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A Prisão de Jair Bolsonaro: um ataque à legalidade, uma arma de guerra política e o prenúncio de um 2026 turbulento

A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros condenados pelo STF não é apenas um episódio jurídico. É o ápice de um processo marcado por arbitrariedades que colocam em xeque o Estado de Direito e revelam um Judiciário profundamente contaminado por interesses políticos. Não se trata de justiça — trata-se de engenharia eleitoral às vésperas de 2026.

O processo que levou Bolsonaro à prisão é, no mínimo, um manual de como driblar garantias constitucionais. A ausência de iniciativa do Ministério Público — que deveria ser o titular da ação penal — é uma agressão direta ao princípio do devido processo legal. Quando o juiz assume o papel de acusador, não temos Justiça; temos perseguição. Some-se a isso a imposição de censura prévia nas redes sociais, um dispositivo que remete aos períodos mais sombrios da história brasileira, com a nítida intenção de silenciar um líder político e sua base social. Não há respaldo jurídico sólido para esse tipo de intervenção: há apenas decisão monocrática com verniz de legalidade.

Ainda mais grave é o uso de teorias jurídicas artificiais, como a “autoria mediata”, para transformar opinião política em crime. Esse malabarismo conceitual é típico de regimes que não conseguem derrotar adversários nas urnas e recorrem ao tapetão institucional. A Justiça, que deveria ser o freio das arbitrariedades do poder, tornou-se sua extensão ideológica.

O impacto disso no cenário eleitoral de 2026 é devastador. O Judiciário, ao tentar afastar Bolsonaro do jogo político, cria exatamente o contrário: uma narrativa de mártir, capaz de reorganizar a direita e reacender o espírito de reação das bases conservadoras. Quanto mais se aperta, mais se alimenta a mobilização popular. O eleitorado percebe a perseguição — e a perseguição gera resistência. A esquerda, por sua vez, aposta tudo nessa estratégia: eliminar pela força aquilo que não consegue derrotar pela ideia.

Mas a realidade cobra. Um país cuja Justiça age como parte interessada deixa de ser uma democracia funcional e passa a ser uma república de exceção. A credibilidade institucional, elemento central para a estabilidade política, está sendo corroída por decisões que soam como vingança. Nesse ambiente, as eleições de 2026 não serão disputadas apenas por propostas — serão travadas sob o peso da insegurança jurídica, da polarização agravada e da erosão da confiança pública.

Se o Brasil deseja evitar um abismo institucional, precisa recuperar urgentemente o respeito pelo devido processo legal e pelo equilíbrio entre os poderes. Democracia não se sustenta com sentenças que silenciam adversários. Democracia exige disputa limpa, justiça imparcial e instituições que não sejam instrumentos de facção. O caminho para um 2026 menos tóxico começa com algo simples: o Judiciário assumindo novamente o seu papel de guardião da Constituição — e não o de inquisidor da política.

O mapa do caminho

Descobrimos então que a COP 30 era muito mais importante para a esquerda populista (de raiz classista ou identitarista) do que imaginamos. Eles jogaram tudo para fazer da COP 30 um tipping point

Para o governo Lula foi um ato de campanha, pleno de marquetagens: “a maior COP do mundo”, “a COP do povo liderada por Lula” – o guia genial, o grande timoneiro. Basta ver que o último discurso de Lula na COP 30 foi tipicamente eleitoral. Uma fala populista num palanque para dentro. O tal “mapa do caminho” mesmo só teremos… nas próximas COPs. Compromissos com metas necessárias e críveis ocorrerão… nas próximas COPs. Para Lula, o mais importante vem antes: nas urnas de 2026.

Para a esquerda, órfã das grandes narrativas totalizantes do século 20, era para ser uma espécie de “enchente amazônica”, uma “explosão atlântica” onde os excluídos, os condenados da Terra, os povos originários e todas as minorias acordaram (woke) para dizer ao mundo dos ricos que não aceitam mais a situação de injustiça instalada. O climático serviu como um gancho perfeito para o social. Injustiça climática. Exclusão climática. Racismo climático. A discriminação climática é estrutural.

Uma revivescência da luta de classes e da luta contra a discriminação. O início de uma verdadeira revolução social. Uma sublevação do Sul Global. A esquerda agora não só lidera, mas se apropria da causa climática… contra a direita. 

Foi aí que apareceu a proposta do Mapa do Caminho para redução das emissões de CO2, lavando a contradição do Brasil querer liderar essa caminhada mantendo a exploração dos combustíveis fósseis. Porque no futuro, ah!, no futuro, não será mais assim. Vamos para o reino da liberdade e da abundância: mas amanhã, não hoje. Sim, vamos extinguir o Estado: mas amanhã, não hoje. Hoje, nós, os socialistas, fortalecemos o Estado para enfraquecê-lo. Mas hoje só amanhã.

(Se você não quiser deixar de fazer alguma coisa julgada reprovável, proponha um “mapa do caminho” para deixar de fazer essa coisa no futuro. Com esse truque você obtém uma licença para continuar fazendo o que não deve. É como uma ditadura prometendo um reino da liberdade amanhã). 

O Mapa do Caminho era um mapa para a reeleição de Lula e para o renascimento da esquerda como portadora da salvação universal.

Os países do eixo autocrático e os EUA trumpista, porém, não toparam essa parada. E o mapa ficou sem caminho; ou o caminho ficou sem mapa. A proposta de um plano de ação com etapas e metas para acabar com o uso de petróleo, gás natural e carvão mineral não avançou. China, Índia, Arábia Saudita e Nigéria não aceitam – pelo menos até agora – nenhum texto sobre o tema. E se aceitarem não irão realizar suas prescrições. Sem falar dos EUA, é claro. E da Rússia.

O ambientalismo, parasitado pelos órfãos das narrativas totalizantes do século 20, está alimentando o surgimento de uma militância proto-fundamentalista que passou a assombrar a humanidade com o apocalipse do aquecimento global. Não é que o aquecimento global não seja uma ameaça real. É que tratar isso na base do medo, crucificando como negacionistas climáticos os que não são fiéis do novo credo, instalará uma nova cruzada do bem contra o mal cujos resultados serão nocivos à liberdade. 

Entenda-se bem. O problema existe. E não há como resolvê-lo com uma grande vassourada. Como escreveu Quico Toro, o processo COP não funciona porque “imagina as emissões [de CO₂] como algo que o governo de um país pode definir, como o botão de um termostato” (1). Não há como resolver o problema derrotando os negacionistas climáticos e, para tanto, incentivando uma nova polarização em que os militantes ambientalistas vão abrir uma guerra contra os negacionistas climáticos. 

