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A coragem das mulheres iranianas e a covardia dos cúmplices da teocracia islâmica

A violência repressora, que no regime dos aiatolás é permanente, cresceu exponencialmente nos últimos dias, como indicado por vários organismos internacionais de Direitos Humanos. O próprio regime já declarou que mais de 2.000 pessoas foram mortas pelas forças de segurança dos aiatolás em decorrência dos atuais protestos, o que leva a crer que o número de vítimas é bem maior.

A brutalidade com que o regime iraniano está massacrando os manifestantes que ousam se sublevar contra a odiosa teocracia não é um desvio ocasional passível de ser contido por sanções econômicas; é a expressão da sua própria essência. Notas de repúdio da comunidade internacional (que o Brasil, para surpresa de ninguém, não se dignou a emitir) são bem-vindas, mas ineficazes. É preciso ação, é preciso uso da força contra os que há décadas a têm usado para oprimir seu povo. Até porque a violência perpetrada pelo Irã ultrapassa fronteiras, sendo um problema global.

O regime que espanca mulheres sem hijabe nas ruas de Teerã é o mesmo que sustenta os terroristas houthis no Iêmen, que fornece drones à Rússia para bombardear a Ucrânia, que foi pilar logístico, militar e financeiro do regime de Bashar al-Assad e que ordenou, financiou e armou o grupo terroristas Hamas para o terrível massacre contra israelenses, em 7 de outubro de 2023.

Os atuais protestos no Irã não são apenas uma explosão episódica de descontentamento econômico, embora os comerciantes, costumeiros aliados do regime, tenham se juntado às mulheres e aos estudantes na linha de frente dos protestos. O protagonismo feminino não é mera contingência. Ao desafiarem abertamente as leis do véu, ao queimarem símbolos do regime, ao ocuparem as ruas mesmo sabendo que o preço pode ser a prisão, a tortura ou a morte, as mulheres iranianas estão expondo a natureza essencialmente opressora da República Islâmica e deixando claro o que querem: liberdade.

A coragem das mulheres iranianas deixa à mostra a covardia dos que se dizem progressistas enquanto fecham os olhos para as atrocidades cometidas pelo regime islâmico; é constrangedor para intelectuais de esquerda falar sobre os acontecimentos no Irã porque eles se chocam com as suas tentativas hipócritas de romantizar o regime dos aiatolás. O silêncio — quando não a cumplicidade explícita — de amplos setores da esquerda diante da atual repressão remete a uma relação antiga. 

A esquerda e a Revolução Islâmica de 1979

Desde a Revolução Islâmica de 1979, parte significativa da esquerda ocidental decidiu ver no Irã não uma teocracia totalitária, mas um símbolo de resistência ao chamado “imperialismo”. 

A revolução iraniana de 1979 pôs fim ao regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, uma monarquia autocrática pró-Ocidente. Com amplo apoio popular e viés fortemente religioso, essa rebelião teve, desde o início, influência do clero xiita, comandado do exterior pelo exilado aiatolá Ruhollah Khomeini. Após a vitória da revolução, fundada a República Islâmica do Irã, o clero xiita, tendo Khomeini como líder supremo, estabeleceu uma autocracia muito mais violenta do que jamais fora a monarquia de Mohammad Reza Pahlavi . 

O novo regime implementou uma teocracia autoritária com repressão intensa, incluindo execuções em massa de opositores (milhares nos primeiros anos), prisões políticas e consolidação de poder via Guarda Revolucionária, superando em escala imediata a brutalidade da SAVAK sob o xá, que já era notória por torturas e assassinatos. O chamado “regime dos aiatolás” caminhou então a passos largos para se tornar um dos mais perseguidores, cruéis e criminosos regimes do mundo, sob o beneplácito da esquerda anti-ocidental. 

O engajamento entusiasmado de pensadores como Michel Foucault, que interpretou a revolução iraniana como uma experiência espiritual e antimoderna capaz de fazer frente aos valores do Ocidente, foi apenas o exemplo mais conhecido dessa cegueira voluntária que não deixa de ser uma perversão moral. As mulheres, os dissidentes, os homossexuais — todos foram sacrificados no altar do anti-imperialismo abstrato.

Essa herança intelectual não desapareceu. Ela se atualiza hoje no relativismo cultural, no pós-colonialismo militante e na política identitária que seleciona vítimas e algozes de acordo com conveniências ideológicas. Um regime que grita “morte à América” e “morte a Israel” pode assassinar seus próprios cidadãos sem despertar a indignação proporcional daqueles que se dizem defensores universais dos direitos humanos. 

No Brasil, essa dissonância assume contornos graves. O atual governo mantém relações cordiais e politicamente engajadas com o Irã, em nome de uma diplomacia que se autoproclama “multipolar”, mas que, na prática, normaliza regimes abertamente repressivos. O fato de o vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, ter sido enviado, em 2024, para representar o governo brasileiro na posse do presidente iraniano Masoud Pezenshkian, não foi um detalhe protocolar irrelevante, mas um gesto político de alinhamento. Também é eloquente o silêncio oficial do Itamaraty diante do massacre de civis iranianos na atual onda de protestos. 

As mulheres iranianas, desarmadas diante de um Estado brutal, tornaram-se uma pedra de toque para qualquer discurso sobre liberdade, justiça e direitos humanos. As ruas do Irã hoje, com corpos empilhados em sacos e sob ameaça de mais execuções, expõem não apenas a malignidade da teocracia dos aiatolás, mas também a falência moral e hipocrisia do Ocidente dito progressista com seus governos que se dizem democráticos. 

Aliando Inteligência Artificial à Inteligência Humana

A febre da Inteligência Artificial parece sintoma de uma espécie de pandemia. O negócio é contagioso. Mentes criativas nas empresas e nos centros de ciência e tecnologia estão se voltando quase que exclusivamente para isso. Até aqui, tudo bem.

Mas de repente surge um novo ídolo: a organização artificial (impregnada de IA) será superior à organização humana. Isso vai acabar chegando a todas as organizações da sociedade civil e dos governos (é só questão de tempo).

Esse é um problema, mas também será uma boa oportunidade para os que conseguirem percorrer as trilhas abertas desde o início do século pela exploração das redes e da democracia como modo-de-vida. Modos de salvaguardar a inteligência tipicamente humana poderão ser “módulos sociais de sobrevivência” num mundo dominado por Estados autocráticos e Big Techs desumanizantes.

