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Uma conversa honesta com o povo brasileiro e um alerta duro para os suspeitos de sempre

Não é fácil escrever um texto desse tipo — dá a impressão de que sou um oráculo e que apenas eu enxergo a verdade. Por isso, começo dizendo o óbvio: este texto apenas organiza, em palavras e parágrafos estruturados, o que muitos analistas de mercado já sabem com razoável grau de precisão. Seu único mérito é deixar claras as consequências econômicas de uma reeleição de Lula.

Tecnicamente, uma relação dívida/PIB elevada não é, por si só, motivo para alarde. É evidente que um endividamento elevado cria fragilidades e expõe o país a riscos maiores — sobretudo aos chamados riscos de cauda, que a literatura batiza de “cisnes negros”. Mas, na maior parte do tempo, se for possível rolar a dívida a taxas baixas, o problema do endividamento se reduz bastante.

Infelizmente, não é o caso do Brasil. Atualmente, a dívida bruta brasileira está em 81,9% do PIB

— patamar elevado para um país com o nosso nível de renda. Para dar uma ideia da trajetória: em dezembro de 2022, esse valor era de 71,7%. Ou seja, em três anos e meio, a dívida pública brasileira cresceu incríveis 10,2 pontos percentuais do PIB. E não bastasse o nível já elevado, o custo de rolagem dessa dívida está em patamares insustentáveis. Basta dizer que, em junho deste ano, o déficit nominal do setor público acumulado em 12 meses chegou a R$ 1,3 trilhão — 10% do PIB, valor superior ao registrado durante a pandemia de Covid-19.

Em termos técnicos, um país com o endividamento atual do Brasil e um custo de rolagem que em alguns casos chega a IPCA +8,3% é economicamente inviável. Essa taxa de juros implica um custo de rolagem capaz de dobrar o tamanho da dívida em menos de seis anos — algo insustentável dado o volume já acumulado. Tanto o endividamento em relação ao PIB quanto o custo de rolagem estão em níveis críticos, e esse custo drena recursos que poderiam financiar o crescimento do setor privado, direcionando-os para títulos do Tesouro. Além disso, o Estado passa a competir cada vez mais por recursos com o setor privado, encarecendo o custo de produção no Brasil — o efeito conhecido na literatura como crowding-out: à medida que o gasto do governo aumenta, o gasto do setor privado encolhe. Some-se a isso o aumento da carga tributária necessário para sustentar a expansão dos gastos públicos, e teremos uma situação extremamente difícil para o setor privado da economia.

O endividamento elevado, o aumento dos gastos e o custo de rolagem da dívida pública retiram recursos do setor privado e os transferem ao setor público, com efeitos negativos diretos sobre

produtividade, emprego e renda da sociedade. Nada disso é novidade para quem acompanha temas econômicos. Vamos então avançar um passo: é justamente por causa dessa situação fiscal delicada que a eleição do próximo presidente é decisiva para o que vai acontecer em 2028.

Note-se que o destino de 2027 já está dado: haverá redução da atividade econômica, pouco importa quem seja o próximo presidente. A dúvida real é o tamanho dessa retração e o que vem depois, em 2028. Vejamos dois cenários possíveis.

Primeirocenário:elegemos um candidato comprometido com o ajuste das contas públicas. Dado o tamanho do desarranjo fiscal, esse ajuste provocará redução da atividade econômica em 2027. Mas, se as medidas forem tomadas na direção correta, a trajetória da dívida/PIB se corrige, e a partir do segundo semestre de 2028 começa um processo de recuperação econômica. Uma equipe econômica experiente é capaz de colocar a casa em ordem em cerca de um ano e meio. Não é fácil, e não vamos virar a Suíça — mas é perfeitamente possível com técnica, experiência e credibilidade. Em paralelo, um amplo processo de desburocratização, desregulamentação, privatizações, abertura econômica e outras medidas pró-mercado tem potencial de destravar um crescimento relevante, reduzindo os custos do ajuste e liberando recursos para que o setor privado retome seu papel central no aumento da produtividade, na geração de empregos e no crescimento da renda. Combinadas, essas medidas fiscais e pró-mercado têm potencial de reduzir a taxa de juros estrutural, ancorar expectativas, reduzir o custo-país, reduzir o risco-Brasil, reduzir a inflação e elevar investimento, emprego e renda.

Segundo cenário: elegemos um candidato não comprometido com o ajuste fiscal, que apenas empurra com a barriga o problema das contas públicas e da baixa produtividade da economia brasileira. Nesse caso, ocorre um processo acelerado de desancoragem das expectativas, aumento do risco-Brasil e pressão simultânea sobre juros e inflação. Esse processo não se reverte nem com corte de juros pelo Banco Central — justamente por causa do nosso endividamento elevado e da fragilidade fiscal. Mesmo que o BC reduza a Selic, o Tesouro acaba pressionado a pagar juros mais altos em seus títulos, o que piora ainda mais a situação fiscal e retroalimenta um círculo vicioso: contas públicas piores, risco-país maior, inflação elevada e juros cada vez mais altos para rolar a dívida.

E aqui deixo meu alerta para os suspeitos de sempre: muitos de vocês apostam justamente no segundo cenário, na expectativa de embolsar taxas de IPCA +10%, +11% ou +12%. Prestem atenção no que vou dizer: um governo eleito nesse segundo cenário não terá problema algum em aprovar controle de capitais e um “haircut” na dívida. Sim, meus amigos — esse termo já rondou

a Casa Civil em 2015, quando alguns “craques” sugeriam exatamente isso: um haircut na dívida, ou, em palavras simples, um calote em parte dela.

Entendo o raciocínio de vocês, mas falta um segundo passo na análise. Vocês acreditam que um governo sem compromisso fiscal vai pagar juros elevados para rolar a dívida e que vocês vão embolsar um bom dinheiro com isso. Essa leitura está correta — para o primeiro momento. Mas, no momento seguinte, quando a situação ficar insustentável, vocês realmente acreditam que vão receber tudo o que lhes é devido? Não se iludam: um governo sem compromisso fiscal não tem dificuldade nenhuma em dar o calote nos detentores de títulos — especialmente nos que têm os valores mais altos.

Fica registrado o alerta: eleger Lula joga o Brasil no segundo cenário. E a você, que carinhosamente chamo de “suspeito de sempre” — que vive vazando informações para a imprensa dizendo que um eventual governo Lula 4 teria responsabilidade fiscal —, fica o recado: você vai levar um calote nos seus investimentos. E não adianta dizer que isso é péssimo para o Brasil — eu concordo com você. O problema é que você votou e fez campanha justamente por um grupo que não tem problema algum em impor controle de capitais e um haircut. Aposto que agora bateu o medo, certo? Que este alerta sirva para abrir seus olhos. Vamos trabalhar para eleger um presidente que compreenda que a consolidação fiscal e as reformas pró-mercado são essenciais para todo o povo brasileiro — especialmente para os mais vulneráveis, que são as maiores vítimas do desemprego e dos processos inflacionários.

Cazaquistão em Foco

No tabuleiro geopolítico contemporâneo, a Ásia Central transcendeu a condição de periferia pós-soviética para se consolidar como uma das arenas mais estratégicas da Eurásia. Sob a confluência de interesses de Pequim, Moscou, Washington e Bruxelas, a região exige um olhar atento da análise internacional — e é precisamente em seu coração que se desenrola uma das transformações institucionais mais instigantes da atualidade. Maior economia centro-asiática e detentor de recursos energéticos críticos, o Cazaquistão opera uma profunda reorganização em seu modelo de governança.

A política interna em Astana revela um projeto estruturado de reengenharia política. Cujas diretrizes ganharam tração no referendo constitucional de 2022, o processo redefine os limites do Executivo, a dinâmica partidária e a representação popular. A trajetória recente foi marcada pela transição de três décadas sob Nursultan Nazarbayev para a ascensão de Kassym-Jomart Tokayev, cujo governo enfrentou em janeiro de 2022 os protestos do Qantar, evento catalisador da nova arquitetura constitucional.

Buscando desmantelar o modelo superpresidencialista, descentralizar o poder e reduzir privilégios governamentais, essa reformulação terá seu ápice em agosto com a primeira eleição para o novo parlamento: o Kurultai. A principal mudança estrutural reside na transição do antigo modelo bicameral — composto pelo Mazhilis e pelo Senado — para um órgão supremo unicameral de representação, formado por 145 membros eleitos por voto proporcional de listas partidárias para mandatos de cinco anos.

Sob a ótica da Teoria das Instituições, a migração para o unicameralismo busca eliminar aquilo que a Ciência Política classifica como “pontos de veto” (veto players). Ao concentrar o Legislativo em uma única câmara, visa-se acelerar a produção legal e dar previsibilidade à agenda regulatória do Estado. Paralelamente, a escolha do nome Kurultai resgata as antigas assembleias dos povos nômades das estepes. Astana realiza um movimento clássico de “invenção das tradições” — no conceito célebre de Eric Hobsbawm —, ancorando a modernização na identidade nacional para conferir legitimidade ao novo desenho estatal.

Para o observador brasileiro, o processo oferece reflexões profundas. O Brasil convive com os dilemas do presidencialismo de coalizão e de um bicameralismo por vezes moroso, em que negociações pontuais engessam reformas estruturais. Ver uma nação emergente redesenhar sua engenharia política para ganhar eficiência legislativa, sem abrir mão da representatividade, provoca o debate sobre nossas próprias instituições.

No plano internacional, a diplomacia multivetorial e pragmática do Cazaquistão guarda sintonia com a tradição brasileira de autonomia estratégica e não alinhamento automático. Ambos compreendem que a soberania e a atração de investimentos dependem da coesão interna e de uma atuação externa previsível. O laboratório político em Astana demonstra que desenvolvimento econômico e maturidade institucional caminham lado a lado.

O mundo rearmado e a ilusão estratégica brasileira 

Em abril de 2026, o mundo ultrapassou um marco histórico que, embora tratado por parte da imprensa apenas como consequência de guerras recentes, talvez represente uma transformação profunda na ordem internacional. Segundo levantamento do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), principal centro independente de estudos estratégicos do mundo, os gastos militares globais atingiram US$ 2,887 trilhões em 2025, o maior valor registrado desde o início das medições sistemáticas consolidadas após o fim da Guerra Fria.

