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Oito de Janeiro

A politização de tudo no Brasil tem se tornado uma triste realidade. A polarização foi capaz de se infiltrar em todos os temas do país, passando pelas artes, esporte e tudo mais que sejamos capazes de imaginar. Não seria diferente no aniversário das ações que atingiram o coração do poder um ano atrás. Se no país do futebol tudo virava em samba, agora, no país polarização, tudo vira disputa política.

Nada retira a gravidade do que vimos um ano atrás. Estivemos diante de um atentado contra a democracia e as instituições republicanas. Porém, politizar o ato ao longo dos anos posteriores jamais nos ensinará aquilo que devemos aprender com os erros vistos e transmitidos ao vivo naquele dia. É preciso virar a página e olhar adiante, da mesma forma que precisamos sempre enxergar estas cicatrizes para que ações como aquelas jamais voltem a se repetir em nosso país.

A democracia é instrumento pelo qual são salvaguardadas nossas liberdades, desde a mais simples e singela até aquelas essenciais para o funcionamento da república. Nossas instituições são o mecanismo no qual gira nossa democracia, sendo essenciais para que não seja atacada, ferida ou destruída. Logo, agredir nossas instituições significa afrontar o mais importante pilar que sustenta uma democracia.

Vimos isso um ano atrás, quando os prédios que guardam os poderes institucionais da república foram invadidos, vandalizados e depredados, sem qualquer senso de respeito com os símbolos de nossa nação. Estivemos diante de atos que estão longe de ações de pessoas que realmente desejam mudar o país. Simplesmente um grupo de arruaceiros e vândalos que acreditam que seja possível mudar mediante a brutalidade e violência.

Fato é que o ocorrido em Brasília é sintoma que se espalhou pelo mundo mediante uma polarização estúpida e rasa que vem ditando os rumos da política em tempos recentes. Nossa capital viu se repetir aquilo que enxergamos em Washington, quando uma turba enfurecida tentou reverter o resultado eleitoral mediante uma violência explícita contra as instituições norte-americanas. A ocorrência destas ações explicita o quão doente encontram-se nossas democracias.

Enquanto houver polarização e esta disputa infantil, sem convergências e caminhos alternativos que indiquem soluções comuns, estaremos reféns de políticos rasos e uma política burra, que funciona somente para aqueles que se servem dela. Infelizmente vivemos a simples tradução de uma sociedade doente, refém de suas certezas, incapaz de ouvir ou aprender algo. Os políticos representam simplesmente a tradução disto.

Nossa democracia sobreviveu, ao contrário de outros países que sucumbiram diante dos populistas, autocracias que dizem viver em liberdade, porém se alimentam apenas de um populismo rasteiro, seja pela via da direita ou esquerda. A construção de uma real democracia passa pelo trabalho constante, demorado, muitas vezes vagaroso. Passa pela educação, normalidade institucional, combate à corrupção, supremacia das leis e limites de poder. Sem tangenciar estes valores, o Brasil poderá estar novamente diante de outro oito de janeiro, com outros atores e métodos, porém, com o mesmo objetivo.  

8 de janeiro: democracia inabalada?

Democracia é um regime político, originado na Grécia Antiga, baseado nos princípios de isegoria (igualdade do ponto de vista da palavra) e isonomia (igualdade perante a lei), que surge quando o poder decisório, deslocado para o espaço público, passa para o demos (povo) e a autoridade, outrora unificada na figura do tirano, é distribuída para o chefe militar, o chefe religioso e o governante, todos escolhidos pelos cidadãos.

Na modernidade, com a formação dos Estados nacionais e a consolidação do conceito de soberania, os valores de igualdade e liberdade, instituídos na antiga Grécia, retornam na defesa de um Estado liberal contra o Estado absoluto.

Um Estado liberal não é necessariamente democrático nem um governo democrático é necessariamente liberal. Conforme explica Norberto Bobbio no livro Liberalismo e Democracia, trata-se de duas exigências fundamentais que nasceram com o Estado moderno: a exigência de limitar o poder (liberalismo) e de distribuí-lo (democracia).

Quais são, então, as características do Estado democrático? Elenquemos algumas: distinção entre o poder e o governante, garantida pela presença de leis, divisão das esferas de autoridade e existência de eleições; princípio republicano de distinção entre o público e o privado, existência de situação e oposição, maioria e minoria, respeitadas pela lei; legitimidade do dissenso e do contraditório.

Quais são, ainda, os pressupostos do Estado liberal? A doutrina dos direitos do homem elaborada pela tradição do direito natural, que está na base do direito proclamado nas duas principais revoluções liberais, a Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789).

O Estado Democrático de Direito é, pois, aquele em que os poderes públicos são regulados por normas gerais (as leis fundamentais e constitucionais). É o governo de leis e não o governo dos homens. É um Estado, em suma, dotado de mecanismos constitucionais que obstaculizam o exercício arbitrário e ilegítimo do poder. Esses mecanismos são:

1 – Controle do Poder Executivo pelo Poder Legislativo;

2 –Eventual controle do Legislativo por uma Suprema Corte à qual se pede a averiguação da constitucionalidade das leis;

3 – Magistrado independentedo poder político.

Armados dessa introdução conceitual, passemos a analisar o 8 de janeiro de 2023.

O que houve de fato nessa data? Milhares de bolsonaristas, que estavam há dias acampados em frente a quartéis, invadiram a Praça dos Três Poderes. Alguns quebraram vidros, relógios, picharam estátuas, defecaram no STF, urinaram na tapeçaria, esfaquearam um Portinari e rasgaram a Constituição. 

Esses foram os fatos. Mas, como diria Nietzsche, não existem fatos, só existem interpretações. Então, vamos elas. 

Quem mais se beneficiou da patacoada bolsonarista foi, obviamente, Luiz Inácio Lula da Silva, que posa hoje de herói da democracia e aproveita a oportunidade para estreitar laços com todos os ministros do STF, convidando-os para churrascos e, claro, para a solenidade “Democracia inabalada”, que marcará um ano dos “ataques golpistas às sedes dos três Poderes, em Brasília”, reunindo no Congresso Nacional cerca de 500 convidados, entre autoridades e representantes da sociedade civil.

O ministro Alexandre de Moraes confirmou presença no pomposo evento, durante entrevista para O Globo, na qual declarou que “quem não acredita na democracia, não deve participar da vida política do país.” 

Estranha, porém, essa democracia tornada inabalável através de ações autoritárias que corrompem a democracia em seus princípios. Na democracia em que acredito, o Supremo Tribunal Federal não instaura inquérito de ofício – que dura cinco anos – para investigar Fake News, nem ministro julga processo no qual é também investigador e vítima. Na democracia em que acredito, há garantia de direitos individuais mesmo se o investigado tiver cometido o que seria, na cabeça de alguns, o maior de todos os delitos: ser bolsonarista.

A massa de manobra que invadiu a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro é formada principalmente por pessoas de classe média baixa, doutrinadas durante anos por um discurso raso, reducionista, reacionário e belicoso, difundido por meio de aplicativos de mensagens. 