As organizações humanas que quiserem sobreviver não podem resistir à onda da Inteligência Artificial e ficar lutando para “colocá-la no seu lugar” por meio de uma retrógrada revolta ludista contra o avanço tecnológico trazido pela IA. Elas estão confrontadas com o desafio de descobrir maneiras criativas de se aliar à inteligência artificial mantendo um foco claro naquilo que nos torna humanos.

Para fazer isso uma parte de qualquer organização deve se dedicar ao netweaving, quer dizer, à articulação e animação de redes humanas.

A organização que conseguir fazer isso se tornará mais humana em aliança com a inteligência artificial em vez de se tornar mais artificial, deixando que a inteligência humana nela embarcada seja capturada pelos modos de “pensar” (ou de processar informações, ou de imitar o pensamento humano) da inteligência artificial (1).

E aqui vem um anúncio surpreendente: bastam poucas pessoas em uma organização fazendo isso para alcançar tal efeito. As organizações podem continuar correndo sofregamente para acompanhar a onda e não ser deixadas para trás, mas pequenos núcleos dentro delas farão esse papel. Serão espécies de zonas azuis (blue zones) dentro da organização.

Esses pequenos núcleos que vão “salvar” (não propriamente guardar, mas experimentar e re-experimentar continua ou intermitentemente – in situ, não in vitro) interações humanas, emoções humanas, conversações, conversações, conversações… podem estar em todo lugar. “Super-egos” (ou melhor, “super-não-egos”), “consciência crítica” (ou melhor, não-consciência – mas relembrança do que foi compelido a se tornar inconsciente), “mosteiros irlandeses” – aqueles que salvaram a civilização ocidental da idade das trevas que se instalou entre a queda do império romano e a ascensão de Carlos Magno – mas tudo em tempo real.

Se entendermos que aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo, inteligência é, ao fim e ao cabo, capacidade de aprender. Espero que fique claro que estou falando de educação. De um novo tipo de educação que agora pode ser experimentado em todo lugar. Uma nova educação – não propriamente para apenas melhorar a velha educação que temos, mas para abrir novos processos de aprendizagem que poderiam ser aplicados por empresas (para seus colaboradores e stakeholders), por entidades da sociedade e por governos.

Sim, é como se abríssemos uma startup de educação dentro de cada empresa, organização social ou órgão de governo. Mas o que essas “startups” fariam concretamente?

Bem, em primeiro lugar, entrando em contato com as principais descobertas da nova ciência das redes que surgiu na passagem do século 20 para o século 21, elas aprenderiam o que são redes, o que implica compreender as diferenças entre mídias sociais e redes sociais (como redes humanas) e compreender as topologias e dinâmicas de rede: as diferenças entre descentralização e distribuição e entre participação e interação. Além disso – e aqui esteja talvez o mais importante – elas entrariam em contato com as descobertas mais recentes da fenomenologia da interação: clustering, cloning, swarming, reverberação, múltiplos laços de retroalimentação de reforço, looping de recursão et coetera.

Em segundo lugar, eles aprenderiam a fazer netweaving (articulação e animação de redes), entendendo as diferenças entre networking e netweaving e a aplicar tecnologias de netweaving à desobstrução de fluxos interativos em organizações, à configuração de ambientes capazes de melhorar as condições de convivência social em organizações e localidades e de ensejar a emergência de uma inteligência tipicamente humana; em termos metafóricos, aprenderiam a usar redes humanas como “super-computadores”.

Em terceiro lugar, elas fariam, na prática, netweaving dentro das suas organizações, criando condições para que os seus integrantes aprendessem, na prática, a interagir em rede; ou iniciassem novas organizações ou empreendimentos já estruturados em rede (mais distribuída do que centralizada e mais interativa do que participativa).

Nos últimos 25 anos venho me dedicando à nova ciência das redes e ajudando pessoas, comunidades, empresas e outras organizações a fazer modificações em sua estrutura e em sua dinâmica de funcionamento para desobstruir os fluxos interativos que transitam em seu interior e no seu entorno mais próximo, diminuindo os custos invisíveis, em geral não contabilizados nos balanços corporativos, que drenam os resultados econômicos (como os custos de transação, os custos de atrito de gestão e os custos de déficit de sinergia), evitando o risco sistêmico de perda simultânea de inovatividade e produtividade que levam à perda de sustentabilidade, mesmo quando há crescimento. Também desenvolvi, em parceria com dezenas de outros pesquisadores, tecnologias de netweaving para configurar ambientes alterdidáticos de aprendizagem que ensejem a emergência de uma inteligência tipicamente humana que pode se acoplar à inteligência artificial impulsionando a colaboração e a criatividade. Implementei vários programas para melhorar as condições de convivência social em localidades e organizações, aumentando a qualidade de vida de seus habitantes ou participantes, despertando e dinamizando seu empreendedorismo e sua capacidade endógena de superar seus problemas (2).

Agora, com o auxílio de um Agente de Inteligência Artificial chamado REXOS, estou ministrando um programa de aprendizagem sobre netweaving: como articular e animar redes humanas. Nesse programa, além do conhecimento teórico (em cinco horas de aulas ao vivo, via Zoom, que ficarão disponíveis para ser acessadas a qualquer momento), teremos uma clínica (com conversas pessoais com cada inscrito que quiser trazer um caso concreto para ser analisado). Para saber mais sobre tudo isso clique neste link.

Notas

(1) Como questionou recentemente Pascal Bornet (2024), em Irreplaceable, “estamos ensinando máquinas a pensar como humanos — ou treinando humanos a pensar como máquinas? Parece uma pergunta técnica. Mas, para mim, é uma questão existencial. Ferramentas como rodas e motores ampliaram nossos corpos. A IA amplia nossas mentes. E isso muda tudo. A mudança da qual não falamos. Dizemos que estamos ensinando máquinas a pensar como nós. Mas, na realidade, estamos nos adaptando para pensar como elas. Otimizamos. Corremos atrás de respostas. Tratamos o pensamento como mera produção. Mas a inteligência humana nunca foi feita para a velocidade — foi feita para o significado. O ponto cego no boom da IA. Cada vez que interagimos com a IA, reforçamos sua lógica: Perguntar → obter → seguir em frente. Com o tempo, perdemos algo mais profundo: • A pausa antes de uma resposta • O desconforto de não saber • A intuição que precede as palavras. Esses são os momentos que nenhum modelo consegue replicar. O que estou tentando proteger. Estou aprendendo a preservar as partes do pensamento que ainda parecem humanas — lentas, emocionais e belamente incertas. Talvez o objetivo não seja tornar as máquinas mais humanas… Mas sim lembrar como permanecer humano ao usá-las”.