Trata-se do décimo primeiro ano consecutivo de crescimento. Em apenas uma década, o aumento acumulado ultrapassou 40%. Pela primeira vez desde os momentos mais tensos do século XX, praticamente todas as regiões do planeta ampliaram simultaneamente seus orçamentos de defesa.

Esse aumento não é apenas uma resposta episódica à guerra na Ucrânia, à rivalidade sino-americana, ao agravamento das tensões no Indo-Pacífico ou ao interminável conflito no Oriente Médio. O que está em curso é uma mudança estrutural na percepção das grandes potências sobre o futuro da ordem internacional, baseada na dissolução gradual da arquitetura política, econômica e psicológica que sustentou o mundo pós-1989.

O sistema internacional construído após a queda do Muro de Berlim fundava-se em três premissas: a globalização reduziria incentivos para guerras ou competições estratégicas entre grandes potências; a interdependência produtiva geraria estabilidade; e a hegemonia americana funcionaria como garantia estrutural da ordem. Países profundamente integrados não fariam guerras entre si porque os custos seriam altos demais. O comércio substituiria a geopolítica. Mercados substituiriam disputas de poder. Cadeias globais de produção produziriam estabilidade.

Essa hipótese moldou a arquitetura global pós-1989. A Europa desmontou parte significativa de suas capacidades militares. A Alemanha transformou-se em uma potência econômica deliberadamente desmilitarizada e, por que não, emasculada. A Otan entrou em uma crise existencial após o colapso soviético. Falava-se em “dividendos da paz”. Defesa passou a ser vista como resquício de um século ultrapassado, coisa de brucutus iletrados. Durante quatro décadas, o Ocidente viveu o que o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm chamou de “anomalia histórica”, um raro período em que as grandes potências não se preparavam para guerras de alta intensidade entre si.

Esse diagnóstico revelou-se equivocado. O pós-Guerra Fria não aboliu a geopolítica, apenas a suspendeu temporariamente sob a unipolaridade americana, ou unimultipolaridade, nos termos do cientista político americano Samuel Huntington, que descreveu um sistema internacional híbrido, com os EUA como única potência militar global, mas com o poder econômico repartido entre vários centros.

Essas premissas entraram em colapso simultaneamente. A ascensão chinesa, a recuperação militar russa, o desgaste relativo da capacidade americana de impor ordem global após o Iraque e o Afeganistão e a crescente instrumentalização econômica da tecnologia recolocaram a competição entre Estados no centro da política internacional. Sistemas unipolares raramente são permanentes, e a evolução da sociedade internacional quase nunca se comporta como imaginam os teóricos liberais do fim da história.

O crescimento dos gastos militares não se apresenta, portanto, apenas como fenômeno orçamentário, mas civilizacional. As grandes potências já não acreditam que o futuro será necessariamente mais estável que o passado. O mundo voltou a operar sob a lógica da insegurança estrutural e da geopolítica clássica, e essa talvez seja a transformação mais importante do século XXI até agora.

Como advertiam Morgenthau, Kennan e Kissinger, competição entre Estados, equilíbrio de poder e percepção de vulnerabilidade jamais deixaram de constituir o núcleo organizador da política internacional. Entretanto, a ideia de que prosperidade econômica produz automaticamente convergência política dominou o pensamento estratégico das elites ocidentais desde a década de 1990, moldando a relação com a China, a Rússia e a arquitetura financeira global. O erro analítico fundamental dessa premissa foi imaginar que racionalidade econômica substituiria racionalidade histórica, identitária e estratégica e que a burocracia tecnocrática substituiria a força dos nacionalismos. Não substituiu. Não substitui.

Essa interpretação confundiu uma conjuntura histórica específica com uma real transformação da natureza da política internacional. Historicamente, forças centrífugas de fragmentação têm se mostrado mais resilientes do que forças centrípetas de convergência. A China usou precisamente a integração econômica para financiar sua ascensão, incorporando cadeias globais, absorvendo tecnologia, expandindo capacidade manufatureira, acumulando reservas gigantescas e construindo um modelo de capitalismo de Estado orientado para competição estratégica de longo prazo.

A Rússia seguiu trajetória distinta, mas igualmente reveladora. Enquanto o Ocidente acreditava que a integração reduziria impulsos revisionistas, Moscou interpretava o avanço da Otan em sua periferia como ameaça existencial. A invasão da Geórgia, em 2008, a anexação da Crimeia, em 2014, e a invasão da Ucrânia, em 2022, demonstraram que cálculos geopolíticos continuavam prevalecendo sobre a racionalidade econômica estrita.

O caso iraniano é ainda mais emblemático e revela outra limitação dessa visão liberal: a crença de que sanções econômicas e isolamento financeiro seriam suficientes para neutralizar ambições estratégicas de Estados revisionistas. Submetido durante décadas a pesadas restrições econômicas, o Irã não abandonou seus objetivos geopolíticos. Ao contrário. Desenvolveu sofisticada arquitetura de guerra assimétrica baseada em mísseis balísticos, drones, guerra cibernética e redes de proxies regionais, tornando-se um dos principais polos de instabilidade do Oriente Médio. Em vez de buscar simetria militar convencional com os EUA, Teerã construiu capacidade de impor custos desproporcionais a adversários muito superiores militarmente. O caso iraniano demonstra que, em contextos de rivalidade estratégica profunda, resiliência ideológica, percepção de ameaça existencial e ambição regional prevalecem sobre a racionalidade econômica convencional.

Essa mudança tornou-se explícita na própria formulação doutrinária americana. As recentes National Security Strategy (NSS) e National Defense Strategy (NDS) abandonaram a linguagem da globalização e passaram a definir o cenário internacional como competição sistêmica entre grandes potências, percepção que ajuda a explicar por que os gastos militares crescem simultaneamente em praticamente todas as regiões estratégicas do planeta.

A nova corrida armamentista, entretanto, não se parece com a do século XX. O poder militar já não se mede apenas por arsenais nucleares, divisões blindadas, superioridade aérea e naval e capacidade industrial pesada. Hoje, a natureza do poder tornou-se mais difusa, sofisticada e integrada à estrutura econômica das sociedades, às cadeias produtivas, à infraestrutura digital, à inteligência artificial, aos semicondutores, às telecomunicações, ao espaço, à energia, à mineração, ao espaço virtual e ao controle de dados. Defesa, tecnologia, agro, indústria, comércio, segurança pública e soberania econômica deixaram de ser esferas separadas para formar um único ecossistema de poder nacional.

A trajetória é instrutiva. Na Guerra do Golfo, os EUA demonstraram uma superioridade tecnológica inédita. À época, muitos acreditaram que o futuro da guerra seria marcado apenas pela supremacia tecnológica americana. Mas as guerras do Iraque e do Afeganistão revelaram os limites da superioridade convencional diante de insurgências relativamente baratas e altamente adaptáveis.

Posteriormente, a ascensão chinesa expôs outra dimensão do problema: competição geopolítica depende não apenas de superioridade militar direta, mas da capacidade de controlar cadeias industriais críticas, dominar tecnologias emergentes e reduzir vulnerabilidades econômicas. Pequim não buscou apenas expandir suas Forças Armadas, mas construir autonomia sistêmica de poder, ao controlar infraestrutura logística global, ampliar domínio sobre minerais críticos, liderar setores estratégicos e reduzir dependências tecnológicas externas.

Reativamente, Washington passou a restringir exportações de semicondutores avançados, subsidiar a produção doméstica de chips, reorganizar cadeias produtivas estratégicas e tratar setores econômicos inteiros como ativos de segurança nacional. A política industrial, algo que parecia quase heresia liberal nos anos 1990, voltou ao centro da estratégia geopolítica.

O conflito na Ucrânia acelerou essa transformação e revelou a nova natureza da guerra. Drones relativamente baratos passaram a destruir plataformas militares multimilionárias, alterando a lógica tradicional de custo-benefício dos conflitos. Satélites comerciais tornaram-se instrumentos operacionais essenciais, e empresas privadas de tecnologia passaram a exercer influência direta sobre o campo de batalha. Guerra eletrônica, inteligência em tempo real, integração digital, capacidade de adaptação tecnológica, reposição industrial contínua e resiliência logística tornaram-se tão importantes quanto blindados, superioridade aérea e naval ou sofisticação militar convencional. A guerra voltou, em grande medida, a ser uma disputa entre Estados capazes de mobilizar sistemas nacionais integrados de poder.

Talvez seja esse o principal fenômeno geopolítico da atualidade: a militarização gradual da economia internacional, não no sentido clássico das economias de guerra total do século XX, mas no de que comércio, energia, tecnologia, dados e cadeias produtivas passaram a ser tratados como ativos centrais de segurança nacional. Os EUA compreenderam isso ao iniciar um processo de reindustrialização estratégica. A China já opera nessa lógica há décadas. A Europa tenta adaptar-se rapidamente após perceber sua vulnerabilidade energética e industrial diante da Rússia e sua vulnerabilidade econômica diante dos EUA.

Nesse cenário, o caso brasileiro torna-se particularmente revelador. O Brasil reúne praticamente todos os elementos de uma potência geopolítica: dimensões continentais, abundância de recursos naturais, liderança agroalimentar, reservas energéticas estratégicas, vasta projeção no Atlântico Sul e uma das maiores biodiversidades do planeta. Sob qualquer critério geopolítico clássico, deveria possuir uma cultura estratégica sofisticada.

Entretanto, talvez nenhuma grande potência territorial tenha desenvolvido percepção tão limitada sobre sua própria dimensão estratégica. Parte disso possui raízes históricas. Diferentemente da Europa, o Brasil não foi moldado por guerras interestatais recorrentes. Desde a Guerra do Paraguai, o país não enfrentou ameaças externas existenciais.

Aos poucos, consolidou-se a percepção difusa de um “isolamento geopolítico benigno”, que conformou e condicionou uma “ilusão estratégica brasileira”, assentada em um pacifismo estrutural involuntário e em cinco pressupostos: a crença de que a distância geográfica protegeria o país; a de que a diplomacia poderia substituir o poder material; a de que recursos naturais gerariam relevância automática; a de que a ausência de guerras regionais equivaleria à ausência de ameaças; e a de que a soberania seria garantida prioritariamente pelo direito internacional, e não pela capacidade nacional.

