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O Fenômeno Takaichi 

A vitória de Sanae Takaichi nas recentes eleições legislativas do Japão não representa apenas uma mudança de guarda no Kantei (nome dado ao escritório oficial e residência do Primeiro-Ministro do Japão), trata-se de um movimento tectônico que encerra o longo ciclo do Japão pós-Segunda Guerra Mundial e inaugura uma era de soberania reafirmada. 

O triunfo é histórico sob qualquer métrica quantitativa, com o Partido Democrático Liberal (PDL) conquistando sozinho 316 dos 465 assentos na Câmara de Representantes. Este feito, inédito desde 1945, confere a Takaichi uma supermaioria de dois terços que, somada aos votos do aliado Ishin no Kai, aniquila qualquer barreira legislativa e permite que a nova Primeira-Ministra controle as comissões parlamentares com punho de ferro. A derrota acachapante do Partido de Centro Reformista, que viu sua representação minguar de 172 para meras 49 cadeiras, sinaliza que o eleitorado japonês cansou da ambiguidade centrista e optou por um caminho de clareza ideológica e força estratégica. O que estamos testemunhando é a consolidação de uma liderança que o Japão ansiava: firme, identitária e estrategicamente audaciosa.

O fenômeno Takaichi é sustentado por uma combinação singular de carisma pop e conservadorismo rigoroso. Como a primeira mulher a alcançar o topo do poder político japonês, ela rompeu a barreira de um sistema tradicionalmente gerontocrático e masculino, mas fez isso sem recorrer ao discurso identitário convencional. Em vez disso, conectou-se com a juventude — uma classe historicamente apática no Japão — através de um toque de modernidade e pragmatismo. Ao declarar sua afinidade com o K-pop e a cultura coreana, Takaichi não apenas humanizou sua imagem perante os novos eleitores, como também desarmou críticas de que seu nacionalismo seria anacrônico. O resultado foi um aumento na participação eleitoral para 56,8%, um sinal claro de que sua mensagem de renovação e proteção nacional ressoou profundamente em uma geração que busca um Japão mais vibrante e menos submisso aos traumas do passado.

No campo econômico e social, Takaichi demonstrou uma sensibilidade aguda às angústias imediatas da população sem perder de vista as necessidades de longo prazo. A promessa de eliminar o imposto de consumo sobre alimentos por dois anos foi um golpe de mestre político para combater a inflação galopante, simbolizada pela duplicação do preço do arroz. Embora os críticos apontem para o desafio de abrir mão de 30 bilhões de dólares em receitas em um país com uma dívida pública de 260% do PIB, a estratégia de Takaichi é de um “realismo nacionalista”: estabilizar o custo de vida interno é a pré-condição necessária para obter o suporte popular aos pesados investimentos em defesa que o Japão agora exige. Simultaneamente, sua postura firme em relação ao controle imigratório e à restrição de residências permanentes para estrangeiros reflete um compromisso com a coesão social, alinhando-se a uma tendência global de líderes conservadores que priorizam a preservação da identidade nacional frente às pressões da globalização.

Contudo, é na geopolítica que a ascensão de Takaichi altera de forma mais dramática o balanço de poder na Ásia. Sua vitória é o pior pesadelo de Pequim. Ao classificar uma eventual agressão chinesa a Taiwan como uma questão de “sobrevivência nacional” japonesa, Takaichi retirou o Japão da zona de ambiguidade estratégica. Esse posicionamento pró-Taiwan não foi apenas retórico, foi o motor de sua campanha. O apoio recebido de Donald Trump reforça essa nova arquitetura de poder, onde o Japão deixa de ser um protetorado passivo dos Estados Unidos para se tornar um parceiro operacional de primeira linha. Sob sua liderança, a defesa japonesa já rompeu a barreira histórica de investimento de 1% do PIB e caminha para níveis muito superiores, impulsionada pela necessidade de dissuasão diante do fortalecimento do eixo entre China, Coreia do Norte e Rússia. A clareza de Takaichi sobre Taiwan sinaliza que o Japão está pronto para agir militarmente se o status quo regional for ameaçado, o que obriga a China a recalcular drasticamente qualquer plano de expansão territorial.

O horizonte que se abre para o Japão é de uma transformação constitucional sem precedentes. Com a supermaioria conquistada, Takaichi possui o capital político necessário para convocar o referendo que poderá alterar o Artigo 9º da Constituição, despojando o país de suas amarras pacifistas impostas no pós-guerra. Este movimento transformaria o Japão em uma “nação normal”, capaz de projetar força e garantir a paz através da força, e não apenas da diplomacia passiva. A ascensão da direita antimigrante do Sanseito (partido “alt-right” à japonesa) no Congresso apenas reforça que o espectro político japonês moveu-se para a direita, dando a Takaichi o suporte necessário para navegar os desafios fiscais e demográficos — como o envelhecimento populacional — através de uma visão de Estado forte e centralizado.

A vitória de Sanae Takaichi é, portanto, o amanhecer de um Japão que não mais pede licença para proteger seus interesses. Ela conseguiu unir a nostalgia pela estabilidade com a urgência pela modernização defensiva. No tabuleiro asiático, o recado é nítido: o Japão retornou como um protagonista de peso, disposto a pagar o preço necessário para manter a ordem democrática no Indo-Pacífico e para garantir que o seu sol continue a nascer sem a sombra de potências vizinhas agressoras. Takaichi não é apenas uma Primeira-Ministra, ela é o rosto de um Japão que reencontrou sua vontade de potência e seu senso de destino histórico.

O Ponto de Virada de US$ 2,7 Trilhões: Como a Nova Corrida Armamentista Global Está Reconfigurando a Geopolítica 

O mundo ultrapassou um limiar sombrio. Os gastos militares globais atingiram um recorde histórico de US$ 2,7 trilhões, representando um aumento de 9,4% em relação ao ano anterior — o maior aumento desde o fim da Guerra Fria. Isso não é mais apenas um “dilema de segurança”; é uma verdadeira corrida armamentista impulsionada pela convergência de três guerras (Ucrânia, Gaza e, potencialmente, Taiwan) e pelo colapso da arquitetura de controle de armas do pós-Segunda Guerra Mundial. Da remilitarização da Alemanha e do Japão à expansão nuclear da China e à pressão por “soberania” do Sul Global, a corrida para o rearmamento está alterando fundamentalmente o equilíbrio de poder, drenando recursos do desenvolvimento e acelerando a fragmentação da ordem global.

Os Estados Unidos: O “Arsenal da Democracia” à Beira do Abismo

Os EUA continuam sendo o líder indiscutível em gastos militares, respondendo por quase 40% do total global. No entanto, o aumento previsto para 2025 revela profundas vulnerabilidades.

O Pesadelo das “Duas Frentes”: Washington está agora armando simultaneamente a Ucrânia contra a Rússia, Israel contra o Hamas/Hezbollah e se preparando para um potencial conflito com a China por Taiwan. Isso expôs gargalos críticos na base industrial de defesa dos EUA, que luta para produzir munições na escala necessária para uma guerra de alta intensidade.

