenso das principais democracias ocidentais, mas também flerta com a erosão de sua própria identidade como nação democrática. O regime de Moscou, consolidado como uma autocracia que cerceia a liberdade de expressão e persegue opositores, utiliza a força militar como ferramenta sistemática de expansão territorial. Para um país que se orgulha de suas instituições, o silêncio — ou, pior, a cordialidade excessiva — diante de tais práticas configura uma dissonância cognitiva diplomática que compromete nossa credibilidade junto aos parceiros estratégicos que compartilham de nossa arquitetura de valores.

Essa aproximação torna-se ainda mais incompreensível quando se nota que o Brasil não apenas ignora a ordem global, mas negligencia evidências graves de que sua própria soberania tem sido instrumentalizada pelo Kremlin. A recente descoberta de uma rede de espiões russos operando em solo nacional, utilizando identidades brasileiras fraudulentas para infiltrar-se em organismos internacionais, é um alerta que a diplomacia de Brasília parece ignorar. Foram identificados ao menos nove agentes que teriam usado documentos brasileiros como parte de seus disfarces, como os casos de Sergey Cherkasov, que se passava por Victor Muller Ferreira, Mikhail Mikushin, sob o pseudônimo de José Assis Giammaria e Artem Shmyrev, que usava o nome Gerhard Daniel Campos. Estes casos revelam que Moscou enxerga o Brasil não como parceiro de igual estatura, mas como “fábrica de identidades” para suas operações de espionagem.

Essa falta de respeito pela integridade institucional brasileira manifesta-se também na opacidade que envolve a movimentação de aeronaves estatais russas em aeroportos nacionais. Relatos sobre voos suspeitos, registrados em Brasília entre 2025 e o início de 2026, envolvendo modelos como o Ilyushin Il-96 e o Tupolev Tu-204, levantam questionamentos profundos. Tais aeronaves, muitas vezes vinculadas ao Esquadrão de Voos Especiais do Kremlin ou a empresas sancionadas, realizam rotas complexas para evitar o espaço aéreo europeu, fazendo escalas em Casablanca, Dakar e Baku antes de pousar na capital federal e rumar para Havana e Caracas. A ausência de transparência sobre essas cargas e a finalidade real de tais visitas, ocorrendo em paralelo a fóruns empresariais, sugere uma “diplomacia das sombras” que fragiliza a imagem do Brasil perante o mundo civilizado.

Diante desse cenário de suspeição, causa espanto e perplexidade que o governo brasileiro estenda tapete vermelho para autoridades russas, como ocorre na visita do primeiro-ministro Mikhail Mischustin e sua comitiva ministerial. Esta recepção sugere que o compromisso brasileiro com o Direito Internacional é seletivo e que a defesa da autodeterminação dos povos pode ser sacrificada no altar de interesses imediatistas e de uma visão de mundo datada. O argumento de que o Brasil precisa manter essa proximidade por “necessidade comercial” não resiste a uma análise rigorosa: a realidade numérica desmascara a narrativa de uma parceria indispensável. Atualmente, as exportações brasileiras para a Rússia representam uma fração irrisória, oscilando entre 0,4% e 0,6% do total exportado.

Em contrapartida, a União Europeia, que lidera as sanções contra o regime autocrático de Vladimir Putin, é um de nossos maiores parceiros, destino de cerca de 15% de nossas vendas externas. Enquanto a corrente de comércio com Moscou é pautada quase exclusivamente pela importação de fertilizantes — insumo que poderia ser diversificado com parceiros como Canadá, Marrocos ou produtores do Oriente Médio —, o Brasil coloca em risco o trabalho de 25 anos de negociações para a conclusão do acordo Mercosul-União Europeia. Estamos trocando a possibilidade de acesso preferencial a um mercado de quase 450 milhões de consumidores por uma relação de dependência com uma economia em declínio. Manchar a reputação do país por benefícios comerciais marginais não é pragmatismo, é um isolacionismo ideológico que nos afasta das cadeias de valor mais sofisticadas do Ocidente.

Para além dos números, existe uma dimensão humanitária que o governo parece negligenciar: o sentimento de traição da vasta comunidade ucraniana residente no Brasil. Com cerca de 600 mil descendentes concentrados majoritariamente no Paraná, nosso país abriga uma das maiores diásporas ucranianas do mundo. Para esses cidadãos, a postura servil de Brasília diante de Moscou é uma ofensa direta às suas origens e ao sofrimento de seus familiares que enfrentam bombardeios e atrocidades. A dor dessa comunidade é amplificada ao ver o governo anfitrião confraternizar com representantes de um regime cujo líder é alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, incluindo a deportação ilegal de milhares de suas crianças.

