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Mudanças moleculares

No artigo Manifestações de rua não dão em nada? (publicado aqui e aqui em 26/01/2026) falei das possíveis “mudanças moleculares” que grandes manifestações de rua provocam, mas que só aparecem muito depois e, por isso, dão a impressão de que não tiveram nenhum (ou pouco) efeito. Neste artigo vou tratar mais diretamente dessas mudanças.

Há muita confusão entre mudanças políticas e mudanças sociais que, talvez, tenha a ver com uma incompreensão do que chamamos propriamente de ‘social’. E há ainda um grande desconhecimento sobre o funcionamento das redes sociais propriamente ditas (e é bom não confundi-las com as mídias sociais: redes sociais são pessoas interagindo, enquanto estão interagindo, por qualquer meio – não plataformas, programas, algoritmos, tecnologias, dispositivos). É disso que vou tratar neste artigo, que deve ser visto como uma segunda parte do anterior.

As manifestações de rua, por maior tamanho que tenham, na maior parte dos casos, desencadeiam modificações na sociedade, não nos regimes políticos. Não tomam o poder – a menos que haja uma força organizada para tal no seu interior; ou dissensões graves nas forças que conduzem ou apoiam o regime; ou, ainda, ameaça externa de uma força superior beligerante. Como, na maior parte dos casos, não tomaram o poder, não derrubaram governos, então muitos analistas decretam que não tiveram efeito ponderável.

Comecemos com alguns exemplos do que manifestações sociais provocam (ou podem provocar) nas sociedades onde ocorrem.

Elas aumentam a confiança, a cooperação, a reciprocidade e a solidariedade entre os que se manifestam.

Elas inaguram novas práticas comunitárias que estão na base da democracia como modo-de-vida. Ampliam as conversações com novos interlocutores confiáveis e aumentam a frequência dessas conversações quando se faz necessário mobilizar e organizar a ação coletiva.

No limite, elas podem ser embriões daquele “governo comum” – ou do ‘common government’, associado à ‘grassroots democracy’ – de que falava Jefferson ou daquele “governo civil” de que falava Tocqueville.

Elas permitem que as pessoas reconheçam e valorizem o seu próprio modo de vida quando esse modo de vida está sendo ameaçado por interferências abusivas de um poder exercido top down.

Quando são gigantes – ou verdadeiros swarmings – elas tornam visível a dimensão do poder que a sociedade tem quando não está fragmentada em indivíduos, grupos ou tribos isolados ou com poucos atalhos entre si. Os manifestantes são, em geral, os primeiros a se surpreender com isso. Mas é o principal recado que elas enviam ao poder estatal.

Elas aproximam pessoas que não se relacionavam diretamente por pertencerem a clusters ou tribos diferentes, dando a base de um sentido comum para que possam interagir. Promovem assim uma oportunidade de “miscigenação cultural” entre pessoas de diferentes extrações ou profissões: histórias de vida, classes sociais, gêneros, etnias, nacionalidades, idade, escolaridade, tipos de trabalho e posições funcionais etc.

Elas aumentam a desconfiança no governo, sobretudo quando há repressão. Esse é um “gene” liberal importante: nas democracias (liberais ou plenas) a sociedade deve controlar o governo e não ser controlada por ele.

Elas ficam marcadas na memória coletiva (dos que participaram e dos que viram o fenômeno acontecer) como um atestado indelével de que, sim, é possível. Como dizia Václav Havel, elas são o poder dos sem-poder.

Mas elas são a expressão de um outro tipo de poder. É óbvio que o poder do Estado – em termos de força para normatizar comportamentos, exercer controle, conquistar alinhamento e submissão, conter e reprimir descontentamentos – é assimétrico em relação ao poder da sociedade. Tal comparação, porém, é inadequada porque não são o mesmo tipo de poder. O poder do Estado é vertical e se exerce pela sua capacidade de alterar a topologia e a dinâmica da rede (a rigor excluindo nodos, eliminando conexões ou cortando atalhos entre clusters). O poder da sociedade é um poder horizontal. Opera por contágio (como na reprodução bacteriana, em que o material genético não está aprisionado em um núcleo e se transfere de um doador a um receptor por uma ponte citoplasmática). É um poder de rede, de transmissão de influência.

Grandes manifestações sem coordenação centralizada, quando acontecem, são manifestações da fenomenologia da interação em mundos altamente conectados, ou seja, fenômenos próprios de redes sociais stricto sensu (não confundir isso – insista-se – com mídias sociais). Ou reconhecemos que existe rede realmente e entendemos a sua estrutura e o seu funcionamento ou não há como explicar as mudanças moleculares provocadas por protestos de rua e manifestações sociais em geral.

Aqui começa a nossa conversa. Basicamente, é necessário compreender:

Como as pessoas se aglomeram (clustering).

Como uma aglomeração enxameia (swarming).

Como as pessoas, sem intenção de imitação, reproduzem comportamentos que percebem em outras pessoas (cloning).

Como, quando esses fenômenos ocorrem, o mundo social se contrai, diminuindo a extensão característica de caminho e fazendo despencar os graus de separação (crunching).

Como tudo isso pode começar a partir de uma pequena perturbação, mesmo que parta da periferia do sistema (feedbackpositivo e múltiplos laços de retroalimentação de reforço).

Como, cada vez que rodam com o sistema aparentemente parado, os impulsos se potencializam (looping de recursão) e tudo reverbera.

Responder essas questões é o desafio para um terceiro artigo.

Arte de escrever X ChatGPT

Um leitor da Folha de S.Paulo enviou uma reclamação para a ombudsman do referido jornal, acusando uma colunista de usar inteligência artificial em seus artigos. A colunista respondeu à reclamação com um novo texto intitulado “meus textos usam inteligência artificial; meu pensamento não.”  

A frase carece de sentido; é incoerente. O uso de IA para a criação de um texto é exatamente aquilo que a frase nega que ele seja: uma muleta, um apoio ou um substituto para o pensamento que não teve força suficiente para se expressar. 

A frase pressupõe uma demarcação radical entre o pensamento e o texto escrito, como se o processo de transformar ideias desconexas em estrutura linguística adequada não fosse também um ato de pensar, só que em fase mais avançada. A reflexão apurada não se faz em um vácuo qualquer da mente fora da linguagem. 

Nesse momento mesmo, busco um pensamento. Esforço-me por capturá-lo, traduzi-lo. Ele só se completará quando eu conseguir alcançá-lo, exprimindo-o. Estou tentando dizer que, intuitiva que sou, acredito que o real transcende a linguagem e que o mais importante está no silêncio. Mas quero dizer também que uma coisa é o silêncio sagrado, sereno, profundo, que transcende e supera as limitações da linguagem; outra coisa é o silêncio obtuso e inquieto de uma mente presa em si mesma porque sua inteligência rudimentar não lhe fornece condição favorável de expressão. Pronto. Algo me fugiu, mas algo capturei ao escrever o que estava tentando pensar. Foi necessário um esforço, uma atenção do espírito. É esse momento mágico e árduo que se pretende substituir com o uso indiscriminado da IA na escrita.

