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Soberania em Xeque: O Brasil Diante da Nova Geopolítica do Crime Transnacional

A soberania de uma nação costuma ser medida pela rigidez de suas fronteiras e pela solidez de suas instituições. No entanto, o cenário contemporâneo impôs ao Brasil um desafio de natureza peculiar, que não se manifesta por meio de invasões territoriais clássicas, mas por uma erosão silenciosa das estruturas de governança. O crime organizado, representado primordialmente pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e pelo Comando Vermelho (CV), atravessa uma metamorfose que o afasta da delinquência comum e o aproxima de um modelo de poder paraestatal. Essa evolução não se restringe ao controle de áreas periféricas, penetra as veias do Estado, infiltrando-se em setores estratégicos da administração pública e na economia formal, criando uma teia de influência que desafia a capacidade de resposta das ferramentas tradicionais.

O que se observa hoje é um processo de camuflagem institucional, no qual organizações criminosas utilizam a estrutura do próprio Estado para expandir seus domínios. Através da gestão indireta de serviços essenciais — como transporte público urbano, coleta de resíduos e até administração de unidades de saúde por meio de organizações sociais —, o crime organizado sequestra orçamentos públicos e converte verbas de impostos em capital de giro para operações ilícitas. Esse fenômeno aponta para um risco latente de “mexicanização”, termo que descreve a consolidação de feudos territoriais e administrativos onde o poder de fato das facções mitiga a autoridade republicana, além da cooptação de autoridade locais e federais e nos três poderes que fornecem lastro ao crime. Estamos diante da definição clássica de crime organizado, ou seja, grupos que se infiltram no poder estatal em suas posições de influência e comando. Quando a política local e a economia de serviços passam a gravitar em torno de interesses escusos, a integridade da democracia é posta em xeque, exigindo uma análise que transcenda a segurança pública e alcance a defesa nacional.

Essa complexidade ganha contornos ainda mais graves quando se observa que o território nacional deixou de ser apenas um mercado consumidor para se tornar um entreposto logístico global, atraindo a atenção de redes criminosas internacionais de matiz ideológica. A convergência entre o narcotráfico doméstico e a presença discreta, mas persistente, de células vinculadas a grupos terroristas extrarregionais altera a percepção de risco sobre o Brasil. Estes grupos internacionais utilizam a infraestrutura e a capilaridade financeira das notórias facções brasileiras para viabilizar operações de financiamento e suporte logístico, criando um nexo do terror com o narcotráfico que coloca o país no radar das grandes agências de segurança global. A Operação Carbono Oculto confirma este cenário. O território brasileiro, historicamente percebido como pacífico, enfrenta agora infiltrações que conectam o crime urbano às dinâmicas de instabilidade do Oriente Médio e de outras zonas de conflito.

Um dos pilares dessa vulnerabilidade reside na arquitetura financeira do país. O Brasil carece de uma lei robusta de triagem de investimentos estrangeiros (Investment Screening), similar ao modelo adotado por economias centrais. Uma proposta robusta sobre tema trâmita no Congresso Nacional, mas sem a devida urgência necessária. A inexistência de filtros de segurança nacional que escrutinem a origem e o beneficiário final de grandes aportes no mercado de capitais mantém as portas do país escancaradas para ativos perigosos. Através de engenharias societárias complexas em paraísos fiscais, o capital oriundo de atividades ilícitas e do financiamento ao terrorismo é reciclado na economia real brasileira, conferindo legitimidade a recursos que financiam a desestabilização institucional. A fragilidade regulatória torna o mercado financeiro um porto seguro para a lavagem de dinheiro em larga escala, expondo o sistema bancário a riscos reputacionais severos.

É neste vácuo jurídico e de omissão do Congresso Nacional em acelarar a tramitação de matérias que podem blindar o país, que surge o argumento da estratégia de defesa contemporânea: a possibilidade de convergência com a classificação de “Organização Terrorista Estrangeira” (FTO) proposta pelos Estados Unidos. Diante do cenário brasileiro atual e sob a ótica da Realpolitik, o apoio a essa medida não deve ser interpretado como uma submissão, mas como a adoção de um multiplicador de forças indispensável. Ao integrar o PCC e o CV a este regime, o Brasil ganha acesso imediato a um arsenal de sanções financeiras internacionais e inteligência de alta tecnologia que o país, isoladamente, levaria décadas para desenvolver. A classificação como terrorismo retira as facções da zona de conforto do direito penal comum e as coloca sob o escrutínio de mecanismos globais de bloqueio de ativos, permitindo que o Estado brasileiro recupere o controle sobre seu sistema financeiro e suas instituições.

A verdadeira soberania, portanto, manifesta-se na capacidade de um Estado em reconhecer a magnitude de suas ameaças e buscar alianças que potencializem sua autoridade. O apoio à iniciativa americana e a implementação de leis rigorosas de triagem de investimentos são faces de uma mesma moeda: a proteção do futuro econômico e democrático do Brasil. Ao alinhar-se aos padrões internacionais de combate ao narcoterrorismo, o país não abdica de sua independência, ao contrário, ele a exerce plenamente ao purificar seu mercado de capitais e ao retomar o controle das instituições das mãos de quem as utiliza para fins espúrios. O enfrentamento ao crime organizado e às redes terroristas internacionais exige pragmatismo soberano, garantindo que o território brasileiro permaneça sob o império da lei, ao invés de ser porto seguro para recursos que financiam o crime.

A onda de choque global: consequências geopolíticas e econômicas da guerra EUA-Israel contra o Irã

A campanha militar coordenada entre os EUA e Israel contra o Irã, lançada no final de fevereiro de 2026, marca um momento decisivo na geopolítica do século XXI. A escala sem precedentes da ofensiva — com mais de 2.000 ataques direcionados a instalações nucleares, silos de mísseis e uma operação de decapitação que matou o Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei — transformou abruptamente o Oriente Médio, passando de conflitos por procuração para uma guerra direta e existencial. Ao buscar abertamente a mudança de regime e desmantelar as capacidades nucleares e de mísseis do Irã fora da estrutura do Conselho de Segurança da ONU, Washington e Jerusalém desencadearam uma série de realinhamentos econômicos e diplomáticos em todo o mundo.

Os Estados Unidos: Força Unilateral e Excesso de Responsabilidade Estratégica

Para os Estados Unidos, a intervenção militar representa uma mudança definitiva da diplomacia para a força cinética após o colapso das negociações nucleares no início de fevereiro. O governo Trump justificou os ataques com base no Artigo 51 da Carta da ONU, citando ameaças iminentes e proliferação nuclear. No entanto, a campanha acarreta enormes riscos estratégicos. O destacamento de múltiplos grupos de ataque de porta-aviões, incluindo o USS Abraham Lincoln e o USS Gerald R. Ford, exerce uma imensa pressão sobre a prontidão naval dos EUA, especialmente enquanto Washington tenta manter a dissuasão no Indo-Pacífico.