Nesse contexto, preparar fóruns empresariais via ApexBrasil para incentivar negócios com uma economia sob sanções é um movimento que beira a imprudência. Ao tentar “normalizar” essas relações, o Brasil arrisca sofrer sanções secundárias e afasta investimentos de democracias liberais, sabotando sua inserção nos mercados globais mais dinâmicos. A insistência em acolher autoridades russas sancionadas, exatamente quando se busca a ratificação do acordo europeu, é um erro de cálculo sem precedentes. Ao ignorar o peso moral de se relacionar com um governo acusado de massacres em Bucha e Mariupol, o Brasil abdica de sua liderança moral. Ser diplomático não exige conivência com práticas que violam o Estatuto de Roma e os princípios básicos dos Direitos Humanos.

A hospitalidade oferecida a oficiais russos soa como um endosso tácito ao autoritarismo e corrói o capital político construído ao longo de décadas como um mediador confiável. Substituir essa trajetória por uma “neutralidade” que, na prática, favorece o agressor, é um retrocesso que ignora a voz da nossa própria população. O Brasil possui estatura suficiente para manter canais de comunicação abertos sem que isso implique apoio a um regime que viola a ordem internacional. É imperativo que a política externa passe por uma recalibragem urgente, compreendendo que nosso futuro está ligado à solidez das democracias liberais e ao respeito à integridade territorial dos Estados. O “custo Rússia” é hoje muito superior a qualquer benefício material. É hora de o Brasil escolher: ou permanece firme ao lado do Direito Internacional, ou continua sua deriva em direção a um isolamento e a uma desonra diplomática sem volta.

Domínio Mineral Chinês

A recente aquisição de subsidiárias da canadense Equinox Gold pela gigante CMOC, em uma transação de US$ 1 bilhão, não é apenas um movimento de mercado, é um marco geoeconômico. Ao assumir o controle das minas de Aurizona (MA), Riacho dos Machados (MG), Fazenda e Santa Luz (BA), a estatal chinesa não apenas expande seu faturamento — que atingiu R$ 5,6 bilhões em 2025 —, mas verticaliza seu domínio sobre recursos que são, em última análise, ativos estratégicos da soberania brasileira.

A CMOC consolidou-se no Brasil operando nióbio e fertilizantes desde 2016. Ao absorver o ouro da Equinox, a empresa diversifica seu portfólio em um momento de valorização histórica do metal. Contudo, o ponto nevrálgico é a internalização das etapas produtivas. Ao controlar a extração em solo nacional e a comercialização global via sua trading, a IXM, Pequim consolida seu domínio sobre as etapas da cadeia produtiva. Para o Brasil, resta a exportação de baixo valor agregado e o recebimento de royalties, enquanto a inteligência estratégica sobre o destino desses minerais é transferida para a China.

O interesse chinês é cirúrgico. O ouro tornou-se o refúgio supremo diante da instabilidade entre os blocos ocidentais e asiáticos em 2026. Todavia, o verdadeiro foco geopolítico reside nos minerais críticos. O Brasil detém cerca de 90% das reservas mundiais de nióbio, material indispensável para ligas de aço de alta resistência e supercondutores. A vulnerabilidade reside em permitir que o controle desses ativos — onde o país possui um monopólio geológico — seja concentrado em um único ator estatal estrangeiro, sem que haja contrapartidas em transferência tecnológica ou agregação de valor em solo nacional.

O cerne do problema é a profunda assimetria regulatória. Enquanto EUA, Austrália e a própria China endureceram legislações para monitorar investimentos estrangeiros em setores estratégicos, o Brasil carece de um mecanismo de triagem (screening) institucionalizado. Sem um equivalente ao CFIUS norte-americano, o Estado vê-se desprovido de base legal para avaliar se a transferência de ativos compromete a autonomia futura. Opera-se sob uma lógica comercial de curto prazo, negligenciando que a soberania hoje é exercida pelo controle das cadeias de suprimentos. Em essência: O Brasil está vulnerável.

A hegemonia chinesa reside no processamento químico, onde domina 90% da capacidade global de refino. Possuir reservas abundantes é inútil se a tecnologia de separação reside além-mar. Se o Brasil não exigir o refino doméstico, continuará a ser um exportador de solo e um importador de futuro, fornecendo ingredientes para uma revolução tecnológica da qual não é convidado a participar.