Mudança Tecnológica: Os EUA estão investindo bilhões em tecnologias “Offset X” — enxames de IA, mísseis hipersônicos e armas de energia dirigida — para neutralizar a superioridade numérica da China. No entanto, o alto custo dessas plataformas (como o F-35) corre o risco de excluir sistemas acessíveis e de produção em massa, necessários para um conflito prolongado.

China: As “Forças Armadas de Classe Mundial” até 2027

O orçamento de defesa de Pequim continua sua ascensão inexorável, crescendo oficialmente 7,2%, mas provavelmente muito mais em termos reais.

Expansão Nuclear: A China está empenhada em uma expansão impressionante de seu arsenal nuclear, passando de uma postura de “dissuasão mínima” para uma capacidade de “lançamento sob alerta”. Isso altera fundamentalmente os cálculos para a intervenção dos EUA na Ásia.

Domínio Naval: A China está construindo a maior marinha do mundo em número de navios, com foco em negar aos EUA o acesso à “Primeira Cadeia de Ilhas” (Japão, Taiwan e Filipinas). O rápido comissionamento de porta-aviões e navios de assalto anfíbio sinaliza uma clara intenção de projetar poder muito além de suas águas costeiras.

Japão e Europa: O Fim do Pacifismo

As mudanças mais drásticas estão ocorrendo entre os aliados tradicionais dos EUA, que estão abandonando décadas de inibição pacifista.

A Dobrada Aposta do Japão: Tóquio se comprometeu a dobrar seus gastos com defesa para 2% do PIB até 2027. Isso inclui a aquisição de capacidades de contra-ataque (mísseis Tomahawk) e a transformação de suas ilhas do sudoeste em fortalezas de mísseis para dissuadir a China. O Japão está se transformando de um “escudo” para as forças americanas em uma “lança” capaz de realizar operações de ataque independentes.

O Despertar da Europa: Pela primeira vez, os membros europeus da OTAN estão atingindo a meta de gastos de 2% do PIB em massa. A Polônia está emergindo como a nova superpotência militar do continente, gastando quase 4% do PIB em defesa. No entanto, a Europa permanece fragmentada; apesar dos gastos recordes, a falta de um mercado de defesa unificado significa que a duplicação e a ineficiência continuam generalizadas.

Os BRICS e o Sul Global: Em Busca da Soberania

A corrida armamentista não é apenas um jogo entre grandes potências. O Sul Global está se rearmando para garantir a “autonomia estratégica”.

Índia: Como membro-chave dos BRICS e contrapeso à China, a Índia está modernizando suas forças enquanto tenta “indigenizar” sua indústria de defesa (“Make in India”). Está diversificando seus fornecedores, afastando-se da Rússia e aproximando-se da França, Israel e dos EUA.

Brasil e América Latina: Embora os gastos sejam menores do que na Ásia, o Brasil está investindo em submarinos nucleares e caças Gripen para proteger sua “Amazônia Azul” (reservas de petróleo em alto-mar). A região teme ser arrastada para conflitos entre EUA e China, mas compra armas de ambos os países para manter sua independência.

Implicações: A Armadilha “Armas vs. Manteiga”

As consequências econômicas dessa corrida armamentista são profundas.

Custo de Oportunidade: O Secretário-Geral da ONU observou que os US$ 2,7 trilhões gastos em armamentos representam 750 vezes o orçamento regular da ONU. Esse desvio de capital ocorre em detrimento direto da ação climática e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Pressão Inflacionária: A corrida por equipamentos militares está elevando o preço de minerais críticos (titânio, terras raras) e mão de obra qualificada, alimentando a inflação global.

Espiral da Insegurança: Paradoxalmente, esse gasto massivo não está comprando segurança. À medida que todas as nações se armam até os dentes, o “dilema da segurança” se intensifica: as medidas defensivas de uma nação são vistas como ameaças ofensivas por seus vizinhos, desencadeando uma espiral de escalada que torna o conflito mais, e não menos, provável.

Conclusão

A corrida armamentista global de 2025 é um sintoma de um mundo onde a “ordem baseada em regras” entrou em colapso. A confiança no direito internacional e nos tratados foi substituída pela fé no poder militar. Para os EUA, a China e seus respectivos blocos, a próxima década será definida por uma aposta perigosa: a de que o peso de seus arsenais impedirá a guerra, em vez de provocar o próprio cataclismo que buscam evitar.

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Mudanças moleculares

No artigo Manifestações de rua não dão em nada? (publicado aqui e aqui em 26/01/2026) falei das possíveis “mudanças moleculares” que grandes manifestações de rua provocam, mas que só aparecem muito depois e, por isso, dão a impressão de que não tiveram nenhum (ou pouco) efeito. Neste artigo vou tratar mais diretamente dessas mudanças.

Há muita confusão entre mudanças políticas e mudanças sociais que, talvez, tenha a ver com uma incompreensão do que chamamos propriamente de ‘social’. E há ainda um grande desconhecimento sobre o funcionamento das redes sociais propriamente ditas (e é bom não confundi-las com as mídias sociais: redes sociais são pessoas interagindo, enquanto estão interagindo, por qualquer meio – não plataformas, programas, algoritmos, tecnologias, dispositivos). É disso que vou tratar neste artigo, que deve ser visto como uma segunda parte do anterior.

As manifestações de rua, por maior tamanho que tenham, na maior parte dos casos, desencadeiam modificações na sociedade, não nos regimes políticos. Não tomam o poder – a menos que haja uma força organizada para tal no seu interior; ou dissensões graves nas forças que conduzem ou apoiam o regime; ou, ainda, ameaça externa de uma força superior beligerante. Como, na maior parte dos casos, não tomaram o poder, não derrubaram governos, então muitos analistas decretam que não tiveram efeito ponderável.

Comecemos com alguns exemplos do que manifestações sociais provocam (ou podem provocar) nas sociedades onde ocorrem.

Elas aumentam a confiança, a cooperação, a reciprocidade e a solidariedade entre os que se manifestam.

Elas inaguram novas práticas comunitárias que estão na base da democracia como modo-de-vida. Ampliam as conversações com novos interlocutores confiáveis e aumentam a frequência dessas conversações quando se faz necessário mobilizar e organizar a ação coletiva.

No limite, elas podem ser embriões daquele “governo comum” – ou do ‘common government’, associado à ‘grassroots democracy’ – de que falava Jefferson ou daquele “governo civil” de que falava Tocqueville.

Elas permitem que as pessoas reconheçam e valorizem o seu próprio modo de vida quando esse modo de vida está sendo ameaçado por interferências abusivas de um poder exercido top down.

Quando são gigantes – ou verdadeiros swarmings – elas tornam visível a dimensão do poder que a sociedade tem quando não está fragmentada em indivíduos, grupos ou tribos isolados ou com poucos atalhos entre si. Os manifestantes são, em geral, os primeiros a se surpreender com isso. Mas é o principal recado que elas enviam ao poder estatal.