  “Perca inteligência e singularidade e ganhe tempo e produtividade”, eis a tentação diária a que o ChatGPT submete diariamente os que trabalham com a palavra escrita. Oferta essa aceita prazenteiramente, mesmo entusiasticamente pela colunista da Folha. E ela defende sua escolha acusando de medrosos aqueles que ainda valorizam a arte da escrita: “Medo de perder espaço, medo de não acompanhar, medo de admitir que o tempo ficou mais valioso que o ritual do esforço manual”, escreveu a multiempreendedora Natalia Beauty (ela mesma?). 

Outro equívoco. O esforço que a IA substitui ao ser usada como ferramenta para gerar um texto autoral não é um mero esforço manual, é o próprio esforço intelectual. O tempo de produtividade que ganhamos ao aceitar essa substituição é ganho em detrimento do nosso tempo real, da nossa “duração”, do nosso espírito. É algo mesmo como vender a alma para o diabo. 

Ao usar o termo “duração”, aproximo-me propositalmente do filósofo francês e ganhador do prêmio nobel de literatura, Henri Bergson (1859) que, em sua conferência “A alma e o corpo”, proferida em 1912, já estabelecia, com sua lucidez característica, uma distinção entre o pensamento em si e a sua imitação artificial:

“O pensamento real, concreto, vivo, é algo de que até agora os psicólogos pouco nos falaram. O que geralmente se estuda com esse nome é menos o pensamento em si do que uma imitação artificial, que se obtém compondo conjuntamente imagens e ideias. […]. Portanto deixem de lado as reconstruções artificiais do pensamento; considerem o pensamento em si; encontrarão nele menos estados do que direções, e verão que ele é essencialmente uma mudança constante e contínua de direção interior, mudança que tende incessantemente a traduzir-se por mudanças de direção exterior.”

Bergson continua, explicando que não nos damos conta desse movimento que é o pensamento  senão quando tentamos capturá-lo vivo, em seu dinamismo, “para transferi-lo ainda vivo para a alma de outra pessoa”:

 “Por mais então que as palavras sejam adequadamente escolhidas, não dirão o que queremos fazê-las dizer se o ritmo, a pontuação, e toda a coreografia do discurso não as ajudarem a levar o leitor, guiado por uma série de movimentos nascentes, a descrever uma curva de pensamento e de sentimento análoga a que nós descrevemos. Toda a arte de escrever está nisso”.

A principal justifica da colunista para o uso de IA nos textos autorais é o tempo. Diz ela (ou o chatGPT): “o ponto central não é a ferramenta, é o tempo. O tempo é o único ativo que não volta. Não se recupera, não se negocia e não se acumula. Usar tecnologia para ganhar tempo não é trapaça, é estratégia, maturidade, é entender que a produtividade não se mede pelo cansaço, mas pelo resultado”. 

A ponderação faz sentido para várias atividades, mas não para a escrita que se pretenda ofício ou arte, que almeje trazer para o mundo uma impressão nova, sui generis. O mais curioso, porém, é que, mesmo falando em maturidade, a justificativa trai uma compreensão superficial e imatura do tempo, o qual seria bem aproveitado se convertido em produtividade e resultado, seja lá por quais meios. 

Faltou considerar aqui o tempo real, a existência, a duração, o espírito. Mas alguém  escravizado a metas de produtividade não se dá conta de que existe um tempo da alma e  consequentemente que esse tempo da alma deve ser respeitado por quem exerce o ofício de escrever. 

Já é meio dia. Gastei muito tempo escrevendo esse texto. Poderia ter dado um simples comando e o chatGPT tê-lo-ia escrito por mim. Mas, então, eu não teria a satisfação de ter usado essa mesóclise, de reler as belas passagens de Bergson e de dá-las a conhecer ao meu leitor. Eu teria, de certo modo, traído o meu leitor se tivesse optado pela máquina ao invés de apresentar a ele o movimento do meu espírito no ato de produção do pensamento, que se confunde com o ato de produção da escrita. Escrever é resistir à escravização do tempo do relógio e repousar um pouco no fluxo de duração da própria alma. É também convidar o leitor a entrar nesse fluxo. Volta Bergson:

A arte do escritor consiste principalmente em fazer-nos esquecer que ele está usando palavras. A harmonia que procura é uma certa correspondência entre as idas e vindas de seu espírito e as de seu discurso – correspondência tão perfeita que, transportada pela frase, as ondulações de seu pensamento se comunicam com o nosso e então cada uma das palavras, tomadas individualmente, já não importa: não há nada além do sentido movente que atravessa as palavras, mais nada além de dois espíritos que parecem vibrar em uníssono diretamente, sem intermediário. Portanto, o ritmo da linguagem tem como único objetivo reproduzir o ritmo do pensamento.” 

Nada contra o uso pontual de inteligência artificial para organizar, estruturar e acelerar aquilo que pode organizado, estruturado e acelerado de forma mecânica e artificial. Mas escrever não é trabalho mecânico, é esforço intelectual, atividade altamente refinada do espírito. 

Quem sabe, a proliferação de textos homogêneos, repetidos, robóticos e artificiais fará com que o ofício do verdadeiro escritor seja novamente reconhecido. Quem sabe o uso abusivo de IA em textos jornalísticos, crônicas, redes sociais e até em livros seja o prenúncio de uma revalorização de quem teima em cultivar esse nobre exercício espiritual que é a escrita. 

O oposto, porém, é possível. O escritor poderá ser ainda mais desvalorizado, definitivamente superado e esquecido. Eles mesmos poderão ceder ao cansaço e se render às máquinas. Mas isso equivalerá à capitulação do próprio pensamento e à perda da dimensão de algo propriamente humano. 

Amigos da Rússia

A política externa brasileira atravessa hoje um momento de perigosa indefinição ética. Ao buscar um estreitamento de laços com a Federação Russa em meio à invasão da Ucrânia, o Brasil não apenas desafia o consenso das principais democracias ocidentais, mas também flerta com a erosão de sua própria identidade como nação democrática. O regime de Moscou, consolidado como uma autocracia que cerceia a liberdade de expressão e persegue opositores, utiliza a força militar como ferramenta sistemática de expansão territorial. Para um país que se orgulha de suas instituições, o silêncio — ou, pior, a cordialidade excessiva — diante de tais práticas configura uma dissonância cognitiva diplomática que compromete nossa credibilidade junto aos parceiros estratégicos que compartilham de nossa arquitetura de valores.

Essa aproximação torna-se ainda mais incompreensível quando se nota que o Brasil não apenas ignora a ordem global, mas negligencia evidências graves de que sua própria soberania tem sido instrumentalizada pelo Kremlin. A recente descoberta de uma rede de espiões russos operando em solo nacional, utilizando identidades brasileiras fraudulentas para infiltrar-se em organismos internacionais, é um alerta que a diplomacia de Brasília parece ignorar. Foram identificados ao menos nove agentes que teriam usado documentos brasileiros como parte de seus disfarces, como os casos de Sergey Cherkasov, que se passava por Victor Muller Ferreira, Mikhail Mikushin, sob o pseudônimo de José Assis Giammaria e Artem Shmyrev, que usava o nome Gerhard Daniel Campos. Estes casos revelam que Moscou enxerga o Brasil não como parceiro de igual estatura, mas como “fábrica de identidades” para suas operações de espionagem.