Essa ilusão não é apenas um traço difuso da cultura política nacional, mas uma doutrina operante dos que atualmente “formulam” nossa política externa. O segundo e o quinto pressupostos constituem o próprio sistema nervoso do atual pensamento diplomático. Morgenthau lembrava que a diplomacia é o cérebro do poder nacional, não seu substituto; entre nós, inverteu-se a equação, e passou-se a crer que a eloquência, o prestígio e o argumento jurídico poderiam compensar a ausência de capacidade material. O resultado é uma diplomacia farta de princípios e escassa de instrumentos.

Trata-se de uma herança que já foi racional. Para um Estado fraco, fazer-se “país do direito internacional” era uma estratégia inteligente de sobrevivência. Mas o tempo do Barão do Rio Branco, em que a diplomacia brasileira pensava em termos de território e poder, cedeu lugar a um juridicismo que toma a norma como anterior à força, quando a história ensina o contrário: o direito acompanha o poder, raramente o precede.

A esse desvio doutrinário soma-se um vício institucional. O Brasil não dispõe de uma instância capaz de fundir diplomacia, defesa, economia, tecnologia e inteligência em uma estratégia única: o Itamaraty pensa em um silo, o Ministério da Defesa em outro, a área econômica em um terceiro, e a política externa é conduzida como uma sequência de gestos e reações, não como execução de um desígnio. Onde os EUA preservam, de governo a governo, a continuidade de suas estratégias, o Brasil reescreve a sua a cada mandato, oscilando entre alinhamento automático e terceiro-mundismo reflexo, sem jamais acumular capital estratégico ao longo do tempo.

Daí uma cegueira específica e perigosa: a da interdependência convertida em arma. Enquanto as grandes potências mapeiam vulnerabilidades e transformam cadeias de suprimento, sistemas de pagamento e fluxos de dados em instrumentos de coerção, os formuladores brasileiros seguem lendo comércio e investimento como relações puramente comerciais, de ganhos mútuos. Negociamos acesso a mercados enquanto outros desenham gargalos. E, porque a estratégia não se ensina, o déficit se reproduz: a formação de nossas elites e a dos próprios diplomatas subestima tecnologia, geoeconomia, defesa e inteligência, perpetuando uma classe dirigente que não foi treinada para pensar em termos de poder e que, por isso, transmite a própria cegueira às gerações seguintes.

E segue-se operando com pressupostos estratégicos de um mundo que deixou de existir. Vulnerabilidades estratégicas já não se manifestam apenas na forma clássica de invasões militares. Dependência tecnológica, fragilidade cibernética, precariedade logística e infraestrutural, insuficiência industrial e disputa por recursos críticos passaram a integrar o núcleo da competição internacional.

O Brasil depende externamente de semicondutores, sistemas avançados de comunicação, satélites, GPS, componentes eletrônicos críticos, sistemas antiaéreos, smart weapons, defesa cibernética, inteligência artificial, drones, sensores e fertilizantes. Em muitos desses setores, a dependência externa, mais do que econômica, é geopolítica.

E, justamente quando o mundo amplia investimentos em defesa e reindustrializa setores estratégicos, o Brasil segue direção oposta. Sob Lula 3, o orçamento de defesa sofreu retração significativa, caindo de cerca de 1,5% do PIB para aproximadamente 1,1%, com redução acumulada superior a 11% nas despesas discricionárias, justamente a parcela responsável por investimentos, manutenção operacional, aquisição de equipamentos e modernização.

O contraste é eloquente. Europeus que durante décadas reduziram seus gastos militares passaram a elevar rapidamente seus orçamentos após a invasão da Ucrânia. A Alemanha criou um fundo extraordinário de € 100 bilhões para reequipamento militar e assumiu o compromisso de atingir 2% do PIB em defesa. A Polônia já ultrapassa 4% do PIB. Os EUA mantêm gastos superiores a US$ 950 bilhões anuais. A China segue ampliando seus investimentos em taxas reais de crescimento acima da expansão econômica global. Mesmo potências médias asiáticas vêm acelerando programas de modernização naval, espacial, cibernética e industrial.

O Brasil, em sentido inverso, reduziu sua capacidade relativa de investimento justamente quando se volta a tratar segurança, indústria e tecnologia como dimensões inseparáveis da soberania. O debate nacional continua aprisionado a simplificações ideológicas e fiscais de curto prazo, oscilando entre dois chavões igualmente pobres – “o Brasil gasta demais com militares” ou “o Brasil investe pouco em defesa” – que ignoram o núcleo real do problema.

A fragilidade brasileira não reside apenas no volume de recursos, mas na própria arquitetura da defesa nacional. O orçamento militar permanece rigidamente consumido por despesas obrigatórias, especialmente pessoal e Previdência, comprimindo o investimento em modernização operacional, pesquisa, inovação, prontidão logística e desenvolvimento tecnológico e produzindo um paradoxo: Forças Armadas relativamente grandes em efetivo, mas com limitada capacidade de dissuasão de alta intensidade.

Ao longo das últimas décadas, a defesa brasileira foi desconectada do restante do ecossistema econômico. Diferentemente do que ocorre nas grandes potências, o setor deixou de ser tratado como instrumento articulador de política industrial, inovação tecnológica, formação de capital humano avançado e projeção estratégica do Estado. A consequência foi uma espécie de isolamento em relação aos grandes ciclos de transformação econômica, tecnológica e industrial do país.

Essa desconexão produziu efeitos cumulativos. O Brasil perdeu densidade industrial em setores críticos, ampliou dependências tecnológicas externas e reduziu sua capacidade de transformar projetos militares em plataformas estruturantes de desenvolvimento nacional.

Essa fragmentação enfraqueceu a própria cultura geopolítica do Estado brasileiro. Sem integração entre defesa, indústria, tecnologia, infraestrutura, energia e planejamento econômico, o país perdeu capacidade de formular uma visão de longo prazo compatível com sua dimensão continental. O resultado é uma estrutura que preserva símbolos de poder estatal, mas com dificuldade crescente de converter potencial geográfico, econômico e demográfico em influência estratégica efetiva.

O Brasil é uma das poucas potências territoriais cujas elites perderam quase completamente o hábito de pensar geopoliticamente. Pensa-se excessivamente em gestão e cada vez menos em poder; em equilíbrio fiscal de curto prazo, mas não em resiliência estratégica; em commodities, mas não em autonomia tecnológica; em orçamento anual, mas não em projeção histórica de longo prazo.

Isso ajuda a explicar por que projetos fundamentais sofrem contingenciamentos sucessivos, interrupções e instabilidade orçamentária permanente, em um cenário no qual o Brasil permanece aprisionado à lógica fiscalista anual, à fragmentação burocrática e à ausência de coordenação entre política de defesa e projeto nacional de desenvolvimento.

Essa contradição salta aos olhos porque o Brasil possui programas tecnologicamente sofisticados, como o Prosub, o Gripen, o KC-390, as Fragatas Tamandaré e iniciativas espaciais e cibernéticas, capazes de gerar encadeamentos industriais relevantes, transferência tecnológica, formação de mão de obra altamente qualificada e fortalecimento da autonomia produtiva nacional. No entanto, à semelhança do Sisfron, sufocado há quase 20 anos pela imprevisibilidade orçamentária, criando espaços de obsolescência tecnológica e conceitual, esses projetos são tratados como despesas fiscais contingenciáveis, e não como instrumentos estruturantes de autonomia tecnológica e poder nacional.

Defesa não é assunto apenas militar, mas ativo de toda a sociedade. Envolve política industrial, universidades, infraestrutura crítica, inteligência artificial, espaço, energia, investimentos, promoção comercial e ecossistemas de financiamento e garantias de produção e exportação. Países incapazes de dominar tecnologias estratégicas tornam-se dependentes não apenas economicamente, mas geopoliticamente. Lideranças políticas brasileiras ainda não compreenderam essa transformação e talvez esse seja seu maior risco: a ausência de consciência estratégica compatível com sua dimensão geopolítica.

Raymond Aron advertia que “a história é trágica” e costuma punir países que confundem estabilidade efêmera com garantias permanentes de paz, sobretudo aqueles que ignoram mudanças históricas e só enxergam o perigo quando ele se torna inevitável.

Mas a tragédia, em política, raramente é destino: é quase sempre escolha ou omissão repetida até virar hábito. A ilusão estratégica brasileira não foi imposta por nenhum inimigo. Foi cultivada em casa, paciente e voluntariamente, como quem confunde a ausência de tempestade com a solidez do telhado.

A democracia brasileira entrou em transição autocratizante 

Os democratas brasileiros estão perplexos com as mais recentes ações e palavras de Gilmar Mendes. Ele não parece um juiz típico de suprema corte e sim um oligarca do novo arranjo de poder que se erigiu no Brasil graças ao hegemonismo lulopetista. Mas Gilmar é apenas o sintoma de uma transição política adversa à democracia que está em curso neste momento.

Se Lula for reeleito veremos a tentativa de consolidação de outro tipo de regime político no país, situado na zona de transição entre democracia eleitoral (não-plena e não-liberal, como é hoje – segundo as classificações da The Economist Intelligence Unit e do V-Dem) e autocracia eleitoral.

Ou seja, teremos no Brasil a consolidação de um tipo de regime híbrido (contra-liberal) em que uma maioria parlamentar de oposição ao governo, não importa o seu número, será neutralizada por uma oligarquia político-judiciária (com gilmares, alexandres, dinos, messias et coetera) a serviço de uma máquina administrativa crescentemente aparelhada em aliança com oligarcas “russos” (como os irmãos Batista, da JBS) e com a banda podre, corrupta, do Congresso. O Brasil se afastará ainda mais das democracias liberais e avançará no seu alinhamento ao eixo autocrático (já reunido sob a denominação genérica de Sul Global e articulado em várias iniciativas políticas fantasiadas de blocos econômicos, como o BRICS).

Tudo isso foi favorecido por uma oposição bolsonarista gerada, por enantiodromia, pelo populismo lulopetista. A esquerda populista (em parte revolucionária travestida de “progressista”) tanto caluniou quem não se subordinava a ela de extrema-direita, que “produziu” afinal uma direita populista (em parte reacionária disfarçada de “conservadora”).

Não ocorre apenas no Brasil. Na América Latina, por exemplo, Petro (da Colômbia) “produziu” Espriella, Kirchner (da Argentina) “produziu” Milei, Evo e Arce (da Bolívia) “produziram” Rodrigo Paz, Funes e Cerén (de El Salvador) “produziram” Bukele, Correa (do Equador) “produziu” Noboa e Lula (do Brasil) “produziu” Bolsonaro.