São pessoas comuns, alguns jovens, mas, principalmente, pessoas de meia idade: pais e mães, avôs e avós de família, que deveriam ser processadas individualmente por dano ao patrimônio público não por cinco crimes, como julgou procedente o autoritário e inclemente Alexandre de Moraes.

Muitos bolsonaristas estão se lixando para a democracia, queriam sim fechar o congresso, o STF e adorariam ver um golpe de Estado. Mas eles não eram capazes de dar esse golpe, portanto não deveriam ser julgados e condenados por isso. 

Como bem escreveu Diogo Mainardi, em seu blog, no site Não é imprensaos bolsonaristas que, ao contrário de Bolsonaro, participaram do quebra-quebra foram iludidos de que aquilo resultaria num golpe, mas o fato é que nunca houve o menor perigo de que isso ocorresse, porque os militares não estavam dispostos a derrubar o regime. O Brasil inventou essa modalidade de golpistas sem golpe, que serviram de pretexto para o grande conluio nacional.” 

O que vai ser celebrado, portanto, na cerimônia “Democracia inabalada” não é a democracia, mas o triunfo desse conluioO STF, odiado por metade do país por ter possibilitado o retorno à vida pública de Lula e por ter revertido as penas da Lava Jato que incidiram sobre os corruptos mais poderosos do país, agora está de mãos dadas com o Poder Executivo. Às favas com o princípio democrático de independência do magistrado em relação ao poder político.

A democracia do supremo-lulismo é formidável. Que um homem chamado Clezão tenha morrido sob custódia do Estado com um parecer favorável de soltura da PGR engavetado é só um detalhe incômodo. Que um jovem de 24 anos tenha sido condenado a 17 anos de prisão pelo terrível crime de ter entrado no Congresso Nacional em 8 de janeiro e divida a cela com condenados por estupro e homicídio que cumprem pena menor que a dele, é outro detalhe de somenos importância.

Essa é a democracia festejada pelos esquerdistas que aclamam o ministro Alexandre de Moraes aos gritos de “Xandão” e “sem anistia”, enquanto babam de satisfação ao ver a vingança sem tréguas contra seus adversários políticos. 

Mas as prisões da fulana cozinheira, do sicrano pedreiro, do beltrano corretor e de tantas outras pessoas simples, sem nenhum antecedente criminal, deveriam pesar também na consciência dos influenciadores de direita que, durante anos, encheram o próprio bolso com o rentável ofício de blogueiros chapa-branca do bolsonarismo, pagos para reproduzir em seus canais o discurso da ordem do dia.

De Miami ou do conforto do seu sofá, incentivaram e insuflaram a invasão do dia 8 de janeiro, seguindo o exemplo do covarde-mor, o próprio Jair. A peãozada foi presa por Moraes. Os influencers estão curtindo uma temporada nos Estados Unidos. 

Trinta senadores da oposição assinaram um manifesto público em resposta ao evento “Democracia inabalada”, promovido pelo governo federal.

No documento, os signatários condenam “vigorosamente os atos de violência e a depredação dos prédios públicos ocorridos no dia 08.01.2023, em Brasília.” Também alertam que “o abuso dos poderes e o uso indevido de interpretações de dispositivos constitucionais pode matar a democracia” e ainda apelam para a “volta da normalidade democrática”.

Tudo isto está bem dito e é correto, mas não tem força pelo simples fato de que a maioria dos que assinam o documento foram incapazes de romper com o bolsonarismo quando isso se fazia claramente necessário. 

Apontar o que há de autoritário e antidemocrático nos nossos adversários políticos é fácil; difícil é apontar isso dentro do próprio espectro político ou do próprio grupo. A democracia brasileira continuará abalada sempre que a sua suposta salvação retroalimentar o populismo.

Rotas do petróleo e o conflito Israel-Hamas

As grandes potências e as potências regionais estão tendo um comportamento comedido em relação ao conflito entre Israel e o Hamas, com exceção dos Estados Unidos e do Reino Unido, que enviaram forças tarefas navais para a região.

A Rússia, que está preocupada com a guerra contra a Ucrânia e vem lutando para superar os problemas causados pelas sanções, procura não se envolver no atual conflito no Oriente Médio. A Rússia tem presença forte na Síria e apoia militarmente o regime sírio, ameaçado desde 2011, no contexto da Primavera Árabe. Aumentando a complexidade do problema do Oriente Médio, Israel revidou ataques de milicianos iranianos em território sírio, e os EUA, que têm três mil soldados na Síria, também reagiram a ataques a seu pessoal militar no país.

Os americanos e os britânicos, por sua vez, embora manifestem sua lealdade a Israel e contribuam com o fornecimento de equipamentos bélicos e informações, não pretendem se engajar em operações de combate. Ademais, têm procurado exercer uma função moderadora em relação à intensidade dos ataques de retaliação de Israel em Gaza, pois as perdas de civis têm sido elevadas e têm causado uma onda de mal estar e protestos contra os israelenses na comunidade internacional.

Apesar da rivalidade com Israel, a liderança do Hezbollah, organização política e militar sediada no Líbano, tem se contido e evitado declarar guerra aberta contra os judeus.

Um fator que pode levar a uma maior intensidade da crise diz respeito aos ataques dos rebeldes Hutis do Iêmen contra navios de várias bandeiras, incluindo porta containers, cargueiros, e principalmente petroleiros que trafegam pela costa iemenita. Os Hutis são financiados pelo Irã xiita, ao passo que o Governo iemenita é apoiado pela sunita Arabia Saudita.

Os ataques hutis têm feito que as embarcações dos principais armadores do mundo deixem de utilizar a rota que passa pelo canal de Suez e passem a utilizar a rota via que circunavega o continente africano pela Cidade do Cabo na África do Sul, caminho mais longo e com maiores custos operacionais. A empresa petrolífera britânica BP e a transportadora dinamarquesa Maersk, uma das maiores operadoras de contêineres do mundo, já utilizam a via do Cabo, com significativo aumento de despesas, o que se reflete na elevação do preço dos fretes.

Embora o aumento de custos se reflita nos preços do petróleo e do transporte de outras mercadorias, não se verificou, pelo menos por enquanto, um pânico no mercado do petróleo e do gás, tal como ocorreu na crise do petróleo de 1973, na esteira da Guerra do Yom Kippur, que afetou a economia mundial e atingiu fortemente o Brasil. Na ocasião, o governo brasileiro reagiu prontamente e foi pioneiro na busca de combustível alternativo, instituindo o Proálcool; atualmente, o etanol é fabricado em larga escala no país. Apesar de a nossa dependência energética do exterior ter diminuído consideravelmente, e a produção nacional de petróleo ter aumentado muito, ainda importamos petróleo devido à deficiência de refino. Ademais, nossa economia é fortemente dependente do transporte rodoviário.

As ameaças às rotas marítimas no Oriente Médio causam distúrbio em vários fluxos de comércio, prejudicando as chamadas cadeias globais de produção e distribuição, o que pode prejudicar o Brasil. Com uma economia que se apoia principalmente nas exportações de commodities (sobretudo produtos agrícolas e minerais), o Brasil é dependente de importação de fertilizantes e, para tanto, carece de vias marítimas seguras. No setor industrial, temos a importação de componentes eletrônicos de alta tecnologia, que também podem sofrer com perturbações nas rotas oceânicas, a depender da evolução da situação no Oriente Médio.