Essa falta de respeito pela integridade institucional brasileira manifesta-se também na opacidade que envolve a movimentação de aeronaves estatais russas em aeroportos nacionais. Relatos sobre voos suspeitos, registrados em Brasília entre 2025 e o início de 2026, envolvendo modelos como o Ilyushin Il-96 e o Tupolev Tu-204, levantam questionamentos profundos. Tais aeronaves, muitas vezes vinculadas ao Esquadrão de Voos Especiais do Kremlin ou a empresas sancionadas, realizam rotas complexas para evitar o espaço aéreo europeu, fazendo escalas em Casablanca, Dakar e Baku antes de pousar na capital federal e rumar para Havana e Caracas. A ausência de transparência sobre essas cargas e a finalidade real de tais visitas, ocorrendo em paralelo a fóruns empresariais, sugere uma “diplomacia das sombras” que fragiliza a imagem do Brasil perante o mundo civilizado.

Diante desse cenário de suspeição, causa espanto e perplexidade que o governo brasileiro estenda tapete vermelho para autoridades russas, como ocorre na visita do primeiro-ministro Mikhail Mischustin e sua comitiva ministerial. Esta recepção sugere que o compromisso brasileiro com o Direito Internacional é seletivo e que a defesa da autodeterminação dos povos pode ser sacrificada no altar de interesses imediatistas e de uma visão de mundo datada. O argumento de que o Brasil precisa manter essa proximidade por “necessidade comercial” não resiste a uma análise rigorosa: a realidade numérica desmascara a narrativa de uma parceria indispensável. Atualmente, as exportações brasileiras para a Rússia representam uma fração irrisória, oscilando entre 0,4% e 0,6% do total exportado.

Em contrapartida, a União Europeia, que lidera as sanções contra o regime autocrático de Vladimir Putin, é um de nossos maiores parceiros, destino de cerca de 15% de nossas vendas externas. Enquanto a corrente de comércio com Moscou é pautada quase exclusivamente pela importação de fertilizantes — insumo que poderia ser diversificado com parceiros como Canadá, Marrocos ou produtores do Oriente Médio —, o Brasil coloca em risco o trabalho de 25 anos de negociações para a conclusão do acordo Mercosul-União Europeia. Estamos trocando a possibilidade de acesso preferencial a um mercado de quase 450 milhões de consumidores por uma relação de dependência com uma economia em declínio. Manchar a reputação do país por benefícios comerciais marginais não é pragmatismo, é um isolacionismo ideológico que nos afasta das cadeias de valor mais sofisticadas do Ocidente.

Para além dos números, existe uma dimensão humanitária que o governo parece negligenciar: o sentimento de traição da vasta comunidade ucraniana residente no Brasil. Com cerca de 600 mil descendentes concentrados majoritariamente no Paraná, nosso país abriga uma das maiores diásporas ucranianas do mundo. Para esses cidadãos, a postura servil de Brasília diante de Moscou é uma ofensa direta às suas origens e ao sofrimento de seus familiares que enfrentam bombardeios e atrocidades. A dor dessa comunidade é amplificada ao ver o governo anfitrião confraternizar com representantes de um regime cujo líder é alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, incluindo a deportação ilegal de milhares de suas crianças.

Nesse contexto, preparar fóruns empresariais via ApexBrasil para incentivar negócios com uma economia sob sanções é um movimento que beira a imprudência. Ao tentar “normalizar” essas relações, o Brasil arrisca sofrer sanções secundárias e afasta investimentos de democracias liberais, sabotando sua inserção nos mercados globais mais dinâmicos. A insistência em acolher autoridades russas sancionadas, exatamente quando se busca a ratificação do acordo europeu, é um erro de cálculo sem precedentes. Ao ignorar o peso moral de se relacionar com um governo acusado de massacres em Bucha e Mariupol, o Brasil abdica de sua liderança moral. Ser diplomático não exige conivência com práticas que violam o Estatuto de Roma e os princípios básicos dos Direitos Humanos.

A hospitalidade oferecida a oficiais russos soa como um endosso tácito ao autoritarismo e corrói o capital político construído ao longo de décadas como um mediador confiável. Substituir essa trajetória por uma “neutralidade” que, na prática, favorece o agressor, é um retrocesso que ignora a voz da nossa própria população. O Brasil possui estatura suficiente para manter canais de comunicação abertos sem que isso implique apoio a um regime que viola a ordem internacional. É imperativo que a política externa passe por uma recalibragem urgente, compreendendo que nosso futuro está ligado à solidez das democracias liberais e ao respeito à integridade territorial dos Estados. O “custo Rússia” é hoje muito superior a qualquer benefício material. É hora de o Brasil escolher: ou permanece firme ao lado do Direito Internacional, ou continua sua deriva em direção a um isolamento e a uma desonra diplomática sem volta.

Banco Master e BRB: o escândalo que colocou o Distrito Federal no centro da crise

O escândalo envolvendo o Banco Master já se consolidou como um dos episódios mais graves e simbólicos da recente história do sistema financeiro brasileiro. O caso extrapola a esfera bancária e alcança dimensões jurídicas, políticas e institucionais profundas, colocando sob suspeita não apenas dirigentes de uma instituição privada, mas também órgãos de controle, figuras do Judiciário, agentes políticos e, de forma especialmente sensível, um banco público estadual: o Banco de Brasília (BRB).

De forma resumida, o Banco Master cresceu rapidamente nos últimos anos oferecendo produtos financeiros com rentabilidade elevada, especialmente CDBs, atraindo investidores pessoas físicas e institucionais. As investigações apontam que parte relevante desses ativos não possuía lastro real, sendo sustentada por operações artificiais, créditos de difícil recuperação e engenharia financeira agressiva, quando não fraudulenta. Diante do colapso de liquidez e das evidências de irregularidades, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, abrindo caminho para uma série de inquéritos administrativos, civis e criminais.

O caso ganhou contornos ainda mais graves quando veio à tona a tentativa de envolvimento do BRB na aquisição de ativos — ou mesmo do controle — do Banco Master. A operação, abortada após alertas técnicos e pressão pública, levantou fortes suspeitas sobre gestão temerária de recursos públicos, possível assunção de prejuízos bilionários e uso político de uma instituição financeira estatal. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar a conduta dos envolvidos, e relatórios preliminares indicam que o risco assumido poderia comprometer a saúde financeira do banco público do Distrito Federal.

No campo jurídico-institucional, o escândalo expôs uma zona cinzenta altamente sensível: surgiram denúncias e questionamentos sobre eventuais conflitos de interesse envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente a partir de relações profissionais e contratuais indiretas com o Banco Master. Ainda que não haja, até o momento, condenações ou decisões definitivas, o simples fato de tais suspeitas recaírem sobre a mais alta Corte do país já produz um dano institucional relevante. A percepção pública de seletividade, blindagem ou leniência mina a confiança no Judiciário e reforça a sensação de que há um sistema de proteção para os poderosos.