Se a chamada esquerda, que sempre se acha do lado do bem, abrir esse tipo de guerra contra a chamada direita negacionista, sempre avaliada, pela esquerda, como estando do lado do mal, isso não contribuirá em nada para resolver o problema. 

Não é uma guerra universal que precise ser vencida, com a derrota definitiva dos inimigos incréus para nos salvar do apocalipse. É preciso ver o que se pode fazer agora, a começar pelos nossos atos singulares e precários em todos os âmbitos, das pessoas e comunidades, dos pesquisadores e empreendedores inovadores, das empresas e dos governos dos municípios, regiões e países e das organizações internacionais.


Nota

(1) Como escreveu Quico Toro, em Persuasion (13/11/2025), o processo COP não funciona “porque se baseia em um modelo errado sobre o que determina o nível de emissões de gases de efeito estufa de um país. A COP imagina essas emissões como algo que o governo de um país pode definir, como o botão de um termostato. Mas as emissões são mais parecidas com o PIB: o resultado de um processo complexo que os políticos gostariam de controlar, mas que na realidade não controlam. Assim como o PIB, as emissões climáticas são o resultado cumulativo de bilhões de decisões tomadas por bilhões de atores — negociadores climáticos, empresas de serviços públicos, operadores de redes elétricas, reguladores, políticos, burocratas, banqueiros, investidores, empresas e famílias — cada um dos quais precisa ponderar uma série de compensações. Essas compensações incluem a qualidade do ar e as emissões de carbono, sim, mas também a acessibilidade, a confiabilidade, a soberania, a disponibilidade de recursos naturais e o nível de prontidão tecnológica. Nos países desenvolvidos, o resultado combinado dessas decisões tem sido uma queda gradual das emissões nas últimas duas décadas. Desde o pico em 2007, as emissões de CO₂ dos países desenvolvidos caíram de 15,7 gigatoneladas para 12,9 gigatoneladas em 2023. (Uma gigatonelada equivale a um bilhão de toneladas.) Também em 2023, pela primeira vez, a China emitiu mais dióxido de carbono do que todos os países desenvolvidos juntos. Entre 1970 e 2023, as emissões chinesas cresceram de 7,6 gigatoneladas por ano para 13,3 gigatoneladas por ano, e as emissões do restante do mundo em desenvolvimento aumentaram de 7,9 para 11,7 gigatoneladas. Para cada molécula de CO₂ que os países ricos reduziram suas emissões desde 2007, os países em desenvolvimento emitiram três a mais”.

Os Tentáculos de Teerã

Enquanto a atenção mundial se concentrava nos conflitos abertos no Oriente Médio, um plano ousado, gestado nos porões de Teerã, foi desmontado a tempo de evitar uma tragédia de proporções internacionais. Poucos meses atrás, o governo mexicano, em coordenação com agências de outros países, frustrou uma conspiração orquestrada pela Força Quds, unidade de elite da Guarda Revolucionária do Irã, para assassinar Einat Kranz-Neiger, Embaixadora de Israel no México. O caso, que recebeu escassa atenção da imprensa brasileira, serve como alerta contundente: a máquina de desestabilização iraniana não apenas permanece ativa, mas opera com audácia crescente em territórios distantes, mesmo após os reveses de seus aliados mais visíveis.

O modus operandi envolvia o recrutamento de um cidadão mexicano, seguindo ordens diretas de um agente iraniano. A estratégia de recrutamento local evidencia uma nova tática da Guarda Revolucionária dos aiatolás na América Latina, operando desde a Venezuela. O objetivo principal é minimizar riscos e aumentar as chances de sucesso em solo estrangeiro, demonstrando uma sofisticação funcional que vai além do teatro de guerra convencional.

Este episódio é um exemplo emblemático da doutrina de “guerra híbrida” iraniana. Num momento em que Hamas, Hezbollah e Houthis enfrentam significativa pressão militar e diplomática, Teerã responde estendendo seus tentáculos. Ao mirar uma alta figura diplomática em um terceiro país como o México, o regime sinaliza que sua campanha de antagonismo não conhece fronteiras. A escolha do alvo – uma mulher que representa Israel diplomaticamente – foi claramente calculada para infligir um golpe estratégico e simbólico, criando uma crise internacional de grandes proporções.

A contenção bem-sucedida deste complô, um triunfo silencioso da cooperação em inteligência, evitou uma catástrofe. No entanto, a tentativa em si é a mensagem mais alarmante. Ela desmente qualquer narrativa de que um Irã sob sanções (e com seus proxies enfraquecidos) estaria contido. Pelo contrário, revela um regime que, quando pressionado, pode tornar-se mais ousado e imprevisível, recorrendo a operações de alto risco em territórios alheios ao seu teatro de operações para projetar poder e vingança.

Este evento não é um incidente isolado. Deve ser analisado em conjunto como uma prática já utilizada pelo regime dos aiatolás. A Austrália expulsou o embaixador iraniano após apontar envolvimento de Teerã em um ataque contra uma sinagoga em Melbourne e outro contra um restaurante kosher em Sydney. Na América Latina, o atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 1994, em Buenos Aires, que deixou 85 mortos. Um ataque cometido pelo Hezbollah a pedido do Irã. 

A lição do atentado frustrado na Cidade do México é cristalina: a comunidade internacional não pode expor-se ao risco. Subestimar a resiliência e a capacidade de adaptação do regime iraniano é um erro estratégico perigoso. A abordagem ocidental não pode se limitar a conter grupos proxy, deve confrontar com vigor a fonte primária da instabilidade e regimes aliados, como em Caracas. É imperativo intensificar a pressão diplomática, ampliar a cooperação em inteligência e fechar as brechas nas sanções que permitem a Guarda Revolucionária financiar operações globais. Ignorar a persistência da ameaça iraniana é convidar a uma crise ainda mais severa no futuro. O perigo não se dissipou, simplesmente se transmutou e expandiu seu raio de ação.

TikTok vai entregar dados dos usuários para o governo?

A pergunta não saiu de um blog conspiratório, mas da Forbes. A revista revelou que o TikTok alterou discretamente sua política de atendimento a requisições governamentais nos Estados Unidos, ampliando a possibilidade de compartilhar dados de usuários não apenas com forças de segurança, mas também com “autoridades regulatórias, quando relevante”, e enfraquecendo a promessa de avisar o usuário quando seus dados forem entregues ao governo.