Embora atualmente a preocupação imediata seja o suprimento de petróleo, potencialmente o conflito Israel-Hamas pode vir a nos prejudicar em várias áreas da economia. Neste momento, cabe à diplomacia brasileira obter e processar informações sobre os vários cenários possíveis no desenvolvimento da crise, e o governo deve preparar planos de contingência para enfrentar os perigos que podem advir nesses cenários.

Clube Autocrático

O ano inicia com um novo formato do BRICS. Entram no clube fundado por China, Brasil, África do Sul, Rússia e Índia, os seguintes novos sócios: Arábia Saudita, Irã, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos. O bloco passa a ser formado por dez países depois desta que é considerada a mais importante ampliação do grupo que opta por uma guinada autocrática, tornando-se definitivamente um fórum hostil ao movimento democrático.

O novo BRICS ou BRICS 10, como tem sido chamado em alguns fóruns internacionais, é composto em sua vasta maioria, ou seja, 80%, por países que não possuem qualquer traço democrático em suas estruturas, sendo considerados ditaduras ou autocracias.  As exceções são Brasil e África do Sul. Nenhum membro, entretanto, pode ser classificado como uma democracia liberal plena.

A avaliação é a mesma daquela realizada pelos principais órgãos que medem os níveis de democracia em escala global, como a Freedom House sediada nos Estados Unidos, Universidade de Gotemburgo na Suécia e Economist Intelligence Unit com base no Reino Unido. O cálculo geral mostra que hoje existe uma ampla maioria de ditaduras e autocracias no mundo e o número de democracias vem regredindo constantemente.

O movimento de expansão do BRICS, portanto, é a expressão clara deste movimento pelo qual passa o mundo em tempos recentes, porém, as consequências deste caminho ainda não foram medidas. Entretanto, causa ansiedade notar que nações classificadas como democracias eleitorais ou imperfeitas como o Brasil se deixem seduzir pela aliança com países que violam garantias e liberdades conquistadas ao longo da História. Nosso país deveria rumar em sentido oposto, consolidando alianças com democracias.

Dentro do BRICS 10, o Brasil agora estará ao lado de autocracias eleitorais, ou seja, aquelas que realizam eleições simplesmente protocolares como Rússia, Egito, Índia e Etiópia, onde sabemos antecipadamente os vencedores. Além destas, agora somos sócios de autocracias fechadas, países já sem qualquer pudor em aplicar uma política despótica, como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Irã e China, considerados também regimes autoritários consolidados.

Em Buenos Aires houve uma correção de rumo. O novo governo fez a opção por declinar do convite do BRICS, uma vez que não acredita nos propósitos de um grupo que possui a autocracia como fator balizador e a liderança da China como farol. Os argentinos foram além e falam em diminuir a dependência do investimento chinês que tem tornado aos poucos muitos países reféns dos desejos de Pequim.

Este é o principal ponto deste clube autocrático. O BRICS está longe de ser uma iniciativa que eleva países periféricos a serem partícipes do concerto internacional. O grupo se tornou a principal base de lançamento de iniciativas, financiamento e apoio mútuo de uma política baseada em interesses que estão em confronto direto com os valores ocidentais de liberdade e democracia. Um clube que mina os esforços em prol da democracia, liberdade e soberania daqueles que rejeitam sua cartilha. Uma forma de imperialismo e dominação que de forma silenciosa vem impondo sua agenda e seus interesses em escala global.  

Márcio Coimbra é Presidente do Instituto Monitor da Democracia e Vice-Presidente da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Cientista Político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal

Gaza em pratos limpos

Perguntei em meados de dezembro no X (ex-Twitter). Quantos militares palestinos morreram até agora em Gaza?

Não houve resposta. O Hamas não informa, logo a ONU não repete a informação para validá-la e a imprensa internacional não divulga.

Por quê? Porque não há militares em Gaza. Todos são civis. Se morreu em Gaza e não é soldado de Israel, então é civil.

Há três tipos de civis em Gaza:

🔎 Civis combatentes do Hamas.

🔎 Civis não-combatentes que são militantes ou simpatizantes do Hamas.

🔎 Civis não-combatentes que não são militantes ou simpatizantes do Hamas.

A população de Gaza é estimada em 2,4 milhões de habitantes. Segundo dados fornecidos unicamente pelo Hamas foram mortos até agora 20 mil civis. Isso corresponde a 0,8% da população. Extrapolando linearmente, se a guerra durar mais 2 meses, serão 40 mil mortos (1,6%). Bem… o número máximo estimado de militantes do Hamas corresponde a 1,6% da população.

Mas – seja qual for o número verdadeiro de mortos – não se sabe qual é a porcentagem de cada um dos três tipos de civis que morreram.

Sabe-se, entretanto, que as proporções de crianças e mulheres mortas é informação fraudulenta do Hamas: são números falsamente majorados para dizer que Israel está cometendo um genocídio em Gaza.

Há uma discussão sobre o número total de mortos em Gaza por Israel. Um depoimento pessoal de um amigo que mora em Israel, o Fernando Lasman, esclarece a questão:

Acredito que o número total de mortos pode ser crível, mas a leitura da opinião pública é feita presumindo-se tendenciosamente uma maioria desproporcional (que nós aqui sabemos) de crianças e mulheres vitimadas, e essa leitura tem aumentado a pressão e o isolamento de Israel ante seus aliados, que reagem pelas vidas dos inocentes vitimados, que seriam em sua maioria apenas civis.

O problema é a distribuição das vítimas e a leitura internacional da ação de Israel, não exatamente o número total, que talvez seja ainda conservador.

Israel está sendo encarado como genocida, quando claramente a ação em Gaza tem menos vítimas que outros conflitos em outros momentos e locais em que houve perdas maiores de civis.

Essa sensação de que Israel está ultrapassando limites humanitários, propositadamente ou não, vem em parte da guerra de propaganda que ela de fato está perdendo, e que causa objetivamente seu isolamento e enfraquecimento político.

Creio eu que esse era o objetivo final, e ele está sendo atingido.

Um governo não-democrático em um regime democrático

Dizer tudo isso (que foi dito acima) não é defender o atual governo de Israel, comandado pelo populista-autoritário Netanyahu – que é um adversário da democracia. Mas apesar do seu governo atual, o regime político de Israel é uma democracia liberal – a única do Oriente Médio, uma ilha cercada por quatorze autocracias (sem contar Gaza e Cisjordânia).

Um governo democrático em Israel deveria fazer tudo diferente do que fez o governo Bibi. Não declararia guerra ao Hamas, não reconheceria o governo de Gaza como um Estado ou proto-Estado (um player legítimo da ordem internacional), faria uma operação de caráter policial, usando recursos militares, para capturar os terroristas (e, só quando houvesse resistência armada, matá-los) e libertar os reféns. Parece a mesma coisa, mas como estratégia não é. Nem na prática, pois uma vez declarada a guerra (que é um campo de realismo, não de política orientada por princípios éticos), não tem volta.