No Congresso Nacional, o caso rapidamente se tornou objeto de disputa política. Há pedidos de CPI para investigar o Banco Master e suas conexões políticas. Ao mesmo tempo, movimentos claros para esvaziar ou retardar essas investigações revelam o desconforto de setores do poder com a possibilidade de que o escândalo avance sobre figuras influentes. A resistência à transparência, nesse contexto, acaba sendo quase tão grave quanto os fatos investigados, pois sugere que o sistema político ainda reage mais à autopreservação do que ao interesse público.

Do ponto de vista econômico, os impactos são igualmente preocupantes. A liquidação do Banco Master traz riscos concretos ao Fundo Garantidor de Créditos, que pode ser chamado a cobrir bilhões de reais, socializando prejuízos gerados por má gestão e possíveis fraudes privadas. Além disso, o episódio tende a elevar a percepção de risco no sistema financeiro, encarecer o crédito e aumentar a pressão regulatória sobre bancos médios, com efeitos indiretos sobre a economia real.

No Distrito Federal, porém, o caso assume uma gravidade ainda maior. O BRB não é apenas mais um banco: trata-se de uma instituição estratégica, vinculada ao governo local, responsável por financiar políticas públicas, investimentos e projetos estruturantes. Qualquer dano à sua credibilidade ou solidez afeta diretamente a economia do DF, a confiança dos investidores e a própria capacidade do governo local de executar políticas públicas. Politicamente, o escândalo já começa a reverberar no debate eleitoral, servindo como munição para embates entre grupos e como símbolo de uma gestão que, para muitos, teria flertado perigosamente com a irresponsabilidade.

Em ano pré-eleitoral, o envolvimento do BRB no caso Master tende a ser explorado de forma intensa no debate público do Distrito Federal. A oposição encontra um argumento poderoso para questionar governança, transparência e responsabilidade fiscal, enquanto a situação se vê obrigada a explicar decisões técnicas que, à luz dos fatos, parecem no mínimo imprudentes. O risco é que o debate se reduza a narrativas políticas, quando o que se exige é uma apuração rigorosa, técnica e independente.

O escândalo do Banco Master não é apenas um caso de polícia ou de mercado. Ele é um teste para as instituições brasileiras. Teste para o sistema financeiro, para o Banco Central, para o Congresso, para o Judiciário e, no caso do Distrito Federal, para a gestão de um banco público que deveria ser exemplo de prudência. A forma como esse episódio será esclarecido — ou abafado — dirá muito sobre o grau de maturidade institucional do país e sobre quem, de fato, paga a conta quando grandes erros são cometidos nos andares de cima.

STF: do “inquérito do fim do mundo” ao escândalo Master-Vorcaro

O Supremo Tribunal Federal (STF), instância mais alta do Judiciário, tem avançado sobre os outros poderes da República, impondo-se, para além das suas atribuições constitucionais, como poder moderador e amedrontador.

Essa marcha autoritária do STF vem desde o famigerado “inquérito das fake news”, aberto de ofício (sem pedido da PGR ou da Polícia Federal), em 2019, pelo então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, que designou (sem sorteio) o ministro Alexandre de Moraes como relator.

Na ocasião, o ministro Marco Aurélio Mello (hoje aposentado) manifestou sua posição contrária ao referido inquérito. Em 2020, na sessão plenária que analisava a constitucionalidade do inquérito, ele afirmou que se tratava de “um inquérito natimorto”, “uma afronta ao sistema acusatório do Brasil” e o apelidou de “inquérito do fim do mundo”.

Ele criticou duramente o fato de o STF instaurar e conduzir a apuração de ofício (sem provocação do Ministério Público), com o próprio tribunal (vítima dos supostos ataques) atuando como investigador, acusador e julgador, violando assim o sistema acusatório adotado pela Constituição Federal de 1988, que separa as funções de acusar (MP) e julgar (Poder Judiciário). O plenário do STF, porém, validou a investigação por 10 votos a 1, sendo Marco Aurélio o único divergente.

Sob o talante do ministro Alexandre de Moraes, graves e constantes decisões de alcance geral decididas no âmbito deste “inquérito do fim do mundo” foram elaboradas politicamente, usando-se a técnica jurídica como enfeite e disfarce.

O inquérito tramita sob sigilo em grande parte, já foi prorrogado várias vezes (ainda em andamento em 2026, completando mais de 6 anos) e serviu de base para medidas como bloqueios de contas em redes sociais, buscas, prisões e quebras de sigilo.

Agora, neste início de 2026, os autoritários ministros do STF estão sob ameaça de serem engolfados pelos eventos de irregularidades e corrupção que levaram à liquidação do Banco Master e à prisão do seu dono Daniel Vorcaro.

Trata-se de uma das maiores fraudes no sistema financeiro brasileiro recente (cerca R$12 bilhões). É basicamente um escândalo que mistura finanças, política e poder em Brasília e na Faria Lima, uma espécie de “escândalo do fim do mundo”.

Até o momento, pelo que o STF permitiu que a Polícia Federal investigasse e que a imprensa investigativa divulgou, estão envolvidos agentes de todos os poderes da República; inclusive ministros do STF.

As revelações expõem uma teia de relações entre o banco e o Judiciário. As suspeitas envolvem principalmente Dias Toffoli (relator), Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski (ex-ministro, mas ligado ao caso).

Toffoli assumiu a relatoria do caso em 1º de dezembro de 2025 e tem sido criticado por decisões monocráticas e sigilosas, como centralizar a investigação no STF, restringir acesso às provas e designar peritos da PF nominalmente, procedimentos vistos como incomuns e que geram desconfiança. Além disso, houve o caso da carona em avião particular com um advogado do Master em 2025, que deixou exposta a proximidade com os interesses do banco.

Sobre o ministro Alexandre de Moraes a suspeição de envolvimento com as traficâncias Master-Vorcaro vem do contrato feito pelo Banco Master com o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes, esposa do ministro. Contrato esse de R$129 milhões por 3 anos de serviço, valor desproporcional ao valor usual de mercado.

Também veio à tona que o escritório de advocacia do ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, recebeu R$ 5 milhões do Banco Master por serviços de consultoria jurídica em 2025. Essa consultoria é vista como parte da rede de influência de Vorcaro no alto escalão, levantando suspeitas de lobby ou favorecimento. Essa e outras informações trazem também o governo Lula para dentro do escândalo.  

Lewandowski fora recomendado ao Banco Master pelo petista histórico Jaques Wagner, líder do governo no Senado. E aí já se mostra o avanço dos tentáculos do polvo Master-Vorcaro no poder legislativo. Alguns comentaristas chegam a garantir até mesmo a existência de uma “bancada do Vorcaro” no Congresso Nacional. Bancada até recentemente bastante ativa, e no momento bastante apavorada, fazendo de tudo para proteger o ex-dono do ex-banco; e, assim, seus componentes protegerem-se a si mesmos.

O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido mencionado em reportagens e investigações relacionadas ao caso, principalmente por meio de conexões indiretas ou encontros com Daniel Vorcaro, o dono do banco.

Em dezembro de 2024, Vorcaro teria se reunido com Lula no Palácio do Planalto, sem registro na agenda oficial do presidente. Esse encontro foi intermediado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuava como consultor do Banco Master na época.