Aqui não há como fugir da realidade. Lula é o grande favorito para vencer as eleições de 2026 mais uma vez. Não se sabe como já não está 20 pontos acima do Flávio (aquele candidato escolhido para perder, mas manter a liderança da direita populista nas mãos da famiglia Bolsonaro). Com tantas besteiras que os bolsonaristas fazem, seria o esperável racionalmente.

Os dirigentes históricos do PT (como Dirceu) avaliam que estamos na antessala de uma situação revolucionária. É assim que eles chamam sua almejada mudança no regime político brasileiro, trocando democracia por cidadania ofertada ao povo pelo líder populista no comando do Estado e colocando a soberania (nacional) acima da democracia (como valor universal).

Não é absolutamente certo que os populistas de esquerda conseguirão consumar seu intento. Mas é certo que não há saída democrática, no curto prazo, para superar tal constelação aziaga de fatores.

Como foi dito, os democratas estão imprensados entre reacionários disfarçados de conservadores e revolucionários travestidos de “progressistas” – ambos populistas e, como tais, avessos à democracia liberal.

Nestas circunstâncias, qualquer saída será de longo prazo. A situação não vai mudar por um golpe de sorte eleitoral nos próximos dois pleitos. É necessário configurar comunidades políticas (redes humanas, mais distribuídas do que centralizadas), verdadeiras “poleis paralelas” (interativas) capazes de gerar agentes democráticos (reformistas liberais-inovadores), multiplicando seu número até alcançar o nível crítico necessário para fermentar o processo de emergência de uma opinião pública democrática, de resistir às tiranias e aos processos de autocratização (seja por meio de golpes de Estado ou de conquista de hegemonia) e de ensaiar a democracia como modo-de-vida, usinando novos padrões democráticos capazes de se replicar em outras regiões do tempo.

Mordaça de Xangai

Na abertura da recente Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial. Com a adesão de 28 países — incluindo o Brasil —, Pequim vendeu a iniciativa como um marco emancipatório para o Sul Global, prometendo capacitar 5.000 profissionais e democratizar a governança do setor. Contudo, por trás da retórica inclusiva, esconde-se uma estratégia geopolítica calculada e o risco iminente de aprisionamento tecnológico.

Ao exaltar o open source como uma “oportunidade histórica”, o regime chinês expõe um paradoxo flagrante. A China opera o ecossistema digital mais censurado do mundo, protegido pelo Great Firewall e regido por normas que exigem que qualquer IA generativa reflita compulsoriamente os “valores socialistas” do Partido Comunista. Pregar abertura internacional enquanto se impõe uma mordaça algorítmica interna serve apenas para absorver dados e tecnologia ocidentais, sem jamais permitir auditoria transparente em seus próprios sistemas.

Essa promessa de representatividade para o Sul Global mascara a exportação deliberada de dependência. Ao financiar a infraestrutura e os padrões técnicos na América Latina, Pequim desenha a própria arquitetura que sustentará os serviços públicos digitais da região. Ao integrar essa estrutura, o Brasil vincula sua gestão pública e seus dados estratégicos a um stack autoritário cujo custo de transição futuro será proibitivo.

A hipocrisia se reflete também na crítica chinesa ao uso da “segurança nacional” para restringir tecnologias — uma alusão direta aos Estados Unidos. A China, sabemos, é pioneira na fusão civil-militar, bloqueia dados transfronteiriços e subsidia estatais sob esse exato pretexto. Além disso, o conceito de “controle humano” defendido por Pequim se traduz, na prática, no controle irrestrito do Estado sobre o cidadão, por meio de vigilância em massa e reconhecimento facial.

Diante desse cenário, a verdadeira soberania digital brasileira exige a construção de soluções próprias, alinhadas às nossas necessidades institucionais, culturais e aos valores democráticos. Em vez de se subordinar ao modelo de vigilância de Pequim, o Brasil deve priorizar o desenvolvimento de um modelo de linguagem em português (IA) por meio de alianças estratégicas com nações altamente confiáveis e tecnologicamente avançadas. Países como Japão e Taiwan, referências globais na produção de hardware de ponta e na pesquisa ética em inteligência artificial, representam parceiros ideais que merecem um olhar muito mais atento e prioritário por parte da diplomacia e do setor de inovação nacional.

A adesão à diplomacia de Xangai reflete uma ingenuidade estratégica perigosa. Uma governança de IA verdadeiramente inclusiva e democrática exige neutralidade pragmática, transparência algorítmica e a recusa firme em importar modelos fundamentados no controle e na vigilância estatal. Para garantir um futuro digital seguro e soberano, o Brasil deve escapar das mordaças e parcerias enganosas, fortalecendo cooperações éticas, preservando sua autonomia.

Política de cotas: fim do mérito e cooptação identitária das instituições

Por meio de seleções exclusivas para candidatos negros, a Unicamp colocou em prática um projeto que previa reserva de 20% das vagas do Magistério Superior. Estão sendo abertos em cada uma das unidades da referida Universidade, concursos para professor doutor nos quais só podem concorrer candidatos negros. Não se trata mais nem de percentagem de cota dentro de um concurso aberto a todos – modelo já bastante contestável; trata-se de algo mais radical: reserva de vaga exclusiva para um único grupo racial; um concurso segregado por raça, com base em análise fenotípica de fotografia e, se necessário, arguição por banca de heteroidentificação.

Recentemente o Ministério Público Federal moveu ação civil pública para obrigar o Hospital Albert Einstein a implantar de imediato cotas para negros, indígenas, quilombolas e pessoas trans na residência para médicos, perfazendo nada menos do que 55% das vagas no processo de formação mais seletivo e mais decisivo da medicina brasileira. A Justiça Federal indeferiu os pedidos liminares, mas a ação prossegue normalmente em relação aos pedidos de mérito da ação. 

Outro caso controverso ocorreu em outubro de 2025 quando a Universidade Federal de Pernambuco abriu, em parceria com o Incra, uma turma de Medicina de 80 vagas destinadas exclusivamente a beneficiários da reforma agrária (assentados do MST) e quilombolas. Para essa turma não houve prova específica via Sisu regular. A seleção baseou-se apenas em uma redação e análise do histórico escolar do Ensino Médio. Houve polêmica forte, com críticas de entidades médicas por falta de isonomia e questionamentos sobre qualidade. Em março de 2026, a Justiça Federal (TRF-5) suspendeu o curso temporariamente. Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) derrubou a suspensão e determinou a continuidade da turma, mantendo o curso ativo até julgamento definitivo. 

Esses são apenas alguns exemplos mais recentes do avanço da política de identidade em busca da sua hegemonia no Brasil. Quando uma instituição troca o critério “quem está mais qualificado” pelo critério “quem pertence ao grupo certo”, ela não está apenas cometendo uma injustiça pontual contra o candidato preterido, está desmontando a própria função social daquela instituição, que é produzir e certificar competência. 

A falência das políticas afirmativas

No livro “Ação afirmativa ao redor do mundo: um estudo empírico sobre cotas e grupos preferenciais”, Thomas Sowell demonstra, por meio de estudos de caso em diversos países, que as políticas de ação afirmativa, apesar das particularidades históricas de cada nação, seguem padrões globais consistentes e, frequentemente, contraproducentes. Vale a pena enumerá-los porque cada um desses pontos tem correspondente exato no Brasil:

1. Expansão da temporalidade e do escopo: Nenhuma política de ação afirmativa documentada por Sowell, em nenhum dos países estudados, foi encerrada no prazo prometido: programas com prazos de 10 ou 20 anos são repetidamente prorrogados por décadas e preferências inicialmente voltadas para o ingresso (admissão) frequentemente se expandem para a aprovação, graduação, contratação e promoções no mercado de trabalho. Além disso, grupos que não sofreram as desvantagens históricas originais frequentemente conseguem ser incluídos nas categorias preferenciais.

2. A “nata” dos beneficiados:Os benefícios da ação afirmativa não atingem os membros mais pobres ou oprimidos do grupo preferencial. A maior parte das vagas e recursos é absorvida por uma pequena elite dentro do grupo preferido que já possui condições socioeconômicas superiores à média nacional.

3. Reclassificação em massa e fraude estrutural: Indivíduos tentam se reidentificar como membros de grupos preferenciais para obter vantagens; Sowell documenta o crescimento estatisticamente impossível do número de “índios americanos” autodeclarados nos EUA e de “aborígines” na Austrália durante os períodos de ação afirmativa.

No Brasil, o número de candidatos autodeclarados pretos ou pardos em concursos públicos e vestibulares disparou assim que as cotas raciais passaram a valer, forçando a criação das bancas de heteroidentificação, precisamente os “tribunais raciais” que o professor Wilson Gomes costuma denunciar em seus textos, cuja função é policiar, com base em fenótipo, quem “parece” negro o suficiente para ocupar a vaga. 

“Causa-me espanto que tenhamos naturalizado uma polícia racial encarregada de examinar lábios, nariz, textura de cabelo, traços faciais e cor da pele de cidadãos para decidir quem pode ou não ter acesso a uma política pública”, declarou o professor, em entrevista ao jornal Estadão.  

Nesse ponto, cito uma das teses mais repisadas pelo antropólogo brasileiro Antônio Risério: o identitarismo, importado dos Estados Unidos, exige a imposição, sobre uma sociedade historicamente mestiça como a brasileira, de uma classificação racial binária (preto/branco) que nunca foi a nossa. Para que o sistema de cotas e de bancas de heteroidentificação funcione, é preciso primeiro negar, ou pelo menos apagar operacionalmente, a miscigenação que Caio Prado Júnior identificou como o traço definidor da formação nacional brasileira. 

4. Polarização social e violência:A politização da identidade de grupo frequentemente resulta em ressentimento e hostilidade intergrupal. O sentimento de injustiça entre os grupos não preferenciais muitas vezes supera o benefício real transferido, criando um ambiente de “soma negativa”. Em países como Índia, Nigéria e Sri Lanka, a disputa por cotas e o favoritismo governamental foram catalisadores de massacres, motins e guerras civis.

5. O resultado no combate à pobreza é irrisório:A taxa de pobreza entre negros nos Estados Unidos já havia caído pela metade antes da ação afirmativa; depois dela, pouco mudou.