Na guerra, em qualquer guerra, morrem civis inocentes. Só para dar um exemplo de país contíguo (a Síria): o ditador al-Assad, de 2011 para cá, matou milhares de civis sírios. Não, não foram 20 mil, nem 200 mil e sim 400 mil.

Não existe guerra humanitária

À luz da democracia, a primeira (e única) “lei da guerra” deveria ser: está expressamente proibido fazer guerra! Democracia é um modo não guerreiro de regulação de conflitos: não é guerra e sim evitar a guerra. Portanto, quando uma guerra se instala, a democracia já perdeu.

Ah!… Mas isso – de um ponto de vista realista – é impossível. Certo. Então pelas mesmas razões de realpolitik é impossível exigir de um contendor em guerra que obedeça leis de proporcionalidade no uso da própria força em relação à força empregada por seu(s) inimigos(s), moderação no emprego de seus meios bélicos ou faça uma guerra humanitária. Seria como exigir que ele, para obedecer “leis da guerra”, abrisse mão de suas vantagens competitivas para ganhar a guerra, correndo o risco de ser derrotado. Qualquer Estado, diante da possibilidade de ser aniquilado, recorrerá a todos os meios a seu alcance para sobreviver.

Nada disso, porém, significa que a crueldade, o genocídio, o terrorismo, não devam ser condenados, assim como todas as demais violações das Convenções de Genebra (1864, 1906, 1929 e 1949) e de seus protocolos adicionais (1977, 2005). Mas as violações dessas convenções só podem ser punidas ex post pelos tribunais internacionais (TIJ, TPI) aos países que reconhecem esses organismos (e muitos não reconhecem).

Por outro lado, sanções econômicas aos países que descumprem essas “leis” não podem funcionar se parte do mundo sabota tais sanções (um exemplo atual são as sanções ao ditador Putin, que não são acatadas pela China, pelo Irã e por vários outros países, inclusive o Brasil).

O único modo de não ter violações de direitos humanos é não ter guerra. É preciso parar de papo furado. Não há guerra humanitária.

Havendo guerra, com Netanyahu ou sem Netanyahu, haveria civis mortos. A menos que Israel tomasse a decisão irrealista de:

Não bombardear alvos em Gaza, pois que civis inocentes podem ser atingidos.

Não entrar com tropas armadas no território de Gaza, pois que civis inocentes podem ser confundidos com os jihadistas e mortos ou feridos. As Forças de Defesa de Israel poderiam, no máximo, portar cassetetes, spray de pimenta, armas de choque e munição não-letal.

Cessar fogo imediatamente e explicar para a população que, infelizmente, não se pode fazer nada, pois civis inocentes podem ser mortos ou feridos.

Fazer um apelo ao Hamas para que devolva os reféns com vida e em boas condições de saude.

Fazer um apelo ao Hamas para que não lance mais mísseis em Israel e prometa que não tornará a invadir o território do país.

Ora, isso significaria, objetivamente, dar a vitória ao Hamas, deixando a população israelense vulnerável a novos ataques terroristas. É inaceitável por qualquer governo (e por qualquer sociedade).

Gedankenexperiment

Façamos aqui uma “Gedankenexperiment”. (Segundo a IA do Google, o termo “Gedankenexperiment” é alemão e significa “experimento mental”. É um termo usado pelo físico Albert Einstein para descrever a sua abordagem única de usar experiências conceptuais em vez de experiências reais. Os experimentos mentais são narrativas que convidam o leitor a imaginar e avaliar uma situação hipotética. São utilizados na investigação filosófica para elucidar determinada concepção ou, até mesmo, para apoiar ou refutar alguma teoria. Os experimentos mentais são raciocínios lógicos (subjuntivos) sobre um experimento não realizável na prática). Então, vamos lá:

Se Israel parar os bombardeios em Gaza e retirar as suas tropas da Faixa.

Se Israel – como é o correto a ser feito – retirar todos os seus assentados na Cisjordânia (assim como já fez em Gaza).

Se Israel se retirar completamente da Cisjordânia não deixando mais nenhum civil, militar ou policial israelense naquele território.

Se Israel soltar todos os prisioneiros do Hamas, da Jihad Islâmica, da PFLP, do Hezbollah e de outros grupos que cometeram (ou apoiaram) atentados terroristas contra israelenses.

Se Israel reconhecer todos os grupos terroristas do jihadismo ofensivo islâmico como players válidos, com direito a montar seu próprio governo em Gaza e na Cisjordânia.

Se Israel pagar um aluguel anual aos palestinos e acertar os atrasados dos últimos 75 anos com multa, indenizando os palestinos (ou os seus descendentes) pelas perdas que alegam que sofreram.

Se Israel remover o governo populista-autoritário de Netanyahu, colocando em seu lugar um governo democrático-liberal.

O que aconteceria?

Seria possível construir um Estado de direito palestino na região, que reconhecesse a existência legítima do Estado de Israel?

Os israelenses poderiam viver em segurança em Israel pois não haveria mais atentados no país?

Os judeus do mundo inteiro poderiam viver tranquilos pois cessaria todo antissemitismo?

Haveria, afinal, paz na região?

Ou nada disso seria suficiente se Israel não se dissolvesse como Estado e os judeus se retirassem da região, dispersando-se mais uma vez pelo mundo? Pois este é o significado do lema: “From the river to the sea, Palestine will be free”.

O que é possível e impossível na relação Israel-Palestina

Pesquisa do Palestinian Center for Policy and Survey Research (PSR), Public Opinion Poll 90 (22/11 a 02/12 de 2023) revela que somente 7% dos entrevistados defendem o estabelecimento de uma democracia. Revela também que 88% dos palestinos querem a renúncia de Abbas. Em Gaza, Hanniyeh – chefe supremo do Hamas – tem o apoio de 71% dos entrevistados contra 24% de Abbas. Na Cisjordânia ele tem 82% de apoio. Isso é mais uma indicação do que é possível e impossível na relação Israel-Palestina.

1 – É possível erigir um Estado palestino sob supervisão internacional. É impossível que esse Estado seja um Estado de direito no curto ou médio prazos. Teremos mais uma autocracia entre as quatorze que já existem no Oriente Médio. Israel continuará sendo a única democracia da região (se o governo populista-autoritário de Netanyahu não erodir o próprio regime).

2 – É possível um pacto de não-agressão (sem guerra quente) com Israel sob supervisão internacional para que duas unidades nacionais coexistam. É impossível que passem da coexistência vigiada para a convivência (sem guerra fria) no prazo de uma geração.

A atual geração de palestinos vai continuar odiando Israel. Mesmo que Israel retire todos os assentados da Cisjordânia (assim como já se retirou de Gaza) isso não vai mudar a imagem que os palestinos têm do país vizinho. Uma próxima geração, talvez, se deixar de ser doutrinada por organizações do jihadismo ofensivo islâmico e por organismos internacionais disfarçados de humanitários, possa ter outra mentalidade. Difícil uma solução em menos de 25 anos.