Também chamam atenção e geram suspeitas os contratos da Biomm com o Ministério da Saúde: Vorcaro é acionista da Biomm (empresa de biotecnologia) por meio de um fundo de investimento. Em 2025, a Biomm firmou contratos no valor de R$ 303,65 milhões com o Ministério da Saúde para fornecer insulinas ao SUS.

O fato é que esse “escândalo do fim do mundo” cresce a olhos vistos. A opinião pública pressiona e a imprensa faz o seu papel. Devendo-se destacar nesse particular as denúncias provenientes da pertinácia investigativa da jornalista Malu Gaspar. As suas reportagens sobre o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes tiveram enorme repercussão.

Aqui, chamo a atenção para um aspecto particular das reações às denúncias de Malu Gaspar: parte da imprensa de esquerda posicionou-se em modo de desconstrução de tais denúncias e em ataque aberto à corajosa jornalista. No momento, essa imprensa esquerda chapa-branca ataca qualquer agente de mídia que noticie antigos contatos entre Vorcaro e o governo do PT.

No entanto, já se confirmou que Daniel Vorcaro e diretores do Banco Master tiveram pelo menos quatro encontros com o presidente Lula no Palácio do Planalto; não se sabendo, entretanto, se, em tais encontros, as conversas foram sórdidas ou honestas. O ministro Fernando Haddad e a ministra Gleisi Hoffmann, ao confirmarem alguns desses encontros, afirmam que foram legítimos e republicanos. Acredite quem quiser.

A Fratura Atlântica e a Nova Geometria do Comércio Global

A ordem atlântica pós-1945 não terminou com um lamento, mas com a tomada de território e um sequestro. Em apenas duas semanas, em janeiro de 2026, o presidente Donald Trump desmantelou efetivamente a arquitetura de segurança e econômica do Ocidente. O anúncio neste fim de semana de tarifas punitivas contra oito nações europeias — supostamente por sua recusa em concordar com a venda da Groenlândia — destruiu a ilusão de que a União Europeia poderia “esperar” ou “gerenciar” o segundo governo Trump.

Poucos dias depois de as forças americanas lançarem a “Operação Resolução Absoluta” para capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, a declaração das tarifas forçou Bruxelas a uma constatação que havia sido adiada por lisonjas e paciência estratégica: os Estados Unidos não são mais um parceiro, mas um hegemônico imprevisível que age por impulso. A vítima imediata é a aliança transatlântica; o resultado a longo prazo pode ser um realinhamento do Sul Global e da Ásia que deixará Washington isolada em seu próprio hemisfério.

O Fim da Diplomacia “Taco”

Durante o último ano, os mercados europeus operaram sob a reconfortante teoria do “Taco” — “Trump Always Chickens Out” (Trump sempre recua). Acreditava-se que as ameaças do presidente americano eram piores do que suas ações, como evidenciado pelo acordo comercial diluído assinado em julho de 2025 em Turnberry. Essa complacência evaporou no sábado.

As novas tarifas — 10% a partir de 1º de fevereiro, subindo para 25% em junho — visam os principais motores econômicos da UE (Alemanha, França, Holanda) e seus parceiros de segurança mais próximos (Reino Unido, Noruega). Ao vincular explicitamente as sanções comerciais a uma disputa territorial soberana sobre a Groenlândia, Trump cruzou uma linha vermelha. Ele está usando o mercado americano como arma não para alavancagem econômica, mas para expansão territorial.

A resposta da UE mudou da conciliação para o confronto. O “Instrumento Anti-Coerção” — a “bazuca” comercial de Bruxelas, originalmente projetada para a China — está sendo preparado para Washington. Se ativado, congelará o acesso dos EUA aos mercados europeus de compras públicas e propriedade intelectual, uma medida que seria impensável há dois anos. A tragédia para os atlantistas europeus é que essa guerra comercial mata efetivamente a trégua de julho de 2025, deixando as indústrias do continente expostas justamente quando as “Tarifas Recíprocas” dos EUA (variando de 20% a 50%) começam a surtir efeito. A Tábua de Salvação do Mercosul: Um Escudo Geopolítico

Não é coincidência que, enquanto a ponte transatlântica se desfazia, outra estava sendo construída em Assunção. A assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul em 17 de janeiro — após 25 anos de negociações tortuosas — é a resposta direta à volatilidade americana.

Historicamente, esse acordo foi paralisado pelo protecionismo agrícola francês e por preocupações ambientais. Sua finalização repentina foi impulsionada por uma necessidade geopolítica urgente. Com o mercado americano se fechando e a China utilizando os metais raros como arma (como visto no “Segundo Choque da China” de 2025), a Europa enfrentava a asfixia econômica. O acordo com o Mercosul, que cria um mercado de 700 milhões de pessoas, é agora o pulmão de emergência da Europa.

Para a América Latina, o acordo é igualmente vital. A região ainda se recupera do choque da intervenção americana na Venezuela. A imagem das forças americanas bombardeando Caracas e transportando um chefe de Estado para Nova York reviveu as memórias mais sombrias da Operação Condor e do imperialismo do século XX. O apelo do presidente brasileiro Lula por “coragem política” não foi apenas retórica; foi um pedido por uma alternativa estratégica à dominação americana. Ao assinar com a Europa, as nações do Mercosul sinalizam que não serão estados vassalos em uma nova era da Doutrina Monroe.

Venezuela e a Consolidação dos BRICS

O ataque da “Operação Resolução Absoluta” contra a Venezuela fez mais para unificar o bloco BRICS do que uma década de cúpulas. Enquanto Washington enquadrou a captura de Maduro como um triunfo no combate ao narcotráfico, o Sul Global a vê como uma violação da soberania que poderia acontecer com qualquer um deles.

Essa ansiedade está impulsionando uma rápida consolidação dos BRICS como uma fortaleza econômica defensiva. O ataque justifica a busca do bloco pela desdolarização; nenhum país quer ter suas reservas detidas por uma nação que pode bombardear sua capital e prender seus líderes. Para o resto da América Latina, particularmente México e Colômbia, a mensagem é assustadora. Podemos esperar uma mudança drástica em 2026: as capitais latino-americanas provavelmente aprofundarão os laços de segurança e inteligência com a China e a Rússia, não por afinidade ideológica, mas como uma apólice de seguro contra uma Washington imprevisível.

O Paradoxo Asiático: Japão e China no Mesmo Barco

Talvez a maior ironia da agenda de “Tarifas Recíprocas” de Trump seja que ela colocou o Japão e a China no mesmo barco. A tabela de tarifas dos EUA — impondo 60% à China e cerca de 32% ao Japão — trata aliados e adversários com hostilidade quase indistinguível.

O Japão, tradicionalmente o porta-aviões inafundável dos EUA no Pacífico, encontra-se economicamente isolado. Tóquio está agora na posição impossível de depender dos EUA para sua segurança contra a China, enquanto é atingida pela política econômica americana. Isso pode forçar o Japão a uma distensão mais discreta e pragmática com Pequim e a uma busca mais agressiva por comércio com a Europa e a América Latina.