A criação de um marco legal de investimentos estratégicos deixou de ser uma opção burocrática para tornar-se uma imperatividade de sobrevivência. O Brasil precisa compreender que, no xadrez de 2026, nem todo dólar possui o mesmo peso. Instituir filtros não significa repelir capital, mas exercer a prerrogativa de um Estado soberano que protege sua inteligência e seus recursos estratégicos inalienáveis. 

Rota da Seda Tropical

O terceiro Policy Paper da China para a América Latina e o Caribe transcende o roteiro diplomático convencional: é um manifesto de poder suave que visa integrar a região a uma órbita econômica e política centrada em Pequim. Sob a retórica de uma “comunidade de destino compartilhado”, apresenta-se uma alternativa pragmática às ingerências ocidentais. Contudo, sob a superfície de uma cooperação técnica aparentemente neutra, desenha-se uma estratégia para expandir a hegemonia chinesa, tornando os países latino-americanos dependentes de sua economia e, por extensão, subalternos politicamente.

A arquitetura dessa dependência revela-se na discrepância entre o discurso e a prática. Embora a Nova Rota da Seda prometa industrialização, os dados de investimento entre 2024 e 2026 demonstram uma concentração maciça em setores extrativos e infraestruturas críticas. O foco no controle da cadeia de suprimentos de minerais estratégicos — como o lítio no Cone Sul — e na consolidação de redes elétricas no Brasil e Peru indica que Pequim busca, primordialmente, sua própria segurança energética, mantendo a América Latina como fornecedora de insumos primários sob uma nova roupagem tecnológica.

O risco à soberania nacional é nítido no “aprisionamento tecnológico”. Ao exportar ecossistemas de governança digital através de padrões chineses de 5G, inteligência artificial e o sistema de satélites BeiDou, Pequim cria uma dependência estrutural de longo prazo. Politicamente, o apoio econômico atua como um freio à autonomia diplomática, condicionando investimentos ao rigoroso cumprimento do “Princípio de Uma Só China” (ferindo a autonomia de Taiwan) e ao alinhamento com as Iniciativas de Segurança Global. Paralelamente, a dependência financeira é reforçada por acordos de swap cambial e liquidação em Renminbi, que ancoram as reservas locais às políticas monetárias chinesas, configurando uma nova forma de vassalagem econômica.

Para evitar a passividade, os governos latino-americanos devem adotar diretrizes de negociação soberanas. É imperativo exigir transferência efetiva de tecnologia e transparência radical nos contratos, evitando o uso de recursos naturais como garantia de dívida. Além disso, a negociação deve ser coletiva, pois o fortalecimento de blocos regionais e frentes temáticas permitiria que a região negociasse a partir de uma posição de força, mantendo a diversidade de parceiros globais e utilizando a competição geopolítica em seu favor. Por fim, a aprovação de projetos que instituam autoridades de avaliação de investimento estrangeiro (já em tramitação no parlamento brasileiro) seria uma ação estratégica essencial neste cenário.

Em última análise, o documento chinês é a certidão de nascimento de uma nova ordem hegemônica nos trópicos. A América Latina não pode se dar ao luxo de trocar antigas tutelas por uma dependência tecnológica e financeira irreversível. O “destino compartilhado” só deixará de ser um eufemismo para a subalternidade se a região despertar para a necessidade de uma soberania ativa e coordenada. A escolha é inadiável: ou a América Latina se posiciona como um bloco estratégico e autônomo, ou será reduzida a um mero insumo nas ambições imperiais da China para o século XXI.

Colapso Teocrático

Em janeiro de 2026, o Irã vive um momento de ruptura definitiva. As ruas de Teerã e das principais províncias não clamam mais por reformas graduais, mas pelo fim de um sistema que se tornou anacrônico. O regime, que por décadas utilizou o fervor religioso e o nacionalismo para se sustentar, enfrenta hoje uma combinação letal: o colapso econômico interno e a sucessão de derrotas no cenário externo. O que vemos hoje é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que vive seu epílogo.

Compreender a crise contemporânea exige revisitar o colapso de Mohammad Reza Pahlavi. Ao tentar converter o país em uma potência ocidentalizada, o Xá negligenciou as bases tradicionais e o clero xiita, enquanto a repressão da Savak, sua polícia política, alienava a elite intelectual. Esse cenário culminou na Revolução de 1979 — uma coalizão heterogênea onde emergiu a liderança de Ruhollah Khomeini, que ascendeu após a queda da monarquia. O vácuo de poder foi preenchido pela Velayat-e Faqih, doutrina que submeteu a nação à tutela política e espiritual de um clérigo supremo, consolidando a teocracia moderna.