Em suma, a análise empírica empreendida por Sowell sugere, portanto, que a ação afirmativa falha em atingir seus objetivos humanitários fundamentais. Os fatos são obstinados e as inclinações ideológicas não podem alterar a evidência de que a ação afirmativa tem sido, em muitos casos, um obstáculo à verdadeira conquista dos mais desfavorecidos na sociedade. 

Tornando a identidade étnico-racial o fator principal na distribuição de recursos estatais, essas políticas frequentemente institucionalizam o conflito. Em vez de elevar os desvalidos, sacrificam a eficiência econômica e acadêmica em nome de uma representatividade numérica artificial e mascaram a necessidade de melhorias reais na educação.

A guerra contra a ciência

No livro The War on Science, trinta e nove cientistas e estudiosos renomados manifestaram-se sobre as ameaças promovidos pela cultura do cancelamento e as políticas de DEI à livre investigação, à liberdade de expressão e ao próprio processo científico. “De ataques a contratações baseadas no mérito até o policiamento da linguagem e a substituição de estudos acadêmicos disciplinares bem estabelecidos por mantras ideológicos, a ciência e a produção acadêmica atuais estão sob ameaça em todas as instituições ocidentais”, afirmam os autores.

Editado pelo físico Lawrence Krauss, o livro mostra que o que antes era restrito às humanidades  penetrou formalmente nas ciências duras e documenta algo que nos interessa diretamente, ainda que a discussão seja americana. Está claro que estamos indo para o mesmo buraco. 

Há relatos bizarros de publicações acadêmicas (como a Physical Review) analisando “branquitude” no uso de quadros brancos em salas de aula, tratando ferramentas pedagógicas como organizações sociais raciais ou a Academia Nacional de Ciências premiando trabalhos que afirmam que a “epistemologia da física” é racializada.

Há relatos revoltantes como o de Carole Hooven, bióloga evolutiva de Harvard, que foi obrigada a deixar a universidade por afirmar, com base no consenso da própria biologia evolutiva, que sexo biológico se define por tamanho de gameta – fato científico banal transformado em heresia porque incomodava uma narrativa identitária. 

Mas aqui mesmo no Brasil temos exemplos de tais absurdos, como o caso recente da doutoranda Celina Lazzari, que, acusada de transfobia por comitê de ética da UFSC, teve sua pesquisa suspensa e precisou entrar na justiça para concluir seu doutorado. Ao analisar o caso, a Justiça afirmou que a universidade submeteu a doutoranda a um “rito inquisitorial”. A pesquisadora é também diretora da Matria, uma organização em defesa de mulheres e crianças frente aos impactos do conceito de “identidade de gênero”. O procedimento aberto contra a doutoranda teve origem em denúncias baseadas em manifestações públicas feitas fora do ambiente acadêmico.

A ameaça identitária

Os efeitos corrosivos dessa ideologia não podem ser subestimados, daí a importância de estudos como o do antropólogo Antônio Risério que, em seus vários livros, tem dissecado esse fenômeno social contemporâneo. No livro Identitarismo, Risério reconstrói a genealogia dessa ideologia, que nasce da convergência entre a contracultura dos anos 1960 e o desconstrucionismo francês de Foucault, Lyotard, Marcuse, etc.; pensadores que fizeram da recusa da racionalidade e da ciência um ponto central. 

Com a queda do comunismo, explica Risério, uma esquerda órfã de horizonte abandonou as classes sociais como categoria organizadora do mundo e as substituiu por raça, sexo e gênero. O resultado foi a fragmentação da sociedade em blocos étnicos e de gênero fechados sobre si mesmos, cada um cultivando seu próprio ressentimento, cada um reivindicando autoridade epistêmica exclusiva sobre a própria narrativa. 

O identitarismo é um pensamento intrinsecamente monológico que não debate, decreta; que não argumenta, denuncia. E é, sobretudo, antiuniversalista: abandona o ideal iluminista de que existem verdade, mérito e direitos que valem para todos os indivíduos, independentemente do grupo a que pertencem, e o substitui pela lógica de que tudo – inclusive a ciência, inclusive a leitura de um texto clássico – é, em última instância, uma questão de poder entre grupos.

Esse fenômeno da esquerda contemporânea pós-moderna dificilmente se encaixa na visão de mundo da esquerda tradicional, que se preocupa com a opressão concreta advinda das condições sociais e não com micro-opressões imaginárias. Um “marxista raiz” provavelmente argumentará que o identitarismo desvia a atenção da luta de classes e que não passa de uma ideologia burguesa que dispersa a energia revolucionária para questões simbólicas e de representação, enquanto preserva o sistema econômico capitalista.

Tampouco se trata de um fenômeno que possa ser bem absorvido por uma visão liberal ou conservadora. A primeira o vê como erosão do mérito individual e dos direitos universais, enquanto a segunda como enfraquecimento dos valores morais, da responsabilidade individual e da unidade nacional. 

O identitarismo é, em suma, uma forma pós-moderna de tribalismo com foco exclusivo em vitimização, opressão e crítica cultural sistemática. Ao eleger uma identidade específica (étnica, sexual, racial ou cultural) como o valor político supremo ao qual todos os outros devem se submeter, ele representa uma sedição contra os valores fundamentais do iluminismo: universalismo, liberdade e igualdade. 

Seu avanço, porém, presta um grande serviço à direita reacionária, que se fortalece ao se lhe contrapor de modo estridente e histriônico, mesmo sem saber confrontá-lo nas suas bases, mesmo sem saber sequer compreendê-lo ou defini-lo. 

Lições das Tarifas

O tabuleiro comercial sofreu um realinhamento profundo, e o Brasil moveu-se tarde e mal. A confirmação de que o USTR concluiu a investigação sob a Seção 301, oficializando a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, é um revés severo. Mas, acima de tudo, é um diagnóstico implacável sobre o amadorismo e a saturação ideológica que paralisam nossa diplomacia governamental.

Diferentemente do tarifaço de 2025 — derrubado por seu vício político —, a investida atual possui blindagem técnica por ser um processo administrativo da Seção 301, de difícil reversão. O USTR apontou “práticas injustas” misturando assimetrias reais (etanol, propriedade intelectual e tarifas) com pautas sobre soberania, como o escrutínio sobre decisões do STF contra big techs, combate à corrupção e desmatamento.

Soma-se a isso a contaminação de agendas, a chamada linkage diplomacy. A recente classificação de facções brasileiras como organizações terroristas por Washington fundiu governança econômica e segurança nacional. O comércio virou moeda de troca geopolítica de alta complexidade — tabuleiro em que nossa diplomacia estatal demonstrou pouca agilidade de manobra.

Diante desse cerco previsível, Brasília respondeu com passividade técnica e retórica inflamada para consumo interno. O Planalto preferiu a inércia para explorar o desgaste eleitoralmente. Essa postura gerou forte reação da FIESP, que criticou o governo por alimentar “ruídos desnecessários” e priorizar conflitos personalistas em vez da economia. Estão certíssimos.

A ameaça da Fazenda de retaliar via “Lei de Reciprocidade” expõe um desconhecimento preocupante de mercado. Como ex-diretor da Apex-Brasil, sei que barreiras de vingança encarecem insumos, asfixiam importadores e destroem empregos logísticos. A obsessão por superávits ignora que potências modernas usam importações estrategicamente para criar dependência mútua, e não guerras emocionais.

Enquanto Brasília flerta com o confronto, os EUA dão uma aula de realpolitik. Junto aos 25%, o USTR aplicou 2.100 exceções, poupando setores como aeroespacial (Embraer), café e carnes. Onde o Brasil tem indispensabilidade estrutural, a tarifa caiu para blindar o americano da inflação e onde somos substituíveis, fomos atingidos sem hesitação.

Esta assimetria ficou clara nos bastidores. Diante da omissão oficial, canais de representação setorial agiram. A articulação privada levou a Washington dados técnicos que provaram o impacto das tarifas nas próprias indústrias americanas, mitigando as sanções — esforço do qual participo ativamente nos EUA desde as primeiras medidas. A Casa Branca responde a dados e articulação direta, não a notas de repúdio.

A lição é urgente: a inserção internacional do país não pode ser refém de voluntarismos. O protecionismo não se combate com indignação, mas com inteligência comercial. Para reaver a confiança, o Brasil precisa devolver o protagonismo à diplomacia corporativa privada. Sem eficiência interna e interlocução técnica despida de ideologia, assistiremos passivos à erosão de mercados que levamos décadas para conquistar.

A repressão que não respeita fronteiras

Regimes repressivos têm se tornado cada vez mais ostensivos no uso transnacional de seus arsenais de recursos de pressão política e econômica para intimidar, perseguir e calar opositores e dissidentes. Particularmente graves são os casos de incidentes físicos, em terceiros países, que envolvem sequestros, deportações irregulares e assassinatos.

De acordo com o Freedom House, uma das mais antigas e reconhecidas organizações de monitoramento e estudo sobre as liberdades civis do mundo, a China foi responsável por 253 dos 854 incidentes físicos de repressão transnacional registrados globalmente entre 2014 e 2022, o que corresponde a 25% dos casos. Colocando o gigante asiático como o líder nesse ranking nefasto. Os relatórios mais recentes mostram a tendência de aumento da repressão transnacional indicando que mais de 300 incidentes ocorreram só em 2025, incluindo detenções, deportações forçadas e até a morte suspeita do líder religioso tibetano Tulku Hungkar Dorje, em março de 2025 sob custódia do governo vietinamita.

O alerta para a gravidade da infiltração de terceiros Estados pelos mecanismos de repressão é ilustrado pelo caso de Chung Biu “Bill” Yuen, e Chi Leung “Peter” Wai, que, em maio, foram condenados por um tribunal britânico há 8 e 10 anos de prisão, respectivamente, por vigiar dissidentes de Hong Kong em solo do Reino Unido, numa operação que a promotoria classificou como “policiamento paralelo” de Pequim. 

A tendência se confirma, também, pelos relatos de ativistas uigures, tibetanos e defensores da democracia de Hong Kong que denunciam, em praticamente todos os continentes, o mesmo padrão: vigilância digital, ameaças a familiares que permaneceram na China, detenções em países terceiros e campanhas de intimidação online.

É particularmente preocupante observar como o poderio econômico parece estar sendo utilizado para pressionar os Estados a cooperar com a repressão chinesa, em especial. Casos recentes envolvendo deportações de uigures a partir da Tailândia e detenções em aeroportos da Malásia evidenciam esse mecanismo. 