Por que somos oposição democrática ao governo Lula

(Esboço de uma declaração de democratas não-populistas)

Antes de qualquer coisa, porque não concordamos com os populismos do século 21, seja com o populismo dito de esquerda (o neopopulismo de Chávez-Maduro, de Ortega, de Lourenço, de Evo, de Correa, de Lugo, de Funes, de Kirchner, de Petro, de Obrador e de Lula), seja com o populismo dito de direita ou de extrema-direita (o populismo-autoritário de Bannon, de Trump, de Orbán, de Erdogan, de Wilders, de Le Pen, de Farage, de Gauland, de Salvini, de Abascal, de Modi e de Bolsonaro).

Avaliamos que os populismos, ditos de esquerda ou de direita, são hoje os principais adversários da democracia liberal. A evidência mais flagrante disso é o alinhamento dos governos populistas (ditos de esquerda ou de direita) ao eixo autocrático (Rússia, Irã, Síria e outras ditaduras islâmicas – incluindo Hamas, Hezbollah, Jihad Islâmica e demais organizações terroristas – com o apoio dissimulado da China e, às vezes, da Índia).

Somos oposição democrática ao governo lulopetista porque é um governo neopopulista, não-liberal. Discordamos da oposição bolsonarista porque é uma oposição antidemocrática, iliberal.

Nos opomos ao governo Lula por razões políticas (democráticas), não por motivos extra-políticos que tenham a ver com tradições, costumes e valores ditos conservadores (mas muitas vezes reacionários, no caso dos bolsonaristas).

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com sua posição de se alinhar às maiores autocracias do planeta contra as democracias liberais.

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com o seu relacionamento preferencial com ditaduras de esquerda (como Cuba, Venezuela, Nicarágua) e de não privilegiar as democracias liberais da América Latina (como Costa Rica, Chile e Uruguai).

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com o fato dele não apoiar a resistência ucraniana à invasão do ditador Putin.

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com o fato dele ser um articulador de um bloco composto majoritariamente por ditaduras (o BRICS), onde não figura nem uma democracia liberal.

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com a sua visão geopolítica de um Sul Global em guerra fria contra o mundo livre (supostamente composto por países ricos, imperialistas e colonialistas).

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com o seu posicionamento objetivamente contrário à auto-defesa de Israel aos ataques da organização terrorista Hamas.

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com sua desvalorização do papel de uma oposição democrática para o bom funcionamento do regime democrático e rejeitamos a prática de seus esbirros de chamar quem não é governista de fascista ou golpista e de fazer acusações sórdidas a quem critica ou não apoia o governo de querer a volta de Bolsonaro.

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com sua prática de tomar a política como uma continuação da guerra por outros meios, dividindo a sociedade com uma única clivagem (povo x elites) e adotando a dinâmica do “nós” (o povo, quer dizer, os que seguem o líder) contra “eles” (as elites, ou seja, os que não aceitam se subordinar à hegemonia petista).

Nos opomos ao governo Lula porque rejeitamos o seu estatismo e defendemos as reformas de modernização do Estado promovidas na última década (incluindo a continuidade das privatizações) e o compromisso com as reformas futuras, com destaque para a administrativa e a política (com o fim da reeleição e a reforma partidária – visando a democratização interna dos partidos e o fim da partidocracia).

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com a sua velha proposta petista de controle partidário-governamental (disfarçado de social ou civil) dos meios de comunicação, nem com a tentativa de incorporar grandes veículos de imprensa (escrita e televisiva) ao seu sistema de governança, criando um jornalismo chapa-branca, ameaçando e cancelando os profissionais independentes que não se conformam com essa interferência.

Nos opomos ao governo Lula porque não concordamos com sua estratégia de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido com o objetivo de se delongar do governo (falsificando o critério da rotatividade democrática).

Perigosa Rota da Seda

A empresa chinesa State Grid arrematou o principal lote no maior leilão de energia da história do Brasil. Os chineses levaram o lote de maior investimentos e complexidade, especialmente os empreendimentos que servem para transportar energia por longas distâncias e em alta tensão. O deságio da operação ainda foi de 40%. Os chineses irão construir linhas de transmissão nos estados do Maranhão, Tocantins e Goiás.

A notícia em um primeiro momento parece ser boa, uma vez que somos um país com enorme déficit de poupança interna e precisamos de capital externo para realização de investimentos. Entretanto, se torna intrigante observar o foco dos chineses pela área de energia no Brasil. O setor foi aquele que mais recebeu recursos de Pequim.

O mesmo ocorreu em outras áreas do mundo. No Paquistão um novo corredor está sendo construído com foco na interligação da economia do país com a China. Kashgar agora está ligada diretamente ao porto de Gwadar, cedido aos chineses e sob o seu controle direto pelos próximos 40 anos. A posição estratégica do porto funciona como escoamento dos produtos chineses passando pelo Paquistão.

Em troca de investimentos, a Grécia vendeu 67% do seu maior e mais estratégico porto para os chineses, que agora controlam um dos mais importantes hubs do comércio marítimo europeu. O país asiático implementou o mesmo modelo comprando dezenas de portos no mundo, sendo a proprietária de mais de uma centena deles em cerca de 67 país. Hoje, sete dos dez maiores portos do mundo estão nas mãos dos chineses.

Estas ações fazem parte da famosa e controversa estratégia chamada de “Nova Rota da Seda” que aos poucos desembarca no Brasil. Porém, nem tudo são flores na rota desenhada por Pequim. A estratégia tem sido a mesma, ou seja, oferecer investimentos e tornar os países endividados, usando este laço de “dependência” criado entre as duas nações e a dívida com Pequim como moeda de troca política no xadrez internacional.  

Os exemplos estão espalhados pelo mundo. Em Gana, a população pediu na justiça o fim da exploração da bauxita pelos chineses. O Quênia já acumula mais de 2 bilhões de dólares de dívida com Pequim. Na Malásia, o ex-premiê desviou mais de 800 milhões, deixado uma dívida de 4,5 bilhões de dólares do seu país com a China. A Argentina cedeu parte de seu território na Patagônia para a instalação de uma estação militar chinesa.

Foram estes fatos que levaram muitos países a evitar uma excessiva dependência do capital chinês, por mais atraente que possa parecer. Na verdade, o custo do negócio embutido nos acordos pode custar muito caro para a soberania das nações, tornando-as frágeis quando pressionadas pelo governo de Pequim. Além disso, o tamanho das dívidas assumidas e o tamanho da infraestrutura estratégica concentrada em empresas chinesas tornam os países vulneráveis ao interesse estrangeiro de um único país.

Apesar de já ter se tornado um país sinodependente em alguns aspectos, ainda existe tempo hábil para o Brasil reverter a dependência em setores estratégicos como tecnologia, infraestrutura e logística. É preciso aprender com os erros de outras nações e evitar dissabores que podem custar muito caro para nossa população, soberania e economia.

‘Queers for Free Palestine' em Delhi Queer Pride walk 2023. | Foto: Manisha Mondal/ThePrint.

Wokismo: o destrutivo tsunami ideológico que ameaça o Ocidente

O jornalista britânico e editor do The Sunday TelegraphAllister Heath, publicou, em 13 de dezembro, um artigo de opinião no qual afirma que “a civilização ocidental está sendo destruída por dentro por forças que não podemos controlar”.