(2) Sim, esse é um assunto que investigo há mais de 25 anos: redes (e a emergência de uma sociedade em rede). Escrevi vários livros e dezenas de artigos sobre o assunto. No final de 2008, juntamente com alguns parceiros, fundei uma Escola-de-Redes que chegou a ter mais de 13 mil pessoas conectadas. Trabalhei com o tema em organizações da sociedade civil, grandes e pequenas empresas e governos de todos os níveis.

A história começa assim.

Surgiu no final do século passado uma chamada nova ciência das redes. Desse novo campo de investigação participaram vários cientistas, inicialmente físicos, em sua maioria, mas também matemáticos, sociólogos e pesquisadores de outras áreas do conhecimento. Pode-se citar alguns, meramente a título de exemplo: Albert-László Barabási, Steven Strogatz, Duncan Watts, Manuel Castells, Pierre Lèvy. E cada vez mais biólogos, epidemiologistas (e até médicos, como Nicholas Christakis).

As principais descobertas da nova ciência das redes, que surgiram nos primeiros dez anos do século 21, são surpreendentes. Mas as aplicações desse conhecimento às sociedades e organizações logo foram descontinuadas pela reação do mundo hierárquico, sobretudo dos Estados-nações e de outras organizações centralizadas, por medo de deixarem de ser os fulcros dos sistemas de governança públicos e privados.

No Brasil, em particular, houve (e continua havendo) uma confusão entre redes sociais (pessoas interagindo por qualquer meio) e mídias sociais (sites, programas, tecnologias) que dificulta o entendimento das redes e desestimula o interesse pelo assunto.

A nova ciência das redes foi o resultado da confluência de três campos investigativos: a análise de redes sociais (SNA), que está na pré-história dessa nova ciência, tendo como patrono Leonhard Euler (1707-1783); redes como estruturas que se desenvolvem; e redes como sistemas dinâmicos complexos.

Suas descobertas principais indicam:

1) que o comportamento coletivo não pode ser derivado do comportamento dos indivíduos (ou que – como escreveu o físico Marc Buchanan (2009) em O Átomo Social – “diamantes não brilham porque os átomos que os constituem brilham, mas devido ao modo como esses átomos se agrupam em um determinado padrão: o mais importante é frequentemente o padrão e não as partes, e isso também acontece com as pessoas”),

2) que redes são múltiplos caminhos e que o padrão de organização (a topologia da rede) determina ou condiciona fortemente os comportamentos possíveis de qualquer coletivo,

3) que redes sociais são redes humanas e que redes sociais mais distribuídas do que centralizadas estão se espalhando nas sociedades (e que é isso que chamamos de emergência de uma sociedade em rede),

4) que descentralização não é a mesma coisa que distribuição,

5) que centralização é o que chamamos de hierarquia (topologias mais centralizadas do que distribuídas),

6) que a conectividade acompanha a distribuição,

7) que a interatividade acompanha a conectividade,

8) que adesão ou participação não são a mesma coisa que interação,

9) que tudo que interage tende a clusterizar (clustering),

10) que tudo que interage pode enxamear (swarming),

11) que o imitamento (cloning) é uma forma de interação,

12) que tudo que interage se aproxima (crunching) diminuindo o tamanho social dos mundos,

13) que assim como a interatividade cresce com a transição para rede, a inovatividade tende a crescer com a interatividade,

14) que o aumento da interatividade depende da desobstrução de fluxos (e que é isso que chamamos de processos de rede nas organizações),

15) que só redes podem aprender, que – como disse Humberto Maturana – “aprender não é apreender o mundo e sim mudar com o mundo” e que o que chamamos de inteligência é um atributo dessa capacidade de aprender.

Como consequências dessas descobertas – no que tange especificamente à inovação – é possível afirmar:

1) que não adianta querer mudar (a dinâmica de funcionamento) sem mudar (o padrão de organização) e que – como se pode derivar de tudo o que escreveu Marshall McLuhan – é o ambiente que muda as pessoas, não a tecnologia,

2) que uma mudança só é possível do conhecido para o desconhecido, não do conhecido para o conhecido,

3) que inovação é sempre um resultado inesperado e, assim, é inútil tentar controlar processos de inovação verificando se foram alcançados os resultados esperados,

4) que inovação copiada é reprodução, não inovação. A inovação é sempre inédita e, portanto, é inútil tentar reproduzir os processos particulares pelos quais uma organização inovou com sucesso,

5) que nunca se trata de substituição, de colocar uma coisa no lugar de outra e sim de deixar que os novos processos que se acrescentam aos antigos gerem novas configurações emergentes,

6) que uma boa dose de comportamento aleatório é necessária para a inovação e que não é possível ser criativo sem partir em novas direções sem um plano pré-definido,

7) que é estúpido tentar organizar a auto-organização.

É possível aplicar esses novos conhecimentos da nova ciência das redes às organizações atuais, desobstruindo fluxos para mudar o padrão de organização (de mais centralizado do que distribuído para mais distribuído do que centralizado) e a dinâmica de funcionamento (de mais baseada em interação do que em adesão e participação e tendo como referência mais a lógica da abundância do que a da escassez).

O escândalo da milícia virtual paga a peso de ouro pelo Banco Master

O Banco Master pode vir a se tornar o maior escândalo de corrupção da história do país. Ainda não sabemos o alcance total do que está sendo investigado, nem quantas camadas de poder serão expostas ao longo do caminho. O que já é possível afirmar é que o grau de desespero para impedir que informações cheguem à opinião pública não tem precedentes. Autoridades extremamente poderosas, ligadas a um banco que até pouco tempo atrás era praticamente desconhecido do grande público, passaram a agir de forma atabalhoada, opaca e agressiva. Mesmo dominando as maiores autoridades do país, o banco recorreu a influenciadores digitais.