Elas aproximam pessoas que não se relacionavam diretamente por pertencerem a clusters ou tribos diferentes, dando a base de um sentido comum para que possam interagir. Promovem assim uma oportunidade de “miscigenação cultural” entre pessoas de diferentes extrações ou profissões: histórias de vida, classes sociais, gêneros, etnias, nacionalidades, idade, escolaridade, tipos de trabalho e posições funcionais etc.

Elas aumentam a desconfiança no governo, sobretudo quando há repressão. Esse é um “gene” liberal importante: nas democracias (liberais ou plenas) a sociedade deve controlar o governo e não ser controlada por ele.

Elas ficam marcadas na memória coletiva (dos que participaram e dos que viram o fenômeno acontecer) como um atestado indelével de que, sim, é possível. Como dizia Václav Havel, elas são o poder dos sem-poder.

Mas elas são a expressão de um outro tipo de poder. É óbvio que o poder do Estado – em termos de força para normatizar comportamentos, exercer controle, conquistar alinhamento e submissão, conter e reprimir descontentamentos – é assimétrico em relação ao poder da sociedade. Tal comparação, porém, é inadequada porque não são o mesmo tipo de poder. O poder do Estado é vertical e se exerce pela sua capacidade de alterar a topologia e a dinâmica da rede (a rigor excluindo nodos, eliminando conexões ou cortando atalhos entre clusters). O poder da sociedade é um poder horizontal. Opera por contágio (como na reprodução bacteriana, em que o material genético não está aprisionado em um núcleo e se transfere de um doador a um receptor por uma ponte citoplasmática). É um poder de rede, de transmissão de influência.

Grandes manifestações sem coordenação centralizada, quando acontecem, são manifestações da fenomenologia da interação em mundos altamente conectados, ou seja, fenômenos próprios de redes sociais stricto sensu (não confundir isso – insista-se – com mídias sociais). Ou reconhecemos que existe rede realmente e entendemos a sua estrutura e o seu funcionamento ou não há como explicar as mudanças moleculares provocadas por protestos de rua e manifestações sociais em geral.

Aqui começa a nossa conversa. Basicamente, é necessário compreender:

Como as pessoas se aglomeram (clustering).

Como uma aglomeração enxameia (swarming).

Como as pessoas, sem intenção de imitação, reproduzem comportamentos que percebem em outras pessoas (cloning).

Como, quando esses fenômenos ocorrem, o mundo social se contrai, diminuindo a extensão característica de caminho e fazendo despencar os graus de separação (crunching).

Como tudo isso pode começar a partir de uma pequena perturbação, mesmo que parta da periferia do sistema (feedbackpositivo e múltiplos laços de retroalimentação de reforço).

Como, cada vez que rodam com o sistema aparentemente parado, os impulsos se potencializam (looping de recursão) e tudo reverbera.

Responder essas questões é o desafio para um terceiro artigo.

Arte de escrever X ChatGPT

Um leitor da Folha de S.Paulo enviou uma reclamação para a ombudsman do referido jornal, acusando uma colunista de usar inteligência artificial em seus artigos. A colunista respondeu à reclamação com um novo texto intitulado “meus textos usam inteligência artificial; meu pensamento não.”  

A frase carece de sentido; é incoerente. O uso de IA para a criação de um texto é exatamente aquilo que a frase nega que ele seja: uma muleta, um apoio ou um substituto para o pensamento que não teve força suficiente para se expressar. 

A frase pressupõe uma demarcação radical entre o pensamento e o texto escrito, como se o processo de transformar ideias desconexas em estrutura linguística adequada não fosse também um ato de pensar, só que em fase mais avançada. A reflexão apurada não se faz em um vácuo qualquer da mente fora da linguagem. 

Nesse momento mesmo, busco um pensamento. Esforço-me por capturá-lo, traduzi-lo. Ele só se completará quando eu conseguir alcançá-lo, exprimindo-o. Estou tentando dizer que, intuitiva que sou, acredito que o real transcende a linguagem e que o mais importante está no silêncio. Mas quero dizer também que uma coisa é o silêncio sagrado, sereno, profundo, que transcende e supera as limitações da linguagem; outra coisa é o silêncio obtuso e inquieto de uma mente presa em si mesma porque sua inteligência rudimentar não lhe fornece condição favorável de expressão. Pronto. Algo me fugiu, mas algo capturei ao escrever o que estava tentando pensar. Foi necessário um esforço, uma atenção do espírito. É esse momento mágico e árduo que se pretende substituir com o uso indiscriminado da IA na escrita.

  “Perca inteligência e singularidade e ganhe tempo e produtividade”, eis a tentação diária a que o ChatGPT submete diariamente os que trabalham com a palavra escrita. Oferta essa aceita prazenteiramente, mesmo entusiasticamente pela colunista da Folha. E ela defende sua escolha acusando de medrosos aqueles que ainda valorizam a arte da escrita: “Medo de perder espaço, medo de não acompanhar, medo de admitir que o tempo ficou mais valioso que o ritual do esforço manual”, escreveu a multiempreendedora Natalia Beauty (ela mesma?). 

Outro equívoco. O esforço que a IA substitui ao ser usada como ferramenta para gerar um texto autoral não é um mero esforço manual, é o próprio esforço intelectual. O tempo de produtividade que ganhamos ao aceitar essa substituição é ganho em detrimento do nosso tempo real, da nossa “duração”, do nosso espírito. É algo mesmo como vender a alma para o diabo. 

Ao usar o termo “duração”, aproximo-me propositalmente do filósofo francês e ganhador do prêmio nobel de literatura, Henri Bergson (1859) que, em sua conferência “A alma e o corpo”, proferida em 1912, já estabelecia, com sua lucidez característica, uma distinção entre o pensamento em si e a sua imitação artificial:

“O pensamento real, concreto, vivo, é algo de que até agora os psicólogos pouco nos falaram. O que geralmente se estuda com esse nome é menos o pensamento em si do que uma imitação artificial, que se obtém compondo conjuntamente imagens e ideias. […]. Portanto deixem de lado as reconstruções artificiais do pensamento; considerem o pensamento em si; encontrarão nele menos estados do que direções, e verão que ele é essencialmente uma mudança constante e contínua de direção interior, mudança que tende incessantemente a traduzir-se por mudanças de direção exterior.”

Bergson continua, explicando que não nos damos conta desse movimento que é o pensamento  senão quando tentamos capturá-lo vivo, em seu dinamismo, “para transferi-lo ainda vivo para a alma de outra pessoa”:

 “Por mais então que as palavras sejam adequadamente escolhidas, não dirão o que queremos fazê-las dizer se o ritmo, a pontuação, e toda a coreografia do discurso não as ajudarem a levar o leitor, guiado por uma série de movimentos nascentes, a descrever uma curva de pensamento e de sentimento análoga a que nós descrevemos. Toda a arte de escrever está nisso”.

A principal justifica da colunista para o uso de IA nos textos autorais é o tempo. Diz ela (ou o chatGPT): “o ponto central não é a ferramenta, é o tempo. O tempo é o único ativo que não volta. Não se recupera, não se negocia e não se acumula. Usar tecnologia para ganhar tempo não é trapaça, é estratégia, maturidade, é entender que a produtividade não se mede pelo cansaço, mas pelo resultado”. 