Para a China, a cisão entre EUA e UE é um presente estratégico. Apesar da retórica de “redução de riscos” da UE e das fricções sobre as exportações chinesas de veículos elétricos, a pura necessidade de sobrevivência pode forçar Bruxelas e Pequim a um casamento de conveniência. Se o mercado americano estiver fechado, a Europa precisa de compradores chineses e da tecnologia chinesa de energia solar/baterias para sobreviver à transição energética.

Conclusão: O Mundo Fragmentado

Os eventos de janeiro de 2026 marcam o fim definitivo do bloco “ocidental” como uma entidade econômica unificada. Estamos testemunhando o surgimento de um mundo de três blocos:

Fortaleza América: Isolada, protecionista e cada vez mais militarista em seu próprio hemisfério. A Deriva Euro-Atlântica: Uma Europa confusa tentando se equilibrar entre um EUA hostil, um Mercosul necessário e uma China inevitável.

O Sul Global (BRICS+): Agora munido do capital moral e político para rejeitar a hegemonia dos EUA após a intervenção na Venezuela.

A guerra comercial pela Groenlândia não se trata apenas de peixe ou gelo: é a rachadura final nos alicerces da aliança que venceu a Guerra Fria. A Europa percebeu que, no mundo de 2026, está, na prática, sozinha.

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Domínio Mineral Chinês

A recente aquisição de subsidiárias da canadense Equinox Gold pela gigante CMOC, em uma transação de US$ 1 bilhão, não é apenas um movimento de mercado, é um marco geoeconômico. Ao assumir o controle das minas de Aurizona (MA), Riacho dos Machados (MG), Fazenda e Santa Luz (BA), a estatal chinesa não apenas expande seu faturamento — que atingiu R$ 5,6 bilhões em 2025 —, mas verticaliza seu domínio sobre recursos que são, em última análise, ativos estratégicos da soberania brasileira.

A CMOC consolidou-se no Brasil operando nióbio e fertilizantes desde 2016. Ao absorver o ouro da Equinox, a empresa diversifica seu portfólio em um momento de valorização histórica do metal. Contudo, o ponto nevrálgico é a internalização das etapas produtivas. Ao controlar a extração em solo nacional e a comercialização global via sua trading, a IXM, Pequim consolida seu domínio sobre as etapas da cadeia produtiva. Para o Brasil, resta a exportação de baixo valor agregado e o recebimento de royalties, enquanto a inteligência estratégica sobre o destino desses minerais é transferida para a China.

O interesse chinês é cirúrgico. O ouro tornou-se o refúgio supremo diante da instabilidade entre os blocos ocidentais e asiáticos em 2026. Todavia, o verdadeiro foco geopolítico reside nos minerais críticos. O Brasil detém cerca de 90% das reservas mundiais de nióbio, material indispensável para ligas de aço de alta resistência e supercondutores. A vulnerabilidade reside em permitir que o controle desses ativos — onde o país possui um monopólio geológico — seja concentrado em um único ator estatal estrangeiro, sem que haja contrapartidas em transferência tecnológica ou agregação de valor em solo nacional.

O cerne do problema é a profunda assimetria regulatória. Enquanto EUA, Austrália e a própria China endureceram legislações para monitorar investimentos estrangeiros em setores estratégicos, o Brasil carece de um mecanismo de triagem (screening) institucionalizado. Sem um equivalente ao CFIUS norte-americano, o Estado vê-se desprovido de base legal para avaliar se a transferência de ativos compromete a autonomia futura. Opera-se sob uma lógica comercial de curto prazo, negligenciando que a soberania hoje é exercida pelo controle das cadeias de suprimentos. Em essência: O Brasil está vulnerável.

A hegemonia chinesa reside no processamento químico, onde domina 90% da capacidade global de refino. Possuir reservas abundantes é inútil se a tecnologia de separação reside além-mar. Se o Brasil não exigir o refino doméstico, continuará a ser um exportador de solo e um importador de futuro, fornecendo ingredientes para uma revolução tecnológica da qual não é convidado a participar.

A criação de um marco legal de investimentos estratégicos deixou de ser uma opção burocrática para tornar-se uma imperatividade de sobrevivência. O Brasil precisa compreender que, no xadrez de 2026, nem todo dólar possui o mesmo peso. Instituir filtros não significa repelir capital, mas exercer a prerrogativa de um Estado soberano que protege sua inteligência e seus recursos estratégicos inalienáveis. 

A farsa do 8 de janeiro

Três anos após os eventos de 8 de janeiro de 2023, a insistência do governo federal em sustentar a narrativa de uma “tentativa de golpe de Estado” revela-se cada vez menos um compromisso com a verdade factual e cada vez mais um expediente político. O episódio, que entrou para a história como um grave ato de vandalismo contra prédios públicos, vem sendo artificialmente inflado para servir como espantalho simbólico, usado para justificar excessos institucionais, silenciar opositores e desviar a atenção do desempenho pífio do governo em áreas centrais da administração pública.

Do ponto de vista técnico, jurídico e político, a tese de golpe não se sustenta.

Um golpe de Estado, conforme a ciência política e o direito constitucional, pressupõe elementos objetivos: liderança clara, coordenação estratégica, apoio ou ruptura dentro das Forças Armadas, controle de meios institucionais de poder e um projeto concreto de tomada e manutenção do governo. Nada disso esteve presente no 8 de janeiro. O que se viu foi uma massa desorganizada, sem comando central, sem respaldo institucional, sem apoio militar e sem qualquer capacidade real de substituir a ordem constitucional vigente.

Tratar vandalismo como golpe não é apenas um erro conceitual — é uma distorção deliberada.

A fragilidade dessa narrativa fica ainda mais evidente quando se analisam os próprios processos judiciais decorrentes dos fatos. Há denúncias de individualização precária de condutas, penas desproporcionais, inversão do ônus da prova e julgamentos que parecem mais orientados por uma lógica exemplarizante do que pelo devido processo legal. Em vez de responsabilização objetiva e equilibrada, optou-se por uma justiça de caráter simbólico, cujo objetivo maior parece ser a reafirmação de uma versão política previamente construída.

Se o 8 de janeiro tivesse sido, de fato, uma tentativa real de golpe, seria razoável esperar a identificação de líderes políticos relevantes, articuladores institucionais e financiadores com atuação comprovada. No entanto, três anos depois, não há nomes de peso do Congresso Nacional envolvidos, não há generais, não há governadores, não há cúpulas partidárias. A ausência de lideranças desmonta, por si só, a tese de uma conspiração estruturada contra o Estado democrático de direito.

Ainda mais revelador é o esvaziamento político e popular das cerimônias promovidas pelo presidente Lula para “relembrar” a data. Sem apelo popular, sem mobilização espontânea da sociedade e sem a presença significativa de líderes do Legislativo, os atos oficiais tornaram-se eventos protocolares, sustentados artificialmente pela máquina estatal e pela retórica governamental. A cada ano, fica mais evidente que o 8 de janeiro mobiliza mais o discurso do Planalto do que a consciência coletiva da população.

E não é difícil compreender o motivo.