Economicamente, os EUA estão relativamente protegidos do choque energético imediato. Com uma produção interna próxima do recorde de 13,6 milhões de barris de petróleo bruto por dia, a produção doméstica oferece uma proteção contra a escassez global. No entanto, os EUA não estão imunes à inflação global que os preços elevados e sustentados do petróleo irão desencadear. O governo enfrenta imensa pressão para garantir uma resolução rápida antes que os preços da gasolina no mercado interno impactem severamente os consumidores americanos e ameacem a estabilidade econômica em geral.

O Dilema Estratégico do Japão: A Aliança vs. a Segurança Energética

O conflito colocou o Japão em uma posição extremamente precária. A primeira-ministra Sanae Takaichi está navegando em uma corda bamba diplomática, dividida entre a indispensável aliança de segurança de Tóquio com os EUA e sua dependência do Oriente Médio para mais de 90% de suas importações de petróleo bruto.

Historicamente, o Japão defendeu a “ordem internacional baseada em regras” para contrabalançar a assertividade chinesa e russa. No entanto, a relutância de Tóquio em condenar ou apoiar explicitamente os ataques unilaterais dos EUA e de Israel expõe uma flagrante contradição geopolítica. Takaichi concentrou sua retórica estritamente na condenação das ambições nucleares do Irã para evitar alienar Washington antes de negociações comerciais cruciais e de uma planejada cúpula na Casa Branca. Contudo, a interrupção da navegação pelo Estreito de Ormuz — levando gigantes do transporte marítimo japoneses, como a Nippon Yusen, a suspenderem as operações — ameaça a frágil recuperação econômica do Japão. Essa crise mina seriamente a credibilidade de Tóquio como ponte diplomática entre o Ocidente e o Sul Global.

BRICS: Indignação e a Busca pela Multipolaridade. Para o bloco BRICS, a decapitação da liderança iraniana é vista não apenas como um conflito regional, mas como uma ameaça direta à soberania global e à ordem pós-Guerra Fria. O Irã, membro recente da aliança BRICS, serve como um nó crucial na Iniciativa Cinturão e Rota da China e como um importante fornecedor de energia para Pequim.

A Rússia e a China condenaram veementemente a ofensiva EUA-Israel. Moscou a classificou como um “ato premeditado de agressão armada”, enquanto Pequim, que possui centenas de milhares de cidadãos e investimentos maciços no Golfo, exigiu a interrupção imediata da ação militar. Para os formuladores de políticas do BRICS, a tática de “negociar e atacar” empregada pelos EUA estabelece um precedente assustador de “governo por exceção” hegemônico. Essa constatação está acelerando o esforço do bloco para estabelecer arquiteturas financeiras e de segurança alternativas, incluindo esforços de desdolarização, para se imunizar contra a coerção militar e econômica ocidental.

América Latina: Vulnerabilidade Econômica e Não Alinhamento. Na América Latina, o principal impacto imediato é macroeconômico. Um conflito prolongado ameaça manter os preços do petróleo elevados — os operadores já incorporaram um prêmio de risco de aproximadamente US$ 14 a US$ 15 por barril desde o início dos ataques. Para os importadores líquidos de energia na região, isso se traduz em inflação importada, orçamentos fiscais apertados e redução do poder de compra, podendo desestabilizar economias domésticas frágeis justamente quando estas tentam se recuperar de choques globais anteriores.

Por outro lado, nações exportadoras de petróleo na América Latina, como Brasil e Guiana, podem observar ganhos inesperados de receita a curto prazo. No entanto, as ramificações geopolíticas ofuscam esses ganhos. O desrespeito dos EUA às estruturas da ONU reforça a guinada da América Latina em direção ao “não alinhamento ativo”. Temendo um retorno à política externa intervencionista dos EUA, as potências regionais estão cada vez mais propensas a aprofundar seus laços econômicos e diplomáticos com o ecossistema do BRICS, considerando a multipolaridade como a única proteção viável contra o unilateralismo.

O Ponto Crítico Econômico

Em última análise, a economia global depende do Estreito de Ormuz. Com aproximadamente 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo fluindo por esse estreito corredor, os ataques retaliatórios do Irã contra bases e infraestrutura dos EUA nos Emirados Árabes Unidos destacam a extrema fragilidade das cadeias de suprimentos globais. Embora exista alguma capacidade ociosa em gasodutos, um fechamento prolongado ou ataques persistentes ao tráfego marítimo poderiam elevar o preço do petróleo bem acima de US$ 100 por barril e levar os preços do gás natural na Europa a patamares alarmantes. As consequências macroeconômicas — inflação mais alta e menor crescimento do PIB global — testarão a resiliência tanto das alianças ocidentais quanto das economias emergentes nos meses voláteis que se aproximam.

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Os primeiros pronunciamentos de Erika Hilton à frente da Comissão da Mulher

Como estrategista de comunicação, uma das áreas em que mais trabalho é a análise de discurso. Não se trata de julgar intenções nem de discutir se alguém está “certo” ou “errado”, mas de observar como as palavras são organizadas para produzir determinados efeitos políticos, simbólicos e emocionais.

É por esse ângulo específico que vale olhar os primeiros pronunciamentos da deputada Erika Hilton após assumir a presidência da Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados.

O primeiro post de Erika Hilton foi o seguinte:

“Hoje dei mais um passo na reparação da minha própria história e também na reparação da história de tantas mulheres que tiveram suas dignidades negadas.

Porque não é apenas a questão trans que determina como uma mulher será tratada ou destratada. A raça, a classe, o CEP e tantas outras condições ainda definem quem tem direitos garantidos e quem precisa lutar todos os dias para existir com dignidade.

Por isso, hoje ocupei com honra, alegria e um sabor muito especial de vitória a presidência da Comissão da Mulher (uma vitória construída enfrentando e derrotando o centrão e a extrema direita).

E não estou nem um pouco preocupada se o esgoto da sociedade não gostou.

A opinião de transfóbicos e imbeCIS é a última coisa que me importa.

Hoje fiz história por mim, que tive minha adolescência e minha dignidade roubada pelo preconceito e discriminação.

Hoje fiz história pela minha comunidade, que ainda enfrenta os piores índices em praticamente todos os aspectos da vida social.

E é isso que vai ficar: não o ódio, não o ranço, não a raiva dos que tentam nos apagar.

Podem espernear. Podem latir.