As informações reveladas pela jornalista Malu Gaspar em O Globo indicam pagamento direto a influenciadores, com valores elevados, intermediações profissionais e contratos desenhados para produzir efeito político. Não se trata de opinião espontânea nem de engajamento orgânico. Houve coordenação clara de ataques ao Banco Central, tentativa deliberada de constranger a investigação da Polícia Federal contra o Banco Master e uso de narrativas conspiratórias para deslocar o foco dos fatos e uma atuação sincronizada em datas estratégicas.

O dado mais revelador sobre as milícias digitais do Banco Master não é o uso desse método, mas o contexto em que ele foi acionado. Quando instituições, cargos e relações já não são suficientes para conter a circulação de informações, recorre-se ao ruído. A lógica deixa de ser convencer e passa a ser confundir. O objetivo não é construir uma versão sólida, mas tornar qualquer versão indistinta. Criar cansaço, desinformação e medo de se posicionar. A milícia digital entra em cena quando o poder formal já não garante silêncio.

Esse mecanismo não surgiu agora. Ele é antigo, conhecido e amplamente documentado. Em colunas passadas na Gazeta do Povo, mostrei como a militância digital organizada foi estruturada, treinada e financiada ao longo dos anos, com métodos explícitos de coordenação e pagamento. Em Prepare a paciência: CUT ressuscita os MAVs, militância virtual do PT, ficou claro que essas engrenagens nunca desapareceram, apenas se adaptaram ao ambiente das redes.

Em Treinamento do ‘Mensalinho do Twitter’ ensinava a compartilhar notícias de Lindbergh e Tiburi, o modelo foi exposto de forma ainda mais direta, com metas, orientações e pagamento para amplificação coordenada de narrativas.

O que mudou desde então não foi o método, mas sua normalização. A militância paga deixou de ser escândalo para se tornar ferramenta. O que antes era denunciado como fraude do debate público passou a ser tratado como estratégia de comunicação oferecida por agências a empresas privadas. Influenciadores deixaram de ser vistos como intermediários de ideias e passaram a operar como peças contratadas de operações políticas e econômicas.

Nada disso prosperaria sem um elemento central, quase sempre ignorado por conveniência: o público. A milícia digital só funciona porque há terceirização do pensamento.

Pessoas não acompanham processos, não leem documentos, não confrontam versões. Elas confiam. Só que não confiam em quem tem experiência e credibilidade, confiam em quem fala com segurança, indignação performática e aparência de ser do seu grupo. A autoridade é trocada pela identificação emocional.

O ataque em manada como o do caso Banco Master segue um roteiro conhecido. Um nome com grande alcance lança a narrativa. Outros replicam com pequenas variações. Perfis médios amplificam. Quem questiona vira suspeito. Quem pede prova é acusado de má-fé. Quem tenta compreender é tratado como cúmplice. Não se busca esclarecer, busca-se ocupar o espaço. O silêncio do outro lado passa a ser a vitória.

Há ainda um traço psicológico incômodo nesse processo. Muitos só conseguem enxergar a milícia digital quando ela atua contra aquilo em que acreditam. Quando beneficia o seu campo, passam a chamar de engajamento, reação legítima ou coragem. É a cegueira seletiva de quem prefere preservar a sensação de lucidez a admitir que também está sendo manipulado. Ver o erro no outro virou identidade. Reconhecer o próprio engano virou ameaça.

O caso Banco Master é particularmente revelador porque mostra até onde esse sistema pode ir quando interesses realmente grandes entram em risco. Quando nem o poder institucional, nem a opacidade processual, nem a intimidação simbólica são suficientes, recorre-se ao que hoje é mais eficiente para deformar a realidade pública: a compra de influência em larga escala.

Esse escândalo do Banco Master ainda está em curso e pode revelar muito mais. Inclusive até que ponto a sociedade aceita viver em um ambiente onde opinião é mercadoria, ataque é terceirizado e a verdade depende de quem pagou mais caro para abafá-la. Obviamente é imoral e desonesto participar desse tipo de esquema. Infelizmente, ele será cada vez mais lucrativo enquanto o público continuar delegando o próprio juízo.

O Enigma Delcy

Delcy Eloína Rodríguez Gómez não é uma figura acidental, mas a herdeira da “aristocracia civil” bolivariana. Filha do mártir Jorge Antonio Rodríguez, ela combina capital simbólico revolucionário com uma formação europeia que a distingue da elite militar. Agora presidente interina sob a chancela do TSJ após a captura de Maduro, Delcy emerge como o pivô de uma transição de alto risco, operando na interseção entre a retórica anti-imperialista e o pragmatismo da diplomacia financeira internacional.

No tabuleiro de Caracas, ela governa em simbiose absoluta com seu irmão, Jorge Rodríguez, formando um bloco tecnocrata que se contrapõe à ala radical e ideológica de Diosdado Cabello. Sem comando direto de tropas, sua sobrevivência política depende do “pêndulo” de Vladimir Padrino López, o Ministro da Defesa atua como o fiador dos militares chavistas. Enquanto Cabello personifica a brutalidade do Cartel de los Soles, os Rodríguez preferem a cooptação cirúrgica e a inteligência burocrática, sob a pressão asfixiante das sanções que pesam sobre Delcy desde 2018.

Sua liderança, contudo, é assombrada pelas delações de Hugo “El Pollo” Carvajal e pela iminente colaboração de Maduro em solo americano. Tais testemunhos são venenos de ação lenta que podem expor redes de financiamento ilícito, comprometendo sua viabilidade como interlocutora. Ela caminha sobre uma corda bamba geopolítica: depende do aparato de inteligência cubano (G2) para monitorar conspirações militares internas, mas qualquer transição que mantenha o cordão umbilical com a ditadura cubana será vista como uma “mudança cosmética” por Washington. Ela precisa projetar-se perante Trump como uma “Murillo venezuelana” — uma interlocutora técnica e moderada capaz de pacificar o país e garantir a estabilidade energética via PDVSA.

Para os interlocutores internacionais, incluindo Washington, Delcy apresenta-se como uma gestora capaz de operacionalizar a retomada do setor petrolífero e a renegociação de ativos estratégicos. Mesmo sob o peso de investigações externas e da histórica influência de Cuba, ela aposta em uma política de “distensão”, por enquanto, sem transição — uma reforma que torne o regime funcional e aceitável para o mercado global. O sucesso de sua gestão reside na capacidade de transformar o Estado venezuelano em um parceiro previsível, garantindo a permanência da elite civil antes de uma possível transição política definitiva.