Diante de dificuldades econômicas, aumento do custo de vida, crise fiscal, insegurança jurídica, desgaste internacional e promessas de campanha não cumpridas, o governo encontrou no 8 de janeiro um instrumento narrativo conveniente. Ao manter viva a ideia de um “golpe permanente”, cria-se um inimigo difuso, útil para justificar erros, atacar adversários e tentar preservar uma base política cada vez mais insatisfeita.

O problema é que democracias não se fortalecem com mitos, mas com fatos. Não se protegem instituições com narrativas forçadas, mas com respeito às garantias legais, à proporcionalidade das penas e à pluralidade política. Transformar um episódio de vandalismo grave — que deve, sim, ser punido nos limites da lei — em um marco fundacional de um governo é um sinal de fraqueza, não de força.

Três anos depois, o 8 de janeiro já não se sustenta como ameaça à democracia. Sustenta-se apenas como instrumento retórico de um governo que, incapaz de apresentar resultados concretos, precisa olhar constantemente para o passado para justificar o presente.

E quando um governo precisa de um espantalho para sobreviver politicamente, o problema não está na oposição — está na sua própria incapacidade de governar.

Facção criminosa e organização terrorista

Eu assisti, ninguém me contou. No decorrer da invasão das sedes dos três poderes em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023, o apresentador da Globo News chamou repetidamente os vândalos de terroristas. Depois a emissora corrigiu essa abordagem (sem dizer que corrigiu, nem porque corrigiu). Os invasores tinham intenções golpistas (chamar uma intervenção militar para interromper o mandato do presidente recém-eleito e já empossado, Lula da Silva), mas eles eram terroristas?

Jair Bolsonaro (já eleito e ainda não empossado) declarou no final de 2018 na avenida Paulista: “Bandidos do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], bandidos do MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem Teto], as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Ou vocês se enquadram e se submetem às leis ou vão fazer companhia ao cachaceiro lá em Curitiba [Lula]”. Os militantes do MST (de Stédile) e do MTST (de Boulos) são terroristas?

Putin acaba de fazer aprovar nestes dias, pelo parlamento fantoche da ditadura russa, um tratado de parceria estratégica com o ditador Maduro para, entre outras coisas, combater o… terrorismo. Ele, Putin, há sete anos, já havia chamado os opositores de Maduro (Maria Corina incluída) de terroristas e continua qualificando seus próprios opositores na Rússia como terroristas. O mesmo faz o ditador Erdogan na Turquia. Estão vendo como esse assunto é delicado?

O terrorismo é caracterizado por seu propósito e pelos seus métodos. O propósito do terrorismo é instalar, infundir ou difundir, o terror em populações, atingindo inocentes, com objetivos políticos. Os métodos do terrorismo são as ações violentas que atentam contra a vida, restringem brutalmente a liberdade ou impõem sofrimentos aos semelhantes, mas também visam causar perdas materiais e desorganizar a economia.

A ONU discute sem sucesso, desde 2004, um acordo para chegar a uma definição política de terrorismo. Um texto antigo em debate, de 1996, já caracterizava terrorismo como “o ato intencional e ilegal que provoca mortes, ferimentos e danos à propriedade pública ou privada, com o objetivo também de causar perdas econômicas, intimidação da população e de forçar um governo ou uma organização internacional a tomar ou se abster de uma decisão”.

Mas praticar atos que infundem o terror nem sempre é suficiente para caracterizar uma organização como terrorista. Por exemplo, em guerra mudam-se os critérios. No caso da guerra de secessão americana (1861-1865), quem era terrorista: os confederados ou os yankees? A pergunta procede porque ambos praticaram atentados contra a vida e contra propriedades com objetivo político de infundir o terror em populações indefesas (arrasando comunidades de não-combatentes, queimando plantações, abatendo o gado), mas aí não era terrorismo. Quer dizer que a guerra absolve o terrorismo?

La Résistance, a resistência francesa à ocupação hitlerista, era terrorista? Era uma organização armada, não-regular, não-legal, que praticava atos violentos (matava, sequestrava, mutilava seres humanos, sabotava, explodia bombas etc.) com efeitos claramente propagandísticos: visando atemorizar a população civil para dissuadi-la de colaborar com o nazismo. E aí? Aí vale porque os invasores eram estrangeiros? Quer dizer que o que define terrorismo não é a natureza das ações praticadas e sim os motivos pelos quais foram praticadas? Quer dizer que se ações tipicamente terroristas forem praticadas em defesa da pátria ou da nação – e da soberania nacional – está valendo? Que ética é capaz de resistir a tais critérios?

Além disso, todos os governos autoritários classificam seus opositores mais incômodos como terroristas e, para tornar juridicamente válida essa classificação, tentam criar novas leis (ou modificar leis já existentes) para tipificar como terroristas as ações ofensivas dos que se lhe opõem.

O assunto é espinhoso e exige que nos concentremos no básico. E o básico é o seguinte:

Organizações terroristas sempre têm uma causa político-religiosa (incluídas aí as religiões laicas, como certas ideologias revolucionárias). Na verdade o terrorismo é, a rigor, uma via antipolítica para alcançar algum objetivo não-mercantil (ou extra-mercantil).

Facções criminosas não são organizações terroristas. Elas não têm causa nenhuma. Não se vê “soldados” do narcotráfico (ou “trabalhadores do narcotráfico”, segundo Gustavo Petro) sacrificando suas vidas para atingir um objetivo. Por exemplo, se imolando em praça pública ou detonando um colete de explosivos no meio de uma multidão para matar o maior número de pessoas. Não se vê nem mesmo um “lobo solitário” do narcotráfico esfaqueando uma pessoa na rua em nome da sua causa de libertação (como faziam os zelotas na antiga Palestina ocupada pelos romanos) ou em nome da instauração de um califado universal (como os jihadistas do Estado Islâmico ou da Al Qaeda).

Facções criminosas, ditas do narcotráfico, como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, são organizações com objetivos de lucro. São empresas bandidas. Ou seja, seu comportamento não é presidido por uma racionalidade extra-mercantil. Pode-se dizer que são um novo tipo de organização criminosa para o enfrentamento do qual as forças de segurança não estão preparadas.

A rigor as facções criminosas, em especial o PCC, não são mais nem organizações dedicadas ao tráfico de drogas como seu negócio principal. São uma espécie de máfia (amoral, mas sem familismo), de base prisional (parte de seus principais comandantes estão protegidos dos seus concorrentes nas prisões, sob custódia do Estado), que lucram com a venda e a cobrança ilegal de serviços, a imposição de taxas sobre negócios privados e a extorsão da população capturada em seus territórios.

Segundo artigo de Arthur Trindade, publicado no Correio Braziliense de ontem, “um relatório do Ministério da Justiça apontou que, em 2024, existiam 88 facções de base prisional no Brasil. Sendo que 72 delas têm atuação local como os Bala na Cara, do Rio Grande do Sul, e o Comboio do Cão, do Distrito Federal. Há 14 facções regionais que atuam em mais de dois estados como o Comando da Fronteira, a Família do Norte e os Guardiões do Estado. O relatório também aponta a existência de duas facções nacionais: o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Elas estão presentes em quase todos os estados e têm conexões internacionais”.