Eu sou a presidenta da Comissão da Mulher.

E foi a minha luta, a minha história e a minha garra que me trouxeram até aqui.

E agora faremos um debate sobre todas as mulheres porque somente unidas podemos frear a violência que nos assola.”

O segundo pronunciamento veio após comentários feitos pelo apresentador Ratinho sobre a presença de uma mulher trans na presidência da Comissão da Mulher:

“Sim, estou processando o apresentador Ratinho.

Sei que, pela audiência irrisória de seu programa, que até onde sei não agrada nem suas chefes no SBT, lhe resta apelar à violência.

Porque o que o apresentador cometeu foi uma violência, um ataque, e não foi só contra mim.

Ratinho interrompeu seu programa pra dizer que mulheres trans não são mulheres, que mulheres que não menstruam não são mulheres, que mulheres que não têm útero não são mulheres e que mulheres que não têm filhos não são mulheres.

Este ataque de Ratinho foi contra todas as mulheres trans e contra todas as mulheres cis que não menstruam mais ou nunca menstruaram.

Foi contra todas as mulheres cis que nunca tiveram útero ou, por condições de saúde, como o câncer, precisaram removê-lo.

Foi contra todas as mulheres que não podem ou não querem ter filhos.

Foi contra as mulheres que perderam seus filhos ainda na gestação.

O discurso de Ratinho foi, sim, para me atacar e atacar as pessoas trans. Mas demonstrou a misoginia, o ódio primal que essa figura nojenta tem de toda e qualquer mulher que não siga o roteiro que ele considera certo.

E, para ele, mulheres são máquinas de reprodução.

Eu quase me surpreendi ao assistir a um raciocínio tão retrógrado.

Mas aí lembrei das notícias reportando que, em 2016, 128 anos depois da abolição da escravatura, Ratinho submetia pessoas à escravidão em suas fazendas no Paraná.

E o apresentador pode até querer viver nesse passado, dentro de sua cabeça. Se a preocupação com as denúncias que farei contra um escândalo envolvendo o seu filho e o crime de estupro de vulnerável mais tarde não ocupar toda a sua capacidade cerebral, é claro.

Mas aqui fora, no mundo real, ele e o SBT pagarão pelos seus atos, na esfera cível e criminal. E eles não pagarão a mim, mas a todas as mulheres vítimas de violência, trans e cis.

Por fim, vale lembrar: eu sou e sempre serei uma mulher. Este apresentador é, e sempre será, um rato.”

Analisados do ponto de vista da estratégia discursiva, os dois textos de Erika Hilton seguem uma lógica muito clara.

O primeiro movimento é transformar a ocupação de um cargo institucional em narrativa biográfica. A presidência da Comissão da Mulher aparece como “reparação da própria história” e “reparação da história de tantas mulheres”. O cargo deixa de ser apresentado como função de representação plural e passa a ser narrado como vitória pessoal e simbólica.

Em seguida vem a ampliação da narrativa para uma estrutura interseccional. A questão trans é apresentada como parte de um conjunto mais amplo de opressões envolvendo raça, classe e território. Esse recurso tem a função de transformar um evento específico em símbolo de transformação social mais abrangente.

O terceiro elemento presente nos dois textos é a deslegitimação do adversário. No primeiro post aparecem expressões como “esgoto da sociedade” e a metáfora “podem latir”. No segundo texto, o adversário passa a ser descrito como “figura nojenta” e é animalizado na frase final. Esse tipo de linguagem cumpre uma função clara na comunicação política contemporânea: retirar o oponente do campo da disputa racional e colocá-lo no campo da degradação moral.

Outro elemento importante é a expansão da vítima. No episódio envolvendo Ratinho, uma afirmação sobre definição de mulher baseada em sexo biológico é reinterpretada por Erika Hilton como ataque contra uma série de grupos: mulheres trans, mulheres sem útero, mulheres que não menstruam, mulheres que não podem ou não querem ter filhos e mulheres que perderam filhos. Essa expansão amplia o alcance emocional da narrativa e transforma um conflito individual em conflito coletivo.

Há ainda um ponto conceitual relevante no uso do termo “cis”. No primeiro texto de Erika Hilton aparece a expressão “imbeCIS”, em que o marcador de identidade é transformado em insulto. Esse uso parte de uma premissa ideológica específica: a ideia de que mulheres que não são trans precisam ser classificadas como “cisgênero”. O problema é que essa classificação não nasce de um consenso científico ou filosófico, mas de uma construção militante recente que tenta redefinir categorias biológicas consolidadas.

Já escrevi sobre esse fenômeno em outra coluna publicada na Gazeta do Povo, intitulada “Cancelamento por ‘transfobia’ do prof. Miskolci gera movimento pela liberdade de cátedra”. Na ocasião, mostrei como a introdução de conceitos como “cisgênero” funciona como ferramenta de coerção discursiva. Quem se recusa a adotar essa terminologia passa automaticamente a ser enquadrado como transfóbico, mesmo quando está apenas defendendo uma definição baseada em sexo biológico.

Esse uso do conceito produz um efeito curioso. Em vez de ampliar o debate, ele o restringe. A discussão deixa de ser sobre políticas públicas e passa a ser sobre fidelidade a um vocabulário ideológico específico.

Quando se observam os dois pronunciamentos de Erika Hilton em conjunto, aparece um padrão discursivo bastante consistente: narrativa biográfica como fonte de legitimidade, ampliação simbólica da vítima, deslegitimação moral do adversário e uso de categorias identitárias como eixo central da argumentação.

Independentemente das posições políticas de cada leitor, esses elementos ajudam a entender como o debate contemporâneo sobre gênero tem sido conduzido no espaço público brasileiro. Em vez de discutir conceitos, evidências ou políticas públicas concretas, a disputa frequentemente se desloca para o terreno da linguagem, onde quem controla as palavras tenta controlar também os limites do debate.

Sintonia Estratégica: O Equilíbrio entre a Soja de Pequim e o Silício de Taipei

O cenário geopolítico de 2026 situa o Brasil em uma encruzilhada estratégica: enquanto o país ruma para as eleições de outubro, a estabilidade do Estreito de Taiwan deixa de ser um detalhe cartográfico para se tornar um pilar da saúde econômica nacional. Se a distância entre os dois pontos é vasta no mapa, a interdependência é absoluta na prática, transformando tensões no Pacífico em variáveis diretas da política interna brasileira. O resultado das urnas, portanto, definirá a longevidade de uma coreografia diplomática complexa, na qual o próximo governo deverá equilibrar a histórica neutralidade do Itamaraty, a voracidade exportadora do agronegócio e a dependência vital da indústria nacional pelos semicondutores taiwaneses.