É tentador tratar isso como um problema distante, que diz respeito ao adimplemento de leis internas e protegidas pelo princípio da não-interferência. Mas a repressão transnacional é, antes de tudo, um ataque insidioso à própria ideia de que existe um lugar seguro para discordar, principalmente no plano das ideias e do debate político. Quando um regime consegue perseguir, intimidar e silenciar pessoas em qualquer parte do mundo, ele não está apenas violando direitos humanos e exportando seu modelo autoritário, está de fato criando um efeito demonstração perigoso e testando os limites da ordem internacional estabelecida.

Lutar contra os mecanismos de repressão transnacional e separar a saudável cooperação internacional para repatriar foragidos da justiça do uso político dos tribunais é tema complexo e existencial para as Democracias. É preciso que os Estados lancem mão de seus instrumentos legais para responder à infiltração dos mecanismos de repressão sejam eles sanções, expulsões de diplomatas, ou investigações criminais como a do Reino Unido. Enquanto isso, cada uigur detido, cada tibetano vigiado e cada ativista de Hong Kong ameaçado nos lembra que a liberdade, quando confrontada com o poder de um Estado disposto a ultrapassar fronteiras, precisa ser defendida com a mesma determinação, em qualquer lugar do planeta. 

“Deixem o meu povo ir em Liberdade”

Moisés (Êxodo 9-13)

O relato bíblico resenhado em Êxodo narra os episódios em que Moisés e seu irmão Aarão enfrentaram o poderoso Faraó do Egito para cumprir o Mandato Divino de exigir que todo o povo de Abraão fosse posto em Liberdade. O clamor dos hebreus foi ouvido e produziu o fim da escravidão e a cessação das piores violações dos seus direitos humanos. Ao chegar à Terra Prometida, os israelitas puderam rezar em agradecimento ao Todo-Poderoso por ter quebrado as correntes da dominação e começado uma nova vida.

Hoje, em pleno Século XXI, volta a soar o clamor de milhões de venezuelanos que pedem que, sem mais delongas, sem cálculos seletivos, sem mentiras, sem armadilhas, todos os presos políticos sejam postos em Liberdade.

O terremoto de 24 de junho de 2026 produziu um resultado trágico que se soma ao desastre produzido por mais de 27 anos de tirania para evidenciar que nos encontramos diante do colapso de um país que era conhecido como “Terra de Graça” (e hoje é de Desgraça).

Embora a tragédia de La Guaira e do resto do país nos enlace em luto, dentro e fora de nossas fronteiras, os Faraós da Dominação bolivariana continuam insensíveis aos centenas de presos políticos civis e militares que ainda se encontram injustamente detidos. Até quando durará esse atropelo à dignidade humana?

Esta edição especial de Encuentro Humanista é dedicada inteiramente a recolher a opinião de alguns dos mais destacados defensores de presos políticos, que lutam há anos para que todos os privados de liberdade ilegalmente detidos possam regressar aos seus lares para viver em paz com seus familiares e amigos.

Na nota Editorial, Marcos Villasmil define a prisão política na Venezuela como um instrumento de submissão. Para isso, ele remonta aos fundamentos históricos mundiais que originaram a prisão por motivos políticos, relembrando a reclusão nos campos de extermínio de Auschwitz, ou os Gulags, ou os presos da Bastilha ou da Torre de Londres, que marcaram páginas de terror cidadão. Depois, refere-se à especificidade latino-americana com os Regimes de Pinochet, Videla e tantos exemplos do drama autoritário com os milhares de presos e desaparecidos daquela etapa.

Finalmente, relata os 27 anos de institucionalização da perversa repressão contra cativos eternos na Venezuela, utilizados como “fichas de troca”, agravada pelo denominado “efeito porta giratória” no macabro binômio “excarceramento-detenção arbitrária”. A conclusão é óbvia: sem o restabelecimento do Estado de Direito, os calabouços venezuelanos continuarão abrigando vítimas inocentes.

Gonzalo Himiob nos traz em “Escombros de Liberdade” o testemunho das atividades cumpridas pelo Foro Penal, e conclui com a penosa constatação de que aqueles que detêm o Poder não levam em conta a dignidade da cidadania e se apegam apenas à narrativa de que “são eles que mandam”, e o fazem descumprindo a moral, a Constituição e suas próprias leis, como no caso da Lei de Anistia adotada graças à pressão do Tutor Norte-Americano, mas descumprida pelas autoridades interinas ao aplicá-la de maneira parcial e interessada.

Paciano Padrón, fundador do Comitê Internacional contra a Impunidade na Venezuela (CICIVEN), destaca os alcances da Ditadura e dos Presos Políticos como um binômio cruel ao expor em seu artigo o trabalho de denúncia internacional protagonizado pelo CICIVEN. Ele não deixa de ressaltar a perspectiva histórica desde o ano de 1830 para concluir que, durante os 27 anos da ditadura Chávez-Maduro-Rodríguez, produziu-se o maior número de presos políticos, desaparecidos e torturados que a história da Venezuela registra.

Nesse mesmo sentido, pedimos ao historiador Walter Márquez que nos relatasse episódios dos presos políticos através dos tempos, os quais ele recolhe em seu estudo “Anistias, Absolvições e Indultos na Venezuela Republicana (1811-2026)”.

Ana Julia Jatar, em uma entrevista comovente, relata que não apenas sofrem os presos políticos, mas também “a família fica presa em uma cadeia sem grades quando um ente querido está preso”, e relata em primeira pessoa a angústia que sofreu com a prisão de seus dois irmãos.

O Embaixador Víctor Rodríguez Cedeño, negociador do Estatuto de Roma durante os Governos democráticos, não apenas enumera os Tratados Universais, Regionais e Nacionais que o Regime descumpre, mas também foca seu artigo na responsabilidade dos Estados Unidos em relação à situação das terríveis violações contra centenas de presos políticos, especialmente após o 3 de janeiro e dos efeitos da responsabilidade compartilhada em decorrência do terremoto em tempos de “Tutela” em relação aos detidos que esperam a liberdade.

A Embaixadora Milagros Betancourt — a outra negociadora do Estatuto de Roma junto com Vitoco — faz uma análise jurídica detalhada e clara sobre as conquistas e desafios diante do Tribunal Penal Internacional de Haia e, em suas conclusões, nos ilustra o que podemos esperar para a Venezuela em nossas denúncias por violações de Lesa-Humanidade. Este tema é de grande atualidade em momentos em que se multiplicam as críticas pela atuação errática dos Procuradores e Juízes do Tribunal, que não estiveram à altura de suas responsabilidades para combater os verdadeiros violadores de Lesa-Humanidade. Essa atuação, certamente, não é o espírito que animou os países do Mundo quando desenharam as bases da Justiça Penal Internacional.

A Venezuela não é o único país com abusos contra os presos políticos, por isso quisemos retratar o drama vivido por nossos irmãos cubanos e nicaraguenses. Para isso, contatamos Tamara Suju, que há anos dirige o Instituto CASLA, reconhecido pelas denúncias nas instâncias internacionais, de modo que reproduzimos um de seus múltiplos comunicados apresentados perante a OEA. O comportamento semelhante utilizado pelos regimes de Cuba, Nicarágua e Venezuela fica evidente em seus relatórios, já que repetem os mesmos padrões repressivos expressos em detenções arbitrárias e torturas, ignorando os mandatos dos organismos regionais e universais de Direitos Humanos, como no caso de Cuba, onde há 1.442 pessoas detidas devido aos acontecimentos de 11 de julho de 2021.

Em relação à Nicarágua, graças aos esforços de Macky Arenas, conseguiu-se que o Encuentro Humanista pudesse publicar um artigo de um destacado político que, de Manágua, apresenta a “Débâcle repressiva na Nicarágua”. Por razões óbvias, o autor prefere conservar o anonimato, porque expõe a grave situação dos presos políticos em seu país ao relatar como a dupla Rosario Murillo-Daniel Ortega montou uma dinastia mais sangrenta e mais arbitrária do que a da Ditadura de Somoza. Em seu artigo, ele denuncia que nas prisões clandestinas presumivelmente encontram-se entre 1.500 e 2.000 presos, sem procedimento legal em curso ou sob a caricatura de imputar-lhes a acusação de que são “traidores da Pátria”.

Precisamente para apoiar a luta pela liberdade dos presos políticos em Cuba e na Nicarágua, convidamos José Manuel Pinto Hurtado, ativista de Direitos Humanos residente na Holanda há várias décadas, e que tem acompanhado diversas delegações de venezuelanos que recorreram ao TPI de Haia para condenar aqueles que violam os direitos dos presos políticos e outros crimes de Lesa-Humanidade. Em sua análise, ele reúne os prós e os contras da experiência venezuelana e como nossos irmãos de Cuba e da Nicarágua poderiam se beneficiar do caminho para a Justiça Internacional. Este trabalho soma-se às excelentes recomendações recolhidas neste número pelos articulistas convidados, que têm tentado fazer com que “haja Justiça em Haia”. Os responsáveis e violadores dos Direitos Humanos contra os nossos presos devem ser julgados, como foram os criminosos em Nuremberg e em Tóquio há 80 anos.

O panorama do horror que recolhemos nesta edição representa apenas um pequeno relato das múltiplas denúncias que ouvimos dia a dia, e que narram o sofrimento dos presos na Venezuela, mas também em Cuba e na Nicarágua.

O tema é amplo e atual. Os meios de comunicação denunciam apelos como os de Andreína Baduel, que não se cansa de reiterar pontualmente os maus-tratos sofridos na prisão por seus dois irmãos presos que, se não forem assistidos, poderiam correr a mesma sorte escandalosa de seu pai, o General Baduel, que faleceu na prisão sem assistência médica.

Por sua vez, o Comitê pela Liberdade dos Presos Políticos (CLIPVVE) ressalta o desaparecimento de 7 presos políticos e a persistência de torturas, uso de gás de pimenta e privação de água como retaliação contra os detidos, mesmo após o terremoto. O Observatório Venezuelano de Prisões (OVP) continua suas denúncias perante o Tribunal Penal Internacional, conforme confirmado em suas atuações em Haia pelo defensor Orlando Viera Blanco.

A ONG Justiça, Encontro e Perdão denuncia os riscos enfrentados pelas pessoas privadas de liberdade após os terremotos registrados no país devido ao colapso de infraestruturas carcerárias, à falta de comunicação com os reclusos e à falta de atendimento a doenças graves, o que soma à injustiça das detenções arbitrárias uma grave situação de vulnerabilidade.