Quase meio século depois, o contrato social da República Islâmica ruiu. O sistema que prometia justiça social entregou uma economia de espoliação, controlada por fundações opacas e pelo braço empresarial da Guarda Revolucionária, que opera em moldes mais cruéis que a antiga Savak. A crise atual é o ápice de uma década de má gestão e expansionismo baseado no terror, agravada pelas sanções e pelo impacto da “Guerra dos 12 Dias” em 2025, que degradou a infraestrutura nuclear e militar do país.

Diferente de 2022, as manifestações atuais têm caráter existencial. O coração do levante bate no Bazar, o termômetro da estabilidade política persa. Quando mercadores fecham as portas e se unem aos jovens e às minorias étnicas, o regime perde sua última âncora de legitimidade. Ao mesmo tempo, a repressão mostra sinais de fadiga, com relatos de deserções e a incapacidade de conter focos simultâneos em todas as 31 províncias.

A análise de risco político nos obriga a desenhar caminhos para este desenlace. O Irã de amanhã não será o mesmo de ontem, e sua transição é um debate com reflexos globais. Um cenário provável é a solução pretoriana: diante da queda iminente, a Guarda Revolucionária poderia desferir um golpe interno, afastando os aiatolás em troca de uma abertura econômica nacionalista e pragmática, aos moldes do Egito. Outro caminho é a restauração de uma democracia parlamentarista laica, com Reza Pahlavi como símbolo de unidade transicional, assemelhando-se ao modelo espanhol pós-Franco. Contudo, não se deve subestimar a resiliência ideológica de uma teocracia acuada e o recrudescimento do regime ainda é uma opção, o que poderia transformar o país em uma “Coreia do Norte do Oriente Médio”, mantendo o poder pelo terror e isolamento absoluto. Por fim, existe o risco latente da fragmentação e “balcanização”, onde o colapso fomentaria movimentos separatistas e uma guerra civil devastadora. 

Os sinais são de que o experimento teocrático chega ao seu epílogo. A questão não é mais se o regime mudará, mas quem estará no controle quando a poeira baixar. O mundo deve estar preparado para o que emergirá das cinzas da teocracia.

O Enigma Delcy

Delcy Eloína Rodríguez Gómez não é uma figura acidental, mas a herdeira da “aristocracia civil” bolivariana. Filha do mártir Jorge Antonio Rodríguez, ela combina capital simbólico revolucionário com uma formação europeia que a distingue da elite militar. Agora presidente interina sob a chancela do TSJ após a captura de Maduro, Delcy emerge como o pivô de uma transição de alto risco, operando na interseção entre a retórica anti-imperialista e o pragmatismo da diplomacia financeira internacional.

No tabuleiro de Caracas, ela governa em simbiose absoluta com seu irmão, Jorge Rodríguez, formando um bloco tecnocrata que se contrapõe à ala radical e ideológica de Diosdado Cabello. Sem comando direto de tropas, sua sobrevivência política depende do “pêndulo” de Vladimir Padrino López, o Ministro da Defesa atua como o fiador dos militares chavistas. Enquanto Cabello personifica a brutalidade do Cartel de los Soles, os Rodríguez preferem a cooptação cirúrgica e a inteligência burocrática, sob a pressão asfixiante das sanções que pesam sobre Delcy desde 2018.

Sua liderança, contudo, é assombrada pelas delações de Hugo “El Pollo” Carvajal e pela iminente colaboração de Maduro em solo americano. Tais testemunhos são venenos de ação lenta que podem expor redes de financiamento ilícito, comprometendo sua viabilidade como interlocutora. Ela caminha sobre uma corda bamba geopolítica: depende do aparato de inteligência cubano (G2) para monitorar conspirações militares internas, mas qualquer transição que mantenha o cordão umbilical com a ditadura cubana será vista como uma “mudança cosmética” por Washington. Ela precisa projetar-se perante Trump como uma “Murillo venezuelana” — uma interlocutora técnica e moderada capaz de pacificar o país e garantir a estabilidade energética via PDVSA.