Questionada repetidas vezes se compartilha ou não informações com o Departamento de Segurança Interna e com a ICE, agência responsável pela imigração e alfândega, a empresa simplesmente se recusou a responder. Só depois da publicação da reportagem o TikTok enviou uma nota oficial à Forbes.

Disse o chefe de comunicação corporativa global, Nathaniel Brown: “Esta matéria enganosa distorce e sensacionaliza deliberadamente a forma como lidamos com solicitações legais, apenas para gerar cliques. O fato é que o TikTok avalia cuidadosamente esses pedidos com base em nossas diretrizes públicas para autoridades policiais e divulga informações de forma transparente e regular sobre como respondemos a eles”.

A frase é um primor do discurso padrão das Big Techs: acusa a reportagem de ser enganosa e sensacionalista, fala em diretrizes públicas, transparência e relatórios regulares. Mas não responde à pergunta central. A empresa não nega ter mudado a política, não explica por que ampliou a margem de compartilhamento com o governo e, principalmente, não diz se entrega ou não dados de usuários à ICE. Quando uma plataforma de alcance global responde assim, o problema já não é tecnológico. É político.

Essa não é a primeira vez que o TikTok se vê no centro de um incêndio geopolítico. Em 2022, ao analisar o avanço da tecnologia chinesa, mostrei como a China passou a usar sua infraestrutura digital como um Cavalo de Troia do século XXI. O Estado chinês prevê a presença de representantes do Partido Comunista dentro das empresas, inclusive privadas. Nunca houve democracia na China. Não se discute liberdade individual como valor central. O que importa é coletivismo, paz social e progresso econômico. Nesse modelo, dados não são apenas insumo de negócios. São ferramenta de poder.

Naquela coluna, lembrei que o Parlamento britânico decidiu desativar sua conta oficial no TikTok por temor de que o governo chinês pudesse acessar os dados. Não era paranoia. Era a consequência lógica de uma investigação sobre violações de direitos humanos contra a minoria uigur e o uso de tecnologia como instrumento de pressão política. Mais tarde, o governo Biden reforçou sanções a empresas como Huawei e ZTE, reconhecendo que a tecnologia chinesa é parte de uma disputa de poder global.

Em 2023, outro capítulo. O TikTok teve de admitir publicamente que funcionários da ByteDance espionaram jornalistas nos Estados Unidos, rastreando localização e acessos de profissionais que investigavam a empresa. O que antes era tratado como teoria conspiratória virou fato: a plataforma foi usada para vigiar quem fiscalizava seu comportamento. Ali ficou impossível sustentar a narrativa inocente de “rede de vídeos divertidos”.

Agora, a reportagem da Forbes não fala da China, mas dos Estados Unidos. Mostra que o aplicativo ajustou sua política para facilitar a cooperação com o governo americano, especialmente após negociações para continuar operando no país. A discussão deixa de ser apenas “China espionando o Ocidente” e passa a ser algo mais desconfortável: qualquer grande plataforma, em qualquer lugar do mundo, tende a ceder quando um governo poderoso bate à porta pedindo dados de usuários.

O que fazer em relação à Venezuela? Pressão máxima, guerra mínima

Com a adição do Grupo de Ataque do Porta-Aviões Gerald R. Ford às forças já posicionadas no Caribe, os Estados Unidos reuniram o maior contingente de recursos militares no Hemisfério Ocidental em anos, representando o desafio mais direto à ditadura de Nicolás Maduro desde sua ascensão ao poder em 2013. O que começou como uma operação de combate ao narcotráfico agora se direciona para um objetivo diferente: incentivar a remoção de Maduro do poder.

Muitos analistas se opõem à tentativa de mudança de regime na Venezuela, mas o presidente Donald Trump indicou que não pretende efetuar tal mudança. Em vez disso, ele provavelmente apoia uma “transição por outros meios”, na qual ataques a alvos venezuelanos levem ao colapso do regime ou convençam pessoas próximas a Maduro a facilitar sua saída. As questões mais imediatas são se os ataques aéreos previstos podem catalisar esse tipo de mudança rapidamente e, caso contrário, se Trump estará disposto a intensificar a campanha além dos alvos iniciais.

Embora as forças americanas no Caribe possuam um poder de ataque esmagador, Maduro pode ser capaz de resistir aos ataques iniciais. Em 1999, após a intensificação da limpeza étnica no Kosovo pela Sérvia, a OTAN iniciou uma ofensiva aérea contra a Sérvia, acreditando que uma campanha limitada e de curta duração seria suficiente para forçar o presidente sérvio Slobodan Milosevic a recuar. Em vez disso, Milosevic entrincheirou-se, e a OTAN teve que expandir o escopo dos bombardeios, de alvos puramente militares e de defesa aérea para alvos estratégicos, incluindo prédios governamentais, infraestrutura civil e redes elétricas.

O bombardeio foi inicialmente contraproducente, consolidando o apoio a Milosevic e dispersando os grupos de oposição. Foram necessários 78 dias de bombardeio, com aproximadamente 1.000 baixas militares e mais de 500 civis, para que Milosevic concordasse em retirar-se do Kosovo e aceitar um plano de paz. (E foi somente em 2000, 16 meses após o fim dos bombardeios, que Milosevic cedeu o poder após protestos em massa nos quais as forças de segurança se recusaram a usar a força contra os manifestantes.)

É claro que o caso sérvio não prevê o que pode acontecer na Venezuela, mas sugere possíveis desafios, em particular o fator tempo e a lógica da escalada. Maduro tem vantagens importantes: agentes de contraespionagem cubanos infiltrados nas forças de segurança para garantir a lealdade e uma vasta rede de elites ligadas ao regime que lucram com atividades ilícitas ou fazem negócios com o governo e têm fortes incentivos para manter o status quo.

Caso os ataques aéreos dos EUA não consigam catalisar uma ação contra Maduro, os EUA enfrentarão escolhas difíceis sobre se e como intensificar o conflito, enquanto o regime usa a ameaça externa para justificar a repressão e inflamar o sentimento nacionalista, potencialmente consolidando a coesão interna. Tal cenário testaria a determinação de Trump em evitar um maior envio de tropas americanas. Ao mesmo tempo, suspender os ataques sem atingir os objetivos seria um golpe devastador para a credibilidade dos EUA.

Trump tem enviado sinais contraditórios sobre atacar a Venezuela. Dada a sua alegada hesitação em ordenar ataques, existe uma opção menos arriscada que ele poderia considerar: manter a atual presença militar, sem iniciar ataques, enquanto exerce pressão econômica e de outras formas sobre Maduro. Os ataques dos EUA à Venezuela fornecem imediatamente ao regime uma narrativa poderosa de Maduro resistindo aos Estados Unidos, enquanto uma pressão mais abrangente cria sofrimento crônico para o regime e seus aliados, sem fornecer um inimigo externo unificador.