Para os Estados Unidos, Delcy não é uma aliada confiável, mas uma ferramenta de conveniência transacional. Sua sobrevivência dependerá de movimentos táticos milimétricos: ela poderá libertar presos políticos para sinalizar boa vontade, mas dificilmente desmantelará o aparato repressivo, sob risco de sofrer um golpe militar por traição à casta armada. Sua missão é tentar converter o regime em uma estrutura de distensão rumo a uma possível transição — uma autocracia mais palatável e funcional. A volta da democracia dependerá do sucesso deste processo, entretanto, serão passos lentos de graduais, evitando uma guerra civil que poderia eclodir com o retorno abruto da oposição ao poder em conflito com um aparato repressor e armado, alimentado por práticas, recursos e cooptação de grupos terroristas, narcotraficantes e de aparatos de inteligência estrangeiros presentes na Venezuela.

Os Estados Unidos devem romper todos os laços com o regime de Maduro se planejam resolver os problemas da Venezuela

Se o regime de Nicolás Maduro é ilegítimo, como o presidente Trump declarou repetidamente antes de depor Maduro, por que o governo agora está em conluio com a vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez?

Quatro dias após a extraordinária captura de Maduro pelas forças especiais americanas, os relatos sobre a vida sob o governo de Rodríguez são sombrios para os venezuelanos que esperavam por mudanças.

Na terça-feira, coletivos armados pró-regime percorriam Carácas em busca de qualquer pessoa que pudesse estar comemorando a queda de Maduro. Jornalistas eram detidos e posteriormente liberados. Presos políticos permanecem encarcerados — apesar de algumas solturas durante o feriado antes da prisão de Maduro.

A infeliz decisão de agir por meio da estrutura de poder existente reflete a situação singular que Trump enfrenta agora na Venezuela.

A maioria dos líderes teria concluído que os desafios pós-Maduro eram insuperáveis ​​— e jamais teria tentado a operação. A ousada manobra de Trump foi bem-sucedida taticamente, mas agora vem o teste estratégico, muito mais difícil. 

A Defesa da Estabilidade

A justificativa do governo para trabalhar com o regime provavelmente se baseia em necessidades de curto prazo e na consciência de que a instabilidade poderia prejudicar os objetivos dos EUA na Venezuela.

Manter o status quo permite que o país continue extraindo petróleo, um objetivo fundamental para Trump.

No entanto, o governo provavelmente entende que seria um erro estratégico depender desse acordo por mais tempo do que o absolutamente necessário.

Rodriguez representa a continuidade do regime de Maduro e das redes criminosas que causaram tanta devastação na Venezuela. Vice-presidente desde 2018, ela foi sancionada pelos Estados Unidos, Canadá e União Europeia por seu papel na repressão à dissidência.

Mesmo que Rodríguez faça concessões aos Estados Unidos em relação ao narcotráfico e à presença de adversários dos EUA na Venezuela, a menos que as redes que conectam o regime e seus aliados criminosos sejam completamente desmanteladas, quaisquer ganhos serão de curta duração.

É improvável que isso aconteça até que a Venezuela tenha um governo democraticamente eleito com instituições à altura da tarefa. 

Um caminho realista a seguir

Uma estratégia realista para o governo é usar Rodríguez como uma ponte para um governo interino, não como uma parceira de longo prazo.

O governo poderia condicionar a parceria com ela ao atendimento de demandas específicas dos EUA, enquanto trabalha ativamente para a transição para um governo interino liderado por uma figura externa ao regime, capaz de organizar eleições.

Isso deve significar a expansão imediata dos direitos civis e dos espaços políticos. O foco inicial deve ser a libertação de todos os presos políticos e a garantia do retorno seguro dos exilados políticos, dando aos venezuelanos evidências de que a mudança está a caminho.

Os Estados Unidos precisam comunicar sua visão e expectativas. A ambiguidade gera incerteza e permite que agentes mal-intencionados explorem brechas.

O governo precisa dizer ao regime, aos militares e ao povo venezuelano qual é o objetivo final dos EUA: uma Venezuela democrática e soberana, livre da influência de adversários dos EUA e do crime organizado.

Também deve abordar o papel da oposição. O aparente afastamento de María Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, envia um sinal equivocado. As forças democráticas merecem um papel central na transição da Venezuela. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos não devem escolher as batalhas mais difíceis agora. Embora os EUA possam remover membros do regime do poder, as redes criminosas que operam na Venezuela não serão desmanteladas da noite para o dia. Tentar fazer isso agora garantirá que elas trabalhem para minar os objetivos dos EUA.

Finalmente, o governo precisa deixar claro que não se trata de petróleo. Enfatizar isso desvia a atenção dos objetivos maiores dos EUA na Venezuela.

As decisões sobre petróleo e outros recursos cabem ao povo venezuelano, e Trump deveria dizer isso.

Fazendo história ou repetindo-a

A captura de Maduro foi um triunfo militar e de inteligência impressionante, mas a história julgará Trump pelo que vier depois.

A verdadeira questão é se os EUA podem facilitar uma mudança duradoura na Venezuela ou se simplesmente trocaremos um regime autoritário por outro.

A parceria dos EUA com Rodríguez pode ser necessária como uma medida de curto prazo, mas não pode ser normalizada — e não pode ocorrer à custa da mudança.

Trump atualmente tem influência e impulso. Ele deve usá-los com sabedoria enquanto os tiver.

A farsa do 8 de janeiro

Três anos após os eventos de 8 de janeiro de 2023, a insistência do governo federal em sustentar a narrativa de uma “tentativa de golpe de Estado” revela-se cada vez menos um compromisso com a verdade factual e cada vez mais um expediente político. O episódio, que entrou para a história como um grave ato de vandalismo contra prédios públicos, vem sendo artificialmente inflado para servir como espantalho simbólico, usado para justificar excessos institucionais, silenciar opositores e desviar a atenção do desempenho pífio do governo em áreas centrais da administração pública.

Do ponto de vista técnico, jurídico e político, a tese de golpe não se sustenta.