Estes fatos levaram a Comissão de Direitos Humanos do Congresso Norte-Americano a convocar uma audiência no último dia 15 de julho para analisar as denúncias de representantes da sociedade civil sobre a situação das pessoas detidas na Venezuela por razões políticas e, com base nisso, propuseram medidas para avançar em direção à transição democrática. Na sessão bipartidária presidida pelos congressistas James McGovern (Democrata) e Chris Smith (Republicano), questionou-se a “estabilidade cosmética” em detrimento da democracia e da proteção dos direitos humanos.

Não podemos deixar de assinalar a heroica e permanente ação das mães, esposas, filhos e familiares dos presos políticos que diariamente exigem diante dos centros de reclusão a libertação de seus entes queridos, mas não recebem resposta de um Regime que atua surdo, cego e mudo.

Este é o momento de unir todas as vozes que exigem que se cumpra a plena liberdade dos presos políticos e que se atenda ao apelo dos familiares, das ONGs, dos jornalistas, da Igreja, dos políticos, dos socorristas nacionais e internacionais e até de alguns dos próprios carcereiros que reagem ao fato de serem obrigados pelo Regime perverso a serem carrascos de seus próprios compatriotas.

Apesar da crueldade ditatorial, existe como nunca antes um movimento cheio de fé e esperança que tentamos recolher nesta Edição de Encuentro Humanista, e é esta solidariedade nacional e internacional que conseguirá colocar de joelhos a anomalia do terror, e contribuir para que em breve possamos comemorar, emocionados e unidos, o momento em que o Regime entenda que deve cumprir o mandato que Moisés já empunhou há vários séculos quando pronunciou o chamado: “deixem o meu Povo ir em Liberdade”.

Fronteira invisível do poder: acesso à IA é a nova expressão da soberania mundial

Imagine acordar amanhã e descobrir que as inteligências artificiais mais avançadas do planeta simplesmente deixaram de funcionar no Brasil. Não por um ataque cibernético, uma guerra tampouco uma crise econômica, mas porque autoridades de uma potência global decidiram restringir o acesso de estrangeiros aos modelos mais sofisticados de inteligência artificial.

Empresas interrompem projetos, universidades suspendem pesquisas, hospitais perdem ferramentas de diagnóstico, instituições financeiras veem seus sistemas de prevenção a fraudes tornarem-se obsoletos e órgãos públicos ficam privados da infraestrutura digital da qual passaram a depender. Parece ficção científica, mas não é. É exatamente o tipo de poder que começa a moldar a ordem internacional.

Toda época possui sua tecnologia decisiva, aquela que reorganiza o equilíbrio de poder e redefine a hierarquia do sistema internacional. No século XIX, esse instrumento foi o domínio dos mares. Como ensinou Alfred Thayer Mahan, quem controlava as rotas marítimas controlava o comércio; quem controlava o comércio acumulava riqueza; e quem acumulava riqueza a convertia em poder. O Império Britânico compreendeu essa lógica antes de todos e transformou a hegemonia naval em supremacia global.

No século XX, a geografia estratégica descrita por Halford J. Mackinder e Nicholas Spykman continuou determinando a competição entre Estados, mas foi acompanhada por uma nova dimensão de poder: a ciência. O átomo, os foguetes, os satélites e a informática converteram o conhecimento em instrumento de sobrevivência nacional. A Guerra Fria foi, antes de tudo, uma disputa tecnológica. Quem dominava a inovação dominava também a capacidade militar, industrial e econômica.

O século XXI inaugura uma transformação ainda mais profunda. O território decisivo da competição internacional deixou de ser apenas físico. A nova fronteira estratégica é cognitiva e envolve mais do que competição comercial entre empresas de tecnologia. É uma corrida estratégica entre potências, travada com a frieza e a desconfiança de uma guerra. E, no momento, o Brasil não está nessa competição.

A IA não constitui apenas inovação tecnológica ou ferramenta de aumento de produtividade. Ela se tornou infraestrutura de poder, fator de produção, multiplicador militar e instrumento de influência geopolítica. Em torno dela está surgindo uma nova arquitetura internacional, na qual o acesso à capacidade computacional e aos modelos mais avançados passa a definir quais países exercerão soberania plena e quais dependerão de terceiros.

É essa transformação que propomos chamar de soberania cognitiva: a capacidade de uma nação de preservar acesso confiável às tecnologias responsáveis por produzir, processar e ampliar inteligência em escala. Assim como a soberania energética condicionou a autonomia dos Estados no século XX, a soberania cognitiva tende a tornar-se um dos principais fundamentos da autonomia nacional neste século. Não se trata de produzir todos os chips do mundo nem de desenvolver isoladamente os modelos mais sofisticados. Trata-se de garantir que decisões tomadas em capitais estrangeiras não possam interromper, de um dia para outro, a capacidade nacional de inovar, competir, defender-se e governar.

Já sustentamos, em artigo anterior nesta Gazeta, intitulado A IA virou arma militar, que a IA deixou de ser tecnologia predominantemente civil para converter-se em instrumento de poder estatal e componente essencial de capacidades militares. O que se desenhava como tendência tornou-se doutrina. Os EUA tratam a cadeia de semicondutores com o mesmo zelo com que, na Guerra Fria, tratavam os mísseis balísticos e organizam o acesso aos chips e aos modelos de fronteira como quem administra um arsenal: por aliados confiáveis, por países meramente tolerados e por nações francamente hostis. A lógica deixou de ser a do livre mercado e passou a ser a da segurança nacional.

Robert Gilpin observava que grandes transformações na ordem internacional costumam ocorrer quando novas tecnologias alteram profundamente a distribuição relativa de poder entre os Estados. É precisamente isso que estamos testemunhando. A IA deixou de ser apenas um setor econômico para tornar-se variável central da competição estratégica. Quem controlar sua infraestrutura controlará parte crescente da inovação científica, da produtividade industrial, da superioridade militar e, em última instância, da influência política internacional.

E o acesso, nessa nova ordem, é a arma que nenhum veículo blindado iguala. Em 2026, o governo americano determinou que um dos principais laboratórios de IA do país suspendesse o acesso de estrangeiros a seus modelos mais avançados, Mythos e Fable; a Anthropic, desenvolvedora de ambos, respondeu suspendendo o acesso de todos, no mundo inteiro, por tempo indeterminado.

Foi a profecia cumprida: o cercamento da fronteira tecnológica, que descrevíamos como o equivalente digital de um embargo, deixou de ser hipótese e tornou-se fato consumado. As autoridades dos Estados Unidos voltaram atrás na proibição de acesso ao Fable no início de julho, mas mantiveram as restrições relacionadas ao Mythos.

A lição que o episódio inscreve a ferro é simples e brutal: na era cognitiva, a capacidade da qual um país depende pode evaporar da noite para o dia, não por uma guerra, mas por um despacho administrativo. Esse embargo tecnológico deixou de ser hipótese para transformar-se em realidade, da qual o Brasil se aproxima sem possuir estratégia para alcançar soberania cognitiva.

A história ensina o que está em jogo, e ensina sem piedade. Sempre que uma tecnologia altera profundamente a distribuição do poder entre os Estados, ela deixa de ser apenas inovação econômica para se transformar em ativo estratégico, dividindo o mundo entre soberanos e tutelados. O mercado cede espaço à geopolítica; a concorrência, ao controle; a eficiência, à segurança nacional e à resiliência. O que hoje observamos com os semicondutores e a inteligência artificial não constitui ruptura da história, mas sua continuidade.

Em 1945, os EUA detinham o monopólio atômico; no ano seguinte, a Lei McMahon cortou o acesso à tecnologia nuclear norte-americana até de seu aliado mais próximo, o Reino Unido, que combatera a seu lado e contribuíra para o próprio Projeto Manhattan. Londres precisou desenvolver seu programa nuclear para fins militares sem apoio direto dos EUA e gastar mais de uma década de diplomacia paciente para reconquistar a confiança de Washington, selada apenas em 1958. A lição é dupla e atualíssima: a autarquia tecnológica quase nunca é viável, e a exclusão do clube dos que dominam a tecnologia decisiva é uma sentença que se paga em gerações. Quem chega tarde, ou chega do lado errado da linha, dificilmente recupera o tempo perdido.

A IA representa novo salto dessa trajetória histórica. Pela primeira vez, a tecnologia dominante não amplia apenas uma capacidade específica, mas potencializa todas as demais. Acelera a pesquisa científica, otimiza cadeias logísticas, aumenta a produtividade industrial, transforma os mercados financeiros, revoluciona a medicina, amplia capacidades militares e acelera o próprio desenvolvimento de novas IAs. Não é apenas mais uma tecnologia disruptiva, mas a primeira capaz de acelerar sistematicamente a produção de conhecimento em praticamente todos os setores da economia.

Justamente por isso, a IA começa a ocupar lugar comparável ao que a energia ocupou na Revolução Industrial ou o petróleo desempenhou durante o século XX. Ela deixa de ser um setor para tornar-se infraestrutura. Mais do que um novo mercado, converte-se em novo fator de produção. Terra, trabalho e capital continuam indispensáveis, mas passam a depender crescentemente de uma quarta variável: a capacidade de produzir inteligência em escala. Em outras palavras, a competição internacional passa a ser, cada vez mais, uma disputa pela soberania cognitiva.

Essa transformação explica por que as grandes potências passaram a tratar chips avançados, capacidade computacional e modelos de fronteira como ativos de segurança nacional. O objetivo não é apenas liderar mercados, mas controlar a infraestrutura da inteligência mundial. O que antes era política industrial converte-se em grande estratégia.

Convém medir, então, o tamanho real da nossa fragilidade. Pensemos no que sustenta um único modelo de fronteira. Na base está o silício: chips fabricados em um processo tão exigente que apenas três empresas no mundo o dominam, dependentes, todas elas, de uma única companhia holandesa, a ASML, que fabrica as máquinas de litografia sem as quais nada se produz. Acima do silício está a energia: um data center de fronteira consome o equivalente a uma cidade média, e projetos norte-americanos já se medem em gigawatts.

Acima da energia estão os modelos, treinados por um punhado de laboratórios que gastam, cada um, mais por ano do que o Brasil inteiro destina à ciência. E, acima de tudo, está o talento, escasso e migratório, que o Brasil forma e exporta como exporta soja. O cômputo tornou-se a moeda mensurável do poder neste século, como o foram a tonelagem naval e a capacidade nuclear nos anteriores, e a distância entre quem o possui e quem não o possui define um domínio importante da hierarquia internacional.