A ponderação faz sentido para várias atividades, mas não para a escrita que se pretenda ofício ou arte, que almeje trazer para o mundo uma impressão nova, sui generis. O mais curioso, porém, é que, mesmo falando em maturidade, a justificativa trai uma compreensão superficial e imatura do tempo, o qual seria bem aproveitado se convertido em produtividade e resultado, seja lá por quais meios. 

Faltou considerar aqui o tempo real, a existência, a duração, o espírito. Mas alguém  escravizado a metas de produtividade não se dá conta de que existe um tempo da alma e  consequentemente que esse tempo da alma deve ser respeitado por quem exerce o ofício de escrever. 

Já é meio dia. Gastei muito tempo escrevendo esse texto. Poderia ter dado um simples comando e o chatGPT tê-lo-ia escrito por mim. Mas, então, eu não teria a satisfação de ter usado essa mesóclise, de reler as belas passagens de Bergson e de dá-las a conhecer ao meu leitor. Eu teria, de certo modo, traído o meu leitor se tivesse optado pela máquina ao invés de apresentar a ele o movimento do meu espírito no ato de produção do pensamento, que se confunde com o ato de produção da escrita. Escrever é resistir à escravização do tempo do relógio e repousar um pouco no fluxo de duração da própria alma. É também convidar o leitor a entrar nesse fluxo. Volta Bergson:

A arte do escritor consiste principalmente em fazer-nos esquecer que ele está usando palavras. A harmonia que procura é uma certa correspondência entre as idas e vindas de seu espírito e as de seu discurso – correspondência tão perfeita que, transportada pela frase, as ondulações de seu pensamento se comunicam com o nosso e então cada uma das palavras, tomadas individualmente, já não importa: não há nada além do sentido movente que atravessa as palavras, mais nada além de dois espíritos que parecem vibrar em uníssono diretamente, sem intermediário. Portanto, o ritmo da linguagem tem como único objetivo reproduzir o ritmo do pensamento.” 

Nada contra o uso pontual de inteligência artificial para organizar, estruturar e acelerar aquilo que pode organizado, estruturado e acelerado de forma mecânica e artificial. Mas escrever não é trabalho mecânico, é esforço intelectual, atividade altamente refinada do espírito. 

Quem sabe, a proliferação de textos homogêneos, repetidos, robóticos e artificiais fará com que o ofício do verdadeiro escritor seja novamente reconhecido. Quem sabe o uso abusivo de IA em textos jornalísticos, crônicas, redes sociais e até em livros seja o prenúncio de uma revalorização de quem teima em cultivar esse nobre exercício espiritual que é a escrita. 

O oposto, porém, é possível. O escritor poderá ser ainda mais desvalorizado, definitivamente superado e esquecido. Eles mesmos poderão ceder ao cansaço e se render às máquinas. Mas isso equivalerá à capitulação do próprio pensamento e à perda da dimensão de algo propriamente humano. 

Excelências intocáveis: crimes de opinião serão mais graves quando o alvo é autoridade

Esta semana, o Supremo Tribunal Federal tomou uma decisão que vai diametralmente contra as mudanças pedidas pela Organização dos Estados Americanos para melhorar a liberdade de expressão no Brasil. Por 6 votos a 4, a corte manteve o aumento de pena para crimes contra a honra quando o alvo é autoridade pública, reforçando a punição criminal da palavra dirigida aos poderosos. É justamente no momento em que se esperava o movimento oposto: a descriminalização da opinião e o deslocamento desses conflitos para a esfera cível.

O julgamento encerrou uma ação proposta pelo Partido Progressista questionando a constitucionalidade do dispositivo do Código Penal que prevê acréscimo de um terço na pena de calúnia, difamação e injúria quando esses crimes são praticados contra funcionários públicos ou presidentes de Poder. Prevaleceu a tese apresentada pelo ministro Flávio Dino, acompanhada por Nunes Marques, Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Para essa maioria, o agravamento da pena não protege apenas a pessoa física do agente público, mas a instituição que ele representa.

A divergência expôs uma fratura relevante dentro do Tribunal. Luís Roberto Barroso, André Mendonça e Cármen Lúcia defenderam que o aumento de pena deveria se restringir à calúnia, único crime contra a honra que envolve imputação de crime. Edson Fachin foi além e votou pela improcedência total da norma, afirmando que a Constituição não autoriza hierarquizar a proteção penal da honra conforme o cargo ocupado pela vítima. Fachin lembrou que, em uma democracia, o controle dos abusos do poder se faz por transparência e escrutínio público, não por intimidação penal da crítica.

O contraste dessa decisão com o Relatório Especial sobre a Situação da Liberdade de Expressão no Brasil, publicado pela Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, é direto e incontornável. Não se trata de um texto opinativo, mas de um documento técnico elaborado após visita oficial ao Brasil entre 9 e 14 de fevereiro de 2025, liderada pelo relator Pedro Vaca Villarreal, com análise do marco jurídico, decisões judiciais e dezenas de oitivas com jornalistas, comunicadores, acadêmicos, organizações da sociedade civil, representantes de plataformas digitais e lideranças políticas. Fui uma das jornalistas censuradas que prestaram depoimento direto ao relator, relatando casos concretos de restrição à minha atuação profissional. Os próprios ministros do STF estiveram com o relator.

O relatório parte de um princípio estruturante do sistema interamericano: a liberdade de expressão existe, sobretudo, para permitir a fiscalização do poder. Por isso, é explícito ao afirmar que “os agentes públicos, em razão da natureza de suas funções, devem demonstrar maior tolerância e menor sensibilidade frente à crítica”. A lógica é simples e democrática: quem exerce poder deve estar mais exposto ao escrutínio social, não mais protegido contra ele.

A partir desse princípio, a recomendação é clara. Opiniões não devem ser criminalizadas. Conflitos envolvendo honra, especialmente quando relacionados a agentes públicos e a assuntos de interesse público, devem ser tratados prioritariamente na esfera cível, por meio de mecanismos proporcionais de reparação. O uso do direito penal para reagir à crítica produz efeito inibidor sobre o debate público e incentiva a autocensura.

O relatório relembra que essa posição não é nova. Desde 1994 a Comissão Interamericana recomenda a revogação das leis de desacato por entender que elas reprimem a expressão necessária ao funcionamento de sociedades democráticas. A Declaração de Princípios sobre a Liberdade de Expressão afirma que tais leis atentam contra a liberdade de expressão. A própria Corte Interamericana já reconheceu que a descriminalização desses tipos penais adequa os ordenamentos nacionais à Convenção Americana de Direitos Humanos.

O documento mais recente apenas atualiza esse diagnóstico diante do cenário brasileiro, registrando preocupação com o uso recorrente dos crimes contra a honra para obstaculizar a divulgação de informações de interesse público. Aponta também que as penas previstas podem resultar em prisão, agravadas por fatores como o uso da internet e pela ausência de uma defesa clara baseada no interesse público da expressão.