Essas forças de dissolução, segundo ele, foram subestimadas por muito tempo e aqueles que “alertaram para a ameaça devastadora representada pela tomada das nossas instituições por ideólogos conscientes (woke ideologues) foram implacavelmente atacados e ridicularizados”.

“terrível verdade” exposta por Heath no referido artigo é que essas pessoas que supostamente se preocupam com os outros e que dizem acreditar na justiça social e na auto-realização sexual, combater o preconceito, esclarecer a história, promover a igualdade e salvar o planeta são as mesmas que apoiam abertamente o genocídio.

Embora grande parte da mídia esteja embotada pela ideologia woke, o referido artigo do The Telegraph é uma amostra de que vozes qualificadas têm denunciado, aqui e ali, o paradoxo desses que se pretendem politicamente corretos ao mesmo tempo em que relativizam e justificam as piores barbáries.

Recentemente, em 11 de dezembro, o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung(NZZ) publicou um artigo de opinião do seu correspondente político, Benedict Neff, intitulado “Traktat über die Verirrten: Der Palästina-Konflikt demaskiert die radikale Linke” (Tratado sobre os Perdidos: O Conflito Palestino Desmascara a Esquerda Radical).

Nesse artigo, o analista político suíço explica a infiltração da ideologia radical esquerdista nas universidades, sob o manto das teses antirracistas e pós-colonialistas, e denuncia a hipocrisia desses radicais diante das atrocidades cometidas pelo grupo terrorista Hamas:

“Há acontecimentos que levam a uma clareza peculiar. Um exemplo é o massacre do Hamas em Israel, em 7 de outubro de 2023. Um desmascaramento ocorreu longe dos combates. Depois de os terroristas palestinos massacrarem e raptarem mais de 1.000 civis inocentes, os ultra-esquerdistas e os islamistas do Ocidente saíram juntos às ruas para se manifestarem contra Israel. O crime não foi motivo para estes esquerdistas radicais mostrarem solidariedade para com as vítimas. Pelo contrário, deram proteção aos flancos dos perpetradores”, escreveu o articulista suíço.

Ambos os artigos citados denunciam que o 7 de outubro escancarou um absurdo padrão de pensamento que já existia há muito tempo, mas não era levado a sério; um padrão de pensamento no qual os modelos ideológicos seriam mais forte do que a compaixão humana:

“Hoje podemos considerar isto ingênuo, mas acredito que muitas pessoas — incluindo muitas da esquerda — só recentemente se tornaram plenamente conscientes do pensamento delirante e mecânico dos extremistas de esquerda, baseado em teorias pós-coloniais e antirracistas. Porque basicamente estes esquerdistas radicalizados disseram: os israelenses não são vítimas e não podem ser vítimas”, escreveu Benedict Neff, no NZZ.

“Forma demente de pensar”

Allister Heath, do The Telegraph, liga essa “forma demente de pensar” ao “destrutivo tsunami ideológico desencadeado pelos fanáticos despertos (woke fanatics)”. Para ele, embora muitos já compreendam, por exemplo, que “o aumento da defesa extrema dos trans levou à mutilação de muitas crianças e à erosão dos direitos das mulheres”“a natureza autoritária, e até mesmo fascista, da ´teoria crítica da raça´ e da ´teoria pós-colonial´ foi subestimada”.

Depois do constrangedor silêncio das organizações feministas em relação à violência sexual contra as mulheres israelenses, deu-se o caso das dirigentes de Harvard, da Universidade da Pensilvânia e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que, ao serem questionadas por uma comissão do Congresso dos EUA, se recusaram a confirmar que o apelo ao genocídio dos judeus violaria o código de conduta das universidades e disseram, com um sorriso sarcástico nos lábios, que isso “dependeria do contexto”.

Não é de surpreender, afinal, que, para os ideólogos radicais da esquerda, o massacre de 7 de outubro, orquestrado sinistramente pelo Hamas, também não pode ser analisado sem um contexto, ou seja, sem ser justificado dentro da ideologia woke que divide o mundo em opressores e oprimidos.

“O povo judeu é classificado como ´branco´ ou ´branco adjacente´ e, portanto, opressor, e isto supostamente dá aos manifestantes luz verde para entoar slogans que qualquer observador objetivo deveria considerar apoiar o genocídio”, explica o analista do jornal britânico.

Ele lembra ainda o quão essas pessoas que se recusam a criticar as manifestações pró-Hamas antissemitas são “paranóicos obcecados por microagressões com códigos discursivos estritos para prevenir ofensas”.

Duplo padrão

Sob a óptica dessa etiqueta discursiva politicamente correta, que escancara o duplo padrão moral que grassa hoje na maioria das universidades, professores ou estudantes podem ser perseguidos caso errem um pronome de quem mudou a identidade de gênero, mas clamar pela “Intifada revolution” e cantar “from the river to the sea”, que são inequivocamente vistos como apelos ao terrorismo e à eliminação de Israel do mapa, são atitudes analisadas de modo muito complacente, pois dependeriam contexto.

Segundo o artigo do The Telegraph, essa “normalização do racismo com um toque de década de 1930”, que tem tomado conta das universidades, impacta muito negativamente a sociedade:

“O vírus da mente desperta (woke mind) transformou outrora grandes centros de aprendizagem em campos de doutrinação, veículos para fabricar consentimento para ideias niilistas e um novo obscurantismo.”

Ainda segundo o analista britânico, é a “hierarquia de vitimização”, própria da ideologia woke, a razão pela qual algumas pessoas “ainda admiram as moralmente falidas Nações Unidas”:

“O enviado do Irã ter presidido a uma reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, apesar de a República Islâmica ser um dos principais violadores dos direitos humanos não importa, argumentam os extremistas despertos (woke extremists): é um membro do ‘sul global’, lutando contra o ‘imperialismo’.”

O artigo de Allister Heath também critica a UNRWA, tantas vezes denunciada aqui, em O Antagonista:

“Tomemos o exemplo da UNRWA para os Refugiados da Palestina: transformou os seus pupilos numa classe perpétua de refugiados, roubando-lhes a agência e rotulando as suas cidades como “campos de refugiados” permanentes. Os palestinos são o único povo para quem o estatuto de refugiado é automaticamente transmitido através das gerações, garantindo que as suas queixas nunca possam ser resolvidas e que a burocracia da ONU possa manter o seu trem da alegria na estrada. Isto é uma tragédia para os palestinos e torna a paz quase impossível.”

O artigo também tece duras, mas pertinentes, críticas ao ambientalismo de Greta Thumberg, as quais reproduzimos a seguir:

“O ambientalismo de Greta Thunberg parece agora ser uma mera tábua de um movimento revolucionário mais amplo. Entre outros ataques a Israel, ela foi filmada cantando “esmague o sionismo” em um comício em Estocolmo em novembro. Foi também coautora de um artigo para o The Guardian no qual alega que Israel cometeu “crimes de guerra” e “genocídio”, um caso clássico de inversão moral e culpabilização da vítima. […]

O que tem a israelofobia de Thunberg a ver com a abordagem de um problema técnico como o aquecimento global? A resposta é tudo e nada: os fanáticos verdes mais extremos são autoritários woke que querem travar guerra à meritocracia, ao individualismo, à racionalidade, ao capitalismo e até à democracia moderna. As alterações climáticas são apenas um pretexto para fomentar uma convulsão mais ampla. É por isso que tantos verdes radicais não estão interessados em soluções tecnológicas para a descarbonização.