Ideologia vs. Pragmatismo

Desde a retomada das relações com a República Popular da China na década de 1970, o Brasil tem mantido uma adesão inabalável ao princípio de “Uma Só China”. Sob o atual governo Lula essa posição foi reafirmada com vigor. Para a atual gestão e seus possíveis sucessores de esquerda, a questão de Taiwan é vista estritamente como um “assunto interno” chinês, longe da ambiguidade estratégica exercida pelos EUA e diversas outras potências mundiais.

No campo da oposição, nomes como Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior enfrentam um dilema. Se, por um lado, há uma afinidade ideológica natural com as democracias liberais e com o alinhamento aos Estados Unidos, por outro, o agronegócio brasileiro — base de apoio vital da direita — é profundamente dependente da China.

Embora um governo de direita possa adotar uma retórica mais assertiva em defesa da democracia em Taiwan, o “pragmatismo do PIB” tende a prevalecer. Uma ruptura ou um apoio explícito à independência da ilha poderia desencadear retaliações comerciais imediatas de Pequim, que hoje absorve cerca de 37% das exportações agrícolas brasileiras. Assim, a tendência para 2027, mesmo sob nova direção, seria a manutenção da neutralidade, deixando aberto um canal seguro e pragmático com Taipei.

Impactos Econômicos: A “Dupla Vulnerabilidade”

A política externa brasileira para o Estreito de Taiwan é moldada por uma vulnerabilidade dual que transcende a diplomacia tradicional e atinge o núcleo da balança comercial. No flanco das exportações, a China consolidou-se como o destino hegemônico para as commodities nacionais, absorvendo volumes massivos de soja, proteína animal e minério de ferro que sustentam o superávit brasileiro. No entanto, essa dependência comercial torna o país refém da estabilidade logística no Leste Asiático, visto que aproximadamente 25% do comércio marítimo global atravessa as águas daquela região. Um eventual conflito ou bloqueio naval no Estreito não apenas interromperia o fluxo direto de mercadorias, mas desestruturaria as cadeias de suprimentos mundiais, catapultando os custos de frete e seguros a patamares proibitivos, asfixiando a rentabilidade do agronegócio nacional. Uma instabilidade que custaria muito caro, como estamos vendo com o bloqueio do Estreito de Ormuz, mas com reflexos diretos na economia brasileira.

Paralelamente o país deve trilhar um caminho pragmático que reside na integração profunda com o ecossistema tecnológico taiwanês, o mais sofisticado do globo, para alavancar a reindustrialização nacional sob bases modernas. Hoje, sem o fornecimento contínuo dos semicondutores produzidos na ilha, a indústria de transformação brasileira — que abrange desde a montagem de veículos de passeio até a fabricação de eletrônicos e maquinário agrícola de alta precisão — sofreria um colapso operacional imediato. Esse cenário de “apagão tecnológico” atuaria como um catalisador inflacionário agressivo, elevando o preço de bens de consumo e corroendo o PIB industrial de forma sistêmica. Assim, a manutenção do status quo no Pacífico deixa de ser uma questão puramente geopolítica para se tornar uma garantia de sobrevivência para a competitividade e o desenvolvimento tecnológico do Brasil.

O Estreito nas Urnas: O Que Está em Jogo?

O próximo presidente brasileiro terá que gerir o risco de “desinflação exportada” pela China (que ajuda a controlar a inflação doméstica no curto prazo, mas prejudica a indústria local) enquanto navega pela possibilidade de sanções cruzadas entre Washington e Pequim sobre Taiwan.

O impacto da eleição brasileira de 2026 na política para o Estreito será, acima de tudo, um exercício de equilíbrio de riscos. O Brasil não tem peso militar para influenciar a região, mas tem peso econômico suficiente para sofrer as ondas de choque de qualquer alteração no status quo. Seja sob a continuidade da esquerda ou a guinada à direita, a política externa brasileira deve permanecer guiada pela necessidade de evitar danos colaterais, mantendo canais abertos nas duas capitais, Pequim e Taipei, que representam países soberanos e independentes, ambos igualmente parceiros estratégicos para economia brasileira.

O próximo ocupante do Palácio do Planalto herdará a missão de diversificar parceiros comerciais e buscar autossuficiência tecnológica — um desafio monumental que determinará se o Brasil será um ator resiliente ou uma vítima passiva das tensões no Pacífico.

Quando a defesa da liberdade de imprensa depende de quem é o jornalista

A liberdade de imprensa é um dos pilares de qualquer democracia. Não existe sociedade livre sem jornalistas livres para investigar, questionar autoridades e publicar informações de interesse público. No Brasil, essa garantia está expressa na Constituição, que protege não apenas a liberdade de expressão, mas também o sigilo da fonte.

Nos últimos anos, porém, uma contradição preocupante passou a marcar o debate público: a defesa da liberdade de imprensa parece depender de quem é o jornalista.

Recentemente, entidades importantes da imprensa brasileira — como a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, a Associação Nacional de Editores de Revistas e a Associação Nacional de Jornais — divulgaram uma nota criticando uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes que determinou busca e apreensão na casa do jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida.

A nota afirma algo absolutamente correto: medidas que violem o sigilo da fonte representam um ataque ao exercício do jornalismo.

O problema é que essa defesa da liberdade de imprensa não tem sido consistente ao longo dos últimos anos.

Desde 2019, diversas decisões judiciais ligadas ao chamado inquérito das fake news atingiram jornalistas e comunicadores. Entre os casos mais conhecidos estão os de Allan dos Santos, Rodrigo Constantino, Paulo Figueiredo e Guilherme Fiuza.

Esses profissionais foram alvo de medidas que incluíram bloqueio de redes sociais, ordens judiciais de remoção de conteúdo, buscas e apreensões, bloqueios financeiros e até pedidos de prisão.

Em outro caso pouco lembrado, o jornalista capixaba Jackson Rangel chegou a permanecer preso por quase um ano após críticas ao Supremo Tribunal Federal.

Mesmo antes disso, em 2019, o próprio STF determinou a retirada do ar de uma reportagem da revista Crusoé, episódio que gerou acusações de censura judicial.

O que chama atenção é que, em muitos desses episódios, as grandes entidades representativas da imprensa permaneceram em silêncio.

Não houve notas contundentes, mobilizações institucionais ou campanhas públicas em defesa da liberdade de imprensa.

Esse silêncio produziu um efeito perigoso.

Quando a liberdade de imprensa é defendida apenas em alguns casos — e ignorada em outros — cria-se a percepção de que existem jornalistas de primeira e de segunda categoria.

Os que pertencem a determinados veículos ou correntes ideológicas recebem solidariedade institucional.
Os outros ficam sozinhos.