A decisão do STF representa uma escolha institucional consciente. Em vez de avançar na descriminalização da palavra, a corte amplia a punição penal quando a crítica se dirige ao próprio poder. Em vez de reconhecer que autoridades devem ser mais abertas ao escrutínio, reafirma uma proteção penal diferenciada.

O efeito prático é imediato. A crítica política passa a carregar risco penal agravado. Jornalistas e cidadãos aprendem a medir palavras pelo medo, não pelo interesse público. O espaço de debate se estreita, e a autocensura se torna cálculo racional.

Neutralidade não é uma opção. Não se trata de um detalhe técnico do Código Penal, mas da redefinição dos limites do debate público no país. Ou a liberdade de expressão existe para incomodar autoridades, ou aceitaremos viver em um ambiente em que excelências se tornam cada vez mais intocáveis e a crítica passa a ser tratada como crime, não como fundamento da democracia.

Amigos da Rússia

A política externa brasileira atravessa hoje um momento de perigosa indefinição ética. Ao buscar um estreitamento de laços com a Federação Russa em meio à invasão da Ucrânia, o Brasil não apenas desafia o consenso das principais democracias ocidentais, mas também flerta com a erosão de sua própria identidade como nação democrática. O regime de Moscou, consolidado como uma autocracia que cerceia a liberdade de expressão e persegue opositores, utiliza a força militar como ferramenta sistemática de expansão territorial. Para um país que se orgulha de suas instituições, o silêncio — ou, pior, a cordialidade excessiva — diante de tais práticas configura uma dissonância cognitiva diplomática que compromete nossa credibilidade junto aos parceiros estratégicos que compartilham de nossa arquitetura de valores.

Essa aproximação torna-se ainda mais incompreensível quando se nota que o Brasil não apenas ignora a ordem global, mas negligencia evidências graves de que sua própria soberania tem sido instrumentalizada pelo Kremlin. A recente descoberta de uma rede de espiões russos operando em solo nacional, utilizando identidades brasileiras fraudulentas para infiltrar-se em organismos internacionais, é um alerta que a diplomacia de Brasília parece ignorar. Foram identificados ao menos nove agentes que teriam usado documentos brasileiros como parte de seus disfarces, como os casos de Sergey Cherkasov, que se passava por Victor Muller Ferreira, Mikhail Mikushin, sob o pseudônimo de José Assis Giammaria e Artem Shmyrev, que usava o nome Gerhard Daniel Campos. Estes casos revelam que Moscou enxerga o Brasil não como parceiro de igual estatura, mas como “fábrica de identidades” para suas operações de espionagem.

Essa falta de respeito pela integridade institucional brasileira manifesta-se também na opacidade que envolve a movimentação de aeronaves estatais russas em aeroportos nacionais. Relatos sobre voos suspeitos, registrados em Brasília entre 2025 e o início de 2026, envolvendo modelos como o Ilyushin Il-96 e o Tupolev Tu-204, levantam questionamentos profundos. Tais aeronaves, muitas vezes vinculadas ao Esquadrão de Voos Especiais do Kremlin ou a empresas sancionadas, realizam rotas complexas para evitar o espaço aéreo europeu, fazendo escalas em Casablanca, Dakar e Baku antes de pousar na capital federal e rumar para Havana e Caracas. A ausência de transparência sobre essas cargas e a finalidade real de tais visitas, ocorrendo em paralelo a fóruns empresariais, sugere uma “diplomacia das sombras” que fragiliza a imagem do Brasil perante o mundo civilizado.

Diante desse cenário de suspeição, causa espanto e perplexidade que o governo brasileiro estenda tapete vermelho para autoridades russas, como ocorre na visita do primeiro-ministro Mikhail Mischustin e sua comitiva ministerial. Esta recepção sugere que o compromisso brasileiro com o Direito Internacional é seletivo e que a defesa da autodeterminação dos povos pode ser sacrificada no altar de interesses imediatistas e de uma visão de mundo datada. O argumento de que o Brasil precisa manter essa proximidade por “necessidade comercial” não resiste a uma análise rigorosa: a realidade numérica desmascara a narrativa de uma parceria indispensável. Atualmente, as exportações brasileiras para a Rússia representam uma fração irrisória, oscilando entre 0,4% e 0,6% do total exportado.

Em contrapartida, a União Europeia, que lidera as sanções contra o regime autocrático de Vladimir Putin, é um de nossos maiores parceiros, destino de cerca de 15% de nossas vendas externas. Enquanto a corrente de comércio com Moscou é pautada quase exclusivamente pela importação de fertilizantes — insumo que poderia ser diversificado com parceiros como Canadá, Marrocos ou produtores do Oriente Médio —, o Brasil coloca em risco o trabalho de 25 anos de negociações para a conclusão do acordo Mercosul-União Europeia. Estamos trocando a possibilidade de acesso preferencial a um mercado de quase 450 milhões de consumidores por uma relação de dependência com uma economia em declínio. Manchar a reputação do país por benefícios comerciais marginais não é pragmatismo, é um isolacionismo ideológico que nos afasta das cadeias de valor mais sofisticadas do Ocidente.

Para além dos números, existe uma dimensão humanitária que o governo parece negligenciar: o sentimento de traição da vasta comunidade ucraniana residente no Brasil. Com cerca de 600 mil descendentes concentrados majoritariamente no Paraná, nosso país abriga uma das maiores diásporas ucranianas do mundo. Para esses cidadãos, a postura servil de Brasília diante de Moscou é uma ofensa direta às suas origens e ao sofrimento de seus familiares que enfrentam bombardeios e atrocidades. A dor dessa comunidade é amplificada ao ver o governo anfitrião confraternizar com representantes de um regime cujo líder é alvo de um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, incluindo a deportação ilegal de milhares de suas crianças.

Nesse contexto, preparar fóruns empresariais via ApexBrasil para incentivar negócios com uma economia sob sanções é um movimento que beira a imprudência. Ao tentar “normalizar” essas relações, o Brasil arrisca sofrer sanções secundárias e afasta investimentos de democracias liberais, sabotando sua inserção nos mercados globais mais dinâmicos. A insistência em acolher autoridades russas sancionadas, exatamente quando se busca a ratificação do acordo europeu, é um erro de cálculo sem precedentes. Ao ignorar o peso moral de se relacionar com um governo acusado de massacres em Bucha e Mariupol, o Brasil abdica de sua liderança moral. Ser diplomático não exige conivência com práticas que violam o Estatuto de Roma e os princípios básicos dos Direitos Humanos.

A hospitalidade oferecida a oficiais russos soa como um endosso tácito ao autoritarismo e corrói o capital político construído ao longo de décadas como um mediador confiável. Substituir essa trajetória por uma “neutralidade” que, na prática, favorece o agressor, é um retrocesso que ignora a voz da nossa própria população. O Brasil possui estatura suficiente para manter canais de comunicação abertos sem que isso implique apoio a um regime que viola a ordem internacional. É imperativo que a política externa passe por uma recalibragem urgente, compreendendo que nosso futuro está ligado à solidez das democracias liberais e ao respeito à integridade territorial dos Estados. O “custo Rússia” é hoje muito superior a qualquer benefício material. É hora de o Brasil escolher: ou permanece firme ao lado do Direito Internacional, ou continua sua deriva em direção a um isolamento e a uma desonra diplomática sem volta.