Dessas camadas, o Brasil não controla nenhuma. Não temos a litografia, não fabricamos os chips, não treinamos os modelos de fronteira e perdemos os cérebros que formamos. Temos, é verdade, uma única peça do quebra-cabeça, e a ela voltaremos, porque nela mora a única estratégia possível. Antes, porém, é preciso entender por que essa dependência é de uma espécie mais perigosa do que qualquer outra que já enfrentamos.

O Brasil conhece bem a sensação da dependência estratégica. Importa mais de 85% dos fertilizantes que aplica em suas lavouras, de uma oferta mundial concentrada em poucas mãos, e sabe o que é ver o custo da própria comida oscilar ao sabor de guerras alheias. Mas reparemos numa diferença decisiva. Por mais dolorosa que seja, a dependência de fertilizantes é superável, pois o Brasil tem o subsolo, o gás, o fosfato e o potássio. Tem, portanto, a geologia da própria emancipação. É um problema que se resolve com capital, infraestrutura e a paciência de um projeto longo. A servidão do adubo tem cura, ainda que lenta.

Com a IA não há cura análoga, e aqui está a tese deste artigo: a dependência em IA pode tornar-se o passivo estratégico mais grave do Brasil neste século, pior que o dos fertilizantes, porque o ecossistema da inteligência artificial não é um insumo, é um organismo, e nenhuma de suas partes se deixa estocar, substituir ou nacionalizar com a simples aplicação de tempo e dinheiro. O fertilizante é uma commodity, fungível, estocável, substituível, comprável de vários fornecedores e, em grande medida, replicável com a geologia que já temos.

A dependência da IA pertence, entretanto, a uma categoria inteiramente distinta. O que a distingue de praticamente todos os insumos estratégicos conhecidos é que ela não constitui apenas um produto, mas infraestrutura sobre a qual passa a repousar parte crescente da economia contemporânea. É uma fronteira em movimento, e quem fica de fora não permanece onde está. Afasta-se progressivamente da fronteira tecnológica.

É precisamente esse mecanismo que torna a soberania cognitiva diferente da soberania energética, alimentar ou mineral. Um país pode recuperar décadas de atraso industrial. Pode descobrir novas reservas de petróleo. Pode expandir sua produção agrícola. Mas recuperar o tempo perdido em uma tecnologia cujo próprio ritmo de evolução se acelera continuamente é infinitamente mais difícil, pois, quanto maior a distância tecnológica, maior a velocidade com que essa distância tende a crescer.

O cômputo não se estoca; o que vale é a capacidade instalada hoje, treinando os modelos de amanhã, que treinarão os de depois. É um juro composto da inteligência, e o Brasil está fora dele. Pior: ao contrário do adubo, que nutre uma safra, a IA é o substrato da produtividade futura, da defesa, da economia e da administração pública que nossos filhos herdarão. Uma nação que não a possui não paga apenas mais caro; torna-se estruturalmente subalterna, locatária da cognição alheia, condenada a alugar do estrangeiro a própria capacidade de pensar em escala.

É o embargo do século XXI, e traz um agravante que o torna mais cruel que o do átomo ou o do adubo: não há jazida no subsolo e não há projeto industrial de 25 anos que dele nos liberte, porque a fronteira que precisaríamos alcançar terá avançado outra vez quando lá chegássemos. E, como a própria Terafab, de Elon Musk, demonstra – a fábrica de chips orçada em até US$ 119 bilhões, com a ambição de produzir sozinha mais cômputo do que toda a indústria atual –, erguer o ecossistema do zero é incerto, mesmo com bilhões e gênio. Por isso, o slogan da “IA soberana”, repetido por autoridades brasileiras de todos os matizes, não é apenas ingênuo; é perigoso, porque substitui a estratégia pela pose, e a pose anestesia.

E aqui chegamos ao documento que o Brasil ousa chamar de estratégia: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). Batizado com o título de autoajuda “IA para o Bem de Todos”, promete R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Ponhamos o número em perspectiva. São pouco mais de US$ 4 bilhões ao longo de quatro anos, o equivalente ao que as grandes empresas americanas de tecnologia investem, somadas, em pouco mais de uma semana. É também, sozinho, quase tudo o que o país gastou em um único ano com toda a área de ciência e tecnologia.

Com essa quantia, promete um supercomputador “entre os cinco mais potentes do mundo”, ambição que já nasce vaga e obsoleta, rodando, como quase tudo no país, sobre GPUs importadas da Nvidia, em nuvens hospedadas pela Amazon, sob um marco regulatório que segue adiado, à espera das eleições.

As premissas do plano falam em bem-estar, diversidade, sustentabilidade e governança participativa, vocabulário típico de um seminário de recursos humanos woke, não o de uma estratégia de poder nacional. Confunde-se adoção com soberania, gasto com capacidade, e o vazio é maquiado com um PDF de capa reluzente. O perigo não é o PBIA ser modesto, mas, sim, tomá-lo por estratégia e, assim, dormir o sono dos que se julgam protegidos.

Que fazer, então, se a autarquia é fantasia e a passividade é suicídio? A resposta começa por uma humildade estratégica que falta ao discurso nacional: o Brasil não vai dominar a fronteira da IA, e fingir o contrário é desperdiçar a única década que importa. O objetivo realista não é a “IA soberana”, é a mitigação da fragilidade, o que os estrategistas chamam de dependência administrada. Disso decorrem linhas de ação concretas.

A primeira, e mais urgente, é diplomática: garantir ao Brasil assento no grupo confiável da nova arquitetura norte-americana de controle de exportações de chips e modelos, o que não será possível com um governo brasileiro francamente hostil a Washington. O mundo da IA está sendo dividido, neste exato momento, entre aliados confiáveis, países tolerados e nações restritas, e o episódio Mythos e Fable mostrou que essa fronteira é real e excludente.

Assim como o Reino Unido teve de negociar, ano após ano, seu retorno ao círculo nuclear norte-americano, o Brasil terá de negociar ativamente seu lugar no círculo do cômputo. Uma das tarefas centrais da política externa brasileira nos próximos anos é assegurar que o país fique do lado certo dessa linha, mediante a adoção de instrumentos bilaterais com os EUA, tratados com a mesma seriedade com que se tratam segurança energética e defesa. Isso deve constar de qualquer estratégia de política externa digna do nome.

A segunda explora a única carta que o Brasil de fato possui: energia limpa, abundante e barata. Se há um insumo da pilha de IA em que somos ricos, é eletricidade renovável, justamente o gargalo que sufoca os data centers norte-americanos e europeus. O Brasil deve transformar essa abundância em presença física de cômputo no território nacional, atraindo o investimento dos grandes provedores, como fazem os emirados do Golfo e os países nórdicos. Ainda que a infraestrutura seja de capital estrangeiro, a presença física significa jurisdição, empregos qualificados, transferência de competência e, sobretudo, poder de barganha. Energia é a nossa moeda, e é com ela que compramos um lugar à mesa.

A terceira é diversificar as parcerias dentro do bloco que importa. Os EUA são o sócio indispensável, porque controlam chips, modelos e capital. Mas Japão, Coreia do Sul e Taiwan oferecem equipamentos, técnicas de integração que unem chip e memória (advanced packaging) e formação de quadros. Com a China, a prudência enseja cautela: ela oferecerá chips e modelos a preço político, mas aceitá-los nos expulsaria do grupo confiável ocidental e nos lançaria numa subalternidade pior, temperada por riscos de vigilância. Realismo não é equidistância, e sim saber de que lado fica o futuro.

A quarta é construir, em vez do quimérico modelo de fronteira, a camada em que o retorno marginal brasileiro é maior: a aplicação. Não competiremos com os laboratórios que gastam dezenas de bilhões treinando modelos gigantes. Competiremos – e podemos vencer – ajustando esses modelos aos domínios em que temos dados e vantagem natural: o agronegócio, a medicina tropical, a biodiversidade e a gestão de redes elétricas. Os esforços nacionais de modelos próprios fazem sentido como camada de adaptação soberana, não como pretensos campeões a desafiar a fronteira.

A quinta é multilateral e subsidiária, jamais substitutiva: articular um arranjo lusófono e sul-americano de cômputo e dados, com o Brasil como polo regional, aproveitando o patrimônio linguístico do português como ativo estratégico. Foros como o BRICS servem para hedge pragmático, não como sucedâneo do acesso ocidental que de fato decide o jogo. Quem confunde o acessório com o essencial paga com décadas.

A sexta, por fim, é institucional: tirar a IA do gueto do Ministério da Ciência e Tecnologia e instalá-la no núcleo da grande estratégia nacional, ao lado da política externa e da defesa. Enquanto a inteligência artificial for tratada como pauta setorial de inovação, e não como questão de poder nacional, nenhum plano, por mais bilhões que prometa, escapará da retórica.

Há uma simetria histórica que deveria nos assombrar. O século XX foi decidido por quem dominou primeiro as tecnologias capazes de aniquilar ou sustentar nações inteiras e soube negá-las aos rivais. O século XXI será moldado por quem dominar a inteligência das máquinas e souber tirar cognição da areia e da luz.

O Brasil chega a essa corrida com as matérias-primas do novo tempo nas mãos e ameaça desperdiçá-las com uma estratégia feita de adjetivos e um PowerPoint batizado de plano. Uma estratégia brasileira de IA realista tem de cortar o besteirol pseudoprogressista, reconhecer as limitações estruturais do país e fazer escolhas possíveis, o que é inteiramente distinto do que foi feito até o momento.

A dependência de fertilizantes empobrece uma safra; a dependência de inteligência empobrece um século. A primeira tem cura na geologia e na paciência. A segunda só tem remédio na lucidez estratégica, e lucidez é precisamente o que nos falta enquanto trocamos política externa por bravata e estratégia por autoestima. Nenhum país exerce autonomia estratégica quando depende de decisões tomadas por outros para acessar a infraestrutura tecnológica sobre a qual repousam sua economia, sua ciência e sua defesa.

Ou o Brasil entende, ainda nesta década, que o acesso à inteligência artificial é uma das principais expressões contemporâneas da soberania, ou se acomodará, dócil e bem-intencionado, à mais amarga das servidões: transferir para outros o controle sobre sua própria inteligência.