Essa seletividade enfraquece o próprio princípio que se pretende proteger.

A liberdade de imprensa não existe para proteger apenas jornalistas simpáticos às entidades ou às redações tradicionais. Ela existe justamente para proteger o direito de todos os jornalistas de investigar e publicar informações, mesmo quando incomodam autoridades poderosas.

Quando instituições que deveriam defender o jornalismo se omitem diante de violações claras, acabam contribuindo, ainda que involuntariamente, para normalizar a censura e a perseguição judicial.

A história mostra que a liberdade de imprensa raramente é perdida de uma vez. Ela costuma ser corroída aos poucos, por decisões aparentemente pontuais, toleradas por setores que acreditam que o problema não os atingirá.

Até que atinge.

Por isso, a defesa da liberdade de imprensa precisa ser universal e incondicional.

Se ela depende da opinião política do jornalista, do veículo em que trabalha ou do grupo que representa, então ela deixa de ser um direito e passa a ser apenas um privilégio.

E uma democracia não pode sobreviver baseada em privilégios seletivos.

O PT como nosso “corpo da guarda da revolução islâmica”

Estamos vendo agora que vencer o Irã é impossível enquanto não for dissolvido o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica. Não adianta exigir do Irã que interrompa seu programa nuclear. Não adianta paralisar a produção de seus mísseis balísticos. Não adianta derrotar seus atuais braços terroristas (Hezbollah, Jihad Islâmica, Houthis, Hamas etc). E nem adianta matar os aiatolás e outros chefes religiosos, políticos ou militares iranianos. Se o corpo (Sepáh e-Pásdárán) não for dissolvido, nada feito.

É cabível um paralelo com o PT e a situação atual de degeneração das instituições da república brasileira, em que ministros do STF atropelam o parlamento e tornam nula a quebra de sigilo da empresa de um ministro. Protegem outro ministro que mente e concordam que ele use a corte para, em nota oficial da instituição, acusar falsamente uma instância do Congresso. A rigor, não há mais Estado de direito no Brasil e sim um Estado sob o arbítrio do STF. O império da lei virou império de um ente privado que age corporativamente para acobertar seus próprios malfeitos. E o que é pior: com objetivos políticos.

O que deve nos preocupar mais nem é o comportamento antidemocrático, ilegítimo e – como se vê agora – patentemente ilegal, de ministros da suprema corte. E sim ver que os militantes petistas estão negando tudo isso, dizendo que “Xandão está certo” e voltando a defender sua proposta histórica de “controle social da mídia” (sim, eles recuperaram seu velho slogan “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”).

Reelejam ou não Lula, esses negacionistas continuarão por aí: no governo (se não em cargos de confiança, como funcionários concursados), no parlamento (ainda que em minoria), nos tribunais de justiça e no ministério público, em coletivos de juristas “pela democracia”, nos institutos de pesquisa de opinião e nas agências de checagem, na infantaria de jornalistas dos grandes meios de comunicação (que agora passaram a atacar), nas universidades (sobretudo nas áreas de humanas das federais), em muitas ONGs e movimentos sociais, nos sindicatos, centrais e associações profissionais, nos meios artísticos e culturais (via artistas famosos), nos partidos satelizados (alinhados ao eixo autocrático) – e… na maioria do STF.

São alguns milhões de agentes de conquista de hegemonia compondo uma espécie, mutatis mutandis, de “corpo da guarda da revolução islâmica”, alocados em postos chaves das instituições do Estado e das organizações da sociedade, com alta resiliência ou capacidade de resistir (como fizeram após a condenação dos seus principais dirigentes no mensalão e no petrolão e após o impeachment de Dilma e a prisão de Lula).

Isso não se resolve apenas com eleições. Mesmo que Lula perca a eleição de 2026, eles continuarão atuando e tentando inviabilizar o novo governo (como fizeram após serem derrotados nas urnas de 2018 – ainda que o vencedor daquele pleito também não fosse democrático).

A composição do STF não mudará em 2026 (nem em 2030) e a maioria da corte prosseguirá agindo com base na ideologia delinquente de “democracia militante”, que justifica adotar métodos autoritários contra os que consideram seus inimigos (tidos por inimigos da democracia). De sorte que o PT continuará usando o STF para anular a vontade dos eleitores. Como sabe que não tem – e não terá – maioria no parlamento, usará a suprema corte para invalidar as decisões do Congresso. Isso é um ataque ao coração da democracia, pois não adianta eleger deputados e senadores em grande número: a canetada de um agente do PT na suprema corte – de apenas um militante – prevalecerá sobre a vontade de dezenas ou centenas de legítimos representantes eleitos.

E tudo isso será normalizado pelo, por assim dizer, “eixo da resistência iraniana” que se incrustou na nossa república. A analogia à primeira vista parece forçada, mas faz sentido: basta ver como o governo do PT se alinha ao eixo autocrático na sua campanha de destruição das democracias liberais: apoia as ditaduras russa, chinesa, cubana, venezuelana, nicaraguense, angolana e, inclusive… iraniana!

A permanecer o atual desenho institucional não há saída para a democracia brasileira a não ser um amplo e vigoroso movimento da nossa sociedade que questione tudo isso.

As Duas Sessões de 2026: A Mudança Estratégica da China e a Nova Arquitetura Global

As “Duas Sessões” de 2026 — as reuniões anuais da Assembleia Popular Nacional (APN) e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC) — revelaram uma trajetória recalibrada para a segunda maior economia do mundo. Marcando o lançamento do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), Pequim anunciou uma meta moderada de crescimento do PIB, de 4,5% a 5,0%. Essa leve desaceleração em relação aos anos anteriores sinaliza uma mudança definitiva do hipercrescimento impulsionado pelas exportações para o “desenvolvimento de alta qualidade” e o cultivo de “novas forças produtivas de qualidade”. Ao priorizar a inteligência artificial, a tecnologia quântica, a manufatura verde e o consumo interno, a China está protegendo sua economia contra choques externos, ao mesmo tempo em que se posiciona como a vanguarda tecnológica e econômica do Sul Global.

A dinâmica EUA-China: protegendo-se contra tarifas e geopolítica. As Duas Sessões ocorreram sob a sombra de intenso atrito geopolítico, particularmente a renovada guerra comercial e as pressões tarifárias dos Estados Unidos sob a administração Trump. As declarações do Ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, durante as sessões enfatizaram o respeito mútuo, ao mesmo tempo que alertaram contra a “lei da selva” — uma crítica velada às sanções unilaterais dos EUA e aos amplos envolvimentos militares de Washington no Oriente Médio. Com a tão aguardada cúpula Trump-Xi no horizonte, Pequim está jogando um jogo duplo: manter a porta aberta para a estabilização diplomática enquanto acelera a autossuficiência tecnológica.