Os aliados de Thunberg acreditam que ‘não há justiça climática sem direitos humanos’. Assim, com a ‘justiça climática’ não se trata de reduzir o crescimento das temperaturas médias: trata-se de destruir Israel, de lutar contra o sonho americano, de eliminar a liberdade de expressão e assim por diante. A ‘justiça climática’ não tem realmente a ver com clima nem com justiça, tal como a ‘justiça social’ é antissocial e injusta.”

A agenda woke, obviamente, não sobreviveria fora do mundo livre e seus defensores seriam friamente eliminados caso os fanáticos islâmicos lograssem êxito em impor sua visão de mundo teocrática. Mas o ódio ao “ocidente colonizador” parece ser maior do que o instinto de sobrevivência que deixaria entrever essa verdade.

A disputa entre a Venezuela e a Guiana pela região do Essequibo. Há risco para o Brasil?

“É muito bom discutir acordos tendo por trás de si uma esquadra com credibilidade”. A frase proferida há mais de um século por José Maria da Silva Paranhos Júnior, patrono da diplomacia brasileira, ressoa no Itamaraty e nas Forças Armadas. A constatação do Barão do Rio Branco serve de alerta às autoridades pátrias de que Estados precisam ser fortes para defender a paz, motivo pelo qual é preciso agir de forma concertada e tempestiva diante de um iminente conflito entre a Venezuela e a Guiana por Essequibo, região que representa aproximadamente 70% do território guianense. A disputa por Essequibo, área da Guiana rica em petróleo e minérios que margeia a fronteira com o território venezuelano, é o estopim de uma desavença que pode transbordar os limites de ambos os países e representar risco às fronteiras setentrionais do Brasil.

O polêmico atrito envolvendo o Essequibo remonta ao século XIX. A região fazia parte da chamada capitania geral da Venezuela, durante o domínio espanhol, e passou a integrar o novo país após a independência da Venezuela em 1811. Em 1814, a Holanda cedeu formalmente aos britânicos o controle da área que viria a ser a Guiana inglesa, mas o acordo não trazia uma definição acerca da fronteira ocidental com a Venezuela. Cerca de vinte anos depois, o governo britânico começou a delimitar essa região e reivindicou Essequibo, o que levou os venezuelanos a denunciarem o Império Britânico por violação a sua soberania. Em 1899, uma arbitragem internacional em Paris proferiu decisão majoritariamente favorável aos britânicos, porém o laudo arbitral foi considerado fraudulento pela Venezuela, porquanto envolvia dois árbitros britânicos, dois norte-americanos (sendo um deles indicado pela Venezuela) e um russo (indicado pelos quatro anteriores). Quando a Guiana conquistou sua independência, em 1966, Venezuela e Reino Unido assinaram um tratado no qual reconheceram a existência de uma controvérsia pendente. Essequibo ainda integra o território da Guiana, mas o governo de Caracas deseja resolver a controvérsia de forma unilateral, em proveito de seu país e à revelia do direito internacional.

A disputa pela cobiçada região do Essequibo ganhou novo capítulo com a realização, pelo presidente venezuelano Nicolás Maduro, de referendo popular acerca da anexação, pela Venezuela, daquela área rica em reservas petrolíferas. É provável que a deterioração das condições econômicas na Venezuela tenha instigado Maduro a apostar em uma disputa internacional com o objetivo de desviar a atenção dos problemas domésticos e fortalecer-se politicamente por meio do estímulo ao sentimento nacionalista entre os venezuelanos.

Na votação de 3 de dezembro, os eleitores aprovaram as propostas da consulta, que incluem a criação do “Estado de Guiana Essequiba” como parte do território da Venezuela, além de um plano para conceder cidadania venezuelana aos seus habitantes. Após o resultado favorável, Maduro apresentou o novo mapa daquele país, onde a área do Essequibo aparece anexada ao território venezuelano, e anunciou a criação de uma “Zona de Defesa Integral da Guiana Essequiba”. Ademais, um general do exército foi designado provisoriamente como a única autoridade daquela área.

A Guiana tem um exército de apenas 3,4 mil soldados, com infraestrura e equipamentos defasados e precários, ao passo que a Venezuela conta com mais de 120

mil militares na ativa, 220 mil paramilitares e equipamentos bélicos russos e chineses. Essa enorme disparidade militar provavelmente influenciou o cálculo estratégico de Nicolás Maduro e seu projeto de expansão. O episódio reforça a constatação de que, por mais estáveis que sejam as relações interestatais em tempos de paz, o poderio militar- estratégico de um país serve como um garante de sua soberania, atuando como mecanismo de contenção e dissuasão contra possíveis ações hostis por parte de nações estrangeiras. A vulnerabilidade bélica de um Estado, em contraste, pode incentivar a cobiça dos vizinhos. Trata-se de um desdobramento prático do brocardo “si vis pacem para bellum”.

O presidente Nicolás Maduro terá reunião bilateral com o presidente russo Vladimir Putin, em Moscou, com data ainda a ser definida. No encontro, o governo da Venezuela deve solicitar à Rússia apoio político e militar a sua reivindicação territorial. As relações Venezuela-Rússia fortaleceram-se nas últimas décadas, na esteira da oposição do governo dos EUA ao regime do ex-presidente Hugo Chávez e das sanções do governo americano ao país sul-americano. Os russos passaram a fornecer equipamentos militares modernos e a realizar exercícios militares conjuntos com a Venezuela, o que lhes permitiu estabelecer uma cabeça de ponte na América do Sul. A Rússia tem ocupado o vácuo de poder deixado pelos EUA no país e tem interesse em fortalecer alianças globais no contexto de recrudescimento da rivalidade com os norte-americanos causado pelas posições antagônicas na guerra na Ucrânia iniciada em 2022.

A histórica controvérsia envolvendo Essequibo havia sido enviada à Corte Internacional de Justiça (CIJ), o tribunal da ONU responsável por julgar disputas entre Estados nacionais, ainda em 2018. A Guiana chegou a pedir ao tribunal uma decisão cautelar de urgência para impedir a realização do referendo venezuelano. Em resposta, a Corte da Haia ordenou, na sexta-feira anterior à votação, que a Venezuela se abstivesse “de qualquer ação que altere a situação que prevalece no território em disputa, que a Guiana administra e controla”. No entanto, a CIJ não proibiu a realização do referendo, como pleiteavam os guianenses.

Diante de uma possível invasão e anexação venezuelana, o governo de Irfaan Ali, presidente da Guiana, vem intensificando gestões diplomáticas para tentar obter proteção. Além do apoio firme dos Estados Unidos, o governo da Guiana tem recorrido aos vizinhos sul-americanos e espera, sobretudo, uma postura de liderança do Brasil. O Brasil, que é uma potência regional e tradicionalmente consegue resolver problemas fronteiriços por meio de negociação e mediação, deveria exercer um papel importante na solução do conflito, por meio de sua diplomacia. O fato de ter fronteira com os dois países em litígio reforça a necessidade de o governo brasileiro exercer sua influência e liderar o caminho para a paz.