Quanto à pressão econômica, um ponto de partida seria restringir a capacidade do regime de exportar petróleo, de longe sua principal fonte de receita. É incoerente permitir que as operações da Chevron na Venezuela continuem a fornecer benefícios financeiros ao regime, e cancelar a licença de operação da Chevron é um primeiro passo óbvio. Além disso, o governo também poderia intensificar os esforços para interceptar as exportações de petróleo venezuelano para a China e combater o comércio ilegal de ouro que gera bilhões para o regime.

Com o tempo, a pressão constante — militar, econômica e secreta — poderia criar espaço para o desenvolvimento de fraturas internas e para a organização da oposição democrática venezuelana. Um destacamento mais longo, embora dispendioso, seria menos custoso do que um conflito e preservaria a flexibilidade do governo para intensificar ou reduzir a tensão de acordo com as circunstâncias.

Trump está certo ao afirmar que a criminalidade de Maduro e a catástrofe humanitária que ele criou justificam uma resposta agressiva. Mas, em vez de apostar em uma estratégia que poderia exigir hostilidades prolongadas e uma série de escaladas, Trump deveria buscar uma opção menos drástica, porém mais sustentável: manter a ameaça do uso da força na região, ao mesmo tempo que utiliza outras formas de pressão. Intensificar a pressão sobre Maduro — mas sem iniciar uma guerra que os EUA não estejam preparados para terminar.

Os democratas podem votar na chamada ‘direita’?

É muito difícil tirar um partido hegemonista do governo, sobretudo quando liderado por um parasita populista com alta gravitatem, pelos processos eleitorais normais num contexto em que o concorrente incumbente tem a simpatia da maioria dos jornalistas (comentaristas e analistas) políticos, dos pesquisadores de institutos de pesquisa de opinião e de agências de checagem, de uma rede suja de sites e influencers nas mídias sociais, dos artistas e famosos em geral, da maioria dos acadêmicos (sobretudo das áreas de humanas das universidades federais), dos sindicatos, centrais e associações profissionais, dos movimentos sociais e de boa parte das ONGs e, ainda por cima, conta com uma TV do maior grupo de comunicação do país para reverberar tudo isso diariamente. Sobretudo se o incumbente contar também com a simpatia da maioria da suprema corte, de vários tribunais superiores e de grupos influentes de juristas alinhados.

Nestas circunstâncias até entende-se a atratividade de uma alternativa antissistêmica, revolucionária (ainda que para trás, ou seja, reacionária). Há uma crença difusa de que a situação só muda com um curto-circuito no sistema, ainda que isso possa acelerar uma transição autocratizante do nosso regime político ou mesmo abrir a possibilidade de um golpe de Estado (embora hoje essa possibilidade esteja afastada no Brasil).

Em outras palavras, o hegemonismo é tão sufocante que grande parcela da população – em sua maioria não convertida à democracia – prefere qualquer coisa à manutenção do status quo, no limite até a abolição da democracia. Essa é a razão pela qual um populismo dito de direita (bolsonarista) chegou ao governo depois de vários mandatos consecutivos da esquerda populista (lulopetista). Como tal revolução não houve, a hegemonia conquistada de 2003 a 2016 não foi substituída por outra, o sistema continuou rodando nos mesmos parâmetros e o lulopetismo voltou ao governo em 2023. E a via antissistema perdeu todas as suas chances de ressurgir entre nós num horizonte divisável.

Sem a via antissistêmica, dita de extrema-direita, o que chamam de direita é apenas um componente normal de qualquer regime democrático. Em princípio entende-se que direita é tudo que não é esquerda. Todavia, opor direita, como se fosse “o mal”, ao governismo, tido por “o bem” porque seria de esquerda, é uma fraude.

Até os mais lúcidos jornalistas políticos tratam quem não é governista como sendo ‘de direita’. Mas que conversa é essa de ser ‘de direita’? A maioria da nossa população – que não é governista – nada tem a ver com ‘direita’. Isso tem um nome: hegemonia. Muitas vezes sem ter consciência disso nosso jornalismo se habituou a pensar sob comando. Comando de quem? Ora, dos populistas que se dizem esquerda e que estão no governo e dos populistas que, remedando os primeiros com o sinal trocado, querem se dizer de direita e estão na oposição.

O ardil é especialmente maligno quando urdido e aplicado pelo populismo lulopetista. Basta não ser governista para ser qualificado como direita. E já vai embutida a ideia de que direita, no Brasil, é a extrema-direita bolsonarista. Repetindo e acrescentando: a maioria da população brasileira, além de não ser governista, não é de direita, nem bolsonarista. Afirmar o contrário é a fraude política de que estamos tratando neste artigo.

Um editorial da Folha de São Paulo de ontem (15/11/2025), comentando as recentes pesquisas de opinião (em especial a da Quaest) diz o seguinte:

O quadro geral que determinou o resultado apertadíssimo das eleições de 2022 não dá mostras de ter-se diluído. Parcela francamente majoritária dos 50,9% que votaram em Lula naquele segundo turno continua a apoiá-lo como presidente. Já os que o rejeitam correspondem quase matematicamente aos 49,1% que votaram em Jair Bolsonaro (PL). Um segmento de eleitores independentes — que ora oscila para um lado, ora para o outro — tem causado as idas e vindas na aprovação do petista desde a posse, em janeiro de 2023. A movimentação pendular prediz que essa fatia no centro do espectro ideológico vai decidir a sucessão presidencial em outubro de 2026.

Na luta para capturar os 10% (há quem diga que são apenas 3%) que vão decidir a eleição de 2026, a direita é pintada como tendo sido devorada, digerida e dejetada pela extrema-direita. O cadáver insepulto de Bolsonaro continuará, para tanto, sendo agitado como um espantalho. De modo que não reste alternativa, a qualquer pessoa de bom senso, senão rejeitar a direita. Por quê? Porque ela não passa de uma fantasia usada pela extrema-direita para voltar ao governo e tentar novamente seu plano de dar um golpe de Estado na nossa democracia, desta feita com a ajuda do imperalismo norte-americano returbinado por Donald Trump. A extrema-direita realmente existente, quer dizer, os reacionários antissistema que são, na verdade, os agentes da camorra bolsonarista, dão credibilidade a essa farsa assumindo-se como os únicos verdadeiros antipetistas (porque são anticomunistas). Para vencer os comunistas qualquer ajuda será válida, inclusive do governo dos Estados Unidos, mesmo violando a nossa soberania nacional.