A forte ênfase do 15º Plano Quinquenal na expansão da implantação de IA e na conquista da independência em tecnologias críticas (como semicondutores e aeroespacial) é uma contramedida direta aos controles de exportação dos EUA. Além disso, o aumento de 7% nos gastos com defesa da China, com foco em operações habilitadas por IA, sensores quânticos e tecnologias anti-hipersônicas, ressalta sua prontidão para deter a influência dos EUA no Indo-Pacífico, às vésperas do centenário do Exército de Libertação Popular em 2027.

O Dilema Estratégico do Japão: Para o Japão, os sinais econômicos e militares da China, provenientes das Duas Sessões de 2026, representam um desafio multifacetado. À medida que Pequim impulsiona a modernização industrial e a dominância na manufatura de alta tecnologia, compete diretamente com os pontos fortes tradicionais das exportações japonesas em robótica, indústria automotiva e maquinário avançado. Além disso, a intensificação da modernização militar chinesa força Tóquio a reavaliar sua própria postura de defesa. Preso entre sua profunda dependência de segurança dos EUA e sua enorme interdependência comercial com a China, o Japão corre o risco de ser pressionado. Tóquio provavelmente precisará acelerar suas próprias medidas de segurança econômica e buscar novos mercados para compensar as vulnerabilidades expostas pela busca de Pequim pela autossuficiência absoluta em sua cadeia de suprimentos.

América Latina e os BRICS: Exportando o Modelo de Modernização: Talvez a conclusão global mais importante das reuniões de 2026 seja a estratégia declarada de Pequim de incorporar seu modelo de desenvolvimento no Sul Global. Os BRICS se tornaram o principal veículo para essa arquitetura global alternativa. Nas Duas Sessões, os formuladores de políticas apresentaram a China não apenas como um parceiro comercial, mas também como um facilitador tecnológico para as nações em desenvolvimento.

Em vez de acumular tecnologias de ponta, a China está buscando uma estratégia de “difusão tecnológica”. Ao exportar tecnologia verde acessível, infraestrutura 5G/6G e logística baseada em IA, Pequim visa integrar profundamente a América Latina e outros membros do BRICS em seu ecossistema econômico. Para a América Latina — uma região rica em minerais críticos necessários para a transição verde da China — isso significa um aumento do investimento direto estrangeiro chinês na fabricação local de veículos elétricos e em redes de energia renovável. Essa cooperação Sul-Sul é estrategicamente planejada para contornar os sistemas financeiros liderados pelo Ocidente e as barreiras protecionistas, oferecendo ao Sul Global um “modelo chinês de modernização” que promete desenvolvimento sem condicionalidades políticas ocidentais.

Conclusão: As Duas Sessões de 2026 confirmam que Pequim está se preparando para um período prolongado de volatilidade global. Ao aceitar um crescimento básico ligeiramente menor em troca de resiliência estrutural, soberania tecnológica e uma aliança fortalecida com o Sul Global, a China está ativamente reescrevendo as regras do engajamento econômico global. Para os EUA e seus aliados, como o Japão, isso representa um desafio competitivo formidável e profundamente enraizado; para a América Latina e os BRICS, oferece uma alternativa lucrativa à ordem tradicional liderada pelo Ocidente.

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O Eixo Pequim-Teerã

A morte de Ali Khamenei, em decorrência de uma operação cirúrgica de precisão conduzida por Estados Unidos e Israel, não representa apenas a decapitação simbólica e política da República Islâmica. Ela marca o ponto de inflexão de uma arquitetura geopolítica subterrânea que vinha sendo pacientemente desmontada pelo Ocidente nos últimos 13 meses. Para além do luto diplomático em Pequim, o que se observa é o colapso iminente de uma relação promíscua que serviu, por décadas, como o principal motor de desestabilização da ordem liberal internacional: a aliança entre China e Irã.

Anatomia de uma Relação Promíscua

A parceria entre Pequim e Teerã nunca foi baseada em convergências ideológicas — o ateísmo de Estado do Partido Comunista Chinês e o fervor religioso dos Aiatolás estão em pólos opostos. Trata-se de uma simbiose puramente oportunista e, por definição, promíscua. A China encontrou no Irã um fornecedor de energia desesperado, disposto a vender recursos a preços módicos para contornar sanções, enquanto o Irã encontrou na China um patrono diplomático e um “pulmão financeiro” capaz de sustentar seu expansionismo regional.

O acordo de cooperação de 25 anos assinado em 2021 é o ápice desta conveniência. Sob o pretexto de investimentos em infraestrutura e energia, Pequim garantiu o acesso a cerca de 1,5 milhão de barris de petróleo por dia, operando através de uma “frota fantasma” de navios com bandeiras de fachada (Panamá, Palau, Ilhas Cook) e sistemas de pagamento em yuan fora do alcance do SWIFT. Essa estrutura não apenas financiou a repressão interna no Irã, mas as redes de terrorismo via proxies no Oriente Médio.

Cerco Energético e o Desmonte das Rotas Autocráticas

Enquanto o debate público se concentrava em retóricas diplomáticas, uma estratégia de atrito geoeconômico foi implementada com rigor matemático. Os Estados Unidos transformaram-se em um colchão de segurança energética global, atingindo a produção recorde de 13,6 milhões de barris por dia — superando Rússia e Arábia Saudita. Esse excedente permitiu ao mercado global absorver a remoção sistemática do petróleo iraniano sem choques catastróficos nos preços.

O desmantelamento das linhas de suprimento da China foi conduzido de forma cirúrgica, iniciando-se pela captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026, o que interrompeu subitamente o envio de 600 a 900 mil barris diários que alimentavam Pequim com descontos agressivos. Com os EUA assumindo o controle das vendas da PDVSA e reajustando o preço do barril de $31 para $45, a vantagem competitiva da energia subsidiada para a indústria chinesa foi neutralizada. Simultaneamente, a pressão sobre a infraestrutura marítima resultou na sanção de mais de 180 navios da “frota fantasma” de fornecedores chineses pelo OFAC, bloqueando efetivamente 60% das embarcações que transportavam cerca de 1,5 milhão de barris por dia para as refinarias “teapot” de Shandong.