Banco Master e BRB: o escândalo que colocou o Distrito Federal no centro da crise

O escândalo envolvendo o Banco Master já se consolidou como um dos episódios mais graves e simbólicos da recente história do sistema financeiro brasileiro. O caso extrapola a esfera bancária e alcança dimensões jurídicas, políticas e institucionais profundas, colocando sob suspeita não apenas dirigentes de uma instituição privada, mas também órgãos de controle, figuras do Judiciário, agentes políticos e, de forma especialmente sensível, um banco público estadual: o Banco de Brasília (BRB).

De forma resumida, o Banco Master cresceu rapidamente nos últimos anos oferecendo produtos financeiros com rentabilidade elevada, especialmente CDBs, atraindo investidores pessoas físicas e institucionais. As investigações apontam que parte relevante desses ativos não possuía lastro real, sendo sustentada por operações artificiais, créditos de difícil recuperação e engenharia financeira agressiva, quando não fraudulenta. Diante do colapso de liquidez e das evidências de irregularidades, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição, abrindo caminho para uma série de inquéritos administrativos, civis e criminais.

O caso ganhou contornos ainda mais graves quando veio à tona a tentativa de envolvimento do BRB na aquisição de ativos — ou mesmo do controle — do Banco Master. A operação, abortada após alertas técnicos e pressão pública, levantou fortes suspeitas sobre gestão temerária de recursos públicos, possível assunção de prejuízos bilionários e uso político de uma instituição financeira estatal. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar a conduta dos envolvidos, e relatórios preliminares indicam que o risco assumido poderia comprometer a saúde financeira do banco público do Distrito Federal.

No campo jurídico-institucional, o escândalo expôs uma zona cinzenta altamente sensível: surgiram denúncias e questionamentos sobre eventuais conflitos de interesse envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal, especialmente a partir de relações profissionais e contratuais indiretas com o Banco Master. Ainda que não haja, até o momento, condenações ou decisões definitivas, o simples fato de tais suspeitas recaírem sobre a mais alta Corte do país já produz um dano institucional relevante. A percepção pública de seletividade, blindagem ou leniência mina a confiança no Judiciário e reforça a sensação de que há um sistema de proteção para os poderosos.

No Congresso Nacional, o caso rapidamente se tornou objeto de disputa política. Há pedidos de CPI para investigar o Banco Master e suas conexões políticas. Ao mesmo tempo, movimentos claros para esvaziar ou retardar essas investigações revelam o desconforto de setores do poder com a possibilidade de que o escândalo avance sobre figuras influentes. A resistência à transparência, nesse contexto, acaba sendo quase tão grave quanto os fatos investigados, pois sugere que o sistema político ainda reage mais à autopreservação do que ao interesse público.

Do ponto de vista econômico, os impactos são igualmente preocupantes. A liquidação do Banco Master traz riscos concretos ao Fundo Garantidor de Créditos, que pode ser chamado a cobrir bilhões de reais, socializando prejuízos gerados por má gestão e possíveis fraudes privadas. Além disso, o episódio tende a elevar a percepção de risco no sistema financeiro, encarecer o crédito e aumentar a pressão regulatória sobre bancos médios, com efeitos indiretos sobre a economia real.

No Distrito Federal, porém, o caso assume uma gravidade ainda maior. O BRB não é apenas mais um banco: trata-se de uma instituição estratégica, vinculada ao governo local, responsável por financiar políticas públicas, investimentos e projetos estruturantes. Qualquer dano à sua credibilidade ou solidez afeta diretamente a economia do DF, a confiança dos investidores e a própria capacidade do governo local de executar políticas públicas. Politicamente, o escândalo já começa a reverberar no debate eleitoral, servindo como munição para embates entre grupos e como símbolo de uma gestão que, para muitos, teria flertado perigosamente com a irresponsabilidade.

Em ano pré-eleitoral, o envolvimento do BRB no caso Master tende a ser explorado de forma intensa no debate público do Distrito Federal. A oposição encontra um argumento poderoso para questionar governança, transparência e responsabilidade fiscal, enquanto a situação se vê obrigada a explicar decisões técnicas que, à luz dos fatos, parecem no mínimo imprudentes. O risco é que o debate se reduza a narrativas políticas, quando o que se exige é uma apuração rigorosa, técnica e independente.

O escândalo do Banco Master não é apenas um caso de polícia ou de mercado. Ele é um teste para as instituições brasileiras. Teste para o sistema financeiro, para o Banco Central, para o Congresso, para o Judiciário e, no caso do Distrito Federal, para a gestão de um banco público que deveria ser exemplo de prudência. A forma como esse episódio será esclarecido — ou abafado — dirá muito sobre o grau de maturidade institucional do país e sobre quem, de fato, paga a conta quando grandes erros são cometidos nos andares de cima.

STF: do “inquérito do fim do mundo” ao escândalo Master-Vorcaro

O Supremo Tribunal Federal (STF), instância mais alta do Judiciário, tem avançado sobre os outros poderes da República, impondo-se, para além das suas atribuições constitucionais, como poder moderador e amedrontador.

Essa marcha autoritária do STF vem desde o famigerado “inquérito das fake news”, aberto de ofício (sem pedido da PGR ou da Polícia Federal), em 2019, pelo então presidente do STF, ministro Dias Toffoli, que designou (sem sorteio) o ministro Alexandre de Moraes como relator.

Na ocasião, o ministro Marco Aurélio Mello (hoje aposentado) manifestou sua posição contrária ao referido inquérito. Em 2020, na sessão plenária que analisava a constitucionalidade do inquérito, ele afirmou que se tratava de “um inquérito natimorto”, “uma afronta ao sistema acusatório do Brasil” e o apelidou de “inquérito do fim do mundo”.

Ele criticou duramente o fato de o STF instaurar e conduzir a apuração de ofício (sem provocação do Ministério Público), com o próprio tribunal (vítima dos supostos ataques) atuando como investigador, acusador e julgador, violando assim o sistema acusatório adotado pela Constituição Federal de 1988, que separa as funções de acusar (MP) e julgar (Poder Judiciário). O plenário do STF, porém, validou a investigação por 10 votos a 1, sendo Marco Aurélio o único divergente.

Sob o talante do ministro Alexandre de Moraes, graves e constantes decisões de alcance geral decididas no âmbito deste “inquérito do fim do mundo” foram elaboradas politicamente, usando-se a técnica jurídica como enfeite e disfarce.

O inquérito tramita sob sigilo em grande parte, já foi prorrogado várias vezes (ainda em andamento em 2026, completando mais de 6 anos) e serviu de base para medidas como bloqueios de contas em redes sociais, buscas, prisões e quebras de sigilo.

Agora, neste início de 2026, os autoritários ministros do STF estão sob ameaça de serem engolfados pelos eventos de irregularidades e corrupção que levaram à liquidação do Banco Master e à prisão do seu dono Daniel Vorcaro.