Os opostos jogam juntos na criação desse ambiente deletério para a democracia. Superar essa constelação aziaga de fatores exige, entretanto, começar esquecendo as ideologias. Não importa se as forças políticas principais se dizem progressistas (uma sopa de socialistas e liberais que acham que devem ser posicionar mais à esquerda) ou conservadoras (em boa parte reacionárias travestidas de conservadoras que querem se dizer de direita).

E devemos esquecer também o esquema classificatório ultrapassado que divide as forças políticas em esquerda e direita. Do ponto de vista propriamente político existem governo e oposição. O governo é populista. Parte da oposição (a parte bolsonarista) também é populista. Os democratas, no sentido pleno ou liberal do termo, não são populistas. Esses últimos, embora minoritários, são o que há de oposição democrática no Brasil. Serão eles suficientes para apresentar uma alternativa não populista para 2026? Não parece ser o mais provável, ainda que possa acontecer.

Já está passando da hora de pré-candidatos que não são populistas (nem lulopetistas, nem bolsonaristas) e não apoiam ditaduras apresentarem à sociedade brasileira um programa coerente capaz de situá-los no centro de gravidade da política democrática. Mas embora o programa deva vir antes do nome, não adiantará mais, nesta altura do campeonato, um programa sem um nome. E também não adiantará um programa e um nome sem um movimento. Eduardo Leite poderia ser esse nome, mas – além de estar dependendo da conveniência política do chefe do seu partido, o PSD – parece ter medo de queimar a largada e virar vidraça antes do tempo se se lançar num franco movimento por uma via democrática para o Brasil. Há incerteza sobre se um movimento desse tipo não seria taxado, inclusive pela imprensa, como ‘de direita’, dificultando a adesão de eleitores moderados de centro.

O truque, reconheçamos, funcionou perfeitamente até agora. O medo da acusação de ser ‘de direita’ (e, na visão dos acusadores, antidemocrático) é tão grande que, por incrível que pareça, até uma parcela de liberais que querem ser esquerda (justamente para não ficarem com a pecha de ser ‘de direita’), trabalham objetivamente contra essa via democrática. Só há explicação se partirmos de uma hipótese abstrusa: parece que existem pessoas cujo córtex frontal é liberal, mas o cérebro límbico é de esquerda populista (ou seja, iliberal). É esse tipo de gente que, na reta final de 2026, acabará recomendando o voto em Lula como o menos pior. E atenção! A reta final pode não ser o segundo turno, de vez que o governo e o PT vão jogar tudo para reeleger Lula no primeiro turno.

É claro que há uma malandragem jornalística em curso para captar a simpatia dos 3 aos 10% de votos moderados de centro, que podem decidir a eleição. Na reta final os malandros dirão que, infelizmente, não apareceu ninguém que valha a pena e então recomendarão o voto em Lula como o menos pior. E já que é o menos pior, por que não elegê-lo logo no primeiro turno afastando o risco do governo cair nas mãos de um aventureiro reacionário ou de um fisiológico ou corrupto do “centrão”?

Assim, temos de passar a observar de perto não os que hoje defendem a reeleição de Lula ou a eleição de um oposicionista. Mas os que estão cativando a simpatia desses 3 a 10% de votos ditos centristas, projetando um caminho para, amanhã, recomendar o voto em Lula como o menos pior para a democracia.

Ao fazerem isso, porém, esses trânsfugas do liberalismo estarão não apenas eliminando a possibilidade de uma via democrática para 2026 (se houver um candidato não populista viável), mas inclusive para 2030 e, quiçá, além. Descartada a via antissistema, dita de extrema-direita, nos curto e médio prazos, o hegemonismo petista continuará aparelhando as instituições e colonizando as consciências durante o quarto mandato de Lula e o sexto do PT neste século. E, dependendo do que vier a acontecer nos próximos cinco anos, 2030 pode ser ainda mais difícil para uma via democrática do que 2026. Não se deve duvidar disso. Estamos sob uma terceira onda de autocratização e em plena recessão democrática desde o início deste século. É mais ou menos como a antessala de uma idade das trevas, semelhante àquela que vivemos nos anos 20-30 do século 20.

Há pouco mais de um ano (em 04/11/2024) publiquei um artigo intitulado Centro democrático? Sim, em 2030. O artigo terminava assim:

Claro que 2030 passa por 2026. E que se deve fazer o possível em 2026. Desde que a comichão de jogar todas as fichas na loteria do calculismo eleitoreiro de curto prazo não nos desvie das tarefas estratégicas cujo horizonte, queiramos ou não, salvo um acontecimento extraordinário, já vai se deslocando para 2030. Não somos idiotas. Não se trata de abrir mão de 2026 e sim de começar hoje, no final de 2024, a construir as condições para uma vitória futura, que não cairá do céu…

Porém um ano se passou e fizemos muito pouco nesse sentido. Se não houver um fato extraordinário, o tempo hábil é muito curto para estruturar, fermentar e fazer crescer um movimento democrático-liberal capaz de suplantar os dois populismos que estão alimentando uma polarização tóxica no Brasil.

Nestas circustâncias, qualquer candidato que não se alinhe ao eixo autocrático, seja pela esquerda (Rússia, Bielorrússia, China, Vietnam, Laos, Coreia do Norte, Irã e seus braços terroristas, Angola, Cuba, Venezuela, Nicarágua etc.), seja pela direita (Rússia novamente, Índia, Turquia, Hungria, Eslováquia, El Salvador, EUA-MAGA etc.) – e que não seja populista – é melhor do que Lula ou um lulopetista e do que um bolsonarista-raiz (ou seja, um súdito fiel da famiglia Bolsonaro).

Sim, a política externa passou a ser um tema de campanha na medida em que Lula e o PT tomaram e acentuaram, neste quinto mandato petista, posições francamente antidemocráticas e favoráveis à ditaduras de esquerda, como demonstra a folha corrida do PT desde o seu surgimento (e como elencou o Heni Ozi Cukier neste vídeo) e o bolsonarismo também o fez, ao não apoiar a resistência ucraniana à invasão do ditador Putin, da Rússia, ao apoiar o governo Netanyahu, de Israel, que abriga supremacistas judaicos, ao elogiar e pedir ajuda ao ditador Orbán da Hungria, ao tentar colocar o autocrata Nayib Bukele, de El Salvador, como modelo de combate ao crime, ao apoiar o populista Milei, da Argentina, adepto da servidão voluntária a Trump – tudo culminando com os pedidos para que o presidente dos EUA pressionasse os poderes da república brasileira para reverter a ilegibilidade e a condenação de Bolsonaro ou livrasse da prisão ele e algum (ou alguns) dos seus filhos (o que deu e continua dando muito errado, como estamos vendo).