Um golpe de Estado, conforme a ciência política e o direito constitucional, pressupõe elementos objetivos: liderança clara, coordenação estratégica, apoio ou ruptura dentro das Forças Armadas, controle de meios institucionais de poder e um projeto concreto de tomada e manutenção do governo. Nada disso esteve presente no 8 de janeiro. O que se viu foi uma massa desorganizada, sem comando central, sem respaldo institucional, sem apoio militar e sem qualquer capacidade real de substituir a ordem constitucional vigente.

Tratar vandalismo como golpe não é apenas um erro conceitual — é uma distorção deliberada.

A fragilidade dessa narrativa fica ainda mais evidente quando se analisam os próprios processos judiciais decorrentes dos fatos. Há denúncias de individualização precária de condutas, penas desproporcionais, inversão do ônus da prova e julgamentos que parecem mais orientados por uma lógica exemplarizante do que pelo devido processo legal. Em vez de responsabilização objetiva e equilibrada, optou-se por uma justiça de caráter simbólico, cujo objetivo maior parece ser a reafirmação de uma versão política previamente construída.

Se o 8 de janeiro tivesse sido, de fato, uma tentativa real de golpe, seria razoável esperar a identificação de líderes políticos relevantes, articuladores institucionais e financiadores com atuação comprovada. No entanto, três anos depois, não há nomes de peso do Congresso Nacional envolvidos, não há generais, não há governadores, não há cúpulas partidárias. A ausência de lideranças desmonta, por si só, a tese de uma conspiração estruturada contra o Estado democrático de direito.

Ainda mais revelador é o esvaziamento político e popular das cerimônias promovidas pelo presidente Lula para “relembrar” a data. Sem apelo popular, sem mobilização espontânea da sociedade e sem a presença significativa de líderes do Legislativo, os atos oficiais tornaram-se eventos protocolares, sustentados artificialmente pela máquina estatal e pela retórica governamental. A cada ano, fica mais evidente que o 8 de janeiro mobiliza mais o discurso do Planalto do que a consciência coletiva da população.

E não é difícil compreender o motivo.

Diante de dificuldades econômicas, aumento do custo de vida, crise fiscal, insegurança jurídica, desgaste internacional e promessas de campanha não cumpridas, o governo encontrou no 8 de janeiro um instrumento narrativo conveniente. Ao manter viva a ideia de um “golpe permanente”, cria-se um inimigo difuso, útil para justificar erros, atacar adversários e tentar preservar uma base política cada vez mais insatisfeita.

O problema é que democracias não se fortalecem com mitos, mas com fatos. Não se protegem instituições com narrativas forçadas, mas com respeito às garantias legais, à proporcionalidade das penas e à pluralidade política. Transformar um episódio de vandalismo grave — que deve, sim, ser punido nos limites da lei — em um marco fundacional de um governo é um sinal de fraqueza, não de força.

Três anos depois, o 8 de janeiro já não se sustenta como ameaça à democracia. Sustenta-se apenas como instrumento retórico de um governo que, incapaz de apresentar resultados concretos, precisa olhar constantemente para o passado para justificar o presente.

E quando um governo precisa de um espantalho para sobreviver politicamente, o problema não está na oposição — está na sua própria incapacidade de governar.

A Queda de Maduro

O amanhecer de 2026 marca um ponto de inflexão decisivo para a Venezuela. A queda de Nicolás Maduro e sua transferência sob custódia para Nova Iorque simbolizam o colapso de um sistema que exauriu o Estado, convertendo instituições em engrenagens do crime transnacional. No entanto, o vácuo deixado por décadas de autoritarismo exige prudência absoluta. A transição demanda cautela na estabilização interna e na recuperação de uma indústria petrolífera dilapidada por quase trinta anos de uma gestão que priorizou o saque sistemático e a repressão em parceria com máfias estrangeiras.

A realidade atual ratifica as denúncias de Maria Corina Machado: a PDVSA foi, na prática, privatizada por máfias e potências revisionistas. Sob o manto da Lei Antibloqueio, o regime operou a transferência clandestina de ativos para figuras como Alex Saab e conglomerados sem expertise, como o Consórcio Petroluxe e a Tridente Servicios Petroleros. A teia estendeu-se a empresas de fachada ligadas ao Irã, China e Rússia, incluindo a Sinohydro Corporation e as obscuras Anhui Guangda e Beijing Huasheng Rongcheng — cujos objetos sociais originais, como processamento de dados, mascaravam a exploração de hidrocarbonetos. Até a entidade turca Kase Finansal, de natureza financeira, tornou-se operadora petrolífera, evidenciando uma prioridade na engenharia financeira para lavagem de capitais em detrimento da técnica industrial.

Sob o domínio de Pequim, Teerã e Moscou, o patrimônio nacional foi desidratado para financiar a repressão interna e máquinas de guerra globais. Essa pilhagem reduziu a produção a níveis inferiores a 30% de sua capacidade histórica — um déficit de 70% causado por corrupção e negligência. Reerguer este setor vital exigirá agora o aporte tecnológico e a transparência que apenas os Estados Unidos e o mercado global legítimo podem oferecer.

Esta reconstrução é indissociável de um resgate ético. Não há soberania legítima quando o Estado submete o povo a uma ditadura brutal e invocar o Direito Internacional para proteger um tirano que converteu o país em santuário da tortura situa-se em um absoluto vácuo moral. Aqueles que evocam a “não-ingerência” silenciaram enquanto o terror era institucionalizado nos porões do SEBIN e da DGCIM. A intervenção liderada pelos EUA deve ser vista como um ato de responsabilidade internacional necessário para desmantelar um Estado-narcomafioso que ameaçava a segurança hemisférica.

Contudo, remover Maduro é apenas o primeiro passo. O desafio hercúleo reside na rede sistêmica de controle militar. Permanecem no território centenas de generais vinculados ao narcotráfico, como Vladimir Padrino López, Domingo Hernández Lárez e Diosdado Cabello, responsáveis por pilhar o erário. É impossível reconstruir o país removendo apenas a “cabeça” do regime e a sobrevivência da democracia exige uma limpeza institucional cirúrgica nas raízes dessa narcocorrupção. Sem desmantelar essa casta militar, qualquer mudança será apenas cosmética. O êxito desta nova era depende da coragem em erradicar as estruturas que ainda infestam o Estado, devolvendo, finalmente, a verdadeira soberania ao povo venezuelano.