Trata-se de uma das maiores fraudes no sistema financeiro brasileiro recente (cerca R$12 bilhões). É basicamente um escândalo que mistura finanças, política e poder em Brasília e na Faria Lima, uma espécie de “escândalo do fim do mundo”.

Até o momento, pelo que o STF permitiu que a Polícia Federal investigasse e que a imprensa investigativa divulgou, estão envolvidos agentes de todos os poderes da República; inclusive ministros do STF.

As revelações expõem uma teia de relações entre o banco e o Judiciário. As suspeitas envolvem principalmente Dias Toffoli (relator), Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski (ex-ministro, mas ligado ao caso).

Toffoli assumiu a relatoria do caso em 1º de dezembro de 2025 e tem sido criticado por decisões monocráticas e sigilosas, como centralizar a investigação no STF, restringir acesso às provas e designar peritos da PF nominalmente, procedimentos vistos como incomuns e que geram desconfiança. Além disso, houve o caso da carona em avião particular com um advogado do Master em 2025, que deixou exposta a proximidade com os interesses do banco.

Sobre o ministro Alexandre de Moraes a suspeição de envolvimento com as traficâncias Master-Vorcaro vem do contrato feito pelo Banco Master com o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes, esposa do ministro. Contrato esse de R$129 milhões por 3 anos de serviço, valor desproporcional ao valor usual de mercado.

Também veio à tona que o escritório de advocacia do ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, recebeu R$ 5 milhões do Banco Master por serviços de consultoria jurídica em 2025. Essa consultoria é vista como parte da rede de influência de Vorcaro no alto escalão, levantando suspeitas de lobby ou favorecimento. Essa e outras informações trazem também o governo Lula para dentro do escândalo.  

Lewandowski fora recomendado ao Banco Master pelo petista histórico Jaques Wagner, líder do governo no Senado. E aí já se mostra o avanço dos tentáculos do polvo Master-Vorcaro no poder legislativo. Alguns comentaristas chegam a garantir até mesmo a existência de uma “bancada do Vorcaro” no Congresso Nacional. Bancada até recentemente bastante ativa, e no momento bastante apavorada, fazendo de tudo para proteger o ex-dono do ex-banco; e, assim, seus componentes protegerem-se a si mesmos.

O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido mencionado em reportagens e investigações relacionadas ao caso, principalmente por meio de conexões indiretas ou encontros com Daniel Vorcaro, o dono do banco.

Em dezembro de 2024, Vorcaro teria se reunido com Lula no Palácio do Planalto, sem registro na agenda oficial do presidente. Esse encontro foi intermediado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuava como consultor do Banco Master na época.

Também chamam atenção e geram suspeitas os contratos da Biomm com o Ministério da Saúde: Vorcaro é acionista da Biomm (empresa de biotecnologia) por meio de um fundo de investimento. Em 2025, a Biomm firmou contratos no valor de R$ 303,65 milhões com o Ministério da Saúde para fornecer insulinas ao SUS.

O fato é que esse “escândalo do fim do mundo” cresce a olhos vistos. A opinião pública pressiona e a imprensa faz o seu papel. Devendo-se destacar nesse particular as denúncias provenientes da pertinácia investigativa da jornalista Malu Gaspar. As suas reportagens sobre o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia de Viviani Barci de Moraes tiveram enorme repercussão.

Aqui, chamo a atenção para um aspecto particular das reações às denúncias de Malu Gaspar: parte da imprensa de esquerda posicionou-se em modo de desconstrução de tais denúncias e em ataque aberto à corajosa jornalista. No momento, essa imprensa esquerda chapa-branca ataca qualquer agente de mídia que noticie antigos contatos entre Vorcaro e o governo do PT.

No entanto, já se confirmou que Daniel Vorcaro e diretores do Banco Master tiveram pelo menos quatro encontros com o presidente Lula no Palácio do Planalto; não se sabendo, entretanto, se, em tais encontros, as conversas foram sórdidas ou honestas. O ministro Fernando Haddad e a ministra Gleisi Hoffmann, ao confirmarem alguns desses encontros, afirmam que foram legítimos e republicanos. Acredite quem quiser.

A Fratura Atlântica e a Nova Geometria do Comércio Global

A ordem atlântica pós-1945 não terminou com um lamento, mas com a tomada de território e um sequestro. Em apenas duas semanas, em janeiro de 2026, o presidente Donald Trump desmantelou efetivamente a arquitetura de segurança e econômica do Ocidente. O anúncio neste fim de semana de tarifas punitivas contra oito nações europeias — supostamente por sua recusa em concordar com a venda da Groenlândia — destruiu a ilusão de que a União Europeia poderia “esperar” ou “gerenciar” o segundo governo Trump.

Poucos dias depois de as forças americanas lançarem a “Operação Resolução Absoluta” para capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro, a declaração das tarifas forçou Bruxelas a uma constatação que havia sido adiada por lisonjas e paciência estratégica: os Estados Unidos não são mais um parceiro, mas um hegemônico imprevisível que age por impulso. A vítima imediata é a aliança transatlântica; o resultado a longo prazo pode ser um realinhamento do Sul Global e da Ásia que deixará Washington isolada em seu próprio hemisfério.

O Fim da Diplomacia “Taco”

Durante o último ano, os mercados europeus operaram sob a reconfortante teoria do “Taco” — “Trump Always Chickens Out” (Trump sempre recua). Acreditava-se que as ameaças do presidente americano eram piores do que suas ações, como evidenciado pelo acordo comercial diluído assinado em julho de 2025 em Turnberry. Essa complacência evaporou no sábado.

As novas tarifas — 10% a partir de 1º de fevereiro, subindo para 25% em junho — visam os principais motores econômicos da UE (Alemanha, França, Holanda) e seus parceiros de segurança mais próximos (Reino Unido, Noruega). Ao vincular explicitamente as sanções comerciais a uma disputa territorial soberana sobre a Groenlândia, Trump cruzou uma linha vermelha. Ele está usando o mercado americano como arma não para alavancagem econômica, mas para expansão territorial.

A resposta da UE mudou da conciliação para o confronto. O “Instrumento Anti-Coerção” — a “bazuca” comercial de Bruxelas, originalmente projetada para a China — está sendo preparado para Washington. Se ativado, congelará o acesso dos EUA aos mercados europeus de compras públicas e propriedade intelectual, uma medida que seria impensável há dois anos. A tragédia para os atlantistas europeus é que essa guerra comercial mata efetivamente a trégua de julho de 2025, deixando as indústrias do continente expostas justamente quando as “Tarifas Recíprocas” dos EUA (variando de 20% a 50%) começam a surtir efeito. A Tábua de Salvação do Mercosul: Um Escudo Geopolítico

Não é coincidência que, enquanto a ponte transatlântica se desfazia, outra estava sendo construída em Assunção. A assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul em 17 de janeiro — após 25 anos de negociações tortuosas — é a resposta direta à volatilidade americana.