De sorte que não há como tirar a política externa da campanha, a menos que o TSE e o STF – neste caso para favorecer Lula, o mais vulnerável pela sua aproximação crescente com ditaduras amigas – decidam proibir que os candidatos abordem o tema. Sim, absurdo, mas é possível no Brasil dos dias que correm.

Frisando esse ponto. Não havendo um candidato democrata-liberal viável, qualquer candidato não-alinhado ao eixo autocrático e não-populista (não lulopetista e não bolsonarista) será uma alternativa. Não precisa ser um social-democrata ou alguém dito de centro-esquerda. Qualquer político moderado de centro, ou até considerado do “centrão” – e dito ‘de direita’ – que jogue dentro das regras da democracia representativa, seria melhor do que a reeleição de Lula ou a eleição de um bolsonarista-raiz (quer dizer, nunca é demais repetir a definição: um súdito fiel da famiglia Bolsonaro).

Por todas as razões apresentadas, os democratas:

1 – Não devem votar na continuidade do atual governo (que se diz e é dito de esquerda – mas não por ser de esquerda e sim porque Lula e o PT são populistas e hegemonistas, além de estarem alinhando o Brasil ao eixo autocrático contra as democracias liberais).

2 – E não podem votar em ninguém considerado de extrema-direita (ou seja, num candidato reacionário antissistema) – por razões tão óbvias a esta altura que seria ocioso enumerar.

3 – Preferencialmente devem votar em um candidato democrata liberal (se houver algum viável). Mesmo que a campanha do PT diga que esse candidato é ‘de direita’ (querendo com isso dizer que ele é um bolsonarista de extrema-direita ou um golpista e fascista disfarçado).

4 – Na ausência dessa alternativa devem votar em algum democrata considerado de centro (que for viável). Idem; ou seja, mesmo que a campanha do PT diga que esse candidato é ‘de direita’ (querendo com isso dizer que ele é um bolsonarista de extrema-direita ou um golpista e fascista disfarçado).

5 – Se não houver um democrata de centro, devem votar num candidato rotulado (pela esquerda) como sendo moderado ‘de direita’. Idem-idem; quer dizer, mesmo que a campanha do PT diga que esse candidato não é ‘de direita’ e sim de extrema-direita, golpista e fascista.

Qual o problema?

As duas únicas democracias liberais da América do Sul – o Chile e o Uruguai – passaram por isso.

O caso do Chile. Aylwin é substituído por Frei, que é substituído por Lagos, que é substituído por Bachelet, que é substituída por Piñera, que é substituído novamente por Bachelet, que é substituída novamente por Piñera, que é substituído por Boric (dito ‘de esquerda’). E o mundo não acabou (pelo menos até às arriscadíssimas eleições de ontem). O Chile continuou sendo uma democracia liberal – coisa que nunca fomos no Brasil (1).

O caso do Uruguai. Sanguinetti é substituído por Lacalle, que é substituído por Sanguinetti novamente, que é substituído por Batlle, que é substituído por Vázquez, que é substituído por Mujica, que é substituído novamente por Vazquez, que é substituído por Lacalle Pou (dito ‘de direita’). E o mundo não acabou. O Uruguai continuou sendo uma democracia liberal – coisa que nunca fomos no Brasil.

Pelo exposto fica claro que os democratas podem, sim, votar num candidato que seja dito ou até que se diga ‘de direita’ – embora isso seja uma besteira. A esquerda inventou a esquerda e, pelo mesmo movimento, a direita. Mas vá-se lá dizer-lhes!

Nota

(1) Boric não conseguiu montar uma coalizão democrática expressiva. Já se sabia que sua candidata não venceria no primeiro turno e perderia para todos os concorrentes no segundo turno. O diabo é que o Chile, uma das poucas democracias liberais da América Latina (juntamente com Costa Rica e Uruguai), vai entrar em risco de decair para democracia apenas eleitoral no curto prazo e no médio prazo as consequências podem ser piores. O importante era que o Chile continuasse sendo uma democracia liberal, não que continuasse sendo governado pela esquerda. O Uruguai foi governado por Pou, que não era de esquerda, e continuou sendo uma democracia liberal. A coalizão governista no Chile perdeu ontem (16/11/2025) a Câmara e o Senado. E, não ocorrendo um milagre, perderá também a presidência. Essa besteira de querer ser ‘de esquerda’ levou à escolha de uma candidata do partido comunista (que não consegue nem dizer que Cuba é uma ditadura).

COP30: Uma Reflexão Necessária

Enquanto o Brasil recebe a COP30, a narrativa de uma crise climática atinge seu ápice. No entanto, um exame mais aprofundado da história do planeta e dos dados disponíveis revela um quadro mais complexo e menos alarmista. A Terra é um organismo dinâmico, que passou por ciclos naturais de aquecimento e resfriamento ao longo de milênios, muito antes da industrialização. Logo, questionar o atual consenso absoluto não é negacionismo, mas um exercício de ceticismo científico saudável.

Climatologistas como Bjorn Lomborg, autor de “O Ambientalista Cético”, não negam as mudanças climáticas, mas colocam em perspectiva o papel da humanidade nelas. Lomborg argumenta que o discurso apocalíptico gera políticas ineficazes e custosas, desviando recursos de problemas globais mais prementes, como a pobreza, a má-nutrição e a falta de saneamento básico. Ele defende que a adaptação e a inovação tecnológica são respostas mais pragmáticas e humanas do que tentativas draconianas de descarbonizar a economia global à força.

Essa visão pragmática encontra eco em outros cientistas de renome. O físico atmosférico Richard Lindzen, do MIT, e a climatóloga Judith Curry, da Georgia Tech, já argumentaram que a sensibilidade do clima ao CO2 pode ser superestimada e que a variabilidade natural interna do planeta é um fator subestimado nos modelos atuais.

A ideia de que o clima era estático antes da atividade humana ignora evidências históricas. Períodos como o Ótimo Climático Medieval (séculos X-XIII), quando as temperaturas eram provavelmente mais altas que as atuais, permitiram a colonização viking na Groenlândia. Em contrapartida, a Pequena Idade do Gelo (séculos XIV-XIX) trouxe frio intenso e fome para a Europa. Esses eventos ocorreram sem a influência de combustíveis fósseis, demonstrando a variabilidade natural do sistema climático.