Para os interlocutores internacionais, incluindo Washington, Delcy apresenta-se como uma gestora capaz de operacionalizar a retomada do setor petrolífero e a renegociação de ativos estratégicos. Mesmo sob o peso de investigações externas e da histórica influência de Cuba, ela aposta em uma política de “distensão”, por enquanto, sem transição — uma reforma que torne o regime funcional e aceitável para o mercado global. O sucesso de sua gestão reside na capacidade de transformar o Estado venezuelano em um parceiro previsível, garantindo a permanência da elite civil antes de uma possível transição política definitiva.

Para os Estados Unidos, Delcy não é uma aliada confiável, mas uma ferramenta de conveniência transacional. Sua sobrevivência dependerá de movimentos táticos milimétricos: ela poderá libertar presos políticos para sinalizar boa vontade, mas dificilmente desmantelará o aparato repressivo, sob risco de sofrer um golpe militar por traição à casta armada. Sua missão é tentar converter o regime em uma estrutura de distensão rumo a uma possível transição — uma autocracia mais palatável e funcional. A volta da democracia dependerá do sucesso deste processo, entretanto, serão passos lentos de graduais, evitando uma guerra civil que poderia eclodir com o retorno abruto da oposição ao poder em conflito com um aparato repressor e armado, alimentado por práticas, recursos e cooptação de grupos terroristas, narcotraficantes e de aparatos de inteligência estrangeiros presentes na Venezuela.

A Queda de Maduro

O amanhecer de 2026 marca um ponto de inflexão decisivo para a Venezuela. A queda de Nicolás Maduro e sua transferência sob custódia para Nova Iorque simbolizam o colapso de um sistema que exauriu o Estado, convertendo instituições em engrenagens do crime transnacional. No entanto, o vácuo deixado por décadas de autoritarismo exige prudência absoluta. A transição demanda cautela na estabilização interna e na recuperação de uma indústria petrolífera dilapidada por quase trinta anos de uma gestão que priorizou o saque sistemático e a repressão em parceria com máfias estrangeiras.

A realidade atual ratifica as denúncias de Maria Corina Machado: a PDVSA foi, na prática, privatizada por máfias e potências revisionistas. Sob o manto da Lei Antibloqueio, o regime operou a transferência clandestina de ativos para figuras como Alex Saab e conglomerados sem expertise, como o Consórcio Petroluxe e a Tridente Servicios Petroleros. A teia estendeu-se a empresas de fachada ligadas ao Irã, China e Rússia, incluindo a Sinohydro Corporation e as obscuras Anhui Guangda e Beijing Huasheng Rongcheng — cujos objetos sociais originais, como processamento de dados, mascaravam a exploração de hidrocarbonetos. Até a entidade turca Kase Finansal, de natureza financeira, tornou-se operadora petrolífera, evidenciando uma prioridade na engenharia financeira para lavagem de capitais em detrimento da técnica industrial.

Sob o domínio de Pequim, Teerã e Moscou, o patrimônio nacional foi desidratado para financiar a repressão interna e máquinas de guerra globais. Essa pilhagem reduziu a produção a níveis inferiores a 30% de sua capacidade histórica — um déficit de 70% causado por corrupção e negligência. Reerguer este setor vital exigirá agora o aporte tecnológico e a transparência que apenas os Estados Unidos e o mercado global legítimo podem oferecer.

Esta reconstrução é indissociável de um resgate ético. Não há soberania legítima quando o Estado submete o povo a uma ditadura brutal e invocar o Direito Internacional para proteger um tirano que converteu o país em santuário da tortura situa-se em um absoluto vácuo moral. Aqueles que evocam a “não-ingerência” silenciaram enquanto o terror era institucionalizado nos porões do SEBIN e da DGCIM. A intervenção liderada pelos EUA deve ser vista como um ato de responsabilidade internacional necessário para desmantelar um Estado-narcomafioso que ameaçava a segurança hemisférica.

Contudo, remover Maduro é apenas o primeiro passo. O desafio hercúleo reside na rede sistêmica de controle militar. Permanecem no território centenas de generais vinculados ao narcotráfico, como Vladimir Padrino López, Domingo Hernández Lárez e Diosdado Cabello, responsáveis por pilhar o erário. É impossível reconstruir o país removendo apenas a “cabeça” do regime e a sobrevivência da democracia exige uma limpeza institucional cirúrgica nas raízes dessa narcocorrupção. Sem desmantelar essa casta militar, qualquer mudança será apenas cosmética. O êxito desta nova era depende da coragem em erradicar as estruturas que ainda infestam o Estado, devolvendo, finalmente, a verdadeira soberania ao povo venezuelano.