Historicamente, esse acordo foi paralisado pelo protecionismo agrícola francês e por preocupações ambientais. Sua finalização repentina foi impulsionada por uma necessidade geopolítica urgente. Com o mercado americano se fechando e a China utilizando os metais raros como arma (como visto no “Segundo Choque da China” de 2025), a Europa enfrentava a asfixia econômica. O acordo com o Mercosul, que cria um mercado de 700 milhões de pessoas, é agora o pulmão de emergência da Europa.

Para a América Latina, o acordo é igualmente vital. A região ainda se recupera do choque da intervenção americana na Venezuela. A imagem das forças americanas bombardeando Caracas e transportando um chefe de Estado para Nova York reviveu as memórias mais sombrias da Operação Condor e do imperialismo do século XX. O apelo do presidente brasileiro Lula por “coragem política” não foi apenas retórica; foi um pedido por uma alternativa estratégica à dominação americana. Ao assinar com a Europa, as nações do Mercosul sinalizam que não serão estados vassalos em uma nova era da Doutrina Monroe.

Venezuela e a Consolidação dos BRICS

O ataque da “Operação Resolução Absoluta” contra a Venezuela fez mais para unificar o bloco BRICS do que uma década de cúpulas. Enquanto Washington enquadrou a captura de Maduro como um triunfo no combate ao narcotráfico, o Sul Global a vê como uma violação da soberania que poderia acontecer com qualquer um deles.

Essa ansiedade está impulsionando uma rápida consolidação dos BRICS como uma fortaleza econômica defensiva. O ataque justifica a busca do bloco pela desdolarização; nenhum país quer ter suas reservas detidas por uma nação que pode bombardear sua capital e prender seus líderes. Para o resto da América Latina, particularmente México e Colômbia, a mensagem é assustadora. Podemos esperar uma mudança drástica em 2026: as capitais latino-americanas provavelmente aprofundarão os laços de segurança e inteligência com a China e a Rússia, não por afinidade ideológica, mas como uma apólice de seguro contra uma Washington imprevisível.

O Paradoxo Asiático: Japão e China no Mesmo Barco

Talvez a maior ironia da agenda de “Tarifas Recíprocas” de Trump seja que ela colocou o Japão e a China no mesmo barco. A tabela de tarifas dos EUA — impondo 60% à China e cerca de 32% ao Japão — trata aliados e adversários com hostilidade quase indistinguível.

O Japão, tradicionalmente o porta-aviões inafundável dos EUA no Pacífico, encontra-se economicamente isolado. Tóquio está agora na posição impossível de depender dos EUA para sua segurança contra a China, enquanto é atingida pela política econômica americana. Isso pode forçar o Japão a uma distensão mais discreta e pragmática com Pequim e a uma busca mais agressiva por comércio com a Europa e a América Latina.

Para a China, a cisão entre EUA e UE é um presente estratégico. Apesar da retórica de “redução de riscos” da UE e das fricções sobre as exportações chinesas de veículos elétricos, a pura necessidade de sobrevivência pode forçar Bruxelas e Pequim a um casamento de conveniência. Se o mercado americano estiver fechado, a Europa precisa de compradores chineses e da tecnologia chinesa de energia solar/baterias para sobreviver à transição energética.

Conclusão: O Mundo Fragmentado

Os eventos de janeiro de 2026 marcam o fim definitivo do bloco “ocidental” como uma entidade econômica unificada. Estamos testemunhando o surgimento de um mundo de três blocos:

Fortaleza América: Isolada, protecionista e cada vez mais militarista em seu próprio hemisfério. A Deriva Euro-Atlântica: Uma Europa confusa tentando se equilibrar entre um EUA hostil, um Mercosul necessário e uma China inevitável.

O Sul Global (BRICS+): Agora munido do capital moral e político para rejeitar a hegemonia dos EUA após a intervenção na Venezuela.

A guerra comercial pela Groenlândia não se trata apenas de peixe ou gelo: é a rachadura final nos alicerces da aliança que venceu a Guerra Fria. A Europa percebeu que, no mundo de 2026, está, na prática, sozinha.

AKA GATE: https://sites.google.com/view/aka-gate/home?authuser=0

Domínio Mineral Chinês

A recente aquisição de subsidiárias da canadense Equinox Gold pela gigante CMOC, em uma transação de US$ 1 bilhão, não é apenas um movimento de mercado, é um marco geoeconômico. Ao assumir o controle das minas de Aurizona (MA), Riacho dos Machados (MG), Fazenda e Santa Luz (BA), a estatal chinesa não apenas expande seu faturamento — que atingiu R$ 5,6 bilhões em 2025 —, mas verticaliza seu domínio sobre recursos que são, em última análise, ativos estratégicos da soberania brasileira.

A CMOC consolidou-se no Brasil operando nióbio e fertilizantes desde 2016. Ao absorver o ouro da Equinox, a empresa diversifica seu portfólio em um momento de valorização histórica do metal. Contudo, o ponto nevrálgico é a internalização das etapas produtivas. Ao controlar a extração em solo nacional e a comercialização global via sua trading, a IXM, Pequim consolida seu domínio sobre as etapas da cadeia produtiva. Para o Brasil, resta a exportação de baixo valor agregado e o recebimento de royalties, enquanto a inteligência estratégica sobre o destino desses minerais é transferida para a China.

O interesse chinês é cirúrgico. O ouro tornou-se o refúgio supremo diante da instabilidade entre os blocos ocidentais e asiáticos em 2026. Todavia, o verdadeiro foco geopolítico reside nos minerais críticos. O Brasil detém cerca de 90% das reservas mundiais de nióbio, material indispensável para ligas de aço de alta resistência e supercondutores. A vulnerabilidade reside em permitir que o controle desses ativos — onde o país possui um monopólio geológico — seja concentrado em um único ator estatal estrangeiro, sem que haja contrapartidas em transferência tecnológica ou agregação de valor em solo nacional.

O cerne do problema é a profunda assimetria regulatória. Enquanto EUA, Austrália e a própria China endureceram legislações para monitorar investimentos estrangeiros em setores estratégicos, o Brasil carece de um mecanismo de triagem (screening) institucionalizado. Sem um equivalente ao CFIUS norte-americano, o Estado vê-se desprovido de base legal para avaliar se a transferência de ativos compromete a autonomia futura. Opera-se sob uma lógica comercial de curto prazo, negligenciando que a soberania hoje é exercida pelo controle das cadeias de suprimentos. Em essência: O Brasil está vulnerável.

A hegemonia chinesa reside no processamento químico, onde domina 90% da capacidade global de refino. Possuir reservas abundantes é inútil se a tecnologia de separação reside além-mar. Se o Brasil não exigir o refino doméstico, continuará a ser um exportador de solo e um importador de futuro, fornecendo ingredientes para uma revolução tecnológica da qual não é convidado a participar.

A criação de um marco legal de investimentos estratégicos deixou de ser uma opção burocrática para tornar-se uma imperatividade de sobrevivência. O Brasil precisa compreender que, no xadrez de 2026, nem todo dólar possui o mesmo peso. Instituir filtros não significa repelir capital, mas exercer a prerrogativa de um Estado soberano que protege sua inteligência e seus recursos estratégicos inalienáveis.