Surge, então, a pergunta crucial: até que ponto a ação humana é o fator determinante? Muitos cientistas, cujas vozes são muitas vezes abafadas, apontam para a influência de ciclos solares e oscilações oceânicas como os principais condutores do clima em escalas de tempo decenais e seculares. Culpar apenas o CO2 por todas as mudanças no clima é uma explicação simplista para um sistema que é complexo e imprevisível.

Não se pode ignorar, ainda, a dimensão econômica por trás da “agenda verde”. Criou-se uma poderosa indústria bilionária em torno das teses das “mudanças climáticas”. Fundos de investimento, corporações de energia “renovável” e uma vasta rede de ONGs são financiados para promover uma narrativa única. Esta, por sua vez, justifica pesados subsídios, regulamentações e taxações que redistribuem riqueza e concentram poder, muitas vezes com um impacto questionável na temperatura global.

Portanto, a COP30 deve ser um espaço não para o dogmatismo, mas para o debate aberto. É preciso escutar os cientistas céticos, avaliar os custos reais das políticas de net-zero e priorizar a resiliência e a prosperidade humana. O planeta sempre mudou. O grande desafio não é frear um processo natural, mas sim aprender a lidar com ele com inteligência, sem renunciar ao nosso progresso e qualidade de vida em razão de um alarmismo financiado por interesses políticos.

A Ilha e o Clima: Taiwan na COP30

Por Peng Chi-ming, Ministro do Meio Ambiente de Taiwan  

A mudança climática é uma realidade premente que afeta o cenário de riscos globais, e Taiwan, como membro responsável da comunidade internacional, está alinhada aos esforços mundiais para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C. Eventos climáticos extremos, como os tufões e as chuvas torrenciais que atingiram o sul e o leste de Taiwan em 2025, sublinham a urgência da ação.

Nosso compromisso com a transição energética é evidente no Projeto Nacional de Esperança do Presidente Lai Ching-te, que estabelece uma visão de crescimento verde e a meta de emissões líquidas zero até 2050. Para alcançar isso, definimos cinco estratégias principais: desenvolver energia verde inteligente, promover transformação industrial dupla (digitalização e esverdeamento), fomentar estilos de vida sustentáveis e garantir uma liderança governamental justa nesta transição.

Em 2025, Taiwan apresentou sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) para 2035, estabelecendo metas ambiciosas para uma transição de baixo carbono. O Comitê Nacional de Mudança Climática, criado em junho de 2024, estabeleceu metas robustas de redução de emissões que se intensificam significativamente nos próximos anos.

A meta de redução de emissões foi elevada a um patamar mais audacioso em relação aos níveis de 2005, com objetivos intermediários e um propósito ainda mais elevado até 2035. A Lei de Resposta à Mudança Climática consagra legalmente a meta de net zero 2050. Em consonância com o Acordo de Paris, Taiwan submeteu voluntariamente sua NDC 3.0 em 2025, demonstrando maior ambição e justiça, comparável à de outros países.

Um pilar central de nossa estratégia é a precificação de carbono. Lançamos oficialmente o sistema de taxa de carbono em 2025, com um valor estabelecido para desestimular as emissões. Este modelo, que será complementado por um esquema de comércio de emissões (cap-and-trade), visa criar um padrão de precificação de carbono de via dupla. A taxa de carbono tem como principal objetivo reduzir as emissões e projeta uma contribuição significativa para a diminuição da pegada de carbono até 2030. Taiwan está preparando o terreno regulatório para engajamento no Artigo 6 do Acordo de Paris e participação nos mercados globais de carbono.

Em paralelo à mitigação, estamos fortalecendo a adaptação em linha com o Artigo 7 do Acordo de Paris. O Plano Nacional de Ação para a Adaptação à Mudança do Clima cobre áreas-chave, como infraestrutura crítica, recursos hídricos e saúde. A criação da Aliança Estratégica para Adaptação ao Calor, envolvendo governos, especialistas e ONGs, é um exemplo de expansão de nossa rede de ação adaptativa.

A COP30, em Belém, Brasil, marcará o início da próxima fase da ação climática global. Taiwan tem demonstrado previsibilidade em suas políticas climáticas e um forte compromisso com o diálogo global. Reconhecemos que o net zero é uma jornada coletiva. Conclamamos todos os países a apoiar a participação de Taiwan na COP30, de forma a empoderar nossa nação e a comunidade internacional para responderem conjuntamente à crise climática, no espírito do “Mutirão Global”. Trabalhando em conjunto, podemos avançar na plena implementação do Acordo de Paris.

Ele foi processado pelo MPF por chamar Lula, que já foi presidiário, de ex-presidiário

O caso é simples, público e, ainda assim, sintomático. O advogado pernambucano Thomas Crisóstomo foi denunciado pelo Ministério Público Federal por ter escrito em uma rede social que “a EBC virou um cabide de emprego para a mulher do ex-presidiário Lula”.

O MPF afirma que a expressão ofenderia a honra do presidente. A denúncia não questiona o fato em si, apenas o direito de dizê-lo. Lula foi condenado em segunda instância, preso por 580 dias e depois beneficiado pela anulação dos processos por questões processuais, sem revisão de mérito. O dado histórico é objetivo: Lula foi preso, então é, literalmente, um ex-presidiário. Ainda assim, o Estado decidiu transformar a frase em delito.

O MPF chegou a oferecer um acordo de não persecução penal a Thomas Crisóstomo. Ele recusou. Disse que não admitiria reconhecer culpa por algo que é fato público, sustentado documentalmente e inserido no debate político. A recusa é o ponto mais importante dessa história. Quantos outros, com medo, tempo curto, recursos escassos ou filhos pequenos para sustentar, aceitaram calar? Quantos assinaram acordos para não enfrentar um processo, admitindo uma culpa que não existia em troca de alívio imediato? Quantos sentiram o peso do Estado e escolheram a sobrevivência ao invés da liberdade de expressão? Esse caso, público, transparente, rastreável, nos conduz à pergunta que a Gazeta do Povo tem insistido em fazer e que continua sem resposta: quantas vozes o Supremo já calou?

Não estamos falando de processos públicos como o de Thomas Crisóstomo. Estamos falando dos inquéritos sigilosos, das investigações sem réu definido, dos pedidos de quebra de sigilo que não chegam a ser tornados públicos, das medidas de restrição de fala que nunca foram sequer apresentadas ao debate democrático. Estamos falando do silêncio que não aparece no noticiário. Do silêncio sem rosto, sem nome, sem registro.