Operação Midnight Hammer: O Golpe de Misericórdia

A morte de Khamenei, portanto, ocorreu em um cenário de debilidade militar absoluta. A “Operação Midnight Hammer”, em junho de 2025, na qual bombardeiros B-2 Spirit atingiram os complexos nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan, não apenas atrasou o programa atômico iraniano em dois anos, mas demonstrou a incapacidade da China em oferecer qualquer proteção real ao seu aliado. Desta vez, Pequim rapidamente classificou o ataque a Khamenei como uma “violação da soberania”, porém pouco ou nada fez para proteger seu parceiro comercial e político. Um recado ouvido por outras nações que ainda acreditavam na capacidade protetiva prometida por Xi Jinping. 

O Colapso Interno e o Futuro Pós-Khamenei

Internamente, o Irã é hoje um Estado falido sustentado pelo medo. O Rial perdeu 84% de seu valor em 2025, e a inflação de alimentos ultrapassou os 70%. O colapso do Banco Ayandeh — um prejuízo de $5 bilhões ligado a esquemas Ponzi do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica — expôs a corrupção sistêmica das elites. Enquanto oficiais e comandantes do IRGC movem fortunas para Dubai, a população em todas as 31 províncias demanda o fim da teocracia.

A relação entre China e Irã após a morte do líder supremo Ali Khamenei deverá transitar de uma parceria estratégica para uma vassalagem de sobrevivência. Sem a figura do Aiatolá, o Irã tende a se consolidar como um Estado pretoriano dominado pelo Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica, entretanto, ainda dependente da tecnologia de vigilância e do respaldo diplomático de Pequim para conter o colapso interno e a deposição popular, convertendo o Irã, sob a ótica chinesa, de um parceiro estratégico em um passivo geopolítico custoso e instável. Entretanto, estas mesmas lideranças podem optar por buscar um acordo pragmático com os Estados Unidos — a exemplo da distensão promovida por Delcy Rodriguez na Venezuela — para assegurar a manutenção de sua estrutura de poder e seus vultosos recursos pessoais mediante um afastamento deliberado da influência clerical, circunscrita aos limites do seminário de Qom. Certamente esta é uma opção que está sobre a mesa neste momento.

Em conclusão, a aliança sino-iraniana é o retrato de um mundo onde autocracias se unem não por valores, mas pela necessidade mútua de contornar a legalidade internacional. O desmonte das rotas de petróleo barato e a neutralização da ameaça nuclear iraniana reconfiguram o mapa geoeconômico. O “Eixo das Ditaduras” descobriu, da forma mais dura, que a arquitetura do poder global não é feita apenas de contratos e retórica, mas de uma resiliência econômica e militar que eles subestimaram. O fim da era Khamenei é, em última análise, o fim de mais um parceiro que fornecia fôlego para o sonho de hegemonia alternativa de Pequim.

A necessária guerra contra a teocracia iraniana

A guerra que, no momento, vai atravessando o Oriente Médio deriva, principalmente, de um antigo e existencial litígio entre a República islâmica do Irã e Israel. Os Estados Unidos que, sob comando do presidente Donald Trump, tomou iniciativa da guerra ao lado do antigo aliado Israel, foi fator deflagrador em uma guerra que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Para Israel, melhor que tenha sido mais cedo; pois, se fosse mais tarde, depois que o Irã tivesse produzido bombas atômicas, o pequeno país poderia ser riscado do mapa antes de qualquer reação possível.

Com efeito, desde a revolução islâmica de 1979, com a implantação da  teocracia comandada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, a República islâmica do Irã tem por objetivo explícito e declarado destruir Israel. Khomeini repetia-se em exortações pela destruição do Estado judeu, no que foi seguido pelo seu sucessor aiatolá Ali Khamenei, recentemente eliminado; ambos diziam coisas assim: “Israel é um tumor cancerígeno que deve ser extirpado”; “Israel deve ser eliminado do mapa”; “Israel terá um destino amargo e doloroso” e por aí vai.

É fato inegável que a ditadura teocrática do Irã pretende destruir Israel; Israel, por sua vez, não pretende destruir o Irã, mas destruir o regime dos fanáticos aiatolás, que não só inflamam seus acólitos com o discurso da destruição de Israel, como financiam, armam e instrumentalizam grupos terroristas que constantemente o atacam. 

Certamente que uma guerra pode ter desfechos imprevistos, torço, porém, pelo melhor desfecho: que à vitória de Israel some-se a vitória do povo iraniano; isto porque, do ponto de vista da liberdade e do progresso, o fim da abominável ditadura dos aiatolás é também do interesse da maioria das gentes do Irã, que é a antiga Pérsia, o centro de um Império que conduziu uma magnífica civilização da Antiguidade.

As mulheres são as mais visadas pela crueldade do regime teocrático ora ameaçado, podendo ser submetidas à prisão, chicotadas e pena de morte por “crimes” como adultério, mostrar o rosto ou mesmo usar o hijab de forma inadequada. 

Em tão atrasado regime, palco das mais cruéis intolerâncias, também são duramente perseguidos os homossexuais, que podem ser presos, chicoteados e executados pelo “crime” de manter relações homoafetivas.

Tudo isso é coisa já sabida, constatada e extensamente divulgada; se aqui repito o que todo mundo sabe é porque, no debate que se tem travado em torno da guerra em curso, a maior parte da turma da esquerda, fincando pé na monocórdica campanha “anti-imperialista”, toma hipocritamente o partido do regime dos aiatolás, a despeito de todas as atrocidades por ele perpetradas. 

Sim, ocorrem erros na condução da guerra, como foi o caso da explosão de uma escola de meninas em Minab. Os EUA não assumiram responsabilidade oficial, mas investigações internas preliminares indicam que é “provável” ou “muito provável” que forças americanas tenham sido responsáveis, possivelmente por erro de inteligência (a escola ficava ao lado de uma antiga base naval da Guarda Revolucionária Islâmica, que pode ter sido o alvo pretendido). 

Um acidente triste e lamentável. Mas por que aqueles que se apressaram em difundir como real uma imagem falsa, gerada por IA, acerca do referido episódio não se deram ao trabalho de criticar também o recente massacre perpetrado pelo regime contra os manifestantes que lutavam por liberdade? Por que não se indignaram por ocasião daquela brutal repressão que deixou dezenas de milhares de vítimas?

Como observa Brendan O’Neill, ativistas e comentaristas que nunca expressaram indignação diante da repressão brutal do regime teocrático iraniano – das execuções de dissidentes à perseguição sistemática de mulheres e minorias – tornam-se subitamente inflamados quando uma ação militar ocidental ameaça o poder dos aiatolás. 

Essa inversão moral decorre de uma lógica ideológica segundo a qual todo mal no mundo deve ser, em última instância, atribuído ao Ocidente. 