Fala-se de uma coordenação entre governos federal e estaduais para enfrentar o crime organizado. Não basta. A situação chegou a tal ponto que é necessário um verdadeiro pacto social. Por mais que se aumente a repressão, a inteligência e os recursos, isso não bastará. É necessária a participação da sociedade e, inclusive, a colaboração das populações sequestradas nos territórios dominados pelas facções (muitas vezes na forma de resistência que não pode se revelar). Todavia, governos populistas, ditos de esquerda ou de direita, não são capazes de promover nada disso. Os de esquerda continuam acreditando que a criminalidade deriva da desigualdade social – o que leva à uma perigosa leniência, como se os criminosos fossem rebeldes primitivos que só existissem em razão da brutal desigualdade social e da exploração econômica, da opressão política e da dominação e discriminação ideológica das elites, dos capitalistas, dos imperialistas, dos neocolonialistas, sobre os trabalhadores ou o povo pobre. Os de direita continuam acreditando que existem os homens do bem e os homens do mal e que os primeiros devem exterminar os segundos pela força bruta, extirpando as maçãs podres da cesta – o que é a barbárie.

Definir as facções criminosas como organizações terroristas é uma armadilha autoritária. É conveniente para os que acham que se trata de eliminar fisicamente os bandidos (na base do “bandido bom é bandido morto”, ao arrepio das normas que regem os Estados democráticos de direito). Ninguém se escandaliza quando forças de segurança policiais ou militares abatem a tiros um terrorista, seja em Telavive, em Chicago, em Londres ou Amsterdã. Ninguém cobra que o terrorista seja preso, após a leitura de seus direitos e apresentado a um juiz. Há um consenso (tácito) sobre isso, que atravessa as ditaduras e chega até às mais plenas democracias liberais.

Mas matar os membros das facções criminosas não resolve o problema. Mil chacinas policiais ou militares não resolverão o problema. Cada “soldado” morto no narcotráfico será substituído rapidamente por outro. Cada “comandante” morto será sucedido por outro. Antes de qualquer coisa porque, a despeito dos riscos imensos, o negócio é muito lucrativo. E também porque o ambiente configurado nas favelas e periferias é favorável à instalação e replicação de uma cultura que valida, aos olhos de parte das comunidades, tal comportamento. Os feitos dos “heróis insurgentes” dos morros são cantados em prosa ou verso por artistas populares, cujas músicas são ouvidas por todos, crianças, jovens, adultos e idosos que nada têm a ver com o crime. Sim, o que estou dizendo é que há base social que permite que esse tipo de organismo nasça, cresça, se desenvolva e se reproduza.

Vários fatores combinados permitiram (e continuam permitindo) o surgimento (e a proliferação) desse tipo de organização criminosa. O principal desses fatores é uma depressão no campo interativo que extermina velozmente capital social. CV, PCC e Milícias surgem desse black hole. Uma deformação do tecido da sociedade – e uma degeneração do Estado inclusive (sobretudo no caso das milícias, que não surgem por ausência de Estado já que são uma espécie de dark side do próprio Estado). As facções criminosas do narcotráfico são uma degeneração do modo de agenciamento chamado mercado, assim como as milícias são uma degeneração do modo de agenciamento chamado Estado. Mas esse é assunto para um próximo artigo.

Principais características dos democratas

1 – Democratas se opõem e resistem a qualquer tirania (seja dita de direita ou de esquerda). Entendem que a democracia é um processo constante de desconstituição de autocracia, não uma utopia, um modelo perfeito de regime político ou de sociedade ideal.

2 – Quando dirigindo governos, democratas podem estabelecer relações comerciais com quaisquer países, mas não entram em articulações políticas compostas majoritariamente por ditaduras, se alinhando a eixos autocráticos de países para combater as democracias liberais. Todavia, democratas chefiando governos não sabotam sanções dos países democráticos impostas a regimes que violam as leis internacionais e os direitos humanos.

3 – Democratas não praticam a política como continuação da guerra por outros meios (e por isso recusam o majoritarismo, o hegemonismo e o “nós contra eles”); ou seja, para os democratas, a democracia não é uma luta para impor às sociedades uma ordem por eles concebida (nem mesmo se for uma ordem que avaliam ser a mais justa imaginável do mundo).

4 – Democratas protegem os direitos individuais e das minorias (sociais e políticas) contra a tirania do Estado e a tirania da maioria.

5 – Democratas defendem que a sociedade deve controlar o governo e não o contrário, porque avaliam que a qualidade da democracia é medida pelos limites e condicionamentos impostos pela sociedade às instituições do Estado.

6 – Democratas tomam a liberdade e não a ordem como sentido da política (e é nesse sentido originário do termo que podem se dizer liberais). Democratas acreditam que a liberdade de alguém começa justamente quando começa, e não quando termina, a liberdade do outro (ou seja, que ninguém pode ser livre sozinho).

7 – Democratas não querem destruir nenhum ‘sistema’ supostamente responsável por todo mal que assola a humanidade. São reformistas inovadores, não reacionários disfarçados de conservadores, nem revolucionários travestidos de progressistas.

8 – Democratas se dedicam a fermentar o processo de formação de uma opinião pública democrática. Não querem conduzir massas, nem ser uma massa cada vez mais volumosa para impor, pela força do seu número, sua vontade aos demais atores políticos e à sociedade. São o fermento, não a massa.

9 – Democratas não são populistas, não acham que a sociedade está atravessada por uma única clivagem que opõe o povo (o “verdadeiro povo”, composto pelos que seguem os líderes populistas) às elites (ou ao ‘sistema’).

10 – Democratas não reduzem a democracia à eleições.

11 – Democratas respeitam o Estado democrático de direito, não violam as leis escritas e procuram se adequar às normas não escritas que garantem a vigência dos critérios da legitimidade democrática (a liberdade, a eletividade, a publicidade ou transparência, capaz de ensejar uma efetiva accountability, a rotatividade ou alternância, a legalidade e a institucionalidade).

12 – Democratas defendem instituições estáveis, equilíbrio entre os poderes, sistemas atuantes e efetivos de freios e contrapesos, judiciário independente e autocontido em suas atribuições.

13 – Democratas defendem que as oposições políticas democráticas devem ser reconhecidas e valorizadas como players legítimos e fundamentais para o bom funcionamento do regime democrático (que, avaliam, não pode existir em sua plenitude sem oposição).

14 – Democratas trabalham para universalizar a cidadania, mas não confundem democracia com cidadania, não acham que a igualdade socioeconômica seja precondição para a liberdade política, defendem os direitos das minorias (e não só das minorias sociais, mas também das minorias políticas). Democratas são pluralistas, nos sentidos social e político do termo.

15 – Democratas reconhecem a soberania como um valor nacional, mas não como um valor universal acima da democracia. A soberania de um país não pode se sobrepor ao valor universal da democracia, nem de suas dimensões correlatas: por exemplo, democratas reconhecem e apoiam a Declaração Universal de Direitos Humanos (o que não fariam em relação à quaisquer declarações nacionais de direitos humanos, que poderiam ser forjadas por autocracias). Democratas avaliam que a soberania é um conceito que se aplica a países (Estados-nações) e não aos governantes, aos seus partidos e a outras instituições, privadas ou públicas, por eles controladas.