O que se vê é um Estado que se tornou minucioso na vigilância do discurso político e, ao mesmo tempo, displicente com crimes concretos. É como se a frase fosse mais relevante do que o fato que ela descreve. Como se a sensibilidade de determinadas pessoas importasse mais do que a legitimidade da crítica. A distorção é evidente: o sistema penal, que deveria proteger a sociedade contra violências reais, está sendo usado para proteger autoridades contra desconforto.

Quando o Estado deixa de punir crimes para punir palavras, ele desloca o centro moral da lei. O problema deixa de ser a conduta e passa a ser a opinião sobre a conduta. E, nesse ponto, a democracia é desfigurada. Porque a democracia exige fricção, conflito, ironia, provocação, confronto de interpretações. Não existe vida política adulta sem o direito de chamar as coisas pelo nome que os fatos sustentam.

O episódio também expõe a contradição mais profunda do discurso institucional brasileiro. A retórica oficial insiste em dizer que vivemos uma era de defesa da democracia. Mas democracia não é apenas manter eleições. Democracia é garantir que o cidadão possa criticar o governante. Mesmo quando exagera. Mesmo quando é duro. Mesmo quando fere sensibilidades. Soberania popular significa que o presidente não está acima do povo e muito menos acima da linguagem.

O que se está tutelando aqui não é a honra, mas a narrativa. E quando o Estado passa a tutelar narrativas, o resultado não é estabilidade, é medo. O cidadão começa a se perguntar o que pode ou não dizer, a medir palavras, a calcular cada vírgula antes de postar um comentário banal. A esfera pública, nesse ambiente, deixa de ser local de debate e se torna campo minado. A autocensura se torna hábito. O silêncio se torna prudência.

E é aí que a pergunta da Gazeta do Povo volta a ecoar. Se este é o tratamento dado a um caso público, registrado, conhecido, acompanhado pela imprensa, o que acontece nos casos que não chegam ao noticiário? Quantos processos, quantos inquéritos, quantas notificações foram aceitos sem questionamento para não “ter problema”? Quantos se calaram antes mesmo de falar?

O mais grave não é o que se vê. O mais grave é o que não se ouve. O processo contra Thomas Crisóstomo, no fim das contas, não é sobre a frase que ele escreveu. É sobre quem pode descrever a realidade e quem pode proibi-la. Quando o Estado decide que um fato se torna ofensivo ao ser mencionado, não estamos diante de proteção da honra, mas de controle da narrativa. E controlar a narrativa é controlar o imaginário, o horizonte das possibilidades, o próprio limite do que pode existir como pensamento público.

Por isso essa história não termina no episódio individual. Ela interpela o país. Porque uma sociedade que cala os que a descrevem se torna refém de sua própria mentira. E mentira de Estado tem consequências práticas: ela modela consensos artificiais, produz medo difuso, enfraquece a confiança social e, pouco a pouco, apaga a noção de cidadania. Não há democracia em que o cidadão precise pedir permissão para dizer o óbvio.

A pergunta volta, então, mais grave, mais urgente, mais profunda: se um comentário público, baseado em registros oficiais, pode se tornar crime, o que exatamente ainda podemos dizer? Até onde vai o perímetro do permitido? E quem o delimita?

É aqui que a questão proposta pela Gazeta do Povo ganha sua dimensão verdadeira. O caso de Thomas Crisóstomo é visível, rastreável, contestável. Mas há uma zona inteira de silêncio que se estende por inquéritos sigilosos, decisões sem publicidade, acordos aceitos por medo, autocensuras que nunca chegam às notícias. Ali está o campo mais perigoso. Não o grito reprimido, mas a voz que nunca chegou a nascer.

Se o Supremo e o sistema de Justiça não responderem claramente a essa pergunta, se não delimitarem com precisão o que é direito de crítica e o que é ataque real, se não devolverem ao debate público a coragem da divergência, o país não estará apenas cerceando palavras. Estará diminuindo a consciência e atrofiando a própria liberdade. Porque quando a sociedade se acostuma a calar, ela não cala apenas o que pensa. Cala também o que é. Uma democracia que cala o que é já deixou de existir.

Imposto de Renda: um alívio real, mas com prazo de validade

O Congresso aprovou o Projeto de Lei nº 1.087/2025, que promete aliviar o bolso de milhões de brasileiros ao isentar do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil por mês. Segundo o governo, cerca de 25 milhões de pessoas serão beneficiadas a partir de 2026. A medida é positiva e traz um ganho real para a renda do trabalhador, mas seu impacto tende a ser passageiro.

O motivo é simples: a tabela do Imposto de Renda das Pessoas Físicas acumula uma defasagem de cerca de 154% entre 1996 e 2024, segundo a Receita Federal. O novo projeto corrige apenas 35% dessa defasagem, o que significa que o alívio tributário é parcial. A cada reajuste salarial e aumento de preços, mais pessoas voltam a ser tributadas, mesmo sem terem ampliado de fato seu poder de compra.

Outro problema é que o projeto não estabelece uma regra de correção automática da tabela pela inflação. Sem essa atualização anual, o benefício concedido agora será rapidamente corroído, como já ocorreu no passado. Entre 2016 e 2022, a tabela ficou congelada, e o número de contribuintes que pagavam imposto subiu de 26 milhões para mais de 32 milhões. Na prática, o congelamento funciona como um aumento de imposto disfarçado: o trabalhador não fica mais rico, mas paga mais.

Ainda assim, o PL tem méritos. A criação de uma tributação mínima de 10% sobre rendas acima de R$ 600 mil anuais e a taxação de lucros e dividendos remetidos ao exterior corrigem distorções históricas que beneficiavam os mais ricos. Hoje, os 0,01% com maiores rendas pagam proporcionalmente menos imposto que parte da classe média. Nesse ponto, o projeto traz mais justiça fiscal e torna o sistema um pouco mais progressivo.

O problema é que a pressa em aprovar a medida antes do fim do ano — para que entrasse em vigor já em 2026 — fez com que o Senado abrisse mão de discutir pontos estruturais, como a correção automática da tabela e a compensação financeira adequada a estados e municípios, que devem perder cerca de R$ 5 bilhões por ano de arrecadação.

Assim, o novo Imposto de Renda é um avanço simbólico e social, mas de efeito limitado. Representa uma vitória política importante, ao aliviar o peso sobre quem mais sente o custo de vida, mas sem resolver o problema de fundo. Sem uma política permanente de atualização da tabela, a reforma perde força com o tempo e corre o risco de se transformar em mais um alívio temporário — daqueles que começam com promessa de justiça fiscal e terminam como mais uma ilusão passageira.