Nosso 2026 será de novos começos ou de mais do mesmo?

O ano de 2026 se anuncia como um marco simbólico. Teremos Copa do Mundo, eleições presidenciais e um país atravessado por um cansaço profundo. Não se trata apenas de fadiga econômica ou política, mas de um esgotamento mais amplo, que atravessa instituições, linguagem e expectativas. O Brasil entra nesse novo ciclo sem ter resolvido as tensões acumuladas na última década e sem demonstrar maturidade para enfrentá-las de forma honesta.

O ambiente institucional já vinha fragilizado, mas o episódio envolvendo o Banco Master representou uma inflexão qualitativa. Não foi apenas mais um conflito jurídico ou uma disputa de interpretações legais.

O que se tornou visível foi algo mais grave: a sensação de que determinadas estruturas passaram a operar em circuito fechado, com mecanismos de autoproteção que escapam ao controle público. A questão deixou de ser técnica e passou a ser simbólica. Quando decisões relevantes parecem blindadas contra questionamentos, a confiança na institucionalidade se rompe.

Esse deslocamento altera profundamente a relação da sociedade com o Estado. Durante anos, as críticas ao Supremo Tribunal Federal se concentraram em excessos pontuais ou em leituras jurídicas consideradas expansivas.

Agora, a percepção mudou de patamar. A crítica passou a atingir a própria ideia de imparcialidade. Não se discute apenas se uma decisão foi correta, mas se o sistema ainda é capaz de se autorregular. Quando essa dúvida se instala, a legitimidade sofre um abalo que não se resolve com notas técnicas ou discursos institucionais.

É nesse contexto que se revela um traço recorrente da vida pública brasileira: a dificuldade de lidar com a responsabilidade. Diante de situações complexas, uma parte significativa da sociedade prefere reagir emocionalmente a compreender. Em vez de enfrentar o desconforto de uma análise mais profunda, opta por narrativas que confirmem certezas prévias. O gesto do “eu avisei” substitui o esforço de compreender o que, de fato, está acontecendo.

A pesquisa Datafolha de dezembro escancara uma contradição que já não pode mais ser tratada como ruído estatístico. Segundo o levantamento, 47 por cento dos brasileiros se declaram de direita ou centro-direita, enquanto 28 por cento se dizem de esquerda ou centro-esquerda.

Ao mesmo tempo, 40 por cento afirmam ser petistas, e 34 por cento se dizem bolsonaristas. Isso significa, de forma objetiva, que há brasileiros que se dizem de direita e, ao mesmo tempo, se identificam como petistas, assim como há pessoas que se dizem de esquerda e se reconhecem como bolsonaristas. Não se trata de incoerência pontual, mas de um padrão.

Esse dado revela algo mais profundo do que confusão ideológica. Ele mostra que, para uma parcela significativa da população, as categorias políticas deixaram de ser referências de pensamento e passaram a funcionar como identidades emocionais.

A identidade política deixa de ser um conjunto de ideias e passa a ser uma marca de grupo, quase um rótulo social. Nesse cenário, dizer-se de direita ou de esquerda não significa defender projetos distintos de país, mas apenas sinalizar de que lado se está.

O resultado é uma política cada vez menos racional e mais performática. Em vez de discutir propostas, discute-se pertencimento. Em vez de analisar consequências, escolhe-se um lado. O debate se transforma em espetáculo, e a participação política, em afirmação de identidade. A lógica não é mais convencer, mas sinalizar. Não se busca compreender, mas marcar posição.

Nesse ambiente, a figura do salvador da pátria retorna com força. Diante da frustração e da sensação de impotência, cresce a expectativa de que alguém resolva tudo em nome de todos. A responsabilidade individual é terceirizada. O pensamento crítico cede espaço à esperança de que uma liderança carismática faça o trabalho que a sociedade não quer fazer. É uma forma de infantilização coletiva, em que a política passa a ser vivida como promessa de alívio emocional.

O problema é que essa dinâmica não produz maturidade democrática. Pelo contrário, aprofunda a dependência e reduz a capacidade de ação consciente. Quanto mais se espera por um salvador, menos se constrói cidadania. Quanto mais se delega o pensamento, mais fácil se torna manipular afetos e conduzir massas.

O Brasil entra em 2026 diante dessa encruzilhada. Ou enfrenta o desconforto de pensar com autonomia, reconhecer limites e assumir responsabilidades, ou seguirá preso ao ciclo de frustração, indignação e expectativa messiânica. A questão central não é quem vencerá a eleição, mas se a sociedade está disposta a amadurecer.

Sem esse movimento, qualquer mudança será apenas cosmética. O país continuará oscilando entre euforia e decepção, sem nunca enfrentar o núcleo do problema. O verdadeiro desafio não é escolher um novo salvador, mas aprender, finalmente, a viver sem um.

Captura de Maduro foi justa, necessária, mas não suficiente

Na madrugada do sábado, 3 de janeiro de 2026, como vastamente divulgado, a Delta Force, unidade de operações especiais do exército americano, a mando do presidente Donald Trump,  capturou o ditador Maduro – acompanhado pela esposa Cilia Flores – e os levou para uma prisão nos EUA. Tendo por principal alegação a quebra da “soberania nacional” da Venezuela, vem sendo grande a gritaria contra a ação americana.

A reação indignada de parte do establishment intelectual e jornalístico à prisão de Nicolás Maduro diz mais sobre a confusão moral do nosso tempo do que sobre a operação em si. Na ótica de analistas respeitáveis, mesmo diante de um tirano, mesmo diante de um regime que tortura, mata, frauda eleições e converte o Estado em engrenagem do narcotráfico, seria preciso conter a ação em nome de uma abstração chamada “ordem internacional”. Como se essa ordem não estivesse já em ruínas, e como se ela tivesse, em algum momento, protegido os venezuelanos.

O primeiro ponto que precisa ser enfrentado é a inversão moral operada por esse tipo de crítica. Derrubar um ditador é considerado um “objetivo defensável”, mas os meios empregados seriam problemáticos. Ora, quando todos os meios ordinários foram tentados, insistir na pureza dos procedimentos equivale a aceitar, na prática, a perpetuação do mal. 