Essa postura tem sido criticada de forma particularmente contundente pela escritora Ayaan Hirsi Ali, que há décadas denuncia a complacência ocidental diante do islamismo político. Para ela, o regime iraniano não é simplesmente um governo autoritário entre outros, mas uma expressão de um projeto ideológico mais amplo que busca submeter a sociedade à lei religiosa e suprimir direitos fundamentais, sobretudo os das mulheres.

A própria existência de um sistema que pune com chicotadas, prisão ou morte comportamentos privados deveria ser suficiente para expor o caráter profundamente iliberal dessa ordem política. Ainda assim, setores da opinião pública ocidental preferem relativizar tais abusos, temendo que a crítica ao islamismo seja confundida com intolerância cultural. 

O paradoxo torna-se ainda mais evidente quando se observa quem são as principais vítimas do regime iraniano: mulheres que desafiam o véu obrigatório, jovens que protestam nas ruas, minorias religiosas, homossexuais e dissidentes políticos. Ou seja, exatamente aqueles grupos cuja defesa constitui, em tese, o núcleo moral do progressismo contemporâneo. No entanto, quando esses mesmos indivíduos se levantam contra a tirania teocrática, muitos dos que proclamam defender os oprimidos preferem o silêncio ou, pior ainda, denunciam como “imperialista” qualquer força que ameace enfraquecer o regime que os oprime. 

No fundo, essa contradição revela algo mais profundo do que mera incoerência circunstancial, ela denuncia uma crise intelectual do próprio pensamento político ocidental. Quando a lente ideológica se torna tão rígida que impede reconhecer a diferença entre uma sociedade aberta e uma teocracia repressiva, a análise política degenera em propaganda. A defesa da liberdade deixa de ser um princípio universal e transforma-se em instrumento seletivo, aplicado apenas quando conveniente ao esquema narrativo dominante. 

A questão decisiva colocada pela guerra em curso é, além de geopolítica, também moral e civilizacional. Se o regime dos aiatolás cair, será um golpe contra um dos centros mais poderosos do islamismo político contemporâneo. E, talvez mais importante, poderá abrir caminho para que o povo iraniano recupere aquilo que lhe foi confiscado desde 1979: a possibilidade de viver em liberdade. 

Difamaram Ana Paula Valadão para defender os aiatolás

No Irã, ser pego com uma Bíblia pode resultar em anos de prisão. Abandonar o islã para se converter ao cristianismo pode ser punido com morte. É a realidade de um regime teocrático que controla a vida privada, reprime minorias religiosas e trata a liberdade de consciência como crime. Foi nesse contexto que a cantora evangélica Ana Paula Valadão Bessa publicou um vídeo pedindo oração pelos cristãos iranianos. Muitos deles reagiram com esperança cautelosa às notícias sobre a morte do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, responsável direto por décadas de perseguição religiosa e repressão política. Para quem vive sob esse regime, qualquer mudança no topo do poder pode significar um pequeno respiro.

Bastou isso para que começasse mais uma campanha de linchamento virtual contra Ana Paula Valadão. Influenciadores e militantes passaram a afirmar que a cantora estaria comemorando a morte de civis iranianos. A acusação se baseou em uma notícia sobre um suposto ataque a uma escola que teria matado centenas de meninas. O detalhe é que essa informação foi divulgada apenas pelo próprio regime iraniano e não pôde ser investigada de forma independente por jornalistas. Mesmo assim, a narrativa se espalhou rapidamente nas redes sociais.

Uma semana depois, novas investigações publicadas por jornais americanos passaram a indicar que o ataque poderia ter sido realizado pelos Estados Unidos. No momento em que Ana Paula Valadão publicou seu vídeo, essa informação sequer existia. O que ela comentou foi outra coisa: a precisão dos ataques israelenses contra alvos militares do regime iraniano e o possível impacto disso para civis que vivem sob a ditadura dos aiatolás.

No próprio vídeo ela afirma que não é necessário gostar de Israel para reconhecer que ataques direcionados a estruturas militares podem reduzir riscos para a população civil. A mensagem principal de Ana Paula Valadão era simples: oração pelos cristãos perseguidos e esperança de que o regime responsável por esse sofrimento possa perder força. Mas nada disso importa quando o objetivo é cancelar alguém.

A reação revela um fenômeno cada vez mais comum no ambiente digital. Parte do progressismo brasileiro importou da classe média alta americana uma cartilha ideológica pronta. Nela, os Estados Unidos são sempre o inimigo estrutural. Israel passa automaticamente para o papel de vilão. E qualquer adversário desses dois pólos passa a ser tratado como aliado tático, mesmo quando se trata de um regime teocrático que prende cristãos, executa dissidentes e governa segundo uma interpretação radical da lei islâmica.

Daí surgem situações absurdas. Pessoas que se apresentam como defensoras dos direitos das mulheres acabam relativizando um regime que permite casamento de meninas de nove anos. Militantes que dizem lutar pelos direitos LGBT passam pano para um governo que executa homossexuais. Influenciadores que se proclamam campeões da liberdade defendem uma teocracia que pune conversão religiosa com a morte. Como conciliar essas contradições? Simples: divorciando-se da realidade.

O problema não é defender o regime iraniano explicitamente. Isso seria constrangedor demais. O caminho mais confortável é outro. Primeiro inventa-se uma acusação monstruosa contra alguém que esteja do lado errado da guerra cultural. Depois se diz que toda a indignação é apenas uma reação moral a essa suposta monstruosidade. Assim, quem passa o dia difamando pode continuar se apresentando como defensor da justiça social.

No caso de Ana Paula Valadão, bastou espalhar que ela teria comemorado a morte de crianças. O fato de que ela não disse nada disso no vídeo virou um detalhe irrelevante. A acusação cumpre sua função: gerar indignação, produzir cancelamento e permitir que os acusadores preservem a própria imagem de pessoas virtuosas. É um comportamento repugnante, mas cada vez mais previsível.

A boa notícia é que esse mecanismo já está ficando evidente para muita gente. A indústria do cancelamento depende de uma encenação moral permanente. Quem participa dela precisa fingir boas intenções enquanto dedica o dia a difamar pessoas e tentar destruir reputações. No fundo, trata-se apenas de mais um ritual de pureza ideológica.

Nesse episódio específico de Ana Paula Valadão, há uma ironia difícil de ignorar. Pessoas que vivem em democracias liberais, com liberdade de expressão e liberdade religiosa, decidiram atacar uma cantora cristã que pediu oração por vítimas de perseguição religiosa. Tudo isso para não precisar admitir o óbvio: o regime dos aiatolás é uma ditadura brutal.

Se os defensores desse regime realmente acreditam que ele representa um avanço civilizatório, a solução é simples: podem sempre fazer as malas e experimentar de perto as maravilhas dessa liberdade que dizem defender. Eu adoraria testemunhar essa experiência.