Urge não deixar que se chegue a uma situação mais grave, pois há claro interesse do governo venezuelano, imerso em difícil situação econômica, em realimentar a situação de tensão para usar a Guiana como inimigo externo e mobilizar a população, como já tem feito. A reunião entre os presidentes da Guiana e Venezuela prevista para breve seria uma boa oportunidade para o Brasil exercer a função moderadora que lhe cabe.

O Mercosul, por sua vez, demonstrou preocupação com a situação e emitiu comunicado conjunto no qual seus integrantes, além de Chile, Equador, Colômbia e Peru, manifestaram “profunda preocupação” com os desdobramentos da contenda entre

Venezuela e Guiana. O Brasil, que ocupa atualmente a presidência pro tempore do bloco, articulou politicamente a declaração dos países sul-americanos.

O conflito envolvendo Venezuela e a Guiana gera preocupação no Brasil, uma vez que a área em disputa se situa ao lado de Roraima, o que coloca em risco a integridade territorial brasileira. Como a região que liga a Venezuela a Essequibo é de densa floresta, uma possível intervenção militar da Venezuela contra a Guiana poderia ocorrer pelo norte (acesso pelo mar) ou pelo sul, atravessando o estado brasileiro de Roraima. A apreensão do governo brasileiro com uma possível transgressão fronteiriça, em violação de sua soberania, é intensificada pelo fato de que a invasão aconteceria em reserva indígena, a Raposa Serra do Sol, o que agrega complexidade política ao caso.

A tensão próxima a Roraima levou o exército brasileiro a reforçar as tropas naquele estado, com o envio de soldados e veículos blindados, elevando o número de militares no trabalho de patrulha e fiscalização na região de Pacaraima, município de Roraima mais próximo da Venezuela. Essa retaguarda militar é essencial enquanto o governo brasileiro exorta as partes em disputa a buscarem um deslinde pacífico para a questão.

Na cidade de Lisboa, capital de Portugal, há uma estátua que representa a diplomacia. Trata-se de uma figura feminina, com semblante sereno, que segura uma espada na mão esquerda e aponta uma pilha de livros e pergaminhos com a mão direita. O simbolismo da obra é perfeito para ilustrar o caso de Essequibo: o serviço exterior de um país deve orientar-se pelas normas do direito internacional e dos acordos pacíficos, porém não pode descuidar da garantia proveniente das armas para defender a justiça.

Alegoria à Diplomacia, de Maximiano Alves (1888-1954).

A estátua localiza-se na Sala das Sessões do Palácio de São Bento, sede do parlamento português em Lisboa, Portugal.

Fonte: https://app.parlamento.pt/visita360/pt/

“Filosofia para a Palestina”? Habermas e Ferry discordam

A filosofia, aurora do pensamento ocidental, tem sido sistematicamente encurralada nas suas louváveis pretensões de autonomia do pensamento para ser cada vez mais cooptada pela ideologia e pelas ideias nefastas que corrompem e desintegram a sociedade.

No atual estágio de desenvolvimento moral e jurídico da humanidade já deveria haver algumas balizas dentro das quais as ideias seriam discutidas com bom senso, boa fé e respeito a alguns imperativos morais inquestionáveis.

Infelizmente não é esse o caso. Enquanto alguns poucos filósofos conseguem trazer ao debate público ideias sensatas, pertinentes e corretas, a maioria se contenta com aventuras retóricas irresponsáveis nas quais o terror, o ódio e a barbárie são relativizados ou mesmo justificados em nome de ideais políticos. 

É importante, pois, trazer ao conhecimento do público brasileiro as raras vozes que têm nadado contra a maré da indolência intelectual no ambiente acadêmico filosófico. 

Se, por um lado, alguns ideólogos que se pretendem filósofos, assinaram uma carta aberta intitulada Philosophy for Palestine, na qual acusam Israel de genocídio e justificam o massacre do Hamas, por outro lado, o alemão Jürgen Habermas escreveu sua carta aberta Grundsätze der Solidarität. Eine Stellungnahme em condenação ao Hamas e em solidariedade a Israel e aos judeus.

Outro filósofo que entrou corajosamente no debate público, desde o início da guerra Israel-Hamas, é o ex-ministro de Educação da França, Luc Ferry.

Nem Habermas nem Ferry são considerados pensadores de direita. Ambos, porém, distanciam-se do fanatismo da esquerda anti-Israel que radicaliza o ambiente universitário com teses que fazem convergir decolonialismo, antissionismo, antissemitismo e wokismo em um mosaico de ódio e ressentimento contra tudo o que é ocidental, judaico e cristão.

Já comentamos aqui o artigo de Ferry intitulado “judeofobia, compreendendo a nova situação”, no qual o filósofo expõe o ódio ao “ocidente colonizador” como um sentimento catalisador capaz unir a militância de extrema esquerda apologeta do Hamas.

Em novo artigo, publicado também no jornal Le Figaro, Ferry defende que as atrocidades cometidas pelo Hamas em 7 de outubro devem ser consideradas crimes contra a humanidade.

Segundo ele, essa classificação importa ainda mais “porque alguns, cegos pelo velho antissemitismo da extrema esquerda, querem vê-lo como um movimento que ostenta o prestigiado selo da Resistência!” 

O filósofo explica que, para além dos debates que ocupam os juristas quanto à definição deste tipo de crime, “fica claro que os abusos cometidos pelo Hamas contra civis foram de fato perpetrados com uma lógica de extermínio visando toda uma comunidade.”

“Quer tenham sido assassinatos, violações ou torturas diversas, as pessoas raptadas, massacradas ou martirizadas estavam lá por quem eram ou deveriam ser, e não pelo que fizeram ou deveriam ter feito. Prova disso é o fato de até bebês, por definição inocentes, terem sido mortos como judeus, o que é suficiente para definir o crime contra a humanidade e, no final, incluí-los numa categoria mais ampla, o do genocídio”, completa o filósofo francês.

Enquanto a tal carta Philosophy for Palestine insiste na retórica hipócrita de que Israel está cometendo um genocídio em Gaza (retórica, aliás, já criticada na carta aberta de Habermas como “perda completa de parâmetros”), Ferry expõe a obviedade negligenciada pelos ideólogos de extrema esquerda: as atrocidades cometidas pelos Hamas é que “foram levadas a cabo numa lógica claramente genocida”.

Uma curiosidade sobre a carta dos ideólogos assinada por professores de filosofia na América do Norte, na América Latina e na Europa é que, entre as 207 assinaturas, constam as assinaturas de 8 brasileiros, cinco dos quais são cearenses, professores da Faculdade de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Antissemitismo institucional parece não ser mais privilégio da Universidade da Pensilvânia (Penn), de Harvard, do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e congêneres. Pelo que se vê, já há muitas sucursais do tipo pelo Brasil, uma das quais se destaca no nordeste do Brasil. 

Ps. Eu me formei em Filosofia na UECE e lecionei lá durante dois anos até sofrer pesado assédio moral e perseguição ideológica por parte dos mesmos professores que hoje assinam a referida carta. O caso resultou em processos criminais e trabalhistas ainda em curso.