Em “A Sociedade Aberta e seus inimigos” Karl Popper dá uma interessante definição de democracia: um regime no qual o povo pode se livrar do governo sem derramamento de sangue. A Venezuela sob Maduro não entra nessa definição. 

Os meios legais e pacíficos de resistência foram exercidos pelo povo venezuelano até a exaustão. Restou a força, que acabou sendo usada não pelo povo venezuelano, massacrado e incapaz desse tipo de reação, mas por uma potência estrangeira. 

O debate sobre a legalidade da “Operação Resolução Absoluta” é válido e está aberto. A mim, no entanto, parece que o questionamento da prisão de Maduro à luz do direito internacional parte da falsa premissa de que a soberania de um Estado foi violada. Como bem explicou Leonardo Coutinho, em análise publicada no Estadão, Chávez e Maduro transformaram a Venezuela em algo que vai além do conceito clássico de narcoestado: 

Sob o chavismo, a Venezuela tornou-se um Estado-narco. Ao longo de 26 anos, o regime fez com que as instituições fossem mais do que o alvo da infiltração do crime, mas um Estado que atua como um chefe criminoso. Não é a interferência do tráfico no Estado, é o Estado como agente do tráfico.” 

Um regime que, além de oprimir seu próprio povo, funde aparato estatal e crime organizado abdica de qualquer pretensão legítima à inviolabilidade. O próprio conceito de soberania está ligado ao povo e não a uma estrutura que o oprime. Quem atacou a soberania da Venezuela foi Maduro quando o povo venezuelano foi agredido, preso, torturado, aviltado, enganado, e por todas as formas infelicitado por esse facínora que estava no poder há mais de 12 anos.

Em relação, portanto, à captura de Maduro, considero que a decisão do presidente dos Estados Unidos não foi condenável, mas acertada. O problema é o que virá depois. É ingenuidade achar que Trump age por valores morais e sensibilidade humanitária. 

A “Operação Resolução Absoluta” estará moralmente justificada se os presos políticos forem libertados, se o regime cair, se Edmundo González ou Maria Corina Machado assumirem a presidência e a economia voltar a florescer. 

Trump, porém,  já se apressou em desqualificar Corina Machado e iniciou conversas com a vice de Maduro, acendendo alerta para a possibilidade de uma atitude vil e traiçoeira, qual seja, fazer acordo com o entorno político-militar do ditador desalojado, inaugurando um madurismo sem Maduro, com uma cúpula que lhe sirva aos interesses.

A captura de Maduro foi necessária, mas não suficiente para a libertação dos venezuelanos. Derrubar o homem e preservar o sistema seria apenas trocar a face da opressão. A libertação imediata dos presos políticos, a abertura dos centros de tortura, o fim da perseguição sistemática à oposição e o reconhecimento efetivo da vontade popular são critérios mínimos para que a ação de Trump faça sentido do ponto de vista moral. Sem isso, a prisão de Maduro se reduzirá a um gesto espetacular e sem sentido. 

Maduro, a fraude ignorada e o colapso da ordem internacional

Durante anos, os fatos estiveram diante dos olhos do mundo. Relatórios da ONU, denúncias de organizações independentes, testemunhos de vítimas e investigações internacionais apontaram para um mesmo diagnóstico: o regime de Nicolás Maduro consolidou-se por meio da repressão, da fraude e da violação sistemática dos direitos humanos. Ainda assim, a comunidade internacional optou, em grande medida, pela omissão, pelo relativismo moral ou por gestos diplomáticos inócuos.

As acusações são graves e amplamente documentadas: execuções extrajudiciais, tortura de presos políticos, perseguição a opositores, censura à imprensa, aparelhamento do Judiciário e uso das forças de segurança como instrumentos de terror estatal. A isso se soma um elemento decisivo: a fraude eleitoral recorrente, que esvaziou completamente qualquer aparência de legitimidade democrática do regime chavista.

Mesmo diante desse cenário, organismos multilaterais e lideranças globais insistiram em tratar a ditadura venezuelana como um “ator político legítimo”, apostando em negociações intermináveis e resoluções simbólicas. A Organização das Nações Unidas, criada para conter abusos de poder e preservar a paz, limitou-se a relatórios e discursos, incapaz de produzir consequências reais. Na prática, a omissão internacional funcionou como um selo tácito de validação do regime.

É nesse vácuo de autoridade e coragem que se insere a ação de Donald Trump em relação a Nicolás Maduro. Ao reconhecer a ilegitimidade do governo venezuelano, impor sanções duras e tratar Maduro como aquilo que ele efetivamente é — um líder autoritário sustentado pela fraude e pela força —, Trump rompeu com o teatro diplomático que dominava o cenário internacional. Sua postura, ainda que controversa, não surgiu do nada: foi consequência direta da falência das instituições multilaterais em fazer cumprir seus próprios princípios.

O ponto central é desconfortável, mas inevitável: quando o sistema internacional falha em punir ditaduras evidentes, abre espaço para ações unilaterais. Trump não criou o problema venezuelano; ele reagiu a um problema que foi ignorado por tempo demais. A fraude eleitoral, tolerada e relativizada por observadores internacionais, foi o marco final dessa complacência.

Esse episódio revela algo maior do que o conflito entre Estados Unidos e Venezuela. Ele expõe a obsolescência do atual sistema geopolítico, estruturado após a Segunda Guerra Mundial, mas hoje incapaz de responder aos desafios reais do século XXI. A ONU, engessada por interesses cruzados, vetos políticos e um discurso cada vez mais distante da realidade, perdeu sua capacidade de dissuasão e autoridade moral.

O caso Maduro é sintomático: um regime acusado de crimes contra a humanidade permanece no poder, enquanto a ordem internacional debate sem agir. Quando alguém age fora desse sistema, a reação não é de autocrítica, mas de indignação seletiva.

Estamos, portanto, diante do início de uma nova ordem global — não porque ela foi planejada, mas porque a antiga deixou de funcionar. A ação contra Maduro simboliza a transição de um mundo regido por consensos artificiais para outro marcado por decisões duras, interesses nacionais explícitos e o enfraquecimento dos organismos multilaterais tradicionais.

A pergunta que fica não é se essa nova ordem será melhor ou pior. A pergunta correta é: quanto da atual desordem foi causada exatamente pela omissão daqueles que juraram proteger a democracia, a liberdade e os direitos humanos — e não o fizeram?

Ismael Almeida